Please, Please, Please, Let Me Get What I Want

Muito raramente dou licença para coisas que não escrevi, mas preciso fazer isso hoje. Porque eu não lembrava mais de como é bom ouvir alguém cantar como Morrissey.

Good times for a change
See, the luck I’ve had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time

Haven’t had a dream in a long time
See, the life I’ve had
Can make a good man bad

So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time

Bioética e a informação humanamente modificada

embriao

Escritores e roteiristas de ficção científica necessitam desde já arquivar uma de suas distopias preferenciais. É que o ser humano geneticamente modificado, o transumano, enfim parece mesmo estar em curso. A manchete, bastante habitual em revistas como Superinteressante e Mundo Estranho, ganhou as páginas da publicação científica Protein & Cell, das prestigiosas Nature e Science, e dali aos principais jornais e agências de notícias do mundo, saltitando rapidamente das mais criteriosas publicações científicas para as mais triviais publicações noticiosas e de variedades. Antes de entender o percurso de uma notícia científica deste porte, entretanto, é importante examinar seu conteúdo, efetivamente inaudito.

Os testes com embriões humanos noticiados aconteceram na Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou, República Popular da China, e foram possíveis graças a uma técnica denominada CRISPR/Cas9, na qual moléculas de RNA são programadas para recombinação no DNA de um embrião, através de um mecanismo de localização de sequenciamento obtida através da programação da enzima Cas9, responsável por substituir do DNA original a sequência desejada por uma outra informada via RNA. O líder da equipe de cientistas, Junjiu Huang, informou que o experimento pretendia comprovar que a técnica poderia substituir ou destruir o gene HBB, relacionado à talassemia beta, uma disfunção sanguínea grave causadora de doenças fatais, assim como possibilitar outras operações no interior dos genes.

Mesmo tendo fracassado em seu escopo, tendo-se em vista que o experimento obteve sucesso em apenas 4,93% dos casos, Huang afirmou que pretende continuar seus estudos e insistir no aprimoramento da técnica, apesar de haver despertado temores e debates contundentes entre biotecnólogos, geneticistas e pesquisadores do mundo inteiro, principalmente através de artigos publicados em duas das mais lidas revistas de divulgação científica, a Nature e a Science. Os debates, como é de se supor, residem nos temores a respeito das consequências éticas e biológicas da manipulação do genoma humano, tema sensível e controverso que costuma suscitar reações enérgicas tanto na comunidade científica quanto na sociedade em geral.

Pesquisas biomédicas que buscam promover alterações genéticas não são novidade e ocorrem diariamente em muitas universidades e centros de pesquisa mundo afora. Mesmo que em algumas situações pesquisas genéticas tenham sido objeto de regulação política e penal (em 2002, pesquisas de alteração genética com células germinativas teriam sido proibidas nos EUA, por provocação da comunidade científica), via de regra a comunidade científica se autorregula, principalmente através da confrontação de argumentos, técnicas e, em casos mais esporádicos, por acertos no campo da bioética. Além disso, associações médicas de todo o mundo reúnem-se periodicamente para estabelecer parâmetros aceitáveis da pesquisa com seres humanos e atualizar os princípios da Declaração de Helsinque, formalizada pela primeira vez em 1964 e mais sete vezes desde lá, pela Associação Médica Mundial.

Ainda assim, muitas vezes há pesquisas que vêm a público confrontando a prática científica corrente. Este é justamente um dos argumentos que vêm sendo utilizados no sentido de questionar a conduta ética de Huang neste caso preciso. Para Regina Parizi, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), de acordo com reportagem publicada pelo O Globo, Huang e sua equipe falharam principalmente no que diz respeito à transparência da pesquisa e ao divulgar dados obtidos já após a realização dos experimentos, sem o debate prévio com demais pesquisadores e interessados.

Além das objeções metodológicas e de conduta, muitos outros cientistas emitiram condenações públicas, seja em entrevistas ou por outros meios. Divididos em posições antagônicas, enquanto há aqueles que veem no avanço da técnica um passo desejável para aplicações futuras, tendo-se em vista que as conclusões do estudo apontam apenas para perspectivas (embora as manchetes de muitos meios de comunicação deem a entender aplicações imediatas), outra parte recusa tanto a ética empregada pela universidade chinesa quanto o propósito das pesquisas.

Na Nature, no dia 24/04, uma extensa reportagem procurou localizar os pontos antagônicos em torno da pesquisa, através de entrevistas realizadas com mais de uma dezena de pesquisadores, entre favoráveis ao desenvolvimento da técnica e suas possibilidades investigativas e entre outros tantos que condenaram o estudo chinês desde o ponto de vista da ética e até mesmo procedimental. Enquanto estes últimos propunham coletivamente uma espécie de moratória para pesquisas com edição de células germinativas, principalmente em razão de uma imaturidade científica, os demais elaboraram argumentos positivos, como ganhos para a saúde em curto prazo e em economia na crescente demanda mundial pelos serviços públicos e privados de saúde.

Talvez, neste ponto preciso, localize-se a discordância mais importante, tendo em vista uma divisão já presente da comunidade científica entre pesquisadores que fundamentam-se na segurança de métodos e abordagens e outra mais orientada a investigar soluções potenciais principalmente no campo da biomedicina. Muito embora cause certo escândalo e furor, a tendência de que a indústria de saúde e a Big Pharma financiem estudos comprobatórios que se desenvolvem em velocidade muitas vezes espantosa encontra respaldo tanto numa expectativa social cada vez mais dependente de soluções clínicas e medicamentosas quanto amparo em cientistas e bioeticistas que veem com bons olhos qualquer aceno realizado no sentido de evitar e controlar manifestações naturais de doença, deficiência e até mesmo condições inerentes à velhice, sob o argumento de desonerar os sistemas de saúde e até mesmo o legal ante o avanço mundial das ações de responsabilidade médica e de wrongful birth e wrongful life, por exemplo.

Coincidentemente, a revelação da pesquisa vem a público apenas uma semana após o controverso bioeticista australiano Peter Singer voltar à berlinda para declarar, em entrevista concedida ao Aaron Klein Investigative Radio, da New York’s AM 970, que considera “bastante razoável” que o governo norte-americano e planos de saúde neguem atendimento a crianças nascidas com graves deficiências para atender outras demandas, e que tais recursos sejam destinados a uma finalidade mais útil, segundo sua opinião. Singer foi ainda além ao defender que o governo deveria reconhecer a necessidade de “acabar intencionalmente com a vida de crianças com deficiências graves.” Não é a primeira vez que Singer expõe suas opiniões sobre sua combinação conceitual em torno da bioética e dos pressupostos de “vida útil” e embora encontre-se na situação de defender com ardor os direitos dos animais e doutrinas como o “veganismo”, em relação aos seres humanos ele costuma usar de bastante relativização.

Além da Nature, em reportagem no NY Times, muitos cientistas desenrolaram opiniões contundentes acerca dos riscos de pesquisas de manipulação genética. É o caso do biólogo alemão Rudolf Jaenisch, do MIT – Massachusetts Institute of Technology, que declarou estar entre suas preocupações éticas ser “inaceitável manipular embriões normais”. Não era o caso, pois Huang estava lidando com embriões com outras alterações cromossômicas, mesmo que seja difícil compreender porque, nestes casos, isto poderia ser eticamente mais aceitável. Ao traduzir, editar e republicar a reportagem do NY Times, a Folha de São Paulo captou preocupações não expressas na reportagem original que, mesmo que possam ser verossímeis, são interpretativas. Trata-se de uma suposta preocupação da comunidade científica internacional em que experimentos assim aconteçam em solo chinês, o qual seria um local “inseguro” para a realização de pesquisas desse porte, onde poderiam ser levadas a efeito dando “originando bebês geneticamente modificados”, o que parece mais uma preocupação com a China propriamente dita do que com o estudo em caso.

Mesmo que o risco ou a possibilidade, isso vai de acordo com o gosto do intérprete, do desenvolvimento final de um estudo desse porte vir a ser concluído em um curto espaço de tempo sejam remotos, a potência da informação é muitas vezes desproporcional. Seja analisando as manchetes ou o conteúdo das reportagens, é relativamente simples verificar (basta comparar-se) o empobrecimento de conteúdos científicos e até mesmo sua “edição”, o que compete em alterações comparáveis às pretendidas pelos pesquisadores chineses no caso dos embriões.

Tomando-se como ponto de partida, por exemplo, o artigo publicado no NY Times e seguindo seu caminho até a Folha de São Paulo e, finalmente, em veículos menores, mas dirigidos à comunidade médica, nota-se uma deturpação que vai desde o titulo até o conteúdo final, embora a fonte citada seja a mesma. Enquanto na Folha a matéria é intitulada “Possibilidade de bebês geneticamente modificados preocupa cientistas”, no último publicador ela se transforma em “Bebê geneticamente modificado preocupa”. Ainda mais grave que isso, o conteúdo vai sendo editado e podado progressivamente, provavelmente no sentido de facilitar a leitura e compreensão, mas acabando por gerar desinformação. Basta verificar o significado da palavra “possibilidade” e de sua supressão, de onde deduz-se uma realidade presente que, a bem da verdade, ainda inexiste.

Não fosse suficientemente complexa por si mesma, principalmente ao público leigo, uma informação científica dessa natureza implica em muitos questionamentos que, embora possa pouco repercutir localmente, sempre suscita dúvidas e preocupações éticas de um modo geral. Comparando-se com outras publicadas em meios de comunicação nacionais, a reportagem publicada em O Globo foi bem mais feliz ao confrontar dados da Nature com opiniões de especialistas locais e ao gerar informação acessível, seja através de infográficos de fácil compreensão quanto da emissão de uma mensagem mais cautelosa, tendo-se em vista as presumíveis dificuldades de compreensão do público leigo. Ainda assim, é notável a escassa atenção dos meios de comunicação a respeito da pesquisa e, mais que isso, em buscar-se o enriquecimento de informações. A impressão que resta é de que, como se trata de um público não acostumado à linguagem científica, qualquer informação será o suficiente, ainda que seja trabalhada com base em adaptações e traduções inconsistentes. Trocando em miúdos, significa oferecer pouco a um público que parece não se ter em alta conta. Como resultado de informações veiculadas parcial ou erroneamente, tem-se a presença de diversos vácuos de compreensão, isso sem considerar a indução a conclusões equivocadas por base em certa espetacularização do conhecimento científico.

Deixando-se um pouco de lado a análise do percurso da notícia e voltando ao seu conteúdo, é possível perceber que as preocupações no meio científico, excetuando-se os entusiastas das técnicas de intervenção precoce e bioeticistas interessados principalmente na racionalização das condições da vida humana, centram-se nas possíveis consequências indesejadas e na imprevisibilidade dos prolongamentos da experiência, mesmo que já se reconheça que pesquisas semelhantes venham sendo conduzidas fora do território chinês, inclusive nos EUA, de onde partiu a principal interpelação ética por parte de biólogos de todo o país que sugeriram a “moratória” investigativa em embriões humanos.

Sejam quais forem as implicações futuras, dentro e fora da comunidade científica e acadêmica, de pesquisas como a liderada por Junjiu Huang, é pouco provável que elas venham a cessar ou mesmo que um pedido de moratória como este seja atendido. Por mais que os cientistas procurem deter consigo a responsabilidade ética dos experimentos e responder à comunidade global a respeito do andamento de pesquisas envolvendo embriões humanos, muitas vezes as pesquisas ocorrem a despeito de discussões bioéticas multilaterais, ocorrendo a reboque das necessidades econômicas dos estados contemporâneos e seus respectivos setores de saúde, além de motivações empresariais de uma indústria constantemente motivada a minorar o impacto econômico de condições sanitárias negativas, mesmo quando elas se encontram resumidas na própria vida humana ou vão de encontro a princípios elementares dos direitos humanos, como os que visam proteger a dignidade de todos, inclusive pessoas doentes, pessoas com deficiências graves e idosos.

Ainda que sob o domínio de alguma hipótese bioética ou filosófica de qualquer espécie possa vir-se a considerar a vida de pessoas com comprometimentos de saúde como empecilho à vida social e econômica, é possível pensar, finalmente, em que princípios éticos pesquisas assim podem ofender. Quando a justificação de onerosidade da vida menos disfuncional sobrepuser-se à ética e aos direitos fundamentais e o mercado de saúde for imperioso em relação aos critérios éticos da pesquisa científica, sob pretextos e artifícios de convencimento aparentemente sempre a ponto de colapso, e isto é algo que sabidamente acontece na ciência de tempos em tempos, é que tem sido ainda mais relevante à opinião pública encontrar-se bem informada. Fundamental para isso, entretanto, é que as fontes de informação nem tanto colaborem para o esclarecimento da opinião pública quanto atrapalhem ou tentem conduzir menos o leitor final, a quem finalmente é de interesse o conhecimento dos fatos e acontecimentos.

Meus discos de MPB “roots”: cor e relevo na música brasileira

Que o Brasil é, além de mera jurisdição formal, um continente espantoso, quase todo mundo sabe ou pelo menos já intuiu alguma vez na vida. Para as terras e lugares destas bandas de cá, talvez por uma casual imposição geográfica, parece nunca ter havido alternativa a de ser uma nação marcada e determinada pelo multiculturalismo. Como se por aqui o conceito da antropologia fosse uma ocorrência natural e não fruto de uma construção ou proposição teórica. Como se existisse por si próprio e isso pudesse ser constatado de muitas e espontâneas maneiras.

Em tempos em que a cultura popular é devorada (às vezes para ser apenas cuspida fora ou falsificada) sem cerimônia pela indústria cultural e as formas de viver, sem outra sorte ou possibilidade, são cada vez mais uniformizadas, talvez um cadinho muito especial de particularidades ainda se forme imperceptivelmente em manifestações e expressões não totalmente embotadas – ou até mesmo reinventadas – pelo espírito criador de compositores e intérpretes da música brasileira.

Talvez, em meio a tudo o que há para conhecer e consumir no que se refere a música popular (não que conhecer seja, diga-se de passagem, uma espécie qualquer de imperativo), ainda se produzam registros fonográficos que venham a ser reconhecidos em breve como marcos culturais, ou seja, registros capazes de dar e trocar significados com os modos de viver de uma época ou de um lugar particular. Seja como for, é preciso admitir antes de qualquer outra coisa que, no que diz respeito a música popular brasileira contemporânea, não se dispõe de distanciamento histórico o suficiente para apontar tendências futuras, que dirá para atestarem-se obras primas presentes. Pois eu tive a felicidade de, na minha vida, desde muito cedo ter conhecido ou reconhecido, penso que sim, obras assim.

Se iniciasse a falar de todos os gêneros e estilos de onde reconheço “clássicos” e “obras primas” talvez desse causa a uma série espantosa ou tediosa para a maioria das pessoas, afinal, cada um dos amantes da música ostenta com justiça suas predileções. O que importa dizer é que listas das “maiores” e “melhores”, pelo menos na música, estão mais de acordo com seleções especiais do que com labores cuidadosos, estes sim típicos das obras primas. Então, para este caso, quero tratar especificamente de alguns matizes talvez não tão nítidos da música popular brasileira. A saber, quero tratar da música popular marcada pelo matiz local ou interiorano, não necessariamente a identificada com movimentos regionais, habitualmente recalcados e limitados em si mesmos e em suas bordas geográficas; por outro lado, quero tratar daquela música que, realizada a partir de elementos locais, dialoga com o universal na medida em que constitui em si mesma um depoimento que se estabelece para além do autêntico, mas como se de forma tácita. Daquilo que é por sua própria conta característico do que comentava bem lá no começo deste texto: dos modos de viver de um tempo e de um lugar.

Quero falar de algumas experiências musicais que, no meu juízo, transpuseram espontaneamente os limites da autenticidade para consagrar-se na historiografia da música brasileira como registros ímpares em poder expressivo e comunicativo, mesmo abordando temáticas simples e prosaicas, como costumam ser os motivos interioranos e rurais. Para ser honesto, desejo mesmo é chegar a um registro muito específico, relativamente desconhecido além do Rio Grande do Sul, de onde escrevo. No entanto, como quero “chegar” a ele e não “pular a ele diretamente”, preciso construir uma linha de raciocínio, um recorte e aí tecer minhas justificativas. É esta a minha intenção e não penso que haja outro modo de fazer isso sem que estabeleça uma “conversa”. Uma prosa sem pressa. Por isso me demoro e me demorarei em algumas explicações, para que minha ideia afinal não seja ou pareça completamente descabida ou simplesmente um elogio de minhas predileções confessas, porque isso então seria o meu mais rotundo fracasso, além de fatalmente desqualificar meus argumentos.

Não faz muito tempo que os organizadores da Academia Latina de Artes e Ciências Discográficas (ALACD) dos Estados Unidos instituíram o “Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras”. Desde o ano de 2000, a premiação vem sendo conferida a álbuns e registros com temática supostamente regional, mas, assim como o Grammy de um modo geral parece ser, trata-se de uma premiação mais inclinada a congratular sucessos de vendas do que qualquer outro critério. Assim, por ele foram agraciados trabalhos de cantores como Daniela Mercury, Ivete Sangalo, dentre outros.

Entre os indicados, também é possível notar a presença de registros, cabe dizer, mais “enraizados”. É o caso do mineiro Tavinho Moura, do Quinteto Violado, do cantor e acordeonista Dominguinhos e até mesmo notas bastante dissonantes, como as do percussionista Naná Vasconcelos ou do também baiano Elomar Figueira de Mello. Há outros nomes que poderia destacar também, lógico, mas é justamente no nome de Elomar “onde” gostaria de fazer meu primeiro pouso, nessa viagem mais ou menos expressa a que me propus.

Na Quadrada das Águas Perdidas

A primeira vez em que tive nas mãos o álbum Na Quadrada das Águas Perdidas, de Elomar, senti que tinha em mãos um documento tão estrangeiro e peculiar quanto um papiro egípcio. Ali havia, além das letras das músicas e outras informações, um ensaio introdutório e um glossário do sertaneza, dialeto muito particular através do qual Elomar compõe suas letras. Eu era bastante criança e o disco chegou lá em casa por meio dos meus irmãos mais velhos, na época estudantes universitários. O disco é de 1979, portanto isso deve ter ocorrido bem nesse mesmo período.

Mais do que um espanto diante do inesperado, fiquei aturdido por reconhecer imediatamente ali uma variante do meu próprio idioma em meu próprio país, a serviço de narrar e descrever sobretudo a vida rural, a mesma que eu conhecia vividamente, mas em outro oposto do “continente”: no extremo sul brasileiro, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, lugar onde se pratica largamente o portunhol, que nada mais é que uma fusão espontânea do português com o espanhol e igualmente carregado de expressões idiomáticas. Ambas as linguagens aparentemente sem contato, mas estranhamente amarradas pela conformação que os modos de dizer empregam aos vocabulários, criados ao natural na primária relação do homem e do meio ambiente quando ele é, além de cenografia, sua fonte de subsistência.

Elomar é um compositor sofisticado, estudou violão clássico e é um profundo conhecedor do trovadorismo medieval, estilo que fundiu à prosódia sertaneja, dando origem a uma trova brasileira por essência e repleta de inselenças, chulas, parceladas, antífonas, liturgias e também peças operísticas. Sem nunca descolar-se por vontade própria dos menestréis a que ele mesmo reconhece como fonte e origem do seu cantar, criou uma síntese muito particular da dicção sertaneja, contando e narrando seus hábitos e costumes em profundidade, como se os pincelasse. Muito provavelmente sem que pretendesse, Elomar sacralizou o modo de vida dos criadores de bode, dos boiadeiros, dos habitantes da caatinga e dos retirantes do sertão, mas isso não de modo artificial ou visivelmente arquitetado, mesmo tratando-se de um arquiteto de formação. Por outro lado, ele o faz de um modo impregnado de proximidade e intimidade, como quem falasse junto ao pó do sertão num dedo de prosa dos mais descansados, onde quem pode fala e quem consegue ser sábio apenas põe-se a escutar.

Entre todos os discos de Elomar Figueira de Melo, este Na Quadrada das Águas Perdidas que tenho em mãos neste instante me mostra como a arte mais elaborada pode muito bem advir da origem mais modesta, talvez porque fale diretamente da experiência ou talvez porque o faça com qualidade excepcional, já que não se trata de uma voz única, mas de alguém capaz de aglutinar e dar às formas de viver de muitas e muitas pessoas, sem vestígio de um projeto ou premeditação, coloração e relevo. Não sei se outros pensariam que Elomar pintou exageradamente seu cancioneiro comparando-se a outros compositores locais; eu penso que ele o fez com exatidão, expressando-se tanto como músico quanto como cantor. E, diga-se de passagem, sem jamais cansar o ouvido com motivos repetitivos o que, pelo menos para mim, é prova cabal do seu talento musical.

Minas e Geraes

Deste ponto em diante não seria absurdo nem abusado subir o sertão baiano e ir acima, ao norte, onde compositores locais, do Piauí ao Acre, certamente cantaram, como recomenda a célebre frase do russo Liév Tolstoi, o seu povo de uma forma que é comum aos bardos de aldeia, quando reconhecem os elementos da arte na vida e as transfixam, por sua vez, em seu próprio trabalho e criação. Mas, ao invés de fazer isso, vou descer um pouco mais do meridiano do sertão baiano, onde ele se mistura ao sertão mineiro, e topar de cara com outros marcos da música brasileira, este decorrentes de um famoso encontro de algumas pessoas em uma esquina bem comum de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A esquina de que falo é a que une as ruas Divinópolis e Paraisópolis, onde se gestou o Clube da Esquina e tudo (tudo é uma boa palavra para isso) o que aconteceu a partir dali.

Falar do Clube da Esquina e de Milton Nascimento, Lô Borges e de todos os demais músicos, letristas e compositores que por ali passaram é quase redundar no que já é muito bem conhecido e registrado tanto pela crítica universal quanto pelo gosto popular, que consagrou aquele encontro como um dos mais fundamentais da moderna música popular brasileira. Mesmo que o próprio álbum Clube da Esquina, de 1973, seja por si só uma obra mais que perfeita e da mais alta relevância para a música brasileira, para os efeitos da musicalidade local, pelo menos da que eu gostaria de abordar a partir do meu critério de “espanto pessoal”, são dois discos posteriores a este que se completam mutuamente e que mais me impressionam para este efeito. São eles os álbuns Minas e Geraes.

Mesmo que ambos guardem a excelência instrumental característica do Som Imaginário (grupo de instrumentistas que acompanharam Milton e outros cantores na década de 70) e do Clube da Esquina, a temática das composições nestes discos olha ainda mais para dentro de Minas, para o seu interior geográfico e cultural, encontrando-se, como seria fatal acontecer, com toda a música interiorana brasileira, influenciando toda uma poética que reinterpreta o modo de viver do interior sem mais fixar-se no modelo “caipira”, embora sem nem por um instante rechaçá-lo ou deixar de reverenciá-lo ou ser por ele influenciado.

Minas e Geraes são obras primas cujos registros são, por sua vez, obras primas individualizadas. Gravados com o apuro técnico e a elaboração sonora jazzística para a qual Milton desde antes do Clube da Esquina já se aproximara, nesses discos a luz “local” incide mais verticalmente, como um traço de identidade sonora e cultural. Isso também acontece muito em um álbum posterior, Sentinela, mas ali, naqueles dois momentos precisos, uma espécie de desenlace se deu ao natural, no encontro da poética dos letristas que escreviam para Milton e na sua prolífica capacidade de compositor. Os nomes de duas faixas daqueles discos, apenas, podem dar uma amostra do que isso significa. Vou falar em Ponta de Areia, gravada em Minas e vou falar apenas o nome de Fazenda, faixa de abertura de Geraes, que se funde na mixagem com a última faixa de Minas, Simples, conferindo uma unidade indissociável aos dois registros. Dizer mais sobre isso, como é sabido, seria como falar ao vento, porque são composições e obras que se autoexplicam, se é mesmo que elas precisam explicar alguma coisa.

Rumo ao extremo sul do Brasil

Obviamente que o cenário musical brasileiro, neste período, gerou outros tantos clássicos de tantos outros gêneros. No samba, no rock primordial dos anos 60 e 70, na bossa nova, no tropicalismo e em muitos outros estilos muito particulares que conformaram uma grande conjunção denominada e amplamente reconhecida por “música popular brasileira”. Na história da música brasileira, este é um conceito que só foi trepidar depois da morte de Elis Regina, a grande síntese interpretativa da MPB, o que representou um hiato entre concepções musicais ainda arraigadas aos modelos, estilos e temáticas predominantes nos anos 70 e o que se produziu após a sua morte, em 1982. Durante três décadas, Elis foi quem melhor amalgamou tendências, dicções e poéticas urbanas e rurais, mais ou menos populares, mais ou menos enraizadas, em uma época marcada sobretudo pela concepção requintada do disco enquanto produto cultural.

Foi em meados da década de 90, mais do que na década anterior, a partir da ingestão massiva e da predominância do pop, que os gêneros “de raiz” perderam ou abriram ou tiveram de abrir mão de suas particularidades e peculiaridades estéticas locais para dar lugar a um estilo criativo bem mais uniforme, influenciado pelos muitos estilos do pop e pela ascensão do rock nacional dos anos 80. Além da temática local provavelmente soar, naquele momento histórico, estranha e desinteressante, tendo-se em vista a dinâmica urbana e o cosmopolitismo cultural predominar nos meios de comunicação, pouco atraía a atenção popular e de também a atenção de toda uma nova geração de compositores sem nenhuma relação ou bem pouco interesse com a “cor local”. Isto tudo ocorrendo muito embora os compositores consagrados da MPB, aqueles que surgiram no esteio das décadas de 60 e 70, continuassem a produzir nas bases harmônicas e em sua tradição cultural, mas em arranjos já não tão acústicos e bem mais “sintetizados”. A música dos anos 80 e 90, como se sabe, tem o som dos sintetizadores eletrônicos como sua marca indelével. Por isso e porque não devo alongar-me em outras muitas considerações, deixo arbitrariamente de fora, aqui neste texto, compositores que a seu modo também olharam eventualmente para a música do interior, mas que não se serviram dela para expressar-se em profundidade, optando por outros caminhos, o que não está em julgamento aqui, nem por hipótese.

Penso que, em outros juízos, outros nomes aparecessem no lugar dos que estou citando e eu entendo isso como algo absolutamente natural porque, como procurei advertir, minha intenção é traçar um caminho bastante arbitrário formado exclusivamente por registros fonográficos que, pelo menos para a minha percepção, são espantosos por resumir um conjunto de qualidades muito especiais, tendo em comum o acento do que, talvez o diga de maneira equivocada, os caracteriza, para mim, como exemplos bem resolvidos do que poderia chamar-se por “música brasileira de raiz”, como o fez recentemente o Grammy Latino. Daí que parto direta e finalmente ao meu destino final, o Rio Grande do Sul, justamente em um tempo em que ali repercutia um movimento de reinvenção da música de extração rural, o assim chamado “nativismo”.

Baseado praticamente todo ele, em termos musicais, do florescimento da música folclórica dos entornos do Rio da Prata, dos cancioneiros argentino e uruguaio, a música nativista como que nasceu e viveu predominantemente em uma espécie de monólogo acerca da vida do campo e de seu personagem mitológico por excelência: o gaúcho. A década de 70, de modo bastante específico, foi abundante em festivais de música e na fixação de um mercado fonográfico próprio e bastante circunscrito aos limites geográficos do estado, tendo algumas poucas vezes extrapolado o restrito reconhecimento local. Quando isso aconteceu com a música do sul, deu-se principalmente através do grupo “Os Almôndegas”, cuja gravação integrou a trilha sonora da novela Saramandaia (1976), da Rede Globo de Televisão, junto a toda uma nova safra de compositores da MPB que, cada qual a seu modo, assinalava também o tom interiorano, muito bem apropriado para a ambientação da pequena e fantástica cidadela criada por Dias Gomes.

Mais ou menos na mesma época, as gravações de um cantor acompanhado de seu violão, o missioneiro Noel Guarany, que fora peão, tropeiro e cantava ao modo de payada (espécie de repente da música platina, muito presente na música popular do Rio Grande do Sul), ganhou a atenção da crítica brasileira, que saudou e reconheceu em seu trabalho uma contribuição local ao cenário da música regional que voltava à cena em pleno período militar. Noel foi um rompedor de limites por excelência. Não afeito ao tradicionalismo, buscou aproximar-se à música popular praticada na Argentina e no Uruguai, principalmente nos estilos da milonga, do chamamé e da payada. Em 1976, gravou de modo independente o clássico álbum Payador, Pampa, Guitarra junto ao poeta e Jayme Caetano Braun, além de outras colaborações de artistas argentinos e uruguaios.

Depois dele, as poucas aparições acima do Mampituba (rio que limita geograficamente os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul) de outros compositores não lograram maior sorte que um ou outro quadro pitoresco e caricatural, como a figura debochada do “Gaúcho da Fronteira”, por exemplo. Com o declínio do mercado fonográfico, cada vez mais autocentrado, a produção local de cunho folclórico, regional ou nativista como que ficou concentrada em torno dos festivais que puderam manter-se e de um público cativo que, todavia, pouco se expandiu. Caracterizada pela rusticidade e pela centralidade da temática campeira, a música produzida no Rio Grande do Sul evidentemente sofreu os efeitos da passagem do tempo, descaracterizando-se e assimilando novos valores mercadológicos, embora sempre num processo mais ou menos autossuficiente, salvo exceções que buscaram, por meios e mérito próprios, dar significado a uma expressividade menos talhada para o mercado e mais voltada a processos mais introspectivos, bastante característicos da música rural do pampa, seja ele o brasileiro ou o platino. Nesse ínterim, o estilo da milonga, principalmente, voltou a recuperar em alguns compositores sua intensidade e potencial poético-expressivo.

Muitos compositores e intérpretes, no Rio Grande do Sul, desvincularam-se ou nunca chegaram a vincular-se às temáticas rurais e interioranas e construíram carreiras baseadas em estilos populares urbanos sem maiores resquícios da identidade regional. É o caso, por exemplo, dos cantores e compositores Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro, Totonho Villeroy, Raul Ellwanger, Hermes Aquino, Zé Caradípia, Gelson Oliveira e tantos outros. Embora muitos dos nomes citados tenham eventualmente invocado referências locais para suas composições, e muitos o fizeram com felicidade, descolam-se destes principalmente os nomes de Vitor Ramil e Bebeto Alves, ambos com carreiras não marcadas essencialmente pela temática rural ou gauchesca, mas nitidamente interessados nesta poética e nesta sonoridade.

De Vitor, especialmente os discos Ramilonga e Delibáb são todos dedicados à temática rural e campeira. E ele o faz de modo distendido e reflexivo, propondo cenários mais longínquos em uma poética que vai beber nas milongas de Para las Seis Cuerdas do argentino Jorge Luis Borges para realizar composições de alto teor evocativo. São canções fortemente estetizadas, como se talhadas em relevo através de uma narrativa atemporal que parece transcorrer em um tempo mitológico ao passo em que, por outro lado, dialoga com o aporte da poesia de extração popular, através dos versos do poeta João da Cunha Vargas, seu outro vórtice de inspiração no disco. Em meio a isso tudo, Vitor gravou também composições próprias baseadas em motivos e numa concepção poética muito particular e intelectualizada, que ele registrou e denominou como A Estética do Frio.

Se Vitor tem para com a música que olha para o mundo rural do Rio Grande do Sul um distanciamento e uma elaboração que busca uma interpretação diferenciada ou, pelo menos, um maior acento histórico, de outro lado, o uruguaianense Bebeto Alves vem traçando outro caminho. Tendo ele mesmo gravado mais de duas dezenas de discos, entre diversos estilos do rock e do pop, sua aproximação com as temáticas rurais se dá por outro viés e nuances, como a exploração da sonoridade ibérica e um discurso narrativo bem mais próximo ao estilo declarativo das payadas. No entanto, é prudente ressaltar que minha intenção aqui não é nem por um instante traçar um comparativo entre os compositores.

Um extenso e criterioso trabalho de pesquisa realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de autoria de Marcos Sosa e orientado pelo Prof. Luis Augusto Fischer, logrou fazê-lo com competência extremada. Em virtude disso, qualquer busca que tente operar nesse sentido fatalmente esbarrará em repetições e redundâncias dos seus achados. É muito preferível, neste caso, que a fonte original seja consultada. Ainda assim, dos álbuns já gravados por Vitor o que eu destacaria, no caso, não seria nem um de seus discos “milongueiros”. Para o meu gosto, o disco Tangos ainda hoje é o momento máximo da criação de Vitor Ramil e, como trata de temáticas urbanas, não caberá que o situe ou compare-o com os demais álbuns citados aqui, mesmo porque minha intenção não é cotejá-los, mas apenas capturar um sentido que entendo subjacente a todos os registros, ou seja, a possibilidade de, partindo-se da temática rural e local, vivificar formas de vida pouco visíveis, mas localizadas no tempo presente. Dito isto, posso chegar finalmente ao último ponto de parada dessa já nem tão expressa travessia. A saber, o encontro e o registro do encontro da interpretação de Bebeto Alves com a poesia de Mauro Moraes.

Mandando Lenha

Os álbuns Milongueando uns Troços, Mandando Lenha e Milongamento não são as primeiras incursões de Bebeto na música com temática rural. Desde o início de sua carreira, a presença das milongas tem sido uma constante sem que, contudo, tenha adotado para elas um estilo único de interpretação ou estabelecido um motivo preferencial. Variando andamentos e tonalidades, as milongas cantadas por Bebeto se prestam a muitas necessidades de sua estética e de sua criação, variando desde o modelo mais clássico do guitarrero (acompanhamento ao violão solo), até arranjos mais performáticos, com uso de recursos da música eletrônica inclusive. Os registros da parceria com o letrista e também intérprete Mauro Moraes, neste caso, são igualmente diversos. O primeiro dos três discos gravados nesta parceria, o qual divide com o cantor tradicionalista José Claudio Machado as interpretações das músicas de Mauro, traz arranjos que em nada lembram o estilo mais ortodoxo da execução da milonga. Utilizando guitarras elétricas e tonalidades típicas do blues e do rock, Bebeto imprime desde ali um tom muito particular na interpretação das letras de Mauro.

Por outro lado, é interessante notar que nas gravações subsequentes é adotado o estilo mais tradicional de execução, com o acompanhamento básico de violão mais contrabaixo acústico. Tanto Mandando Lenha quanto Milongamento têm essa característica, embora neste último os arranjos sejam mais rebuscados, talvez pela contribuição do violonista Marcello Caminha, que se vale da sobreposição dos canais de cordas em muitas das faixas do disco. Em Milongamento, a poética das letras e a interpretação de Bebeto coincidem com o realizado anteriormente, mas ao disco falta a unidade e a ambientação platina que caracteriza Mandando Lenha, na qual o violonista argentino Lucio Yanel responde pelo violão e também pelos arranjos. É exatamente esta ambientação obtida em Mandando Lenha que o faz, para o meu gosto particular, um registro excepcional.

Assim como outros encontros felizes da música brasileira, nos quais a sensibilidade poética de um ou mais autores vai se encontrar com o potencial interpretativo de um intérprete que, no caso, explora com liberdade incomum as sonoridades e melodias que músicos excelentes imprimem nas construções harmônicas, Mandando Lenha representa um ponto fora da curva numa trajetória mais ou menos linear que vinha sendo traçada pela música regional através de seus muitos compositores e intérpretes. Além disso, também pode representar um ponto fora da curva na própria relação de Bebeto com a temática rural, a qual ele vai interpretar com intensa fluidez e naturalidade, como se as letras de Mauro tivessem aberto comportas de uma vocação interpretativa represada ou outrora canalizada para outras direções. E, por fim, um último um ponto fora da curva que se verifica na própria expressividade que o letrista e compositor Mauro Moraes vinha obtendo em relação ao seu trabalho, interpretado até então no estilo bastante característico dos cantores regionalistas do Rio Grande do Sul. Então, mais que uma conjunção de felicidades, Mandando Lenha, por outro lado, resulta na expansão de muitas possibilidades, ao mesmo tempo em que é interiorizado tematicamente de forma radical.

Neste ponto, penso que devo esclarecer de modo definitivo, se é que já não o tenha feito por outras palavras, de que não estou me valendo aqui nem por um instante de qualquer arsenal teórico para propor minha análise, puramente informal. Obviamente, uma análise estruturalista, como as que se baseiam nas ideias e modelos propostos, por exemplo, pelo músico e pesquisador Luiz Tatit, poderia enriquecer e esclarecer muitos pontos relevantes acerca da fixação metodológica e das características do cancioneiro popular de qualquer um dos compositores a que me referi. Entretanto, porque reitero que este texto não procura rigor algum além da apreciação livre da música e de seus efeitos em quem a aprecia, fixo-me mais no espanto estético que ela causa e em suas relações culturais do que em desvendar as razões formais e metalinguísticas para isso. Quero dizer que estou mais fixado nos elementos culturais e estéticos em si mesmo do que nos estruturais. E por que faço isso? Pela simples razão de que não posso acreditar que, ao compor e interpretar a música, os artistas estejam meramente desfilando o resultado de suas concepções e competências técnicas. E porque pressinto em sua criatividade a presença bem maior de uma relação natural com os elementos culturais propriamente ditos e de sua musicalidade, prefiro tratá-las desta mesma maneira, “desartificiosamente”, com o perdão do neologismo.

Dentre as inúmeras razões de espanto que posso apontar sobre Mandando Lenha, além da condução instrumental primorosa, vigorosa e ao mesmo tempo delicada no delineamento harmônico proposto por Lucio Yanel e Clovis “Boca” Freire, uma entre todas, no meu entendimento, é por si só capaz de alçar o registro à condição de clássico do que venho chamando aqui de “música local” ou “de raiz”. É que, ao contrário de uma enormidade de registros que tratam da cultura local a partir de uma localização do elemento central, o gaúcho, de forma idealizada (seja do ponto de vista histórico ou estético), Mauro fala na primeira pessoa e aproxima de forma definitiva o interlocutor, ou seja, quem o escuta, da sua fala e discurso. E, frise-se, ele nunca o faz de forma declarativa, grandiloquente, mas bem mais como quem conta um “causo”, entre um mate e outro, numa proximidade que a interpretação intimista de Bebeto aprofunda ainda mais, sob a tessitura delicada de milongas e chamamés decompostos das linhas fixas do tradicionalismo executadas pelos instrumentistas e que propõe uma ambientação absolutamente internalizada ou, como é dito na fronteira, uma verdadeira, simples e direta “charla“.

Porque uma intensa mitologização foi consagrada a figura do gaúcho, a partir de uma cultura bastante voltada à conservação de um ethos sujeito naturalmente aos processos históricos, uma espécie de interdito estabeleceu-se em relação ao habitante do meio rural, como se ele devesse responder permanentemente do lugar da história e nunca mais da sua realidade presente. O gaúcho, sob esse ponto de vista, é uma identidade empedrada e, das pessoas que na atualidade vivem em torno do meio de subsistência rural, criou-se uma espécie de hipercaracterização, ao mesmo tempo em que se nega a sobrevivência e readaptação daquele modo de vida, também extinto em outra fórmula de idealização. Ou seja, ou o gaúcho existe no tempo magnânimo em que se assentava na figura do “centauro dos pampas” ou está interditado por um negacionismo igualmente radicalizado. Não coincidentemente, o mesmo ocorre com as figuras do sertanejo, do matuto, do caipira e assim por diante, em outras regiões brasileiras, nas quais o tipo rural também é caricaturizado a ponto de tornar-se o estrangeiro por excelência, por ser alguém cuja identidade simplesmente não coincide com o cidadão mediano e urbano, a não ser através de uma estereotipia empobrecedora que, via de regra, obedece a um ordenamento que vai na direção do centro urbano para o interior.

Nesse processo, a música popular cumpre uma função muitas vezes dúbia. Ou seja, ou contribui para amplificar a estereotipia ou, por outro lado, ganha significação a ponto de confrontá-la. Isto, quando ocorre de forma espontânea, pode gerar um atrito cultural vigoroso, capaz de provocar – mesmo que por sutilezas – o descongelamento das identidades. Não seria nem um pouco demasiado afirmar que a dicção poética de Mauro Moraes encontrou em Bebeto Alves um intérprete capaz de suavizar a aspereza idiomática e de levar, por ser ele mesmo portador de uma identidade que ultrapassa os limites da música regional, ainda mais longe essa charla. Além disso, ao resgatar e devolver ao habitante do meio rural e do interior a posse de sua narrativa cultural, porque o faz mediante o diálogo e não pela imposição de um discurso, quero dizer que este é um encontro que se dá para além de um estúdio de gravação e da fixação de um registro, mas um encontro cultural como poucas vezes ocorre, quando a sensibilidade artística é colocada a serviço de uma expressão latente em uma cultura e dali manifesta-se espontaneamente.

Tal é a mesma sensação que tive e tenho ao ouvir, entre muitos outros discos da música “de raiz” brasileira, principalmente nestes que citei, de Elomar e Milton Nascimento, mas também em muitos outros, embora alguns de forma incidental. Sinto o mesmo, é justo que o diga, em alguns discos de Dorival Caymmi, de Tom Jobim, Clara Nunes, Maria Bethânia, Djavan, Ednardo, em muitos sambistas da velha guarda principalmente (porque a periferia dos centros urbanos não deixa de ser um pouco o espaço de ocupação “interiorana” das metrópoles) e, em algumas vezes, em compositores mais contemporâneos também, como Lenine, Chico Science, Chico Cesar, Carlinhos Brown e tantos outros, inumeráveis. Quero dizer que os artistas, quando assim o fazem, operam o enriquecimento da cultura nacional como um todo, por reestabelecer o contato com o povo e com os elementos que retroalimentam sua produção artística; operam também o descongelamento das identidades não por registrar uma visão cultural narrada de forma externa, mas por uma que se dá exatamente no sentido inverso, que favorecem. Não se trata simplesmente de “dar voz” às pessoas e registrar suas “formas de viver”, mas de falar diretamente “com elas”, em sua própria cultura e linguagem. Esta talvez seja uma das formas pelas quais a arte, no caso a música popular, pode melhor obter, talvez até mais do que autenticidade, o reconhecimento que é definitivamente que mais interessa ao artista: o que se dá em relação ao seu próprio público.

Pois estes são os meus discos preferidos de “MPB roots” e tenho para com eles uma relação muito especial. Obviamente deixei de fora registros magníficos, outras obras primas, de outros compositores e intérpretes. Porém eu posso por isso perdoar-me, porque isso também tem sido feito ao longo do tempo por outras pessoas em relação ao que lhe parece justo registrar. Não me perdoaria, por outro lado, é de poder dizer, mesmo que tão longamente assim, e nunca tentá-lo fazer.

A dengue enquanto sintoma

saudeQue o avanço aparentemente irrefreável da dengue está intimamente relacionado às condições de saneamento dos centros urbanos ninguém em sã consciência pode duvidar. Transmitida principalmente pelo aedes egipty, mesmo mosquito causador da febre amarela e que motivou, no início do séc. XX, a intervenção radical proposta pelo sanitarista Oswaldo Cruz, na qual formaram-se brigadas de erradicação dos criadouros de mosquitos, a dengue hoje reedita um espetáculo dos mais deprimentes no que se refere ao estado avançado de negligência política para com a saúde pública.

Hospitais improvisados sob lonas, pessoas sem diagnóstico e um número crescente de casos fatais expõe o que parece ser apenas um novo episódio de uma situação que vem se repetindo ano a ano, agravando-se paulatinamente, sem que medidas eficazes do ponto de vista administrativo sejam adotadas. A razão para isso acontecer é que aparentemente não há medidas que possam ser tomadas e, nestes tempos em que criou-se a impressão de que um clique “faz” coisas, investir maciçamente em condições preventivas é algo está fora do cenário político, este bem mais determinado e empenhado nas medidas de ajuste fiscal e nos desdobramentos de sua problemática.

Se o combate à epidemia nos moldes militares propostos por Oswaldo Cruz no início do século passado hoje não faz mais sentido, é preciso encontrar soluções duradouras. E sem que isso passe por uma mudança de mentalidade política no sentido de priorizar-se condições sanitárias razoáveis e serviços públicos de saúde em condições de operar com dignidade, é uma novela com próximos e previsíveis capítulos.

Está claro à população que já não basta ver interesse no assunto sanitário nos períodos eleitorais, o que praticamente não se viu em 2014, mas evidências de uma inclinação política que parece resolver-se perpetuamente no território de promessas que nunca se cumprem ou que padecem pelos muitos descaminhos que se impõem à administração pública de um modo geral.

Porque os determinantes da propagação da dengue continuam sendo péssimas condições de habitação, saneamento, atendimento e educação, como explica o médico José Augusto de Britto, coordenador da Rede Dengue Fiocruz, trata-se de uma doença socioambiental que está aí para demonstrar que o destrato social para com o ambiente não se dá só em relação aos recursos naturais, mas ao próprio ambiente urbano, em um ciclo indesejavelmente doentio.

Enquanto isso, com o agravamento da expansão concomitante da febre chikunguya, transmitida pelo mesmo vetor, resta à população fazer sua parte, além de torcer para encontrar serviços de saúde em condições de prestar atendimento, nem que sob lonas improvisadas. São os custos do desinvestimento e da imprevidência política.

Questão de respeito

elis

Como dificilmente deixaria de acontecer, na data que seria o aniversário de 70 anos de Elis Regina (17/03/1945 – 19/01/1982), inúmeras homenagens ganharam as páginas e telas da mídia de todo o Brasil. Nada mais justo, afinal ainda hoje Elis é um fenômeno de popularidade. E não há quem duvide, a essa altura do campeonato, que ela está no panteão dos grandes intérpretes da música popular brasileira. Mas há necessidade de que se procure tanto descolá-la das demais cantoras, sejam ou não suas contemporâneas?

Bom, qualquer criança hoje em dia sabe que vivemos em tempos “diferenciados” e que rankings são produtos de primeira necessidade em qualquer portal, revista, blog ou facebook que se preze. Por isso será muito difícil hoje, aniversário da Pimentinha, não encontrar seu nome encabeçando listas das melhores cantoras da Via Láctea. Ou até além disso.

Eu só acho que listas resumitivas e rankings são empobrecedores da cultura como um todo e, confesso, tenho até certa preguiça de explicar essa posição. Mas é isso! Listas são preguiçosas e parciais, that is the question. Basta resumir-se toda a qualidade num pódio e fim, pronto, mais um texto para milhões, bilhões de curtidas e compartilhamentos. Fácil, não?

Agora, em nenhum momento isso retira o valor descomunal de Elis para a música terráquea, porque dizer universal seria exagero até em se tratando de alguém que afirmou ser literalmente uma estrela, reafirmando-se com justiça num momento dos mais cruciais da sua vida, na tournée de O Trem Azul, pouco antes de sua morte.

Elis tem registros infinitos de sua qualidade vocal e de sua entrega interpretativa. Isso por si só a qualificaria a angariar o fanatismo de milhões de pessoas. Aqui no RS então, nem se fale. Mas é merecido, sem dúvida. É maravilhosa em registros que, se listados, lotariam páginas e páginas e páginas e páginas…

A seu lado, entretanto, outras tantas cantoras, compositoras e intérpretes merecem tanto crédito quanto Elis, embora seja impossível querer controlar o entusiasmo pessoal de alguém, qualquer um, ou suas preferências. E que é óbvio que não é disso que se trata. Outras cantoras tiveram seus grandes momentos também e duvido que a própria Elis não reconhecesse isso. Mais do que isso, Elis foi uma gigante nos ombros de gigantes que vieram antes dela e de outras que estiveram lado a lado, em seu próprio tempo.

Seria tarefa relativamente fácil reunir uma lista de gravações igualmente notáveis de outras cantoras brasileiras magníficas, mas quer saber?, por questão de respeito a essa estrela que tanto deu de si pela música popular brasileira e por gerações de compositores que cresceram sob sua égide, hoje vou apenas ouvir Élis, como diria o bom e velho Dick Farney, e tentar matar um pouco a saudade imortal.

Síndrome de Down ou síndrome de grau?

termometro“Tudo o que os filhos podem adequadamente exigir de seus pais é que tolerem seu próprio espectro confuso – que não insistam na mentira da felicidade perfeita, nem caiam na brutalidade desleixada de desistir.”

Andrew Solomon, Longe da Árvore

Quantas vezes na vida eu precisei ouvir, responder ou ser informado a respeito do “grau” da síndrome de Down com a qual meu filho nasceu eu não saberia dizer ao certo. Certo é que essa parece ser, ao que tudo indica, uma experiência sem muita chance de acabar tão cedo. E isso em qualquer acepção de “grau” que possa existir agora ou ainda vir a existir.

Já tive de dizer que ele não era “mongolzinho”, que “retardo mental” é um conceito superado pela neurociência e pela psicologia modernas, que seu “grau” não era baixo ou alto simplesmente porque não existe “gradação” em condições genéticas específicas e que as diferenças comportamentais e funcionais observáveis em pessoas com síndrome de Down são multivariadas e isso significa que não há graus que possam ser tomados como determinantes isolados para a avaliação do desenvolvimento ou do desempenho funcional de uma pessoa, tenha ela nascido com a síndrome de Down ou não.

Essas diferenças dizem respeito tanto à plasticidade neurológica de cada um quanto às diferentes formas de sobrexpressão genética e da epigenética de cada um; dependem da qualidade dos estímulos que a pessoa recebe e igualmente de sua capacidade particular de interagir com estes estímulos; dependem de condições clínicas associadas; de condições favoráveis ou menos favoráveis do ponto de vista afetivo e familiar; de haver a atenção adequada desde a primeira infância e, em seu futuro, de que esta atenção se estenda ao longo da vida.

Isso tudo porque se a pessoa humana não é uma ilha, não há razão nenhuma para que a pessoa com síndrome de Down o seja. E é por isso que eu creio que a tentativa de compreender as características de desenvolvimento de uma pessoa com a síndrome de Down comporta sempre em um duplo risco: o de culpabilização e o de ideologização.

O de culpabilização parece ser tão imediato quanto o diagnóstico que se pode obter por um exame de cariótipo (que é mais ou menos o equivalente a um mapa cromossômico das células de alguém, a partir do qual se pode observar a trissomia cromossômica, obtido em um exame de sangue). Embora a ciência ainda não tenha descoberto as razões para isso acontecer, é quase irrefutável: a cada nascimento de uma criança com síndrome de Down, um gêmeo a acompanha desde o parto e este gêmeo invariavelmente se chama “culpa”.

É culpa suficiente para lotar um caminhão. Conheço pais que se culpam por não conseguir oferecer a atenção imaginada como a ideal (essa é a culpa mais genérica e frequente). Culpa pela alimentação, que poderia ser melhor. Pela qualidade da estimulação, que nem sempre se pode oferecer adequadamente. Culpa por ter começado a caminhar ou a falar tardiamente ou ter dificuldades em qualquer uma dessas situações. Culpa pela escola que podia ser melhor. Culpa por não ter-se opção, recursos disponíveis ou condições de oferecer o melhor possível àquela pessoa, àquela criança que nasceu com a deficiência e que o Estado sempre promete que cuidará bem, mas nem sempre cuida. Culpa por ter confiado que cuidariam do Estado, mas nem sempre cuidam devidamente. Culpas muitas vezes indevidas, mas todas inevitável e integralmente assumidas como se devidas fossem. Culpas sem grau. Culpas que são todas culpas integrais e sentidas integralmente. E injustamente, em quase toda a sua maioria.

O risco de ideologização, por outro lado, normalmente acontece quando uma pessoa ou um grupo de pessoas passa a propagar a sua experiência individual como se pudesse ser adotada e perseguida universalmente, descartando-se de antemão toda aquela gama de diferenças multivariadas já mencionadas, além das evidentes e inegáveis diferenças socioeconômicas.

Tendo por norte a máxima superacionista e determinista, empenham-se na corrida as hipóteses médicas, culturais, sócio-construtivistas e tantas outras quanto existam. Como pressuposto de qualquer disputa ideológica, as hipóteses ideológicas são tomadas por explicações generalistas. Em sua lógica, suas propostas explicam o funcionamento de todas as pessoas, o que também desconsidera variáveis fora do seu campo. Nessas hipóteses, quando uma pessoa com síndrome de Down não se desenvolveu de acordo com o preconizado pela ideologia em questão, a justificativa (ou será culpa?) normalmente recai em uma adesão precária aos seus preceitos. A ideologia, quando é reducionista da expressão humana (e dificilmente ela não o é), pode ser tão cruel quanto a culpa e impor ela mesma parâmetros a que nem todos estão em condições de atender, por razões que simplesmente lhe escapam ou estão fora do seu alcance.

Quando eu vejo pais amorosos e dedicados debatendo-se com as dificuldades expressas pelas características individuais de seus filhos, quando os vejo buscando perseguir um ideal de pessoa, quando os flagro sentindo-se incapazes de dar conta de uma sociedade que é muitas vezes, na realidade, adversa e refratária à presença de seus filhos e quando percebo o grau de exigência que recai sobre essas crianças, adolescentes e adultos eu sinto (ou concluo) que a ideologização alheia já os capturou e enredou profundamente, às vezes mais do que possam perceber. E que a culpabilização, por isso mesmo, só tende a aumentar.

Muitas pessoas entre familiares, profissionais, políticos, ativistas e tantos outros interessados na inclusão da pessoa com deficiência intelectual buscam lutar contra o preconceito imaginando tratar-se de algo que possa ser sacado da sociedade através de uma mensagem de tolerância, de convívio ou de “respeito à diversidade”. Às vezes deixam de perceber que a luta que se trava contra o preconceito acontece quase sempre como se numa sala de espelhos, porque o preconceito costuma ser o reflexo terceiro ou quarto de um mundo organizado para a competição, “talhado para os melhores” e no qual aos desfavorecidos infelizmente resta não muito mais que o jus sperniandi, principalmente quando se trata de famílias em situação de desvantagem socioeconômica.

Às vezes deixam de perceber que estão contribuindo, sem desejar isso ou pretendê-lo, para a ideologização da questão e para que o preconceito desapareça apenas do reflexo pelo qual porventura se o observa. Mas será que ele foi ou será apenas por isso varrido do mundo? Infelizmente, eu temo que não.

É evidente que todos os pais devem buscar os melhores recursos possíveis para colaborar no desenvolvimento de seus filhos. Não só devem como é sua obrigação. Mas não é justo que seus esforços sejam comparados aos de mais ninguém nem que seu engajamento seja aferido mediante um padrão de exame, um comportamento standard ou coisa que o valha. As muitas dificuldades que podem acontecer a uma pessoa com síndrome de Down são as mesmas que podem acontecer a qualquer pessoa. E se há algo que é vedado a qualquer pessoa é o domínio pleno de todas as variáveis envolvidas no processo de desenvolvimento humano, já que nem à ordem do divino tal opção é facultada.

No meu ponto de vista, não há muitas formas pelas quais uma pessoa pode livrar-se de culpas indevidas sem que isso passe pelo seu próprio desejo e pela reafirmação de sua identidade e de seus direitos. Se nem o modelo médico de compreensão da deficiência e nem o modelo social podem entrar na casa das pessoas ou injetar recursos em suas contas bancárias para provê-las das condições para arcar com “os melhores recursos possíveis”, talvez ao menos seja possível anular um pouco seu efeito ideologizante e permitir à pessoa existir, ser amada e reconhecida em todas as características de sua individualidade, sejam quais forem elas.

É por isso que não basta recusar-se a existência de “graus” se nós mesmos estamos envolvidos em demonstrar e chancelar a “inclusão” mediante a apresentação de requisitos de capacidade, no qual há casos de sucesso flamejante ou de fracasso retumbante, como comprovações tácitas do fracasso da ideia de “respeito à diversidade”, proposição das mais cansadas e esvaziadas. A esse espírito pode se dar o nome que se desejar menos o de “inclusivo”. Não basta que não falemos mais em “graus” se pensarmos constantemente nos termos da diferenciação e da distinção. O que não deveria ser possível, mas infelizmente é só o que muitas perspectivas ideologizantes têm a oferecer, é que o reconhecimento e o direito à inclusão devem atender a todos e que as pessoas não têm o dever de ser exemplo de coisa nenhuma, a não ser o de ser o melhor exemplo de si mesmas. Para uma sociedade que se deseja e quer apresentar como “inclusiva”, só isso deveria ser o bastante.

Um prato para comer frio

ilustvinganca

Amalgama

Dois filmes produzidos e lançados recentemente retomam um tema ao que tudo indica muito caro à humanidade: o desejo por vingar-se e a perpetração da vingança. Relatos Salvajes e Dracula Untold são, cada um a seu modo, novos blocos do edifício aparentemente infinito da exaltação desse sentimento que parece ser um dos lastros fundamentais da psique humana, ao lado de outros que poderiam ser tomados como mais nobres, caso existisse uma hierarquia organizada para os sentimentos.

A ideia de perpetrar-se a vingança é antiga e tem vigorado inclusive na forma de lei em sociedades mais ou menos primitivas e mais ou menos civilizadas, de outros e também destes tempos. Assim como na longínqua Babilônia do imperador Hamurabi, há culturas que ainda hoje autorizam que vítimas de crimes “devolvam” a “ofensa” na mesma moeda, sendo possível até que assistam ou participem da “reparação” máxima: a pena de morte do outro. Tudo isso parece esdrúxulo e aterrador, mas pode estar acontecendo neste exato instante no Irã mais próximo a você ou até mesmo em lugares supostamente mais civilizados, como o estado do Texas, nos Estados Unidos da América, no qual mais de 500 pessoas já perderam a vida desde a instituição da injeção letal, segundo dados da Anistia Internacional.

Que o cinema parece querer às vezes funcionar como escape à trivialidade e miserabilidade cotidianas não é nenhuma novidade; muitas vezes seus argumentos são projeções e sublimações evidentes de sentimentos comuns às pessoas os quais a vida corriqueira nem sempre pode abordar, isso por uma questão de acordo social, e que ali estão transformados em produto cultural. Minha primeira dúvida, neste caso, reside em procurar entender se as pessoas que se regozijaram com as vinganças perpetradas nestes dois filmes e na série interminável de outros filmes sobre a vingança (o site Cinema 10 elenca uma lista de 219 filmes sobre vingança) estão ali realmente para sublimar esse sentimento dado como dos mais vis, digno de figurar entre os pecados capitais, sob o pecado “ira”, ou se são por eles conduzidas a isso. Minha segunda dúvida seria entender se esse sentimento pode restar sublimado ou não ao final da exibição.

As seis histórias curtas de Relatos Salvajes, por flertar com o tragicômico, aproximam muito os espectadores das situações narradas. São situações envolventes mostrando o ser humano corriqueiro no apogeu do uso da sua flutuação moral. Os desfechos insólitos e absurdos, por outro lado, transformam as histórias em alegorias, livrando-as da dureza da realidade. O filme de Damián Szifron, produzido por Quentin Tarantino (dos igualmente vingativos Kill Bill, Django Unchained e Inglourious Basterds), aposta alto na sublimação pelo absurdo e, tomando-se em conta o imenso sucesso de bilheteria, parece que acertou muito bem no alvo proposto, embora nenhum dos desfechos possa ser descartado ou dado totalmente como inverossímil.

A dúvida em saber se aqueles que se divertiram bastante, como eu mesmo, das situações narradas por Szifron pelo menos adiaram suas intenções e anseios vingativos mais íntimos e velados ainda assim permanecerá em aberto. Talvez seja mesmo impossível saber o quanto a linguagem cinematográfica é capaz de conduzir e elaborar o pensamento individual, se é que ela pode pretender ser em si mesma mais do que mais uma fonte, entre tantas, de lazer e prazer intelectual. É certo que muitos cineastas não gostariam que sua obra fosse reduzida a mero objeto de consumo, disso tenho certeza absoluta, mas nem todos pensam assim e, dessa forma, o cinema se mantém atingindo muitas e muitas pessoas, ao contrário de outras artes e produções culturais mais elitizadas.

Dracula Untold é, por sua vez, um filme de ação projetado para ser exatamente um objeto de consumo, na esteira de uma extensa fila recente de filmes sobre vampiros, sobre um roteiro que busca as origens do Drácula de Bram Stoker, mas não tem para com este nenhum compromisso. O tom é épico e busca recriar a atmosfera bélica entre romenos e turcos, quando Vlad Tepes, o empalador, ajudou a Europa a deter o avanço do império Otomano, no séc. XIV, isso de acordo com os livros de História.

No filme, Vlad busca forças sobrenaturais para defender seu povo e executar sua vingança pessoal e as encontra através de uma criatura amaldiçoada, um vampiro com remotas origens greco-romanas. Mesmo sabendo do risco de tornar-se ele mesmo um outro vampiro, no filme Vlad não vê outra alternativa e une em si mesmo o desejo de vingança política e pessoal, sacrificando sua própria humanidade. A vingança para Vlad parece não ser uma questão de escolha, mas sua sede insaciável por revanche converte-se como em uma espécie de pensamento obsessivo, não muito distinto daquele que embota a razoabilidade das pessoas que desejam aniquilar a contrariedade e costumam clamar pela morte alheia como tábua de salvação de alguns males mundanos, sejam de ordem política ou pessoal.

Entre a tolerância e a vingança, até mesmo no cinema a distância parece ser descomunal. Se é possível encontrar listas imensas de filmes que enfocam a vingança e lembrar qualquer um destes títulos não exige grande esforço, a tolerância enquanto argumento cinematográfico parece não viver seus melhores dias. Na internet, onde há listas e rankings para praticamente qualquer assunto, não só não é nada fácil encontrar listas evocativas em relação à tolerância como nas redes sociais as fanpages destinadas à vingança e suas formas e fórmulas são extremamente populares, ao passo em que as que tratam da tolerância e de suas variantes quase nem existem; e, quando existem, costumam ser desérticas em termos de seguidores e compartilhamento.

O que isso prova? Não tenho a menor ideia. O fato inegável é que as pessoas parecem comprazer-se mais em testemunhar atos vingativos do que em demonstrações do que se poderia compreender como elementos de uma “cultura de paz”. Uma outra explicação seria de que o desejo de vingança poderia ser um tipo de reação natural frente ao sentimento de injustiça enquanto que a tolerância implicaria em algum investimento cultural e moral, notadamente em baixa nestes tempos em que a linguagem da violência parece prosperar e manifestar-se com bastante veemência.

Também há que se considerar que a tolerância impõe por ela mesma um tipo de paradoxo, dado que exigiria sua aplicação inclusive no que se refere às manifestações do seu anverso, a intolerância, porque ela mesma não poderia ter um valor seletivo senão fracassaria em sua própria formulação. De outro modo a vingança parece mesmo ser um “prato” que, mesmo frio, cumpriria a função de alimentar e saciar aquele que é vingado. Talvez não seja mesmo possível concluir se o cinema requenta a fórmula vingativa porque ela é mesmo psiquicamente desejada ou se é ele que a oferece como prato preferencial, colaborando para um público adicto e ainda mais crente nas soluções belicosas para os impasses morais de toda a ordem. Seja como for, no olho por olho e no dente por dente, pelo menos no cinema a “cultura de paz” parece estar levando a pior. No mundo real talvez se dê o mesmo.

Tomate. Fruto? Legume? Tsc, tsc.

tomateverde

Há um fruto ou legume (talvez) sobre o balcão da cozinha. Eu já tinha conhecimento, por terceiros, que esses plásticos travestidos de alimentos, como nuggets, hamburgeres e congêneres sobreviveriam intactos a quaisquer condições naturais por tanto tempo quanto o isopor, mas os tomates, até onde sei, eram para ser coisas (me falta um termo melhor) da natureza. Coisas vivas. Orgânicas.

Tsc, tsc. Vã ilusão. O tomate que tenho sob os olhos não reúne sequer as condiçoes necessárias à concepção mais elementar do que qualquer aluno do fundamental entende por “vida”.

A coisa ali em cima do balcão que atende eventualmente pelo nome de “tomate” sobreviveu cerca de trinta dias inteiros sob o sol inclemente de janeiro, enquanto estive fora de casa, intacto, sem qualquer vestígio de decomposição.

Antes que alguém imagine, não, não se trata de um fruto ou legume de plástico. Nada contra quem decora sua casa com imitações de vegetais. Quem sou eu para isso? Afinal, tudo indica que comprei uma coisa dessas para minha própria alimentação e de minha família..

Via de regra, costumo comprar alimentos vegetais em feiras ecológicas. Mas nem sempre consigo tempo. Às vezes outros compromissos me impedem. Aí o jeito é apelar para o supermercado. Os preços abusivos dos rotulados como orgânicos, ali boutiquizados, são de causar inapetência. Então às vezes resta fazer o que fazem 99% dos consumidores. Ir aos balaios comuns, onde se espera não encontrar-se vegetais inorgânicos, por exemplo. Mas definitivamente é só o que há por ali.

Agora me encontro nesse impasse compreensivo. Minha ignorância biológica não me permite saber se estou diante de um gênero alimentício modificado geneticamente, de uma criatura da natureza que recebeu doses cavalares de conservantes, de um produto emembido e conservado em tonéis de pesticidas ou de um suposto artefato alienígena, revelado ali no balcão da minha cozinha como indício e prova de alguma estratégia de colonização extraterrestre. Digo isso porque, por mais que tente, não consigo lembrar exatamente quando comprei o objeto.. E, talvez, não queira nem imaginar que não comprei apenas uma unidade. Ou o que fiz com as demais.. Ugh!

Seja como for, chego à conclusão de que esse possível exemplar da espécie Solanum lycopersicum poderia, sem problemas, ser cultivado no Saara e outras regiões agrestes do planeta. Trata-se de um ser (supostamente) biológico imune ao sol e que dispensa qualquer hidratação, ao que tudo indica.

Se ele lograr transferir suas propriedades, sejam quais forem, ao gênero humano através do gesto aparentemente banal do consumo, coisas que não imagino poderão acontecer.

Na melhor das hipóteses, poderá prestar um serviço à humanidade e levar à falência os fabricantes de filtro solar, além de nos tornar criaturas também melhoradas e mais aptas a sobreviver nesses verões desaguados. Alguém certamente deverá nutrir esperanças nisso, como o Cândido de Voltaire.

Na pior, melhores estudos precisariam ser realizados para garantir a segurança do produto. Mas há quem se preocupe com isso?

A deficiência. Quando ela é notícia?

jornais34

Ao contrário do que se supõe, a deficiência não é noticiada apenas em datas comemorativas ou em situações de discriminação. Isso acontece todo o dia, o ano inteiro. Conheça a seguir os resultados de pesquisa realizada pela Inclusive sobre a relação entre mídia e deficiência.

No último 15 de agosto, durante mesa redonda promovida pelo “Memorial da Inclusão: os caminhos da pessoa com deficiência” em evento paralelo ao VI Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, apresentamos os dados preliminares de uma pesquisada realizada pela Inclusive – Inclusão e Cidadania a respeito da relação entre os temas “deficiência” e “comunicação social”. Até a data de apresentação, havíamos publicado apenas os dados preliminares da pesquisa, além de uma exposição rápida da metodologia empregada em texto divulgado na própria Inclusive (ver aqui) e por alguns outros meios de comunicação. No texto a seguir, procuraremos apresentar a íntegra dos dados obtidos, bem como retornar brevemente aos aspectos metodológicos e de contextualização da pesquisa.

Ao longo dos últimos anos, não foram muitas as oportunidades presenciais de debater a relação entre os assuntos “deficiência” e “comunicação social”, assim como poucos foram os estudos realizados nesse sentido. Embora os meios de comunicação expressem e consolidem representações sociais, o tema deficiência ainda parece muito mais relacionado às ciências da saúde e ciências sociais do que aos temas pertinentes à comunicação social de um modo geral. A proposta central desta pesquisa é, portanto, procurar resgatar o interesse pelo cruzamento dos temas e, quem sabe, fomentar novos estudos, debates e questionamentos, isso tanto no tocante à esfera governamental, meio acadêmico, quanto aos movimentos sociais propriamente ditos. Queremos crer que estas informações possam fomentar tanto o desenvolvimento de intervenções programadas em políticas públicas quanto mobilizem novos diagnósticos e investigações.

Desde 2003, quando a ANDI – Agência de Notícias da Infância realizou, em parceria com a Fundação Banco do Brasil, um abrangente trabalho de pesquisa – intitulado Mídia e Deficiência, não há muitos registros sistematizados sobre a relação entres os assuntos, embora sem dúvida tenha sido produzido conhecimento a respeito, especialmente em projetos de pesquisa de cunho acadêmico e também em trabalhos de educação em direitos humanos dirigidos aos profissionais dos meios de comunicação, estes realizados em sua maioria por ONGs e consultorias especializadas.

No meio acadêmico, encontram-se principalmente trabalhos dirigidos à análise de discurso, mas não análises de ocorrência, como é o foco aqui. Dentre estes, destaca-se o trabalho de mestrado de Ana Carolina Soares Costa Vimieiro, defendido em 2010 na UFMG. A dissertação, intitulada “Cultura pública e aprendizado social: a trajetória dos enquadramentos sobre a temática“, recupera as práticas discursivas sobre as diferentes expressões da deficiência em três grandes veículos de mídia: a revista Veja e os jornais Folha de São Paulo e O Globo, no período entre 1969 e 2008. Pela extensão da abrangência, é possível perceber a migração de sentido, ocorrida através dos anos, do conceito político de integração e das representações sociais de caráter predominantemente assistencial, expressos pela caracterização piedosa e centrada nos aspectos médicos da deficiência, para o conceito mais contemporâneo de inclusão social. Segundo a pesquisadora, é em meados dos anos 80 que a proposta inclusiva ganha força no Brasil e, a partir de então, toma o centro das abordagens jornalísticas, ainda que com a subsistência do antigo discurso e das práticas mais disseminadas anteriormente.

Além desta pesquisa, mas ainda na perspectiva da análise do discurso, encontramos o trabalho de Ruvana de Carli que, em “Deficiente versus pessoa portadora de deficiência” , analisa as representações socioculturais nos jornais Correio do Povo e Zero Hora, ambos de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Trata-se de um trabalho que enfocou especialmente a questão terminológica, sendo que toma ainda por preferencial o termo “pessoa portadora de deficiência” ao invés do “pessoa com deficiência” consolidado principalmente após a promulgação da Convenção sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência – CPCD, de 2008. O trabalho em questão foi defendido e apresentado bem antes disso, no ano de 2003.

Dados quantitativos

Os dados que apresentaremos a seguir são de caráter estritamente quantitativo e foram obtidos através de uma metodologia baseada na utilização dos dados processados pela search engine Google News ©, em conteúdos do tipo “notícia” e “reportagem”, no período compreendido entre junho de 2013 e junho de 2014. Trata-se de uma abordagem que tem limitações particulares, mas que procurou valer-se dos recursos de pesquisa disponíveis empregando técnicas de pesquisa por cruzamento direto e filtragens seletivas.

As principais limitações referem-se à abrangência de indexação da própria ferramenta que, por razões de interesse particulares e preservação de direitos autorais de determinadas fontes de conteúdo, não obtém apresentar resultados totalizantes. Dessa forma, todas as ocorrências numéricas obtidas na pesquisa são dados absolutos e não resultado de amostragem, dada a conformação desigual dos resultados e a ausência de uma fixação ideal do universo de pesquisa. Isso significa dizer que nenhum dos resultados numéricos referem-se a um percentual totalizante, mas um valor único e singular de ocorrências.

No gráfico a seguir, apresentam-se as principais ocorrências temáticas em relação aos temais transversais à questão da deficiência obtidos dentro do período já mencionado.

[Gráfico de colunas verticais – temas transversais: acessibilidade (1130), cultura (1690), educação (9610), esporte (9370), legislação (1080), saúde (12450), trabalho (7452), violência (4735)]

Gráfico 1 – Temas transversais

O que se pode examinar de forma rápida é a predominância de conteúdos relacionados à saúde das pessoas com deficiência em detrimento de outros temas, como as questões de acessibilidade e legislação, por exemplo. Nesse caso, é importante considerar que o universo de publicações especializadas na área do Direito não foi selecionado para o efeito da pesquisa, o que pode explicar o pequeno enfoque jornalístico dado ao tema. Em relação aos demais, parece haver um certo equilíbrio, com exceção dos conteúdos sobre “cultura”, também de menor prevalência.

O próximo gráfico demonstra as ocorrências obtidas em cruzamento com os temas “inclusão” e “exclusão”, no qual se verifica a predominância do primeiro, o que pode traduzir um maior enfoque informacional às ações sociais de caráter efetivamente inclusivo. Essa interpretação coincide com avanços sociais obtidos principalmente na última década, quando o desejo e as políticas públicas voltadas à inclusão da pessoa com deficiência na sociedade tiveram grande desenvolvimento, mesmo que sem anular completamente situações de exclusão, verificadas em outra espécie de manifestação social, como o preconceito, a discriminação, violência, etc.

[Gráfico de colunas verticais – exclusão (618), inclusão (1480)]

Gráfico 2 – Exclusão x Inclusão

Discriminação e preconceito são os dados apresentados no gráfico a seguir.

[Gráfico de colunas verticais – discriminação (306), preconceito (210)]

Gráfico 3 – Discriminação x Preconceito

Como a discriminação é propriamente um gesto real enquanto que o preconceito um sentimento individual ou social, está claro que o registro da presença da discriminação deveria ser maior do que o observado sobre o preconceito propriamente dito. Mesmo que diversas iniciativas, campanhas e produtos de informação tenham sido produzidos no sentido de minimizar o preconceito social contra as pessoas com deficiência, seu caráter mais abstrato parece impor uma presença menor nos meios de comunicação. Isto não equivale a dizer que ele (o preconceito) não exista ou seja menos relevante, mas apenas que é menos registrado.

Os próximos dados referem-se à oferta de educação e modelos de escola.

[Gráfico de colunas verticais – escola inclusiva (4350), escola especial (2970)]

Gráfico 4 – Educação

Apesar da ainda grande presença de conteúdo relacionado às escolas especiais, as experiências educacionais inclusivas contaram com uma presença maior nas informações. É importante distinguir, neste ponto, a diferença que há entre “escola” e “educação” especial. A educação especial é uma modalidade de ensino que permanece dentro do conceito de educação inclusiva, sendo a esta transversal e tem uma conotação diferente de “escola especial”, que se refere a estabelecimentos de ensino dirigidos exclusivamente ao público de pessoas com deficiência, na qual as pessoas com deficiência não compartilham do mesmo espaço social dos demais estudantes.

O gráfico a seguir apresenta os dados referentes ao cruzamento com os termos “assistência social” e “políticas públicas”.

[Gráfico de colunas verticais – assistência social (791), políticas públicas (1970)] Gráfico 5 – Assistência social x Políticas públicas

Aqui, talvez seja interessante observar a migração de sentido relacionado aos temas. Enquanto que naquela pesquisa realizada pela ANDI em 2003 predominavam dados sobre assistência social, atualmente as informações sobre políticas públicas são as mais difundidas. Decorrência do aperfeiçoamento democrático e de políticas de Estado cada vez mais orientadas ao desejo por mais inclusão social, este resultado talvez indique uma apropriação política do tema pelas próprias pessoas com deficiência, já não tão dependentes da condução do Estado como em décadas anteriores. Evidentemente, trata-se de uma interpretação possível e não de uma conclusão taxativa.

O próximo gráfico verifica as ocorrências a respeito da CPCD e do projeto de lei do antigo Estatuto da Pessoa com Deficiência, denominado desde meados de 2014 por “Lei Brasileira da Inclusão”.

[Gráfico de colunas verticais – Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (220), Estatuto da Pessoa com Deficiência (291)]

Gráfico 6 – Legislação

Mesmo que, do ponto de vista da hierarquia legal, a CPCD ocupe posição superior ao Estatuto, aparece menos que ele, demonstrando talvez um pequeno esforço de divulgação nesse sentido, se tomados os dados em comparação. Coforme o já mencionado, nestes dados não estão consideradas as publicações especializadas em Direito, mas apenas os meios de comunicação escrita. Outra explicação reside na longa tramitação do antigo Estatuto, que já dura uma década de muita controvérsia.

Os dados apresentados no gráfico a seguir relacionam-se à terminologia utilizada na redação jornalística e informativa em relação ao assunto.

[Gráfico de colunas verticais – deficiente (11600), portador de deficiência (2143), portador de necessidades especiais (1640), pessoa com deficiência (3100)]

Gráfico 7 – Terminologia

A predominância do uso do termo “deficiente” ao preconizado pelo próprio movimento social e também pelas normais legais “pessoa com deficiência” pode demonstrar, talvez, que a correspondência realizada de forma mais apressada ainda identifique as condições de deficiência como um atributo pessoal e não como a expressão da interação da pessoa com o meio social, como o expresso na compreensão vigente incorporada pela própria CPCD, do “modelo social da deficiência”. Ainda assim, é possível observar que os números referem-se a uma crescente utilização do termo “pessoa com deficiência” em relação ao “portador de deficiência” ou ao “portador de necessidades especiais”.

Os dados a seguir, os últimos que coletamos, indicam que, ainda assim, a compreensão do modelo social da deficiência é crescente, em detrimento à interpretação do modelo médico. Para mais referências sobre os modelos de compreensão da deficiência, indicamos a leitura de “Deficiência, direitos humanos e justiça” , de autoria dos pesquisadores Débora Diniz, Lívia Barbosa e Wederson Rufino dos Santos, publicada na Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos.

[Gráfico de colunas verticais – modelo médico (1770 - 60), modelo social (2640-152)]

Gráfico 8 – Modelo social x Modelo médico

Os números entre parênteses que acompanham os principais referem-se às ocorrências coletadas em pesquisa adicional sobre a produção acadêmica recente sobre os temas. Nesse caso em  específico os números foram recuperados em um outro sistema de informações, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, mantida por bibliotecas e instituições de ensino superior de todo o país sob a coordenação do IBICT – Instituto Brasileiro  de Informação em Ciência e Tecnologia.

Conclusões

Ainda que os dados aqui apresentados sejam meramente de natureza quantitativa, queremos crer que podem significar e apresentar um determinado recorte social pertinente ao modo pelo qual a temática da deficiência vem sendo veiculada mais recentemente nos meios de comunicação. Sem nos determos exatamente no “como”, procuramos nos centrar mais no “quando”, ou seja, procuramos verificar as formas e o conteúdo pelo qual a temática vem sendo expressa pela mídia escrita. Dessa forma, procuramos destacar que a realidade social é mais determinante das informações do que por elas determinada, tendo-se em vista que a proliferação dos meios de comunicação e ascensão das redes sociais de trocas de informação operou nos últimos anos uma guinada importante a respeito da forma como as pessoas consomem, produzem e relacionem-se com a informação escrita. Um estudo específico sobre as ocorrências na perspectiva da convergência das redes sociais seria muito interessante no sentido de estabelecer-se um comparativo aos meios de comunicação convencionais.

De qualquer maneira, ainda nos parece que a repercussão da realidade social acontece de forma relevante nos meios de comunicação impresso, através dos quais as informações continuam a ser conhecidas e compartilhadas. A proliferação de fontes secundárias e o protagonismo crescente das próprias pessoas com deficiência, que tomaram para si a tarefa de construir sua própria narrativa social e relatar sua experiência, de alguma maneira relativiza em muito a repercussão daquelas fontes principais de informação, antes detidas pelas instituições, governos e etc. A forma pela qual as pessoas interagem com a informação, discutem-na e atribuem a ela maior ou menos significado seria também um capítulo ainda a ser mais bem compreendido, mas em análises qualitativas bem mais detalhadas que o levantamento de dados aqui empreendido.

Se na atualidade a credibilidade das informações perdeu um pouco o “endereço” certo e é acreditada ou desacreditada em meio à torrente de informações que circula na internet e nas redes sociais, é igualmente relevante entender o quando e o porquê de determinadas temáticas obterem as linhas e os holofotes da mídia. Entender a presença de um ou outro elemento, nesse sentido, pode ser tanto chave de interpretação como de provocação social.

Já que a sociedade parece nunca ter sido tão permeável à opinião pública quanto parecer ser atualmente, os meios de comunicação certamente refletirão as mudanças do desejo social, configurando um espaço mais aberto e democrático de produção e consumo de informações. Dessa forma, compreender a representação social e cultural das pessoas com deficiência nos meios de comunicação é elemento central tanto para a compreensão do comportamento da sociedade civil quanto da repercussão das ações institucionais, seja das esferas de governo ou dos movimentos sociais. Nessa perspectiva, nossa pesquisa procurou tão somente fazer um pequeno recorte diagnóstico. Ainda que contenha imprecisões ou limitações metodológicas, se puder fomentar um pensamento mais racional e programado sobre a realidade presente da relação entre a temática da deficiência em relação à comunicação social, assim como novas investigações sobre o tema, terá cumprido a maior parte de seus objetivos iniciais.