Eles em nós

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Das muitas escoriações eleitorais do Brasil recente é do senso comum que resta um público fatigado da política. O inacreditável percentual de abstenções na eleição de 2018 (20,3%) é por si só autoexplicativo da dificuldade das alianças políticas engendradas pelo presidencialismo de coalizão em manter o eleitorado agregado principalmente a partir de 2013 e da ruptura do pacto popular com o petismo. Apesar disso, a curiosidade política é incessante, tanto quanto são as análises realizadas – mesmo a contrapelo de um estado de ânimo civil deprimido como o do Brasil da pandemia do Covid-19 – e respectivas publicações.

A fim de entender o Brasil e sua história política recente e procurar responder a uma questão chave (Como teve lugar isso que nos aconteceu?), o professor de literatura brasileira em Tulane, Nova Orleans, Idelber Avelar, vale-se de uma fresta pouco ou nada explorada na análise política para debater ao lado de muitos jornalistas, cientistas políticos, sociólogos e tantos outros interessados no percurso da democracia brasileira que vêm publicando ultimamente. Seu mais recente livro, Eles em nósretórica e antagonismo político no Brasil do século XXI (Record, 2021), se, por um lado, fundamenta-se teoricamente na análise de discurso e nos estudos linguísticos, por outro, pode muito bem ser lido como uma crônica de viagem temporal por meio da qual se pode rever a inflamável trajetória brasileira do início do século até os primeiros anos do governo Bolsonaro.

No livro, encontram-se os momentos cruciais da vida política nacional recente levados à reflexão com um debate aprofundado e extensa contraposição bibliográfica. Não poderia ser diferente para um autor que deseja não apenas reportar os acontecimentos e analisá-los, mas confrontá-los em relação aos diversos atores sociais envolvidos no debate público, sejam eles os militantes da base petista e seus intelectuais orgânicos, com o seu discurso mais ou menos afinado, ou a desorganização caótica característica do bolsonarismo. No entanto, apesar de valer-se do arcabouço usualmente empregado na análise literária, não é de ficção que trata Eles em nós, mas de um documento sobre um país real, de pessoas reais e que, por isso mesmo, exigem uma compreensão menos simplória que as abordagens consagradas nas polarizações eleitorais. Portanto não é apenas de categorias políticas que trata Idelber, mas da cidadania, sua relações imediatas, reais ou virtuais e da forma com essa população vem sendo desgastada no encontro das disputas em torno ao poder político no Brasil.

A forma pela qual Idelber obtém esse raio amplo de observação baseia-se em primeiro lugar em sua vontade em extrapolar da ciência política convencional. Ao beber da fonte dos estudos antropológicos e econômicos, mas também por considerar o substrato comunicativo da internet como teia de negociações simbólicas, potencializa-se em seu livro a expressão dos fenômenos culturais que perpassam as decisões eleitorais e políticas ao mesmo tempo que incide nesse caldo o olhar de quem discerne sem compromisso ideológico; pelo contrário, o seu é um olhar que se preocupa com o exame coerente e lógico dos eventos sem abrir mão de estabelecer relações entre os campos. Também seu horizonte se amplifica exponencialmente por verificar o Brasil até onde ele é menos visível e compreendido, como no interior onde se desenvolve tanto o drama ambiental e indígena quanto se dá a expansão do agronegócio, ou seja, há uma preocupação em abordar o Brasil e sua inteireza e complexidades.

No entanto é por ver mais na política do que mera dança de cadeiras e por fugir a uma recriação historicista da ocupação dos espaços públicos que Eles em nós rompe um bocado a tradição de análises lineares de cunho mais acadêmico sem, contudo, deixar de dialogar com elas. Da mesma forma, Idelber não deixa de ilustrá-lo com a leitura jornalística, de recheá-lo com declarações de políticos ou confrontá-lo a outras opiniões. Além disso, sua atenção aos embates ilocutórios das redes sociais e leituras efetuadas até mesmo em grupos do WhatsApp garante-lhe uma apreciação menos categórica da que costumam obter os estudos mais especulativos. É como um caráter informativo subjacente ao texto que guarda em muitos momentos o estilo de crônica que emprega nas análises que ele mesmo mantém nas redes sociais, espaços nos quais realiza intensa troca com seus leitores (/idelber.avelar) e (@iavelar).

Essa característica de um texto acessível, todavia, não diminui em nada da profundidade e do impacto de suas observações. Pelo contrário, o reconhecimento de categorias políticas expressas no mundo objetivo conforme as pessoas lidam cotidianamente confere ao seu texto um elemento de intenso realismo, pois ele não parte tanto de especulações teóricas quanto de fatos reportados que qualquer leitor pode imediatamente reconhecer. Quem quer que tenha testemunhado ou participado dos eventos políticos de 2013, por exemplo, poderá rever finalmente com algum distanciamento aqueles momentos que detrataram a confiança popular na gestão petista e cujo eventos foram versados livremente por intérpretes políticos atordoados. Também logo mais, na crise energética e ambiental, nos eventos preparativos à Copa do Mundo, na evolução do fenômeno lavajatista e culminando na campanha eleitoral de 2018 quando, colapsados pela realidade, deixou o Brasil levar-se ao governo de quem melhor soube encampar as forças antagônicas e o reverb das massas insatisfeitas. Em vista do caráter nebuloso causal e da dificuldade hermenêutica generalizada, é bem possível que muitos leitores perceberão que faltava quem procurasse desvelar o ornitorrinco brasileiro com o auxílio de figuras de linguagem, procedimentos retóricos e um tanto de lógica, ainda que isso pareça o mais estranho de tudo.

Da emergência da era das narrativas, é natural que emergisse, portanto, uma leitura habituada a desvelar os recursos retóricos e a safar-se da virulência argumentativa que vai se colando ao real como camadas sobrepostas. A dificuldade que representa desbastar os muitos encobrimentos semânticos e os jogos de interesse que estão sempre no centro da disputa política não é tarefa de simples execução, muito pelo contrário. O esforço visível de Idelber consiste em estar ao tempo e ao centro da intempérie dos fatos e das sobreinterpretações criadas a todo o tempo pelos múltiplos interessados, em tautologias e aproximações que se multiplicam numa razão infernal como a disponível na internet, meio de expressão das opiniões e laboratório de testes por excelência das ideias políticas na contemporaneidade. Daí que a crítica literária e especialidades linguísticas ofereçam uma lente das mais interessantes para se observar o mundo político e fugir à “cacofonia” de livros sobre o Brasil atual e o endosso costumeiro que se faz ao modo com que se vinha fazendo e compreendendo política, de acordo com ele um sintoma intelectual da própria crise.

Das hipérboles e exageros dos muitos discursos com que se vem moldando a imagem da população, do gerenciamento político dos antagonismos partidários e coalizões até a ruptura e emergência do bolsonarismo como redenção antagônica, da quebra do “equilíbrio oximorônico” e da dificuldade dialética de equacionar-se um entedimento comum, do esvaziamento argumentativo e o “lexicocídio” daí resultante, da desorganização narrativa à dessensibilização lexical dos nomes em seus enunciados ao giro retórico da radicalização bolsonarista, Idelber realiza em seu livro o mapeamento discursivo de um país que por duas décadas passou a transmigrar livremente no tempo (sem nunca ser o país do futuro e sem jamais abandonar os ranços do passado), ancorando-se agora no mais oblíquo embaraço.

Por fim, cabe lembrar que seu objetivo era entender “como teve lugar isso que nos aconteceu” e não “por culpa de quem isso nos aconteceu”, como é praxe no tribunal continuado das redes sociais. Se cada assunto abordado no livro é o bastante para refletir longamente, por outro lado a prosa do professor de literatura garante uma fruição nada opaca e bem humorada sempre que possível. Aos leitores acostumados a receber afagos teórico-ideológicos nas próprias convicções, é uma oportunidade de confrontarem-se consigo mesmos no que costuma ser mais habitual na literatura de ficção: a suspensão voluntária da descrença. Pode requerer algum esforço no começo, mas, no decorrer do livro, ficará cada vez mais claro que a argumentação é suficientemente forte para sustentar-se em pé e prender e surpreender o leitor imbuído de curiosidade honesta.

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Eu não entendo uma linha de hitita, do antigo nórdico, do avesta, do protocelta, do védico e nem do grego. Mesmo assim, desde que o abri pela primeira vez, não consegui largar mais esta lindeza de livro que a editora Mnema lançou há poucos anos por aqui, do filólogo inglês Martin L. West. É o livro que tenho lido neste período extenuante que temos vivido aqui no RS.

Eu certamente tenho me valido dele como forma de levar minha mente para muito longe daqui, ao menos pelo tempo possível, da leitura. Mas isso se deve muito mais à fluência com a qual o livro foi escrito do que por uma razão “escapista”.

Mas M. L. West, o autor, ele tem me feito acreditar que, se não conheço os antigos idiomas a que ele se refere, consigo compreender perfeitamente como estes povos antigos articulavam linguagem e arte poética.

Para além da constatação de que os recursos retóricos e linguísticos de que dispomos hoje têm uma história mais antiga do que presumimos, o livro em si é uma viagem muito completa (e complexa, mas não inacessível) através do tempo, comunicando culturas que se transformaram e dissociaram séculos afora, mas mantendo equivalências que os filólogos revelam com a mesma facilidade com que eu, por exemplo, posso abrir uma janela ou folhear um livro. É uma naturalidade espantosa e acachapante.

Também não demora muito para que se dê a percepção de que seu autor não é apenas versado num ramo linguístico x ou y, um especialista, mas que detém aquela condição meio que do magnífico, que é a capacidade de transitar entre ciências sem vacilar, algo bastante incomum quando comparado às fragmentárias ciências humanas do séc. XX, nas quais as teorias tornaram-se disciplinas mais ou menos auto suficientes e, talvez por isso, pareçam aos leigos, como eu, sem muito apoio no tempo e nem no espaço.

O leigo é como um aluno, um desiluminado. E não são todos os autores (na verdade, uma minoria) que mantêm a dignidade de estabelecer contato com a sua condição precária. A quinta-essência desse distanciamento parece se dar justamente na filosofia da linguagem e suas hipóteses teóricas contemporâneas, as quais a linguagem poética, sustentada na metaforização e suas figuras, esclarece às vezes com mais sutileza do que em teses que chegam ao extremo hermético da algebrização. Os leigos, exaustos e impotentes, não tomam parte nessa especialização, até porque o caminho oposto, o da historicização, é muito mais encantador, como costumam ser os nomes em relação aos números, pelo menos no meu gosto..

Apesar de ser um livro de filologia antiga e centrado no estudo comparativo das línguas indo-europeias, é um trabalho de encantamento no qual o autor se dirige à mitologia mais ancestral com uma facilidade desconcertante. Então, pode-se pensar que se trata também de um livro de mitologia e religião comparadas. Mas não foi dessa forma que eu o li, ou melhor, estou lendo ainda. Eu estou lendo como literatura, como se as referências que ele realiza sobre o mundo da antiguidade clássica fossem personagens.

É dessa forma que eu sempre li os livros de história antiga e mitologia, desde J. Frazer até M. Eliade e Jung. É uma leitura parcial, sem dúvida, mas que me desobriga da tarefa de me deter no incompreensível do detalhismo e de aproveitar a escrita como uma tarefa “homérica”, de quem se serve da eloquência alheia para desnutrir os limites da própria ignorância.

A psicopata improvável de Leïla SlimaniA psicopata improvável de Leïla Slimani

Costumam ser pouquíssimos os autores agraciados em premiações literárias de cunho nacional que conseguem romper a barreira invisível do interesse internacional. Ano a ano, uma sucessão de nomes pouco ou nada conhecidos ganha a fagulha da notoriedade nacional para logo a seguir engrossar a lista interminável dos autores geograficamente confinados. Na pirâmide do reconhecimento, a tradução ocupa desde há muito um lugar de destaque no sistema literário e, na ordem de relevância, perde apenas para as premiações internacionais e a finalíssima inserção no cânone universal. O resultado quantitativo de tal situação é que anualmente deixa-se de conhecer inumeráveis autores enquanto que o resultado qualitativo é de que se acaba por conhecer e valorizar demasiadamente uns poucos afortunados.

Este último parece ser o caso da escritora franco-marroquina Leïla Slimani. Agraciado com o prêmio Goncourt em 2016, o seu Canção de ninar teve sorte muito diferente da imensa maioria dos mais recentes autores premiados com a distinção francesa. Isto também seria verdadeiro caso se cogitasse distinções recentes de quaisquer outros países, como o prêmio Goethe, o Miguel de Cervantes, o James Tait, o National Book Award e até mesmo prêmios lusófonos, como o Camões, o Cesário Verde, o Antero de Quental, etc. Dupla felicidade teve o segundo romance de Leïla, portanto, porque além de traduzido para diversos idiomas, provocou um efeito cascata na crítica literária nacional, ainda mais que sua vinda ao Brasil já está anunciada para o próximo ciclo de palestras do Fronteiras do Pensamento e também para a próxima FLIP.

Escrito em um ritmo sôfrego, asmático, quase todo no mesmo tempo verbal e parecendo-se em boa parte à reconstituição informativa de um crime, o ponto forte do livro de Slimani parece mesmo concentrar-se na temática absurda e trágica que a autora teria recolhido de uma reportagem e que dava a contar a história de uma babá que assassina a prole de um casal cuja incumbência seria cuidar. O desenredo de Canção de ninar trata de explicar como isso tudo veio a acontecer justamente diante do que aparentava ser a escolha perfeita, ou seja, a pessoa ideal para ajudar a organizar a vida de uma família francesa de classe média cuja figura materna deseja voltar a trabalhar após a dupla maternidade.

Narrando o que muitas vezes parecem-se a imagens decalcadas de um pesadelo, Leïla empreende uma intensa e artificiosa deterioração da personalidade de Louise, a babá branca empregada por Myriam, uma advogada de ascendência marroquina e por Paul Massé, um produtor musical mal sucedido, para cuidar de seus dois filhos, Mila e Adam.

Valendo-se do anti-clichê identitário para escapar à obviedade que seria retratar a condição inversa, embora fosse possivelmente mais corriqueira e realista em se tratando de imigrantes pobres, Slimani investe todas as fichas em enlouquecer sua maléfica protagonista. Para tanto, vale-se menos de elementos psicológicos factíveis do que de uma perspectiva em que os traumas sociais se tornam as fontes exclusivas para explicar o comportamento das pessoas, mesmo que o comportamento de um psicopata costume derivar de condições bem menos evidentes. É esse desvio de um drama psicológico a primeira vista complexo para uma trama francamente determinista que torna o livro uma leitura fácil e o que talvez explique a trajetória comercial do livro da franco-marroquina e sua expansão ultraterritorial, fenômeno como se sabe cada vez mais restrito às obras boas de venda.

Esta com certeza não será a primeira nem a última vez que um crime bárbaro despertará a atenção dos leitores mundo afora, afinal o gênero thriller vem cada vez mais assumindo o posto outrora ocupado pelo romance policial investigativo. Além disso, o desejo humano por aprofundar-se nos aspectos sombrios da personalidade parece ser dos mais antigos e inextirpáveis. Porém o que ocorre com o livro de Slimani é que não há thriller algum. Sua novela começa justamente pelo seu clímax e é da desconstrução da surpresa que a escritora passa a construir uma narrativa que acaba reduzindo-se a uma paulatina descrição psicopatológica da babá assassina, convertendo suas características humanas em uma sintomatologia autoexplicativa.

Lousie é a psicopata formada pela devastação da pobreza e resultante de uma vida incomunicável em que nunca é dito a ela do que dela se espera e nem ela incide em um mínimo diálogo para dizer de suas frustrações e desejos. É uma personagem que age como uma peça de relógio e que em algum momento passa a agir desgovernadamente. Uma personagem caricatural e totalmente conformada psiquicamente pela condição de classe, pobreza e inveja não declarada e que muito em breve estará apavorando as famílias empregadoras de babás mundo afora e estampando por tudo posters de cinema, reproduzindo ainda mais o sucesso pan-geográfico da trama da escritora marroquina. O combustível perfeito para isto Slimani já tem: o temor universal pela segurança da prole.

Quanto ao ponto de vista formal, metade do caminho para o sucesso cinematográfico já está trilhado. O livro de Slimani é tão descritivo e livre de ambiguidades quanto um roteiro cinematográfico. É uma opção autoral a que não cabe julgar, evidentemente, mas a autora preferiu escrevê-lo de modo a descrever inclusive noções sentimentais de suas personagens. Ao invés de conduzir a narrativa de modo que o leitor pudesse ele mesmo ir construindo uma imagem tanto externa quanto psíquica das personagens, logo nas primeiras páginas é preciso deparar-se com descrições taxativas até mesmo de noções invisíveis, como traços de personalidade e o caráter moral tanto da babá Lousie quanto de todos os demais. Dada a abordagem absolutamente plana que Leïla emprega, o certo é que se trata de um livro que dará pouco ou nem um trabalho para um roteirista adaptar.

Também muito diferentemente da legião de autores constrangidos aos diversos limites geopolíticos e linguísticos, Slimani conta com um entusiasta de peso como raro se reproduz no mundo. Trata-se do presidente francês Emmanuel Macron, que convidou-a inclusive para ocupar a titularidade da pasta cultural de seu governo e que, diante de sua recusa, tornou-a nada menos que sua representante pessoal para assuntos relacionados à francofonia. Mesmo que se tratasse apenas de mais um reconhecimento devido à popularidade crescente de Leïla e não de mais um meio de levar a cabo seu projeto de expandir a presença e o uso da língua francesa no mundo especialmente através do continente africano, a escolha é simbólica.

Mesmo abordando indiretamente (muito indiretamente, já que sua protagonista é uma francesa que faz o trabalho dos imigrantes e não convive muito bem com eles) a temática sensível do subemprego dos imigantes do norte africano, Slimani é uma autora que investe em descolar-se definitivamente de qualquer viés identitário e, assumindo uma proeminente posição política, torna-se agora, como deseja Macron, a voz multicultural de uma nação que nem tanto reconhece as dificuldades reais de dialogar com a diferença mas que prefere passar longe do que possa haver de sombrio nessa temática. Convenhamos que para ganhar distância disso tudo, pouco poderia ser comparado a galardoar a autora e um livro sobre uma psicopata improvável mesmo. Também caberia notar que caso a psicopatia decorresse, de fato, de motivações como as fornecidas por Slimani, um percentual altíssimo deveria ser considerado em um país como o Brasil, por exemplo. Não que não exista, mas felizmente não se trata ainda de efeito direto da decomposição social. Já não bastasse a paranoia da violência generalizada, que uma infinidade de leitores se satisfaça com explicações e narrativas dessa espécie talvez seja ainda mais preocupante e sintomático de algo ainda a ser melhor esclarecido.

Monsters: a fan’s dilemmaMonsters: a fan’s dilemma

Estou começando a ler e vou achando meio injusta a acusação de que o livro de Claire Dederer seja uma espécie manual de cancelamento. Ele é muito superficial e rápido em abarcar a “monstruosidade” de muitos artistas geniais e o desgosto que costuma acompanhar quando se começa a conhecer detalhes parciais de suas biografias, mas é muito interessante porque estimula a reflexão. Seria até engraçado que fosse ele mesmo um livro “cancelado”..

Motivada pelo movimento espontâneo de “tacar no lixo” os livros de Woody Allen pós Soon-Yi, a autora foi colecionando numa reflexão pessoal exemplos de comportamentos complicados, moralmente reprováveis, preconceitos mais ou menos escancarados e até implicações política e criminalmente mais sérias, envolvendo racismo e o anti-semitismo que povoou de modo marcante a mentalidade do mundo na primeira metade do séc. XX.

No livro, passeiam momentos às vezes mal explicados e controversos de declarações, correspondências, entrevistas nas quais nossos gênios diletos amargaram seus momentos mais cruciais de mediocridade humana. Curioso ou não, via de regra essas situações costumam extrapolar e fugir às obras e não infectá-las. Nisso, eu lembro da famosa citação de Ferreira Gullar, de que a arte existe porque a vida não basta e, nesse caso, talvez fosse interessante validá-la em seu sentido oposto também.

O livro é fácil de ler, ensaio fluído, mas é duro de confrontar diretamente com o canône em seu momento mais infeliz. Porém o livro é desse detalhismo mesmo, feito desses closes que agridem o juízo moral hipersensível da contemporaneidade. Eu ainda não cheguei no ponto em que ela analisa as obras controversas de autores como Nabokov, mas parece que ela é bastante cuidadosa ao analisar as obras por si só. No caso das pessoas e respectivas biografias, ela não tem a mesma condescendência e dá nome aos bois e às patologias que os afligem.

O que eu acho de proveitoso até aqui no seu livro é a sua consideração de que é natural que, ao encontrar o leitor, o texto se transforme. E que o leitor, ele mesmo não é uma folha em branco que vai assimilando a obra sem reflexão e, sim, a autoria extrapola o texto e é implicada pela biografia. Quer dizer, de acordo com ela não há como setorizar a leitura e fazer automaticamente essa “separação” entre obra e autor. Pode ser apreciada por si só, mas simplesmente o estofo e conhecimento do leitor quanto ao autor interfere inexoravelmente nessa relação quanto mais informação se tenha a seu respeito.

Outra coisa que ela considera, e eu concordo, é que os leitores têm as suas questões existenciais e psíquicas e não faz sentido exigir que as desconsiderem na leitura. Quer dizer, o leitor é também um sujeito moral e cada um tem seu ponto fraco, do qual não é facilmente demovido. Exigir que pessoas que por situações de abandono na infância, racismo ou violências não se manifestem porque se trata de gênios é no comportamento comunicativo contemporâneo algo inconcebível. Nesse ponto, eu mesmo tenho repulsas viscerais (por exemplo Neruda e Arthur Miller). Provavelmente você tenha, por outras razões particulares, as suas também.

Sem tradução no Brasil por enquanto, por aqui também temos autores que vêm sendo discutidos sob esse viés do cancelamento, vide Monteiro Lobato. Eu não comungo em hipótese alguma com a atividade canceladora nem acho que a vida e a posição política mais abjeta inutilize o artístico (pois teríamos de questionar não apenas Céline, mas muito mais candidatos ao status de monstro público), mas acho importante entender que a cultura do cancelamento, afinal, diz respeito à cultura e comportamento comunicativo de que dispomos hoje. As câmeras de vigilância estão nas ruas filmando nossos passos, mas miram também as consciências. Os telefones (e quem trafega por eles) já escutam os nossos pensamentos.