E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Poesia Carvalho queimando, novembro

Carvalho queimando, novembro

Joyce Carol Oates (1938-)
trad. do inglês

Ontem, encontramos o céu
todo repartido em fileiras. Ar,
quase insuficiente.
Vimos o tronco de um velho carvalho, do tamanho

de um homem, queimando sem incendiar
à beira de uma clareira – galhos estilhaçados,
raízes esmagadas e expostas.
Até as formigas saúvas fugiram

com o cheiro do antigo sofrimento
vindo à público, e as velhas esperanças reveladas –
tudo no passado! – agora sem copa, sem folhas,
um toco derrubado sobre a terra

e a alma apenas choraminga, esfumaça,
e se propaga lentamente, sem graça,
num céu indiferente que ninguém pintará,
ou fotografará, ou verá –
exceto nós: ontem.

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BarnaclesBarnacles

Para todos os efeitos, e sem
razão aparente, o mar arrastou
a pedra que estava aqui.
Era onde pousava meus olhos,
pensando se havia sentido
em tanta espera, mas os sonhos
bem se acomodavam no futuro.

Agora, onde piso, o chão se desfaz.
Onde aponto, a porta é fechada.
Volto para dentro de mim
e o silêncio das vagas é rumor
deposto em vão. Em palavras
que avançam sem direção
e levam consigo essa voz.

A liberdade? Encarcerou-se
num lugar distante. Mas, através dela,
refugo ao horror e o desassossego
que fracassa a força dos braços,
dobra joelhos e drena os olhos
dessa alma velha, fluida,
e por quem pouco me apego.

No passado, fui outra pessoa,
e a quase tudo eu previa —
até mesmo de olhos fechados.
Mas viver não pode ser pensado,
apenas vivido,
e o que é falso se revela
sob qualquer ponto de vista.

O mar, imenso por analogia,
termina onde a vista alcança;
a pedra, um edifício precário
que submerge e borbulha;
o tempo, que tudo movimenta
sem interesse em nada ou ninguém,
nunca reparte sua energia.

EncurraladosEncurralados

As ondas não estão no mar.
Onde estão as ondas?

O mar, essa gigante
desembaraçadamente nua,

engoliu o que havia,
e agora como alcanço dormir?

Por isso, agarro-me ao nada,
uma insuficiente artimanha

de que sabem os náufragos
que morrem de frio.

O tempo se vai acabando.
Onde está o tempo?

Voltará amanhã, depois
de partirmos?

Ao espelho, essa neblina
que nos divide a alma

em duas, tu quebrarias?
Mas já pensaste…

Se do outro lado
tu mesma estivesses?

Na imagem que enxergas
não estou eu, não

está ninguém. O tempo
nos esquecerá a ambos

na mesma solidão
em que nos amamos.

Porto Alegre, 10Porto Alegre, 10

Sentado um instante num banco do parque,
notei algo em que havia pisado mais cedo
e que continua engastado nos pés —
uma pedrinha que encontrou um sulco
onde enfiar-se, como uma felpa
se acomoda na pele, incomodando,
e queremos de uma vez arrancá-la.

De que rua eu a trouxe?, penso,
e já não tenho certeza onde estive.
Ultimamente tenho trocado, sem perceber,
nomes de ruas por nomes de gente.

Foi, talvez, onde antes encontrei
um cachorro magro de dar pena
e que se defendia dos passantes
tão feroz quanto um lobo.

Há muitos animais que rondam aqui,
uns de inacreditável memória
(isso bem ao contrário de mim
que me desencontro de ti
como se estivesse chegando
sempre pela primeira vez).

Mais cedo eu andava com tanta pressa
que outra vez não percebia
que é sempre uma corrida em vão.

Já havia perdido a hora e então me dei ao direito
de sentar um momento num dos bancos vazios
e lembrar de quantas vezes o fizera.
Mas sempre há algo de novo no cenário,
nem que seja uma árvore tombada
que subitamente a memória acusa
e que à vista não se revela.

Ou pode ser uma criança nascida quase em 2026
e que o pai decidiu que aprenderia a andar
nessa areia dos passeios do parque
porque nisso deve haver
uma forma especial de aprendizagem.

Talvez ali uma pedra também encontre
aquele pequeno corpo
e se inscreva numa cicatriz,
dessas que são imunes ao esquecimento.