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Velho Chico e sua trilha sonora

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Essa nova novela da Globo, Velho Chico, acho que vou tentar assistir. Talvez seja mesmo mais para atender algum desejo melancólico meu de ver um rio que quase já não está lá ou, principalmente, de reconhecer as melodias da trilha sonora. Reconhecer é o termo preciso, porque me são velhas conhecidas e se isso me denuncia a idade, que fazer? Nada, ora.. Vou sentar na frente da tevê e esperar sinceramente por um bom trabalho de fotógrafos, cenografistas, figurinistas e atores também… E, se ficar chato de repente, então é só fechar os olhos e escutar. Não é pouco.

Enredos rurais e interioranos fizeram muito no passado pela teledramaturgia e também pela popularização de cantores que o tempo tratou de despopularizar, transformando-os quase numa espécie de erudito popular brasileiro… Quem sabe enredos assim não podem voltar a fazer isso agora também?

Está certo que antes isso costumava acontecer pelas mãos de um certo Dias Gomes, mas o Benedito Ruy Barbosa, se de imediato não for preso pelo pé dos mais vis desejos ibopeanos, pode fazer o interesse do povo durar um pouco mais do que o normal sem sacar de artifícios fúteis para a manutenção da audiência.

Por enquanto eu pouco sei da trama e personagens e minha esperança é que pelo menos um número razoável consiga escapar da banalidade psicológica ou de uma muito apelativa caracterização. Se for gente parecida com gente de verdade, sem grandes exageros – nem para menos e nem para mais – para mim já está de muito bom tamanho.

E não é por ter trazido de volta à baila nomes que fizeram história na música brasileira, mas é uma brisa de se aproveitar um tantinho, entre sonoridades tão repetitivas quanto as sempre iguais, como as que se replicam como praga nestes tempos contemporâneos.

Para quem ainda não sabe do que estou falando, segue o setlist da trilha sonora preparado por alguém no YouTube.

Segundo informações da própria TV Globo, a escolhida para a abertura do folhetim foi “Tropicália’, gravada por Caetano Veloso e a Orquestra Sinfônica de Heliópolis. Completam a seleção “Gemedeira” (Amelinha), “Me Leva” (Renato Rosa), “Flor de Tangerina” (Alceu Valença), “Enquanto Engoma a Calça” (Ednardo), “Veja Margarida” (Marcelo Jeneci), “Como 2 e 2″ (Gal Costa), “L’Étranger (Forasteiro)” (Thiago Pethit part. Tiê), “I-Margem” (Paulo Araújo), “Incelença Pro Amor Retirante” (Xangai part. Elomar), “Serenata (Standchen)” (Chico César), “Pot-pourri Suíte Correnteza – Barcarola do São Francisco, Talismã e Caravana” (Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai), “Triste Bahia” (Caetano Veloso) e “Senhor Cidadão” (Tom Zé).

Deficiência: da presença indesejada à vida indesejada

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Existe um Brasil antes e outro depois do Zika vírus e da epidemia da microcefalia, mas têm coisas por aqui que dificilmente mudam. Uma delas é tendência aparentemente inexorável ao pensamento binário, maniqueísta, de oposição sistemática. Pois é justamente quando o maniqueísmo que ronda a consciência de cada um estende suas garras em direção a um dos maiores tabus brasileiros, o possível direito ao aborto, que essa tendência mais uma vez se confirma e amplifica, como não seria difícil prever que aconteceria.

Até aí nada de novo, afinal desde as últimas eleições presidenciais viu-se que esta lógica é cada vez mais imperativa: quem não pensa como eu é meu inimigo e não é preciso aceitar de todo a opinião do outro, basta parecer tolerá-la ou então ignorá-la. Este parece ser o princípio moral que rege estes tempos de relações virtualizadas, mas basta que se avente mudar o mundo real, no caso a legislação e os direitos petrificados sobre o aborto – ou sua jurisprudência – para que a reação ora titubeante erga-se nas patas das mais profundas convicções.

Então, outra vez e agora por uma razão muito, muitíssimo séria, temos a nação novamente dividida. Só que, desta vez, opondo-se o pleito de que as mulheres tenham o direito à escolha por levar a termo gestações em situação de risco ao direito à dignidade das pessoas com deficiência. Mas será que interessa saber se esta oposição é mesmo real ou artificiosa? A que interesses pode servir a ideia de manter-se as restrições ao direito ao aborto mesmo num cenário adverso para a qual as maiores vítimas, as mulheres gestantes, sequer contribuíram para dar causa? Seja quais forem, as respostas até aqui têm sido bastante parciais e a dúvida social permanece: seria legítimo, como a própria ONU propôs, que mulheres gestantes tenham o direito a optar por fazer a interrupção e ela ser bancada pelo mesmo poder público que, por permitir a proliferação do vetor transmissor, o mosquito Aedes aegypti, favoreceu as condições para que elas fossem infectadas pelo vírus Zika, provável causador da microcefalia e outras decorrências graves, como a síndrome de Guillain-Barré?

A despeito das dúvidas imensas e dilemas morais diversos, uma certeza é tão imperativa como a inevitável disputa de ideias em torno aos temas: no embate de preconceitos de toda a espécie, é difícil quem consiga restar em pé. Seja por ser deitado ao chão por cansaço ou por ter recebido um nocaute argumentativo, o mais difícil em todo o debate travado com ideias é aceitar que a realidade do outro é sempre incomparável e que recusá-la sob qualquer pretexto pressupõe numa das principais raízes do pensamento totalitário, no qual apenas uma versão do real é legitimada enquanto todas as outras são inutilizadas, seja por artifícios discursivos quanto por argumentos improváveis e falaciosos, mas a essa altura dos debates isso é o que menos tem importado.

Por outro lado, compreender-se em que condições se desenrola a vida das pessoas com deficiência no Brasil contemporâneo, assim como compreender o contexto da emergência dos casos de microcefalia decorrente da epidemia de Zika vírus, consiste no requisito primeiro de todo o debate que se pretende respeitoso com o outro.

Claro que, caso isto não esteja no horizonte do interesse imediato do leitor, o presente texto é muito provavelmente inútil e continuá-lo daqui em diante implicará necessariamente num ato de livre autopunição, porque aqui nem por hipótese se buscará fazer a muito bem conhecida caça às bruxas a quem defende o direito à escolha, nem tampouco dar a entender que a vida com deficiência merece um comportamento à vade-retro, definição precisa que recolhi dentre os muito debates que ocorrem no mundo digital, fomentados por um temor crescente e a propagação de uma mensagem na maior parte das vezes negativa a respeito da microcefalia.

A presença indesejada

Às vezes tenho a impressão de que é muito difícil para pessoas que não têm a vivência ou nunca acompanharam de perto a vida familiar de uma pessoa com deficiência, entender a dimensão do que seja a experiência social de ter um filho assim. Diga-se de passagem que, neste “assim”, cabe um sem número de condições (entre físicas, sensoriais, intelectuais e múltiplas), além de que, é bom lembrar, nenhuma seja equiparável à outra. Porém não estou pensando nas dificuldades iniciais, de assimilação ou qualquer outro dilema da experiência individual, mas na relação da pessoa com o mundo tal como ele é, cujo marco principal via de regra é o ingresso na vida escolar.

Muitas pessoas não sabem, porque o assunto ou lhes é distante ou muito distante, mas nesse momento, no Supremo Tribunal Federal, está para ser julgada a ADI 5357, impetrada pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (CONFENEN) para sustar alguns dos efeitos da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) que passou a vigorar no começo deste ano. O objetivo da ação é “proteger” os estabelecimentos particulares de ensino da obrigatoriedade de assegurar educação aos estudantes com deficiência, assegurada na LBI.

O que muitas pessoas sentem, percebem, interpretam ou identificam em uma ação assim, com objetivos tão claros e explícitos, é um rotundo NÃO social. Um enorme NÃO. Um NÃO sem metáforas. Um NÃO é aqui o seu lugar. Um NÃO pense que o seu filho ou filha está apto a pertencer a este mundo. Um NÃO sonoroso que pode ramificar-se em: NÃO temos vagas, NÃO temos preparo, NÃO temos recursos, NÃO temos acessibilidade, NÃO queremos saber disso aqui, NÃO temos o menor interesse em sair dessa posição, NÃO isso, NÃO aquilo. E mais uma série de NÃOS que repercutem na individualidade, ainda que de muitas formas.

É muito difícil que um pai ou mãe de uma criança com deficiência não tenha pelo menos uma história dessas para contar. Na rede privada, não faltam histórias de recusa expressa de matrícula, embora haja também as apenas insinuadas (como quando dizem “Seu filho/a seria melhor atendido/a na Conchinchina, onde têm experiência prévia, etc, etc.). Também proliferam as que dizem respeito à imposições de taxas extras (porque se não tiver alguém que faça metade das suas tarefas ele/ela apenas estorvará o tempo dos professores, etc, etc, atrapalhando os demais).

É igualmente muito difícil para muitos pais continuarem a insistir diante de tão evidente recusa. Muitas vezes é penoso e não são poucos os casos de “procissão” que ainda hoje perduram, a despeito de ocorrerem à margem da lei. No Brasil contemporâneo, não se imagina que um família tenha seu filho barrado na escola porque é negro, por exemplo, e ainda assim a sociedade identifica facilmente que vivemos num racismo que se revela velada ou escancaradamente. O preconceito contra a deficiência, entretanto, encontra amparo em instituições que são justamente aquelas que deveriam ser as primeiras a acolher as crianças e obtêm concessão do Estado para exercer esta função. É um recado bastante duro. Quem o recebeu a seco, sem preparo prévio, dificilmente esquece.

Na rede pública, até há pouco era praxe que as escolas simplesmente reorientassem as matrículas em direção às escolas especiais, nas quais os alunos deixavam de conviver com o contexto social em seu sentido mais amplo. Atualmente, as queixas a respeito da oferta e do atendimento de qualidade predominam em muitas reclamações a respeito da rede pública, enquanto o único indicador disponível à sociedade diz respeito ao número de matrículas. Sobre qualidade no atendimento, os dados são precários a quem quer que tente consultar dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), do Ministério da Educação ou mesmo de pesquisas não governamentais.

Além da escola, o preconceito contra a deficiência se expressa de muitas outras maneiras: no isolamento imposto pelo convívio social muitas vezes dificultado; na invisibilidade das pessoas que pouco se veem se representadas e reconhecidas nos produtos culturais e nos meios de comunicação; e no acesso ao trabalho, por exemplo, quando são comumente vistas como pessoas de menor capacidade e sua presença é tolerada muitas vezes apenas por obrigação legal e formal. Porém aí está justamente um dos pontos críticos deste debate, mas bem pouco visualizado.

Eu diria que a Lei Brasileira de Inclusão, de certo modo, representa muito bem um jogo de forças entre quem deseja incluir-se e entre quem deseja excluir e manter os mecanismos de exclusão da pessoa com deficiência. Basta ver o trâmite e os vetos que a própria presidente da república, Dilma Rousseff, realizou no ano passado na redação final da lei, atendendo os interesses corporativistas do mercado em detrimento dos direitos das pessoa com deficiência.

Talvez seja por perceber o precário interesse estatal em defender o instrumento legal que instituições decidam por deflagrar um ataque tão frontal aos seus principais dispositivos de garantia de direitos. Talvez seja por receber a redundância do recado negativo que pessoas com deficiência e suas famílias olhem com desconfiança para a medida de liberação contingencial do aborto, que poderia significar não a resolução de problemas políticos e sociais, mas a poda do mal pela raiz, uma vez que, se o número de pessoas com deficiência decrescesse, tanto o Estado quanto a sociedade de mercado desincumbir-se-iam desta problemática. É a teoria do estorvo, que muitas outras minorias conhecem bem, principalmente aquelas em vias de extinção, como os indígenas. Todavia, também talvez por perceber isso, as pessoas em condições de evitar entrar de sola nesse mundo de exclusão pense, deseje e efetivamente evitem-no; quem poderia condená-las por isso?

Deficiência e detecção precoce no Brasil

Equilibrar os direitos reprodutivos e a proteção dos direitos das pessoas com deficiência requer, no mundo contemporâneo, a habilidade de transitar sobre o fio da navalha, ainda mais que em solo brasileiro confunde-se muitas vezes “proteção” com “sequestro” e “prevenção” com “eugenia”.

Ora, uma mãe de uma família de classe média alta que, ao detectar precocemente qualquer deficiência (síndromes genéticas, doenças congênitas, etc.) no feto, opta por ingerir, com toda a segurança do mundo, um medicamento disponível no mercado paralelo e que finaliza imediatamente a gestação “problemática” ou ainda aquelas que se valem das técnicas introduzidas pelo Diagnóstico Genético Pré-Implantação (DGPI), que permite a detecção de condições congênitas e diversos diagnósticos cromossômicos e optam por tentar “outra vez”, como sugeriu o biólogo inglês Richard Dawkins recentemente ou o suprassumo da segurança reprodutiva: lança mão dos recursos de reprodução assistida para garantir uma prole a salvo da condição de deficiência (e de lambuja selecionando o sexo e outras características genéticas no futuro bebê) previamente, seriam menos “eugenistas” que as que buscariam o direito à interrupção no caso da microcefalia? Ou o termo aqui não se aplica? Neste caso, por que não? Por que há empresas explorando comercialmente o negócio e sugerindo as maravilhas de uma gestação a salvo de qualquer intercorrência natural? Por que há médicos e especialistas chancelando a prática, promovendo-a em congressos destinados, ora vejam só, a promover o bem estar e o desenvolvimento das pessoas com deficiência?

Quer dizer que são aquelas mães, pobres em sua maioria, que engrossam as estatísticas do risco gestacional e da exposição à insegurança jurídica as “eugenistas”?

Alguém há de pensar que não faz diferença, mas isso não corresponde à realidade. Isso porque o acesso à “eugenia”, caso se prefira chamá-la assim, já é garantido nesses casos. Como disse, é até mesmo estimulado entre as próprias famílias de pessoas com deficiência, num discurso tão contraditório quanto inconcebível. Trata-se de um comportamento, em determinados meios sociais, tido como absolutamente normal. Ninguém é criminalizado por isso e, de certo modo, ninguém se culpa por emitir este NÃO, que é privado e ninguém vê, mas que aos poucos ganha a cena, os congressos sobre deficiência e o mercado, já que o principal para isto existe mesmo: clientes. Já no caso dos pobres, este seria um NÃO público e condenável, penalizado e estigmatizado, porque essa mãe seria igualada à perfídia em pessoa, enquanto as demais apenas estariam tomando uma decisão pessoal, liberal e espontânea.

Daí que aventar-se que o direito ao aborto não exista no Brasil é uma hipocrisia já um tanto sem graça, porque conforme o amplamente noticiado, sabe-se que o SUS realiza 200.000 procedimentos pós-aborto anualmente e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia calcula que são realizados por ano 700 mil abortos no país. O Brasil é tão bom em desigualdades que até mesmo em relação à temível eugenia, há algumas interrupções que são toleradas, porque encobertas pelo mesmo amparo que desprotege quem não pode arcar com estes custos, enquanto outras simplesmente NÃO são.

O vínculo que muitas vezes se quer fazer em relação à microcefalia e o direito ao aborto poderia parecer de imediato uma amplificação dessa expectativa negativa em relação à deficiência, como se ficasse consolidada daqui em diante a perspectiva de eliminação da vida indesejada. Este é um dos tantos raciocínios de oposição, binaristas, que não aceitam a diversidade de opinião e de escolha e que submetem à liberdade ao crivo da moralidade, deixando de perceber que a moralidade é sempre como um guarda-chuvas e se alguém se sente confortável ali, isso não quer dizer que todos os demais venham a sentir-se também ou muito menos tenham esse dever.

Por isso, em minha opinião, não é “eugenista” a mãe ou o pai (principalmente a mãe, lógico) que se vê na situação de arcar com um filho/filha com deficiência cuja causa poderia ter sido evitada se as autoridades cumprissem suas obrigações e opta pela interrupção. Isto não é um acidente genético e equipará-lo a tais condições não é senão o senso comum penalizador atuando e trazendo de reboque consigo a moral pequeno-burguesa.

Da mesma forma, não penso que seja “eugenista” a mãe que decide por todos os meios livrar-se da mera possibilidade da intercorrência de uma deficiência. Para mim, trata-se de alguém que simplesmente lança mão de recursos que estão ao seu dispor, cuja decisão é de todo pessoal, embora seja condicionada por uma ideologia cada vez mais atuante no Brasil, de onde até então não era tão visível assim, mas já existia.

Ainda assim, o preconceito em relação à deficiência existe e é vividamente real e pode, se transmitido negativamente, promover mais pânico e emissão de ainda mais mensagens negativas em relação à deficiência, resultando na cristalização do conceito de “vida indesejada”. Seja como for, muitas vezes parece que há pouco a fazer nesse sentido a não ser persistir na criminalização da pobreza. Enquanto a classe média e alta toma suas providências, as mulheres pobres são as “abortistas”. Essa perversidade social, se não é nova por aqui, é sempre surpreendente, porque volta a revelar-se na renovação de uma moralidade que faz vistas grossas à “interrupção preventiva”, mas condena publicamente a “escalada” do aborto.

Concluindo

Como o Brasil é hábil em encontrar soluções intermediárias em qualquer situação, tudo que não se deseja é a manutenção dos direitos de uns em detrimento dos demais, embora fugir do maniqueísmo no Brasil recente seja tarefa das mais hercúleas e agora, como ninguém pode ou precisa em absoluto acolher a decisão e opinião alheias, uma nova guerra de foices se avizinha, a não ser que abaixemos as armas e usemos mais da racionalidade que das paixões morais.

O NÃO que porventura se escute proveniente de pessoas com deficiência e de suas famílias é claro que deve, sim, ser percebido socialmente, porque este é o NÃO que, desamparados muitas vezes, eles têm escutado em sua interação com a sociedade. Todavia, preservar seus direitos nem por hipótese compete em sua eliminação sistemática. Porém daí a condenar à miserabilização uma geração inteira de pessoas com deficiências evitáveis, em função de um tabu de araque, é de uma vileza que mesmo nestes trópicos me soam exageradas.

Um cidadão qualquer que observe com atenção este movimento, percebe sem dificuldades que a proteção legal à pessoa com deficiência é sempre relativa e muitas vezes falha e que o recado subjacente vêm se mantendo ao longo da história. Em relação às pessoas com deficiência, ainda prepondera o NÃO social frente ao sim que a sociedade felizmente muitas vezes consegue exprimir. O sentimento de rejeição e o preconceito experimentado pelas pessoas com deficiência é, portanto, um pouco diferente dos demais preconceitos que se perpetram contra minorias, porque ele se materializa precocemente e é aceito e, sob certo aspecto, até incentivado explicitamente.

Talvez daí, e essa é uma explicação para lá de apressada, que muitas pessoas com deficiência e seus familiares pressintam no movimento em torno da autorização legal do aborto em casos de microcefalia causada pelo vírus Zika, já que a microcefalia é causa de múltiplas e graves deficiência, uma confirmação dessa negativa que eles sentem vividamente na série de NÃOS que a sociedade e suas instituições vêm emitindo em sua direção. É como se, à possibilidade de prevenir-se uma situação dessas, fosse preferível que ninguém passasse por isso, sejam quais forem as causas disso vir a acontecer. É outro NÃO o que repercute nos sentimentos das pessoas. E é um NÃO que justamente desobriga o mundo externo, o ambiente social, a estar apto ao seu trânsito físico e mental, com tudo o que ele representa.

Ninguém, em um estado são de consciência, sugeriria eliminar pessoas já nascidas, como fatos bem conhecidos na história do séc. XX. Entretanto, a mensagem da vida indesejada às vezes é como um grito entre os vivos, como se eles fossem pessoas cuja eliminação prévia não teria funcionado a contento. Não entender a violência subjacente a essa proposição tem feito com que muitas pessoas interpretem como “eugenia” a mera possibilidade de permitir o aborto nos casos de exposição ao Zika vírus.

Onde o direito à opção não existe, como é o caso brasileiro, é um risco considerável o de que a discussão pública em torno do tema viesse a esbarrar na muralha da penalização. Ainda assim, sugerir-se que as mulheres grávidas de fetos com má formações severas como as causadas pelo vírus Zika levem a gestação a termo, uma vez que a propagação do vírus pode ter ocorrido por omissão do Estado, é apenas uma penalização duplicada. Tendo-se em vista que, na prática, a interrupção é praticada em situações alheias à lei, mas coincidentes ao poder aquisitivo das mulheres, deixar de verificar o mesmo direito às demais significa livrar um parcela ínfima da população do “incidente” e condenar justamente quem menos meios teve para proteger-se da infecção.

Forçado por uma situação ainda um tanto incontornável, porque a relação entre o Zika vírus e a microcefalia ainda não foi plenamente compreendida, o temor à deficiência aportou com força no Brasil da pós-modernidade, de um modo como nunca antes havia chegado, embora se insinuasse aqui previamente por muitas maneiras e através de outros fenômenos socioculturais, como o racismo, etc. Mesmo que recusadas por parte da sociedade, são ideias-força relevantes e que se replicam exponencialmente, tanto quanto o Zika vírus, e que trazem consigo muitas incoerências que, se nem de longe estão de repetir a tragédia do holocausto nazista, ressignificam a ideia do temor à deficiência, numa releitura de conceitos apenas supostamente suplantados pela história, como o sanitarismo eugenista nascido em fins do séc. XIX, desembaraçado agora pela ideologia liberal. Contrapô-los aos direitos reprodutivos das mulheres é que está inadequado, porque seletivamente a “prevenção” ou “seleção eugenista” acontecerá (já vem acontecendo, como demonstra a jornalista Claudia Collucci, da FSP). Não se pode é, sequestrando-se a dignidade das pessoas com deficiência, usá-las para a manutenção da desigualdade que afeta as mulheres pobres a quem mais tarde se recusará reparar os danos.

Isso tudo, claro, ocorrerá se não nos atrevermos a refletir sobre os direitos dos outros e a considerar a crise da microcefalia uma oportunidade incomum de revisar conceitos, preconceitos e os contornos jurídicos de uma sociedade que vê as benesses da biotecnologia chegar a apenas alguns que exercem como querem sua liberdade. Aos demais, a danação dos tabus, dos serviços públicos arruinados e das declarações oficiais infelizes e desencontradas.

A microcefalia no Brasil, prioridades públicas e a situação de emergência (do carnaval)

Agentes da Vigilancia Sanitária da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro fazem ação contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, Zika e Chikungunya, no Sambódromo no centro da cidade nesta manhã de terça-feira (26).
Foto: Fábio Motta/Estadão

É muito pouco provável que qualquer pessoa na faixa entre 10 e 100 anos de idade tenha presenciado ou vivido momentos como o presente no que diz respeito ao temor generalizado pela condição de deficiência como o atualmente deflagrado em torno do vírus Zika e de sua mais grave intercorrência, a microcefalia, ainda que a relação esteja pendente de confirmação final. Além de motivar a atenção de organismos internacionais como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a recente epidemia causada pelo Zika vírus tem provocado os governantes de países de todo o mundo a sugerir cautela principalmente para turistas em visita às regiões mais afetadas, especialmente o Brasil, país que tem mais casos reportados e diagnosticados até o presente momento.

A OMS inclusive acaba de declarar (01/02), por intermédio de sua diretora-geral, Margaret Chan, que a disseminação do Zika vírus e sua possível ligação com casos de microcefalia tornaram-se uma emergência de saúde pública internacional. É a terceira vez que a OMS faz um declaração desta monta. Antes, apenas a pólio, o vírus Ebola e o H1N1 haviam motivado o alerta global. No que isso afetará em curto e médio prazo o contexto brasileiro, entretanto, ainda é muito impreciso dizer. Antes disso, talvez fosse relevante para o debate público, além de debater-se a prevenção do incremento de casos, considerar a primazia do interesse e da dignidade da imagem da pessoa com deficiência, antes de deflagrar-se mais uma onda de temor a seguir da declaração, como vem ocorrendo episodicamente já, na imprensa, por parte de setores governamentais e obviamente entre as pessoas comuns também, principalmente nas redes sociais, onde debates e discussões acaloradas têm sempre lugar garantido.

As razões para o temor são realmente graves, sobretudo porque sua disseminação está relacionada a propagação do Aedes aegypti, mosquito vetor da doença que tem nos meses de verão seu pico de infestação, como informa periodicamente o Ministério da Saúde (MS), através dos LIRAs (Levantamento Rápido do Índice de Infestação) metropolitanos, mas também porque a microcefalia decorrente da infecção pelo vírus Zika não tem cura ou tratamento disponível e ainda é pouquíssimo conhecida pelos cientistas, embora grandes investimentos tenham sido realizados em todo o mundo no sentido de conhecer melhor o vírus e, em algum prazo incerto, até mesmo colaborar com terapêuticas.

Dada a perspectiva de uma cura ser praticamente inviável ou pelo menos encontrar-se em longíssimo horizonte, tal investimento tem sido largamente empregado na prevenção, através da busca pelo desenvolvimento de vacinas e da ampliação paulatina de conhecimento acerca da ação do vírus. Porém, enquanto a vacina não está disponível, outra realidade é a de que não existe, de fato, nenhuma prevenção disponível a não ser a detecção precoce durante a gestação e a consequente interrupção, ainda que realizada à margem da legalidade, isto porque em território brasileiro ela é facultada somente nos casos de anencefalia, situações em que não existe no feto a presença de massa encefálica compatível com o desenvolvimento da vida, resultando em gestações destinadas à morte do nascituro (relembre no site do STF a votação da matéria). É importante lembrar ainda que, no Brasil, o aborto é proibido pela lei, com exceção de quando a gestação envolve risco de morte da mãe ou é resultante de estupro.

Talvez um paralelo – ainda que bastante forçado – do pânico em torno da microcefalia possa ser encontrado somente entre aquelas populações que estiveram expostas à radiação atômica, como no Japão pós-guerra (1945) ou então em guerras nas quais se utilizaram amplamente armas químicas, como a guerra do Vietnã (1955-1975), por exemplo. Em casos como estes, a exposição a componentes químicos com severa ação biológica sempre suscitou temores, principalmente entre as mulheres, de que má-formações pudessem vir a ocorrer de modo acentuado, ou seja, diferentemente dos padrões normais, situações em que aconteceriam numa distribuição demográfica mais ou menos previsível. Ao contrário do que se poderia imaginar de imediato, a explosão presente de casos de microcefalia no Brasil não é o primeiro episódio do surgimento deste temor na história (apesar de que possa parecer numa busca aos meios de comunicação), que é tão antigo quanto a própria história da medicina moderna ou até mesmo aquém daí.

Pouco provável também, numa situação corriqueira, é a possibilidade de uma pessoa dimensionar antecipadamente a probabilidade de um filho vir a nascer com alguma deficiência. Algumas poucas situações atualmente podem ser detectadas precocemente através de exames pré-natais, embora as tecnologias de rastreamento sejam aperfeiçoadas dia a dia. Da mesma forma, compreender o significado e o impacto da deficiência envolve muitas situações incomparáveis, dado que o acesso à atenção precoce, de questões de saúde, de serviços e outras necessidades ocorram às pessoas de maneira tão desigual quanto a sociedade brasileira é desigual.

De outro modo, o temor por que a situação de deficiência possa vir a acontecer, este sim pode ser de algum modo dimensionado. Como é muito difícil ou impossível – ainda mais em uma época marcada por epidemias – sentir-se seguro ou imune de todo a uma condição que aparentemente não escolhe classe social ou status econômico para manifestar-se, como parece ser o caso da infecção pelo Zika (embora a distribuição de casos indique incidência distinta geograficamente e estreitamente relacionada às condições sanitárias), é compreensível que o risco seja ainda mais presente e considerado e o temor por isso mesmo aumente. Some-se o alerta generalizado que as autoridades e também os meios de comunicação têm preferido realizar, até mesmo porque os dados oficiais sobre incidência e contaminação não são absolutamente confiáveis, dadas as características sintomatológicas da infecção pelo Zika e dúvidas no meio científico e governamental inclusive a respeito dos critérios de enquadramento dos recém nascidos no diagnóstico.

O resultado explosivo da combinação do compreensível temor das autoridades sanitárias em alertar a população, dos meios de comunicação em muitas vezes repassar informações sem apuração detalhada e de declarações irresponsáveis das autoridades legais não é outro, como se vê, que o de disseminação do pânico. Prova disso é o levantamento divulgado no dia 31 de janeiro pela Folha de São Paulo, dando conta do aumento substancial da procura e realização do aborto em situações clandestinas, uma vez que, como já dito, a interrupção no Brasil é permitida apenas em casos de anencefalia. Isso sem falar na coleção de declarações no mínimo estranhas do titular da pasta da saúde, Marcelo Castro, que já chegou a manifestar-se recomendando que as mulheres contraiam o vírus Zika antes da idade fértil, num movimento espontâneo visando a imunização, além de afirmar publicamente que a guerra contra o Aedes é perdida, entre outras curiosidades sem maior efeito ou sentido.

Por outro lado, o que a reportagem da Folha revela está muito longe do que não se saiba. O aborto clandestino existe de fato há muito tempo no Brasil e, bem como demonstra a repórter especial sobre saúde do jornal, Claudia Colluci, vem sendo procurado sobretudo por pessoas de elevado nível econômico que o realizam sem maiores dificuldades, ainda que em situações nebulosas. Ao que tudo indica, o procedimento é relativamente tranquilo, envolvendo apenas a ingestão de um medicamento e está muito distante da realidade disponível a quem não pode arcar com seus custos, que parecem não ser poucos.

“Tranquilo”, evidentemente, se comparado às condições incrivelmente insalubres em que ocorre para aquela parcela da população que não pode pagar por técnicas como a medicamentosa e nem muito menos acontece dentro de alguma margem mínima de segurança. É muito importante reafirmar isto, porque o pensamento em vigor em boa parte do senso comum é o de que a decisão pelo aborto poderia ser popularizada e utilizada indistintamente a partir da abertura de brechas na lei. Trata-se de um argumento recorrente entre aqueles que defendem a manutenção da proibição em todos os casos e até mesmo a revogação dos casos em que atualmente é permitido pela justiça.

Incrivelmente, a situação do aborto no Brasil vem ocorrendo há décadas nesta mesma situação, à margem da lei, à margem de qualquer fiscalização acerca das condições de segurança procedimental e, principalmente, à margem de mínimas condições de dignidade, isso a despeito de qualquer juízo moral ou religioso que se possa realizar a respeito. Por essas ironias ou exatamente por causa disso, o assunto é dos mais amortecidos tanto no meio jurídico quanto nos meios de comunicação, sendo muitas vezes mais fácil encontrar análises da situação e uma abordagem desimpedida do tema no exterior, isto mesmo quando se trata da realidade brasileira.

Mas a reportagem veiculada pela Folha ainda desnuda uma outra situação que revela ainda mais a extensão do temor disseminado em relação à microcefalia, uma vez que diz respeito a casos não diagnosticados de infecção pelo vírus Zika. É isto mesmo, segundo a jornalista Claudia Colluci, a atitude seria um comportamento de antecipação à possibilidade do risco. Ora, se o nome dessa situação não é pânico, qual então seria? E o que essa realidade vertida em notícia pode informar a respeito tanto sobre o temor generalizado à deficiência? Sobre o acesso distinto aos serviços de saúde e direitos reprodutivos? E, sobretudo, a respeito da omissão do estado brasileiro em providenciar condições sanitárias que poderiam, se recursos fossem investidos, ter evitado a propagação dos casos e nascimentos?

Observando este cenário de intensas e conflituosas informações e expectativas, um grupo de pesquisadores, médicos, juristas e ativistas dos direitos das mulheres, vem estudando impetrar uma ação no STF possibilitando às mulheres realizarem no sistema público de saúde a interrupção nos casos de diagnóstico de microcefalia. O grupo, liderado, pela antropóloga Débora Diniz, que também esteve à frente da ação que culminou na jurisprudência sobre anencefalia, baseia-se em diversas premissas, de acordo com entrevista concedida à BBC, principalmente em uma que aponta a responsabilidade governamental em combater a causa da epidemia, ou seja, o próprio vetor Aedes aegypti e em impedir o surgimento de situações evitáveis pela ação pública e a consequente disseminação de casos de microcefalia. A ação ainda visa obrigar o estado a, por responsabilidade direta, oferecer condições de tratamento e inclusão social lato senso das crianças nascidas com a microcefalia.

Na entrevista, Débora ressalta que não se trata em nenhuma circunstância de obrigar quem quer que seja ao aborto, mas facultá-lo, uma vez que a causa da microcefalia seria de todo evitável, e a epidemia teria ocorrido por mera omissão ao cuidado com o vetor, não podendo comparar-se com intercorrências genéticas, por exemplo, que acontecem por razões totalmente fora do controle humano, ou outro tipo de acidentes, além de não poder-se atribuir ao descuido materno. O objetivo da ação, portanto, seria apenas o de igualar as condições de diagnóstico e resolução, escapando ao ciclo de temor generalizado, sem necessariamente buscar uma solução para todas as situações, mas fundamentalmente garantindo o acesso da mulheres ao controle de suas vidas e permitindo a expansão de seus direitos reprodutivos em um cenário complexo, no qual já se verificam o incremento na busca de soluções “alternativas”, mas nas condições em que historicamente o aborto vem acontecendo no Brasil e, diga-se de passagem, há muito tempo já.

Que a discussão a respeito do direito a interrupção em situações de diagnóstico de deficiência venha a ocorrer justamente no Brasil, onde o assunto chega ao extremo de ser tratado como política negociável no âmbito político-eleitoral, é fato que deveria ser irônico, não fosse trágico.

Em países europeus e outros que garantem o direito ao aborto dentre os direitos civis, a discussão sobre o direito nestes casos obedece a uma outra lógica, muito menos suscetível às pressões religiosas e políticas do que aqui, como foi possível acompanhar nas últimas eleições presidenciais. Trata-se de nações que partiram da condição de livre escolha para soluções individuais em nada conflitantes com a situação do aborto, então esculpido como opção individual e amplamente disponíveis no mercado de saúde, como até mesmo a detecção precoce e avançada de alterações cromossômicas e outras situações até mesmo em nível embrionário.

Ao mesmo tempo, é importante dizer que existem no campo da bioética e na medicina, no mundo todo, pesquisadores que postulam tanto a ideia de fomentar a investigação pré-natal com fins de garantir a máxima saúde da prole ou até mesmo de desencargo econômico, como o norte-americano Peter Singer e outros (ver aqui). Ainda que ideias assim possam significar interferências por vezes radicais na reprodução assistida e exageros perfeccionistas que poderiam estar flertando, sim, com a ideologia eugenista, mesmo que numa versão atualizada e culturalmente palatável, é uma tendência, ao que tudo indica, cada vez mais bem recebida e absorvida pela cultura destes tempos. De outro lado, estão os que defendem que a mensagem de busca pela perfeição humana escaparia à própria alçada humana, acabando por significar na desvalorização daqueles indivíduos que já nasceram ou ainda venham a nascer com alguma deficiência, como se pudessem tratar-se de meros erros de programação, o que o filósofo norte-americano Michael Sandel chamou em seu livro Contra a Perfeição: Ética na Era da Engenharia Genética, muito diretamente, de “nova eugenia”, ou “eugenia de livre mercado”.

São ideias conflitantes e extremamente matizadas e delicadas de uma tema polêmico tanto em países estrangeiros onde a legislação é mais flexível quanto no Brasil, que se dá principalmente a partir do momento crucial em que os casos de microcefalia justamente não param de crescer, mas aqui especificamente numa situação permeada de muitas distâncias sociais, econômicas e, principalmente, de informação.
Até o presente momento, a perspectiva dominante é a de que o governo adote práticas de prevenção que estão ao seu alcance mais imediato, ou seja, nada além de um esforço de pouca monta incapaz de deter o avanço da proliferação do mosquito, e por vezes mais contribuindo na disseminação do pânico do que em adotar medidas de equiparação e atenção imediatas. Todavia, a perspectiva de debater o tema convida especialistas, estudiosos e instituições relacionadas às deficiências de um modo geral a manifestarem-se, sob pena de que a comunidade de famílias e pessoas com microcefalia acabe falando sozinha, como acontece nos grupos de microcefalia nas redes sociais, enquanto que a sua imagem e de seus próprios filhos é amplamente divulgada junto a mensagens de pânico, quando talvez justamente deveriam ser as primeiras pessoas a buscar-se e amparar-se, num momento crítico como o presente, com o esforço de toda a sociedade, entre setores governamentais, filantrópicos, científicos e civis.

Alguém há de lembrar que, em vésperas de Carnaval, um tema sério assim devesse ou pudesse esperar uns dias mais. O direito ao lazer e à diversão são, como se sabe, historicamente priorizados por aqui; então é bastante possível que isso venha mesmo a acontecer. Talvez pelo estabelecimento desse tipo de prioridade pública, a população do país acabe por conformar-se a um estigma até mesmo pior que o de qualquer deficiência: o de que aqui não se pode estragar o carnaval, ainda mais na semana do Carnaval, em vésperas da grande festa nacional, etc. Mas pode-se destruir a vida das pessoas com a liberdade que, na prática e em situações onde ela realmente importa, pouquíssimos podem usufrui-la e para a qual a sociedade costuma ladrar ou gritar, festejar, enfim é Carnaval por aqui. Às vezes não parece que sempre é?

O Regresso

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Se os conflitos territoriais travados entre povos indígenas e colonizadores mal rendem, no Brasil contemporâneo, algumas linhas de cobertura jornalística, no cinema norte-americano eventualmente obtêm destaque, mesmo que se refiram quase sempre a episódios históricos. Ao que tudo indica, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deve repetir o Globo de Ouro e premiar neste ano o diretor Alejandro González Iñárritu, pelo filme O Regresso (The Revenant, 2015; estreia no Brasil marcada para 4 de fevereiro), protagonizado por Leonardo DiCaprio. Caso não o faça e não seja concedida a estatueta de melhor ator a DiCaprio, ele continuará em seu périplo em redor ao prêmio e a Academia, por sua vez, se manterá em sua relação conturbada com o gênero western (ou faroeste).

Ao longo de quase 90 anos, apenas por três vezes filmes do gênero foram premiados: Cimarron (1931), Dança com Lobos (1991) e Os Imperdoáveis (1992). Das quase duas dezenas de indicações, é uma minoria extrema. Trata-se de um gênero com imenso apelo popular e que, por vezes, como Jorge Luis Borges apontou em entrevista celebrizada na Paris Review, chegou a propiciar momentos épicos através das telas do cinema. Nesta entrevista, o autor argentino afirmava ter predileção por faroestes, ao invés do cinema autoral em voga no período em que a concedeu (1967). Interessante lembrar que o próprio Borges, por sua vez, criou momentos igualmente épicos ao escrever sobre o correspondente sulino ao cowboy, vaqueiro norte-americano, ou seja, sobre o gaucho platino, principalmente nos contos de O Informe de Brodie (1970). Ainda assim, a despeito da popularidade mundial dos faroestes, definitivamente o gênero não está entre as preferências da Academia.

Baseado em fatos reais, O Regresso é um filme sobre vingança, mas uma que ocorre sob um pano de fundo onde ela é apenas um gesto corriqueiro. É violento, mas em locais e situações onde a violência é que é a regra. É cruento, porém se dá em meio a uma relação cruel que marcou a história das delimitações da fronteira ao norte dos Estados Unidos com o Canadá, bem como os territórios dos indígenas e seus conflitos étnicos. É mistificador ao glorificar a resistência sobre-humana do protagonista, mas é desmistificador quando torna evidentes a precariedade e a violência sob as quais ocorreu a “conquista do oeste” e as figuras humanas dos “conquistadores” de então. É fantasioso ao apostar no envolvimento afetivo entre indígenas e colonos, todavia é mais fantástico que fantasioso ao tentar elaborar a recondução da história pela via afetiva, justamente a que mais deveria estar rompida pela barbárie perpetrada nas chacinas, estupros em massa e expropriações que o filme não oculta.

O Regresso, como qualquer outro filme, é uma tentativa. Uma aposta alta que conta com a atuação brutal de um DiCaprio que, para a felicidade do diretor, entregou-se ao personagem em carne e osso, e isso quase literalmente, porque ele teria atuado praticamente sem dublês, mesmo em cenas de alto risco. Aposta ainda mais alta fez o diretor ao encenar o drama da fronteira e das relações entre indígenas e colonizadores sem apelar à mera pieguice, como no oscarizado Dança com Lobos, protagonizado e dirigido pelo ator Kevin Costner.

É muito interessante notar que o filme de Iñárritu diz respeito a um cenário de conflitos hoje praticamente extintos na América do Norte, mas, por outro lado, muito persistente na América do Sul. Conflitos envolvendo territórios indígenas ocorrem entre nós desde o Tratado de Madri (1750) e atualmente se dão em torno da delimitação de reservas cada vez mais imprecisas e da ininterrupta grilagem que se pratica principalmente em relação aos territórios guaranis no Mato Grosso do Sul, embora não se restrinja a eles. Disputas severas acontecem também nas reservas das proximidades amazônicas, não raro dando causa a graves problemas ambientais marcados pela propagação da criminalidade e incremento na devastação extrativista, muitas vezes tendo como pano de fundo a expansão do agronegócio e a presença de mineradoras transnacionais, como a Vale, celebrizada há pouco tempo atrás no mundo inteiro por um crime ainda sem culpados, a tragédia do vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Para se ter ideia, em 2014 a Universidade Autônoma de Barcelona demonstrou que o Brasil esta entre os países em que há mais conflitos ambientais no mundo, e não raros são os conflitos que envolvem – direta ou indiretamente – os povos indígenas, como demonstra o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas, regularmente publicado pelo CIMI – Conselho Indigenista Missionário, vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

No terreno ficcional do gênero western, histórias de conflitos de fronteira entre indígenas e colonos são recorrentes e, via de regra, entremeados de violência abundante. Nelas, costumam estar em jogo aspectos menos nobres das relações humanas, já que o que se costuma buscar, em processos assim, é a apropriação territorial e de recursos econômicos e naturais, além da delimitação política de fronteiras entre nações beligerantes. De modo análogo ao que aconteceu na América do Norte, conflitos de fronteira também ocorreram por aqui, especialmente nos sécs. XVIIII e XIX, ao sul do Brasil, na fronteira com o Uruguai. Tanto lá quanto aqui, a colonização ocorreu mediante a extinção massiva dos povos indígenas, principalmente das etnias pampeanas (charruas, minuanos etc.), mas também se deu em relação ao grande tronco guaranítico, num episódio histórico de proporção épica quase não reportado, a exceção de recentes livros de história, como os colossais A Guerra Guaranítica e A Fronteira, do professor e historiador gaúcho Tau Golin.

Comparando-se ao cinema brasileiro, O Regresso então é um filme que praticamente não encontra paralelo na filmografia recente. Pelo menos no campo ficcional, é preciso reconhecer que roteiristas de lá fazem bem mais por identificar o acento crítico da relação e dos conflitos envolvendo os povos indígenas que os cineastas e autores brasileiros. Por aqui, muitas vezes parece que há como que um aprisionamento nas obras de José de Alencar, tendo O Guarani, Iracema e Ubirajara contado inclusive com refilmagens. Exceções existem, como em Xingu, Terra Vermelha e Serras da Desordem, mas que pouco foram vistos e cuja existência é bem pouco notada, como se fossem filmes estrangeiros.

Ao procurar-se muitas vezes encontrar no modo de viver dos indígenas aspectos mágicos ou contornos líricos, é quase possível dizer que há na cultura nacional como um esforço infantil em torno da tentativa de cristalizar sua história como intocada. A brutalidade das cenas de um filme como O Regresso, portanto, impõe uma carga pesada de realidade a este imaginário idílico que, a bem da verdade, está mais para uma epopeia sanguinolenta, ainda que muitas vezes denegada na historiografia, na ficção e também no jornalismo presente. O que subsiste muitas vezes é a impressão de que ainda hoje está a buscar-se recuperar as feições do índio mitológico, pueril, enquanto os indivíduos reais continuam a padecer por uma relação desigual e marginal que mantêm com o restante da sociedade, ao mesmo tempo em que a narrativa dessa história violenta é encoberta e até mesmo tornada desinteressante, quando não invisibilizada de todo.

Entre históricos ou presentes, o certo é que não faltam bons motivos para filmes relevantes ou ao menos não tão infantilizadores sobre os indígenas no Brasil. A impressão reincidente é a de que parece aguardar-se (ou quem sabe desejar-se) não haver mais elenco disponível para encenar essa tragédia também muito vista por aqui e que, ao vivo e em cores, continua invisível apenas por quem não deseja vê-la ou dela institucionalmente procura desincumbir-se, por pressões tão repetitivas quanto antigas em terras brasileiras.

Mesmo que nos Estados Unidos esta relação esteja muito distante da ideal, porque conflitos territoriais continuam a existir por lá também, ao menos parece que, do ponto de vista cultural, aos poucos se adota uma perspectiva menos idealizada e mais racional em relação aos conflitos com os povos indígenas e ao tratamento de sua história. Em dado momento do filme, acontece como uma espécie de depoimento de um cacique da etnia pawnee, dando conta da consciência exata da relevância das perdas territoriais, econômicas e culturais por que sua tribo estava passando, num diálogo que ele trava com os traficantes de peles da colônia francesa com os quais os indígenas comerciavam, não coincidentemente em troca de cavalos e armamentos. Também por cenas assim é possível dizer que O Regresso, de certo modo, pode ser interpretado como um indício importante no sentido desta perspectiva de renovação na compreensão da problemática indígena. Quer dizer, considerando-se que pelo menos até há pouco tempo atrás o tom adotado pela cinematografia era o de uma cooperação amigável entre homens brancos e indígenas, como em Dança com Lobos, ou então, ao invés disso, quando os nativos eram retratados como os clássicos e perversos selvagens canibais das caricaturas.

Enquanto isso, parece que por aqui o que se deseja fazer é viver à deriva da história, como se num permanente ponto de não retorno, no qual tentar coibir a violência desmedida e garantir condições minimamente dignas de convivência com os povos indígenas seriam desde sempre situações irrecuperáveis. Não é com outra coisa que contam as ideias pouco inovadoras dos arautos do irrefreável progresso contemporâneo, entre governistas, ministros de estado, autoridades e legisladores. Desse desmazelo histórico bem que se poderia lá pelas tantas empreender um ponto de regresso, como no título do filme de Iñárritu, mas na atualidade brasileira até da ficção e do cinema nacional parece que algo dessa ordem seria pedir demais.

A epidemia de microcefalia e a eugenia branda

repelente

Ainda que no fim de 2015 não houvesse ocorrido a proliferação de casos de microcefalia decorrentes, ao que tudo indica, da infecção pelo Zika vírus, dificilmente alguém lembraria de ano mais distópico do que o que logo deve encerrar-se. Bastaria lembrar da desolação hospedada ao longo do Rio Doce, em Minas Gerais, causada pelo mais grave e inaceitável crime ambiental da história brasileira, isso de acordo com manifestação oficial da ONU. Ainda assim, poderia invocar-se a desolação civil causada pela instabilidade política aliada a uma crise econômica complexa. Poderia-se lembrar dos protagonistas políticos da crise governamental e da sucessão de episódios que em nada devem à ficção. Porém um micro-organismo hospedado e transmitido por um inseto, um mosquito que o país já não tem meios de debelar, seguindo pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, um mero mosquito, um ser quase invisível, acabou por deflagrar no sistema de saúde brasileiro, entre autoridades sanitárias, entidades de pesquisa e círculos médicos um clima de perplexidade sem precedentes.

A microcefalia, condição clínica responsável por problemas neurológicos difusos e causadores de deficiências de diversas ordens, desde físicas a sensoriais e intelectuais, constitui-se num desafio à saúde e também pode ser considerada um desafio político, porque decorre de condições sanitárias e urbanas geridas, do ponto de vista histórico, inadequadamente. Presente já em praticamente todos os estados da federação através da presença maciça do Aedes Aegypti, vetor transmissor de outras duas doenças, a dengue e febre chikungunya, é muito possível que o número de casos cresça exponencialmente, dado que as medidas de combate anunciadas no último dia 05/12 pelo governo federal, através do Plano de Enfrentamento à Microcefalia, são pouco animadoras. Elas incluem, entre outras coisas, distribuição de repelentes às gestantes, recomendações do uso de calças compridas e medidas envolvendo as Forças Armadas, como se tratasse de uma operação de guerra e não de uma questão de saúde pública. Isso deixando de mencionar sugestões no mínimo questionáveis do próprio ministro, Marcelo Castro, que recomendou que apenas engravidassem, neste momento, pessoas aptas, sem revelar, contudo, o que deveriam fazer as demais mulheres já grávidas e as não aptas, segundo o seu critério. “Sexo é para amadores, gravidez é para profissionais”, recomendou o titular da pasta logo a seguir do lançamento do Plano.

A frase é em tudo reveladora do pasmo que acomete o Brasil há algumas décadas a respeito das políticas públicas em torno aos direitos reprodutivos. O problema mais grave entre todos os que cerca a questão talvez seja o de que a frase revela apenas a ponta de um iceberg de ocultamento histórico, pacto mais ou menos velado entre os serviços de saúde, governo, sociedade e demais interessados nos assuntos sobre saúde da mulher, direitos reprodutivos, aborto legal, deficiência e eugenia, termo não muito corrente nas discussões políticas ou sociológicas no Brasil.

Porque remete diretamente às questões de controle do corpo e das possibilidades de predeterminação e escolha de quem deve ou não viver ou vir a nascer, obviamente o tema é espinhoso. Exceto quando eivado de moralismo, trata-se de assunto proibido e custoso para encontrar-se debatido nos meios de comunicação e, até mesmo na literatura acadêmica, estudos contemporâneos sobre a vertente liberal e branda do espírito eugênico, mais de acordo com estes tempos, são bastante raros.

Normalmente lembrada como efeito secundário das políticas nazistas, a eugenia nasceu como ciência adaptada do naturalismo do séc. XIX vindo a aperfeiçoar-se como método de controle “sanitário” durante todo o período entre guerras, inclusive no Brasil, como forma de melhorar as condições de saúde do povo em geral, pela seleção dos mais aptos, na sua versão positiva, e pelo descarte ou eliminação dos portadores de características indesejadas, na negativa. Como ideologia, a eugenia prestou-se a muitos objetivos políticos, afetando nichos étnicos da população e, principalmente, condições de deficiência. É possível conhecer mais sobre o assunto, lendo-se o trabalho de Maria Eunice de Souza Maciel, A Eugenia no Brasil, neste link. Na sociedade contemporânea, entretanto, o desejo de aprimoramento e melhoramento é uma das tantas nuances comportamentais presentes, cujo acesso é facilitado pelo desenvolvimento de diversas tecnologias, como rastreamento genético e outras medidas adotadas inclusive na forma de políticas públicas institucionais.

O tabu em torno da seleção eugênica ocorre no Brasil tanto por questões religiosas quanto legais, mas sobretudo por envolver a temática do aborto. Tema que costuma servir até mesmo de moeda política em períodos eleitorais, o aborto costuma receber uma carga moralizadora impressionante no Brasil, enquanto em muitos países do mundo trata-se apenas de uma opção reprodutiva garantida no escopo dos direitos civis.

Quando as questões de deficiência e prevenção de deficiência, entretanto, afloram no debate público, por não haver abertura alguma para o debate franco sobre as questões, surgem recomendações esdrúxulas como a do Ministro da Saúde. Ora, imaginar que seja possível tornar exclusivo o direito à gestação de pessoas aptas (ou seja, ricas o suficiente para viverem longe e a salvo das condições sanitárias que favorecem a presença do Aedes Aegypti) e vedar, por outro lado, às demais o mesmo direito é um argumento que beira à insanidade, e isso duplamente; em primeiro lugar, considerando que a realidade do aborto clandestino deve agravar-se; em segundo, porque explicitamente as autoridades estão sugerindo que a condição de deficiência seja evitada, ainda que não previsto na forma da lei, como uma sugestão sub-reptícia.

Tal sugestão, se compreensível na esfera privada, é ofensiva em todos os aspectos possíveis na vida pública, a começar por dirigir-se à dignidade das pessoas com deficiência, tratada abertamente como se um óbice a uma vida plena de direitos, um discurso em tudo eugenista, assim como em perpetuar a afronta aos direitos reprodutivos das mulheres, no momento em que deposita no autocuidado a responsabilidade total pelas decorrências da gestação, encontradas pela fatalidade de situações externas e ambientais.

Sem o correspondente investimento em educação integral em sexualidade, acesso a métodos contraceptivos e o debate não penalizante sobre a interrupção, o que é feito da política de controle do vetor e da pesquisa sobre o vírus é a propagação do terror, cuja fonte seria a gestante e, o resultado, a pessoa com deficiência. Não se trata do mesmo que investir em prevenção. A prevenção foi negligenciada do ponto de vista das políticas públicas de saúde e urbanas, perdendo a eficácia no controle do Aedes Aegypti, vetor da doença. Trata-se, por outro lado, de uma solução paliativa e é evidente que as gestantes devem procurar resguardar-se do contágio, mas não em assumir a culpabilização oferecida pelas autoridades que, ao mesmo tempo, denegam debater a interrupção, por exemplo. Um aconselhamento ambivalente denota despraparo ao mesmo tempo em que desampara às gestantes à própria sorte. Mais confortante e produtivo do ponto de vista público seriam o esclarecimento quanto ao aconselhamento pré-natal e garantias de atendimento no sistema público, tanto para os bebês quanto para suas famílias, sem demérito do combate ao vetor e incentivo à pesquisa. Do contrário, há a disseminação do pânico, principalmente pela veiculação de informações incompletas e mensagens ambíguas.

Evidentemente, caso se prefira considerar a situação da proliferação do vírus Zika e dos casos de microcefalia em mais uma cena do espetáculo distópico de 2015, as autoridades governamentais e médicas estão indo muito bem. Em toda a imprensa, pululam declarações a respeito da gravidade da situação e recomendações médicas expressas de evitar-se gestações durante um período de tempo impreciso, pois o controle do vetor demanda um investimento do qual não sabe-se se o país é capaz de suportar. Para a bióloga Denise Valle, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), é tarefa impossível.

Na ficção, como é sabido, as distopias são a antítese da utopia. São representações ou projeções de um tempo em que as esperanças positivas estão solapadas por maus indicadores e por uma realidade adversa. À guisa de retrospectiva, 2015 parece dos anos mais distópicos dos últimos tempos, mas, ao contrário dos filmes de ficção científica nos quais se pode depositar as causas ao roteirista, no caso do vírus Zika o único e exclusivo culpado de sua propagação é a imprevidência histórica dos sucessivos governos sobre a saúde pública e as mínimas condições de saneamento e higiene urbanas. Ao que tudo indica, a imprevidência deve persistir enquanto criarem-se miragens milagrosas inacessíveis à população. Nesse caso especificamente, seria preciso algo como fé, de tanta expectativa frustrada de evolução sociocultural, mas quando o assunto é saúde e condições reais de acesso à vida digna, nem mesmo a fé é suficiente. E exigir fé e atitudes impossíveis a essa altura dos acontecimentos é um disparate que beira o desrespeito às pessoas, assim como debitar o problema a quem sofre suas consequências. Eugenia é um termo severo, mas é a mensagem que está sendo transmitida. Não admitir isso ou deixar de oferecer soluções civilizadas para garantir a dignidade de gestantes e pessoas com deficiência é que o fim da picada. E repelente é este discurso sanitário do séc XIX.

Pesadelo geracional

negativo

Há dias que eu tinha em mente um spot que o Greenpeace produziu há alguns anos, sobre as mudanças climáticas e que, ao som de Frank Sinatra cantando My Way, mostrava cenas de inundações, derretimento das calotas polares e outros efeitos visíveis do aquecimento global. Ao fim do spot uma pergunta sobrepunha-se às imagens: “Lembra como sua geração sonhava em mudar o mundo?” e, pouco antes do fim, a resposta: “Parabéns, vocês conseguiram.”

O clipe, no YouTube, pode ser visto aqui:

Hoje, percebi que a lembrança me vinha em mente, entre outras razões, em função do começo da COP 21. E também porque, a despeito do tamanho exíguo, a mensagem do spot é mesmo impactante. Mas, antes de lembrar, estive como imerso numa espécie de pesadelo. Um pesadelo geracional.

O filme, mais claro impossível, depõe contra um sonho geracional deposto, talvez extinto já, de uma fatia da população que, chegando hoje aos 60 ou 70 anos, embalou-se no sonho hippie e contracultural de mudar o mundo e, passado esse tempo todo, eis que nada de se perceber as mudanças decorrentes de um novo modo de vida. Este projeto utópico dos anos 60, se um dia pensou-se revolucionário, acabou por revelar-se mera continuidade do modo de vida precedente de um modo geral no ocidente, nada além disso.

E então, pensando não nos termos de uma análise histórica, mas do mundo ao meu redor, é fácil perceber que o movimento geracional é contínuo e se a geração que viveu a Segunda Guerra Mundial e seus desdobramentos terríveis começa a deixar de existir e dar lugar às pessoas influenciadas pelo sonho de mudança dos anos 60, o legado destes sequer pode ser considerado melhor que o daqueles. Para comprovar isto, basta ver onde estão hoje, no Brasil mesmo, lideranças políticas que viveram no bojo daquele movimento, porque pensar em seu projeto de renovação social seria o mesmo que buscar uma agulha num palheiro, ou pior que isso, nos lamaçais da realidade, sem falar nos simbólicos.

E o pesadelo se torna mais assustador ao concluir-se que mesmo essas pessoas já começam a deixar o poder para outra geração e esta é composta por pessoas que nunca experimentaram os rigores de graves crises econômicas ou o pesadelo político de um regime opressivo, ou ainda a tarefa de reconstruir um mundo minado pela guerra. Seria possível imaginar que essa geração poderá efetivamente resgatar o saldo das anteriores? Mas, pensando-se em perspectiva, será que foram preparadas para isso? É muito difícil saber. O indubitável é que talvez não lhes reste alternativa e, caso tenham habilidade para engendrar relações mais harmônicas com o ambiente e com a sociedade, poderão realizar o que os que apenas estiveram sonhando deixaram de fazer ou postergaram. Talvez o façam justamente por ter de fazer, e não por sonhar. Seria uma solução pragmática, embora não se possa garantir que venha a funcionar. Talvez, mais que uma solução, seja uma esperança.

De outra sorte, ao pensar nisso fica claro que convivemos concomitantemente, de certo modo, com todas estas gerações. Confesso que tenho receio de que uma geração que usa mais tempo no Instagram que em bibliotecas e que encontra num clique qualquer informação mas sem ninguém saber ao certo se em condições de interpretá-la, dará conta da tarefa hercúlea ou até mesmo se é justo concentrar em seus ombros tal responsabilidade. Talvez, fazê-lo seria apenas adiar as soluções urgentes que o planeta demanda. Todavia, culpá-los por antecedência, porque o poder político ainda não encontra-se em suas mãos, é de uma vileza sem tamanho. A mim parece que, por depormos a falência de uma geração que se mostrou incapaz de engendrar um mundo melhor, não podemos por isso mesmo negligenciar de nossas responsabilidades. Este seria um comportamento a Pôncio Pilatos. E, convenhamos, é o que de menos precisamos.

Usar da consciência e partir racionalmente para soluções que envolvem o meio ambiente é fundamental, mas isso não deve partir de todos? Em caso contrário, como partiria justamente de quem ainda não tem meios de fazer as coisas e teve seu direito a sonhar um mundo diferente e que foi interditado precocemente pelo fracasso dos outros? Essa por óbvio que não é uma questão a ser debatida na COP 21 que começa agora, mas é a questão das questões para o nosso dia a dia e para o futuro dos que virão, do qual todos bem que poderíamos estar mais ocupados em colaborar ao invés de meramente despejar o fracasso anterior. Ou iremos, ao invés de dar continuidade ao sonho, propiciar condições para dar continuidade ao próprio fracasso?

Então, estou esperando pela continuidade do spot do Greenpeace, um que talvez fale sobre pessoas inocentes que podem tomar outros caminhos, mas desde que ninguém os vete antecipadamente.

Música hidrográfica brasileira

baciasbrasil

“…e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”
João Guimarães Rosa – A Terceira Margem do Rio

O que significam os rios para o interior do Brasil e para a cultura popular é algo do indizível. Isso é assim porque os rios são como a seiva dos lugares, dos territórios. São como membros de uma grande família e, se um deles morre, toda a família padece junto. São como limites de uma casa, nossa casa, e não é à toa que estamos delimitados de norte a sul pelo Oiapoque e pelo Chuí: dois rios.

Na semana passada, o Rio Doce, em Minas Gerais, foi sepultado de uma só vez, numa tragédia histórica e aparentemente irreversível. Não foi como acontece com muitos outros rios, arroios, riachos, que gemem diariamente da agonia dos despejos e das drenagens e dragagens incessantes. O Rio Doce foi sepultado vivo, sem direito nem a gritar, numa violência que só uma criatura das bem ruins pode fazer. Infelizmente, é justo a criatura humana, supostamente a mais sábia entre todas, quem vem se especializando nessas ruindades, batizando-as disfarçadamente de “acidentes”, “desastres” e outros eufemismos, conforme intenções mais ou menos veladas.

Não é somente pela pesca que os rios se fazem fundamentais, também é pela presença e pela sua capacidade de favorecer a multiplicação dos recursos naturais. Pelo frescor da vegetação de seus arredores e a rarefação dos ares. Pelas piracemas milagrosas. Pelas nascentes, brotadouros e pelos olhos d’água. Pelas Iaras fantásticas, aparições e pelos animais de verdade que, agora, perdem sua casa, sua imagem, sua sombra no chão da existência.

E também pela inspiração de quem os cantava e agora terá em seu lugar estradas de asfalto, concreto, sujeira ou, ainda pior, coisa nenhuma. Alguém me diga quem escreveria uma história sobre um ex-rio? Quem comporia uma canção assim, com essa finalidade? Seja como for, os rios são como nossas artérias e veias. Somente uma criatura que não se importa consigo mesma os trataria tão mal como os tratamos. Será que deixamos de perceber de que somos na verdade, como o “nosso pai” de Guimarães Rosa, um só, o eu-rio?

Nos links abaixo, tentei reunir alguns momentos da música brasileira onde os rios estão homenageados. Para ver como rios e artistas estão mal considerados no mundo contemporâneo, que já não se os homenageiam tanto, hoje em dia. Mas, de outra sorte, imundície e destruição não tem faltado.

“Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei”
(Força estranha – Caetano Veloso)
https://www.youtube.com/watch?v=LX_hSIGxu4U

“Dentro da terra o rio quer nascer
O rio chora água ao parir”
(Dois rios – Tavinho Moura e Fernando Brant)
https://www.youtube.com/watch?v=e4zYf8gPcJA

“A correnteza do rio
Vai levando aquela flor
O meu bem já está dormindo
Zombando do meu amor”
(Correnteza – Tom Jobim)
https://www.youtube.com/watch?v=6oWlY4l2dy0

“Canoa, canoa desce
No meio do rio Araguaia desce”
(Canoa, canoa – Nelson Angelo e Fernando Brant)
https://www.youtube.com/watch?v=rKrTEQiK8_w

“Vivi na beira de rio, não conheço outro lugar.
Eu e ele é um desafio, pra ver quem mai vai durar.
Rola espuma, rio grande, rola o rio Paraná”
(Rio Paraná – Tonico e Tinoco)
https://www.youtube.com/watch?v=-WTTZXPiyU8

“Nas águas do Rio Amazonas
o meu coração se banhou”
(Rio Amazonas – Dori Caymmi)
https://www.youtube.com/watch?v=goE1fxNGV_g

“O rio de Piracicaba vai jorrar água pra fora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora
Lá no bairro onde eu moro só existe uma nascente.”
(Rio de Lágrimas – Tião Carreiro e Pardinho)
https://www.youtube.com/watch?v=Rzrm6dLP4zE

“Cumprindo sua sina, distraindo as mágoas
Parece que o rio inveja o mar
Nas ondas que os peixe branqueia”
(A Vida do Rio – Simone Guimarães, José Pacífico e J. Márcio Castro Alves)
https://www.youtube.com/watch?v=OaE8uiQh8YU

“Óia o dourado que bateu no espinhel
Traz a canoa que rio fundo não dá pé”
(Cantiga de Rio e de Remo – Os Angueras)
https://www.youtube.com/watch?v=STAoRcco29o

“Riacho do Navio corre pro Pajeú
O Rio Pajeú vai despejar no São Francisco
O Rio São Francisco vai bater no mei do mar”
(Riacho do Navio – Luiz Gonzaga)
https://youtu.be/2B2D4Sym5tE

“Vai a me levar como se fosse
Indo pro mar num riacho doce
Onde ser é ternamente passar”
(Rio Doce – Beto Guedes)
https://www.youtube.com/watch?v=xtrGSowtzjY

O insepulto gaúcho

gaucho

Por mais de um século, uma das grandes filigranas culturais destas paragens sulinas tem sido a origem do nosso gentílico. Sobre a etiologia e o significado do termo “gaúcho” debruçaram-se muitos dos mais respeitados historiadores, literatos, intelectuais, folcloristas, pensadores e opiniáticos do estado. Augusto Meyer, Moyses Vellinho, Manoelito de Ornellas, Guilhermino César, Carlos Reverbel, Barbosa Lessa e mais uma dúzia ou mais de uma dúzia de nomes ataram e desataram braçadas e nós da questão, como se sabe; isso sem contar com a vizinhança do Rio da Prata, que eventualmente alpercou-se na questão, como Ricardo Molas, Madaline Nichols e outros estudiosos.

Porém talvez tenha chegado o momento de trocar-se de preocupações, afinal a estas alturas parece de pouca serventia delimitar o valor de uma palavra quando até se duvida da existência do objeto correspondente. É um problema que, se consegue afligir a alguém ainda, o faz mais por afastar tudo o que envolve a vida real e presente das pessoas que vivem por aqui e por afetar, talvez, algum aspecto da estima socioafetiva da população do Rio Grande do Sul do que por nos provocar a pensar em quem somos, o que fazemos dessa identidade e porque nos enredamos tanto nisso, ainda hoje.

É como se, a este passo da história, fosse preciso ter de decidir entre chamar os romanos de romanos ou italianos. É como querer batizar alguém tomando-o por defunto sem sequer procurar saber se a criatura ainda respira ou não.

À parte os muitos interesses linguísticos, históricos e ideológicos, há um consenso mais ou menos patente de que se trata de um vulto emblemático e histórico, o tal “gaúcho”. Mas quanto tempo dura a história? E mais, há quem possa, de fato, decretá-la em marcos ou períodos sem que esteja igualmente submetido aos seus processos ou influenciado por tendências nem sempre claramente distinguíveis? Pelo sim, pelo não, a relevância da questiúncula etiológica é quase insignificante diante da que a ela vem se sucedendo e diz respeito, a saber, da existência real e observável do “gaúcho” e do que é feito de seus descendentes.

Ainda que constatar tal existência exigisse não mais do que um mero deslocamento geográfico, às vezes a impressão que tenho é de que se espera encontrar, numa incursão dessas, figuras mitológicas e personagens literários ou históricos. De fato, ambas as possibilidades são reais, mas a persistência da descrição mitológica empalidece a coloração real das pessoas e seu habitat. Sobrescreve-lhe o relevo, planifica suas ranhuras. Isso acontece, todavia, mais por um desejo externo e por uma falta de contato com a vida presente, com a vida do interior como ela é, do que por um desejo espontâneo de quem por lá está. Afinal, é sempre mais confortável pensar-se nos termos de uma teoria ou de um preconceito qualquer do que ter-se de lidar com a realidade. No mundo real, as pessoas sentem, vivem e dialogam com o tempo presente a despeito de qualquer idealização histórica e, em grande parte das vezes, sem interlocução alguma.

“Muchos no habrán oído jamás la palabra gaucho/Muitos não terão ouvido jamais a palavra gaúcho”, escreveu o argentino Jorge Luis Borges em seu poema “Los gauchos” (Elogio da Sombra, 1969). Talvez com mais precisão do que muitos estudiosos acadêmicos lograram obter, Borges passa uma ideia peremptória sobre como as pessoas costumam ter ideias a respeito de si mesmas, ou seja, é muito provável que a uma pessoa que sobreviva ainda hoje da atividade pastoril viva sem saber-se ser ou chamar-se isso ou aquilo. Sem ter um nome para si mesmo. Em caso contrário, é bastante provável que, caso ostente o gentílico como definição identitária, esteja fazendo-o por ter incorporado uma noção alheia, provavelmente deslocada por elementos culturais transportados pelos meios de comunicação e bens culturais, tais como a música e literatura, por exemplo. Bem mais a música popular que a literatura, diga-se de passagem, levando-se em conta a profusão de intérpretes da música regional, em suas diversas vertentes.

De qualquer forma, é cada vez mais precária a compreensão da transposição para o presente dessa identidade que, originária dos acertos e conflitos de fronteira, vulgarizada e até certo ponto tomada como impropério, perdeu a maior parte de seus atributos originais, sujeitando-se de forma inevitável aos processos históricos. No imaginário popular, entretanto, acabou por empedrar-se numa espécie de criogenia perpétua. Ou então tornar-se uma espécie de auto-caricatura, num reconhecimento de deslocamento, como evidenciando um mal-estar na contemporaneidade de sujeitos tipificados como há duzentos anos atrás. É uma dúvida comum a todo gaúcho (aqui no sentido de gentílico) que se preze pensar-se representado ou por um resquício solerte de um Capitão Rodrigo Cambará ou pelo carisma do Guri de Uruguaiana, passando-se por uma galeria de muitos outros tipos curiosos. A hipercaracterização cultural do tipo humano associada à hiperinterpretação acadêmica, que o condena a sobreviver como uma espécie de fantasma de si mesmo, amargando o peso de uma história violenta onde se aglutinam degoladores, caudilhos, estancieiros, contrabandistas, escravos, peões, nos faz remeter à barbárie, enquanto somos apenas humanos. Esse direito elementar, entretanto, nos foi interditado. É preciso reconhecer isso. E sobreviver a isso.

Mesmo que ainda se esteja longe de um consenso qualquer sobre a etiologia da palavra “gaúcho”, se o tipo ainda existe subliminarmente ou foi extinto da mesma forma com que seria uma espécie animal qualquer, é preciso avisar àquelas pessoas que, desde os extremos ao sul de Jaguarão até os altos de cima da serra, devem virar-se com o seu modo de vida. Se não evidentemente glorioso, mas notadamente complexo, principalmente por ser necessário lidar com os fantasmas que se lhes impõem e dos quais eles sabiamente não costumam importar-se à onipresença. No tempo histórico dilatado das mentalidades, no entrevero entre o centauro do pampa, o monarca das coxilhas e o gaúcho a pé, vamos gastando a faca. E, de vez em quando, o verbo.

Brasil: do modelo social da deficiência ao modelo de mercado

Pictogramas de diversas deficiências sendo depositados em carro de compras.

Exceto enquanto hipótese de estudo, às vezes penso que o assim chamado modelo social da deficiência encontra-se em fase avançada de esgotamento. Talvez até mesmo de superação, para usar um termo em eterna evidência. Alguém que tente explicar as dificuldades do estar no mundo das pessoas com deficiência com o modelo social mas sem adentrar no “social” propriamente dito cada vez mais corre o risco, em meu ponto de vista, de cometer graves equívocos, porque o dinamismo do “social” pouco cria exceções ou se conforma com facilidade em modelos estruturados.

O “social” é sempre um instantâneo e, as nuances das diferenças, matizes solúveis em constante relação com contextos bastante imprecisos. Esta seria uma confrontação bastante apressada e resumida entre o modelo social da deficiência e algumas ideias do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1), expressas na sua coleção de livros sobre o “líquido” (Tempos Líquidos, Modernidade Líquida, etc.). Mesmo que sejam ideias passíveis de refutação, deve-se em muito a sua popularização a imersão conceitual dos modelos materialistas clássicos, justamente dos quais o “modelo social da deficiência” é derivado.

Pois bem, uma vez apresentada a ideia, a indagação é inevitável: e quem o teria esgotado? Além das pessoas que banalizaram seu uso sem dimensioná-lo de todo, justamente o “social”, que, por sua fluidez capaz de frestar-se em qualquer modelo conceitualmente sólido, foi quem o fez. Também contribuíram para isso os processos históricos, que por sua própria natureza conseguem aglutinar tempos e condições de desenvolvimento díspares em seu percurso aparentemente retilíneo, atendendo e desatendendo à diversidade humana em suas distintas condições socioeconômicas, políticas, étnicas e culturais.

Apesar de que nunca tenha se falado tanto em “inclusão” quanto na atualidade (e o conceito se emprega desde a questão econômica até situações particulares e afetivas), não existe, de fato, um “modelo inclusivo” a não ser em uma ideia utópica. E, mesmo como utopia, é difícil perceber de que modelo pudesse tratar-se. O que seria, então, um “modelo inclusivo”? De que ideias de “social” estaríamos falando ao usar o termo? Quero dizer que, tratando-se da ideia inclusiva, a utopia nem sempre é bem vinda ou relaciona-se com ela amistosamente. Desejaram-na claramente os que pretendiam reformar o mundo, tais como os anarquistas do séc. XIX ou até mesmo os socialistas que, a despeito das chances obtidas no séc. XX, não puderem evitar que o “social” e o “econômico” acachapassem-nas, mas a ideia inclusiva não traduz necessariamente um desejo social por reforma nas relações sociais. Pelo contrário, ela diz mais respeito a melhorar-se as condições do mundo tal como ele é. O mundo capitalista, evidentemente. O mundo dos mercados. Este mundo.

Se no centro do modelo social da deficiência reside o conceito de desvantagem social, a ideia inclusiva pode ser interpretada, grosso modo, como a ação social e política capaz de reduzir a desvantagem experimentada pelos indivíduos em suas relações com o “social”. Pelo menos no que diz respeito às pessoas com deficiência, o desejo inclusivo muitas vezes dirige-se tão somente a promover e garantir direitos civis elementares aos indivíduos, como o direito de ir e vir e outros direitos fundamentais, além da equalização de oportunidades. No entanto, como o “social” não é uniforme e se apresenta individualmente em condições diversas, incluir-se no “social” às vezes pode ser uma experiência bastante distinta entre pessoas que tenham inclusive a mesma deficiência, seja ela física, sensorial, intelectual ou múltipla. Um modelo inclusivo uniforme, portanto, apenas seria capaz de atender às diferentes necessidades das pessoas se aquele “social” fosse também uniforme, como supostamente ocorreria em um regime socialista, por exemplo, ou em um pleno Estado de bem-estar social. Nada do que temos em vista. Em uma sociedade cada vez mais organizada pelos mercados e pela capacidade de acesso ao consumo, um modelo único – assim como um conjunto de demandas únicas – não pode ter outra característica a não ser o de expressar um desejo hegemônico superveniente, sem entrar no mérito de sua representatividade política, que pode atender a um contingente maior ou menor de pessoas, mas visa a princípio os próprios interesses sociais.

Via de regra, modelos resultam mais da proposição a priori dos pressupostos de uma teoria do que de um diagnóstico abrangente da realidade. É assim com os modelos propostos nas ciências exatas, nas ciências aplicadas, como a economia, e no ambiente social de um modo geral. Como então um modelo poderia explicar situações que escapam às suas variáveis ou de pessoas que não vivem em seu âmbito e ethos? A verdade é que não explica. E, muitas vezes, parece que se está procurando explicar a trigonometria com gramática, ou seja, aplicar-se um modelo pode servir muito bem para reduzir ou empalidecer as características da realidade, embotá-la ou fazer parecer ao que se quer mostrar. Se o esgotamento de modelos é verificável tanto para paradigmas científicos, para os modelos teóricos sociológicos quanto para os modelos de aplicação econômica, por que razão estudiosos e ativistas do movimento social de pessoas com deficiência então aferram-se tanto ao modelo social?

Analisando-se o movimento de emancipação das pessoas com deficiência no séc. XX, é possível perceber que o modelo social é uma proposição recente, afirmado na década de 70, nascido em uma nação desenvolvida como a Inglaterra (2). Antes disso, pessoas com deficiência ocupavam o espaço público de maneira bastante restrita, em espaços não públicos, mas à parte. A pessoa com deficiência, além de arcar com as próprias dificuldades, via-se na situação de não encontrar receptividade no “social”, mas de receber unicamente uma atenção assistencial ou até mesmo clínica. Trata-se do bem conhecido modelo médico-assistencial, ainda hoje bastante vinculado às instituições filantrópicas ou religiosas. O modelo social, dito resumidamente, pode ter sido mais importante por afirmar o desejo das pessoas em romper com o modelo predominante do que por surtir efeito no “social” propriamente dito, haja vista as grande dificuldades ainda presentes mesmo em nações desenvolvidas quanto à acessibilidade, autodeterminação e até mesmo na dignificação das condições de vida. Sua influência cultural consequentemente se sobressairia à política.

Um modelo social, portanto, que cristaliza o “social” para conformá-lo em sua metodologia analítica, aos poucos vai desvinculando-se da realidade, porque justamente a característica do “social” é permeabilizar-se às variações da cultura, da economia e conformar-se em múltiplas e por vezes discordantes realidades. Se, como adverte a filósofa alemã Hannah Arendt (3), “a condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem” e que “os homens são seres condicionados, ou seja, tudo aquilo com a qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência”, é simples concluir que uma vida que se dá em meio a severas privações, por exemplo, não irá desenvolver-se com o mesmo potencial de outra onde as carências são menores ou inexistentes. Assim, embora em muitas sociedades os poderes de Estado respondam satisfatoriamente pelos equipamentos públicos e por um sistema mínimo de garantias, cada vez mais – pelo menos nos estados liberais modernos – quem supre as demandas e serviços de interesse público são iniciativas de mercado. E, nas sociedades modernas, como se sabe, privado e público nem sempre encenam uma dança concatenada.

Por essa razão, cada vez mais distantes de uma realidade onde preponderasse um modelo social baseado na presença do Estado, a época presente poderia ser caracterizada por um “social” que bem poderia ser chamado de “modelo de mercado”. As implicações para a vida das pessoas com deficiência de uma realidade organizada em uma sociedade de serviços autorregulada, entretanto, não guarda maiores diferenças para as demais pessoas. Ao contrário do às vezes excepcionalizante modelo social, no modelo de mercado não há espaço para exceções. Em sua lógica, todos são consumidores. No Brasil contemporâneo, a situação não é diferente.

Ainda que, analisando-se dados oficiais, perceba-se que no Brasil a maioria da população (82,8%), por exemplo, seja usuária da educação pública, a distância vem diminuindo na razão de cinco pontos percentuais a cada quatro anos, de acordo com Censo Escolar. Em relação aos serviços de saúde, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD, o Serviço Único de Saúde – SUS, responde por cerca de 70% dos atendimentos. Mesmo no Brasil recente, onde experimentou-se um incremento na capacidade de consumo das classes médias e baixa, a situação é conflitante.

Uma vez que seria presumível que o governo atual fosse resguardar o investimento em setores sociais, a realidade é que, no frigir dos ovos, cortes nos investimentos sociais, através dos orçamentos ministeriais, demonstram que a parcela da sociedade que depende dos serviços públicos se encontra, do ponto de vista político, bastante desabrigada. Desde o início de 2015, com o agravamento da crise econômica, o Ministério da Educação foi dos que mais sofreram cortes orçamentários. Além da educação, saúde e verbas destinadas às administrações municipais lideram cortes nos ajustes propostos, conforme divulgado e amplamente noticiado na imprensa nacional. Evidentemente, as condições dos serviços públicos dependem diretamente da vontade política dos governantes, além da capacidade de investimento dos cofres públicos. Deste modo, ao invocar-se o “social”, jamais deve-se esquecer que é deste “social” a que se deve referir e não a outro, puramente teórico.

Se a organização do “social” tem estreita relação com o Estado e em boa parte dele é dependente, sua precarização tem efeitos imediatos entre a população, especialmente entre a classe média e baixa. Não custa lembrar que na experiência individual não existem hipóteses, mas realidades. Como diz o Prof. Michael Sandel (4) e todo mundo mais ou menos sabe, “numa sociedade em que tudo está à venda, a vida fica mais difícil para os que dispõem de recursos modestos”. Alguém que necessite de tratamento médico não irá satisfazer sua necessidade sem esse atendimento. Da mesma forma, um aluno com deficiência apenas usufruirá desse direito ao encontrá-lo em condições minimamente dignas, no qual seja possível pelo menos frequentá-lo.

Tratando-se das condições onde desenvolver o potencial de pessoas com deficiência – estou falando obviamente da educação – a situação presente não é nem um pouco animadora. No âmbito público, dados do Censo Escolar de 2014 dão conta de que apenas 24% das escolas públicas no Brasil oferecem condições de acessibilidade para o ir e vir de alunos com deficiência. Além disso, outros dados a respeito do ambiente escolar, como a carência de recursos adaptados, serviços e até mesmo equipamentos básicos como bibliotecas e ginásios conformam um cenário preocupante, onde se desejava um serviço público em melhores condições. Por outro lado, a situação dos serviços privados não é muito alentadora e, se a política econômica presente visa oportunizar cada vez mais acesso aos serviços privados, isto não significa que o mercado terá investido antecipadamente em qualidade, mas em organizar-se para atividade lucrativa, sua razão de existir. Não é à toa que usuários de planos de saúde privados figuram entre os serviços privados com maior número de ações judiciais e reclamaçãoes no Brasil atual. Ao tempo em que se precariza o serviço público e a parcela da população consumidora dirige-se ao mercado, o próprio mercado reage setorizando-se e escalonando-se, atendendo a população não com base em seus direitos, mas em sua capacidade de crédito e endividamento.

Recentemente, ao vetar dispositivos da Lei Brasileira de Inclusão, instrumento legal que tramitou longamente no legislativo (cerca de quinze anos) para organizar um sistema mínimo de proteção de direitos das pessoas com deficiência, o governo federal deu novas amostras do quanto está comprometido em afastar-se de um mínimo Estado de bem estar social. Isto pode ser verificado tanto pela anulação de políticas afirmativas, como a garantia de reserva de 10% das vagas no ingresso educacional, quanto por deixar por conta da iniciativa privada e do setor da construção civil a opção por seguir ou não os princípios do desenho universal. Quanto à educação, a opção governamental foi a de, “por contrariedade ao interesse público”, segundo a mensagem da Presidente Dilma Rousseff, conceder bolsas integrais dentro do âmbito do Programa Universidade para Todos – PROUNI, ou seja, na iniciativa privada.

Este afastamento, todavia, repercute em todas as esferas sociais, uma vez que todas as pessoas deverão adequar-se ao modelo, cada qual em suas possibilidades. Uma política francamente neoliberal. Desejar-se fornecer explicações desde o modelo social para pessoas que a, bem da verdade, estão subordinadas na realidade a um modelo de mercado, requer de pronto uma flexibilidade que o modelo social não dispõe, pois se está claro que ele servirá muito bem para identificar situações problemáticas, de outro lado o mercado terá garantidas suas prerrogativas e liberdades, ainda que deva subordinar-se a um regramento legal que, se não fiscalizado, permitirá que seu funcionamento se dê de forma bastante comprometida. E os efeitos disso não são difíceis de imaginar quais sejam.

Em uma sociedade e tempo social dinâmicos como os atuais, está claro que nem toda as parcelas da sociedade dispõem de meios para fruir (ou arcar com os custos) de seus direitos e liberdades, ainda mais que ao mercado tem-se entregue a determinação de suas próprias condições de funcionamento. Ao posicionar-se como um país que abre mão de investir em serviços públicos de qualidade e que não provê à cidadania garantias de que os serviços privados sejam cumpridos e fiscalizados a contento, é bem possível que em muitos casos os indivíduos vejam-se na situação de lidar com seus direitos como se mercadorias fossem. Quero dizer com isso que um modelo de mercado exige necessariamente um Estado vigilante, sob pena de que a população – especialmente a população mais pobre – tenha de sujeitar-se às variações inerentes ao próprio investimento da livre iniciativa. E o que o modelo social da deficiência pode indicar, nessa situação, além de indicar que o “social” foi privatizado e os direitos civis conformados às lógicas do próprio mercado? Infelizmente, muito pouco.

É notório que, por tratar-se de um país continental e permeado por ampla desigualdade socioeconômica, no Brasil contemporâneo subsistam diversos modelos de compreensão e atenção à deficiência. Isso vale desde o modelo assistencial, representado pela rede filantrópica presente em quase todo o país, pelo social, que é predominante nas políticas públicas de diferentes esferas e nas abordagens acadêmicas e, por último, pelo de mercado, responsável por dar conta da especiação da sociedade de serviços e regular as relações individuais na sociedade capitalista. Ocorre que, em suas relações com o mercado, pessoas com deficiência provarão de muitas dificuldades, principalmente de ordem econômica, como restrições, abusos e outra situações comuns em relações desiguais. Isso pode ocorrer desde em serviços básicos como os educacionais ou os de saúde, bem como em relações de consumo especializado. Também é bastante possível que pessoas ora abrigadas no modelo assistencial e em instituições filantrópicas, ao serem dirigidas a serviços públicos depauperados, contribuam sensivelmente para o dissenso da ideia inclusiva como um todo, porque sua capacidade de investimento é limitada e a ausência de políticas compensatórias dificulte sua relação com uma sociedade de serviços nem um pouco acessível.

O trânsito da ideia inclusiva, em um mundo por um lado regulado pelo mercado e por outro conformado a serviços públicos insatisfatórios é, portanto, por si só causadora de diversos impasses de ordem pública. E se o Estado indica como prioridade retirar-se da esfera de serviços públicos e sociais, com vem fazendo há cerca de vinte anos no Brasil, desde a sanção da Lei de Organizações Sociais (5), em 1998, a situação torna-se ainda mais contraditória, pelo menos no que diz respeito às pessoas com deficiência, quanto ao que pretende e reserva, uma vez que esvazia-se e encolhe dia a dia.

A complexidade do “social” contemporâneo ou da contemporânea “sociedade de mercado” possivelmente seja cada vez menos apreensível em modelos estruturados e as opções políticas cada vez menos distinguíveis. Entretanto, mais do que autoaplicar ou buscar guarida em um outro modelo, as pessoas comuns continuam a necessitar de soluções pragmáticas para seus problemas cotidianos e, à medida em que se deterioram as condições econômicas, o fenômeno que prospera é o da exclusão, da fragilização do acesso individual ao mercado, seus produtos e serviços cada vez mais disseminados. A opção por agir politicamente em um modelo social, mas sem investir no “social” e prover-lhe de condições concretas para atender um contingente populacional imenso é de um risco imponderável, colocando-se a vida das pessoas em situações de insegurança social. Tampouco agir consertando o mercado é tarefa que o Estado vigente parece desejar ou ter condições de perseguir, haja vista a irrefreável frustração decorrente das relações de consumo, experiência mais que comum e disseminada.

A questão então talvez não seja a de encontrar-se um modelo único em uma sociedade notadamente multiversa, mas de evitar em tempo hábil que o esgotamento de qualquer modelo inutilize o que nele mesmo possa haver de positivo, seja sua capacidade de diagnóstico, de assistência social ou de consertação econômica. Para isso, antes é preciso compreender o tempo social de cada indivíduo e grupo social e favorecer seu “pertencer” ao tecido social de modo que a ideia inclusiva não se torne daqui em diante apenas um convite à exclusão dos mercados. Se o papel da sociedade e dos distintos grupos sociais restringir-se a apenas olhar para as próprias necessidades e demandas, talvez para a utopia inclusiva esteja sendo utilizado um fermento equivocado. Sem compreender o “social” e ao adotar soluções standard, nos tornamos de fato mais iguais. Porém nunca é demasiado lembrar que no Brasil (talvez no mundo inteiro) o consenso social imperativo é o de que, pela lei, todos sejam iguais, mesmo que na prática todos saibam que essa é uma falácia que já não causa graça e o que a reprodução indefinida e rediviva dessa cultura nos tem custado enquanto sociedade e nação.

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Referências

(1) BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 119 p.

(1) BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. São Paulo: Zahar, 2008. 199 p.

(2) DINIZ, Débora; BARBOSA, Lívia; SANTOS, Wederson Rufino dos. Deficiência, direitos humanos e justiça. São Paulo, Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos, n. 11, p. 65-78

(3) ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

(4) SANDEL, Michael. O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 237 p.

(5) GOHN, Maria da Glória. Movimentos Sociais e Redes de Mobilizações Civis no Brasil Contemporâneo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

De quantos bodes expiatórios precisa a educação brasileira?

cabrinhas

Desde a divulgação dos mais recentes dados do ENEM – e isso me ocorre a cada vez que se divulgam índices e resultados educacionais de um modo geral – tenho pensado que a educação que se oferece aos alunos tem formado mais brucutus que gênios. Se somarem-se ao cômputo os números da evasão escolar, então, o que temos é o suficiente para demonstrar que estamos diante de uma calamidade, mas de um tipo que ninguém se importa mais. O cenário de destruição talvez fosse propício, portanto, para que se investigassem as causas disso, mas a opção mais fácil e corriqueiramente adotada reside em desviar o foco para uma metodologia tão simples quanto antiga: encontrar o bode (ou bodes) expiatório ideal em quem depositar a culpa de termos uma educação tão ruim, seja qual for seu âmbito, pública ou privada.

Na última semana, a CONFENEM – Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino voltou a apontar o dedo em direção a quem muitas vezes antes já havia indicado como o seu bode expiatório ideal.

Ao ingressar com ação de inconstitucionalidade no STF visando impedir a aplicação da Lei Brasileira de Inclusão, que determina – constitucionalmente – que aos alunos incluídos não recaiam mais ônus do que já têm de arcar (pois os custos de educar um aluno com deficiência chegam a ser três ou quatro vezes maior que os alunos sem deficiência), sugerindo que a obrigação de educar estes alunos seja exclusividade do poder público e que os custos do negócio sejam debitados individualmente diante de uma situação que não é individual, mas social, é de pensar seriamente se há princípios constitucionais e estado de direito ainda em vigor no Brasil, dadas as características e o terrorismo embutidos na situação.

A questão de agora em diante será entender se os ministros do STF também farão dos alunos com deficiência o bode expiatório de uma sociedade pouco afeita à diversidade ou tomarão outro tipo de decisão. A oportunidade de reverter definitivamente essa compreensão errônea e parcial e consolidar a Lei Brasileira de Inclusão, bem como a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e os direitos humanos mais elementares, é ímpar.

As escolas, se oferecerem uma educação digna e honesta e investirem em melhorar a educação de todos, perceberão que podem ser mais do que fazendas que selecionam cavalos de corrida e bodes expiatórios. E que tanto os alunos com aptidão acadêmica quanto os mais corriqueiros (e mesmo os piores entre eles) têm a contribuir com a comunidade, cada um a seu modo, além do óbvio direito de estar ali.

Mas porque se procura chegar repetidamente a essa solução? A resposta para a questão é complexa, envolve a estrutura escolar, os custos, medidas de gestão, política pedagógica e, também, as demandas familiares. Nos últimos anos, uma crescente demanda por atendimento individualizado tem chegado aos tribunais de todo o país. São pais que, diante da constatação de dificuldades no processo de inclusão, aderem à medida de invocar a presença de professores exclusivos em sala de aula, quando não são condicionados a isso. Tais profissionais atendem sob diversas denominações, podem ser “mediadores”, “tutores”, “professores auxiliares” ou o autoexplicativo “professor exclusivo”.

É contra a presumível onerosidade decorrente da adoção de medidas assim, a maioria delas previstas em lei, que a CONFENEM moveu sua ação. Mas não é só disso que se trata. Na ação, a Confederação alega, entre outras coisas, que a obrigação constitucional de atender o alunado incluído recairia exclusivamente ao Estado. Trata-se de uma visão nitidamente inconstitucional, especialmente depois de que o Brasil adotou com efeito de norma constitucional a CPCD, que preconiza o sistema educacional geral como inclusivo, o que a LBI, questionada no Supremo pela Confederação, visa regulamentar, justamente ao vedar cobranças extraordinárias dos alunos com deficiência incluídos nas escolas regulares privadas. É uma postura recorrente da Confederação que, em outras ocasiões, manifestou-se da mesma maneira.

Dessa forma, temos que nenhum outro aluno, com outro tipo qualquer de dificuldade, e há talvez mais de uma centena delas, poderia casar tão bem com o papel de bode expiatório da educação e seus problemas como o aluno com deficiência intelectual.

Coincidentemente, na mesma semana alguns alunos denunciaram o que muito bem poderia chamar-se de “discurso do ódio”, tão presente na atualidade, dirigido por uma professora universitária aos seus alunos, em ambiente escolar. Trata-se de uma professora que, segundo denúncia veiculada pela ONG Movimento Down, teria comentado “sobre a série do Fantástico, Qual é a diferença?, que estreou no domingo passado, dia 9, e é apresentada pelo Dr. Drauzio Varella e pelo ator e judoca Breno Viola, a professora teria dito que as pessoas com a síndrome são horríveis e que não é normal mostrá-las na TV.” Além de gratuita, a declaração demonstra que ainda muito há para ser feito no sentido de melhorar as condições morais do ser humano, como é fácil perceber.

Vendo assim, os “horríveis” alunos com deficiência não seriam apenas causa dos problemas educacionais como pessoas que servem muito bem para dirigir-se uma dose descomunal de ideologia, especialmente uma que deveria a esta altura da História estar suplantada, e insiste em classificar os seres humanos entre aptos e não aptos. Entre lindos e horrorosos. Entre melhores e piores. Ou, ainda, como cavalos de corrida e bodes expiatórios.

A CONFENEM, nesse caso, atua não somente em função de proteger os estabelecimentos de ensino, mas também de chancelar uma ideologia muitas vezes compartilhada com as próprias famílias de alunos com deficiência. A despeito de que muitos alunos necessitem realmente de atenção individualizada, a disseminação da prática conforma uma situação paradoxal.

Por um lado, ao destinar um acompanhante permanente, a escola livra-se do encargo pedagógico de construir uma estrutura que atenda um coletivo repleto de particularidades, assim como buscar recursos pedagógicos adequados a muitos alunos com dificuldades, diga-se de passagem não exclusivamente os alunos com deficiência.

Por outro, as famílias que se veem acolhidas nessa política de “professores exclusivos” deixam de demandar essas mudanças de fundo, que beneficiariam a todos os alunos, inclusive os próprios filhos. Por sua vez, chancelam igualmente um modelo de educação que cumpre geograficamente a prática inclusiva, mas não conceitualmente, ou seja, o modelo continua o mesmo, meritocrático e distintivo, com a diferença de que os alunos incluídos nele são aceitos mediante a condição de que as famílias arquem com os custos, e é este o principal fundamento da ADIN proposta ao STF na última semana.

De fato, os alunos com deficiência podem casar com a imagem do bode expiatório, mas há muitas práticas sociais colaborando para isso. Nada que justifique excluí-los do sistema de educação ou praticar crimes que já existiam mesmo antes que a Lei Brasileira de Inclusão fosse sancionada. A ideia da CONFENEM é, portanto, tentar matar “o mal” pela raiz, não importando-se, por sua vez, em praticar males de outra espécie. O STF está aí para  averiguar o que é cabível no séc. XXI e consolidar em definitivo a legalidade de um processo educacional ainda capenga e com resultados muito ruins, porém o único disponível.

Dessa educação que forma mais brucutus que cidadãos, portanto, o que se deseja é que melhore para todos. Mas, com a presença do bode expiatório, cria-se o substrato ideal para soluções parciais e a disseminação da ideologia abilitista, por outro lado.

Um dos mais clássicos enganos difundidos sobre a inclusão escolar de crianças com deficiência, principalmente a deficiência intelectual, é de que o principal objetivo a visar-se seria o de transformar o aluno num sucesso acadêmico ou, no jargão dos pátios escolares, num nerd. Ou, então, que seu ganho na escola fosse meramente “social”. Ledo engano.

Um aluno incluído pode muito bem ter como objetivo transformar-se num brucutu, destino que muitas vezes não o diferenciaria tanto assim do restante do alunado. E não estou sendo irônico neste ponto, mesmo que a ironia neste caso fosse apenas um recurso discursivo apelativo por atenção, tendo em vista a grande indiferença que cerca o assunto por quem não o vive e a consequente detratação política e institucional.

Pois então, todo e qualquer aluno pode ser um brucutu e a educação tem sido pródiga em formar cidadãos assim, mas ai do aluno incluído que transformar-se porventura num deles. Ele terá o estigma mais cruel entre todos os scholar losers, cultura importada que se espalha viroticamente no ambiente educacional brasileiro. Ele será o intratável por excelência. O ineducável. O irascível. O que atrasa a turma. O insuportável bagunceiro que foge da disciplina, como se ninguém mais o fizesse. O que exige adaptações enquanto para os demais basta a condenação tácita dos exames de recuperação ou uma eventual reprovação. O culpado dos baixos índices na Prova Brasil, índice PISA e todos os demais critérios válidos de um sistema de educação que casualmente seleciona 15% dos alunos e os demais empurra, via evasão, ao subemprego ou para “fora do páreo”.

Poderia existir bode expiatório mais adequado?

Todos podem ser brucutus, exceto o “bode”. Todos podem esquecer a educação que talvez tenham tido em casa e agredir professores, não cumprimentar funcionários, tratar os colegas aos trancos e barrancos. O “bode”, não. Ai do aluno incluído que não se der bem, ele será o “bode” perfeito para que as escolas criem mais e mais subterfúgios para que outros bodes não sejam admitidos, se bem que às vezes seja muito conveniente ter um para jogar as culpas do fracasso educacional geral. Muitos “bodes” juntos, entretanto, é tumulto certo, razão pela qual se impõem ilegalmente limites numéricos a sua presença no coletivo, ou seja, em sala de aula.

Se ele tiver dificuldades apenas elementares e habilidades que o credenciem para as habilidades acadêmicas (e isso é tão variável quanto uma paleta de cores), o estrelato está garantido e qualquer escola das que exigiram ilegalidades para que ele pudesse estar ali não hesitará em coroar-se pelo êxito. Caso contrário, será apenas a confirmação do que já se sabia. O “bode” não aprenderia. Porque todos podem ter o direito de bagunçar, cabular aula, colar à vontade, decorar fórmulas que serão esquecidas no segundo dia depois da formatura, mas o “bode” – pobre “bode” – o “bode” não.

Da escola regular muitas vezes se esperam os piores alunos, especialmente se a escola for pública e situada numa região pobre de uma metrópole (não precisa ser metrópole) qualquer. Na visão da elite econômica, representada por um sem número de instituições, é o lugar perfeito para os bodes expiatórios da inclusão, porque ali não se espera resultado positivo de ninguém e se a vaca (eu e minhas metáforas animais) for para o brejo, ninguém nem notará a presença do “bode” na manada.

À educação pública, com investimentos cortados de cima a baixo, no Brasil infelizmente imaginou-se cumprir essa função, a despeito das promessas eleitorais eternamente adiadas em orçamentos nunca levados a efeito. A educação pública é, por sua vez, o bode expiatório do sistema educacional e da sociedade. Normalmente apontada como culpada, quando evidentemente padece pelos efeitos últimos de políticas extraviadas de uma sociedade cujos cidadãos, todos eles, mereciam outra qualidade de serviços pelo tanto que depositam compulsoriamente nos cofres públicos. Mas claro que pedir educação pública de qualidade é o limite insuperável destes tempos. O que o país tem ganhado com isso, com essa miopia, é, para mim, mais misterioso que as teorias da física quântica ou a existência de Deus. Fato é que há muitos bodes expiatórios para continuar justificando-se o injustificável. Com um “bode” desses na sala, afinal quem precisa se preocupar com os problemas dos outros?