Neste dia (ou amanhã), há 267 anos, caía morto Sepé Tiarajú. Ao que parece, no que hoje é o município de São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul.
Gravura de Edgar Koetz (1914-1969) para o livro “Tiaraju”, de Manoelito de Ornellas. Editora Globo, 1945.
Sepé é uma figura sem figura, ou seja, não temos ideia de como seria a sua fisionomia nem quais seriam suas características físicas. A iconografia que se dedica a ele, todavia, é sempre muito generosa. Há representações bastante heroicas e sua imagem foi produzida em esculturas, pinturas, desenhos, HQs, etc. O fenótipo quase nunca remete propriamente ao dos guaranis.
Sepé é um dos poucos santos populares do Rio Grande do Sul e desde 2018 se discute no Vaticano a sua canonização. Apesar disso, (pelo menos eu) não tenho conhecimento de ao menos uma oração ou prece consagrada nessa idolatria. Há os versos que João Simões Lopes Neto recompilou da voz popular, mas também é dito que os versos teriam sido criação sua. Não se pode saber. O passado de Sepé é feito em muita névoa e polêmica, como a que mobilizou e dividiu a intelectualidade rio-grandense, nos anos 50, em torno de homenagem proposta por um militar ao então governador Ildo Meneghetti.
De fonte apócrifa, certa vez ouvi que Sepé não seria exatamente um guarani, mas uma criança filha de mãe guarani e pai ocidental. O insólito da informação é que este pai teria nome e sobrenome muito conhecidos: Jerônimo de Ornellas. De acordo com a fonte, o fundador de Porto Alegre manteria relações comerciais com os povos missioneiros e, dessas idas e vindas, teria nascido a criança que ficou ao encargo da criação dos jesuítas.
Eu tenho desconfiança disso e não me custa muito deduzir que possa ser, também, uma busca por apropriação de um dos poucos heróis indígenas registrados na Guerra Guaranítica. Mas também, como não se pode exumar o corpo e examinar o dna de Sepé, não estou em condições de dizer que seja uma história impossível. Na minha opinião, é duvidosa, dado que os relatos militares dos encontros com Sepé não parecem indicar um fenótipo branco. Os relatos indicam, por outro lado, um indivíduo enérgico e orgulhoso de pertencer à sua nação guarani.
Mas de Sepé tudo parece ser mesmo assim. Até mesmo a data de sua morte e sua circunstância são problemáticas. Teria morrido por lanças ou por balaços, em São Gabriel ou teria sido transladado a Montevideo para mais torturas. De qualquer modo, a morte de Sepé tem o estatuto do épico e poetas e escritores (e também historiadores) a tem pintado com mais ou menos dramaticidade e verossimilhança.
Seja como for, dali a três dias de sua morte, aconteceria uma chacina de proporções absurdas, na qual milhares de guaranis foram massacrados pela conjugação dos exércitos espanhóis e portugueses, decididos a implementar a qualquer custo o Tratado de Madri, de 1750.
A repercussão do tratado haveria de levar ao morticínio de praticamente todas as etnias originárias presentes na região do pampa. E, quanto mais “infiéis”, mais barbaramente foram massacradas. Isso implica que não havia mais espaço para um modo de vida intermediário para os indígenas: ou agauchavam-se ou eram mortos para dar lugar à ocupação de seus territórios e colonização do sul.
Em 100 anos, ou seja, até 1850, no Rio Grande do Sul é muito incerto dizer se havia ou não ainda a presença dos “infiéis”: charruas, guenoas, minuanes, yaros, etc. Mais certo dizer que havia seus descendentes, mas já num novo modo de vida e organização política.
Antes da Guerra Guaranítica, parece certo dizer que muitas dessas etnias miscigenaram-se. Uniões entre fieis reduzidos e infiéis nômades parecem ter acontecido e muito tanto no Uruguai quanto no que hoje é território brasileiro.
Já o vizinho Uruguai, desde a matança de Salsipuedes, diz-se um país “sem índios” e até hoje é um dos raros países que se recusa a assinar a Convenção 169 da OIT sobre o direito dos povos indígenas, o outro é a Guiana Francesa.
Em que pese a reinvindicação de 5% da população em reconhecer antepassados indígenas, trava-se no país uma disputa política bastante dramática entre descendentes e governos. Inclusive o ex-presidente Pepe Mujica parece ter confrontado uma importante liderança indígena, a antrópologa Mónica Michelena Díaz, para que desistissem de insistir no “mito charrua”. Estranhamente, a posição é a mesma do ex-presidente Julio Maria Sanguinetti que, além de negar o massacre de Salsipuedes, prefere classificar o movimento reivindicatório por “charruísmo “.
Assim como Sanguinetti e Mujica, muitos intelectuais e políticos mostram-se reticentes em relação às reivindicações presentes. Não houvesse comprovações documentadas de próprio punho de Rivera, até seria possível tomar em consideração tais alegações, mas o que isso mostra, afinal, é que a insistência no país sem índios permanece e se encontra muito viva entre os vizinhos uruguaios. Por outro lado, a busca por outras narrativas vem acontecendo no sentido de repolitizar o assunto dado por ali como encerrado desde 1831.
Na minha opinião, é absurdo negar a quem quer que seja a reivindicação de suas origens e, se na cultura ameríndia a intersubjetividade costuma alcançar inclusive outras espécies da natureza, que se dirá de um interdito historicista como este? Violência simbólica livremente transposta para o campo político.
Quanto à memória e imagem de Sepé eu temo que nunca saberemos ao certo quem foi, mas me parece um caso de santo muito atípico, com uma iconografia tardia e imprecisa. A mim, por exemplo, não consta que Sepé seja invocado como credo por fiéis. Sem oração nem figura certa, resta um nome que, no contraste pela simplicidade, significa tanto ainda para a população do RS. Significa sobretudo um signo vivo para as populações guaranis que precisam daquela mesma coragem para enfrentar as dificuldades de estar aqui (e com todo o direito a estar), entre nós, quando ainda custamos a aceitar e respeitar sua presença.
Quem observa a ferramenta de busca a seguir, quase idêntica ao formulário oracular do Google, não imagina que a consultando desde alguma cidade norueguesa poderá ter acesso integral a quase todos os livros publicados no país (até 2025, eles pretendem que sejam todos mesmo). Sem pagar nada por isso, sem correr o risco de ser processado por pirataria e nem de prejudicar o negócio de ninguém. Sim, isso mesmo.
Captura da tela principal do website da Biblioteca Nacional da Noruega
Não obstante a estranheza do parágrafo acima, aqueles que pensarem que as medidas de digitalização tomadas pela Biblioteca Nacional da Noruega têm impactado negativamente a cadeia do livro norueguês irão surpreender-se ainda mais: por lá os números editoriais mantêm-se estáveis, e os livros podem ser inclusive adquiridos em livrarias que as próprias bibliotecas abrigam. Além disso, lá se publicou no último ano um livro para cada 530 pessoas, contra um para cada 4.500 brasileiros. Proporcionalmente, o pequeno país escandinavo publica cinco vezes mais que o Brasil.
Não convém criar caso, manda a prudência, com um sistema que funciona. Muito mais produtivo seria entender como isso pode acontecer e, se possível, tomar de alguns bons exemplos e práticas. Além do mais, comparar o Brasil aos países nórdicos é receita certa de dor de cabeça neste e em muitos outros assuntos. Também entender o que se passa aqui quanto ao assunto é fundamental, mas cada coisa em seu tempo. Escandalizando os sistemas educacionais do planeta com um modelo inteiramente subsidiado e gratuito, a Finlândia tornou-se, por exemplo, uma espécie peculiar de vilã internacional. Mas toda a vilania finlandesa consiste, afinal, em ter elevado a régua da qualidade educacional ao máximo possível, num sistema no qual o filho do chanceler divide tranquilamente a classe com o do recolhedor de lixo. Além da política educacional, todo o sistema de proteção social do país é escandalosamente funcional e democrático.
Mas uma vez que repetir o modelo educacional finlandês costuma causar depressão nos brasileiros, o modelo bibliográfico norueguês poderia inspirar medidas que cumpririam ambições mais modestas, mas exequíveis, tanto no que diz respeito à conservação da memória quanto ao desenvolvimento cultural.
Para chegar a um sistema online como o de que dispõe hoje, a Biblioteca Nacional da Noruega ampara-se no instituto do Depósito Legal, em negociações com as casas editoriais, com os proprietários de direitos autorais, em parcerias estratégicas com o uso de tecnologia digital e formação de um repositório livre, em acordo com a missão legal e prerrogativas da biblioteca e os pressupostos do Depósito Legal. Ao menos em tese, são instrumentos acessíveis a qualquer nação do planeta.
O Depósito Legal, no caso, é instrumento adotado em praticamente todos os países, por ato legal próprio, e vem modernizando-se no rastro da inovação tecnológica. Em torno da virada do milênio, primeiro a UNESCO e na sequência a IFLA (International Federation Library Association) publicaram diretrizes de modernização do instituto prevendo a inclusão óbvia de documentos digitais e orientando os sistemas de controle bibliográfico a incluírem em seu escopo muito mais que livros impressos, além de estes serem digitalizados. Isso tudo em função da razoabilidade técnica e do cumprimento dos dois objetivos fundamentais do Depósito Legal: preservação e acesso aos registros do conhecimento.
O que a Noruega guarda de diferença do Brasil, no caso, foi o fato de lutar para que estes objetivos não se configurem uma bela e inatingível meta, mas uma realidade factível. As demais estratégias são empreendimentos políticos e de gestão que encontraram um ramo editorial interessado em investir para além do comércio puro e simples. Não por acaso, muitos países vêm buscando seguir seu exemplo e negociar com os detentores de direitos autorais a cessão de uso ao menos para fins educacionais. Pode-se falar na Nova Zelândia, na Austrália e também em projetos nos Estados Unidos que, na história recente, receberam investidas jurídicas importantes no sentido de contrapor interesses comerciais e públicos.
No exemplo norueguês, no entanto, os inimigos do livro não são a tecnologia nem as bibliotecas, e lá o livro vale mais do que pelo que é vendido. É uma diferença sobretudo cultural que evidencia o abismo imenso, e, no caso brasileiro, parece nos encalacrar e condenar à estagnação de um mercado perenemente problemático, isso num um país que se notabiliza ano a ano por um decréscimo em seu número de leitores.
Permanência vs invisibilidade
Para aqueles que ainda imaginam que basta publicar para eternizar um trabalho de ideias, é dura a informação, mas a verdade é que publicar não é o suficiente. No Brasil, o ciclo de vida comercial de um livro dificilmente passa dos dois anos. Três anos só mesmo para os longevos ou com forte apelo popular. Após esse período, é preciso considerar não ser nunca mais encontrado em lugar nenhum, a não ser em visitas às poucas bibliotecas em condições orçamentárias, isto é, em condições de atualizarem-se, pois o ciclo de vida do livro é curto, ao contrário dos longuíssimos direitos autorais.
Para comprovar essa afirmação, é suficiente buscar livros publicados antes dos anos 2.000 para constatar a dificuldade. Não se encontra. Há não muito tempo, um clássico nacional como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, só era possível obtê-lo trocando pelo valor de um automóvel usado. Depois de 30 anos de ausência nas prateleiras das livrarias, apenas recentemente uma reedição alcançou a obra do sociólogo. Assim como ele, uma imensa bibliografia compreendida por livros esgotados de interesse histórico, que no mercado de usados extrapolam muitos milhares de reais para adquiri-los (como exemplo, é suficiente consultar neste link os livros mais caros à venda na Estante Virtual. São livros protegidos pelo direito autoral e pelo pecado da ganância.
Capa da 6ª edição da Ed. José Olympio de Raízes do Brasil (reprodução)
Todavia este não é um problema apenas histórico. Com novas tiragens cada vez mais reduzidas, é preciso entender a gravidade do problema e do custo dessa política em longo prazo. É que, fora dos grandes negócios editoriais, as pequenas tiragens impõem-se cada vez mais como as únicas viáveis. Se isso pesa no que toca ao universo de leitores, imagine-se então o impacto no controle bibliográfico, isto é, no conhecimento que o sistema editorial tem a seu próprio respeito.
Embora regulado no Brasil desde 1907 e existente desde o período colonial, por meio da Imprensa Régia, o Depósito Legal é um projeto frustrado muitas vezes pelo desconhecimento dos autores e editores nacionais, mas também por uma cultura descompromissada com a preservação das fontes e permanência dos bens culturais.
Para a felicidade dos especuladores do livro, leiloeiros e sebos que vendem a preço de diamante livros que por nenhuma outra razão não se encontram ainda disponíveis em meio digital, o Depósito Legal brasileiro claudica. O enfrentamento a essa situação não é simples, no entanto parece ser a única forma para que o ambicionado desenvolvimento cultural saia do papel para tornar-se um pouco mais real.
A frustração da biblioteca universal
Com a expansão da internet, a chegada da computação quântica e a facilidade de armazenamento, o sonho da biblioteca total não poderia ter maior viabilidade do que no mundo contemporâneo. Mesmo assim, nunca foi tão postergado quanto agora. No ciberespaço, dado o infinitesimal que cada brochura representa diante da imensidão da internet, e enquanto ele não se concretiza pela vontade oficial, em seu lugar prospera um mundo paralelo onde circula com muita facilidade o extremo oposto ao interesse editorial: a pirataria.
Mas a biblioteca universal é sonho antigo e recorrente na humanidade. Em Alexandria, a biblioteca não foi criada no Museion com outro objetivo que não fosse o de reunir o maior número possível de obras e facilitar a vida dos pesquisadores. Jorge Luis Borges, em suas obras completas, menciona o termo “biblioteca” quase duas centenas de vezes; em onze delas, o exemplo de Alexandria e da sobrevivência do conhecimento diante da intempérie da guerra e das invasões.
Muito recentemente, precisamente em 2004, o Google anunciou ao mundo o seu projeto Google Books, que na época consistia na digitalização de 10 milhões de títulos com direitos autorais decaídos das bibliotecas de Stanford, Harvard, Oxford, da Universidade de Michigan e também da Biblioteca Pública de Nova York. Não muito tempo depois, as big five, ou seja o pool composto por Simon & Schuster, Penguin Random House, HarperCollins, Hachette Book Group and Macmillan, embargaram as intenções da empresa em montar um imenso negócio envolvendo livros livres, trechos de livros e comércio. Frise-se que a parte comercial do projeto do Google mantém-se intacta, enquanto que os processos de digitalização em bibliotecas transformaram-se em projetos autônomos dado que o projeto original foi embargado judicialmente.
Livros livres, de fato, existem na internet, mas não tantos. Se fosse pelo desejo do criador do maior repositório livre da internet, Brewster Kahle, da Internet Archive, todas as bibliotecas poderiam exercer livremente a função para a qual foram pensadas ainda na antiga Alexandria: a consulta, cópia e o empréstimo de obras. Num trabalho sem fins lucrativos, Kahle é mais uma das tantas pessoas que considerou razoável que a internet fosse mais que um espaço de vendas e pudesse incorporar o significado edificante da biblioteca universal. Em 2020, Kahle foi processado por um conjunto de editoras que exigiram que parasse de emprestar livros digitalizados em geral e que destruísse permanentemente os milhões de livros digitais obtidos em acordo com mais de uma centena de bibliotecas. Em artigo publicado na Time, em 2021, ele diz que os grandes negócios editoriais impedem que as bibliotecas adquiram livros digitais e os emprestem, apontando para o fim de sua autonomia.
Brewster Kahle, da Internet Archive.
Outra expectativa foi publicada há mais tempo no NY Times, pelo editor da Wired, Kevin Kelly, num extenso artigo no qual expressou a crença de que é impossível evitar que a tecnologia acabe fazendo por sua conta o que as grandes editoras têm procurado conter. Mas Kelly é um entusiasta da tecnologia e mais uma das pessoas maravilhadas pela possibilidade da consecução da biblioteca universal acessível a um clique e diz considerar incompreensível a orfandade de cerca de 75% de todos os livros guardados pelas bibliotecas públicas em todo o mundo. De acordo com ele, trata-se de livros que não se encontram mais à venda e nem estão disponíveis digitalmente. Em sua maioria, são obras protegidas pela vigência legal dos direitos autorais exercendo uma pressão estática justamente contra quem os preserva: as bibliotecas.
Disputas envolvendo bibliotecas e editoras ou escritórios de direitos autorais estão longe de consistir uma novidade. Desde a Convenção de Berna, de 1886, sobre as bibliotecas recaiu essa missão dúbia: ao mesmo tempo preservar e providenciar acesso ao conteúdo dos livros. Em 2014, um caso envolvendo a biblioteca da Universidade Técnica de Darmstadt e a editora alemã Elgen Ulmer foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia. A causa em questão? O fornecimento de uma cópia da digitalização de um livro. A decisão do tribunal reconheceu o direito à biblioteca em fornecer acesso ao conteúdo do livro, desde que sem os direitos conexos de cópia e impressão. A editora recorreu da decisão ao Tribunal Federal de Justiça da Alemanha.
Nos Estados Unidos, em 2013, a Author’s Guild (maior e mais antiga agência de direitos literários norte-americana) moveu contra o Google um processo por violação ao fair use de 20 milhões de livros disponíveis no Google Books. Trata-se de trechos dos livros digitalizados para o Google que não chegam a consistir uma agressão aos direitos autorais. Mas a ameaça (e a evidência de que os livros estão inteiramente digitalizados em algum lugar) foi suficiente para a ação. A decisão proferida pelo juiz Denny Chin beneficiou o Google. Ao revés das decisões europeias e norte-americanas e com o aumento exponencial de denúncias de uso irregular e abusivo de obras protegidas em redes sociais como o YouTube e o Facebook, por sua vez, em 2018 o Parlamento Europeu aprovou uma nova Diretiva de Direito Autoral mais restritiva, mobilizando mundo afora mais ações caracterizando como pirataria o fornecimento de acesso a conteúdo autoral protegido.
Assim como a utopia da biblioteca universal não se materializa, o cabo de força do direito autoral aparentemente não tem fim. Igualmente não tem fim a fantasia em torno do “fim do livro”, assunto que rendeu a diversos historiadores e intelectuais volumosas páginas de brochuras. O espaço aparentemente infinito e inexplorado da internet em algum momento parece realmente ter sacudido o modelo editorial vigente desde Gutenberg. De algum modo, a ascensão das gigantes tecnológicos como o Google e a Amazon sacudiu o mundo empoeirado das bibliotecas até então. Hoje, não é mais possível imaginar-se uma biblioteca nos mesmos moldes do inicio do séc. XX, e países em condições de investir acabam criando soluções criativas e democráticas – como o exemplo norueguês.
Em 2001, Jacques Derrida reviu em Papel-Máquina a sua Gramatologia, de 1967, no qual havia previsto o apocalipse editorial e a apoplexia do conhecimento escrito. Neste último, reconheceu que a crise do livro não se confunde mais com a crise do suporte, mas da própria capacidade de leitura e interpretação. A essa altura do séc. XXI, já não há mais quem em sã consciência duvide de que se disponha da técnica disponível para ampliar-se o acesso ao conhecimento sem causar um prejuízo incontornável aos autores literários. Há também instrumentos legais garantindo que as recomendações da UNESCO atendam, de fato, ao objetivo do desenvolvimento cultural. No entanto, mesmo com tudo isso, a realidade cultural especialmente de países que mais precisariam desse incremento emperra inexplicavelmente no desinvestimento e no desinteresse social. Enquanto isso, leitores potenciais cada vez mais se afastam da leitura e, por consequência, da própria identidade e memória literária e histórica.
Pós escrito
O trecho a seguir é uma tentativa de responder à pergunta formulada num artigo anterior, publicado na edição #138 da revista Parêntese, intitulado “O que é que a Noruega tem?”
Kulturarven skal ut til folket (a herança cultural deve ir para o povo). Com essa simples frase, por meio da sua Biblioteca Nacional, o governo norueguês justifica os grandes investimentos realizados pela instituição no sentido de implementar a digitalização de todo o patrimônio cultural norueguês. Trata-se de mais que uma frase, mas de um princípio que os noruegueses, talvez como nenhuma outra nação do planeta, decidiriam concretizar.
O prédio da imagem a seguir é justamente o Centro de Digitalização do Patrimônio Cultural da NasjonalBiblioteket. Ali dentro, conforme a imagem ao lado, não há livros e nem revistas, mas petabytes guardados num processo de backup que é renovado de cinco em cinco anos, a fim de que se previnam perdas e de que as fontes mantenham-se armazenadas em veículos legíveis e de código aberto. Em razão desse cuidado, 50 milhões de arquivos de imagens tratados inicialmente em formatos proprietários já foram convertidos para formatos mais duradouros. Os sistemas de backup são baseados no Oracle SAM-FS e a digitalização executada por meio de dois scanners HDR – Scanity, equipamentos com a capacidade de restauração e reparo no tratamento de imagens.
Obviamente que um projeto dessa magnitude depende de um investimento a altura. Em que pesem os esforços da Biblioteca Nacional em implementar esse trabalho venha desde o início do século, recentemente a constituição de um “banco da memória nacional” ensejou um incremento orçamentário da ordem de 90 milhões de euros. Imagens internas e externas dos equipamentos mostram que o investimento é aplicado com racionalidade extrema e todos os excessos e supérfluos são evitados.
Como se trata de um projeto de longo prazo e que procura tratar e armazenar, além de toda a produção bibliográfica nativa, recursos informacionais de instituições públicas e privadas que aderem a um modelo contratual que prevê etapas de tratamento e compromissos de disponibilização inteiramente públicos, os números não são econômicos.
Firmados os contratos, a equipe da Biblioteca Nacional assume o processamento técnico condicionando as espécies de material e suporte, com base num sistema de prioridades que prioriza documentos em estado crítico, como manuscritos em risco de perda definitiva. A estimativa é de que o trabalho seja estabilizado em torno de três décadas.
Até 2018, os números obtidos estavam em torno de:
2,000,000 jornais impressos, cerca de 40,000,000 de páginas; 540,000 livros, cerca de 80,000,000 de páginas; 700,000 páginas de manuscritos e partituras; 1,300,000 fotografias; 1,400,000 horas de transmissão de rádio; 950,000 horas de transmissão de TV; 55,000 registros musicais; 16,000 unidades de filmes e vídeo; 24,800,000,000 páginas da web.
O escopo do projeto é de acesso on-line gratuito e ilimitado a IPs noruegueses.
Outro projeto sediado na Noruega, na cidade mais ao norte do mundo, Svalbard, sob o permafrost do Ártico, inclui um cofre digital com os registros de código aberto desenvolvidos por, entre outros, Linux, bitcoin e Android. Além dos softwares, o repositório guarda documentos cedidos pelos principais arquivos digitais das bibliotecas do mundo, tais como a Vaticana, o British Museum entre outros. A proposta do Artic Vault é durar pelo menos um milênio e preservar registros da humanidade no caso de que as condições de vida, enfim, não sejam promissoras.
Uma crítica absolutamente inválida aos noruegueses é que estejam sendo demasiadamente pessimistas. Talvez, e nisso eu creio também, eles apenas levem a sério a sentença do filósofo francês Paul Virilio que divide as pessoas do mundo em duas categorias apenas: os pessimistas e os mentirosos.
Agua Escondida, sem acento, é o nome de um distrito da província de Mendoza, norte da Argentina, quase fronteira com o Chile, beirando o leste da Cordilheira dos Andes. É também o nome de uma zamba composta por uma mulher, Antonieta Paula Pepin Fitzpatrick, a Nenette, esposa do compositor Héctor Roberto Chavero Aranburu, mais conhecido pelo pseudônimo Atahualpa Yupanqui.
Numa época em que a presença feminina na música argentina, especialmente a de cunho folclórico, era impensável, a pianista e compositora Paula Pepin dividiu com o marido inúmeras composições que foram celebrizadas através de suas gravações e interpretações, além de seus muitos outros intérpretes. Luna tucumana, Chacarera de las piedras, El alazán, Guitarra dímelo tú entre outras zambas, vidalas e chacareras são obras de ambos, criadas a quatro mãos.
Paula Pepin, todavia, por vezes compôs sozinha também. Assinando sob o pseudônimo Pablo del Cerro (Cerro Colorado é o local onde viveram e hoje encontra-se a Fundación Atahualpa Yupanqui – o pseudônimo alude ao lugar), ela criou algumas composições que o marido gravou também, entre elas esta Agua escondida, zamba especialmente delicada, como costumam ser as zambas, em que é notável como o andamento e a harmonia parecem dar a entender a presença de uma melodia subjacente, exatamente como água escondida.
Originalmente, as zambas são ritmos de acompanhamento à dança folclórica e seu nome deriva do quéchua zamacueca. No Chile, o nome do estilo que permaneceu foi a cueca enquanto que norte argentino consolidou-se a zamba. Outra possibilidade de explicação para o nome estaria em que as composições eram dirigidas às mulheres do norte argentino, cuja pele matizada pela cor indígena remeteria ao jambo. As zambas poderiam ser, nesse caso, corruptelas do termo.
De um ou outro modo, o ritmo é um dos mais populares da Argentina. Yupanqui, sendo um dos principais recompiladores das tradições populares, teria em suas viagens pelo interior encontrado diversas delas cantadas popularmente. Além de recompilá-las, Yupanqui também criou outras tantas, contribuindo assim para imortalizar as tradições populares locais, como era seu objetivo.
Uma confusão bastante comum que se faz a respeito das zambas é traduzi-las como se fossem o samba argentino. Exceto pela popularidade, os ritmos são muito diferentes entre si. O que pode ser apontado de comum entre uma forma e outra talvez seja a delicadeza harmônica, os arpejos alongados e contrapontos silenciosos. Mas a semelhança, neste caso, é mais perceptível com o choro do que com o samba propriamente dito. Além do mais, o acento hispânico está muito marcado no estilo, assim como em todos os demais ritmos argentinos, gatos, malambos, estilos, milongas, habaneras… Ainda que um pouco menos que nas vidalas, mesmo assim é notável o silêncio entoado da música indígena, mal soprada em queñas ou cantadas quase a boca fechada.
As zambas, portanto, estabelecem uma espécie de confluência entre a música dos gauchos do pampa e a dos indígenas e seus descendentes moradores dos desertos de Tucumán, Santiago del Estero e Cachamarca, províncias onde o ritmo prolifera abundantemente. E também importa dizer que não são uma criação de Yupanqui, já que, além dele, inúmeros instrumentistas celebrizaram o estilo em solo argentino e mundo afora, notadamente com Abel Fleury, Roberto Lara, Tito Francia, Eduardo Falu, Cacho Tirao, entre tantos outros.
Sobre Paula Pepin, ou “Pablo del Cerro”, tudo indica que não compunha ao violão, mas ao piano. Sua formação, iniciada na França e completada na Argentina, aconteceu justamente em meio a uma época de florescimento da música folclórica, do qual o futuro marido viria a ser o principal expositor.
Ela mesma, sendo um tipo de “agua escondida” sob um nome masculino, criou por si própria músicas que viriam a fixar-se mais tarde como clássicos da música popular argentina. Esta Agua escondida, nesse caso, oculta-se entre suas muitas composições; embora, em minha opinião, é a mais notável delas, tanto se executada ao piano (neste link com Hilda Herrera) ou “a las seis cuerdas“, como se pode ver na execução do violonista Carlos Roldan.
2
Pelo menos aparentemente, não há muitos pontos de contato entre as influências e matizes musicais dos dois países, Brasil e Argentina. Os gêneros pelos quais são mais conhecidos, por exemplo, não poderiam ser mais distantes e antagônicos. O samba, no caso brasileiro e o tango, do lado de lá do Rio da Prata, são quase como água e azeite. É quase impossível encontrar-se algum registro que unifique os estilos.
O baiano Caetano Veloso bem que tentou, em O samba e o tango, mas não chegou a deslocar-se do ritmo brasileiro e o resultado, se não foi completamente infeliz quanto seria una pareja de Maradona com Pelé, por exemplo, não chega a ser emocionante, apesar de ser uma bela homenagem.
Então talvez fosse melhor, desde já, impetrar uma divisória cultural arbitrária entre os dois países, da mesma forma pela qual a geográfica foi imposta através de tratados forjados em guerras de fronteira. Acontece que essa tentativa também seria arbitrária e impediria de antemão que se pudesse perceber alguns elementos coincidentes na música de lá e de cá.
No Rio Grande do Sul, pelo menos, a influência mútua dos países ocorreu de forma bem mais natural do que em estados mais acima, como seria previsível. Mesmo considerando que a faixa de fronteira é pequena, há um Uruguai entre ambos os paises que, ao mesmo tempo, unifica paisagem e cultura locais. Trata-se do pampa, a planura que se estende das encostas do planalto médio que divide o Rio Grande do Sul praticamente ao meio e vai até quase ao centro da Argentina, onde começa a apontar, mais ao sul, a Patagônia.
A fronteira do Brasil com a Argentina, portanto, se delimita ao norte do Rio Grande do Sul, no contato que se dá entre o estado e as províncias de Corrientes e Misiones. E a música, nesta região específica, tem outros matizes diferentes da música do pampa, remetendo mais às influências guaraníticas comuns também a um terceiro país que está mais ou menos nas mesmas latitudes, o Paraguai. A música do Paraná e do Mato Grosso, especialmente, guarda bem mais em comum com as guaranias e chamamés dos correntinos e paraguaios que a feita no Rio Grande do Sul.
Quando conheceu a Argentina, o multinstrumentista Hermeto Paschoal declarou que se tratava de um dos únicos países com tantas variedades e estilos musicais capaz de disputar quantitativamente com o Brasil. Evidentemente, a formação étnica de ambos os países é distinta e, ao passo em que o Brasil absorveu a intensa musicalidade da herança africana matizada com a música europeia, os argentinos obtiveram dos espanhóis e dos povos indígenas locais o fermento para a sua expressividade sonora, já que a presença africana por lá sempre foi reduzida, comparando-se ao Brasil.
Assim, de forma muito elementar, é possível dizer que é por essa razão, por essa influência diversa, que mesmo a música contemporânea dos dois países não costuma encontrar-se com frequência. Com exceção de alguns nomes internacionais como Fito Paez, Charly Garcia ou Pedro Aznar (ou de Mercedes Sosa, que gravou o repertório de muitos compositores da música popular brasileira nas décadas de 1970 e 1980 e tornou-se uma espécie de ícone continental), não é tarefa das mais fáceis constatar essa aproximação.
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Acompanhante preferencial da música popular, o violão conta, tanto lá quanto aqui, com excepcionais expositores e isso no que diz respeito tanto ao que se refere à execução como à composição, evidentemente que mantidas as diferenças estilísticas de cada um.
Se no Brasil foram o samba e o choro que notabilizaram o virtuosismo de gênios das seis cordas como Dilermando Reis, Baden Powell, Raphael Rabello e tantos outros, a guitarra criolla alcançou sua máxima expressividade, sobretudo nos gêneros folclóricos que, a partir da década de 1940, foram objeto de intenso trabalho de recompilação histórica. Isso aconteceu não somente na Argentina, mas também no Chile e Uruguai, chegando ao sul do Brasil mais ou menos na mesma época, mas não necessariamente com as mesmas influências.
A profusão de estilos folclóricos e as características geográficas e humanas argentinas fazem do país um imenso universo musical, apesar de que o tango portenho tenha sido alçado como exemplo por excelência de sua musicalidade. Acontece que mesmo o tango tem origem nos arrabaldes de Buenos Aires (e de Montevideo também), para onde foram viver pessoas do interior do país, trazendo seus sotaques, motivos e sonoridades. A milonga, gênero tipicamente pampeano, pode-se até dizer que contribuiu em cerca de 70% na formação do tango. Os outros 30% talvez digam mais respeito à influência europeia, sobretudo a italiana, além das próprias transformações que o estilo sofreu ao transformar-se em símbolo internacional, principalmente pela voz e imagem de Carlos Gardel.
No tango, porém, a guitarra criolla é praticamente secundária, quando não ausente. Foram o bandoneon, o piano e até o violino que acabaram por definir sua entonação mais conhecida; principalmente o bandoneon, marca evidente da influência europeia, que universalizou-se em um segundo momento através da obra magistral de Astor Piazzolla. Apesar disso, em muitas composições, é o violão o instrumento de composição, principalmente naqueles tangos compostos popularmente.
Encontrar choros igualmente delicados como a zamba de Paula Pepin, Agua Escondida, também é tarefa de relativa simplicidade. Talvez o próprio Delicado, de Waldir Azevedo, seja o exemplo perfeito para isso, mas este foi criado para cavaquinho. Mas é facílimo lembrar também dos clássicos choros de Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Garoto, Pixinguinha e a lista interminável de compositores do ritmo brasileiro. Mesmo que sejam ambas tradições musicais que se mantém através de novos instrumentistas, não são muitas as novas gravações, principalmente no caso do choro brasileiro.
Coincidentemente, é um gaúcho, o violonista Yamandu Costa, que vem fazendo a seu modo a ponte entre os estilos, mesclando tanto as influências platinas quanto o samba e o choro. O resultado nem sempre é suave e delicado, pois como se sabe, Yamandu é um instrumentista vigoroso. O que importa saber é que um violonista do seu porte está fazendo justamente o que me propunha a fazer pelas palavras, ou seja, a aproximação entre duas tradições musicais tão distintas quanto identificadas com as seis cordas.
No disco Mafuá, na faixa título, Yamandu mostra a exuberância de sua técnica em um choro desgovernado. Em outro mais recente, Continente, há inclusive uma homenagem a Atahualpa, na faixa Don Atahaulpa. Além de evidenciar uma influência já sabida, é um momento em que se pode perceber de onde vem a suavidade que há, também um pouco escondida, no violão de Yamandu. É quando ele deixa de ser um pouco violão e soa, talvez, um pouco mais como guitarra.
Não costumo fazer disputa entre minhas preferências musicais, como se gostasse “mais” disso que daquilo. Para mim, a graça da música é justamente a diversidade estilística e a proliferação de melodias e harmonias encontradas pela expressividade de compositores e instrumentistas. Resumir essa riqueza como se a uma disputa de seleções, mesmo que entre Brasil e Argentina, é o mesmo que fechar os olhos para a evidência de que tanto os hermanos compõem com delicadeza quanto os brasileiros exageram, às vezes, no riscado.
Só não deixa de ser curioso que a zamba Agua Escondida tenha sido composta por uma mulher que precisou inclusive ocultar-se em meio a uma cultura eminentemente masculina para divulgar seu trabalho. Evidentemente, não é essa a razão de sua preciosidade, mas isso serve, de certo modo, para demonstrar que, mesmo sob culturas dominantes, criam-se preciosidades. O violão ou a guitarra criolla, lá ou aqui, por ser o instrumento popular por excelência, parece mesmo talhado a entoar o inaudito e o secreto entre o intenso e inevitável ruído ao redor.
Tem duas situações específicas que me deixam p da vida com Jorge Luis Borges. Nenhuma delas diz respeito a ele mesmo, mas ao que dele fizeram e continuam a fazer.
A primeira delas é uma tradução deturpada de um poema seu, o “Poema de los dones”, no qual ele narra o drama da perda da visão num dos períodos da vida em que trabalhou na Biblioteca Nacional da Argentina.
Nesses tempos de “objetificação bibliófila”, quando a exposição do objeto livro vale pelo menos o triplo do seu conteúdo – seguidamente me aparece uma tradução capciosa de Borges, na qual ele teria dito que “o paraíso é uma forma de livraria”. Uma homenagem ao estabelecimento comercial que Borges, com efeito, nunca produziu, porque o original de seus versos, no “Poema de los dones“, diz apenas o seguinte: “Lento en mi sombra, la penumbra hueca / exploro con el báculo indeciso, / yo, que me figuraba el Paraíso / bajo la especie de una biblioteca.”
De que forma “biblioteca” passou a ser “livraria” nessa versão muito difundida pela internet eu não consigo explicar. Se Borges tivesse utilizado “librería” ainda vá lá, mas “biblioteca” traduz-se para “biblioteca” do espanhol ao português. Dirão que é preciosismo meu e que são quase sinônimos e que o sentido não se altera.
Como assim não se altera?
De uma instituição pública e não comercial a uma outra inteiramente mercantil há uma diferença abissal. Além do mais, neste poema Borges comenta da crescente cegueira que o acometia no período em que atuara como bibliotecário e depois como diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Desta forma, se ao menos o poema se referisse a uma improvável experiência dele como livreiro ou vendedor de livros, acho que seria mais aceitável a deturpação. Como essa passagem biográfica efetivamente não confere com a realidade, não se justifica o uso. E o mais curioso (mas pouco engraçado) é que através do Google, Vossa Quintessência da era digital, prospera muito mais a versão deturpada da citação do que a correta. A bem dizer, curioso mesmo seria caso se desse o contrário..
Acho essa deturpação muito grave e triste para os bibliotecários de um modo geral, que assim veem surrupiado (não me ocorre outro termo) o seu direito a reivindicar o coleguismo e patronato do caríssimo Jorge. É como se os futebolistas não pudessem mais falar em Pelé, por exemplo, mas apenas num vendedor de chuteiras. Ou Maradona, a fim de que não se entre na querela geopolítica que anima as nações vizinhas.
Mas é da vida e ela, como se sabe bem, nem sempre é justa.
De todo o modo, toda a cultura livresca gosta muito de se referir a Borges e sua devoção ao hábito da leitura. É como se fosse um patrono universal do livro, reconhecimento supremo para um escritor. E justíssimo no caso dele, diga-se de passagem. No Brasil, entretanto, o objeto livro é informalmente patronado por Monteiro Lobato. O escritor, cuja obra (e biografia) hoje está envolvida em polêmicas raciais, além de editor (foi co-fundador da Brasiliense com Caio Prado Júnior e outros), transformou em pontos livreiros cada casa de comércio interior do Brasil adentro, entre farmácias e padarias, chegando a 2.000 pontos de venda – número hoje muito provavelmente inexistente… Mas temos o Google aí, que sempre serve para alguma coisa.
Assim como Lobato, Borges também é eventualmente criticado – e duramente – por razões estranhas à literatura. No seu caso, por declarado conservadorismo e simpatia para com o governo militar argentino. Posicionamentos condenáveis quanto a política e momentos políticos evidentemente não são privilégios de conservadores, mas, pelo menos aqui nesse texto despretensioso, não fazem diferença e não têm interesse algum. Os objetos de minha encrenca com Borges aqui são outros e o segundo deles diz respeito à certa apropriação indébita que explico melhor a seguir.
Bem, se estivesse conhecendo-o agora, julgaria que Jorge Luis Borges fosse porto-alegrense. Logo ele, que tão pouco se preocupou com os assuntos dos vizinhos de cá do Rio da Prata. É sério isso. Às vezes me parece que nem os buenairenses têm tanta devoção a Jorge Luis Borges quanto os porto-alegrenses. Eu classifico a “coisa” como obsessão. Não encontro termo melhor.
Nada contra, em absoluto, à relevância literária de Borges, mas às vezes tanta citação e reverência me parecem revelar certo desejo inconfesso dos gaúchos imaginarem-se platinos e em imaginarem Porto Alegre como um prolongamento fantasioso de Buenos Aires. Também classifico a isso como obsessão. E repito, nada disso é contra Borges nem muito menos contra Buenos Aires, mas às vezes acho muito deslocado (para não dizer afetado) encontrar na população riograndense de um modo geral identificação tão plena e rápida com Borges. E Porto Alegre, bem, procurando ser justo com a prata da casa, creio que não necessita tanto assim desse frenético platinismo.
Por mais que considere incomparáveis a obra de um e de outro, acho que Porto Alegre ainda deve muito a sua própria caracterização e identidade a Mario Quintana, que dedicou à cidade versos de autêntico carinho e inspiração peculiares. Mas Quintana, assim como nunca foi bom o bastante para a Academia Brasileira de Letras, parece ainda hoje não ser uma referência suficientemente boa para os próprios porto-alegrenses. E olha que o homem escreveu “O Mapa”..
Não basta. Na síndrome de vira-latismo porto-alegrense, quaisquer valores locais são menosprezados diante do menor efeito blasé vindo do exterior, nem que seja logo ali do Mampituba. Isso acontece com Quintana, com Érico e até com o seu filho Luis Fernando, cronista ímpar e inigualável da literatura brasileira. Todos “superados”. Às vezes desconfio, aliás, que um escritor gaúcho é superado desde antes de começar a escrever. E o mais estranho de tudo, por seus próprios pares e críticos… Mas a Argentina, ah a Argentina… Tem Cortazar, Saer, Sábato, Arlt, Piglia e mais um monte de escritores colossais. E, ainda por cima, Borges.
Dito isso, deveríamos os gaúchos deitarmo-nos ao chão e esperar a passagem triunfal dos hermanos sobre as nossas cabeças medíocres. O povo daqui, se ouvisse o ruído dos crânios partindo-se, decerto não faria nada e citaria como exemplo de autor o velho Borges, num masoquismo muito particular e nosso. Principalmente isso: nosso.
Humildade, aliás, é exatamente a segunda razão que me faz ficar p com Jorge Luis Borges. Por mais glorioso e valoroso que seja, quanto a livros e bibliotecas e talvez postura de vida, me identifico muito mais com o “simplório” Quintana. Acho magnífica essa foto dele, sentado anônimo em uma de mesas da Biblioteca Pública do Estado, lendo tão absortamente quanto perfeito pode ser o gesto da leitura: íntimo, silencioso e discreto.
Quanto a Borges, há inúmeras e majestosas imagens suas na Biblioteca Nacional da Argentina, como esta que uni arbitrariamente a de Quintana. Mas é esse o ponto a que queria chegar: me enraivece Borges não por ele mesmo, nunca isso me passou pela cabeça, mas me irrita a reverência excessiva com que os gaúchos muitas vezes lhe tratam, quando é apenas mais um entre os escritores e que provavelmente não daria a menor importância à importância que por aqui lhe dão. E além do mais, não se trata de admirá-lo como gaúcho fosse, mas como argentino que é, no que isso é bom e mau.
Os gaúchos, portanto, não Borges, me fazem muitas vezes cansar de (e por) Borges e às vezes preferir a ele qualquer quadrinha infantil do Mário Quintana, numa comparação ridícula porque ridícula é toda essa veneração. Mas Borges é inocente de ambas as culpas que ele não têm e mal lhe atribuo, eu sei. Mesmo assim, na ausência de qualquer melhor argumento e na presença de uma comparação esdrúxula como essa, Quintana era muito mais simpático e quanto a isso não se discute.