Muito feliz por aparecer triplamente no v .13, n. 1, maio/2017, da Germina – Revista de Literatura & Arte:
Na revista Germina
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Eu sou…Eu sou…
Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol
minhas asas?
duas pétalas apodrecidas
minha mente?
tacinhas de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um talho na cadeira
meus altos e baixos?
um gongo infantil
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
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FéFé
Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol
Eu já me perdi de mim mesmo.
Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.
Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.
Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?
Espero.
Uma voz maior me dirá: Vem!
E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.
O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.
Perdi-me de mim mesmo e espero.
Senhor, eu tenho os braços estendidos…
O homem sofre a sua vergonha na minha carne.
As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.
A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.
E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.
Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.
[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]

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Plumose AnemonePlumose Anemone
Verdades simples —
não se pode dobrá-las.
São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.
É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.
Cada qual reporte o seu fardo
e a sua carência de cor.
O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:
síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu
no volume de um universo
agora repartido em dois.
2
Pessoas são ramos deitados
que o vento atira à praia,
tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus
que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.
3
Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo
espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas
(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável
para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).
4
Como a música se expande
da mente em direção aos sons,
o silêncio em silêncio percorre
do que se alimenta no chão.
As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.
5
Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.
E de tocar o que me desmanchava —
a pele perdeu seus pudores.
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