Poesia Os rostos são inexpressivos

Os rostos são inexpressivos

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Os rostos são inexpressivos.
O riso, o pranto, são de um a um e não de alguém a niguém.
Quanto tempo ante ao pampa desolado!
Com quem rir? Por quem chorar?
O silêncio nos lábios é tão habitual, que a palavra consoladora de nada serviria.
Somente ante a si mesmo o homem pensa e sua expressão transborda introspecção.
Rugas não virão senão como marcas do tempo.
E idades há apenas três:
A idade em que tudo o que se diz é: eu ainda não posso. A idade em que se pode sem dizer. A idade em que se diz: não posso mais.
Mas é na maturidade que se unificam a alegria de ter chegado já e o pressentimento da decadência.
Não protestamos porque para nós tudo é aceitação.

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NovembroNovembro

Novembro me tirou meia dúzia
de palavras soltas na boca.

Palavras que, pensando bem,
não levariam a nada.

A não ser que me levassem a outro Natal,
esqueci o que faziam ali. E desde aí
inventaram a revolta de lançar-se fora
por conta própria — mas então já era dezembro.

Dezembro, que é mês de esperanças, ciladas
e estranhezas delicadas como esquecer.

Há prazos que pesam nos fatos demais,
as uvas açulando as raposas
com as mesmas mentiras de sempre.

No centro deteriorado do verão
todos dormem ou, antes, partiram.

Cada palavra é uma trinca quimera
que não pode nos escolher.
Nós que a dizemos, diria-se.

E o calendário dependurado apenas
um acaso de víspora, uma pedra cega,
mera orelha de lince o ciclone final.

E agora já nada sobrará
dos famintos aos famintos.
A sede? Suspende-se.. A porta? Sumiu…

No ano que vem, meu bem,
viajaremos antes que se conclua a primavera.

Acostumei-me a estar sóAcostumei-me a estar só

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Acostumei-me a estar só, como o ombú foi acostumado à pampa.
Minha alma é uma esfera observando o próprio centro de sua força.
Para caminhar pela vida, mantenho-me nas pernas da vontade e da coragem.
A noção de minha própria existência me impede de desabar.
Viver é a obrigação a ser mantida.
Ignoro a covardia quando digo-me “eu devo”.