Lya Luft e o colunismo de réveillon

Nas edições retrospectivas e prospectivas preparadas pelas revistas semanais, o que não faltam são análises e opiniões sobre os fatos marcantes do ano que fecha e suposições sobre o futuro que se aproxima imediatamente. Jornalistas e colunistas buscam apanhar do imenso cultivo de acontecimentos aqueles que julgam os mais relevantes, dentro do seu raio de observação, mas há quem tente ir além.

No caso da Revista Veja, é o que acaba de fazer a colunista e escritora Lya Luft. Lya, que previamente procura avisar aos leitores que não é alguém qualificado a falar a respeito do tema que elegeu, escolheu tratar em sua coluna dos assassinatos de crianças ocorridos nos EUA em 2012 (O ano das criancinhas mortas, p. 221, ed. 2302, nº1, 02/01/13). A escritora está longe de ter sido a primeira a abordar o tema e cabe indagar se existe, de fato, alguém especialista em morticínio infantil capaz de dar conta de tamanho drama. Seu aviso, portanto, deveria suavizar uma leitura mais rigorosa, mas empreender a tarefa resta impossível, pois o tema não é comercial de margarina e uma publicação com milhões de leitores também não pode ser comparada a um comentário inofensivo nas redes sociais ou um post em um blog remoto.

Mesmo considerando o salvo-conduto pretendido pelo aviso prévio da autora , é tranquilamente imaginável esperar encontrar-se uma análise emocional dos acontecimentos. Faz parte do espírito de fim de ano, do colunismo de Réveillon, tão impregnado de sentimentalismo. Além disso, o assunto é polêmico e envolvente, como tudo o que envolve a infância. Não é o caminho que Lya escolhe, pois ela tenta ir além das próprias emoções, como observadora do mundo, mas sem perceber ter dado passos aparentemente além da sua compreensão. Ela o faz ao mixar ideias envolvendo questões complexas como psicopatia, deficiência, doenças mentais e inclusão social.

Elucidar os mistérios da alma humana tem sido, ao longo do tempo, uma das buscas mais evasivas tanto para cientistas como para filósofos e escritores. Dentre as inúmeras possibilidades de abordagem, talvez a psicanálise seja o fazer que mais tenha se aproximado das bordas de onde se pode explicar o comportamento. Mesmo ela é contestada e, como se trata de um assunto intangível, não se pode pretender a primazia na emissão de opiniões. Todos estão convidados. Os colunistas das revistas semanais, pelo alcance de que dispõem, serão – entre todos – os mais visitados. Sua responsabilidade, entretanto, não pode ser exigida (afinal são convidados dos editores, não experts) mas despir-se dela como condição do inatingível é impensável, ainda mais quando se trata de escritores do porte de uma Lya Luft.

Ao induzir o leitor a crer que os brutais assassinatos de crianças ocorridos nos EUA tenha alguma ligação com a tendência atual, “politicamente correta” segundo a autora, de inclusão geral de alunos “anormais” entre “normais”, de acordo com seus próprios termos é, no entanto, uma suposição que extrapola a própria linha de argumentação da autora, além de reforçar estigmas e preconceitos que continuam a impregnar a sociedade no início do séc. XXI e, como se vê, em 2013 ainda estarão por aí.

Um esclarecimento urgente em relação ao texto de Lya compete em desfazer a ideia de que deficiência e doença mental sejam sinônimos. Parece simples verificar que uma coisa não tem nada ver com a outra, mas unir seus conceitos em uma mesma argumentação implica pensar que se tratam de pessoas indesejáveis para o convívio social. São pessoas que estariam, nas suas palavras, inclusive “não só perturbando a turma, mas afligindo a criança”. Outro esclarecimento fundamental para a compreensão do texto trata de verificar o que, de fato, uma afirmação como essa pretende explicar do tema principal, que é o terrível morticínio das crianças.

Até onde se sabe, o assassino de Connecticut não possuía nem diagnóstico de deficiência nem de transtorno mental. Apesar das inúmeras suposições, a tentativa de enquadramento clínico a posteriori de seu comportamento apenas tem servido para que se procure razões imediatas para seu gesto. Parece que, com isso, resolve-se o impasse. Uma das formas de evitar novos acontecimentos do tipo seria separar os “normais” dos “anormais”. Sob o pretexto de preservar a sociedade dos sadios, exclui-se o doente. Em que pese soar novo o argumento de Lya, tal ideia já era verificável na primeira metade do séc. XX e mesmo antes disso, com as políticas de segregação e institucionalização.

Embora isso não seja mencionado em nenhuma parte do texto, é relevante considerar que o “politicamente correto” de agora, a “inclusão geral” é um elemento garantido constitucionalmente no Brasil, que se quer uma sociedade inclusiva. Além disso, o princípio de inclusão social é base da Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que o Brasil adotou como emenda constitucional em 2009, através do Decreto 6.949, após votação unânime no legislativo.

Se exigir que jornalistas e formadores de opinião estejam cientes dos avanços legais que envolvem minorias possa restar inefetivo, como se tem demonstrado, é algo que não se pode saber sem que se procure realizar um gesto nesse sentido. Há excelentes fontes de referência que estão disponíveis para aqueles que se dispõem a observar o mundo além da sua varanda. De alguma forma, parece que os textos de Réveillon pedem um toque de leveza que, no caso de um assunto como este, é bastante complexo de obter. Mesmo assim, é desejável que ao menos nesse momento de transição entre épocas, respire-se em relativa paz, como quer Lya Luft. Claro que não pela morte de  todos os psicopatas, como se isso fosse possível, mas pelo conforto que se pode obter pelo esclarecimento, já que pela vida real nem sempre isto seja possível.

Inclusão e os labirintos da educação

Labirinto

Por Lucio Carvalho

Já faz algum tempo que eu desconfio dos trajetos sem percalços. Da realização pessoal custe o que custar. Do sucesso a qualquer custo. Dos resultados, metas, indicadores e dos gráficos-pizza. Desconfio também dos objetivos sublimes e metas solenes. E desconfio mais ainda de qualquer projeto educacional cuja métrica seja meramente cumulativa ou comparativa. Que trate de pessoas como se fossem recipientes de um saber sempre suposto, porque nem na ciência mais avançada há verdades absolutas. Eu quero dizer que estamos historicamente nos utilizando de indicadores equivocados para avaliar as pessoas, na escola e também fora dela. E quero insistir que levar a educação inclusiva por esse caminho compete em um risco imponderável.

Por isso pretendo me tornar, em 2013, um pregador do uso do FIB (Felicidade Interna Bruta) ao invés do PIB (Produto Interno Bruto) como único critério cabível para os estudantes, principalmente as crianças, e para seus pais e professores também. Chega de tanto sequestro de felicidade em nome de “desempenho”. Estamos falando de pessoas, não de “economês”. Pode estar certo que muitos de nós não hesitem em adotar a terminologia do mercado até mesmo para avaliar a própria vida, mas não temos o direito de fazer isso a mais ninguém exceto a nós mesmos. Muito menos a nossos filhos ou alunos.

Eu digo isso porque precisamos lidar com os fracassos, conhecê-los em detalhe, e não fugir deles como o diabo foge da cruz. A impressão que tenho, muitas vezes, é de que estamos impregnados de critérios alienígenas, que sequer aos próprios alienígenas se prestam. Apesar disso, nos últimos anos não posso mais contar nos dedos as histórias de sucesso envolvendo as vidas de pessoas com deficiência sobre as quais tomei conhecimento. Falo aqui especialmente das pessoas com deficiência intelectual de quem se espera, inclusive, que não reportem traços de sua deficiência, num tipo de reconhecimento social bastante típico desta época.

A mensagem que temos deixado é de que é preciso que as crianças, as com deficiência ou qualquer outro tipo de dificuldade, superem as dificuldades, custe isso o que lhes custar. Nos portamos como seus credores, como se tivéssemos algum crédito em manter uma vida tão sem equilíbrio, uma sociedade tão pouco solidária e tão deslavadamente competitiva. Na verdade, não temos nenhum crédito. Gastamos todas as fichas mantendo a estrutura das coisas, os tais paradigmas e também as esferas de poder. Temos nossa culpa, mas não a admitiremos em público. Mais fácil é apontar o erro dos outros. Vamos assim, sem perceber que o erro é uma oportunidade e que, sem ele, não temos onde nos firmar.

Há alguns anos, em entrevista, o escritor italiano Umberto Eco declarou que toda a graça, para o caçador, consiste em ir a caça, não em observar a presa, abatida, definitivamente imóvel. Em nossa tendência de empacotar receitas fácies e venais de felicidade e de decência, temos sido indecentes e infelizes ao imaginar que nossos filhos devam ser um prolongamento de nossa auto-imagem e que tudo que saia desse script seja erro e incorreção. Nossas instituições também são assim, valem-se da mesma ideologia. Lavam as mãos assim como nós lavamos as nossas. Sem culpa. Os erros são sempre alheios, mesmo quando refletem claramente que nossas opções não tem servido nem sequer a nós mesmos.

Eu temo por aqueles que afirmam terem encontrado a receita ideal (obviamente a única certa) de inclusão, de educação inclusiva, de respeito à diversidade e até mesmo de busca por igualdade. Não percebem que estão tocando como se numa escultura de areia que, por mais que possamos mantê-la intocada com o objetivo de contemplação, algo como o vento se encarregará de desmanchar, porque feita igualmente de uma concepção arbitrária, como a que tem pretensão de substituir. Nesse ciclo, haverá certamente novos casos de sucesso que voltarão a ganhar a mídia – por menos espetaculosos que pretendam ser – e tantos outros fracassos, que não serão sequer reportados.

A educação inclusiva está cheia de falhas e erros. E isso, ao invés de fracasso, é um incrível sinal de sucesso. Se tivéssemos de antemão uma educação infalível, nossos resultados – vistos periodicamente pela UNESCO e outros órgãos internacionais – seriam inteiramente outros. Não são. Guiar-se por este modelo, portanto, é como entrar num labirinto, mas sem novelo de lã. Ao invés de ir pelo mesmo caminho, com todos os seus erros e dificuldades, a educação inclusiva continua sendo a oportunidade que falta à educação como um todo em aprender com os erros, ao invés de simplesmente, ano após ano, replicá-los.

Desenredando os nós da educação inclusiva no ensino privado

Nós enredados

Que o Brasil é conhecido como o país em que as leis “pegam” ou “não pegam”, isso lá não é segredo para ninguém. Entretanto, há uma distância considerável entre essa constatação e sua propagação, principalmente quando o que está em questão é um direito fundamental social. Recentemente, em seu boletim informativo de maio/junho de 2012 (p. 8-10), a CONFENEM – Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino, veiculou uma matéria desencorajando os estabelecimentos de ensino privado tanto a aceitarem a matrícula de alunos com deficiência – com base nos custos adicionais que a prática comportaria – como até mesmo a redirecionar a oferta de matrícula para a rede pública, ofendendo concomitantemente a Constituição Federal, o ECA – Estatuto da Criança e Adolescente, a LDB – Lei de Diretrizes e Bases de Educação e outros dispositivos legais.

A ofensa a estes dispostivos legais é a alegação da AMPID – Associação Nacional dos Membros do Ministério Público de Defesa dos Direitos dos Idosos e Pessoas com Deficiência que em nota pública se posicionou contrariamente ao teor do conteúdo divulgado no boletim da CONFENEM, além de procurar esclarecer a sociedade quanto às obrigações dos estabelecimentos de ensino privado tanto em oferecer matrícula quanto em assegurar a permanência de alunos com deficiência nas escolas regulares. Para a AMPID, a garantia da inclusão dos alunos com deficiência deve ocorrer na rede comum de ensino, que abrangeria o ensino público e o privado, sem prejuízo aos direitos dos alunos ou que se caracterize, em decorrência da matrícula, qualquer tipo de ônus discriminatório.

Educação inclusiva: histórico recente

No Brasil, desde meados dos anos 90 o termo “educação inclusiva” vem se popularizando, na mesma medida em que se constitui cada vez mais uma realidade no cotidiano de muitas escolas Brasil afora, mas sem deixar de ensejar muita confusão. Isso é natural, uma vez que os serviços de educação especial, no Brasil, estavam organizados há décadas sob outro paradigma, o da escolarização especial. Aqui mesmo, na diferenciação entre educação especial e escola especial, já começam muitas das confusões que permeiam o debate sobre educação e deficiência no Brasil contemporâneo, longe de se esgotar por aqui.

Mas por que há tanta confusão, se há leis (que deveriam ser a representação legal da vontade popular) orientando o assunto? É simples: mesmo as leis não são consensuais e a realidade social não é uniforme, mas dependente de muitos fatores, tais como contexto local, histórico, entre outras coisas. Isso significa que não se deve esperar que a realidade de um grande centro urbano, por exemplo, seja semelhante à de uma pequena cidade do interior ou às zonas rurais, ou que os recursos de que dispõem as escolas privadas possam ser comparados ao orçamento que chega aos bancos escolares da rede pública. Muito menos que o desejo e expectativas de familiares de crianças com deficiência encontre acolhimento total entre os diferentes estabelecimentos de ensino. Ainda assim, é necessário ter em mente que os direitos dos alunos com deficiência estão garantidos por lei e afrontá-los constitui infração legal passível de investigação e punição.

Do ponto de vista legal, desde 2009 os alunos com deficiência e suas famílias ganharam o reforço da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao texto constitucional e que se ocupa do direito à educação em seu art. 24. Ali fica expresso, entre outras coisas, que nenhuma pessoa poderá ser discriminada em razão de sua deficiência. Apesar do aparato legal e constitucional, é exatamente o que continua acontecendo, basta que se verifiquem as queixas constantes de violações ao direito à educação e matrícula que povoam tanto as reportagens jornalísticas quanto outros meios, como as redes sociais, em grupos de mútuo apoio criados por familiares nos quais o tema é recorrente.

As violações não param por aí e, no que diz respeito à educação, cada vez mais as pessoas percebem a importância de recorrer à justiça nestes casos e não são raras as decisões judiciais que inclusive penalizam os estabelecimentos de ensino, garantindo o acesso e permanência dos alunos com deficiência nos bancos escolares. Por muito tempo, entretanto, situações assim eram resolvidas de outra forma. Bastava que se encaminhassem os alunos às escolas especiais para que tudo estivesse resolvido. Mas o que se estava resolvendo efetivamente dessa forma? A percepção social mais simples indicava que havia um espaço social que seria o “apropriado” para as pessoas com deficiência, um espaço à parte, no qual suas especificidades poderiam ser consideradas individualmente, mesmo que em prejuizo de seu desenvolvimento social. De outra parte, não havia tão presente o desejo por inclusão social e a vida comum das pessoas estava impedida para os “diferentes”. Para estes, tudo era especial e diferenciado. As próprias pessoas eram chamadas de “pessoas especiais”, mesmo que o que se concretizasse, de fato, fossem experiências de vida altamente circunscritas e limitadas.

O mito da escola “preparada”

No passado recente, mesmo subsistindo alguma preferência pelo ingresso em escolas especiais, muitas famílias quebraram o cerco e concretizaram a escolarização de seus filhos nas classes comuns. Em março deste ano, o Correio Braziliense noticiou que, até o momento, apenas sete pessoas com síndrome de Down, por exemplo, haviam concluído algum curso superior no Brasil inteiro. O número de matrículas na rede regular, entretanto, é cada vez maior e a perspectiva é de que este número logo seja bastante incrementado.

De 2003 para 2011, o número de alunos com deficiência ou doenças crônicas, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação teria crescido, segundo o Ministério da Educação, 164%. De acordo com o MEC, em 2003, 28% dos alunos que precisavam da educação especial estudavam em classes comuns e o restante, em classes especiais. Em 2007, o percentual desses alunos incluídos nas classes regulares chegou a 54% e, no último ano, a 74%, com 752 mil estudantes inscritos.

Uma das principais razões pela qual se tem obstaculizado sistematicamente o direito à educação dos alunos com deficiência pode ser tomado como uma espécie de perene falta de preparo, na qual a educação inclusiva é muitas vezes refutada com base em uma alegação repetitiva: o despreparo institucional e docente. Caso se tratasse apenas de uma questão de tempo, não há o que justifique ainda tamanho atraso, haja vista que as primeiras recomendações em prol da educação inclusiva já têm quase vinte anos, como se observa na Declaração de Salamanca e subsequentes orientações em relação à política de educação especial. Há que se encontrar, portanto, outras razões que justifique a permanência da alegação de despreparo, ou então arregaçar as mangas.

Na prática, a oferta de especialização em educação especial com enfoque inclusivo tem se multiplicado a cada ano, em todas as regiões do país, no âmbito das universidades públicas e privadas, além da expansão dos programas de formação continuada oferecidos pelo MEC, e pelas secretarias estaduais e municipais de educação. Entretanto, nem por isso o cenário é estável, como se observa mais uma vez, num momento em que as entidades responsáveis por agregar os estabelecimentos de ensino privado esboçam uma reação intensa ao processo de inclusão escolar, que consistiria um estorvo aos estabelecimentos de ensino privado.

A ação da AMPID, nesse caso em específico, busca a conscientização de instituições e pessoas de que o marco legal vigente continua – e mais do que nunca – apontando para o sentido da inclusão social e que o respaldo institucional a práticas discriminatórias também conta com vigilância e oposição. Ainda no âmbito do judiciário, recentemente o Ministério Público de São Paulo lançou o Guia Prático: O Direito de Todos à Educação. A iniciativa visa subsidiar a atuação de promotores de justiça em relação aos direitos humanos das pessoas com deficiência e muito em breve deverá ser distribuida inclusive virtualmente a todos os interessados.

Adversa diversidade

Assim como todas as pessoas, tenho meus sonhos. Não me refiro ao sonho em seu sentido figurado, o “sonho acordado”, mas o sonho que se sonha dormindo, o sonho real. Nem todas as pessoas têm sonhos que se sonham acordado, mas não há quem não sonhe os sonhos que se têm ao dormir. O sonho acordado é um desejo presente, enquanto que o sonho que acontece durante o sono normalmente se dá sem que se tenha qualquer domínio sobre ele. É como algo que acontece à revelia da vontade da pessoa. Tem certo caráter invasivo, por assim dizer. Meu último sonho tem sido assim, invasivo, e tem-se repetido periodicamente, de forma que, quando estou prestes a esquecê-lo, acabo por sonhá-lo mais uma vez. Não é um sonho persecutório e nem o classifico como um pesadelo, tudo o que acontece é apenas a trivialidade de um passeio em família e uma espécie de efeito-cascata que se dá a partir do encontro de pessoas no passeio público. Conto em detalhes a seguir.

O sonho começa com a presença da minha família, nós e nossos dois filhos, no parque da cidade – estamos indo rumo à praça de brinquedos. A cada passo que damos, envelhecemos, de forma que meus filhos (ainda crianças) vão se tornando adultos em uma velocidade galopante, na mesma medida em que nós – os pais – vamos tornando-nos mais velhos. O processo acontece com todas as pessoas, todos estranhos a nós, que também estão por ali. Podemos assistir o tempo movendo-se a mais ou menos um ano por cada passo. Caminhamos lentamente, de modo que é possível notar o efeito da passagem do tempo em todos os seres vivos, até mesmo nas árvores e animais. Apenas os objetos permanecem idênticos, não se deterioram, intocados pela ação do tempo.

No caminho até a praça de brinquedos, meus filhos já se tornaram adultos e, dali em diante, são quase eles que nos levam pela mão, a passeio, como em papeis invertidos. Todos os demais transeuntes também mudam o que estão fazendo, alguns dão meia-volta e tomam outro caminho, como se fossem despertos de repente de um encantamento. O cão que acompanha o pipoqueiro e o próprio pipoqueiro são os únicos que permanecem no mesmo lugar. As crianças correm (parece que elas sempre correm) e crescem mais rapidamente do que aqueles que apenas caminham. Tudo acontece em cerca de dez ou quinze passos, espaço suficiente para que meus filhos se tornem adolescentes e nós, seus pais, comecemos a dar sinais de velhice. Não há medo ou receio algum diante do que está acontecendo. Não se trata de um pesadelo. O sonho finalmente acaba com meu filho evitando o abraço de um mendigo que se cria a partir de um menino de rua com o qual está brincando no começo da cena e procurando o abrigo de sua irmã, que ao mesmo tempo deixa o local com outros adolescentes que estão por ali. Nós, os pais, apenas acompanhamos a cena, não intervimos nela. Assim se dá o sonho que tem me perseguido e, por mais que eu possa querer, não há nada que possa fazer para mudá-lo. É assim que ele me vem, há algumas noites já.

Para mim, parece que o sonho dura poucos instantes, apesar da imensa curva que o tempo faz ali. O mais estranho, em meu juízo, é o que acontece em seu final: meu filho evitando a companhia do mesmo menino (também crescido) com o qual há pouco brincava, transformado em pedinte. Algumas pesquisas científicas apontam que as pessoas que nascem com a síndrome de Down, é o caso de meu filho, tem o sistema límbico (responsável pelas emoções) diferenciado, o que explicaria pelo menos em parte a tendência aparente que têm muitas dessas pessoas em privilegiar os aspectos afetivos e emocionais do comportamento. Isso poderia explicar o que comumente é tomado por uma “docilidade genérica”, supostamente verificável entre essa população.

Pode ser que isso corresponda à realidade e também pode ser que não, mas na prática comprovo que meu filho dificilmente evita o abraço de quem quer que seja. Por isso me assusto um pouco em constatar que, no processo do sonho, ocorra algo que na vida real também possa se repetir. Esse gesto de recusa. Essa diferenciação. Essa adversidade à diferença e sua respectiva construção cultural. Uma interpretação apressada me faz pensar que os preconceitos talvez sejam mesmo inevitáveis, constituindo um sentido de proteção cultural contra a ameaça da diferença. E que mesmo ao procurar-se evitá-los, eles florescem, porque sua origem está nas relações sociais e não no desejo de cada um, seja este quem for.

Na Interpretação dos Sonhos, Freud procura mostrar formas de como acessar os mecanismos inconscientes que povoam os sonhos, para extrair dessa matéria-prima em estado bruto indícios através dos quais seja possível deslocar forças psíquicas bloqueadas de forma inconsciente e trazê-las ao terreno da análise. Tomado por séculos como fonte de predição futura e até mesmo comunicação sobrenatural, o sonho faz parte da vida de todas as pessoas. O fato é que é impossível não reagir a ele com estranhamento, como se fosse algo que pertencesse a outra esfera de consciência. Talvez comprove a tese de que se trata de um processo de elaboração de experiências e apreensões o fato de que dificilmente sua lembrança seja duradoura. A menos que se registre, em poucos dias a memória dos sonhos se desvanece, assim como os efeitos de sua impressão. Não é o caso de um sonho que se repete, como o meu. A cada vez que sonho novamente com a cena, a lembrança se torna mais nítida e posso perceber em detalhes a evolução dos acontecimentos, embora jamais possa interferir neles. Em meu sonho, não faço nada para que meu filho se afaste do seu parceiro de brincadeiras, mas também não percebo com nitidez as razões pelas quais ele próprio passa a agir de forma menos amistosa. É um tipo de paralisia e de impotência, talvez da mesma espécie da que nos impede de, na vida real, evitar um gesto que mudasse a aparente “ordem natural” das coisas.

Esse processo social que acontece em meu sonho em velocidade espantosa eu percebo que também acontece de certo modo na vida real, ainda que noutra escala. Talvez eu devesse comemorar o fato, que também poderia significar que meu filho possa estar começando a compreender os limites da própria individualidade mas, no íntimo, temo que as relações sociais o estejam embrutecendo, como de modo genérico se pode verificar nas relações humanas. Em meu sonho, muito pouco eu posso fazer no sentido de interferir no afastamento que se dá entre ele e seu parceiro de brincadeiras e eu penso que, na vida real, isso também seja em certa medida verdade. A questão que se coloca é: o que se pode fazer na vida real a esse respeito? Ao fim de tudo, não seriam os preconceitos naturalizados pela própria história e pela dinâmica social?

Trata-se de uma visão pessimista, já que boa parte da alusão que se faz à diversidade humana dá conta de um sentimento global unívoco. Mesmo que isso faça desmoronar a crença em que haja um tipo de equilíbrio homeostático no convívio social, é sem assombro que assistimos esse tipo de valor cultural sobressair-se em relação a outros que poderiam mostrar que um mundo mais harmônico fosse efetivamente possível. Na verdade, temo que sempre que se fale em respeito à diversidade se esteja falando apenas no direito de cada um viver sua vida como bem quiser, a despeito de todos os outros. Alguns anos antes de falecer, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, em comemoração ao 60º aniversário da UNESCO, escreveu que o tempo não corre sempre no mesmo sentido e que novas diversidades estão sendo sempre gestadas. Eu fico tentado a imaginar em que tipo de fenômeno essa tese poderia se confirmar, se é o próprio Lévi-Strauss quem propõe o acirramento das identidades culturais como forma de afrontar certa tendência à uniformização globalizante. E de tanto imaginar este cenário, talvez eu o tenha sublimado a ponto de tentar abordá-lo em sonhos, já que toda a diversidade de que a sociedade dispõe hoje não tem melhor uso que um mero sentido distintivo entre uns e outros, mesmo que se trate das mesmas pessoas, compartilhando um mesmo tempo histórico, mas em condições diversas.

Talvez meu sonho queira me alertar que o caminho para um convívio humano mais harmonioso esteja bloqueado pela qualidade do que é inerente às diferenças. E que a passagem do tempo só faz abreviar o abismo que fatalmente nos aguarda, sejamos pais ou filhos, negros ou brancos, homens ou mulheres, tenhamos ou não alguma deficiência, como a tem meu filho. Daqui a alguns anos, naquela mesma praça, como num déjà-vu, estarei diante do passado, não mais de um receio pelo futuro, e pensarei nas noites em que vi com meus próprios olhos a diferença se estabelecendo, sem margens, entre duas crianças que apenas procuravam brincar juntas, mas para quem o tempo histórico foi inclemente no sentido de desfazer a intersecção, o encontro dessas duas pessoas. Como num filme, o sonho mostra minha impotência em alterar o rumo dos fatos. Talvez, na vida, não nos restem mesmo alternativas. A única diferença que importa aqui é que não se pode acordar da vida, mas apenas dos sonhos. Se somos nós que tornamos a vida um pesadelo, é justo pensar em outros desfechos. É para isso, inclusive, que estamos vivos e não dentro de um sonho.

Prepare-se para cair

Eu não sabia que Diogo Mainardi escrevia sobre capoeira, até que terminei, em cerca de 120 minutos, de ler A queda. É uma novidade que me faz olhar mais uma vez para a capa do livro como quem olha para um pedestal, já que o seu efeito imediato não é outro que o de uma rasteira, de uma rasteira de só quem frequentou muito o chão sabe desferir. Minha dificuldade no momento é me recompor da minha própria queda, providenciada pela leitura do livro, mas é daqui mesmo, do chão, que posso avaliar melhor o estado de coisas antes e depois da leitura porque, por minha própria experiência, atesto que estar em pé é uma transição permanente, um tipo de concessão da gravidade ou, como para muitas pessoas, um desafio da vontade, uma experiência cuja compreensão requer boa parte da energia de viver.

A queda é um livro econômico. As frases são objetivas. Os trechos são curtos como comunicados, o que dificulta um pouco a tarefa de classificá-lo em algum dos gêneros literários disponíveis. Em determinados momentos, lembra um caderno de notas ou um tipo de blog impresso. É dentro dessa forma imprecisa que nasce a tensão do livro, suplantando a própria necessidade de classificá-lo, por mostrar um Mainardi tal como ele é, pelo caráter confessional e autobiográfico que reconstrói em 424 passos uma trajetória na qual ergue-se e pode caminhar com o filho Tito, seu pequeno búlgaro, e onde enfim pode tombar o próprio Diogo.

Não faz muito tempo que os pais, os homens, frequentam o chão. Antes dos hippies, a masculinidade vivia como numa clausura, na imagem de um eterno galanteio como os atores de Hollywood ajudaram a fixar. De terno e gravata ninguém vai ao chão. E a própria noção do chão enquanto espaço infantil é igualmente recente. Foi a médica e pedagoga italiana Maria Montessori uma das primeiras pessoas a considerar o ângulo próprio da infância, de quem vê de baixo um mundo gigantesco. Para ela, que inclusive chegou a conceber espaços pedagógicos miniaturizados, são as crianças que gestam o homem, e não se pode pretender mudar este último sem valorizar a experiência daquelas. Nada como uma criança, como um filho com deficiência, para deitar ao chão a inutilidade da formalidade, para sujar a alvura do distanciamento, para valorizar o que efetivamente importa, para reduzir a nada as imagens cristalizadas. Como se pode saber em A queda, foi Tito quem acostumou Mainardi ao chão, para que ele pudesse ver-se livre inclusive da imagem que se colou a ele ao longo da última década, quando Mainardi encarnou um tipo de personagem de si mesmo, angariando tanto a devoção de alguns quanto o ódio de seus detratores.

Como ele mesmo diz, o livro o deixou nu. Parece impossível, aliás, que um homem trate da paternidade sem que fique nu, para o bem ou para o mal. Mainardi não foi o primeiro pai a escrever sobre a vida com um filho com deficiência, mas foi o primeiro a abordar a paternidade a partir do seu efetivo exercício. A queda é autobiografia em estado puro. Não há personagens ali. Não há trama. Não há cenário senão uma colagem de referências que arquitetam e refazem lugares, trajetos e situações que fazem todo o sentido para o livro, justamente porque fazem parte da vida do autor. Não há uma construção, mas um tipo de descolamento que deixa ver um pai e um filho através de pequenas confissões capazes de destruir a imagem de um pai poderoso e recolocar em seu lugar um pai como qualquer outro, nem sombra de um pai “especial” ou “escolhido”. Como bom capoeirista, ele derruba num golpe só a fantasia heroica e o abandono depressivo, deitando ao chão quem sabe e não sabe cair, levando de roldão o desamor que tem se fixado junto à literatura sobre filhos com deficiência.

Repetindo, A queda é autobiografia em estado puro. Ali estão um pai, um filho, uma mãe, um irmão e outras pessoas, não personagens, que marcaram suas vidas indelevelmente. Não há espaços vazios, silêncios, fantasmas do filho desejado ou laivos de rancor e decepção. Mainardi ama seu filho como ele é e faz de seu livro um tipo de ode à paralisia cerebral, sem envergonhar-se disso. A queda consegue a façanha de colocar “felicidade” e “deficiência” numa mesma frase, sem efeito algum a não ser o da própria realidade. Talvez Diogo não saiba quanta felicidade isso pode causar principalmente aos pais de outros filhos com alguma deficiência, porque a um tempo só torna possível abandonar o tom trágico que cerca o tema e abraçar a realidade da vida como a vida pode ser, com ou sem paralisia cerebral, com ou sem alguma deficiência. O testemunho dos 424 passos de Tito não permite saber aonde ele vai, mas permite saber que ele logrou sua ida e que há um pai que o permitiu, que há uma paternidade para este filho que passa a viver, ao cabo da leitura, livre da contabilidade de seu sucesso ou fracasso, mas cada vez mais dono de sua própria vida.

O futuro é uma astronave

Um menino olha para uma astronave - captura de "Aquarela", de Toquinho

Desde priscas eras um dos grandes fascínios dos seres humanos tem sido perscrutar o futuro, aquilo que não veio ainda, o desconhecido. Isso se refere tanto a lugares não idos (como na atualidade o mundo interplanetário ou, nos tempos remotos, o continente vizinho), seres não vistos pelo olho humano ou até mesmo situações inimagináveis. Duas soluções elementares, mas não complementares, foram organizadas a partir do dilema da eterna permanência no agora lá no extinto tempo dos ancestrais e que vicejam ainda hoje. A primeira é a investigação científica, o desenvolvimento de seus métodos e resultados técnicos e, a segunda, o livre exercício da imaginação ficcional, expresso desde a mitologia antiga até o pleno desenvolvimento do gênero sci-fi na atualidade. Hoje parece que as duas vertentes enfim aprenderam a conviver, embora muitas vezes pareça que uma queira assumir o lugar da outra. É a impressão que se pode guardar a partir da notícia, publicada inicialmente na Human Reproduction, de que já nasceram e estão entre nós as primeiras crianças geneticamente modificadas do planeta.

A notícia é embaraçosa, mas nem tanto quanto a de que o homem que durará 1.000 anos possivelmente também já tenha nascido, e ande por aí em algum lugar deste mundo, vivinho da silva. A soma assombrosa de anos resultaria do produto da adição de biotecnologia de ponta, nanotecnologia, super-fármacos mais um punhado de engenharia genética aplicada. Não seria mais fantasioso imaginar que possam, inclusive, tratar-se da mesma pessoa. Quem mais teria condições de reunir características tão abismais que uma criança que, ao nascer, já trouxe programadas as informações que o converteriam num tipo de Matusalém pós-moderno? Por sorte ou azar (é difícil decidir), essa pessoa ainda é um modelo perceptível apenas no terreno da ficção científica, tendo os geneticistas preocupados com os problemas reais do ser humano, já derrubado a teoria aventada por Aubrey de Grey, que trouxe para o campo científico especulações espetaculosas, ganhando as luzes de uma mídia interessada em números impressionantes e declarações apenas presumivelmente científicas.

Famoso por apresentar, no canal de divulgação científica Discovery Channel, programas como “A Física do Impossível” e “O Mundo do Futuro”, baseados em seus livros, o físico norte-americano Michio Kaku personifica como ninguém a releitura das pitonisas de Delfos ao alardear previsões estupefactantes, para um futuro próximo, como o fim do câncer e dos computadores com a facilidade de quem anuncia o possível resultado de uma partida de futebol. O físico, entretanto, não opera com enigmas, mas a partir de especulações que contam, segundo ele, até com data para concretizar-se. Kaku é um pesquisador que prolonga o estudo de algumas teorias quânticas, como a da teoria das cordas, e faz da popularização do conhecimento científico e de especulações tecnológicas e desenvolvimentistas produtos que encontram interessados em muitos lugares, inclusive em canais televisivos pretensamente sérios e editoras comerciais.

Kaku poderia seguir o caminho de divulgação científica, iniciado pelo astrônomo Carl Sagan e, mais recentemente, por Richard Dawkins, mas se distancia destes ao travestir-se numa espécie de pregador da tekhnè, do saber fazer, buscando na imaginação e na fantasia argumentos capazes de converter uma população fascinada pelas possibilidades da tecnologia às teorias transumanistas, corrente de pensamento da qual é um dos principais entusiastas. O humanismo encontrado no trabalho de Sagan, por exemplo, não se presta ao ofício do convencimento, mas do ceticismo, razão pela qual se diferenciam radicalmente. Mas o transumanismo vai um pouco além de pretensões científico-filosóficas ao postular ideais pouco científicos, coisas como a imortalidade corpórea ou super-capacidades.

Entre outras coisas, o transumanismo considera desnecessário que o homem conviva com limites impostos pela natureza, como o sofrimento, as deficiências, doenças e, principalmente, o envelhecimento. Conta-se que seus seguidores e expositores já se preparam, inclusive a partir da ingestão de substâncias e medicamentos, para uma vida longeva e longe dos males que afetam os seres humanos comuns, sem se preocupar se isso venha a se confirmar ou não, porque, apesar de travestir-se de um tipo de neo-filosofia, o transumanismo não deixa de ser um tipo de crença, de culto, já que não se limita a explanar princípios e procurar comprovação teórica, mas chega a buscar seguidores entre pessoas ávidas por superar a condição humana, o que nas bordas do séc. XXI tornou-se algo aparentemente irresistível.

O que a ciência normal garante, por outro lado, é que mesmo que seja viável uma ampliação da expectativa de vida em alguns dos termos dos transumanistas, a precariedade do corpo físico e o declínio das funções vitais continuam garantidos, até porque o grande investimento que é feito na indústria de fármacos atual, via Big Pharma, consiste em medicamentos de uso prolongado que não buscam curas definitivas para os males terrenos, mas tornam os seres humanos dependentes de medicamentos de uso contínuo e, consequentemente, criaturas doentes. É o que alguns cientistas, como o Nobel de Química de 2009, o americano Thomas Steitz, têm denunciado ao apontar o abandono de pesquisas de sucesso em prol da manutenção do mercado da doença e da cura.

Imaginar o futuro é um exercício tão antigo quanto os exercícios de mecânica celeste que os gregos e outros povos antigos faziam ou as maravilhas legadas à humanidade por gênios como Leonardo da Vinci, o que se pode comprovar a partir de seus esboços. Imaginar os recursos que estarão disponíveis no futuro é parte do desenvolvimento científico e tecnológico e uma necessidade incessante de reescrever-se o futuro, já que o tempo presente é sempre acachapante, é a própria realidade. Mas conhecer a realidade está longe de ser a finalidade exclusiva da ciência. A necessidade de modificá-la pode ser seu verdadeiro motor, quer seja para uma exploração mais efetiva dos recursos naturais ou para qualificar-se a experiência da vida humana, nem que a partir de pesquisas laboratoriais. Dessa necessidade provavelmente resultam também as pesquisas que se utilizam da manipulação genética do ser humano, como no caso do anúncio dos bebês geneticamente modificados, o que leva a pensar-se em outras coisas também, como o aborto seletivo ou os assim chamados designer babies, ou seja, crianças feitas sob medida, possibilidade questionada por boa parte dos bioeticistas.

Sob o apelo de criar-se pessoas totalmente livres de imperfeições, deficiências ou doenças derivadas de causas genéticas, laboratórios que se utilizam das técnicas de reprodução assistida têm sido pródigos na oferta comercial de descendentes livres de defeito ou, como em até alguns casos, pessoas com características previamente definidas. Inicialmente destinados às pessoas com problemas na reprodução, mas ainda assim desejosas por perpetuar a espécie, não é difícil imaginar porque muitas pessoas têm procurado ajuda nesse sentido. Em sã consciência, todos desejam uma vida livre de percalços, principalmente se estes podem ser evitados através do simples descarte de embriões “defeituosos”. Essa é a promessa das técnicas de diagnóstico pré-implantação para doenças hereditárias – DGPI. Mais do que uma promessa, uma realidade concreta que tem aberto a possibilidade de uma intervenção ainda maior naquilo que a natureza costuma resolver como numa espécie de loteria. Trata-se de um domínio da técnica como há poucos séculos quase ninguém ousaria imaginar e que, tratado sem o cuidado ético devido, resulta em situações e problemas que já vem afetando a realidade em alguns países.

O recente desenvolvimento de tecnologias de detecção de alterações cromossômicas para gestantes através da simples análise sanguinea (não se trata do mesmo que o DGPI, destinado a embriões não implantados) vem causando um abalo profundo nas taxas de natalidades de crianças com síndromes genéticas, como a síndrome de Down por exemplo, e isso tanto nos países em que o aborto é garantido por lei como naqueles em que é vedado, chegando-se a reduções que beiram os 90%, de acordo com a Down Syndrome International. Alguns paises europeus já começam a seguir o exemplo da Nova Zelândia, que recentemente teria adotado como política governamental o encaminhamento de gestantes com filhos diagnosticados com síndromes genéticas à interrupção gestacional, ao invés de promover o aconselhamento genético.

É o que denunciou ao Tribunal Penal Internacional um grupo de pais de crianças com deficiência, alegando que a política pública lá adotada tem características de genocídio. Segundo um dos líderes do movimento, o governo de seu país agiria por razões econômicas, competindo o nascimento de crianças com deficiência em custo do qual a sociedade poderia desobrigar-se, segundo o raciocínio adotado. Outros países, como Alemanha e Inglaterra, também já estariam estudando formas de inserir os novos exames em seus respectivos programas públicos de rastreameto pré-natal sem que isso, contudo, signifique que se adotem políticas semelhantes às da Nova Zelândia. A tecnologia estaria causando o confrontamento, segundo reportagem da Deutsche Welle, das opiniões de cientistas, juristas, religiosos, ativistas feministas e a própria comunidade de pessoas com deficiência. Para o ator Sebastian Urbanski, que nasceu com a síndrome de Down, se estaria apenas fazendo seleção eugênica. Em um debate, ele teria calado os presentes ao dizer que “também somos seres humanos”.

Se aceitar a condição humana e, com ela, os devidos entraves naturais, pode ter se tornado insuportável para as pessoas no mundo contemporâneo, a necessidade de que um conjunto de ideias forneça as respostas e soluções é cada vez mais imediata. A ficção científica da literatura e do cinema, como ocorreu durante todo o séc. XX, parece ter deixado de satisfazer uma sociedade que tem se acostumado a portar consigo, e cada vez mais, recursos da tecnologia da informação, trazendo desde já uma aparente imersão no futuro. O Admirável Mundo Novo de Huxley em muitas coisas já envelheceu e a ética do mundo liberal vem se mostrando cada vez mais insuficiente para dar conta das diferenças e complexidades emergentes de um planeta que começa a mostrar seus limites geofísicos, apontando para problemáticas também impensáveis há cerca de um século, como a sustentabilidade e os novos entraves biopolíticos a um projeto econômico global que aporta em pleno séc. XXI com muito pouca renovação, se comparado ao desenvolvimento tecnológico do qual hoje se dispõe.

O cenário é palco de questões que envolvem não apenas as decisões globais ou sociais mas, principalmente, repercutem no âmbito do indivíduo, na esfera pessoal, na vida de cada um. Se as técnicas de DGPI irão ou não levar aos designer babies, se o aborto seletivo será dado como faculdade do juízo meramente individual de uma sociedade que se acostuma cada vez mais a gozar de todos os predicados da democracia ou, pelo menos, aquelas pelas quais é possível pagar para obter-se, se a imaginação ficcional sucumbirá a realidades plenamente acessíveis e o homem chegar mais próximo da imortalidade, como querem os transumanistas, é este o sinal definitivo de que uma nova humanidade já está aí? De que os limites, a despeito de não encontrar-se imediatamente uma contrapartida social que sequer solucione problemas elementares como a fome e a violência, serão dados apenas por saltos tecnológicos, como elos de uma cadeia evolutiva sem fim, em um mundo tão ideal quanto os imaginados por ficcionistas, sem circularidade ou história?

Não é o que pensa, por exemplo, o historiador Francis Fukuyama, o próprio ideólogo do “fim da história”, para quem as mudanças e os problemas de um mundo serializado e uniformizado seriam insustentáveis porque a sociedade planetária estaria em dívida ainda com problemas com origem na Idade Média, como fundamentalismos religiosos e a miséria. Se sim ou se não, se melhor ou pior, é preciso decidir, antes de ir com pressa ao futuro, a que futuro se pretende ir, antes que não reste alternativa – como no cinema de ficção mais pueril – a partir para a vida em outros planetas (possibilidade também já divulgada na mídia, com direito à passagem exclusiva de ida), por culpa da inutilização das próprias condições de vida na Terra e apesar de todas as promessas por novas engenhocas e de toda a fé que se possa extrair das novas ideologias tecnicistas. Pelo menos até agora, são ideias que têm se mostrado incapazes de sobrepujar as mazelas próprias dos seres humanos como igualmente aquelas que eles, no exercício do seu livre arbítrio, vêm escolhendo como destino a despeito de todas as previsões possíveis.

Quem segura a peteca dos jogos olímpicos?

Desde criança gosto de esportes, tendo tentado a prática amadorística de algumas modalidades, no passado. Hoje me satisfaço com bem menos. Assistir as Olimpíadas, por exemplo, praticamente supre toda minha ansiedade atual por competição esportiva. Para mim todos ali são heróis mas, para a crônica especializada, parece que a coisa não é bem assim.

Heróis haveriam poucos, só os grandes vencedores mereceriam essa denominação. Ou então aqueles que, estropiados pela fadiga, reúnem forças a partir de algum lugar remoto do próprio corpo ou do espírito e vencem percursos naturalmente intransponíveis, ao custo de sobrepujar os limites físicos e desafiar a resistência humana. Mas, enfim, eles próprios parecem satisfeitos com seus feitos e, sem dúvida alguma, estão satisfazendo a muitos consumidores da adrenalina e sofrimento alheios.

A coisa toda é um espetáculo não fosse a imensa discriminação desportiva instalada principalmente através do jornalismo esportivo, que se resume praticamente num jornalismo de celebridades focado nos heróis, “gênios” e superstars do esporte. Não vai muito além disso.

Estava assistindo a um desses jogos de basquete, minha modalidade preferida, e percebi pelos comentários televisionados que se trata de um reduto de gênios, isso mesmo, gênios, principalmente os da equipe norte-americana. Assim como são alguns futebolistas da equipe brasileira, alguns cavaleiros do hipismo, atletas da vela, do tênis e de alguns outros gêneros, principalmente entre aqueles esportes cujos exponentes são milionários, ou seja, meia dúzia deles.

Portanto está lançado o desafio de encontrar-se ao menos um gênio do arremesso de martelo, do badminton, do levantamento de peso ou até mesmo da ginástica rítmica (na artística, com bom patrocínio, se conseguem bons adjetivos). Estes, no máximo, são atletas esforçados. Não fazem mais do que sua obrigação ao competir, mesmo que a duras custas. Seu problema não é QI, mas cachê. Essa é a história que está sendo escrita sobre a Olimpíada de Londres, a qual, como na própria história recente do mundo, há para cada superstar uma respectiva legião de invisíveis segurando a peteca.

Os demais, notados justamente pela derrota, podem enfim saber que seu mérito e dedicação não valem sequer poucos segundos de glória, logo destruidos pela imagem pujante dos vencedores. São pessoas coisificadas, prestes a serem substituidas por outras de performance superior e não se cogite que as próximas edições das Olimpíadas serão diferentes, já que esta modalidade de escrita parece já fazer parte do assim chamado “espírito olímpico”, do qual tanto se comenta mas muito pouco se pratica.

As sombras da ação

Em sua obra literária mais conhecida, o italiano Umberto Eco propõe, além de uma fascinante aventura policialesca em torno do conhecimento e seus efeitos terrenos em plena era medieval, uma questão de fundo muito presente na época em que se passa O Nome da Rosa, e que permanece ainda hoje como um dilema não resolvido pela linguagem humana e por aqueles que a estudam ou, pelo menos, dela se valem. Consiste na atribuição de palavras, ou nomes simplesmente, mas não conceitos, como definidores da realidade.

Caso se tratasse de algo pacífico, provavelmente não se teria na atualidade a difusão de tantos substantivos tomados como adjetivos, principalmente quando o que se procura é definir as características dos seres humanos. Tomando-se por ponto de partida o uso comum de termos relacionados às diferentes deficiências que podem acontecer ao homem (físicas, sensoriais, intelectuais ou múltiplas), é relativamente simples observar com que facilidade as pessoas tomam o nome pela característica, como se além do nome nada houvesse a considerar a respeito das pessoas. A profusão de textos, inclusive os muito sérios, denominando pessoas, quando se quer dizer outra coisa, como autistas, cegas, surdas, loucas ou retardadas é um exemplo claro da preguiça mental que simplifica o humano pelo que nele é mais visível e substitui sua representação, não por um conceito, mas por um preconceito, na medida em que o uso destas palavras tem exclusivo sentido pejorativo.

Se na baixa Idade Média o nominalismo surgiu como forma de questionar alguns dogmas impronunciáveis do cristianismo de outrora, o denominalismo de agora parece não ser nada além de um grande esforço reducionista. Não se diz de uma pedra que ela é imóvel ou a chuva molhada, mas facilmente se diz que alguém é cego, surdo, autista ou retardado como forma de explicar alguma incapacidade pessoal, ou uma característica de não-ser. Exclui-se rapidamente a pessoa do conjunto normal de pessoas e se a toma por um objeto de generalização. A pressa em veicular a mensagem justifica qualquer coisa, é o que parece estar cada vez mais claro.

Assumindo-se o discurso, não seria equívoco inferir que todo cego é um sujeito alienado (muitas vezes até por opção própria, como “aquele que não quer ver”), todo surdo um sujeito indiferente (como “aquele que não quer ouvir”), toda pessoa com deficiência intelectual um incapaz, e todo autista um tipo alheio ou ausente. Provavelmente poucos gostariam de postular tais afirmações, mas, de maneira implícita, é um discurso comum que povoa jornais, revistas e outros gêneros de literatura informativa, encontrável até na escrita de pessoas experientes.

Na internet, onde textos apócrifos são atribuídos a autores consagrados. Um poema de um suposto Mario Quintana consiste em exemplo que consolida esse tipo de pensamento. Basta que se verifique os seguintes versos: “(…) ‘Cego’ é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores./ ‘Surdo’ é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês./ ‘Mudo’ é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia./ ‘Paralítico’ é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.(…)”

Muito provavelmente o autor de Baú de Espantos nunca fora tão pouco sutil, característica marcante de sua produção poética. De qualquer modo, seu nome é emprestado a um texto tão taxativo quanto uma bula de medicamento, consolidando estigmas sob uma forma pretensamente poética. Poucas pessoas não terão passado por estas linhas e, infelizmente, muitas não terão percebido que o poeta gaúcho nada tem a ver com elas.

Versos como os acima, entretanto, são inofensivos se comparados à fúria denominativa que domina estes dias. Presentes em certo humour que arrasta milhões de seguidores ávidos por qualquer grunhido intelectual e até mesmo na plataforma eleitoral de políticos que usam os termos como xingamentos, sua vulgarização implica na naturalização e compartilhamento da estupidez, onde nada se troca de verdade, mas tudo se reproduz viralmente. Haverá quem diga que se trata de mais um patrulhamento do “politicamente correto”. Pode até ser correto o pensamento, porque felizmente não se encontra quem empregue na escrita, de forma pejorativa, termos como “gay”, “negro”, “gordo”, etc. Pode ser que se trate apenas de uma equanimidade de tratamento. Não seria pouco, nem tampouco tolice.

Quando uma criança adquire suas primeiras palavras, dificilmente ela precisará criar um novo vernáculo. Ela usará as palavras de seu meio social, sua família em primeiro lugar. É compartilhando significados e emprestando-se pronúncias que os conceitos se formam. A linguagem, portanto, é um produto social, não é necessário que se a recrie indefinidamente. O sentido que os conceitos adquirem também são dados pela significação. Portanto, a consagração dos preconceitos obedece a essa mesma lógica. Palavras que significam deficiências não têm sentido figurado a não ser pelo uso que se as empregue.

Ao invés do uso indiscriminado de palavras que tem profundo significado para aqueles que são definidos cientificamente por elas (denominações de deficiências são organizadas pela CID e CIF, classificações comumente utilizadas pela medicina, propostas pela OMS), é de se perguntar qual a dificuldade que pode haver na utilização de seus supostos sinônimos. Que se diga de uma pessoa indiferente, indiferente. Que se diga de quem se aliena pela própria conta, um alienado. De quem prefere não perceber a realidade, um ignorante por sua conta e risco. De quem não alcança a compreensão de um conceito, uma pessoa limitada. E que se deixe às pessoas com deficiência e suas denominações o fardo que já carregam de serem confundidas com os nomes que se emprestam a elas, como se desprovidas de qualquer subjetividade. Se, como dizia Demócrito, o filósofo que ri, “a fala é a sombra da ação”, é preciso justamente desconstruir as barreiras atitudinais que criam muros linguisticos e reais entre as pessoas. Sem isso, falar às paredes só tem por certo o próprio eco, com o perdão do trocadilho.

Da vulgarização plena da fala comum ao discurso medicalizador, que joga para a alteridade e cria até mesmo por efeito iatrogênico o ser doente, difunde-se a noção de que à pessoa deficiente faltam as características naturais do ser humano ou que se tratam de pessoas incompletas. A superação dessa perspectiva, entretanto, só podera acontecer mediante uma inclusão baseada no reconhecimento da diferença enquanto elemento pertencente ao ser, e não dele dependente ou por ele causado. É o que é proposto em algumas das ideias do alemão Axel Honneth, em Luta por Reconhecimento: A Gramática Moral dos Conflitos Sociais. A essa altura, os nomes voltarão a ser o que são, nomes, e um conceito intersubjetivo, forjado nas relações sociais, tomará o espaço ocupado pelos lugares comuns que têm povoado de modo contumaz a prática discursiva daqueles que até podem parecer seus defensores num primeiro exame mas que, num segundo e pouco mais detalhado, podem ser revelados como renovados agentes da estigmatização e segregação. Enquanto isso, é muito bom arregalar os olhos antes de se unir ao rebanho, para se ter certeza de que não se está aderindo à matilha. Mesmo que equívocos possam compreensivelmente acontecer, não é má ideia soar os alarmes, como o menino na fábula. Afinal, a história tem demonstrado que os lobos estão sempre por perto.