A angústia da transparência

Revista Parêntese, ed. 200

Posso não concordar com o que você escreve, mas defenderei até a morte o seu direito de publicá-lo.

Da mesma forma que Voltaire parece nunca ter dito ou escrito o bordão acima, aí está uma deturpação que eu certamente morrerei sem nunca ver um escritor proferir. Não é que alguém ainda se iluda de que um dia as coisas no mundo literário possam ter sido mais amenas, mas de qualquer forma seria improvável que o espírito de intolerância e dissidência que governa o mundo contemporâneo não fosse contaminar o mundo literário, universo no qual cada vez mais a competição e a distinção prevalecem sobre a cooperação.

O fato é que ainda está por ser estudada a força subjetiva que parece agir sobre os escritores no sentido de que afirmem que suas crenças quanto à literatura sejam sempre inquestionáveis e universais. Por que seriam? Isso apenas seria possível caso a literatura partisse de pressupostos científicos e fosse outra coisa que não o produto das tensões sociais, culturais e afetivas manifestando-se na subjetividade e daí aos objetos literários.

Mas se a sociedade busca refletir cada vez mais o campo multifacetado da diversidade, no da literatura o que prospera é o da autoafirmação. Não demora nada para que os escritores sintam-se compelidos a dizer o que para eles é a poesia, qual a ficção mais louvável, quais suas influências, no que eles acreditam, com que corrente política se identificam e assim por diante. No mundo da transparência total, todas essas posições vêm antes da qualidade do texto literário e determinará se o autor (ou autora) estará apto a integrar este ou aquele ambiente cultural, nutrir este ou aquele nicho de leitores, vencer este ou aquele prêmio cobiçado, etc. E assim a angústia da influência, que rendeu um livro clássico a Harold Bloom, hoje precisaria ser desdobrada na angústia da transparência – uma espécie de evolução de mero nervosismo ao transtorno de ansiedade generalizado.

Também me parece certo que essa volúpia dirigida ao próprio ego não é exatamente um fenômeno contemporâneo. É suficiente examinar o tanto de metalinguagem e metapoesia publicada ao longo do séc. XX, no qual se fez presente desde o primeiro modernismo com Manuel Bandeira e Drummond até os estertores da poesia marginal, com Paulo Leminski. Às vezes, parece mesmo haver nos poetas certa compulsão em categorizar a respeito de como deveria ser a poesia, sendo que esse “dever” quase sempre é um valor autoinstituído, uma garantia precípua, uma espécie de salvo-conduto indispensável ao pertencimento literário e do qual o próprio poeta é via de regra o exemplo mais bem acabado.

Do afetuoso Manuel Bandeira e sua prescrição de que “o poema deve ser como a nódoa no brim” ao intransigente João Cabral de Melo Neto afirmando “o poema final ninguém escreverá”, um desfile de escritores e escritoras e seus vaticínios literários consolidou essa tradição que hoje apenas transbordou, aliás, como tudo.

Na literatura contemporânea, tem sido bastante simples a tarefa de identificar que o grande movimento cultural catalisador das mentalidades está outra vez relacionado às contestações políticas e dramas de identidade e que o modelo de recepção vem se determinando mais pelo caráter ideológico do texto do que pela sua elaboração e qualidade estética. Nessa perspectiva, a ascensão de uma literatura engajada e de empoderamento civil tornou-se aparentemente um movimento inevitável. Mas assim já foi muitas vezes antes de agora e tudo indica que no devir cultural os ciclos voltem a alterar-se, assim como tendências e estilos preferidos. Não há razão para maiores ansiedades.

Em artigo publicado há não muito na revista Criação & Crítica, da FFLCH da USP, a professora e pesquisadora Leyla Perrone-Moisés nos lembra de que no séc. XIX houve escritores, como Victor Hugo, Émile Zola e Charles Dickens, que se dedicaram a uma literatura de denúncia social e, portanto, não se poderia alegar surpresa diante da proliferação presente, mesmo quando ela vise atender os anseios e problemas de identidade deste ou daquele grupo social, ou busque servir ao seu empoderamento. No mesmo trabalho, ela também alerta do risco de que “um livro que atenda somente às demandas sociopolíticas de seu tempo não terá mais o que dizer aos leitores do futuro”. Evidentemente, os editores e livreiros não parecem tão preocupados com isso se a circulação é mantida, além de que, por mais comprometida ou engajada que seja, ainda assim são textos literários, ao contrário dos outros 90% dos livros em circulação no Brasil atual (a CBL informa em sua pesquisa de mercado que a participação da literatura adulta no mercado foi de 6,18% em 2022).

Bom ou ruim, grave ou não tão grave assim, fato é que ao longo do tempo a literatura tem sobrevivido ao anúncio de sua decadência e fim. Também me parece pouco provável que uma literatura em defesa das boas causas, como defendeu recentemente em entrevista para O Globo o escritor Bernardo Carvalho, venha a obliterar a literatura de qualidade. Se James Joyce, Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges e tantos outros escritores incontestáveis deixaram de receber o Nobel em detrimento de Herman Hesse, sempre tipificado como um autor “fácil”, certo é que nem por isso perderam o seu público e ainda o estão conquistando muito tempo após a sua morte. É natural que o escritor se angustie ao ver que sua obra é preterida por outras que ele julga de menor qualidade, mas essa decisão infelizmente não lhe compete. Que fazer? É preciso maturidade e aceitar a realidade ou então insurgir-se com um movimento, um manifesto, coisas que o tempo acelerado de agora parece simplesmente não dar muita atenção. Toda a reclamação que se possa fazer, mesmo a mais justa, soará apenas como um lamento solitário.

No seu Tratado da tolerância, Voltaire dizia que cada pessoa só deve acreditar no que lhe dita a própria razão, desde que o equilíbrio social não seja por isso rompido. O que temos por agora é mais deturpação do iluminista, são todos acreditando demais em si mesmos. Na era da transparência e do júri permanente das redes sociais, talvez seja preciso aceitar que a impermanência da atenção dos leitores é a nova regra, ainda que ao custo da própria transparência.


São Juéverson

Se houver justiça nesse mundo, no futuro, um dia de veneração será reservado nesse país brasileiro a São Juéverson.

Ele ainda santo não é, mas é questão de tempo para que se reconheça a beatitude dessa criatura de Deus.

Eu o conheço há pelo menos meia dúzia de anos, que é o tempo em que o vejo, no supermercado, do lado de dentro do balcão da fiambreria. Sempre a mesma placidez, o gesto imparcial, a correção platônica que o Juéverson oferece de bom grado aos clientes dos seus patrões que, não tenho dúvida disso, sequer suspeitam da sua existência.

Do Juéverson nunca ninguém ouviu um “Tá bom assim?”, diante a um deslize de microgramas nos fatiados. Ele corrige seus erros, coisa que a maioria das pessoas simplesmente não faz, quando intencionalmente não piora, sabe-se lá por que razão. E acerta as pilhas de muzzarela, presunto ou mortadela com a precisão de um robô e a delicadeza de um ourives.

Mesmo nunca tendo ganhado um elogio por isso, o Juéverson exibe aquela satisfação inatacável de quem está fazendo o certo pelo certo. Nem o nome esdrúxulo nunca foi capaz de lhe importunar o semblante sereno, mesmo quando clientes engraçadinhos erram por gosto a sua pronúncia, suprimindo o “u” intruso e o “v” trocado pelo “f”.

“É Juéverson mesmo! E eu adoro o nome que a minha mãe escolheu pra mim!”, ele diz sempre que indagado a respeito, sem nem suspeitar do assédio e da importunação embutidos ali ou fazendo parecer que não suspeita.

Aos “tira uma pouquinho”, “bota mais umas duas fatias”, “não, troca pelos daquela outra pilha ali”, “acho que eu não vou querer desse” e “eu não falei duzentas gramas?” de todo o santo dia, o Juéverson exibe sempre o seu sorriso impávido, de Gioconda. E continua o serviço sem nunca olhar para o tamanho da fila, mas plenamente atento à precisão das solicitações inacreditáves que lhe fazem.

No futuro ainda mais distante, se houver mesmo justiça no mundo, não se dirá mais “paciência de Jó”, mas “paciência de Juéverson”.

Mas e o milagre para ser santo? Devem estar fazendo contas os incréus…

Considere apenas que, mesmo em face do seu direito ao homicídio, ele jamais o cometeu. No meu, o critério é o bastante. Não por isso, há mais de 10 meses o Juéverson não erra um pedido. É mandar e pesar. Sempre na bucha. O que seria isso, inclementes, se não ajuda divina?

São Juéverson, residente desde o nascimento na Restinga, em Porto Alegre, filho da dona Mariana e do seu Zacarias. Funcionário na fiambreria do Zaffari há seis anos. Ficha limpa. Padroeiro do queijo laminado e da salsicha a granel.

Além do Rio da Prata

No tempo em que estive pesquisando e conhecendo um pouco mais a respeito dos povos originários do RS e do Uruguai, muitas vezes chegava até as bordas do Rio da Prata e ficava apenas imaginando no que a história da vizinha Argentina guardaria a respeito da relação com os seus próprios povos. Sabia que não era muito diferente da relação deste lado da margem, mas também sabia que havia algumas diferenças de monta.

A terra dos ranqueles, dos tehuelches, dos mapuches, dos querandies, dos pampas, araucanos, onas, kollas, diaguitas, tobas, rankulches, pilagas, m’ bias, chanas, mocovis e charruas também, entre outras etnias, é um universo gigantesco de culturas e histórias. O desconhecimento que temos a respeito da história e desdobramentos antropológicos das nossas próprias etnias dá a dimensão do que é a nossa ignorância quanto aos povos mais próximos a nós.

Mas só o que eu tenho certeza é de que tudo o que atribuímos de ruim aos argentinos é espécie de projeção às avessas do tanto ruim que nós mesmos somos por conta própria. E me parece que a cultura argentina é muito mais permeável e permeada por influências indígenas do que pelo menos me parece ser a rio-grandense.

Quando digo Argentina, penso na imensa nação para além de Buenos Aires, assim como penso no Brasil para além da ponte aérea Rio-São Paulo e como penso o Rio Grande do Sul muito maior do que dois ou três bairros de Porto Alegre. Não que, é claro, sua história não esteja menos recheada de massacres, violências, traições e apagamentos que a nossa. Mas há diferenças, muitas.

Esta imagem, por exemplo, parece vir de um certo Congreso de Aborigenes realizado por lá em 1920. Teria reunido pelo menos essas quase 20 lideranças que trataram, ao que parece, de decisões políticas cruciais, como a questão das reservas e direitos culturais, como o complexo direito de viver segundo os próprios costumes, coisas que o Brasil começou a pensar bastante tempo mais tarde.

No Rio Grande do Sul, em 1920, os indígenas – pelo menos os do pampa – já haviam se dissolvido por completo na miscigenação, isso aquela parcela que resistiu às doenças, guerras e mortes. E por aqui se abominava a ideia e o temor que rondou a Argentina até o terço final do séc. XIX, de que o país se transformasse numa espécie de “império inca” ao sul. O temor provinha de que boa parte das lideranças indígenas lá havia se educado com os franciscanos no período de Rosas e os nativos começavam a ter acesso a armas de fogo, além de um cacicado muito bem organizado militarmente e com fortes relações políticas com o caudilhismo. Foi o que culminou na deflagração da Campanha do Deserto, na qual pelos menos 30.000 indígenas foram massacrados pelo exército.

Mesmo assim, nas primeiras décadas do séc. XX o Estado argentino já reconhecia o direito de organização dos povos. Só isso é uma grande diferença em relação a nós, sem falar na influência direta na produção artística e cultural, muito mais significativa que, por exemplo, a rio-grandense. Essa relação mis direta levou a que recentemente fosse levado a julgamento a promoção de campanhas de massacre, como o de Napalpi, de 1924, o que acabou revelando um desastre da política de aldeamentos forçados e reduções.

Em 1920, não seria muito possível que mulheres participassem desses conclaves militarizados. Por isso não é de estranhar o absoluto masculino do cacicado. A relação dos indígenas do pampa e de suas mulheres é muito complexa e não pouco turbulenta, mas parece que houve, por exemplo, lideranças mulheres entre guenoas-minuanos, não sei se investidas no cacicado. Normalmente, as mulheres ocupavam mais posições religiosas. Hechiceras ou curandeiras, como La Minuana..


Agora, na Feira do Livro de Porto Alegre (27/10 – 15/11),
interessados em conhecer La Minuana poderão
encontrar o livro nas bancas da Livraria Érico Veríssimo
ou da Martins Livreiro. Comigo, tenho ainda alguns
poucos exemplares para venda direta que
podem ser adquiridos neste link: https://abre.ai/g6Bv

Homislobus

Nenhum lobo em sã consciência desejaria se transformar em homem e é por isso que existem lobisomens, mas não existem homislobus. À besta que nos observa parecemos ridículos e imaginativos, eu tenho certeza disso. Se tudo o que desejamos é uma justificativa para voltarmos ao estado de fera, ela já se encontra nesse estado e, mesmo assim, ao contrário de nós, consegue descansar entre os campos floridos ou no deserto sem o desejo de estar noutro lugar ou de disciplinar a natureza ou de que as flores durem o ano inteiro para satisfazer suas ambições.

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Não é por outra razão que apreciamos a companhia dos cães. Se os cães nos toleram é porque somos toleráveis, pensamos, e por isso eles estabelecem um critério de sociabilidade a que podemos acessar. A verdade é que são eles que nos permitem e a sua companhia é que nos pacifica e dociliza, e não o contrário.

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Não somos homislobus. E felizmente os lobos estão livres de que possamos verdadeiramente parecer a eles e também de que eles possam se transformar em qualquer coisa parecida a nós.

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Nós somos a espécie que estabelece as normas pelas quais podemos matar uns aos outros. Nós somos retaliadores naturais, um comportamento dissonante na natureza.

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A seleção natural e a evolução (ou Deus) possivelmente nos trouxeram a isso e por isso ficamos embaraçados ainda hoje. Mas não é mesmo embaraçoso?

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O mesmo homem que se emociona pela beleza deixa-se levar pelo ódio. A força lhe arrasta desde os músculos, movida pelo homo demens que trás dentro de si. Irresistível é a vingança, é o sectarismo, é a divisão entre as tribos dessa espécie.

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Com as alcateias é diferente. Sua sobrevivência segue regras não ditas nem escritas e nem por isso parecem ter menos compaixão do que dedicamos uns aos outros.

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Porque sofremos a violência, a única forma de a expurgarmos de nós é cometendo mais violência. Nesse ímpeto, nada nos freia, nem o desejamos, pelo contrário, desejamos mais força para cumprir o desígnio que nos confiaram e do qual estamos sempre cegamente convencidos. Nós não conseguimos questionar essas coisas. Pedimos aos deuses e ancestrais que nos ajudem nesse propósito. Essa é, por exemplo, a mensagem da Ilíada, que atravessa os séculos intacta. Não é honra e nem muito menos justiça o que pedimos aos deuses ou seus equivalentes, pedimos para que nos vinguem e que não demorem e poupem nossas crianças, somente as nossas.

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Se homo homini lupus fosse mesmo verdade, nunca teríamos chegado a tanto e tão raso.

Monsters: a fan’s dilemma

Estou começando a ler e vou achando meio injusta a acusação de que o livro de Claire Dederer seja uma espécie manual de cancelamento. Ele é muito superficial e rápido em abarcar a “monstruosidade” de muitos artistas geniais e o desgosto que costuma acompanhar quando se começa a conhecer detalhes parciais de suas biografias, mas é muito interessante porque estimula a reflexão. Seria até engraçado que fosse ele mesmo um livro “cancelado”..

Motivada pelo movimento espontâneo de “tacar no lixo” os livros de Woody Allen pós Soon-Yi, a autora foi colecionando numa reflexão pessoal exemplos de comportamentos complicados, moralmente reprováveis, preconceitos mais ou menos escancarados e até implicações política e criminalmente mais sérias, envolvendo racismo e o anti-semitismo que povoou de modo marcante a mentalidade do mundo na primeira metade do séc. XX.

No livro, passeiam momentos às vezes mal explicados e controversos de declarações, correspondências, entrevistas nas quais nossos gênios diletos amargaram seus momentos mais cruciais de mediocridade humana. Curioso ou não, via de regra essas situações costumam extrapolar e fugir às obras e não infectá-las. Nisso, eu lembro da famosa citação de Ferreira Gullar, de que a arte existe porque a vida não basta e, nesse caso, talvez fosse interessante validá-la em seu sentido oposto também.

O livro é fácil de ler, ensaio fluído, mas é duro de confrontar diretamente com o canône em seu momento mais infeliz. Porém o livro é desse detalhismo mesmo, feito desses closes que agridem o juízo moral hipersensível da contemporaneidade. Eu ainda não cheguei no ponto em que ela analisa as obras controversas de autores como Nabokov, mas parece que ela é bastante cuidadosa ao analisar as obras por si só. No caso das pessoas e respectivas biografias, ela não tem a mesma condescendência e dá nome aos bois e às patologias que os afligem.

O que eu acho de proveitoso até aqui no seu livro é a sua consideração de que é natural que, ao encontrar o leitor, o texto se transforme. E que o leitor, ele mesmo não é uma folha em branco que vai assimilando a obra sem reflexão e, sim, a autoria extrapola o texto e é implicada pela biografia. Quer dizer, de acordo com ela não há como setorizar a leitura e fazer automaticamente essa “separação” entre obra e autor. Pode ser apreciada por si só, mas simplesmente o estofo e conhecimento do leitor quanto ao autor interfere inexoravelmente nessa relação quanto mais informação se tenha a seu respeito.

Outra coisa que ela considera, e eu concordo, é que os leitores têm as suas questões existenciais e psíquicas e não faz sentido exigir que as desconsiderem na leitura. Quer dizer, o leitor é também um sujeito moral e cada um tem seu ponto fraco, do qual não é facilmente demovido. Exigir que pessoas que por situações de abandono na infância, racismo ou violências não se manifestem porque se trata de gênios é no comportamento comunicativo contemporâneo algo inconcebível. Nesse ponto, eu mesmo tenho repulsas viscerais (por exemplo Neruda e Arthur Miller). Provavelmente você tenha, por outras razões particulares, as suas também.

Sem tradução no Brasil por enquanto, por aqui também temos autores que vêm sendo discutidos sob esse viés do cancelamento, vide Monteiro Lobato. Eu não comungo em hipótese alguma com a atividade canceladora nem acho que a vida e a posição política mais abjeta inutilize o artístico (pois teríamos de questionar não apenas Céline, mas muito mais candidatos ao status de monstro público), mas acho importante entender que a cultura do cancelamento, afinal, diz respeito à cultura e comportamento comunicativo de que dispomos hoje. As câmeras de vigilância estão nas ruas filmando nossos passos, mas miram também as consciências. Os telefones (e quem trafega por eles) já escutam os nossos pensamentos.

Antropofagia e dissimulação da identidade indígena no RS

Los ultimos charruas – Edmundo Prati, Gervasio Furest e Enrique Lussich

Na imagem abaixo, não estão altivos como na escultura acima, instalada no Parque do Prado, em Montevideo, ou nas pinturas de Jean-Baptiste Debret, nas quais se parecem a guerreiros de um exército bárbaro prestes a sitiar Roma. Pelo contrário, a fotografia de data, proveniência e modelos incertos inspira mesmo é piedade pela imagem acanhada de uma família sendo transportada no que parece ser um navio sob a observação de uma pessoa de aspecto europeu, branca, talvez um militar ou tripulante.

Imagem de autoria e data desconhecidas
Chef de charrues sauvages – Jean Baptiste Debret

Às duas se atribuem figurar imagens dos “charruas”, mas a minha impressão é de que nenhuma das duas representa a realidade. Uma é ótima; a outra, péssima.

Este, aliás, é um problema imenso em relação às etnias originárias do sul: de qual realidade estamos falando ou podemos falar? Como distinguir entre descrições e documentos pouco esclarecedores do que desejamos representar?

Outra imagem muito associada aos últimos charruas parece corresponder, na verdade, a indígenas aprisionados no alto Amazonas. Uma imagem deprimente principalmente se confrontada às principais características consagradas àqueles povos: valentia, bravura, etc, etc, etc. 

Artefatos de melancolia, objetos políticos – diria Susan Sontag.

Imagem de autoria e data desconhecidas.

O que me parece curioso, todavia, é que essa antítese, o par “herói histórico”/”vítima histórica” às vezes não constitui uma oposição, mas muito mais uma confirmação. O herói sendo vitimado e seu estatuto que advém da glória fatal do seu sacrifício.

O pareamento não consiste uma novidade. Enquanto vivos, raramente os mitos desfrutam dos privilégios gozados por seus representantes e sacerdotes post mortem.

Em oposição, não são poucas as personalidades póstumas que em vida sentiram na própria pele o aspecto menos glamouroso da fama. Perseguidos, presos, torturados, assassinados com requintes de crueldade, é mal esfriar a cadeira e logo são alçados a heróis, semideuses, mitos. O fenômeno, além de universal (ocorre em todas as nações e culturas), parece atravessar também os tempos.

Passados quase duzentos anos de sua desaparição enquanto etnias autônomas, o incremento do culto aos povos desaparecidos do pampa, por outro lado, não cede. É um culto ao vazio, como são todos os cultos. Culto ao seu desaparecimento. E mantê-lo de certo modo nos incute a noção de que habitamos um território povoado por fantasmas exóticos, muitos dos quais descendemos e nos cai estranho muitas vezes esse reconhecimento porque somos o produto da sua diluição e compartilhamos dessa dissimulação tanto genética quanto existencialmente.

* * *

Apesar de não contar com sequer uma imagem pública, uma escultura, uma pintura, um livro, a insígnia do indígena cavaleiro é uma imagem mais do que difundida no Rio Grande do Sul. Encontram-se, pois, no nome de produtos e estabelecimentos comerciais às dezenas, os termos “Charrua” ou “Minuano”.

Caixa de sabão em pó minuano
Rótulo do guaraná Charrua

No vizinho Uruguai, em que pese suas próprias dificuldades políticas e culturais em relação à memória indígena, este vazio de representação é muito menor. No Museu Histórico Nacional en Montevideo, as imagens em bronze dos caciques Zapicán e Abayubá, e em outros monumentos públicos, estão incluídos e visíveis os povos originários. Nas artes visuais em geral, principalmente no trabalho de Juan Manuel Blanes, o indígena pampiano comparece em sua dimensão original, da vida nos toldos e nos campos.

Cacique Zapicán – Nicanor Blanes
Cacique Abayubá – Juan Luis Blanes

Mesmo assim, também por lá o paradoxo de representações já foi levado ao extremo. Na deportação a Paris dos “últimos charruas” via-se o quarteto Senaqué, Tacuabé, Guyunusa e Vaimaca Perú como exemplos dos selvagens ameríndios, logo da sua deportação, representados numa feição heroica e ricamente trajada enquanto, na realidade, os indígenas definhavam doentes e encarcerados durante a exibição do Le Musée des Familles, depois num circo popular e dali até o momento de sua morte.

Group des indiens charrua – M de Corel
Los sauvages Charruas – Ches Aubert

São homenagens e signos sobretudo estranhos, porque não se pode saber exatamente a quem são prestados ou se referem a que condição. De alguma forma, a sua é uma ausência presente e, além das investidas culturais, busca-se há pelo menos dois séculos recuperá-la e reinseri-la nos valores identitários dos povos que em determinado momento tomaram o seu desaparecimento como resolução de Estado. É mais que uma incoerência histórica, é mesmo uma violência simbólica, uma antropofagia da qual por muito tempo, aliás, se imputou aos nativos, como o escalpelamento na América do Norte, mas essa presumivelmente mais real e próxima a nós.

Do ponto de vista estético, foi a arte de feição romântica quem veio nos países latinos oferecer ao pensamento dominante no século XIX, evolucionista e positivista, uma solução cultural para o problema.

Do vazio produzido pelas campanhas de extermínio desaparecerão imagens e vestígios que também detratem a violência desse encontro. E o indígena regressará milagrosamente vitorioso, fazendo desaparecer o horror da realidade. Para tudo, uma visão simplória da “seleção natural” e a religião positivista devota ao progresso satisfaziam a sociedade da época e, nesse esquema intelectual, estabeleceu-se outra relação paradoxal opondo barbárie e civilização nos mesmo moldes de Sarmiento, na Argentina, a extinção charrua com Zorrilla de San Martín e toda literatura que sucedeu ao trabalho liderado por Apolinário Porto Alegre no Rio Grande do Sul fixando o mestiço gaúcho e não o indígena como nossa figura seminal.

Capa de Facundo
Capa de Tabaré
Capa de O Vaqueano

Pereceram pela sua virtude e bravura, é o que ecoa, como se oferecer-se à morte voluntariamente pudesse constituir um ambição humana plausível. “Temerários” a ponto de, ao integrarem exércitos de cá ou dos domínios da coroa espanhola, posicionarem-se sempre à frente das cargas de cavalaria, é o que igualmente se costuma dizer.

Essa me parece ser mais uma narrativa explicativa, como se quisesse significar que morreram em razão do modo como viviam e guerreavam. E que mereciam morrer porque não saberiam viver de outra forma, em acordo com os colonos que trataram e comerciaram diretamente com as parcialidades por mais de duzentos anos, enquanto estrategicamente lhes foi oportuno. Em face dos morticínios recuperados e documentados por mais de vinte anos por Eduardo Acosta y Lara, pode-se dizer que esta é uma peça de ficção covarde e absurda.

Eduardo F. Acosta y Lara
Capa de La Guerra de los Charruas

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Mas antes de prosseguirmos, há que se compreender melhor o fascínio que o passado exerce no presente. Como identificamos com facilidade no presente lacunas e falhas culturais, os “rastros psíquicos” de que nos falava o filósofo Paul Ricoeur, o passado nos serve perfeitamente bem para ocuparmos inclusive com o que os nossos antepassados deram causa e sem nunca fazer questão de ocultá-lo. Para Marshal Sahlins, ao ser recriada, a cultura transforma a história dinamicamente, inclusive o presente. Na mentalidade rio-grandense, o credo positivista preponderante sempre exigiu uma ideia de progresso que inferiorizasse o passado. Em primeiro, o próprio gaúcho surge como superveniente ao indígena, como uma necessidade fatal; em seguida, o mesmo gaúcho é inferiorizado pela presença do imigrante europeu.

Há uma boa dose de vulgaridade quando convertemos o passado aporético, nebuloso, numa fantasia que nos beneficia no presente. É uma narrativa ultrajante da qual poderíamos de pronto recusar a participar e assumir que padecemos dos mesmos vazios nos quais encontramos (e deixamos) os demais. Seria preciso uma espécie de esforço, como ensina Koselleck, para assumir essa irracionalidade e subsumir na fluidez do tempo histórico que arrancamos aos povos originários, além de sua vida e memória. Poderia ser essa, talvez, uma das únicas formas de voltar a partilhar aquele tempo com menos presunção e mais humildade e respeito autêntico.

A situação torna-se problemática quando, por mais que se deseje abrir registros, documentos e a historiografia, mais se torna inviável uma definição do conhecimento do passado.

Como seria mesmo a fisionomia dos charruas ou guenoa-minuanos? A arqueologia antropológica pouco nos ajuda. Sabe-se que, em sua maioria, minuanos e charruas descendiam dos povos “patagones” que, ao subirem em direção ao Gran Chaco paraguaio e encontrarem-se ao tronco aruaque, transformaram-se nos guaicurus. Não é por outra razão que os indígenas “pampas” argentinos e guaicurus paraguaios costumam ser exibidos com a mesma indumentária e instrumental que os dessa vizinhança.

Dos povos que se fixaram às margens do rio Uruguai por sua vez descenderam charruas e minuanos, que guardavam entre si diferenças fenotípicas e culturais, até que em seu desfecho praticamente podiam ser considerados um só grupo, charrua-minuano.

Tatuagens nos charruas e minuanos – Antonio Serrano

Cerca de trezentos anos passaram-se anos desde que os europeus haviam chegado à América e esse contato teve uma dinâmica muito própria, de intercâmbios culturais e genéticos inclusive com outras etnias, tais como os guaranis, chanás e caingangues. Todavia não se costuma associar a imagem dos pampianos aos indígenas do tronco tupi, como se houvesse aí qualquer noção de pureza étnica documentadamente inexistente, pois, no grande laboratório das missões, parcialidades e etnias fundiram-se largamente constituindo no que os historiadores uruguaios costumam denominar por charruas-minuanos, ou seja, o povo das tolderias.

Ao contrário do Uruguai, cuja identidade nacional foi calcada numa visão romântica dos indígenas, o Rio Grande do Sul parte de um pressuposto inteiramente colonial, açoriano a partir do sul (Rio Grande) e paulista a partir das bandeiras vindas do norte.

No Uruguai, todo um esforço de simbolizar o indígena resultou em diversas obras literárias e plásticas. Juan Manuel Blanes, o pintor da identidade “oriental”, trabalhou na figura da mulher indígena diversas vezes, mais notadamente em El ángel de los charruas. Mas mesmo Blanes representou uma idealização “realista”, já que ele os pintou muito após o desenlace histórico de Salsipuedes, episódio histórico traumático na vida do vizinho Uruguai.

El ángel de los charruas – Juan Manuel Blanes

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A estética do desaparecimento, termos de Paul Virilio que o antropólogo José Basini recuperou e fixou no seu trabalho, é um projeto de prazo indefinido. Por que se haveria mesmo de procurar e preocupar-se com vestígios de povos extintos? Que cuide disso a arqueologia. Pois essa presumida “extinção” pode ser muito bem considerada como um esforço político também de prazo indeterminado. Melhor que assim fosse assumida e não teríamos tantas mistificações.

No tempo de Fructuoso Rivera, idealizador e executor do massacre de Salsipuedes, isso era claramente assumido, mas a literatura de feição romântica logo tratou de totemizar o indígena. E tudo sobre o assunto virou passado.

Ora, quanto mais nos deslocamos à arqueologia, menos contato firmamos com o presente. A exigência do passado, da forma pela qual a explica o historiador italiano Paolo Rossi, nos impele à edificação de narrativas e de uma literatura em condições de preencher o lapso de continuidade que nos fixa à ancestralidade aborígene, mas ao mesmo tempo nos debita dos valores aqueles anteriormente consumidos na antropofagia.

No Rio Grande do Sul, a voz popular corrente admite com ressalvas que a miscigenação ocorreu por meio de uma relação de apresamento, redução e violência. Da mesma forma que num contra-veneno, parece inadmissível, por inoculação ideológica, presumir-se que relações humanas tenham acontecido ao natural em dois séculos de convivência de muita mobilidade territorial. A inserção do cavalo no pampa não apenas produziu uma legião de temíveis guerreiros, mas a possibilidade de se vencer longas distância em tempo muito razoável.

A cartografia produzida por religiosos missioneiros e militares é abundante no sentido de comprovar que as parcialidades migravam – e não pouco – entre o que é hoje território brasileiro e uruguaio. Desse contato, portanto, é muito possível deduzir que nem todos os filhos mestiços do europeu e do indígena tenham sido produtos do estupro de mulheres indígenas. Mesmo sabendo de contradições tais como estas, a ideologia nos faz seletivos e insensíveis ao que ocorre fora do seu abrigo e, de repente, não sabemos mais nos movermos fora dessas ideias circulares.

A despeito disso, a relação de parentesco histórico com os remanescentes indígenas e um respectivo sentimento de orfandade sempre costuma nos aparecer, como uma sombra inarredável que ocupa bastante espaço na investigação cultural quanto aos gaúchos.

É como se um “guaxismo” fosse inerente ao gauchismo, isto é, uma origem que parte de uma desestrutura social e afetiva.

Nesse aspecto, pesquisa recente realizada no campo da continuidade genética foi desenvolvida na região do pampa e, constatada uma relação direta de ancestralidade, buscou-se reestabelecer o parentesco e o laço simbólico com charruas e minuanos (Bortolini, 2019). O que poderia ser mais sintomático do que uma pesquisa a nível de DNA, cromossômica, para certificar de que se trata de uma memória que se dissolveu e dissimulou quase completamente no séc. XX?

No entanto, como não há pesquisa pacífica e nem definitiva, a antropologia também passou a investigar os resultados da pesquisa sobre diluição genética, concluindo que o apressamento nas conclusões, rapidamente difundidas na imprensa local, trazia um certo viés de confirmação preponderando a reapropriação do caráter positivo dos indígenas, num novo ciclo de antropofagia simbólica.

Reportagem do jornal Zero Hora
Reportagem da Folha de São Paulo

Ao contrário do que no Uruguai historiadores e antropólogos procuraram afirmar, o “charruísmo” como uma deformação antropológica passadista, quer dizer, a ideologia subjacente à revalorização das etnias originárias, no Rio Grande do Sul o fenômeno assume uma fisionomia diferenciada.

Por aqui, busca-se a apropriação simbólica, mas sem o correspondente esclarecimento histórico. Deseja-se o benefício simbólico de uma relação eivada por problemas de toda a ordem e obliterada até mesmo na literatura, contribuindo dessa forma com a extinção da capacidade popular de evocação. Na comunidade superveniente, de feição europeia, instala-se o preconceito denegativo na qual o valor da ancestralidade é firmado num pacto de dissimulação. Participar dessa dissolução não requer muito, é suficiente contribuir na proliferação de mais ideologia e mistificação. No entanto, caso se deseje o contrário, corre-se o risco de se parecer meio “apressado”, mas vá se contar direito para perceber que já passaram três centenas de anos.


Bibliografia mencionada

ACOSTA Y LARA, E. F. 1961. La guerra de los charrúas en la Banda Oriental. (Período hispánico – Período Pátrio, eidción facsimilar con prólogos de Aníbal Barrios Pinto y Oscar Padrón Favre). Montevideo: Ediciones Cruz del Sur, 2021.

BASINI, José. Índios num país sem índios. A estética do desaparecimento: um estudo sobre imagens índias e versões étnicas. Manaus: Editora Travessia/Fapeam, 2015. 520 p

Gumbrecht, Hans Ulrich (Org.), Koselleck, Reinhart, Thamara de Oliveira Rodrigues(Org.) Uma latente filosofia do tempo. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 164 p.

Porto Alegre, Apolinário. O Vaqueano. Porto Alegre: Movimento, 1987. 104 p.

Ricouer, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. 535 p.

Rossi, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento: seis ensaios da história das ideias. São Paulo: Editora UNESP, 2010. 238 p.

Sahlins, Marshall. Ilhas de história. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. 217 p.

Sarmineto, Domingo Faustino. Facundo, Ou Civilização e Barbarie. São Paulo: Cosac & Naif, 2010. 512 p.

Sontag, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 224 p.

Werb, Elton. Os charruas vivem. Zero Hora. Porto Alegre,18 ago. 2003.

Zoriilla de San Martin, Juan. Tabaré. Buenos Aires: C. Dupont Farré, 1955. 254 p.

Joyce Carol Oates e a reivindicação do mal

Depois que li “Levo você até lá”, romance de formação semiautobiográfico de Joyce Carol Oates, fui tomado por uma febre oatesiana. O que me passava pela frente com o seu nome eu fui lendo, inclusive alguns livros que ela tinha assinado apenas a introdução, como o Jane Eyre de Charlotte Bronte e os poemas de “American melancholy” que não sei porque não temos uma edição traduzida no Brasil.

Sempre que eu mesmo me vejo na situação de apensar “escritor” ao meu nome eu lembro-me dela e dou uma vacilada. Oates tem uma produção impressionante. Há anos em que ela publicou três livros, entre novelas e contos de sua autoria ou de seus dois pseudônimos. Livros que são calhamaços, de 500 páginas para fora. Não sei quantos livros seus foram traduzidos e publicados no Brasil, mas me parece que quase duas dezenas de uma obra com mais de 120 títulos.

De longe, “A fêmea da espécie” é o livro com a capa mais repulsiva que tenho por aqui. Se a ideia era transmitir uma figura feminina pérfida, no entanto, tenho que admitir que ela é perfeita. A diagramação também é estranha, espremida em margens de, no máximo, 1 cm. Em cada conto, uma pequena ilustração em preto e branco meio borrada. Parecem imagens de carimbo mal carimbado, com tinta sobrando ou faltando.

Eu não tenho os demais livros da “Coleção Negra”, pela qual saiu o livro em 2008 (nos EUA saiu em 2005). São livros noir e hoje, em face da questão étnica, duvido que a Record usasse o termo traduzido. E o livro mesmo traz uma abordagem pouco convencional do feminino que é mais publicado contemporaneamente. Não é um libelo, é um livro de contos e neles as mulheres surgem quase sempre num papel ativamente maligno, amoral ou tendendo ao criminoso.

Não sei exatamente que programa tinha Oates nesse livro, se desejava combater ideias ou, enfim, situações comportamentais que vivia nos EUA na época em que os contos foram escritos, mas é um livro muito ousado e inquietante. Feminista? Me parece que sim, principalmente por assumir a integralidade do caráter humano das personagens femininas, com as violências recebidas e também as praticadas. Ou o que impediria as mulheres de se tornarem tão pérfidas quanto os piores exemplares masculinos? Para Oates, como se vê em seu livro, nada absolutamente.

Nesse livro, nada disso de um desfile de boas condutas e práticas exemplares. O que se encontra são mulheres, às vezes meninas, envolvidas em ardis, desejos mórbidos, impulsos e condutas psíquicas que Oates, uma autora que costuma enfrentar o psiquismo de seus personagens de forma desarmada, não faz questão de dissimular. Mesmo no limiar da contravenção e do crime, nos contos do livro as personagens são exploradas de forma que não se apele à simpatia do leitor, mas se respeite suas personalidades, por mais repulsivas que possam nos parecer.

Em alguma medida, o livro é mesmo uma coleção de alegorias do mal pelo mal, do mal sem necessidade nem atrelamento causal. É como se a expressão “mal necessário” em seus contos encontrasse uma extensão diacrítica e o mal, desnecessário, ainda assim pulsasse e justamente na “fêmea da espécie”. É uma radicalização extrema do desejo de igualdade muito menos maniqueísta e esquemático que os livros-denúncia que tem fartados as prateleiras das livrarias nessa época em que estranhamente a qualidade da leitura determina a qualidade da escrita.

Livro de outro tempo, esse, no qual os lugares sociais estão embaçados de forma muito realista. A argentina Ariana Harwicz (da “trilogia do amor”) deve ter devorado o livro muitas vezes. A capa é mesmo horrorosa, dela eu ainda prefiro “A filha do coveiro” e “Levo você até lá”, mas é um belo livro. Que não se julgue-o pela capa.

Um inédito Aureliano de Figueiredo Pinto

Artigo publicado na 10ª ed. da Revista Sepé

Possivelmente não exista na poesia rio-grandense livro tão inédito quanto foi Itinerário – poemas de cada instante (1998), de Aureliano de Figueiredo Pinto.

Aureliano não apenas não o publicou em vida como tratou de garantir que o caderno de manuscritos não fosse conhecido até que ele mesmo e sua esposa não vivessem mais. Mesmo assim, ainda levou cerca de 40 anos mais (Aureliano morreu em 1959) para que o filho entregasse os originais para publicação, aos cuidados do Prof. Carlos Jorge Appel, da editora Movimento.

Na página frontal do manuscrito, uma misteriosa dedicatória rasurada indicando a quem o livro seria dedicado, mas cujo conhecimento parece ter ficado mesmo restrito à família. 

Se a informação perdeu-se ou se desvaneceu no tempo, o mesmo não se pode dizer dos poemas do livro. Ainda assim, ao contrário dos outros livros de Aureliano, até hoje Itinerários não teve público para uma segunda edição. Isso talvez se explique um pouco pela temática rural dos outros livros que, no Rio Grande do Sul, até há bem pouco significava a garantia de um bom público leitor. Os versos de Romances de Estância e Querência (1959) e do póstumo Armorial de Estância (1963) foram popularizados por diversos cantores e folcloristas, especialmente nas gravações de Noel Guarany, em 1978, no bojo do movimento nativista, fortemente inspirado, aliás, em sua poética.

Romances de Estância e Querência foi o único dos livros que Aureliano chegou a ver editado; saiu pela Globo e o filho levou até São Paulo, onde ele buscava recursos e tratamento, os primeiros exemplares para que o pai conhecesse. Memórias do Coronel Falcão é póstumo (teria sido escrito no final da década de 30) e foi publicado em 1973. Acabou sendo reunido aos demais romances realistas de 30 publicados à época em que foram escritos, como Sem Rumo de Cyro Martins, Xarqueada de Pedro Wayne e Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

Quando publicado na década de 90, não se imaginava que o médico e intelectual discreto que Aureliano foi tivesse produzido versos daquele qualidade lírica e intensidade erótica. Primeiro, seria de pensar que, caso houvesse material inédito, seriam poemas que continuassem a temática dos seus dois outros livros anteriores, com motivos rurais. Segundo, a guinada lírica um tanto quebra em pedaços o estereótipo de que um poeta que tenha se celebrizado pela “cor local” não possa alcançar os temais universais, como o amor, o erotismo, reflexões existenciais quanto à vida e finitude humanas.

Como em vida Aureliano não esteve em busca de publicação ou reconhecimento e sua obra seja praticamente toda póstuma, a crítica literária o alcançou tardia e parcamente. Basta dizer que as duas mais extensas apreciações publicadas ainda são as mesmas dos anos 80, quando o falecido escritor Luiz Sérgio Metz realizou e publicou para a coleção Esses Gaúchos, da editora Tchê um livreto dedicado a ele, em 1986, e a professora Helena Tornquist produziu para a coleção Letras Rio-Grandenses, do Instituto Estadual do Livro, um caderno especial, em 1989. Ambos os trabalhos têm o mesmo titulo: Aureliano de Figueiredo Pinto.

Apesar disso, nos também já anosos volumes da história literária do Rio Grande do Sul seu nome comparece muito mais associado à poesia regionalista. A despeito de ter uma “realização grande”, conforme o assinalado por Luís Augusto Fischer, os poemas líricos de Itinerário não contam nos mais difundidos livros de história literária com uma apreciação correspondente, bastando que se o situe entre o simbolismo ainda muito praticado no Rio Grande do Sul dos anos 30 e as inovações formais modernistas que ele aproveitou mais, curiosamente, na poesia de inspiração rural.

Como Itinerário vem a público no final da década de 90 e tais trabalhos são praticamente da mesma época, essa parte de sua obra permanece mal reportada. No tocante à sua lírica, Aureliano se arroja em conteúdo ao mesmo tempo que se contém nas formas mais tradicionais da poesia simbolista e neo-parnasiana. Um dos mais extensos artigos produzidos a respeito da literatura de Aureliano, publicado em 1974 pelo Prof. Guilhermino Cesar, por exemplo, ignora a existência dos poemas de Itinerário. No artigo, Guilhermino reconhece o caráter reservado do poeta e lamenta que não tivesse até então se registrado em sua obra “uma descida mais vertical à paixão do homem”.

Os versos a seguir demonstram bem que o poeta, afinal, cumpriu o desejo de Guilhermino, porém de forma inédita, sem que o mesmo pudesse sabê-lo:

XI

A água que eu bebo tem o gosto do teu beijo;
a manhã lembra a luz pagã do teu sorriso.
Sugere a névoa o vago olhar, longe, impreciso,
de quando aplacas, fina e langue, o teu desejo.

A asa que passa, no céu alto, em vôo andejo,
lembra o teu gesto arisco em sutil sobreaviso.
E, na árvore alta e fina, e na flor do paraíso, :
tendo-te toda em mim, sempre em tudo te vejo.

Bruna e pálida, alta e trêmula, os cabelos
cheios da escuridão das noites em que amamos!
— Sinto-te no meu sangue em tumultos e apelos.

Em tua leve silhueta o mundo se resume.
E quando, sem encontrar-nos, nos buscamos,
ruge em minha alma em sombra a alma do teu perfume.

Em que pese sua aparição apagadiça, a obra de Aureliano vem sendo estudada mais ou menos diretamente. Em sua maior parte, seu nome é citado co-lateralmente em trabalhos que problematizam o romance de 30. Por ele referir-se mesmo em sua lírica a elementos de sua vivência em remissivas geográficas (como ao “vento pampeiro”) parte dos poucos trabalhos dedicados a ele notam em sua lírica póstuma a marca indelével do regionalismo, como uma chaga fosse, como se isso anulasse o alcance universal de sua visada lírica, a meu ver uma apreciação contaminada de preconceitos.

Embora nos anos em que estudou Medicina em Porto Alegre tenha tido um convívio próximo aos escritores que viveram o fervor modernista rio-grandense, nos cafés do centro e em torno da Livraria do Globo, Aureliano logo que pode retornou à Tupanciretã e lá estabeleceu-se como clínico-geral, interrompendo as publicações que fez por meio de periódicos como a Revista Kodak, que circulou entre os anos de 1912-1920.

Paradigma de um autor verdadeiramente reservado, Aureliano de Figueiredo Pinto por muito pouco não passou completamente despercebido pelas gerações suas posteriores. No caso, ele teve um dos filhos que se preocupou em não deixá-lo cair no oblívio completo e a sorte de um editor preocupado em recuperar e conservar a memória literária do Rio Grande do Sul sem qualquer preconceito temático, linguístico ou de procedência.

Charla colona

De um armazém de esquina ao qual era enviado, criança, a buscar qualquer coisa de emergência para o almoço, guardo nítida a memória de um gringo emigrado para a fronteira que tomava de uma folha de papel pardo de uma pilha e fazia um embrulho expresso apenas torcendo os cantos da folha quadrada. Sem durex nem fita crepe. A habilidade do comerciante em acomodar daquela forma ovos, batatas, cebolas, qualquer coisa, ainda hoje me parece espantosa. Como conseguia? Nunca entendi, ele apenas fazia. Just do it, como diz o lema da Nike.

A capa rústica, semelhante àquele embrulho, do recente livro do Gustavo Matte e do Paulo Damin, Édipo na colônia (Humana, 2023), não deixa ver a quem se impressiona do livro mais pelas artes gráficas a fartura de reflexões que a brochura traz em seu interior. Mas não se pense que a capa do seu livro é um recurso estético com efeito impressivo. Não! Eles me garantem que se trata de mera economia, os carcamanos. Economizaram no design e o papelão, garantem, é menos ecocida que os papéis clorados, emulsificados e plastificados que há por aí.

Mas sejamos menos ofensivos, certo. Não cai bem numa resenha depreciar os autores com preconceitos tão baixos. Não são carcamanos os autores deste livro que me parece pertencer a um gênero pouco difundido, o ensaio epistolar, são eles dois amigos escritores de longa data e grande honestidade que, pela distância, trocam muitas mensagens por escrito e daí, quase naturalmente, propiciou-se o formato em questão.

Organizado em questionamentos e réplicas redigidos por email ou áudios transcritos, o livro se presta a muito bons debates acerca da antropologia cultural “colona”. As mensagens tratam também de muitos assuntos correlatos, especialmente literatura (a deles mesmos e a dos demais), mas o que transparece para além de tudo é um conflito de identidades de quem, proveniente de um ambiente cultural rígido decide-se a pensar sobre isso tudo de uma forma ao mesmo tempo dura e afetiva. Como sabemos, isso só é possível mesmo a quem compartilha, mais do que impressões e leituras, afetos comuns.

À primeira vista, a disposição dos autores é a de enfrentar uma “parede”. No livro, muitas vezes definem o povo serrano nessa compleição psíquica muito característica, de acordo com eles, pouco maleável. Em Caxias do Sul, onde vive o Paulo, e em Chapecó, onde está o Gustavo, dizem eles que a pessoa se define na vida basicamente pelo comportamento familiar e pelo nível de sua dedicação ao trabalho. Para o mais – belas artes, cultura, etc – haveria um interesse apenas incidental.  Desse estranhamento com a origem e a situação de quem pensa a respeito dela surge, afinal, uma redescoberta do que significa ser “colono” e como isso se relaciona com suas representações artísticas, a realidade do Rio Grande do Sul e do mundo.

Nesse ponto, cumpre um esclarecimento de cunho regional, útil sobretudo a quem tem uma visão pouco nítida da microgeopolítica rio-grandense.

Engana-se quem imagina que, no Rio Grande do Sul, a serra consista, por exemplo, no oposto da campanha e da fronteira. Não só não são opostos como também não se complementam. Não faz sentido, mas é isso mesmo. A rigor, uma não tem nada com a outra e é por isso que pesa um exagero a generalização do nosso gentílico e suas características culturais mais genéricas, sejam as depreciativas ou ufanistas. A serra tem seus próprios dramas identitários que se inscrevem no grande drama do gauchismo amplo senso. Não vamos confundir as coisas.

Não é um exagero a afirmação de que há muitas fronteiras no microcosmo do Rio Grande do Sul. Há enclaves e essa definição eu roubo do Paulo e do Gustavo, que a utilizam muito apropriadamente para descrever a presença dos imigrantes italianos e alemães no Rio Grande do Sul e a cultura serrana. Ora, para quem já andou nos quatro cantos do estado, é bem simples a identificação de grupos étnicos e situações culturais bastante heterogêneas e tão distintas quanto os pontos cardeais, quiçá os colaterais. Não havendo felizmente qualquer reincidência belicista entre nós mesmos, isso é de uma riqueza muito grande e, a despeito dos conflitos, costuma gerar movimentos culturais dinâmicos, casamentos, etc.

Polêmicas à parte e voltando ao que interessa, o importante mesmo é dizer que o formato epistolar de Édipo na colônia é extremamente atrativo à leitura. Nessa época de voyeurismo oficializado, no qual todo mundo vê o que as pessoas se escrevem, resta um sabor especial de invasão de privacidade. Sim, porque o que as pessoas mostram em público nas redes sociais quase sempre o que é de interesse privado e às vezes guardam para si o que seria de interesse público. Daí a necessidade de um livro como esse, no qual os autores gozam de liberdade e intimidade suficientes para dispensarem pudores inúteis e abusarem da sempre necessária sinceridade. É de aproveitar o ensejo.

Como egresso do interior, muitas vezes me senti irmanado nos mixed feelings declarados pela dupla em relação à serra. Apesar de vir da fronteira, o sentimento é praticamente o mesmo. Não pode amar sua terra quem em algum momento não a odiou com todas as forças. Quando o Paulo fala que deseja se “desembaraçar de certas coisas colonas que se agarraram em mim”, a vontade que me dá é de largar o chimarrão, abrir uma grappa de rosca, e beber com eles os dois esse desencanto, brindando sua impossibilidade até aceitar que, afinal, o melhor possa até ser suportar esses traços que se manifestam involuntariamente no falar, no comer, no agir, enfim, no ser.

Até  poderíamos abrir espaço para os outros assuntos cruciais que eles discutem com seriedade pétrea (como a relevância do minifúndio na sustentabilidade, Sófocles, o romantismo alemão, frio insuportável, calor insuportável, colonialismo europeu, colonismo gringo, qualidade do vinho e da pinga, etc.), mas o esporte preferido do interiorano é falar sem culpa da terra de origem até o ponto do arrependimento.

Eu diria que a leitura do seu livro é mais que tempo bem empregado, é quase diversão não encerrasse o tanto de autenticidade que ele traz em suas páginas. Vencida a impressão de ser um intruso num debate íntimo e a vontade de dar uns apartes, fica a certeza de um livro raro desde a capa. Vendido a um preço justo, como também é raro no mercado de livros, é uma pena que você – leitor/a – veja-se privado da charla que, ao fim, é ensaio mesmo, embora pela simplicidade de forma nem pareça, o que é muito melhor.

Ex-fumo

Você nunca ouviu um poeta queixando-se que perdeu as palavras. Isso quando acontece ao poeta lhe põe em silêncio. O seu ânimo recolhe-se seguramente de um modo que não se diga que ele até ontem escrevia como se pudesse impulsionar desde si uma máquina geradora de sentidos. Ele está quieto e pensa que a máquina quebrou-se e talvez nunca mais volte a engrenar. E ao pensar nisso ele (ou ela, tanto faz) vê o desfile de palavras a comando dos outros perguntando-se onde nele foi parar esse fenômeno que lhe fazia adiar compromissos, atrasar deveres e que às vezes o arrastava como um animal é subjugado por uma força superior que, aparentemente sem razão nenhuma, agora esmaga seus olhos no nada, de modo que nada se vislumbre para ele ou a partir dele. O poeta tomando um café e nada lhe ocorre a não ser a noção de que talvez nunca mais volte a ser um poeta. Ele está cansado, sim, da semana, e pensa em tomar banho, lavar-se. Talvez assim remova-se nele o musgo da mudez e da fadiga mental que o castiga da mesma forma que antes o fazia sentir-se livre pela palavra, liberto por ela dos sentimentos inacreditavelmente expostos em versos, como sacrifícios. A palavra o libertava e ele tinha um pacto secreto com elas, que lhe cediam o direito de criar metáforas mais esclarecedoras (pelo menos para ele mesmo) que a ciência exata. O poeta cheio de competências, o ser absoluto de si, as suas habilidades como talheres estranhamente preparados para um banquete que já não será servido e essa consciência consumindo a sua fome, legando em seu lugar a inapetência do símbolo e do signo, a incomunicabilidade que lhe dá certeza que qualquer palavra sua será proferida no vácuo e de lá despencará para uma margem desconhecida do universo onde vivem palavras desconexas, versos inacabados, vírgulas, apóstrofos, reticências. Olhando para isso, o poeta não enxerga direito o que se dá no mundo e não entende o que aos outros ainda parece tão claro. Confunde-se com o que lhe parece ilusão, mas é real. Distingue mal entre os mundos, o seu e o dos outros. Isso me aconteceu mesmo? Ele pensa… Ou foi a outra pessoa? Ele pensa também como poderia, nesse caso, dizer o que fosse para estabelecer um nexo mínimo, uma coerência mínima, entre o mundo interno e o externo. O poeta que perdeu suas palavras pensa que poderia, nos seus melhores dias, ter suspenso no céu uma nova constelação, ter arranjado novas formas da natureza, ter levado sossego ao desassogado, conforto aos desesperados, ter feito alguma coisa consequente e não se desperdiçado em futilidades e compromissos para consigo mesmo. Com suas palavras deveria ter realizado uma obra factível e não uma coleção de desacontecimentos. O poeta pisca os olhos e olha para tão longe quanto consegue e de pronto a distância se resume. Tudo é próximo, rente, e se esfrega nele. Ele coça os olhos e a nova noite não lhe dá esperanças, mas a contabilidade do passado aumentando como uma cadeia de montanhas se acotovela noutra. E assim se formam o tempo e a memória. A consciência de que é dispensável já não o assombra, muito mais ser considerado. O poeta pensa em fumar e lembra que já não fuma. Ele escreveria com um cigarro, pensa. Pensa que o fumo lhe deu (em intensidade e gozo) mais poemas que as palavras, e de bom grado. Estranho que não é o fumo que lhe tenta, mas elas. Malditas… Onde o deixei?