E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos,Crítica Liberdade e opressão em Simone Weil

Liberdade e opressão em Simone Weil

Revista Amálgama

Em julho de 2020, a editora Âyiné fez jorrar para o público brasileiro um tanto mais da obra da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943). Por meio da tradução de Pedro Fonseca, um dos sócios da editora nascida veneziana e já naturalizada brasileira, veio a público o trabalho que Simone terminou de redigir quando contava com apenas 25 anos de idade, em 1934, Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social (Âyiné, 2020). É um opúsculo que impressiona desde a primeira página (leia no Estado da Arte a reprodução do trecho inicial do livro) tanto por constituir uma crítica contundente (e precoce) em relação à experiência revolucionária russa de 1917 quanto mais por situá-la e situar-se ainda mais em favor daqueles que, de acordo com ela, continuaram submetidos à tirania produtiva que a revolução de outubro em nem um momento cessou ou fez modificar a relação de opressão exercida dali em diante pelo regime bolchevique por intermédio do Estado.

Trata-se de uma cronologia bibliográfica que aos poucos se vai montando, apesar de que apenas nos melhores sonhos dos seus leitores imagine-se vertida ao português uma obra que em sua edição critica é composta por sete tomos, dezesseis volumes e cerca de sete mil páginas, de acordo com o projeto editorial da Gallimard para as suas Ouvres Completes. O público brasileiro, acostumado à oferta em conta-gotas de trabalhos esparsos e coletâneas de Simone, ganha agora a possibilidade de conhecer esta que, de acordo com ela própria, seria sua “primeira grande obra”, e que ela redigiu pouco antes de partir para as linhas de montagem da Renault na qualidade de operária.

Alguns anos antes, em 2018, a Âyiné já havia publicado de Simone o ensaio/manifesto Pela supressão dos partidos políticos (Âyiné, 2018). Escrito logo após a ocupação nazista e sob o impacto do colapso político francês de 1940, o texto foi um dos reunidos por Albert Camus para a coleção Espoir para a Gallimard em 1948, sob o título geral Écrits historiques et politiques. Camus, aliás, reconheceu desde o primeiro momento em Simone a consistência do seu pensamento político, principalmente a partir da sua leitura de L’Enracinement (O Enraizamento, em edição esgotada e publicada no Brasil pela EDUSC – Editora da Universidade Sagrado Coração, em 2001).

Obra derradeira e, de acordo com ela, sua “segunda grande obra”, O Enraizamento (cujo título completo em português seria O Enraizamento. Prelúdio a uma declaração aos deveres relativos ao ser humano) teve o texto interrompido pela morte de Simone, em 1943. No entanto, desde sua publicação póstuma, em 1949, logrou a consideração de filósofos que confirmaram a impressão de Camus quanto à consistência teórica da sua percepção ética e política e clareza de princípios, tais como como Hannah Arendt, Giorgio Agambem, Michel Serres, Maurice Blanchot, Georges Bataille e Emmanuel Levinas.

Porém o interesse por sua obra não tem se limitado, desde então, ao mundo dos estudos formais. Se for certo que a recepção de seu trabalho possa ter repercutido mais em função da intensidade do seu desfecho biográfico e suas inclinações místico-religiosas do que por ter deitado influências em seguidores acadêmicos, por outro lado é possível entendê-la como uma pensadora não autolimitada, mas definitiva em si mesma. Talvez por essa razão seu nome seja frequentemente lembrado em momentos de crise política e moral.

Deste modo foi que provavelmente descobriram-na os norte-americanos embrenhados nos conflitos dos anos 60 do séc. XX, por influência de Susan Sontag; de maneira semelhante, redescobrem-na hoje, em meio à era Trump, por intermédio da recriação proposta por Patti Smith em Devoção (Companhia das Letras, 2018); e, talvez do mesmo modo, a editora Âyiné tenha pensado no Brasil contemporâneo ao lançar por aqui um trabalho de forte crítica ao mundo politico como em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Não deixa de ser curioso que é na autora que aos 25 anos já havia compreendido as limitações da ordem politica e viu as utopias revolucionárias bordarem-se do sangue de inocentes e procurou ver e viver na própria pele a experiência da opressão pelo trabalho – ao mesmo tempo que recusava qualquer entusiasmo partidário e a frivolidade burguesa – que se busque alguma forma de inspiração ou, que seja, consolo. Há mesmo na filosofia de Simone Weil o sentido de devastação histórica que é muito presente nos artistas que viveram a vertigem do entre guerras e a ascensão do horror nazista. É equivocado pensar que, todavia, trate-se de uma pensadora de fragmentos levada ao sabor da história ou da loucura, como insinuaram personalidades que travaram contato com ela, tais como De Gaulle, que a denominou por “louca”, e Leon Trotsky, que a definiu como uma “revolucionária melancólica” e “anarquista barata”. Ainda assim, não é menos sintomático de um século em chagas que tenham sido poetas como T. S. Eliot, W. H. Auden, Czeslaw Milosz, Seamus Heaney e Flannery O’Connor a perceber a potência do pensamento de Simone e a redimir sua memória.

Eliot, que prefaciou a primeira edição em inglês de O Enraizamento, em 1952, recomendou àqueles que buscam conhecer o trabalho de Simone para que não evitem seus paradoxos, mas que busquem compreendê-los tanto no que se referem às questões religiosas ou políticas, e que procurem ao máximo evitar a refração moral e o simples antagonismo intelectual na sua leitura. Para o poeta de The Waste Land, “she appears as a stern critic of both Right and Left; at the same time more truly a lover of order and hierarchy than most of those who call themselves Conservative, and more truly a lover of the people than most of those who call themselves Socialist / ela surge como crítica severa tanto da direita quanto da esquerda; ao mesmo tempo mais verdadeiramente uma amante da ordem e da hierarquia do que a maioria daqueles que se autodenominam conservadores e, mais verdadeiramente, amantes das pessoas do que a maioria daqueles que se autodenominam socialistas”.

Essa percepção totalizante da visão de mundo e do trabalho de Simone que, de acordo com uma de suas principais estudiosas no Brasil, Maria Clara Bingemer, está presente nela desde suas inclinações infantis e juvenis, transparece na consistência e contundência com que formula sua crítica desde os rascunhos que resultaram nestas Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Desde que iniciou seu trabalho como professora até sua morte, Simone Weil viveu intensamente o período mais intenso da história do séc. XX e justamente em seu epicentro. Simone esteve na Alemanha, lutou na Espanha, participou da resistência francesa, esteve em Londres, viajou aos Estados Unidos, à Itália e viveu a vida como uma experiência religiosa, de aprendizagem sensível. Além de encontrar-se com a vivência da experiência mística e da leitura precoce de muitas tradições (sejam orientais ou ocidentais), nunca deixou de pensar a filosofia política. Possivelmente, também por evitar alienar o seu pensamento ou ter seccionado o ser político do espiritual, tenha-lhe sido tão natural entregar-se ao pensamento teológico. Mesmo assim, até o último momento de sua vida, Simone manteve a critica política ao purismo religioso em face sua repulsa ainda maior à violência, jamais deixando de lado a consideração da Inquisição e das suas ideias sobre a força política (1) e seus usos moralmente cediços.

Neste momento crucial brasileiro, a publicação de seus textos políticos é muito bem vinda, uma vez que permitem e convidam a uma reflexão desembaraçada e desimpedida. Longe de qualquer comparatismo, é relevante perceber-se que o tempo de agora não pode parecer acelerar-se mais do que aquele que no espaço de menos de uma década levou o mundo de uma mera eleição ao colapso geopolítico mundial. Ao publicar os trabalhos de Simone Weil, a editora Âyiné lança a esperança de que possa continuá-lo, talvez, a seguir, com O Enraizamento. Uma obra que trata de reconstruir o mundo devastado pode colaborar e muito em que não se desperdicem esforços políticos e vidas humanas em vão.

(1) Assista no link a seguir a leitura dramática que Simona Giurgea, professora titular de inglês no University Theatre, Colgate University, fez de Ilíada ou o poema da força, ensaio no qual Simone Weil explora o trabalho de Homero para ilustrar a sua tese a respeito da força. O texto encontra-se publicado no Brasil nos livros Simone Weil: a força e fraqueza do amor, de Maria Clara Bingimer (Rocco, 2007) e Ilíada, de Homero, trad. de Trajano Vieira (Ed. 34, 2020).

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O único banco que não dá certo no Brasil é o banco de teses. Quem escreveu isso foi o Élio Gaspari num artigo na Folha de São Paulo, no ano de 2003. A sentença infelizmente continua em pleno vigor. Às vezes, é uma verdadeira epopeia encontrar-se na internet brasileira mera referência, que dirá um texto acessível. Mas muitas vezes não se chega mesmo é a lugar nem um.

O caos é infinito. É ao mesmo tempo sintoma e consequência da falta de sistematização científica do país. As consequências disso tudo são muito graves: o estado da arte de muitas pesquisas simplesmente não pode ser confirmado ou refutado, a comunicação científica é fraturada, as coisas não saem do lugar, ficam girando em falso no próprio eixo.

Seja porque parte dos seus autores prefere o sigilo para uma possível publicação futura ou porque a política de divulgação é falha, a comunidade acadêmica brasileira decidiu ignorar sem solenidade alguma a Portaria 13 de 2006 da Capes, que instituía a obrigatoriedade da divulgação digital das teses e dissertações produzidas pelos programas de doutorado e mestrado no Brasil. O descaso foi tanto que, em 2018, uma Portaria superveniente revogou expressamente a anterior sem sequer mencionar a questão das teses e dissertações. A obrigatoriedade caiu. Simplesmente instalou-se a anomia normativa, ou seja, o laissez-faire que vigora e permite que cada qual faça como bem entender.

Lá em 2006, o então Ministro da Educação Fernando Haddad inocentemente chegou a cogitar que teses e dissertações fossem organizadas no Portal Domínio Público. O Portal nunca chegou a se tornar referência nem para o ensino fundamental e até hoje é dependente de contribuições voluntárias. Um projeto que em qualquer país do mundo seria razão de vergonha.

Outra iniciativa promissora de organização científica em nível nacional, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT/MCT), também mantém-se ainda apenas por iniciativa voluntária a que as universidades e seus cursos aderem livremente, ou seja, os resultados ali obtidos não podem ser tomados como definitivos. Uma simples consulta aos “indicadores” do projeto é suficiente para verificar-se que nem o controle de áreas de conhecimento e metadados é confiável. Mas é o que há. O que, no caso, não há.

Biblioteca Digital de Teses Brasileira (BDTD)

Outra iniciativa paleolítica do IBICT/MCT é o Catálogo Coletivo Nacional (CCN), cujo objetivo é intercambiar produção científica entre bibliotecas e cursos cooperantes. A janela de pesquisa do CCN é, não mal comparando, uma viagem à internet do milênio passado. Não há sequer recursos de ordenação, reservas, pedidos, contatos… O catálogo, mesmo assim, é a única fonte nacional centralizada de localização de publicações periódicas. Sem conteúdo on-line, sem comunicação com outros sistemas de controle do lado do usuário, o CCN é, tecnologicamente falando, como uma espécie de astrolábio. Defasadíssimo, mas melhor do que nada.

É difícil tentar explicar a quem usa a internet apenas para o próprio e-mail, e-commerce e redes sociais de que a internet brasileira vem se transformando no começo deste século numa grande rede de sucatas. A causa disso o Élio Gaspari vaticinou lá na virada do milênio: como aparentemente não se perfaz lucro, ninguém investe. Mas o prejuízo está mais do que consolidado. Isso explica em muito as dificuldades presentes e futuras do desenvolvimento científico nacional. A irrelevância de boa parte da produção local e a emigração dos pesquisadores para lugares mais avançados são os efeitos mais evidentes. Mas não ficamos por aí. Ainda tem mais.

De um modo geral, a internet está cada vez mais concentrada em donos de conteúdo que logo cobrarão para acessarmos os dados que nós mesmos criamos. A internet, o território inesgotável de liberdades oceânicas, ele vem sendo silenciosamente privatizado.

Enquanto as pessoas tornaram-se obcecadas pelos seus “dados pessoais”, piratas legais perceberam que poderiam transformar os “dados públicos” em objeto lucrativo. O data mining está aí, diariamente no nosso nosso email, vendendo soluções virtuais de informação pública que ninguém se dá ao trabalho de sistematizar. Não é crime, não é ilícito, mas é vergonhoso… Enquanto nos preocupamos com o “algoritmo”, empresas mais espertas estão de olho nos nossos cookies, rastreando o movimento de milhões de usuários e nos dirigindo como um grande coletivo. Alta tecnologia não é para amadores.

E as redes sociais? As redes sociais nos mantém ocupados como o Sol sorridente no mundo dos teletubbies. Uma Baby TV interativa. É o parque de diversões perpétuo, repleto de normas, vigilância e restrições e alguma sociabilidade eventualmente autentica.

Há poucos dias, o MCT lançou os editais que visam promover o desenvolvimento de aplicações em IA no Brasil. É o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, cuja ambição é mobilizar bilhões de reais e muitos royalties pagos, claro, à inteligência estrangeira, OpenIA, Meta, Amazon…

É preciso uma fé que eu não tenho.

Eu olho os sites do Portal Domínio Público, da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações, do Catálogo Coletivo Nacional e outros projetos do MCT e não consigo ver nada além de burras de ouro sendo despejadas ao léu, para quem nem compromisso com o país tem.

Eu vou é ver o meu Teletubbies. E numa TV de tubo, para não perder de vista a nossa verdadeira idade tecnológica.

A reabilitação do afeto por Andrew SolomonA reabilitação do afeto por Andrew Solomon

Capa de Longe da Árvore

O que podem ter em comum pessoas surdas, anãs, pessoas com síndrome de Down, pessoas com autismo, pessoas diagnosticas com esquizofrenia, com deficiências físicas, superdotados, crianças que nasceram a partir de violência sexual, transgêneros e outras que se tornaram criminosas? Talvez muito, mas este possível elo não é necessariamente o foco do novo livro de Andrew Solomon, Longe da árvore: Pais, filhos e a busca da identidade.

Colhidos em centenas de entrevistas e pensados na perspectiva de ampla leitura e bibliografia, os relatos de Solomon têm como principal ponto de contato a qualidade da diferença. De uma diferença estabelecida primeiramente dentro de casa, na própria família, na relação entre filhos e pais, sob a sombra da “copa da árvore” (o que ele chamou de identidade vertical). Depois disso, ele vai ainda mais além ao examinar os intrincados percursos sociais que as pessoas fazem ao longo da vida, sedimentando ou às vezes arruinando suas identidades pessoais (denominada como identidade horizontal, aquela baseada na interação social).

Mas o que ele deseja com esse mosaico, afinal?

Como o próprio título do livro diz, talvez demonstrar que mesmo aqueles mais próximos a nós – nossos descendentes – podem nascer ou vir a estar distantes de nossa própria identidade, do nosso tronco parental. Lá, longe da árvore, e expostos ao mundo tal como ele é, são pessoas cuja vulnerabilidade demonstra não necessariamente um destino marcado pela infelicidade pessoal, mas certo fracasso social (e também uma possibilidade de mudança), no sentido de que são pessoas portadoras de identidades desajustadas, mesmo que em grande parte devido a razões alheias à própria vontade.

Solomon, entretanto, é otimista. Estas identidades horizontais (que bem podem ser chamadas de ortogonais), mesmo que definidoras de uma distinção à filiação idealmente desejada, aquela na qual o descendente perpetua e verticaliza as características e a história de vida dos seus progenitores, são entendidas como mera expressão da diversidade e, o amor, o único elemento de adesão possível entre as pessoas.

Que outros livros você lembra-se de ter recebido uma crítica como a feita pelo The Observer em relação ao livro? – “Fazendo uma matéria sobre o Google, descobri que uma das dez perguntas mais feitas no mecanismo de busca é ‘O que é o amor?’. No futuro, o Google fará bem se indicar o extraordinário livro de Andrew Solomon àqueles que digitarem essa recorrente questão.”

No entanto é disso mesmo que se trata. O próprio Solomon corrobora essa perspectiva ao dizer que “a predisposição para o amor dos pais prevalece na mais penosa das circunstâncias.”

Longe da árvore faz uma aposta em um futuro menos árido para pessoas com identidade horizontal, segundo os próprios termos do autor. Isso depende, entretanto, menos das próprias pessoas em anular ou mascarar suas características do que pela necessidade cada vez mais expressa de reconhecimento e aceitação.

Embora seja uma palavra de simples significado, a aceitação comporta em um gesto bastante complicado, principalmente quando relacionada a filhos que até bem pouco eram renegados ou segregados institucionalmente. Isso vale para pessoas com síndrome de Down, esquizofrênicos e com todas aquelas pessoas cujas vidas deveriam ocorrer a partir de uma dissociação social e, principalmente, afetiva. Vidas afastadas umas das outras, como um arquipélago desconectado. O livro de Andrew Solomon é também como um grande mapa sobre pessoas que, no mundo contemporâneo, passam a existir socialmente a partir do reestabelecimento das relações afetivas e do reconhecimento.

Antes de chegar à solução do amor e da aceitação, ele descortina as grandes dificuldades inerentes ao convívio humano, especialmente porque envolvendo pessoas cujas especificidades biológicas e/ou culturais destoam do que poderia ser chamado de eixo da normalidade. Frustrações, negações, rejeições e exclusões estão presentes no livro. Mas também o afeto, a aceitação, a reciprocidade e a inclusão.

Lançado ano passado nos Estados Unidos, o livro foi vencedor do National Book Critics Circle Award 2012 na categoria não ficção. No website promocional do livro e no do próprio autor, vídeos com a participação de muitas das pessoas entrevistadas para a construção do livro (sim, construção, trata-se de um livro de 1050 páginas) dão uma amostra do colossal empreendimento do escritor e jornalista que já havia trabalhado a fundo sob o tema da depressão, a qual acometeu a ele próprio, em O demônio do meio-dia, que lhe valeu o National Book Award em 2001 e em 2002 chegou a finalista do Pulitzer.

No TED, em abril deste ano, Solomon antecipara alguns elementos do novo livro e apresentou suas ideias centrais, equiparando identidades e reafirmando que a disposição em amar é universal e que as identidades com as quais trabalhou em Longe da árvore são algumas entre tantas. Ele crê que a diversidade configura uma nova maioria, a maioria das minorias. Uma imagem social bem mais ampla que a previsível no “eixo normal”. A grande aventura do livro, entretanto, é o empreendimento da desconstrução de conceitos que por muito tempo articularam a rejeição e exclusão das minorias. Convertendo em identidades conceitos como doença, condição, síndrome, defeito e outros, ele recupera a trajetória humana de indivíduos reais, identificando as diferentes expressões pelas quais os vínculos sociais se estabelecem.

Sem deixar de ser um livro jornalístico para se transformar em uma espécie de Sociologia da contemporaneidade, ele como que ultrapassa o sentido de identidade estabelecido no clássico de Erving Goffman, Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, no qual o indivíduo é sempre uma espécie de refém do social. Mesmo que não ultrapasse de todo, suas histórias de vida demonstram que já estamos ou podemos estar a caminho de um pacto social mais tolerante. Sua felicidade extrema foi ter reabilitado o sentido do amor como fundamento do humano e das relações sociais e afetivas.

Os efeitos da saturação informativa na atual crise brasileiraOs efeitos da saturação informativa na atual crise brasileira

Observatório da Imprensa

Como qualquer um entre os quase cem milhões de brasileiros usuários de redes sociais, oscilo diariamente entre o desejo abandonar de vez o hábito de consultar o púlpito alheio virtual e o de reconectar-me a ele compulsivamente. Recentemente fui informado de que há rumores dando conta de que, entre a magnitude de adeptos das redes, poderia existir um remotíssimo e obscuro percentual de usuários que conseguiriam, nestes dias de turbulência política, passar infensos à esta bipolaridade. Eu digo com tranquilidade que nunca vi essas pessoas nem na minha timeline nem no meu feed de notícias e isso, pelo menos no meu universo de observação, reforça a ideia de que, diante da atual crise política, todos sucumbiram ao delírio voluntário – ao próprio e ao alheio – ainda que por motivos e em graus diferentes.

Não obstante a possibilidade acima estar mesmo correta, o número de pessoas que não resiste à opção de abandonar o uso das redes sociais ou pelo menos suspendê-lo é cada vez maior, principalmente entre os mais jovens. E isto é tão mais real quanto se pense no Facebook, entre todas a mais usada das redes em todo o mundo. Isso é o que aponta, por exemplo, recente reportagem da Folha de São Paulo, segundo a qual, para além do acirramento político, outros fenômenos parecem competir na ampliação do desinteresse juvenil, tais como a presença dos chamados “textões” e a repetição persistente de conteúdo. Seriam fenômenos que estariam colaborando com o cenário de evasão. A reportagem dá conta de outras explicações também, de natureza mais psicológica, além de apontar a preferência crescente pelo uso de redes de conteúdo mais visual ou expresso, como o Instagram e o Snapchat.

A bem da verdade, esta parece ser uma tendência anterior aos eventos políticos mais recentes, mas que agora se acentua mais ou menos na mesma proporção em que evoluem as repercussões políticas e a subsequente histeria virtual. Não é muito difícil entender as motivações do abandono, uma vez que a temática política, pelo menos a realizada nos moldes tradicionais, é vista com grande desconfiança pelo público adolescente e jovem adulto. Quem imaginar, entretanto, que no principal concorrente do Facebook a situação esteja diferente, pode estar muito enganado. No Twitter, veículo preferencial entre os adultos e o meio político, a pancadaria ideológica e a proliferação da agressividade têm sido predominante e até mesmo as redes baseadas em imagens, como o Instagram, têm sido tomadas de assalto pelos grandes “significantes” das redes: os memes. Para este caso, majoritariamente aqueles com motivos políticos.

Mais que a constatação tácita da reprodução massiva de memes e do irrefreável potencial discursivo das redes, interessa notar que o arsenal argumentativo individual costuma valer-se também de fontes externas ou, como querem os sociólogos, de discursos de autoridade ou “produtores de interesse”. Desta prática diária, constante, costumam desfilar regularmente no meu feed de notícias e no de qualquer pessoa com um mínimo de diversidade de conexões pessoais, fontes bastante heterogêneas. São fontes que costumam ir desde veículos consagrados de imprensa, passando por fontes menos usuais, como blogues e até mesmo opiniões de intelectuais e artistas que emitem opiniões na rede. O festival de opiniões costuma ser farto e enlouquecedor, principalmente porque mixam-se nele as opiniões mais ou menos elaboradas das próprias pessoas.

Embora presentemente exista uma polarização evidente entre o que se poderia chamar de “governismo” e “oposição”, o leque de nuances no campo das opiniões é muito maior do que essa divisão oferece. A “opinião formada” das redes costuma partir da reprodução comentada de crenças políticas consolidadas e fontes identificadas com meios formais, partidos políticos ou movimentos organizados, enquanto que o dissenso é essencialmente anárquico. É natural: há quem diga, por exemplo, que não existiria Facebook sem o “compartilhar” nem o Twitter sem o “retweet”.

Ainda assim, é nesse caldeirão de ideias emprestadas e opiniões desencontradas que vem ganhando cada vez mais forma uma visão multifacetada, ou rashomônica, da realidade e da história presente. Porém, assim como no célebre conto de Akutagawa ou mesmo no filme de Akira Kurosawa, é necessário ao espectador antever na narrativa de cada um que deseja oferecer sua versão dos fatos, uma forma peculiar de dizer a verdade e, ao mesmo tempo, de deliberadamente falseá-la.

“Dentro de um bosque”  (Yabu no Naka), o conto que deu origem ao Rashomon de Kurosawa, resume-se na história de um assassinato mal explicado que é debatido através de uma sucessão de flashbacks dos personagens, que acabam desmontando-se e remontando-se consecutivamente, como se num puzzle interminável. Trata-se de uma narrativa que evoca as escassas possibilidades de buscar-se a verdade dos fatos, a verdade filosófica, a partir de relatos de pessoas diretamente interessadas, mas que também não se furta a investigar e esclarecer o caráter que move as decisões humanas.

Evidentemente ninguém espera atualmente encontrar a natureza humana vagando entre os memes das redes sociais e suas opiniões cabais, mas, olhando bem, como naquele templo, as “armas” empunhadas para muitos dos debates acalorados de agora às vezes também parecem, aos olhos de quem quer que seja, feitas de pura mentira e invencionice, ao invés do aço desejável dos samurais. Por isso há tantos que consideram que os debates virtuais são “falsos debates” e deles procurem se afastar como o diabo foge da cruz. É um comportamento a que, lógico, ninguém cabe recusar, mas sobre o qual podem recair dúvidas e para o qual alguns questionamentos tornam-se possíveis.

Talvez bem mais simples fosse adotar a interpretação do recém falecido Umberto Eco, que afirmou no recebimento de uma de suas últimas condecorações que as “mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Mais simples, menos sério e possivelmente mais sem graça. Afinal, o atrativo dos debates online reside no mais das vezes na possibilidade de sublimação dos conflitos reais e no fornecimento de um simulacro de um embate real já que, pelo menos até prova em contrário, a vida se dá do lado de fora da tela e não no de dentro.Todavia os efeitos, mesmo que num campo simbólico, são reais, dizem respeito às pessoas e suas formas de expressão e comunicação.

A teoria das Bolhas Ideológicas

Possivelmente, em sua declaração, Eco tenha acertado mais do que previra inicialmente, mas sem perceber que as mídias sociais não deixam mesmo de ser uma espécie de “bar’ em que misturam-se professores e alunos, patrões e empregados, cada qual na sua esfera de interferência, mas igualmente visibilizados e visíveis. Se a teoria da “bolhas ideológicas” e do encapsulamento de zonas de interesse nas redes sociais é real e perceptível, também é real a sua condição de transparência e publicidade e a preponderância da colaboração individual em sua formação. Isso significa que, a menos entre pessoas muito desavisadas, todos sabem muito bem que estão sendo vistos e justamente a exposição é que é buscada, jamais o contrário.

Muitas pessoas se queixam, nas próprias redes sociais, de uma excessiva bipolaridade no campo político e, desde os movimentos de junho de 2013 e das últimas eleições presidenciais, contatos (ou “amigos”) exigem-se condutas e posicionamentos. A isenção é tolerada, mas também mal vista nas redes sociais. Muito mais que uma divisão entre “governistas” e “oposição”, ricos ou pobres, brancos ou pretos, homens ou mulheres, a aposta na dicotomia de opiniões muitas vezes é um artifício pelo qual os indivíduos angariam aprovação dos demais, mas a cisão de opiniões políticas, diferentemente da opinião esportiva ou religiosa, implica sempre num jogo de confiança e desconfiança. Racionalmente, se diante de um caso crítico, por exemplo envolvendo crimes penais ou administrativos, uma pessoa não é capaz de posicionar-se claramente, é muito difícil para ela conseguir sustentar uma imagem de isenção dali em diante.

Erving Goffman, sociólogo canadense falecido em 1982 e que nunca estudou as redes sociais, matou esta charada 70 anos atrás, quando publicou, em 1959, o seu <em>A representação do eu na vida cotidiana</em>. Para ele, a projeção que uma pessoa faz ao atrelar-se a um grupo social identificado sob uma opinião predominante, mesmo que obsequiosamente, resume para aquele momento em toda a sua identidade individual.

“Devemos carregar no nosso íntimo algo da doce culpa dos conspiradores(*)”, ele diz. É possível que tenhamos mesmo este dever, mas no caso das redes sociais, onde as identidades são essencialmente flutuantes, quantos estão mesmo dispostos a assumir e mostrar tudo o que isso envolve? A mim parece que uma minoria. Mas há quem pareça procurar assentar-se na credibilidade, e talvez daí surjam referências interessantes, dado o cenário já inocultável de desmoronamento de referências históricas e abundantes fontes de aluguel.

Não é de estranhar que as redes sociais refletissem de alguma maneira esse aspecto da natureza humana, além de outros, afinal o entendimento humano é certamente tão antigo quando o desentendimento. Ainda assim, é melancólico contatar que um sistema de comunicação propicie tantos desencontros de opinião, se bem que, de outra forma, seriam apenas não sabidos. No meu feed de notícias e na minha timeline, por exemplo, a cada episódio ou cartada política da atual crise política brasileira, desfilam dezenas de conversas diretas e indiretas dando conta da faxina de “amigos”. São pessoas que se orgulham de escavar até mesmo em conversas (sic) e postagens pregressas nas redes razões para desfazer amizades, relacionamentos e, às vezes, até eliminar graus de parentesco, num espetáculo dissociativo.

De minha parte, prefiro acreditar que essas relações já não existiam e que aquele nome na lista de dezenas, centenas ou milhares de nomes já não representava praticamente nada ou muito pouco, do ponto de vista individual, e que o reconhecimento moral e afetivo entre as pessoas já se encontrava rompido, embora ali polidamente conservados. Se for isso mesmo, menos pior, porque aproximações e distanciamentos são absolutamente verdadeiros na vida real. Por que na virtual não seriam? Há que se acostumar com esse aspecto da vida virtual também. Só do que eu não duvido é que nem mesmo em casos de mútuo afastamento as pessoas forneçam a mesma explicação, isso também rashomonicamente. Já a hermenêutica rashomônica seria o outro lado desta mesmo moeda, só que margeando as fronteiras opostas das possibilidades comunicativas na época da virtualização, que dizem respeito à compreensão de cada um a partir da leitura e sua interpretação.

Guimarães Rosa, provavelmente um leitor de Akutagawa, em seus contos eventualmente lançava algumas sentenças (às vezes eram certezas) estonteantes. Há poucos dias procurei reler, quando a Editora Nova Fronteira relançou, ente outras obras as suas “Estas histórias” e ali, naquele  “Bicho mau”, conto sobre uma cascavel e seis lavradores, muito antes das redes sociais, da internet, da televisão e até da luz elétrica, ao invés de amarrar forçosamente um ser humano no outro, ele explicava as forças dissociativas com a simplicidade devastadora tão comum em sua ficção: “Natureza das pessoas é caminho ocultado, no estudo de se desentender.” Não fica muito melhor explicado?

(*) “Uma vez que todos nós participamos de equipes, devemos carregar no nosso íntimo algo da doce culpa dos conspiradores. E desde que cada equipe está empenhada em manter a estabilidade de algumas definições da situação, escondendo ou depreciando certos fatos a fim de consegui-lo, pode-se esperar que o ator continue vivendo sua carreira de conspirador com certa dissimulação.”

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 19ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 11