E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos Caminhos do livro no Rio Grande do Sul

Caminhos do livro no Rio Grande do Sul

Revista Parêntese, ed. 133

Há pelo menos vinte anos, o governo do Estado do Rio Grande do Sul declarava em forma de lei, entre outras coisas, o desejo de converter-se em centro editorial capaz de competir no mercado. Expressa desde a promulgação da Lei do Livro (Lei nº 11.670 de 19/09/2001), a ambição foi resultante da ação e empenho de muitos vetores: do próprio Poder Executivo, dos editores representados pelo Clube dos Editores e pela Câmara Riograndense do Livro e, pela parte das bibliotecas públicas, do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e do Centro do Livro e Bibliotecas Escolares, também organizadas no âmbito do executivo por meio da Secretaria de Educação.

A publicação ocorreu ainda no governo de Olívio Dutra, com um texto que mais buscava planejar o setor do que discipliná-lo. Denominava-se como Política Estadual do Livro, mas apenas dois anos após sua publicação é que começou a ser regulamentada. A forma escolhida pelo governo estadual já sob o comando de Germano Rigotto foi a edição de um decreto (DEC 43.036 de 20/04/2004) que, por sua vez, estipulou que a política fosse organizada em planos anuais. 

Um rápido corte de cena e quase uma década mais tarde vai encontrar-se, no ano de 2013, a informação de que, no âmbito do Poder Executivo, já no governo Tarso Genro, iniciou-se um novo plano estadual. Debatido e organizado desde 2012, agora em consonância com o Plano Nacional do Livro, o PELLL (Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura) contou com a participação dos mesmos setores que haviam se organizado pela política de 2001, pela Lei do Livro, ao menos em tese ainda vigente. Nesse movimento, os planos anuais foram substituídos pelos planos setoriais da cultura instituídos pela lei do Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 14.310 de 30/09/2013).

Entre idas e vindas legislativas e tempo despendido no qual muitas vezes os objetivos abstratos dos planejamentos setoriais são levados a efeito por iniciativas pessoais, quem efetivamente tem colocado o livro no mercado e nas mãos dos leitores vêm sendo mesmo as bibliotecas e os editores de livros, dado que cerca de dois terços dos municípios do interior não contam com livrarias. Dentre estas, um número significativo não conta com dotação orçamentária e é dependente de doações diretas dos autores ou de livros obtidos por meio do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas ou do Instituto Estadual do Livro (IEL).

As dificuldades orçamentárias são imensas. E o governo busca suprir também o mercado editorial de forma indireta, aplicando um tanto do previsto de fomento na política de 2001 por meio de linhas de crédito especiais, de longo prazo, por intermédio de seus bancos de fomento: Banrisul, Badesul e BRDE. A busca por tais recursos, no entanto, é pouco expressiva, e atualmente apenas a editora L&PM beneficia-se por meio do projeto Pró-Biblioteca

Para os editores, todavia, as dificuldades são ainda maiores. Quase permanentes se lembrarmos, por exemplo, do que na década de 30 do séc. XX José Bertaso já advertia ao filho Henrique, conforme narra Érico Veríssimo em Um certo Henrique Bertaso (1973), de que era preciso considerar “o problema de distribuição, da prestação de contas de remotas livrarias, a fatal devolução de livros consignados, quase sempre em mal estado de conservação”. Quando se percebe que a crise da indústria papeleira ainda afeta o ramo como antes da Segunda Guerra Mundial, quando Monteiro Lobato fazia um lobby quase solitário ao governo de Getúlio Vargas, é de espantar o ânimo de quem ainda se atreve no setor.

Pese-se mais ou menos positivamente o valor dos incentivos estatais, o negócio editorial tem uma gestão e sobrevivência extremamente exigentes, e atender aos requisitos e formalidades exigidas pelo sistema financeiro, ao mesmo tempo conservando-se as contas saudáveis, implica muitas vezes em manter-se o mais possível longe dele. É uma aposta pela autonomia que, se não seduz aos investidores por uma promessa de lucros, garante-se um tanto mais pela estabilidade. E caso se pense que são iniciativas concentradas na capital, onde a circulação dos bens culturais é maior, incorre-se em erro. No interior do Rio Grande do Sul o setor não apenas sobrevive como se reorganiza em face do novo momento cultural e tecnológico.

Editando desde o interior

Trabalhar sem um grande fluxo de caixa, mas de forma sustentável, é o desafio da maioria dos recentes negócios editoriais. Para Mônica Canto, da Ballejo Cultura & Comunicação, as políticas públicas para a leitura são deficitárias e as edições dependem de parcerias com os autores até o processo final de divulgação. Com a boa receptividade do lançamento recente de “Escaler: quando o Bom Fim era nosso, Senhor”, apenas agora a editora começa a buscar incentivos públicos para ampliar o catálogo de livros infanto-juvenis.

Para estar efetivamente no mercado, o negócio editorial exige ao menos a constituição de pequenas empresas ou empreendimentos individuais. Ao passo que a constituição de personalidade jurídica é cada vez mais facilitada, essa presença envolve mais do que colocar livros à venda. Implica também em ter onde colocá-los e encontrar um nicho de leitores dispostos a adquiri-los – isso contando-se de antemão com a concorrência inclemente das mídias digitais, como se pode verificar nas pesquisas do Instituto Pró-Livro que apontam o incremento de acesso às mídias digitais em detrimento da leitura de livros físicos. Mesmo assim, novas iniciativas editoriais não deixam de aparecer, mesmo no interior do estado, especialmente pelo espaço de comunicação aberta da internet.

Criada há cinco anos pelo escritor Daniel Gruber, a editora O Grifo é um exemplo de uso da convergência digital e independência. Apesar de já contar com livros expostos em livrarias de São Paulo, Porto Alegre e Novo Hamburgo, onde é sediada, a editora faz um uso intenso das mídias digitais e financia-se inteiramente com o envolvimento direto dos leitores em campanhas de financiamento. Daniel a caracteriza como uma editora independente e aponta a dificuldade da ausência de uma mídia literária que valorizasse os empreendimentos locais. Quanto ao governo e suas políticas, não demonstra maior interesse, apenas que “valorize o livro ao invés de persegui-lo”.

Sediada em Passo Fundo, região do planalto, a Physalis editora, por outro lado, diz ter boa relação com a imprensa local e, em função de um catálogo predominantemente infanto-juvenil, vale-se de iniciativas municipais voltadas à educação. De acordo com seu proprietário, o escritor Pablo Morenno, vem mantendo-se com recursos próprios obtidos pelas vendas de edições anteriores. A concorrência de grandes editoras e facilidade que podem oferecer na divulgação é o que, de acordo com Pablo, dificulta uma maior visibilidade da editora que, inclusive, vem recebendo prêmios importantes no município e no estado. Ele também aponta que uma política governamental de compras voltada às bibliotecas ajudaria muito a sua e outras editoras do estado.

Em Santa Maria, no centro do estado, a Rio das Letras é uma editora com pouco mais de uma década e um catálogo composto quase inteiramente por autores locais. Jorge Ubiratã da Silva Lopes, ou Byrata, como é mais bem conhecido na cidade, aponta que também nunca sua editora contou com recursos públicos e que deseja sobretudo ampliar sua presença no mundo digital para tornar-se mais atrativa para autores e leitores.

Não muito distante, em Santana do Livramento, na fronteira sudoeste, Thomaz Albornoz Neves há dois anos passou a editar o que chama de projeto conceitual, uma coleção com livros que partilham o mesmo desenho gráfico e que têm em comum pertencerem a autores do interior do Rio grande do Sul e do Uruguai. Presentes nas livrarias locais, os livros da TAN editorial são tiragens limitadas e produzidas numa iniciativa não lucrativa e aposta inteiramente na internet para vendas e divulgação. Thomaz considera a distribuição e as margens de consignação impostas pelas livrarias impraticáveis para pequenos negócios como o seu.

Re-re-planejando 

Em levantamento realizado em 2006 pelo Clube dos Editores, no Rio Grande do Sul existiriam em atividade 453 livrarias. Presentes em 118 dos 497 municípios do estado, a aritmética simples indica que 380 municípios gaúchos não contam com livrarias. Já as editoras no estado não passam de uma centena. O único número efetivamente de encher os olhos é o de bibliotecas públicas. De acordo com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, apenas um município do estado não contaria com uma biblioteca pública municipal, num total de 535 instituições.

Mais recentemente, em 2020, em nota técnica realizada pelo Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo estadual, a cadeia produtiva do livro foi novamente reexaminada. No escopo da nota, entende-se por “cadeia editorial”, o longo processo de realização industrial do livro desde o autor até o leitor final ou, para os efeitos da nota, o consumidor. Entre um polo e outro, o conjunto de pessoas e ramos de atividade envolvidos desde a composição até a venda final dos livros. O documento propõe-se a diagnosticar o impacto tecnológico no setor, evolução, dificuldades e identificar tendências futuras.

Comparar-se a nota à legislação e planos já desenvolvidos para o setor é no mínimo embaraçoso. Não há qualquer referência aos impactos nem da Lei do Livro nem do decreto de sua regulamentação e tampouco do Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura, de 2013. Para os efeitos de análise de impacto, resta a conclusão de que o setor faz-se por conta própria. Para toda a problemática levantada pela nota, resta sempre a necessidade de um novo planejamento, novas necessidades e muitos verbos no infinitivo, tais como naqueles outros documentos: identificar, fortalecer, trabalhar, construir, etc.

O resultado exasperante da preocupação política com o setor editorial talvez peque justamente por um sentido de permanente desconexão com a situação presente. A ideia da nota para a sobrevivência das livrarias, por exemplo, é de que elas se convertam ou assumam funções quase idênticas as de bibliotecas, isto é, cumpram a função de aglutinação e espaço cultural. É uma ideia de certo modo eficiente, até porque desloca da própria biblioteca pública essa missão e, assim, justifica-se para estas um estoque permanente de baixo investimento.

Embora pareça preparar-se logo para uma nova rodada de planejamentos promovida pelos sucessivos governos, o setor subsiste mesmo é pelas estratégias editoriais que enfrentam tanto um cenário de burocratização tremenda como o avanço de uma logística superior, como a proposta e executada, por exemplo, pela multinacional Amazon, mas também por livrarias do centro do país, como a Martins Fontes, que vêm explorando o mercado com valores cada vez mais competitivos e logística de alta eficiência.

Converter o Estado do Rio Grande do Sul em centro editorial, com condições de competir no mercado, era o desejo da Lei de Livro, em 2001. Além disso, outras missões tão nobres quanto: criar novas bibliotecas, preservar o patrimônio cultural, promover o hábito da leitura e assim por diante. A dificuldade de materialização das leis e planos, no entanto, parece repetir a baixa adesão ao Art. 13 da lei, que prevê o depósito legal e do qual ainda se tem infelizmente pouca notícia. Do mesmo modo, é de se lamentar que a utopia da preservação da memória venha sendo adiada, assim como outras ambições do setor livreiro e da sociedade. Não será por falta de planos, leis e boas intenções. Disso, como se vê, o estado vai muito bem. Vinte anos depois, somam-se às dificuldades do setor os desafios da tecnologia que batem a porta. Talvez, para atingir-se outro patamar, seja necessário parar de repetir-se e dar mais chance ao novo do que ao mesmo.

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Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 29/02/2020.

Em 1910, muito antes que os primeiros youtubers e coaches literários pisassem sobre a terra, Robert Musil tinha os nervos quase em colapso após uma experiência que transcreveu mais tarde para o seu O homem sem qualidades. No que no livro ele chama de “hospício de livros”, Musil viveu a experiência real de ser um dos bibliotecários da Universidade Técnica de Viena, cargo obtido após o sucesso do biográfico O jovem Törless. Segundo seus biógrafos, parece que lá ele projetava ter o sossego necessário para desenvolver seus posteriores projetos literários. O trabalho, no entanto, acabou revelando-se exasperante em vista da segunda explosão bibliográfica ocorrida logo após a Revolução Industrial (a primeira ocorreu no séc. XVII com a popularização da prensa). Lendas contam que ele redigiu as mais de mil páginas de O homem sem qualidades também como vingança pela extenuante experiência laboral catalográfica na “bibliografia das bibliografias”.

Mais de um século após, e com a sobreposição da revolução tecnológica (sem que a industrial tenha jamais pausado), pense-se no quão exasperante pode ser a um ser humano dotado de apenas um cérebro e uma vida indicar, que seja, apenas um livro a alguém, não interessa quem. É uma tarefa efetivamente impossível e, dada a recente compulsão por listas de recomendações, às vezes parece que estamos todos a tentar compilar a “lista das listas” como se esta fosse a finalidade em si mesma da leitura ou, como em Musil, a única leitura possível.

Objetivamente, tudo se resume ao critério da ignorância, ou seja, todos reconhecem que é humanamente impossível ler todos os livros ou ter absoluta certeza de que o próximo da lista, qualquer que seja ela, não pudesse ser muito superior ao precedente. Como solução para o impasse que vem desde Alexandria, literatos costumam valer-se de recomendações canônicas enquanto que leitores comuns, por outro lado, parecem mesmo tentados a cada vez mais procurar outras fontes de lazer. É pelo menos o que tem demonstrado os achados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada numa parceria entre o IBOPE e o Instituto Pró-Livro e que deve ser reeditada no ano de 2020.

Nessa dissociação, todavia, todos conseguem decodificar rapidamente os males que se refletem na vida de cada um decorrentes da deterioração do hábito de leitura. Não raro se aponta que muitas dificuldades do mundo contemporâneo também possam ter alguma relação com as capacidades intelectivas obtidas (ou perdidas) pelo hábito e, especialmente de ficção e poesia, cujo efeito já foi equiparado por neurocientistas a terapias que retardariam o declínio das funções cognitivas e poderia ajudar a prevenir inclusive condições como ansiedade e depressão. Seja na aquisição de capital cultural ou no aprimoramento das capacidades interpretativas, também dificilmente alguém se oporia à ideia de que estimular a leitura é condição fundamental para a melhoria de toda a vida social. A constatação é das mais banais. Enfrentá-la é que são elas.

Uma das perspectivas em evidência obedece à lógica que o sociólogo francês Pierre Bourdieu denominou em seus livros por “distintiva”. Quase toda ela reside na vantagem social e simbólica decorrente do acúmulo de capital cultural, mesmo desconsiderando variáveis perspectivistas. Embora pareça ser a preferência entre literatos e adictos, não raro os leitores comuns a interpretam como afetação e objetificação, portanto há que se ponderar em seu uso com objetivos de convencimento. Em tempos de guerras culturais, a perspectiva compete muitas vezes mais na autoafirmação pessoal que num efetivo interesse de disseminação do hábito. E, considerando-se que a interpretação costuma ser a primeira baixa e a mútua incompreensão a principal moeda corrente das comunicações digitais, é relevante pelo menos que se tenha ciência dos limites “pedagógicos” interpessoais, mesmo em face dos melhores objetivos.

Outra perspectiva em questão, bibliófila, trata de um estímulo positivo e direcionado à difusão do hábito de leitura, revalorização das bibliotecas em detrimento da tecnologia e iniciativas mais convidativas que pedagógicas. Nos últimos tempos, talvez ninguém como o argentino Alberto Manguel, atual presidente da Biblioteca Nacional Argentina (cargo já ocupado por Jorge Luis Borges), encarne o papel de divulgador literário, principalmente depois da morte de Umberto Eco.

Uma ideia defendida por ele, de que muitas vezes os livros ensinam mais dos lugares e culturas remotas do que até mesmo podem fazer as viagens, pode servir de consolo para quem, em tempos difíceis, sequer pode viajar a lazer. Mas o que ele deseja dizer é que a espécie de viagem que sobretudo a leitura ficcional permite fazer é muito diferente da que é disponível em sua forma consumista.  Ou seja, viajar “estando” num outro mundo, não apenas “visitando-o” e “reportando-o”. Desse modo, e contrariando a tendência predominante que nos condena a estar na mesma posição em qualquer lugar, ou seja, consultando um smartphone, a leitura de ficção pode efetivamente transportar a mente, principalmente se por meio de histórias interessantes e, melhor de tudo, ciceroneada por pessoas habilidosas como são os bons escritores.

Por outro lado, é preciso lembrar que a leitura de literatura e ficção é apenas parte do conjunto de livros que há para ler e se o declínio do hábito de leitura se deve às exigências culturais cada vez mais indisponíveis, não se pode esquecer também do principal vilão evocado quando o brasileiro dá a conhecer sua média de três livros por ano: o tempo. Ao lado da irrefutável imensidão de oferta de títulos, é preciso igualmente usar de honestidade ao admitir a prevalência de outras leituras e fontes de lazer. Tudo a competir com o tempo e com as escolhas de cada um em gastá-lo.

Já o mundo não é o mesmo do crítico Émile Faguet, que recomendava que, para aprender a ler, “é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que tiver a honra de ter sido lido por você, será preciso ler bem devagar”. No país que mais usa ansiolíticos no mundo, convenhamos que é uma recomendação para lá de inquietante. Embora o prazer da leitura venha sendo nitidamente substituído por outros prazeres e compulsões, talvez seja possível um exercício justamente de tempo para levar a efeito uma atividade que inicialmente possa ser assombrosa como, por exemplo, a leitura das mil e tantas páginas de O homem sem qualidades – ou qualquer outro livro.

Nesse exercício, é desnecessário realizar uma equação das recomendações de fim de ano das pessoas mais respeitáveis do ramo. Recomendável também ignorar as listas de mais vendidos ou livros premiados. E, mais importante que decidir por comprar, por tomar emprestado de um amigo ou de uma biblioteca ou mesmo de livros já lidos e relidos, importa aproveitar qualquer livro como passaporte para uma viagem na qual lhe podem acompanhar as mentes mais imaginativas e poéticas com que o mundo já contou, em direção a lugares do mundo que nunca se tenha pisado antes ou mesmo que já não existam mais, quer seja num país distante ou no bairro ao lado. Este privilégio impagável de tomar parte nos dramas e alegrias humanas requer o sacrifício de penhorar, quando possível, apenas o tempo que mais tarde seria lamentado como perdido.

A gamificação e o futuro da leituraA gamificação e o futuro da leitura

Banco de livros

Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

Yoñlu, o filme e a narrativa do suicídio na adolescênciaYoñlu, o filme e a narrativa do suicídio na adolescência

É possível fazer um bom filme sobre o suicídio de um adolescente? Como pegar desse enredo inóspito e doloroso e daí realizar um filme que muito provavelmente irá atingir o público que ele mesmo retrata, isto é, o público adolescente? É preciso ser educativo, esclarecedor ou simplesmente basta que conte a história como aconteceu? Como fazer isso se o filme, ainda por cima de tudo, não é ficcional, mas baseado na vida de um adolescente que tomou essa decisão há pouco mais de uma década, aos dezesseis anos, num episódio que talvez tenha mais para amedrontar a sociedade do que, por exemplo, a badalada série 13 Reasons Why, produzida nos EUA e veiculada  em 2017 no canal de streaming Netflix?

Para questões como essas, não há e nem deveria mesmo haver respostas fáceis. Mostrar isso tudo, entretanto, será dos maiores desafios que terão pela frente o diretor Hique Montanari e também o ator Thalles Cabral, que reviverá nas telas o compositor e cantor Yoñlu. Yoñlu é o pseudônimo pelo qual se autodenominava e ficou conhecido este garoto (seu nome era Vinicius) nascido em 1989, em Porto Alegre, onde também veio a falecer, no ano de 2006. Também será o nome do filme que em outubro terá sua primeira exibição, no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

Enquanto o filme ainda não tem data para estrear nos cinemas, na internet dia a dia aumentam as visualizações da fanpage e de seu primeiro trailer já divulgado. Dificilmente poderia ser diferente: Yoñlu e a internet sempre estiveram muito próximos, quase interconectados. Foi nela que ele primeiro divulgou suas músicas, alcançando o mundo inteiro desde o seu quarto de dormir, exatamente como fazem há bastante tempo já, e no mundo inteiro, milhões de adolescentes.

Há uma década, na era pré smartphone e primórdios das redes sociais, não era tarefa das mais simples encontrar-se grupos de interesse mútuo, porém, em fóruns, blogues e grupos de discussão se podia acessar com relativa facilidade e anonimato quem quisesse compartilhar músicas, opiniões e conversas sobre quaisquer assuntos, inclusive formas de tirar a própria vida. Este território sem limites precisos ou censura, a internet, foi o único palco que o compositor e cantor Yoñlu conheceu. Pelo destino que deu a sua breve vida, foi ali também que ao longo de uma década se tornou uma espécie de mito, consagrado principalmente pelos seus contemporâneos adolescentes.

Tão logo a notícia de sua morte se espalhou, sua história foi ganhando visibilidade para além da web e reportagens na mídia impressa começaram a surgir, diferenciando-se do que costuma acontecer nos suicídios de um modo geral. No caso dele, não parecia tratar-se de mais um número entre as estatísticas, mas da morte precoce de uma mente muito criativa e com enorme talento para a música. E também porque trazia consigo uma mensagem ainda hoje complexa a respeito de um potencial um tanto quanto obscuro da web: o de, além de encerrar por muito tempo as pessoas em uma irresistível sensação de imensidão e liberdade, chocá-las de encontro a uma impessoalidade capaz de compartilhar ideias tão radicais como, por exemplo, o suicídio.

Ainda lembro-me do começo do ano de 2008 como o ano em que conheci a adaptação de Sean Penn para o cinema do livro de Jon Krakauer, Na natureza selvagem. Na verdade, conheci um pouco antes a trilha sonora que Eddie Vedder, do Pearl Jam, compôs para o filme e suas baladas folk. As letras melancólicas tratavam de um personagem real, Chris McCandless, um adolescente em franco processo de desadaptação que aos 22 anos, em 1990, resolve isolar-se da civilização e ir de encontro à solidão de uma floresta no Alasca, para lá viver por uns tempos. Quanto tempo, porém, ele teria desejado ficar mesmo por lá, isolado de todos, é algo que nunca se poderá saber ao certo. Chris, que também adotava um pseudônimo e referia a si mesmo como um certo Alex Supertramp, acabou morrendo completamente só, dentro de um ônibus, sem a ajuda de ninguém, vítima de inanição ou um possível envenenamento decorrente da ingestão de sementes tóxicas.

Naquele mesmo período, em uma revista de circulação nacional, li pela primeira vez a respeito do suicídio de Yoñlu. Retratado como um adolescente que perdia a vida após a realização de um meticuloso procedimento todo obtido e reportado na internet, ele deixara uma coleção de canções que entrevia seu talento para compor e aspectos psicológicos de sua abreviada trajetória. Logo após isso fui conhecer a sua música, disponível em registros caseiros aos quais se dedicava intensamente. Na escrivaninha do quarto onde compunha suas músicas, encontrou-se um disco com suas gravações e explicações deixadas aos pais. Além dos registros no CD, Yoñlu deixara gravados em seu computador algo em torno de cem canções. Mais tarde, parte delas seria transformada em dois discos, um produzido no Brasil e outro nos EUA, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne dos Talking Heads.

Assim foi que as duas histórias (e músicas) se misturaram por algum tempo em minha mente. Dois adolescentes, duas espécies distintas de morte, mas duas perdas de garotos excepcionalmente inteligentes numa época da vida em que excessos (e sentir em excesso) são muito comuns, mas o único que não se deveria aceitar tão tranquilamente é o de que justamente pessoas com um potencial tremendo deixem, de repente, de acreditar que ao menos vale a pena continuar vivo.

Sempre pensei na adolescência como o momento da vida em que o tempo perde toda a linearidade e, todavia, não se pode saber ao certo quando aquilo vai acabar nem quando será possível chegar ao próximo platô, ou o que se costuma denominar por “maturidade”. Importa dizer que para muitos adolescentes este pode tratar-se de um processo muito difícil e, se o entorno não colabora, muitas vezes a sensação subjacente é a de aprisionamento, isolamento. E, diga-se de passagem, um isolamento que nem a rede das redes costuma ser capaz de romper ou ainda que, de outro modo, muitas vezes parece colaborar ainda mais em certo confinamento, dado que na internet se configura uma espécie de duplo do mundo real em suas muitas representações, declarações e uma sorte infinita de contatos indiretos e impessoais. Mesmo assim, sob o argumento de ajudar as pessoas até onde seja possível, a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook, tem entre suas políticas de conteúdo a permissão para que os usuários realizem inclusive a transmissão ao vivo de tentativas de automutilação ou suicídio. A informação foi divulgada em maio do ano passado pelo jornal britânico The Guardian, após investigação que revelou as diretrizes mais secretas da rede de Mark Zuckerberg.

A implicação de adolescentes em um mundo em que a representação da morte é banalizada e até certo ponto erotizada, como o psicanalista Contardo Caliigaris alertou em seu artigo Sempre há um exército dos mortos, que amam e propagam a morte, não é exatamente uma novidade. Desde a publicação de Werther, de Goethe, em 1774, teme-se pela replicação entre o público juvenil do drama suicida e as ideias românticas, afinal, são ideias que não podem simplesmente extirpar-se da cultura. Na realidade, são ideias e valores que estão integrados a ela e nela são recicladas periodicamente. Seja na literatura, no cinema ou na música, não poderia haver medida mais infrutífera ou contraproducente do que limitar-se o acesso do público, ainda mais o adolescente, do que se pode obter na internet. Felizmente, em anos recentes, se tem procurado outras condutas e alternativas, como o esforço educativo e campanhas de esclarecimento como o “Setembro Amarelo” e a inserção da temática no âmbito escolar, reduto por excelência do público adolescente.

A ocorrência suicida entre a população adolescente parece não decorrer de mera insegurança ou exclusivamente pela falta de perspectivas econômicas, ainda que tudo isso tenha seu peso na situação de vida de qualquer pessoa. Talvez a situação seja um pouco mais complicada que isso e, para pessoas que já não são mais crianças e ainda não completamente adultas, implica muitas vezes em sentir-se e saber-se impotente em dar conta de um legado ao qual não deram causa e nunca estiveram integrados ativamente, mas que, de repente, é todo o mundo que há para existir. Como lidar com tudo isso não é algo simples ou que se resolva com simples recomendações, isto é, trata-se de um tema socialmente tenso, eu só consigo ficar muito curioso em saber como o filme que conta a história de Yoñlu irá tratar disso tudo, tendo-se em vista um ano que começou com o furor em torno a 13 Reasons Why e logo a seguir entrou em pânico com a disseminação do jogo de automutilação “a baleia azul”.

Se Hannah Baker, a personagem central de 13 Reasons Why causou apreensão por um suicídio decorrente da violência sexual e do bullying por que passou, nesta história não há propriamente um incômodo externo, mas um interno, e por isso mesmo de mais difícil abordagem. Não que as causas de diferentes mortes possam ser comparadas, mas enquanto é relativamente simples localizar num personagem um elemento externo, uma razão prática, do outro permanece uma nebulosa associação com a depressão e uma dificuldade de abordar-se adequadamente – e em tempo hábil – as dificuldades de natureza psicológica que muitas vezes transformam adolescentes em alvos potenciais de ideações suicidas. Seja como for, neste terreno não se tem o direito de ser leviano nem por um instante, dado que as estatísticas apontam para números crescentes entre a população dessa faixa etária por aqui e em todo o mundo.

Embora muitas vezes a associação entre depressão e suicídio pareça a mais óbvia, é relevante pensar que outros elementos possam colaborar tanto para o desfecho quanto para que se aventem medidas para que se o evite. No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, o jornalista e escritor norte-americano Andrew Solomon destaca que depressão e suicídio nem sempre fazem uma equação indissociável. Ele diz ainda que, embora apareçam juntos muitas vezes, a ideia e pulsão de morte são inerentes à vida e que ambas as situações têm vida própria e, portanto, generalizações deveriam ser evitadas a fim de não estigmatizar-se ainda mais as pessoas. Para a psicanalista Julia Kristeva, autora de O sol negro: depressão e melancolia, mesmo a pessoa mais deprimida debate-se com o afeto e sua expressão. Para ela, talvez seja justamente pelo afeto, pela recuperação da saúde afetiva, que passe muito do que pode ser feito em prol das pessoas, especialmente os adolescentes, antes de qualquer outro desfecho.

Até que se possa saber mais e chegue em definitivo aos cinemas, não se pode dizer ainda como Yoñlu, o filme será recebido pelo público. Antes mesmo de seu lançamento, entretanto, já é possível perceber o quanto tem despertado o interesse. Seja como for, o inegável é que cada pessoa é única e tem sua história, seu percurso inigualável e sua forma peculiar de lidar com a informação. Por enquanto, não se pode saber se o filme dará mais eco ao que nunca se entenderá por completo, isto é, a morte em si mesma, ou então da vida e do que se pode fazer por ela. Como uma está imbricada na outra e compõem espontaneamente o drama humano, não se trata de simples desmistificação, mas de uma perspectiva a qual todos estão vulneráveis e para a qual, ao mesmo tempo, ninguém nunca está preparado.

Mito que é cada vez mais decomposto, o suicídio continua assombrando e fascinando as pessoas justamente porque, dos gestos humanos, talvez seja o que mais desestabiliza o mundo como ele é, isto é, o mundo de quem fica. Tudo ao que se confere apreço, que está imbuído de valor e pelo que se preza, em um momento apenas se evapora diante de quem confere sentido ao mundo e lhe dá significação. Se o adolescente está especialmente vulnerável ao suicídio, assim como também a outras formas de violência, e isso em qualquer classe social ou geografia, seu gesto fala não apenas de si, mas de todo o seu entorno afetivo e social. É preciso falar sobre suicídio, sem dúvida, mas também do que isso importa à família, à escola, à sociedade e, já que não se restringe exclusivamente aos adolescentes, aos sentimentos de todas as pessoas. Yoñlu, o filme certamente não tem o dever de fornecer todas as respostas de que precisamos. Por outro lado, nós é que temos o de aproveitar a oportunidade do filme e incrementar as necessárias discussões a respeito do assunto.

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Há quase duas décadas atrás, no ano de 2000, a OMS publicava um guia voltado aos profissionais da mídia na intenção de instruir as abordagens e notícias sobre o suicídio. Em linhas gerais, as recomendações giravam em torno de evitar-se o detalhamento de métodos, certa tendência à espetacularização, associações diretas com outros transtornos mentais, alusões que possa levar a uma estigmatização das pessoas e suas famílias, bem como destacar-se informações alternativas e fontes de informação confiáveis sobre o assunto.

Seguindo o exemplo da OMS, há cerca de uma década o governo federal, através do Ministério da Saúde, publicou as Diretrizes Nacionais para Prevenção ao Suicídio, oferecendo indicações a respeito da necessidade de ações de prevenção ao suicídio e de sua caracterização como um problema de saúde pública. Apenas desde 2004 a OMS passou a publicar relatório exclusivo sobre o tema. Dois anos atrás, em 2015, foi instituído no Brasil o “Setembro Amarelo”, iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) dedicada a reflexão e medidas de enfrentamento ao suicídio.

Na última semana (21/09), o Ministério da Saúde divulgou o primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, contendo dados obtidos entre 2011 e 2015. Importante destacar que a interpretação cuidadosa de estatísticas, o evitamento de generalizações e comparações geográficas, recomendações publicadas pela OMS no longínquo ano de 2000, parecem ainda muito distantes de serem observadas.

 

Os links abaixo remetem aos conteúdos publicados em alguns meios de comunicação sobre a publicação do boletim:

Mapa dos suicídios no Brasil coloca Rio Grande do Sul em alerta (Zero Hora)

Brasil registra uma tentativa de suicídio por hora, diz boletim inédito (Correio Braziliense)

Núcleo identifica uma tentativa de suicídio a cada 10 horas na Capital

Suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos (Agência Brasil)

Brasil registra 30 suicídios por dia; problema afeta mais idosos e índios (Folha de São Paulo)

Cerca de 11 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos no Brasil… (UOL)

Suicídios aumentam 12% em 4 anos e preocupam Ministério da Saúde (Estadão)

 

Fontes e links de apoio:

CVV – Centro de Valorização da Vida (Tel: 188)

FIOCRUZ – Especial sobre suicídio

Setembro Amarelo

Suicídio e vida

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio

Befrienders