Malgrado a lua cheia

Chegamos ontem de fora. Nunca mais voltaremos lá, eles disseram. O pai já tem a saudade dentro dos olhos que eu vejo, qualquer um vê. A mãe tem esperança e vive a clamar por ela. E nós, crianças, viemos porque nos ordenaram. Mas parece que tudo isso há de ser bom. Uma nova vida. Vamos finalmente ao colégio e aprenderemos a fazer contas direito, sem precisarmos mais das contas de osso dos arreios. E ler e escrever, porque as lições da tia Anastácia mal dão para ler gibi, apesar de que, pelo menos no julgar da mãe, foram um bom começo.

A casa é boa, novinha. O pai gastou acho que até o casco das vaquinhas para construí-la. E eu e o mano ajudamos em tudo o que pudemos. Carregar tijolo, fazer a massa de cimento e todo o trabalho de pá fomos nós que fizemos. Pedreiros mesmo foram o pai e o tio Antônio, que veio antes e foi quem os convenceu a segui-lo, para trabalhar com ele na construção; ele e a tia Janjona, com certeza. Todo esse lado da cidade, se entendi bem, antes fora um banhado e, com cargas de pedra e terra e socador, aplainaram tudo. Veio o conjunto de casas; dentre as quais, a nossa.

Como o tio Antônio sempre tem razão em tudo o que diz, bastou o aceite da mãe para ele se convencer ainda mais rápido e logo ela começou a desfazer-se das coisas que não queria mais ver pela frente. Trastes de couro, latas, plásticos, caixinhas e caixotes, tudo foi queimado numa fogueira imensa; salvaram-se as roupas apresentáveis, segundo o seu juízo, para nós e os filhos das comadres incrédulas, mais as panelas, louça, talheres e os quadros da família do pai que decoravam nosso rancho, além da imagem do Sagrado Coração de Jesus, benzida sei lá por quem, mas a quem ela destinava rezas e promessas quando as coisas não iam bem e isso era, nos últimos tempos, mais do que frequente. Por isso viemos. Chegamos ontem de fora e, por enquanto, só o pai mostra um pouco de desassossego e abandono, mas sem dar um pio. Mostra só pelo modo de olhar e no silêncio de quem toma o mate ainda do mesmo jeito, repassando mentalmente a lida, sabe-se lá de que jeito ou por quê.

Eu não penso que seria melhor ter ficado e nem aposto todas as minhas fichas que vai ser um folguedo, mas vou procurar viver cada dia como se fosse único e tratar de buscar com o que me entreter quando largarem um pouco de mim. Que mais poderia me ocorrer?

Nos fundos da casa há um arrabalde, um pátio abandonado de uma casa do bairro antigo virada em tapera, onde já vi que tem jogo de bola, mas só vou lá com permissão, que não se pense coisas a meu respeito. Respeito, aliás, é o que a mãe disse para eu nunca esquecer, mesmo quando eu mal entendia o que isso poderia ser, mas pressentia que tudo se resumia em ficar quieto e obedecer, que o resto nunca era coisa de criança. E responsabilidade também era outra palavra de que ela gostava muito e eu entendia como podia sobre o que é certo e o que não é, apesar de que, de acordo com ela, isso deveria depender apenas de mim mesmo.

Acho que a nossa casa nova é pequena, mas que é melhor do que a que tínhamos antes não resta dúvida. Nosso rancho na campanha era mais espaçoso, mas cheio de frinchas. Ali os chupões gostavam de dormir e o medo de pegar doença sempre estava no rol de rezas da mãe, que contaminou dos próprios medos as gurias, se bem que guria é sempre meio fiasquenta mesmo. Instalar a cozinha nos fundos da casa não agradou a mãe, que gosta de bombear o movimento, mas ela vai se acostumar, é o que diz o tio Antônio. A mana diz que ele fala isso para tudo e chora escondida sem razão aparente. Anda assim desde que chegamos, a pobrezinha. Acontece que decisão é decisão e não há mais o que se possa fazer. O tio não sabe consolá-la e diz coisas horríveis sobre viver na miséria e outras barbaridades. Quando exagera, o pai intervém: “Mas já não estamos aqui? Pra que tudo isso, che?”

Quem é que quer viver na miséria? Que eu saiba, ninguém. Por isso viemos. Chegamos ontem. E agora, como é quase noite, no arrabalde a gurizada já está jogando bola. Sem jeito, peço ao pai para ir até lá. Ele parece ficar pensando, mas não tanto e deixa que eu me vá, desde que volte antes de cair a noite cerrada e que leve o Miguel comigo e tome conta dele.

São quatro guris jogando uma bola meio murcha, feita de um couro grosseiro, mas melhor que todas as bolas de meia ou esterco de vaca com que nos virávamos lá fora, em partidas que sempre se esfarelavam em guerras campais. Encostei-me no muro e, longe, para dentro do pátio, vejo que no fundo do arrabalde há árvores crescidas, pereiras e não sei que outras. E um casarão em ruínas, com as paredes pela metade. É bem lá no meio dele que, depois de um chutão de alguém, a bola vai cair. Os outros guris se exclamam puta merda e puta aquilo, mas ninguém se apresenta para ir até lá; eu e o Miguel nos aproximamos e eu me ofereço para ir lá buscar a bola. “Deixa que eu busco!”, falei. Os outros ficaram quietos, mas o maior deles, ainda assim menor um pouco do que eu, foi quem me alertou: “Dizem que lá tem fantasma, uma mulher velha que, Deus o livre, é horrorosa e prende quem vai até lá.” Eu me ri da conversa do outro. “Que nada. Vou lá e já volto”, anunciei e disse ao Miguel para que ficasse com eles. Em coisa de um instante eu estaria de volta com a bola perdida.

Claro que lá não tinha nada mesmo, só uma casa velha com umas madeiras destruídas no chão, resto de piso e vidros quebrados, mas a bola mesmo eu não consegui encontrar. E procurei tanto quanto pude. De longe, de repente notei que o Miguel não estava mais com eles e então fiquei pensando no que deveria fazer: se continuava procurando a bola entre os escombros da casa para exibi-la como um troféu ou se corria para ver onde se enfiara o maldito guri. Antes de me decidir, resolvi procurar mais um pouco. E um pouco mais. E o tempo foi passando e a noite foi caindo. De repente, já não havia mais luz o suficiente para procurar o que quer que fosse e decidi voltar. “Onde está o maninho?”, perguntei a eles, embolados perto da cerca que divisava o campinho improvisado junto ao arrabalde da tapera. O maior deles, de novo, foi quem veio falar: “Ele se foi. Saiu correndo e eu é que não ia sair atrás dele. Nem sei onde vocês moram…”. Sem apresentar-me nem jogar um instantezinho que fosse, saí correndo atrás do Miguel. Deus me livre se algo lhe acontece, a tunda que eu vou tomar…

A noite já caíra e a hora de estar em casa já estava quase passando. Talvez o Miguel estivesse já com eles ou brincando com as gurias na frente de casa, mas ele nunca fez isso comigo, sempre me esperou para tudo. Desgraça de guri! Onde se enfiou essa merda de guri?

Estivesse onde estivesse, eu não voltaria para casa sem ele. Pensei em fazer a volta pelos fundos das outras casas, atravessar o cercado dos pátios e ir conferir se ele estava lá dentro ou não, mas a cachorrada não deixaria que eu me aproximasse em silêncio. E pensei também no pior, como não pensaria? E se um carro ou caminhão tivesse pegado ele de frente? Mas aqui mal passa carroça, ainda mais a essa hora da noite, isso não pode ser… Vou chegando pela rua de terra, pulo a valeta dos esgotos e, ao longe, vejo na porta da casa o pai sozinho, tomando o mate no seu mochinho enquanto a mãe, decerto, apronta a janta com as gurias; nada do Miguel por lá, pelo jeito. Como fui deixar uma criança pequena como ele sozinha, com estranhos? Agora está perdido sei lá onde; agora estou perdido também… Melhor que eu me suma no mundo… Que sei eu do que vai ser de mim se volto para casa sem ele e se ele nunca mais aparece… O pai não vai me matar, mas nunca mais fala comigo. A mãe me perdoa porque seu coração é grande e medroso demais para me esconjurar da própria vida. As manas eu nem sei, aquelas choronas. Por que não trouxe uma delas para botar o Miguel a cabresto, como fazíamos aos cavalos quando brincávamos lá fora, todos juntos, na taipa do açude, de açular tachãs e maçanicos?

Sem ideia mais nenhuma do que seria a minha vida nesse lugar de desgraça, pensei em fugir ao tio Antônio, mas também me faltava coragem. Acho que nunca mais ergueria os olhos para ninguém, envergonhado até o fundo dos ossos. Orgulho da minha coragem também não me serviria mais para nada. No fundo, eu era só mais um covarde. O covarde que perdeu o irmão para se aparecer em um jogo de bola de estranhos de quem nem o nome sabia direito. Um merda legítimo. Por que vou viver com isso na minha vida? E que fedor é esse que sobe da água que vai por essa sanga? Podridão? Esgoto? Quem sabe me atiro aqui dentro e causo uma tragédia na vida da família inteira, que chegou ontem de fora, cheia de esperança para uma vida nova na cidade?

De repente, entendo que não posso fazer nada e devo ir para casa e mostrar minha cara estúpida para a mãe e para o pai e receber deles o que eles julgarem certo, nada mais que isso, mesmo que seja uma sova com o rabo-de-tatu que, com certeza, o pai não jogou fora. E lembro-me do Miguelito aprendendo a cavalgar ao meu lado, no petiço gateado e de como gostava de galopear nas minhas costas, brincando e rolando no pasto, fosse de dia ou de noite. Sento-me numa pedra ao lado do sangão, apesar do fedor tremendo, e minhas lágrimas caem misturando-se em sabe-se lá o que corre ali dentro, embora o aspecto não deixe muitas dúvidas, malgrado a lua cheia. Mas então sinto aquelas mesmas cócegas de sempre por baixo dos braços e penso que não pode ser quem parece ser, mas felizmente é justamente quem é. É o Miguelito. E eu nem preciso virar a cabeça para conferir que é ele mesmo.

Chorando quase a soluçar, abraço-me nele, gordinho como sempre. “Que foi? Pra que tudo isso?”, ele pergunta. Vejo que tem nas mãos dois caniços finos e compridos de taquara. “Nada, desgraçado… Onde te enfiaste? Fugiu de mim por quê? Por que não esperou, filho de uma égua?”, emendei perguntas no coitadinho. “Eu fui buscar os caniços, não vê? Olha essa lua cheia lá em cima… A gente nunca perdeu uma assim…”, disse daquele jeito ainda meio desengonçado de criança pequena. Enxuguei o rosto para que ele não percebesse que eu chorava e peguei o meu caniço das suas mãos, pouco maior que o dele. Ele trazia moscas e pedaços de minhoca para isca de lambari e jogamos juntos as linhas naquela água duvidosa. De onde estávamos, via-se a luz apagadiça da porta da nossa casa nova e o vulto do pai ainda sentado ali na frente, tomando um mate a essa altura já bem lavado, não duvido. As manas estavam para dentro, provavelmente ajudando em alguma coisa ou tentando ajustar a TV nova, presente do tio Antônio e da tia Janjona, ai que ela me escute dizer seu nome assim. É Maria das Graças, por gentileza… O Miguel me cutucou de lado, sem dizer uma palavra e perguntei: “O que foi?”

“Não vamos voltar mais lá mesmo?…”, perguntou. Quando eu ia responder qualquer coisa, nem imagino o que seja, ouvimos o grito da mãe, em pé na soleira da porta, “José! Miguel! Olha a janta!” e corremos para junto do pai sem um lambari sequer nas mãos. Ele colocou o Miguel no seu colo e, olhando de frente para mim, com aqueles olhos que ainda não aprenderam a esconder a melancolia, ofereceu pela primeira vez um mate, que não é brinquedo de criança, segundo o seu costume. Parei quieto ao seu lado, acocorado. Ele perguntou: “Jogou, entonces?”.

“Capaz… Fomos pescar nesse arroio daqui, mas não tinha peixe, só bosta”, e rimos juntos até que a mãe veio quase nos puxar pela orelha para ir para dentro e apreciar, pelo menos ali no interior da casinha apertada, o perfume que ela haveria de produzir pelo resto do nosso tempo em São Gonçalo, que só poderia ser muito e bom, afinal chegamos ontem de fora e fez bem rir um pouco depois de tudo o que passei porque não sabemos, ninguém sabe, o que será a partir de amanhã.

Há cinco anos publiquei meu primeiro livro. Um livro de contos que a Ed. Movimento do Prof. Carlos Appel me ajudou a publicar. Vencidos os cinco anos contratuais, assumo de volta os direitos de publicação e reprodução. Há um tempo resolvi que vou reescrever todos os contos e republicar o livro logo mais, com o nome que tinha pensado por primeiro para ele. De “A aposta” voltará a “Interiores”. A reescrita se deve a problemas de revisão e ao meu açodamento habitual, que acabou empobrecendo muitos trechos e contos inteiros, cujas ideias não eram de todo más e que penso em salvar da minha própria negação. São contos em sua maioria rurais, eu prefiro chamá-los assim do que “regionalistas”. De gente pouco opulenta e pouco identificável com esse “gaúcho” histórico que hoje se quer descontruir e até mesmo combater. Enfim, este é o primeiro conto reescrito, chamado “Malgrado a lua cheia”.

O anu-branco

Em madrugadas de primavera chega a parecer que acordo dentro de um conto de João Guimarães. Antes da primeira sirene de ambulância berrar no ar de Porto Alegre, uma sinfonia de aves cantarola, trina, arrulha, assobia, apita, gorgeia e cacareja numa liberdade até desrespeitosa. No breu ainda confiro: são quatro da manhã. Quase sonho que posso ouvir uma queixa de bezerro, ou uma vaca comunicando. Não tem vaca nenhuma, eu sei, mas, se tivesse, não pareceria tão estranho. As aves metropolitanas são músicos desajustados. Integram mesmo a secreta orquestra que executa a mesma sinfonia indiscreta há centenas de anos, indiferente ao que fizemos da natureza, mas com o juízo das horas atordoado, as coitadas. A pandemia aumentou o número de músicos da orquestra e, apesar de me acordarem cedo até para o campo, eu gosto de apontar os cantos que posso distinguir (andavam todos minguando em anos passados). São muitos e sei porque tenho bom ouvido. Na mesma medida sou ruim de nomes, de associar nome e figura. Então não sei quem são direito. Quase sempre me atrapalho, reconheço poucos de nome. Mas mais alto que o melodioso sabiá, num grito selvagem mesmo, o gavionídeo e predador anu branco parece sempre avisar de alguma coisa, na sua trilha de suspense que irrompe como um alarme de dentro do mato. Mas não tem mato (mato queimou). Mas tem, numa agonia de resistir.. Nem que seja dentro de pedaços do seu grito/canto afogueado.

Sci-fi in vivo

Não faz muito acessei minha estação de trabalho remoto aqui de casa. Domingo, isso mesmo. A operação é banal. Basta que eu forneça um endereço de rede, login e senha e está pronto: é como se estivesse em dois lugares, operando simultaneamente dois computadores. Para quem trabalha com recursos de informática, é uma operação trivial, possível há vários anos já. Até a pandemia e a implantação do homework, eu nunca usara o recurso. Nos últimos meses, tem sido a rotina e com muita facilidade acesso atividades e tarefas remotas e as executo como se estivesse in loco.

Entrei para encontrar um texto que estive olhando por alto esses dias. Até onde vi, é dos primeiros artigos que discutem a juridicidade dos algoritmos de navegação para carros autônomos e a questão da responsabilidade penal em danos e acidentes.

O assunto por si só parece estranhamente remoto, como se viesse diretamente de um filme de ficção científica, mas a verdade é que o mundo das normas legais já começa a se preparar para o desembarque desses veículos no Brasil e é necessário que sua tecnicidade seja compreendida e limitada pelo ordenamento jurídico nacional. Será a primeira vez que os automóveis se portarão como robots ou autômatos e o desafio dessa interação é ainda incompreensível em sua extensão. Logo, será mais uma banalidade tecnológica com a qual estaremos lidando como se o mundo sempre tivesse sido assim.

A ideia de que para se ter um robot é necessário um boneco mecânico com cabeça, tronco e membros (ou rodinhas) tem a infantilidade necessária para que não se perceba a dimensão que a tecnologia tomou em nossas vidas. Às vezes eu fico pensando que a robótica sempre foi apenas um jogo de cena, uma cortina de fumaça para a verdadeira revolução tecnológica em curso: a microinformática. Idealizados quase sempre como escravos mecânicos, os robots definitivamente não tem muito a ver com essa imagem, esse clichê.

De um modo ou de outro, o certo é que todos temos vários robots que automatizam tarefas e rotinas para nós, mas de forma que nem percebemos. Um cartão de crédito é um robot, por exemplo, quando ele nos libera da tarefa de ir ao banco, sacar dinheiro, pagar por algum produto ou serviços, receber o troco, conferir e guardar de volta na carteira. Dentro do cartão, um chip coordena todas essas transações e nós já nos acostumamos tanto a isso que banalizamos a complexidade de tarefas executadas por aquele pedaço de plástico.

Tudo o que executa uma tarefa autônoma a nossa vontade, mas seguindo determinadas instruções, pode muito bem ser chamado de robot também. Um elevador. Uma geladeira. Uma televisão. Um computador então nem se fale. Um computador é uma grande comunidade de robots. Ou mais que isso: uma sociedade de comunidades. Acontece que num computador (ou em qualquer meio digital nativo ou de transmissão digital), os robots são muito menos evidentes que os seus ancestrais – o elevador, a geladeira, etc. Ali, tanto há dispositivos para executar uma operação bancária desejada quanto dispositivos infiltrados para roubar dados e outros que estão ali para montar barreiras, caçar e eliminar os códigos intrusos. Há linhas de código minúsculas que são robots. Mas todas essas transações corriqueiras são automatizadas de modo a que a gente possa usar o tempo com outras ocupações e/ou diversões e não essas “banalidades”.

Se você é uma pessoa que, por acaso, costuma jogar xadrez contra sistemas autônomos, já percebeu que sua capacidade é cada vez mais ridícula diante a deles. A não ser que você seja um Kasparov da vida (mas mesmo ele tomou um mate inesquecível do Deep Blue da IBM em 1997). Mais recentemente, o Deep Mind (outro deep) venceu o garoto Lee Se-Dol em 2016 jogando Go, um jogo ainda mais complexo do que o Xadrez. Desde essa época, tornou-se uma “banalidade” ser vencido por sistemas autônomos nutridos por inteligência artificial. Mas a questão certamente é mais “deep” do que parece.

Há outras datas de corte dessa evolução que ocorreram imperceptivelmente no ambiente doméstico. Uma delas foi o lançamento do Windows 10, pela Microsoft. Desde então o sistema operacional se estabilizou de modo impressionante à medida que a maior parte das transações informacionais deixou de ocorrer nos mainframes pessoais, passando ao território das nuvens (que de nuvens não tem nada, são supercomputadores regiamente pagos pelas empresas de tecnologia). O iPhone 4, da Apple, surge no mesmo contexto, amparando-se no mesmo conceito de intensificação da virtualidade.

É bem nesse momento que os robots e microbots da informática migraram massivamente para as nuvens, deixando ao encargo dos apetrechos apenas operações triviais, de processamento rápido. Hoje, praticamente não há mais computadores no mercado, apenas uma caixinha com a mesma tecnologia nano dos telefones. Também nenhuma mídia nova surgiu desde então, apenas novos formatos de encapsulamento e encriptação de dados. O que aconteceu foi que as empresas de storage então passaram a abrigar centenas de zilhares de bits, o famoso big data. Dentro dele, transações oficiais, extra-oficiais e um cadinho invisível que é retrabalhado permanentemente pela inteligência artificial a fim de extrair dados, apontar tendências e, por fim, vender mais tecnologia.

A questão é que, de fato, a revolução tecnológica não está nessa mudança de localização dos dados. Ela está no fato de que os dados passaram a nos comandar e nós é que nos tornamos seus escravos, alimentando sistemas que se aperfeiçoam apenas em nos comandar melhor. E, como nos melhores sistemas totalitários, com a nossa anuência e colaboração. O próprio vício em tecnologia é um hack implantado em nosso sistema biológico, eletro-biológico, enfim, o cérebro.

Não interessa se gostemos mais ou menos disso, mas tudo os sistemas sabem antes a nosso respeito. Basta que acionemos um login, e eles imediatamente recompõem nossas tarefas de trabalho, nossas relações humanas, nossa situação financeira e até mesmo emocional – ou para o que você acha que servem essas carinhas, coraçõezinhos, joinhas e etc a não ser medir a sua (a minha, a nossa) temperatura emocional?

Não faz muito tempo, o Facebook lançou vários alertas falsos de tentativas de suicídio, em erros forçados de interpretação instruídos pelos seus programadores, mas salvou algumas vidas também. Não foi bola de cristal que eles usaram.

Há poucos dias, no Google Translator, coloquei para traduzir um texto em alemão de um livro traduzido que fiquei com preguiça de buscar na estante. A tradução era a mesma do livro, em cada vírgula. O tradutor recebeu royalties por isso?

Não importa o que você faça, qual seja o seu trabalho, se isso já não aconteceu, não demora vai acontecer com você também. Não serão mais os robots que trabalharão para você, mas justamente o contrário.

Às vezes até uma ideia nova, aquela sensação de um insight poderoso, será mera indução tecnológica em seus diálogos algorítmicos. Se foram experimentadas a partir de 2010, eu não duvidaria. Até o voto e outras decisões da esfera aparente da liberdade. A liberdade não é aquela sensação de segurança de uma decisão tranquila, ideológica, mas exatamente o oposto movediço dessa sensação. E se há uma técnica de poder associada a essa revolução, a minha impressão é que ela é a mais bem sucedida desde o fim da escravidão. Muito mais efetiva e controladora que o consumismo de massas.

Agora pode parecer delirante ou exagero, mas em breve isso ficará cada vez mais evidente. E você ainda estará pensando que o Felipe Neto é que um digital influencer perigoso. Esse é o problema de gastar palavras à toa, porque de tão ignorantes e embevecidos não sabemos nem nomear nem qualificar esse poder, quando conseguimos notar sua presença.

Leitura e bibliofilia

Como os aborígenes que temem que a sua alma fique presa numa fotografia, os bibliófilos brasileiros pretendem evitar a pirataria tornando o preço do livro nacional um dos mais altos do mundo. Não faz muito sentido, mas, tomando-se consequência como causa, o argumento ganha ares de razoabilidade. Parece ciência, mas trata-se de apenas mais um disparate.

O preço do livro nacional é alto por uma série de razões, a menos importante delas é a pirataria. Em recente entrevista concedida ao jornal O Globo, o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Marcos da Veiga Pereira, confirmou que, para dar conta do setor livreiro, os valores saem das editoras por x (R$10,00) para a venda final por 6x (R$66,00). A variação, portanto, em regra ultrapassa os 600% e, de acordo com os cálculos da reportagem, com uma margem de 50% mantendo o mínimo de lucratividade.

O que o Lucio conclui, examinando esses números? Que os livros poderiam ser mais acessíveis e em muitos casos até mesmo ter preços populares. Que os programas governamentais poderiam muito bem obter contrapartidas públicas reais, não sacolinhas de brindes ou a vala banal das propinas.

O que os bibliófilos concluem? Para evitar a pirataria e a diminuição da procura, vamos aumentar os preços.

No mercado, é difícil encontrar um produto que passe por esse percurso de preços sem que o PROCON precise intervir. Ou o CADE. Mas, por alguma razão, no caso do setor livreiro uma política de preços fundamentada em percepções subjetivas não representa problema nem esses percentuais motivam a atuação dos órgãos de proteção do consumidor. Afinal “livro” e “povo” não têm muito a ver, é o que devem pensar os interessados. Talvez se trate de uma tradição ou da propagação de diagnósticos e compreensões parciais. Ou de um combinado de ambas.

Logo quando publiquem os resultados das pesquisas dos hábitos de leitura nacionais, como os realizados quadrianualmente pelo Instituto Pró-Livro (da CBL e SNEL), também se saberá que culpados são os iletrados e analfabetos funcionais brasileiros, pois deixam de participar desse mercado. Da publicação desses resultados, a mídia se fartará a diagnosticar a situação lamentável da leitura no Brasil. Em letras garrafais, os principais jornais estamparão que em média o brasileiro lê 2 livros ao ano contra 15 da Finlândia. Com os livros custando em média R$ 60,00/unidade, não é difícil de entender porque isso acontece.

E a pirataria, o que faz? A pirataria faz o que o Estado não faz ao providenciar bibliotecas acessíveis a população, que é seu dever. Em países com sistemas de bibliotecas públicas equipados, a pirataria quase em nada participa do “mercado”. Até mesmo porque os serviços de bibliotecas são formas de “pirataria legal” sistematicamente desencorajadas pelo sistema editorial. Daí, portanto, que defender o espaço de bibliotecas numa manutenção desses argumentos é imoral. Editoras não se dignam a doar sobras para bibliotecas. Ao invés disso, preferem inutilizar seus passivos em reciclagem. Duvidam? Eu que duvido. E mudo com prazer minha convicção se puder ver ao menos um convênio ativo entre editoras e qualquer biblioteca brasileira sem que isso passe por uma grande aquisição governamental, uma licitação, um programa, etc.

Nada disso faz mesmo muito sentido, mas é ilustrativo da história cultural brasileira o uso extorsivo do valor simbólico do livro para justificar práticas comerciais abusivas nas quais pirataria e direitos autorais são imbricados no mesmo problema.

Só que este modelo de negócios é tão ruim para as pequenas editoras que é desanimador constatar que mais de 50% do mercado hoje é dominado por uma transnacional, a Penguin Books, e seus selos nacionais, entre os quais a prestigiosa Companhia das Letras e seus subselos. Junte-se 3 ou 4 majors, e então sabemos como a cadeia se comporta e porque se comporta como se comporta: punindo o consumidor com preços elevados e livrando-se de qualquer compromisso educacional duradouro. Business, é disso que se trata e nada além disso.

Outro argumento reincidente na crítica ao hábito de leitura do brasileiro é a comparação aos vizinhos argentinos. Mas além de uma rixa pátria ancestral, essa é uma comparação totalmente improcedente. Tanto a história política quanto educacional argentinas são muito diferentes da brasileira. Há duzentos anos pelo menos os índices de alfabetização interiorizada da Argentina são superiores ao Brasil e o investimento em escolas e bibliotecas comunitárias data da Guerra do Paraguai, basta ver o exemplo de Sarmiento, visionário presidente argentino que fundou mais escolas e bibliotecas no séc XIX lá do que nós em todo o séc. XX cá.

O nosso chegou no boom da II Guerra Mundial, quando experimentamos o milagre brasileiro, mas durou pouco. Antes disso, são notáveis os empreendimentos literários que arruinaram pessoas físicas, tais como Moteiro Lobato e outros. O livro popular não tem uma boa história no Brasil e isso acompanha justamente os índices educacionais de um modo geral. Enquanto os argentinos tem uma relação com o livro de “leitores”, nós temos de “bibliófilos”. É uma questão cultural mesmo, da nossa verve cortesã, de luxo e pompa e breguice. Pois então. É como bibliófilos somos tratados, com preços fora da realidade. Com os bodes expiatórios certos, para que vamos nos preocupar com isso?

É uma pena, mas é como eu vejo as coisas. E estou muito longe de ser/estar feliz por causa disso, ainda mais com o entendimento brucutu do governo atual, de dificultar tudo ainda mais. Às vezes eu penso que viemos no preparando para esse apogeu de realismo que estamos vivendo, só pode ser, ou então não soubemos evitar por arrogância mesmo. Nisso somos tão bons de acusar os argentinos também que é uma forma de não assumir a imensa fraqueza da infantilidade civil que permite roubarmos uns aos outros e tudo o mais, e toda essa tradição de vilanias e brutalidades.

Irrecuperáveis, 2

Não é lá muito comum que alguém acuse um insight, uma epifania, em razão de uma coisa banal como uma escova de dentes, mas pode acontecer. Não convém duvidar. A maioria das pessoas é pouco modesta com seus lampejos. Normalmente eles ocorrem em datas especiais, viagens, leituras, filmes, equinócios, etc. Comigo aconteceu numa escovação de dentes. E nem foi comigo, mas com o meu filho que, num belo dia, decidiu aposentar a sua escova de dentes modelo mirim.

(Quem não tem filhos não sabe como o mercado volta-se ao público infantil com uma gana impressionante e de forma cada vez mais precoce. Não é questão de mera oferta, é assédio mesmo. Tudo tem bichinho e personagem. É um universo de simbolização feito na marra, muitas vezes sem qualquer alternativa.

Não fossem inúmeros os casos de crianças que confundem o mundo real com a programação do Discovery Kids, tudo bem. Tratando-se do ser humano, nada muito estranho. Há adultos que acham que a vida é o programa do Datena ou reality shows sem fim. Acontece que, no caso dos infantes, o assédio ocorre cada vez mais precocemente e não adianta que se poste aqui e ali que não se deve, por exemplo, permitir o acesso das crianças ao conteúdo dos apetrechos midiáticos se está todo mundo o tempo inteiro grudado neles. Estamos todos envolvidos pela mão e abraço invisível do mercado de uma forma ou de outra, não adianta.

Além disso, é um tipo peculiar de injustiça a privação das crianças a esse mundo, pois, afinal, o que mais elas querem é compartilhar do modo de vida dos que a cercam e não há nesse desejo crime algum, afinal nós mesmos damos prova o tempo inteiro de que ele é irresistível. As crianças costumam ser as primeiras a notar e observar essa injustiça. Os efeitos disso fazem parte doutra discussão, doutro capítulo da história toda.)

Quem não tem filhos com alguma deficiência intelectual, como o meu, que nasceu com a síndrome de Down, dificilmente valorizaria um acontecimento banal como esse. É que isso é uma coisa um pouco mais complicada quando você ouviu por anos a fio que ele seria uma eterna criança, e leu livros que confirmavam isso e ouviu isso de médicos e chegou a pensar que, afinal, nada mais haveria a ser feito quanto a isso, quanto a qualquer coisa. Isso é bastante terrível do ponto de vista comportamental e emocional, mas principalmente enganoso, pois a infância não é um intervalo mental, mas temporal. Não dá para ser criança a vida inteira sob nenhum aspecto. A adolescência é disruptiva. Basta que se deixe a pessoa expressar sua potência hormonal, seu desejo social, sua curiosidade natural.

Mas acontece que, num extremo, alguém inventou (provavelmente um vendedor) que a adolescência é um fenômeno cultural. Que um dia se é criança e, no outro, adulto. No outro, que é meramente biológico. Antes a pessoa não reproduzia, agora reproduz. Numa zona cinza e imprecisa entre estes dois pólos talvez haja alguma verdade. Só que, quando se trata de alguém que tem uma deficiência intelectual, opera-se a magia do congelamento e da negação do desenvolvimento. Na verdade não é magia nenhuma, mas apenas violência e coerção.

Quando eu falo em livros, não estou pensando aqui na literatura ficcional porque acho que sua nuance é outra, mas na literatura científica mesmo. Na literatura que achou de dar ao nome de “idade mental” a um determinado apanhado das capacidades cognitivas das pessoas. A um tracejado numa escala.

Sem dúvida o psicólogo francês Alfred Binet nunca imaginou que sua terminologia fosse resumida cerca de um século depois de sua criação num amontoado de xingamentos. Binet foi o cientista que cunhou os termos “idiota”, “imbecil” e “débil mental” para designar scores de um teste que, noves fora, não é muito melhor que um nametest desses que todos os dias circulam nas redes sociais. É científico na mesma medida em que toda a ciência depende de um comportamento autônomo e imprevisível. Tornar a inteligência previsível e presumível em seu potencial era o seu objetivo, além de determinar o quociente de “educabilidade” de cada pessoa. Seu estudo foi bem mais elaborado que o de Francis Galton, o “pai” da eugenia, mas sem dúvida alicerçou-se nele e nas crenças comuns à época. Em outros lugares do mundo, estes estudos tiveram como objetivo a elaboração e execução de políticas de saúde com base em seleção negativa. Binet não tem culpa nisso, mas lançou bases conceituais e terminológicas que ainda hoje perduram. E isso sim é demonstrativo de certa estagnação.

Muita água rolou desde Binet, mas o legado ficou. E seus termos também, com exceção do “débil” que em meados dos anos 60 os psicólogos e estudiosos da mente conseguiram evoluir para “retardo”. Hoje, usam-se ambos na mesma acepção: como xingamento. Para efeito prático, quase nada mudou e mesmo autores difundidos na atualidade fundamentam-se em modelagem, reprogramação e condicionamento, travestindo de novos conceitos práticas bem conhecidas há décadas, tudo por conquistar uma “mente suficientemente boa” e diminuir o estranhamento social de terceiros, nem que para isso se lance mão de correção plástica.

No meu modo de entender, a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria fizeram muito pouco pela deficiência intelectual, quase nada, a não ser a recriação de testes e espaços de clausura e estranhamento, presumivelmente “científicos”. Muito mais fizeram os próprios pais e mães com a ajuda principalmente de uma gama de profissionais e terapeutas via de regra menosprezados. Na minha opinião, trata-se de pessoas que merecem muito mais do que costumam receber de reconhecimento. Mas não são “doutores”, então costumam estar numa escala de importância diminuída. Bem, não no meu conceito. Para mim, são os verdadeiros experts e eu os respeito imensamente.
Toda essa explicação certamente não explica o porquê da epifania da escova de dentes, mas eu fico muito feliz em ter na minha casa a comprovação de que o conceito de “idade mental” é mais uma convenção infeliz da ciência. E isso porque foi banalizado ao extremo e deturpado quando empregado para denominar o comportamento humano.

Eu realmente não entendo qual a dificuldade em assumir que trazemos em nós mesmos todas as idades e que precisamos brincar na mesma medida em que precisamos comer, dormir e tudo o mais. E que estamos sempre sendo seduzidos por imagens e simbolizações com forte apelo infantil. Essa nova interface do Facebook, por exemplo, é autoilustrativa. De mais a mais, não conheço muitos voluntários ao trabalho maçante, muito mais ao ócio recreativo. Exceções há, de quem faça exclusivamente o trabalho que preferiria, mas é uma proporção ridícula.

É muito difícil para qualquer adulto não ter de lidar com a própria criança, suas expectativas, frustrações, birras, traumas, etc. A maior parte do comportamento adulto, aliás, é embrionária da primeira infância – e é provavelmente daí que algumas pessoas se preocupem mais que outras a respeito da importância dos efeitos da virtualidade na infância. E outros se preocupem mais até com a virtualidade do que com o real.. Ao custo de transformar o mundo virtual numa versão digital do pátio do colégio onde estão todos a puxar os cabelos uns dos outros, maldizer, formar guetos, paparicar e maltratar, o que eu vejo são crianças grandes por tudo, e nada disso tem a ver com “idade mental”, mas por escolhas em tese refletidas. Em tese.

Há exatos quatro anos eu escrevi um texto que eu lembro que na época impressionou muita gente. Nele eu comentava, entre outras coisas, que meu filho não tinha noção de que tinha nascido com a síndrome de Down. Isso porque, em primeiro lugar, eu não tinha segurança de “como” e “se” devia explicar isso a ele. Segundo, porque achava que ele não entenderia e nem precisava entender esse conceito clínico. A questão da trissomia do gen 21 e também os efeitos disso na sua vida mental, comportamental, etc. Continuamos na mesma aqui e, por mim, assim permanecerá.

Amigos e pessoas próximas chegaram a tentar me dizer que eu “tinha de”, que era meu dever explicar a ele no que consistiam seus limites e dificuldades cognitivas. E que isso seria benéfico para ele. Eu fico pensando em porquê teria de explicar a ele somente os “dele” mesmo. É um tipo de reforço positivo que me escapa? E os meus limites? E os de todo o mundo? Não é preciso? Não. Não vou mesmo!

Assim como a adolescência que aposenta escovas de dentes de bonequinhos, os próprios bonequinhos e outras infantilidades, o que mesmo vou dizer a ele a esse respeito? De que desista de crescer? Mas o que ele fará então com seu corpo, com sua mente, com a sua imensa energia vital? Querem que, terapeuticamente, eu o detenha no chiqueirinho dos bebês? Isso parece mesmo possível? E outra, quem é que vai combinar com os russos, isto é, com ele mesmo? Negativo. Eu fora.

Convivam os outros com suas dificuldades de assimilação. Eu sempre tive certeza de que minha única função em sua vida não seria melhor do que a de um frentista, e serviria apenas para lhe injetar combustível e dissolver o quanto possível, do para-brisa, a fuligem do mundo, que é imensa e definitivamente não lhe pertence.

Primeiro foram os super heróis guardados numa caixa, e esquecidos. Mais tarde, as músicas de criança, os brinquedos, as roupas, tudo.. Eu já nem me apego mais nisso. Não tenho mais saudade do molequinho.

Como aquele antropoide de Oliver Stone que, em “2001” joga para o alto o fêmur de uma fera, libertando-se da condição animalesca e adentrando no território do homo sapiens, o meu guri tascou longe a escova de dentes do Mickey Mouse e junto dela foi-se o teste de QI. Agora só quer ouvir rock and roll (ele acha que Ed Sheeran e Justin Bieber são roqueiros, mas tudo bem), que não lhe mandem tomar banho e que não encham o saco desnecessariamente com coisas menos importantes. Ele não quer mais saber. E nem eu.

Eu, robô

Tardes de sábado boas mesmo têm de ter o bom e saudável tédio criativo. Esses dias eu vi de um famoso escritor que a pandemia estaria impedindo-o de escrever e ele dizia que precisava caminhar para escrever, então não estava escrevendo mais nada nos últimos tempos. Não é que ele escrevesse caminhando, mas haveria algo no andar à toa que lhe seria fundamental para o pensamento e, lógico, também para a escrita. Eu também acho e gosto muito de andar, principalmente no centro de Porto Alegre. Apesar de que o centro nunca esteve tão depauperado e abandonado, eu gosto, e para mim não há outro lugar em Porto Alegre que me dê tanta vontade de caminhar por caminhar. Sinto falta mesmo.

A pandemia nos roubou a liberdade de caminhar por aí e nos jogou de cabeça no mundo das redes, onde também não há tédio. Não sei como acontecem as antologias da pandemia sem que os escritores possam deambular livremente e o combustível da escrita, o tédio, a sedimentar pensamentos e emoções. Mas há quem consiga e eu fico realmente admirado.

Quando era criança, eu gostava muito de inventar histórias absurdas para os meus amigos. Era uma coisa meio teatral que eu fazia e só me dava por satisfeito quando conseguia convencê-los da minha representação. Não sei em que momento da minha infância me desviei das artes cênicas, mas acho que aquele tédio absoluto das tardes interioranas (e o livre trânsito pelas ruas da Bagé dos anos 70) me compelia a inventar alguma coisa. Qualquer coisa..
Naquelas eras glaciais, a tevê mal pegava e a programação das ruas era bem mais convidativa. Além disso, só na vizinhança havia dezenas de crianças para interagir realmente. E crianças naquela época consistiam um conceito bem mais elástico do que hoje. A adolescência e seus ritos de consumo chegaram por lá mais pro fim dos 80.

Nessa época é que apareceu lá em casa um disco do Kraftwerk, que um dos meus irmãos descobriu não sei de onde. Eu simplesmente surtei com aquilo e andava como um robô pela casa, esticando braços e pernas e endurecendo joelhos, cotovelos e o pescoço que ganhara engrenagens.

Numa tarde daquelas, decidi que um grande amigo e vizinho, crédulo como ele só, ele teria que acreditar que eu realmente me transformara num robô. De cara ele não quis embarcar muito na minha narrativa, mas, pouco a pouco, fui convencendo a ele e saímos pra rua comigo caminhando ainda daquele jeito robótico. Os vizinhos adultos me olhavam com certa desconfiança e como eu não esmorecesse, o meu amigo por fim cedeu – em prantos – quando eu disse que logo à noite um OVNI vinha me buscar a adeus planeta Terra, adeus rua, adeus tudo..

É inacreditável, mas é a mais pura verdade. São todos fatos verídicos, inclusive eu ter me transformado em robô.. 🙂

Brincadeiras à parte, eu até hoje não entendi como esse amigo conseguia acreditar em mim, já que uma vez por semana eu era uma coisa diferente.. Outras vezes fui vampiro, lobisomem e outras coisas improváveis e ele sempre acreditou. Religiosamente. Quando enfim parei de representar, ele também parou de acreditar em mim. Tinha a convicção de que devia ser criança ainda um tempo mais, mas o meu tempo já havia se acabado. E assim foi que nos afastamos. Quando a primeira transformação de verdade aconteceu, mas só para mim..

A mulher submersa

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 05/09/2020.

Os livros costumam ter itinerários fora e dentro da casa de gente. Fabricam-se, viajam e um dia chegam aonde deveriam chegar. Depois, diligentes, ocupam o seu lugar nas mesas, cabeceiras e depois ainda vão dormir, às vezes mal acomodados, nas prateleiras, como um volume a mais entre volumes. No entanto há livros que nunca couberam nem em si e logo vão encontrando, em sua vocação líquida, uma forma de se esparramar tão logo desembarcam. Como um parente antigo que, de repente, decide-se por cumprir uma promessa antiga e em definitivo regressa. Há pouco veio “morar” na minha em casa um livro assim, de pessoa que nunca vi, mas vi desde o primeiro instante de “quem” se tratava.

A mulher submersa, primeiro livro de Marceli Becker (ou Mar Becker, como é mais conhecida) e publicado em São Paulo pela editora Urutau, vê-se logo que é livro de gente viva e que se reconhece tão instantaneamente como a alguém que estivesse fadado mesmo ao destino de se deixar compartilhar sem receios, numa poesia impraticada, singular, e ao mesmo tempo comum, tal fosse parte da nossa própria voz a dizer aquelas coisas, em nós mesmos já incorporadas. Pois esse livro antes de chegar para ocupar um espaço entre as coisas da casa, veio não para ser guardado em fileiras de outros livros dorminhocos, mas para dizer por tantos que já andaram e disseram nos dias e noites da nossa vida.

É mesmo um livro um tanto fantasmagórico esse. E, por isso, mágico. Dentro dele, uma poesia discreta e vigorosa deixa falar mais que uma pessoa, mais que um tempo, mais que um motivo só. E antevejo nele minha bisavó, também poeta, e seus poemas riscados com pedaços de hulha no imenso tempo que há numa vida. Numa daquelas fotografias dentro do livro, sei que ela está lá também, carcomida do tempo, como eu a conheci.

Boa parte das pessoas, gaúchos inclusive, pensa na cultura do Rio Grande do Sul como uma cultura formatada em temas perenes e paisagens iridescentes e aconchegantes. O horizonte púrpura, crepuscular, a madrugada fria. Pouco se vê dos pátios, dos lugarzinhos, das gavetas dos móveis, das peças de roupa, das asperezas e dos gestos de pessoas que, muito ao contrário da imagem falastrona, dizem pouco, às vezes até desistem de dizer e deixam-se viver como se numa ciência tácita do próprio destino – e suas coisas.

Marceli é uma poeta que faz disso tudo matéria poética e está além das fronteiras porque sua poesia alcança a intimidade essencial das pessoas seja quando evoca o erotismo de Safo e os temas ancestrais da humanidade e das referências clássicas, da paixão bíblica e o estranhamento do ser e do sentir, como se trouxesse consigo um tanto de paraíso e apocalipse em sua poesia definitiva, como bem definiu certa vez o também poeta e amigo comum José Francisco Botelho, por intermédio de quem a conheci e pelo que sou grato. O fato dele ser poeta também é algo que a seu tempo será revelado, pois consagrou-se como excelente contista, mas há rumores de que logo um livro de versos seus vem por aí também.

Elogiada no Brasil inteiro por estudiosos, diletantes e leitores, desde antes do lançamento de A mulher submersa Marceli é de uma transparência que a faz ainda mais autêntica e se pode enxergar instantaneamente uma poeta devotada à sua arte e a quem ela é, em sua identidade. É algo muito estranho acompanhar o seu perfil nas redes sociais e ver que um dia bem ela está mencionando Herberto Helder como cantores populares do sul. Gildo de Freitas, Jayme Caetano Braun, Pedro Ortaça e os músicos do Folklore 4, de Bagé, estão tão presentes na sua timeline como Antonio Gamoneda, Alejandra Pizarnik, Bashô e Jacques Roubaud. Com uma tranquilidade temperada e um humor semelhante, Marceli é uma excelente companhia (mesmo virtual) e eu recomendo muito segui-la tanto quanto lê-la. É impressionante mesmo que se trate da mesma pessoa na sua composição mais íntegra de simplicidade e complexidade. Talvez daí venha justamente o apodo “Mar”.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker revive uma sentimentalidade do sul, nada óbvia, e faz caber num detalhe doméstico qualquer a imensidão de seu olhar e seu afeto cultural.  Quase nunca se vê o tanto de desterro, de solidão e de reflexão que acompanha a poesia de quem se afasta do seu lugar de constituição e afeto original. Numa gaveta de sua casa, em São Paulo, Marceli encontra um conjunto de atavismos e memórias e imagens a quem ela dá vida como quem é capaz de encantar e transmitir esse encantamento em versos fluídos dos quais ela mesma se faz.

No Quebec ou nas estepes do Azerbaijão, os temas da poesia são os mesmos porque as pessoas são as mesmas em sua aventura. De um olhar atemporal, de quem se observa e reconhece suas faltas, amores, saudades, tristezas, alegrias, de tudo isso se preencheu a minha casa, casa da minha família, em razão deste A mulher submersa. Engraçado é que parece possível encontrá-la numa janela de Porto Alegre, das muitas que vejo desde a reclusão da pandemia. Prova de que a sua poesia viaja apesar de tudo e está também onde estamos e mal notamos. A poesia de Mar Becker tem também a poesia que nós somos e pouco lembramos. Agora, com o livro, tudo finalmente ficou mais fácil e simples, como é de seu modo de ser. O Rio Grande do Sul pode congratular-se sem medo do surgimento em livro de Mar Becker e dizer que ela é sua. Quem a leu, afinal, já notou que a verdade é que nós é que somos dela.

Hors-concours

Artigo publicado na Revista Parêntese, de 20/08/2020.

Mal chegou agosto e já tenho escolhido o meu livro do ano. Meu livro não foi escolhido nem por algoritmos e nem por recomendação de terceiros, nada disso. Ele que me descobriu num dia de trabalho e foi-me apresentado não por seu autor, mas pela mãe dele. Antes que pensem que é cedo demais para uma afirmação dessas, eu garanto que não é. E, se me acompanharem, entenderão o porquê de eu afirmar isso de forma tão categórica.

A julgar pela capa e pelo titulo, A angústia de uma alma, qualquer um imaginaria de imediato um livro religioso ou doutrinário, mas não é disso que se trata. De autoria de um certo Mike Lorry Loudney Joseph, o livro se apresentou a mim de uma forma irrecusável. Eu não conheço o Mike pessoalmente (pelo menos ainda não), mas conheço a mãe dele, que é também é sua maior entusiasta e mercadora. Ela trabalha numa empresa terceirizada que presta serviços à instituição na qual eu trabalho. É uma “colaboradora”, como agora se convencionou chamar – este que é mais um dos eufemismos pós-capitalistas já normalizados no mundo – as pessoas empregadas em serviços terceirizados.

O livro do Mike é muito triste. Triste como a história dos haitianos que emigraram para o Brasil nos últimos anos. Formalmente, não é um livro impecável, mas quase não se nota isso à leitura de um poema que trata de uma prima sua que perdeu a vida num naufrágio, de outro a respeito de um amigo também afogado e, sobretudo, das ruínas de um lugar do qual se quer fugir a todo o custo e da esperança que um outro lugar que damos também como em ruínas – o Brasil – pode encerrar para um garoto de 18 anos de idade.

O Mike viveu o terremoto que atingiu quase em cheio a capital Porto Príncipe no ano de 2010. Separado da família, somente foi reencontrar-se com ela em 2017, quando veio tentar a vida em Porto Alegre. Eu não imagino qual foi a tiragem do seu livro, certamente é bastante restrita, mas tenho certeza que seria sempre pequena, mínima, em relação ao impacto de um livro de um autor que precocemente encontrou a experiência da devastação, do desterro e da morte desde o início de sua vida.

Proporcionalmente ao seu volume, o livro não saiu barato. São cerca de 40 páginas e com o valor que paguei poderia comprar com tranquilidade um pocket-book da L&PM ou da Companhia das Letras, mas acontece que o livro do Mike conta com as suas pernas e as da sua mãe para ganhar a rua e os leitores que entendem da importância e da dignidade de um livro como o dele. Vale cada centavo.

Além de ser tocante por si só, o livro me induz a pensar que a história do livro e da leitura é muito maior que a história do comércio de livros. A bem da verdade, deveria separar-se as duas coisas, mas como isso seria possível num sistema, como diria Walter Benjamin, hipertrofiado? Ou seria exagero usar desse termo para descrever-se uma indústria livreira que, no Brasil, destina milhões de exemplares anualmente à indústria de picotagem e ao final menos honroso que o papel poderia ter em seu nem tão longo ciclo industrial?

Por duro que seja admitir, a indústria do livro tem mais semelhança hoje com a indústria petroquímica do que com a cultural. Para ela, não há problemas na produção de excedentes de milhões de exemplares quando o preço de capa dos lançamentos paga por tudo isso, mesmo que por conta disso Cervantes ou Shakespeare acabem transformando-se em aparas e não cheguem jamais às bibliotecas públicas e escolares do país, despidos definitivamente de sua “aura”.

Não é um escândalo. Há anos, aliás, sabe-se muito bem disso por meio das pesquisas encomendadas pela Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional dos Editores de Livros e que vinham sendo desenvolvidas anualmente pela Fipe. Neste ano, coube a Nielsen Book atestar a estabilidade destes números e o encolhimento de 20% do setor em quinze anos.

Quando a Cosac Naify anunciou que seus excedentes teriam esse mesmo destino, em 2016, o meio cultural esboçou um grande lamento. Mas quem salvou os livros caprichados de Charles Cosac e vendeu todos os exemplares foi a temível Amazon (de acordo com as pesquisas, responsável por 3% de vendas no mercado nacional) com sua política de preços imbatível. Hoje, não há mais nem um exemplar à venda dos livros cujo destino seria virar rolos de papel Neve, a não ser em sebos nos quais chegam a valer até 5 vezes o seu valor de capa original.

No começo deste ano, foi noticiado que apenas o MEC poderia se desfazer de 3 milhões de exemplares intactos, num gasto estimado de R$ 20,3 milhões. Não parece ser uma grande tragédia, já que cíclica. A pujança brasileira, ou a ilusão de sua sustentabilidade, há de dar conta desse desbalanço comercial que se verifica entre produtores, preços e consumidores. Tudo é muito triste e revoltante e me dá a sensação de afogamento em livros.

Bem mesmo quem fez talvez tenha sido o Tyrteu Rocha Viana, poeta modernista rio-grandense, que, na primeira metade do séc. XX, obrigado a uma tiragem de 1.000 exemplares, pagou por todos e mandou imprimir apenas uma dezena deles para distribuir a quem acreditava que realmente o leria. Ou então a mãe do Mike e ele mesmo, decididos que estão a bater perna até vender o último dos exemplares de A angústia de uma alma.

Impecável pela modéstia, Mike é o poeta que, tendo vivido isso tudo, afirma apenas “não sou herói / sou apenas a vitima do destino”. Destino, aliás, é das palavras que mais aparecem nos seus poemas, como se ele desejasse muito sobrepujar a sua vontade. O livro do Mike é mesmo um livro inconformado com o destino e que não pretende calar sozinho com a sua angústia. “Alguém para ouvir o meu grito de desesperança?”, ele indaga. O livro dele é dos que certamente não vai se conformar em virar aparas, num destino trágico, porque não é um livro de um sobrevivente, mas um livro hors-concours, de sobrevivência.

Os dragões me vencem

Juan Eduardo Cirlot (1916-1973)
trad. do espanhol

Vasculho no silêncio da gruta
as runas sob o branco da lua.
E, enquanto vou procurando,
afio minha espada com o nada.
Há algo no coração que é de dragão.

Eu luto contra um monstro, mas não o mato.

Buscar, continuo buscando:
o castelo do anel,
o estreito nessa voz branca.

Tenho um nome de sombra;
o meu não é um nome de homem.

Eu rasgo de preto para branco,
arranco do branco para o rubro,
eu rasgo do rubro; eu quero o ouro –
o ouro do seu ser e seu morrer,
cálice azul em que a luz descoberta
sela a lucidez do infinito.

School

Não sei que filme é esse que colocaram sob o fundo dessa versão de School, a única em estúdio que parece ter no YouTube para a música do Supertamp. É de algum filme, talvez um documentário sobre essa escola em Berlim, o Rheingau Gymnasium. É um casamento perfeito de imagens e música, ainda mais com a imagem tremeluzente das TVs de tubo e raios catódicos.

“School” é a música que mais me remete ao meu próprio ambiente escolar, lá no início dos anos 80. Acho que foi o primeiro disco do Supetramp que ouvi, o álbum ao vivo “Paris”, gravado em 1979, pouco antes da dissolução. O Supertramp foi uma banda já meio derradeira da parcela progressiva do rock, mas colheu frutos ainda do estilo do qual o Pink Floyd e o Yes, principalmente, foram os principais expoentes. Fizeram belos discos, muito competentes tanto no que diz respeito ao aporte instrumental quanto vocal e temático. O público ainda cabeludo daqueles dias ouvia bastante e crianças como eu também. O Supertramp gravou alguns clássicos do estilo com arrojados solos de saxofone, harmônica e piano. “From now on”, a operística “Fools overture” e essa “School” são na minha opinião o seu melhor, apesar de terem ficado mais conhecidos com “Logical Song” e outras que não gosto tanto. “School” é uma joia musical e, com esse vídeo, entra numa combustão espontânea, parece, como um fogo-fátuo.

No fim do ano passado, numa viagem que eu fazia com a família e no mesmo período que desejava terminar de escrever o “Trapézio” (que inicialmente pensei em chamar de “Fica na tua”, como na canção de Vitor Ramil, mas mudei por pressão doméstica), mostrei a minha filha a música e ela ficou meio espantada com os andamentos e principalmente o vigor musical da gravação. “Que loucura é essa aí?”, lembro-me dela perguntando no banco de trás do carro. E de responder-lhe “Isso aí? Isso era o que eu mais ouvia quando tinha a tua idade. Todo mundo ouvia..” Aquilo ali era, na verdade, apenas uma pequena amostra desse vigor do começo dos anos 80, uma década enérgica ao extremo, na qual se emendava Supertamp no Queen e numa discografia que tinha a missão de prorrogar o tempo regulamentar de Beatles e Led Zeppelin sem imaginar que logo tudo viria abaixo sob o som dos helicópteros de “The Wall”, sepultando as ruínas do sonho hippie e fazendo emergir uma geração alucinada em todo o mundo. No Brasil, a geração que degelou diretamente do permafrost dos anos cinzentos da ditadura militar e logo mais fundamentou a cena rock nacional, ou a consumiu, ou foi por ela consumida.

Naquele verão, eu tinha uma semana mais ou menos para fazer um romance de algumas anotações, um esboço temporal e uma coleção de tipos humanos contemporâneos daquela época que vivi fazendo a transição de quem vinha do interior para a capital e a da adolescência. Um movimento talvez definitivo de toda uma época que se globalizou por interesse próprio e, ao menos simbolicamente, no Brasil recolocou a capital do país de volta no Rio de Janeiro, sob a monarquia da Rede Globo de televisão e sua indústria monumental de entretenimento, informação, dirigismo intelectual e, principalmente, moral.

Nem lá no cafundó do interior as coisas chegavam com a vagarosidade de antes. A tevê naqueles dias enrolou tempo e espaço numa narrativa uniforme, misturando numa mesma massa tradição e futuro, repressão e liberdade. O momento político que culminaria numa democracia parcelada, com eleições indiretas, tinha o substrato de um derretimento total de uma história insustentável. E a entrada da música estrangeira no Brasil, a explosão do pop e uma voracidade consumista sem precedentes, talvez semelhante a experimentada pelos boomers nos anos 50, e o cinema, e as grifes e a retomada norte-americana do fim-de-século nas mãos de criaturas que desconfiavam da seriedade das intenções liberais do próprio país. O país que explodira meio mundo voltava a vender o seu modo de vida com toda a força, como uma locomotiva desembestada, levando por tudo gerações distintas, países periféricos, culturas locais, tudo.

Essa é uma história que ainda não terminou, mas realizou muita coisa também. No rastro dessa locomotiva, pérolas de uma contracultura que também não se conclui nunca, que também é seu combustível e seus restos são carne humana, violência e um modo de vida meio que desesperado, de uma época controlada por ansiolíticos ou ainda mantida em drogas ilegais, mas só de fachada ilegais.

Os anos 80 foram anos muito drogados. Acho que bem mais que os 90, meio diluídos num novo sonho americano de prosperidade yuppie. Nos 80 havia uma certa panela de pressão. “School”, do Supertramp, mostra um pouco desse estado de espirito sedento. E “The Wall” não é senão é a culminação desse espólio capitalista ressurgente, irrefreável, trucidando a subjetividade de pessoas sem condições de sustentar nos braços e mente a potência exigida pela “máquina”.

Quando pesquisava sobre o romance e anotava minhas coisas, busquei livros que tratassem da história dessa década no Brasil e fora daqui. Há um certo vácuo, eu diria. Talvez uma ressaca da qual ainda não nos recuperamos completamente e um saldo que ainda não sabemos muito bem o que fazer dele. É a minha sensação. Em alguns momentos daquela semana que precisava encerrar essa história toda achei que não conseguiria. Uma noite, depois de dormir não mais que duas horas, retomei de onde eu tinha parado antes de recomeçar e então fui até o fim. Parecia estar sob o efeito de um poderoso estimulante, mas me bastava ouvir a harmônica de “School”, como um chamado do fundo do tempo (e dos pátios escolares) e a energia voltava. Se eu tivesse crescido nos 90 teria sido bem mais difícil. Ali a pressão já havia cedido bastante. E, em seu lugar, a depressão. Mas aí é outra história bem diferente e nem me sinto capaz para tentar escrevê-la. Talvez ainda não..