E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Poesia Os rostos são inexpressivos

Os rostos são inexpressivos

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Os rostos são inexpressivos.
O riso, o pranto, são de um a um e não de alguém a niguém.
Quanto tempo ante ao pampa desolado!
Com quem rir? Por quem chorar?
O silêncio nos lábios é tão habitual, que a palavra consoladora de nada serviria.
Somente ante a si mesmo o homem pensa e sua expressão transborda introspecção.
Rugas não virão senão como marcas do tempo.
E idades há apenas três:
A idade em que tudo o que se diz é: eu ainda não posso. A idade em que se pode sem dizer. A idade em que se diz: não posso mais.
Mas é na maturidade que se unificam a alegria de ter chegado já e o pressentimento da decadência.
Não protestamos porque para nós tudo é aceitação.

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Gostaria que o meu amor morresseGostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não a amasse

Tanto. Se eu pudesse inclinar meu coração
Para o inverno, eu não precisaria da rotação

da terra para isso. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
E então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animalzinho, mas ele é.

LaurelLaurel

Feliz, a primavera
sobrevive sem flores
de empréstimo.

E aqui se daria
o nascituro da tarde —
num indefinido meio-dia.

O pássaro (sem ventura)
trafega o espaço, mas
doutra estrutura.

Os olhos não alcançam
o que se ergue
como fortuita quimera.

Numa única paleta de cores,
o mesmo dia renasce
uma centena de vezes.

O azul não continua azul.
O céu migra de lugar.
A sombra não atenua.

Luz rosácea que restou,
do caule seco da flor
a folha comparece

e empresta os braços ao sol
como uma reserva disforme
da flor imerecida.

Já pensou, se ouvida,
o que ela diria? Nada..
Isso foi toda a vida.

Plumose AnemonePlumose Anemone

Verdades simples —
não se pode dobrá-las.

São como o óbvio, sem peso,
e, ao mesmo tempo, insuportáveis.

É o que se observa sem dolo
do que é desfeito sem zelo.

Cada qual reporte o seu fardo
e a sua carência de cor.

O tratamento que se dispensa
à memória e ao que passou:

síntese de um sentimento ambíguo
que nunca se esclareceu

no volume de um universo
agora repartido em dois.

2

Pessoas são ramos deitados
que o vento atira à praia,

tapetes de folhas brancas
para o passeio de um deus

que ensina com incômodos
muito mais do que com lições.

3

Seus braços de anêmona
deliram no mar profundo

espumando em bolhas vazias
e esponjas saturadas

(a areia nas profundezas
se reacomoda impalpável

para que volte a arrastar as
notas desse estranho solfejo).

4

Como a música se expande
da mente em direção aos sons,

o silêncio em silêncio percorre
do que se alimenta no chão.

As flores e o mal-estar
dos lugares repletos de gente.

5

Mas aqui só vejo o que escuto.
Há muito troquei os sentidos.

E de tocar o que me desmanchava —
a pele perdeu seus pudores.