Homislobus

Nenhum lobo em sã consciência desejaria se transformar em homem e é por isso que existem lobisomens, mas não existem homislobus. À besta que nos observa parecemos ridículos e imaginativos, eu tenho certeza disso. Se tudo o que desejamos é uma justificativa para voltarmos ao estado de fera, ela já se encontra nesse estado e, mesmo assim, ao contrário de nós, consegue descansar entre os campos floridos ou no deserto sem o desejo de estar noutro lugar ou de disciplinar a natureza ou de que as flores durem o ano inteiro para satisfazer suas ambições.

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Não é por outra razão que apreciamos a companhia dos cães. Se os cães nos toleram é porque somos toleráveis, pensamos, e por isso eles estabelecem um critério de sociabilidade a que podemos acessar. A verdade é que são eles que nos permitem e a sua companhia é que nos pacifica e dociliza, e não o contrário.

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Não somos homislobus. E felizmente os lobos estão livres de que possamos verdadeiramente parecer a eles e também de que eles possam se transformar em qualquer coisa parecida a nós.

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Nós somos a espécie que estabelece as normas pelas quais podemos matar uns aos outros. Nós somos retaliadores naturais, um comportamento dissonante na natureza.

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A seleção natural e a evolução (ou Deus) possivelmente nos trouxeram a isso e por isso ficamos embaraçados ainda hoje. Mas não é mesmo embaraçoso?

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O mesmo homem que se emociona pela beleza deixa-se levar pelo ódio. A força lhe arrasta desde os músculos, movida pelo homo demens que trás dentro de si. Irresistível é a vingança, é o sectarismo, é a divisão entre as tribos dessa espécie.

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Com as alcateias é diferente. Sua sobrevivência segue regras não ditas nem escritas e nem por isso parecem ter menos compaixão do que dedicamos uns aos outros.

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Porque sofremos a violência, a única forma de a expurgarmos de nós é cometendo mais violência. Nesse ímpeto, nada nos freia, nem o desejamos, pelo contrário, desejamos mais força para cumprir o desígnio que nos confiaram e do qual estamos sempre cegamente convencidos. Nós não conseguimos questionar essas coisas. Pedimos aos deuses e ancestrais que nos ajudem nesse propósito. Essa é, por exemplo, a mensagem da Ilíada, que atravessa os séculos intacta. Não é honra e nem muito menos justiça o que pedimos aos deuses ou seus equivalentes, pedimos para que nos vinguem e que não demorem e poupem nossas crianças, somente as nossas.

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Se homo homini lupus fosse mesmo verdade, nunca teríamos chegado a tanto e tão raso.

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A dor comumA dor comum

Miguel de Unamuno (1864 – 1936)
trad. do espanhol

Cala-te meu coração, os teus pesares
são dos que não se devem dizer, deixa
que se acabem num sonho; tua queixa
é só tua, e quando a proclamares

cuida de aos demais não importunares
com demasiado grito. O teu lamento,
sendo só teu, é um sentimento
de tua mera vaidade. Nunca separes

a tua dor da dor comum e humana,
e busca o íntimo em que habita
a humanidade que aos demais te irmana,

é o que engrandece a mente e não
a estreita; somente o que pode amar
nos comunica, o resto é a solidão.

3 canções de Karen Dalton3 canções de Karen Dalton

Karen Dalton (1937-1993) foi uma cantora e compositora norte-americana descendente de indígenas Cherokee e que chegou em Nova York, vinda de Oklahoma, para integrar o movimento de folk music do Greenwich Village. Gravou dois discos de estúdio, It’s So Hard to Tell Who’s Going to Love You the Best e In My Own Time, entre 1969 e 1971, e possui algumas gravações ao vivo. Em 2012, uma coleção de suas letras, poemas e escritos foi reunida em livro por Peter Walker. Em 2015, diversos artistas produziram um disco de suas músicas inéditas, intitulado Remembering mountais. Sobre sua vida, carreira e destino trágico, o cineasta Win Wenders produziu em 2020 o documentário Karen Dalton: In My Own Time. Neste ano, 2022, 12 novas gravações e imagens de Karen vieram a público com a edição do disco Shuckin’ Sugar.

Katie Cruel

Quando cheguei na cidade
Me chamavam “joia itinerante”
Agora eles mudaram de tom
Me chamam de Katie Cruel

Eu vou pela floresta
E através da lama pegadiça
Caminho sob a estrada
A fim de ouvir meu coração

Se eu estivesse onde queria
Então estaria onde não estou
Aqui estou porque preciso
Onde queria, não posso mais

Quando eu dei por aqui
Trouxeram bebidas sem fim
Agora mudaram de tom
Trazem as garrafas vazias

Se eu estivesse onde queria
Então estaria onde não estou
Aqui estou porque preciso
Onde queria, não posso mais

Katie Cruel

When I first came to town
They call me the roving jewel
Now they’ve change their tune
Call me Katie Cruel

Through the woods I go
And through the boggy mire
Straight way down the road
‘Til I come to my heart’s desire

If I was where I would be
Then I’d be where I am not
Here I am where I must be
Where I would be, I cannot

When I first came to town
They brought me drinks of plenty
Now they’ve changed their tune
And hand me the bottles empty

If I was where I would be
Then I’d be where I am not
Here I am where I must be
Where I would be, I cannot


Algo em mente

Ontem
De qualquer modo você o fez, está tudo bem..
Eu vi você transformar seus dias em noites
Mas você não sabia
Você não pode fazer isso se não tentar
E algo está em sua mente, não é assim?

Um dia desses você vai ver que estava quebrando a cabeça
Deixando todos os seus sonhos para trás
Você não viu
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo em mente, não é?

Talvez num outro dia você vai querer sentir de outra maneira
Mas você não pode parar de chorar
E você não tem uma só coisa a dizer
E sente que quer fugir
Mas não adianta tentar, de qualquer jeito
Eu vi o que está escrito na parede
Quem não puder se manter sempre irá cair
Você não sabia?
Você não pode fazer isso se não tentar

E você tem algo mente, não é assim?
Você tem algo em mente, não tem?

Something on your mind

Yesterday, any way you made it was just fine
So you turned your days into night-time
Didn’t you know, you can’t make it without ever even trying?
And something’s on your mind, isn’t it?

Let these times show you that you’re breaking up the lines
Leaving all your dreams too far behind
Didn’t you see, you can’t make it without ever even trying?
And something’s on your mind

Maybe another day you’ll want to feel another way, you can’t stop crying
You haven’t got a thing to say, you feel you want to run away
There’s no use trying, anyway
I’ve seen the writing on the wall
Who cannot maintain will always fall
Well, you know, you can’t make it without ever even trying
Something’s on your mind, isn’t it?
Tell the truth now, isn’t it?

Something’s on your mind, isn’t it?
Something’s on your mind


Relembrando montanhas

O sol logo cairá no desfiladeiro
Eu rezo em cada pedra e árvore
Deixe a beleza para o final
E que tudo se acabe belo
E que tudo termine com alguma beleza

Agora o tempo é seu, você está sozinha
Em seu quarto lembrando-se das montanhas
Você acha ainda que as estações mudam sem o seu coração?
Você está sonhando?
Todos os dias iremos até você, desiludindo-a
Você sabe que não há separação sem tristeza

Então você senta perto da janela, vendo os dias passarem
Sozinha em seu quarto, lembrando as montanhas
Você pensa em todos os caminhos que não seguiu
Você ainda está sonhando?
A cada lugar que vamos, você não sabe, mas amanhã
Eu acredito que amanhã você encontrará
O que a trará de volta

Remembering mountains

Sun will fall across the canyon wall
My prayer on every stone and tree
Let the last be beauty
All in beauty, all in beauty

Now your time is your own, you’ll be alone
And sit in your room remembering mountains
Do you think the seasons change without your heart?
Are you dreaming?
Every day and night we’ll come to your mind, undeceiving
You will know there’s no parting without sorrow

So you sit by the window, watching the days go
Alone in your room remembering mountains
Do you think of all the ways that you didn’t follow?
Are you dreaming?
Every way we lead, you are undefined, tomorrow
I’m believing you will find tomorrow
Brings you to return

Down House, 1858: o memorial de Charles Waring DarwinDown House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin

Eu sei que a minha falta de pressa quase exasperou os editores da Editora Dialogar, especialmente a Letícia Möller, por divulgar a chegada de “Down House” do parque gráfico. Bom, este é um livro que está nascendo há quase dez anos, então isso explica a minha falta de pressa. As pessoas que me julgam impaciente na verdade cometem uma grande injustiça. Eu tenho muita paciência e cautela com as coisas que me disponho a fazer.

Nestes dias que já estamos com o livro temos trabalhado bastante no sentido de viabilizar o seu lançamento e outras providências. Eu nem digo que eu tenho a boa sorte de ter uma editora tão compenetrada quanto ela, pois não é sorte, eu tinha certeza de que seria assim e fico muito feliz que agora, sim, temos data e local de lançamento deste livro que, como peça gráfica, é uma joia nas suas 180 páginas. Isso vale para a concepção, para o design maravilhoso bolado pela Cintia Belloc, para tudo.

Em relação ao texto e ao que o motivou eu convido a que visitem o site que preparamos para divulgar e também para comercializá-lo. Em breve, espero poder dar mais informações e tb tirar dúvidas dos leitores e curiosos. Até lá, estaremos trabalhando para que essa breve história possa chegar o mais longe possível.

Vou aproveitar a oportunidade e registrar meu profundo agradecimento à minha querida amiga Ana Claudia Brandão, que gentilmente leu e só depois escreveu a orelha do livro, como tem que ser..

O lançamento vai ser no dia 25/05, no Museu de Ciências e Tecnologia da PUC RS e haverá um debate prévio com os os professores José Roberto Goldim e Vivian Missaglia.

O livro já está à venda tanto no próprio site como no da editora. E não é pré-venda. Quem comprar, já recebe, sem demoras.

O site fica em https://downhouse.online