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No aniversário de um suicídio

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Se tivesse de escolher um fato marcante, dentre as toneladas intermináveis de fatos amontoados em 2013, eu deixaria de lado todos os feitos políticos, esportivos e religiosos – mesmo os mais escabrosos e incompreensíveis – para remeter-me ao comecinho do ano, mais precisamente ao dia 18 de janeiro de 2013, data em que o ator Walmor Chagas cometeu suicídio no sítio onde vivia sozinho, aos 82 anos de idade, em Guaratinguetá, interior de São Paulo.

Sua morte pode significar tanto a mera confirmação de uma estatística sombria (no Brasil, entre as pessoas do sexo masculino, 7,1 em cada 100 mil cometem suicídio, subindo para mais de 15 após os 75 anos, segundo levantamento da jornalista Claudia Collucci, na Folha de S.Paulo), que também pode dizer respeito a várias e complexas situações, entre elas a depressão, a solidão e abandono na velhice, mas também sobre a autonomia, o livre arbítrio e o imperativo da pessoa humana sobre ela mesma e o seu destino.

Nenhuma dessas situações, entretanto, pode ser comparada ao imenso silêncio público feito em torno ao tema, mesmo envolvendo alguém tão conhecido quanto o ator Walmor Chagas. Uma pesquisa rápida no Google retorna não mais que sete ou oito páginas de resultados para “Walmor Chagas suicídio”, sendo muitas reproduções de outras já referidas pelo próprio mecanismo, ou seja, cópias exatas. Além desses resultados, o Google apressa-se a mostrar sua explicação automática para tão restrito retorno: “Para mostrar os resultados mais relevantes, omitimos algumas entradas bastante semelhantes aos 25 resultados já exibidos. Se desejar, você pode repetir a pesquisa incluindo os resultados omitidos”.

Não creio que haja qualquer manipulação nos resultados da ferramenta de busca. Na época, procurei acompanhar a repercussão do suicídio e ela aconteceu muito timidamente, como costuma ocorrer quando o suicídio deixa de ser uma “temática” e passa a ser uma “realidade”. Embora o número de reportagens ou de meras aparições do assunto tenha aumentado em alguns casos, principalmente em veículos secundários, pensei que a estatura (não a corporal) de Walmor Chagas seria suficiente para romper de forma mais ampla o cercado em que se costuma enclausurar o tema, convertendo-o (ou pelo menos favorecendo a converter-se) em uma espécie de tabu da contemporaneidade. Isso a despeito das orientações dirigidas às redações para que sejam breves ou mesmo silenciosas ao tocar na “temática”.

Em seu sentido original, o tabu traz consigo a marca da profanação e as devidas maldições. Ao revivificar o significado mitológico do termo, Freud alertou em Totem e Tabu que o tabu é a condição indispensável para a idolatria. Neste caso, não há evidentemente ninguém propondo a idolatria do suicida ao conservá-lo nesse status de intocabilidade permanente, mas talvez seja oportuno pensar que uma conservação nesses moldes possa implicar uma idolatria indistinguível que se preste a objetivos também indistinguíveis. Ou de pretendida obscuridade.

Sob muitas justificativas e motivada por estatísticas preocupantes, há cerca de 15 anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) editou um guia voltado aos profissionais da mídia com a intenção de instituir uma série de precauções em relação às abordagens e notícias sobre o suicídio. Por muito tempo o tema foi claramente evitado nas redações, talvez sob o argumento de que a simples menção do termo pudesse fazer oposição a princípios éticos pertinentes à vida, como se a morte – mesmo a autoimpetrada – dela não fizesse parte.

No Observatório da Imprensa, em 2010, o artigo de Carolina Pompeo Grando “O suicídio na pauta jornalística“ demonstra como muitas redações e editores recomendam abordar – ou simplesmente ignorar – a realidade do suicídio. É um texto esclarecedor sob muitos aspectos, mas principalmente por descortinar situações de interesse público através da análise do supremo ato individual que é o de dar fim a própria existência. E também porque demonstra que não apenas é possível, mas plenamente desejável conhecer-se a realidade ao invés de falseá-la ou ocultá-la. Ao poder do tabu, entretanto, parece que há muito pouco a opor. As raras tentativas de encará-lo, mesmo quando envolvendo pessoas notórias, são frias e gélidas, mesmo que isso seja uma metáfora para lá de indesejável. Uma menção direta, como um obituário, às vezes poderia ser até mais honesta.

Embora seja inviável, pelo menos através dos meios terrenos, elucidar tudo o que envolve o suicídio de alguém, parece evidente que há, no caso de Walmor Chagas e em todos os outros, um desejo poderoso de ruptura, de cessação. Por mais que os efeitos de todos os suicídios sejam idênticos, nem as condições nem as motivações para tanto podem ser comparáveis. Se essa é uma regra que vale para a vida, então ela também vale para a morte. O ator Walmor Chagas, porque tirou a própria vida, não deixou de ser um ator para converter-se em um suicida entre os suicidas. Os suicidas não são uma classe de pessoas e tratá-los uniformemente, tanto como mártires ou como covardes, dá no mesmo e não explica em nada da vida e das circunstâncias da morte (e também da vida) daquelas pessoas. Resumir a biografia de quem quer que seja à forma pela qual morreu não é diferente, portanto, de suprimir sua existência. Ao negar-se a narrativa da morte de alguém por praticar o suicídio, qualquer que seja essa pessoa, o que acontece é que se está serializando-a, como se o suicídio fosse uma categoria da morte e não um gesto humano com razões na própria vida.

Se alguém se dispuser a contar a respeito do suicídio de alguém, será preciso conhecer minimamente sua vida, seus registros ou de quem dela privou intimamente. Informar sobre o suicídio de uma pessoa não é o mesmo que reproduzir as conclusões de um inquérito policial, embora exista muito jornalismo que pareça primar cada vez mais sobre essa segunda forma.

Qual o temor, afinal? Acredita-se ainda que a divulgação de suicídios possa desencadear “ondas”, como em uma reedição de Werther? Ou, por outro lado, será que se teme legitimar o pleno poder da pessoa sobre sua própria vida, mesmo que ao custo de sua manutenção? Para quem procura informação, definitivamente o que importa é saber por quê. Mesmo que não haja respostas imediatas e o assunto pareça flertar com a metafísica, é isso o que as pessoas querem (crendo estar em seu absoluto direito) saber, desde épocas remotas e, talvez, para todo o sempre. Não será tempo suficiente para que se deixe a descrição da cena restrita aos boletins de ocorrência? Será realmente invasivo, desrespeitoso ou simplesmente inviável clarificar indagações dessa espécie? Não há mesmo mais informações a oferecer sobre um gesto tão derradeiro e definitivo?

Reli mais de uma vez as informações que encontrei sobre o suicídio de Walmor Chagas. E confesso que permaneço desde então com a mesma perplexidade. Ao que tudo indica, o ator não se encontrava em crise depressiva. De acordo com familiares e pessoas que estiveram com ele nos últimos dias de sua vida, ele apenas se queixava das limitações físicas que o diabetes lhe impunha. Aparentemente, não havia queixas pela solidão em que vivia em seu sítio no interior paulista e ainda trabalhava em um novo filme. Se parece tão terrível assim dizer que ele simplesmente rompeu seu laço moral com a vida e tomou uma decisão tão autêntica quanto qualquer outra, por que se fala nessas coisas à boca pequena e, de outro lado, prosperam escândalos às vezes por fatos sem importância alguma, ou até mesmo por rumores ou coisas ainda menores?

Ocultar as condições que levam as pessoas ao suicídio obviamente não faz com que deixem de existir, mas a impressão que fica é que a opção mais clara tem sido jogá-lo dentro de uma floresta, para que sua existência possa inclusive ser questionada. Ou abafada, talvez. Mas por que tipo de necessidade isso aconteceria? Há alguma tensão social revelada no mais individual dos gestos? Ou simplesmente é preferível não acender o debate sobre morte digna, eutanásia e religiosidade?

Definitivamente, não tenho respostas para estas questões. Ainda assim, é evidente que o suicídio gera uma espécie de perturbação social. Talvez não do mesmo tipo que a violência social e suas derivações penais, mas por demonstrar claramente todo o poder e a autonomia do indivíduo perante o social e suas normas legais. Ou, talvez ainda mais, por infringir o poderoso tabu da morte, baluarte de toda a sorte de credos. Em A História da Morte no Ocidente, o historiador francês Philippe Ariès comenta que a virada para o século 20 marcou o momento em que a vida sexual, antes o tabu familiar por excelência, se tornou cada vez mais pública e o momento da morte foi cercando-se de crescente mistério e proibição. Ao que tudo indica, Ariès mais apontou tendência que propriamente registrou a história. Mesmo que muitos filósofos e cientistas sociais venham incessantemente debruçando-se sobre o suicídio e os limites da liberdade humana, a sociedade parece ainda preferir encarar o medo pelo desconhecido a apropriar-se de seus significados e daí revelar a si mesma com um tantinho mais de fidelidade, ainda que mantido algum espanto e o “devido respeito”.

A exclusão das pessoas com deficiência no Plano Nacional de Educação

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Não foi neste ano que o Plano Nacional de Educação (PNE) decolou. Ficou para o próximo, o tumultuado ano da Copa do Mundo e das eleições majoritárias, quando deverá voltar à Câmara de Deputados para aprovação final.

Tampouco foi em 2013 que o debate em torno da oferta de educação especial destinada aos alunos com deficiência resolveu-se ou, pelo menos, deu amostras disso. Por outro lado, os debates em torno da meta 4 do PNE  parecem estar como que ancorados em algum momento do tempo histórico do país. Não necessariamente 2013.

Como o Brasil é país de intensas desigualdades sociais, é provável que coexistam pessoas com deficiência gozando de um atendimento escolar digno do séc. XIX enquanto há outros que, por felicidade, usufruem do que há de mais contemporâneo e atual em se tratando de educação inclusiva, conforme os princípios afixados no direito constitucional brasileiro através do Dec. 6.949, a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Um maniqueísmo simplista suporia de imediato que são obrigatoriamente os alunos da escola pública os condenados à educação nos moldes do séc. XIX e que os alunos da rede privada os que constituem uma elite entre as pessoas com deficiência. Suposição equivocada.

Em 2013, muitas famílias de classe média ou alta continuaram a bater com o nariz na porta de estabelecimentos de ensino que, a despeito da penalização prevista na Lei 7.853/89, negaram-se a matricular alunos com deficiência e a seguir a legislação vigente. No mesmo ano, o município de Florianópolis foi premiado pelo MEC na terceira edição do prêmio Experiências Educacionais Inclusivas: a Escola Aprendendo com as Diferenças. Como prêmio, a Secretaria de Educação do município indicará dois representantes para conhecer as experiências de educação inclusiva em solo espanhol.

Acontece que nem todos os municípios brasileiros empenharam-se com a mesma intensidade em modelos de educação inclusiva como o adotado em Florianópolis. Lá, a educação especial é oferecida de forma complementar. A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) local não aceita receber crianças e adolescentes que não estejam frequentando a escola regular.

De acordo com o Censo Escolar 2012, cerca de 25% (199.656) de um total de 820.400 alunos estão matriculados em escolas especiais. Evidentemente, elas existem porque há pessoas interessadas em seus serviços e que acreditam que são, pelo menos aparentemente, estabelecimentos mais adequados e preparados para lidar com as situações mais complexas, principalmente aquelas envolvendo comprometimentos intelectuais acentuados ou múltiplas deficiências.

Um equívoco fundamental cultivado ao longo dos três anos de tramitação do PNE foi o de que a meta 4 poderia “fechar” sumariamente as escolas especiais. Um exame rápido na legislação constitucional e educacional esclarece que isso não apenas é impossível como inadequado para um plano de metas. O que a meta 4 original procurava assegurar é que os investimentos públicos visassem atender à própria política pública sustentada pelo governo federal, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva. Ou seja, os investimentos públicos deveriam incidir exclusivamente nas escolas públicas do ensino regular.

A questão parece paradoxal, mas é meramente lógica. Se os recursos não chegarem às escolas regulares e forem destinados a outras instituições, obviamente a preparação, reiterada como causa principal da exclusão, não será enfrentada jamais. Como se vê, é uma lógica de fácil compreensão.

Muitos outros tabus relacionados à educação inclusiva vem sendo sustentados como argumento contrário qualquer possibilidade de inclusão. Além da falta de preparo e capacitação, a idade mental (conceito neurologicamente questionável) do aluno, o bullying e as capacidades inerentes de desenvolvimento de cada pessoa seriam impeditivos instransponíveis. Na Folha de São Paulo, em artigo publicado no dia 17/12/2013, “A inclusão de pessoas com deficiência“, tais argumentos foram novamente evocados, quase como se fossem uma novidade.

A verdade é que não são. Já há muitos anos pessoas com deficiência, mesmo aquelas com diagnósticos severos, têm se desenvolvido social e culturalmente em ambientes favoráveis, isso a começar pelas próprias famílias que não deixaram demover-se por decreto de fracasso ou pela imposição da incompetência. Pelo contrário, sempre que a sociedade apoiar e dedicar-se a conviver solidariamente, mesmo os “mais graves casos” encontrarão oportunidade. No fundo, é o que todo mundo quer para si mesmo. Por que então um plano do porte do PNE poderia subtrair essa oportunidade justamente das pessoas que mais precisam dela?

Parem o mundo que eu quero filmar

Pessoas filmando a posse do papa

Sou dessas pessoas que têm fixação em números e séries estatísticas. Rankings também são legais e eu faço questão de usar meu tempo para entender as coisas que eles dizem. Na verdade, já há alguns anos eu venho procurando me tornar uma pessoa pragmática, voltada inteiramente ao mundo concreto e às ações sumárias. Chega dessa bobagem de cogitum ergo sun. Vamos aos fatos. E deles às ações, por favor, que ninguém aqui tem tempo a perder.

Estou lendo nesse momento a informação de que, em 2013, o incremento das vendas de smartphones chegou a 110% em relação a 2012. Poucos produtos tiveram um salto dessa proporção. A venda de automóveis, por exemplo, terá um aumento entre 1 e 3% em relação ao ano passado. Já a venda de TVs de LCD e LED caiu 7%. Parece que apenas o consumo de água aumentou numa razão semelhante ao dos smartphones. Não sei quais são os índices, mas a Global Footprint Network está dizendo que ultrapassou já a própria capacidade de renovação que o planeta pode oferecer.

Se em relação à água chegamos ao vermelho, em relação aos smartphones os dados indicam que estamos no apogeu. Mas será positivo que o mundo e o comércio possam saciar a sede por smartphones mas não possa garantir o consumo de água potável para 770 milhões de pessoas? Perigando chegar aos 3 bilhões em 2015, segundo diz a FAO em pessoa?

Voltemos aos números e sua frieza taxativa. Basta de interrogações. Afinal, de que serve interrogar sobre questões sabidamente sem resposta? Bons mesmo são os números, especialmente se o numerário na sua conta bancária lhe permite renovar seu status tech com a mesma avidez que os fabricantes anunciam seus novos modelos e escutam o tilintar das moedas.

Enquanto fabricantes e vendedores festejam o consumo de smartphones, a água escasseia e setores econômicos inteiros e indivíduos chegam ao vermelho econômico, o mundo segue sua jornada irrefreável. Ele e seus habitantes.

A vantagem evidente que os lucrativos e cobiçados smartphones trazem ao mundo nessa situação é de que ele, o mundo, pode agora ser registrado como nunca antes fora. É claro que a câmera embutida não irá transformar uma pessoa de forma automática num Glauber Rocha ou num Sebastião Salgado, mas eu pessoalmente não tentaria dissuadir ninguém quanto a isso.

Mesmo que as pretensões de seus donos normalmente sejam mais singelas, ao comprar o aparelho às vezes parece que uma mensagem subliminar embutida grava em regiões profundas do cérebro a ideia de que todo e qualquer momento é sublime, especialmente se for uma projeção do eu em relação ao mundo. O mundo por si só é algo mais ou menos desinteressante até que seja focado e clicado, mesmo que para ser visto num borrão ou em cenas indistinguíveis. Ou para não ser visto nunca mais, se é que isso faz alguma diferença.

Há muito sabe-se que o registro do tempo é um imperativo para os seres humanos desde a época em que os recursos para tanto resumiam-se em rabiscos nas cavernas, mas com a “vantagem” da portatilidade, há todo um universo a ser explorado. As possibilidades são infinitas. Você não pode perder nenhum momento. O tempo está esvaindo-se. Esse é o recado dos anunciantes dos apetrechos e até mesmo o físico e astrônomo Marcelo Gleiser parece concordar com isso. Na Folha de São Paulo, há algumas semanas, ele foi além ao afirmar que “os celulares tornaram-se parte integral de nossa existência, um apêndice tecnológico que nos define como indivíduos”.

Parece que a charada está decifrada, a função oculta do aparelho então seria a reconexão com o tempo, o mesmo tempo – este – que está permanentemente esvaindo-se. A questão é saber se dá tempo de tomar um copo de água ou se, ao nos reconectarmos à falível e biológica natureza, ainda haverá alguma água para beber.

Seja como for, as vantagens em preservar os recursos hídricos, como não obedecem ao círculo vantajoso do voraz mercado, são constantemente desprezadas. Isso não significa que deveriam ser desprezíveis, mas a ação pragmática de muita gente só onde chega é nesse estado de coisas, nessa situação. Como bom pragmático, me resta perguntar “fazer o quê?” Mas nem pensem que eu tenha a resposta. Sou pragmático, bobo não.

Além de ler os índices acumulados e rankings anuais, esses dias topei com o trailer do novo filme da série “O Planeta dos Macacos” (trailer aqui). Desde criança essa série vem me assombrando, mas o espanto não se deve tanto à imagem da ruína da Estátua da Liberdade nem pela maquiagem dos macacos (as máscaras antigas serão obviamente sempre insuperáveis), o que me assombra é a mera possibilidade de que a humanidade simplesmente possa perder a vez no planeta. Uma cena do último filme da série, na qual o líder Caesar angariou o maior atributo do homem, a linguagem, mas justamente para dizer “não”, já tinha me feito perder a respiração. Na época eu escrevi um pequeno texto sobre essa cena para mim antológica, está neste link.

No novo filme, que estreará no mesmo mês da Copa brasileira e do aniversário de um ano das manifestações populares que pintaram de catapora o mapa e a face do Brasil, os macacos entraram finalmente em guerra com os humanos. Eu não imagino como o roteirista do filme vai resolver a pendenga, se vai armar até os dentes os parentes primatas ou jogá-los num banho de sangue. Se estivesse em seu lugar, eu faria com que os humanos depusessem seus smartphones em troca de umas frutas suculentas e umas gotas de água pura. E vamos às árvores que o ano novo vem aí e façam o favor de seguir o conselho dos vendedores dos “smarts”, não há tempo a perder, nem num texto “pragmático” como este.

Deficiência e o Graal da funcionalidade total

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Um Graal está posto, talvez para sempre, em relação a vida das pessoas que nasceram ou adquiriram ao longo da vida alguma deficiência ou limitação, seja física, sensorial ou mesmo intelectual. É o Graal da funcionalidade total. Parece até nome de norma da ISO ou ABNT, mas quero crer que se trata de algo mais poderoso até do que isso. O Graal de que falo é um norte, um objetivo supremo, uma meta insubstituível a perseguir. Está mais para o sentido religioso e para uma abstração da vontade humana que para um objeto real, seja ele um copo ou um livro. Na história da religião, trata-se do cálice no qual Cristo bebeu vinho na Última Ceia e que teria sido motivo de busca dos cavaleiros templários e justificado algumas guerras bastante sanguinolentas, típicas da Idade Média. Aqui neste texto ele serve apenas de metáfora da busca por algo mais ou menos inacessível. De algo capaz de trazer consigo uma espécie de redenção final. Algo que justifique a empreitada. Uma busca que, ao menos hipoteticamente, deve valer a pena.

Desde que o bicho homem se sabe bicho homem, tenho a impressão de que ele vem travando essa busca homérica contra si mesmo. Digo homérica porque estou falando de uma verdadeira epopeia que começa nos primeiros dias da vida e vai, às vezes com algumas paradas e abastecimentos, até o seu final. Essa epopeia mais conhecida como “vida”. E digo contra porque muitas vezes se trata de um busca empreendida na razão inversa do próprio trajeto que nela se percorre. Não, meu assunto não é a busca por perfeição, que essa talvez nem seja da alçada do humano. Meu assunto é a busca aparentemente infindável por avaliação. Por exame. Por autocompreensão. E explorar também algumas formas pelas quais isso se choca com outros valores aparentemente naturais entre as pessoas, tais como o amor, a tolerância e a aceitação.

Tanto quanto uma jornada individual, a vida é uma aventura social. Mesmo os mais microscópicos seres (até mesmo os unicelulares) parecem manter algum grau de relação com os demais seres biológicos. Algumas vezes eles precisam totalmente uns dos outros para a sobrevivência, às vezes nem tanto. E às vezes, ainda, parece que não precisam, mas normalmente isso só acontece porque os estejamos observando fora de perspectiva, como num alto relevo ou como se fossem espécies de divindades e não existências biológicas. A vida biológica, toda ela, está apoiada em sistemas dinâmicos de relação com o ambiente. Essa parece ser inclusive uma das condições fundamentais para sua existência.

Jean Paul Sartre, o conhecido filósofo existencialista francês, foi um dos primeiros pensadores a postular que o isolamento da mente e do indivíduo jamais poderia explicá-lo adequadamente. Sua famosa frase “o inferno são os outros” é uma síntese dramática da ideia de que a liberdade individual e autonomia não podem prescindir da produção social. A despeito disso, não é difícil constatar que se reproduz cada vez mais a mentalidade de que a busca pelo nível máximo de independência em relação aos demais é o que há de mais importante na vida. Isso quase implica que o social deixe de ser o produto de um acordo coletivo, mas o resultado de uma união casual de pessoas emocionalmente desconectadas e, ao menos idealmente, supercapazes. Um tipo de acaso, não um pacto comum. Em se tratando de pessoas com deficiência, parece uma proposição aparentemente irresistível. Muitas pessoas, inclusive, dão sua vida por isso. E desde a mais tenra idade.

A ideia é sedutora, principalmente do ponto de vista dos equipamentos e das responsabilidades sociais. Um ser autônomo seria tanto a expressão máxima da potência individual quanto a demonstração de que o meio social está plenamente apto a permitir seu trânsito físico e psíquico. É sedutora e poderosa a ideia, mas isso não significa que seja autossuficiente. Há um percurso oculto na celebração de cada superação, no qual muitas vezes lustra-se o aspecto espetacular em detrimento de longos anos de sofrimento e provação. Um exemplo clássico dessa situação são as pessoas superdotadas. Quem vê a maravilha de um prodígio musical muitas vezes não imagina o grau de exigência emocional que recai sobre pessoas assim. Em relação à deficiência, a situação não é muito diferente, assim como também para quaisquer outros limites que se impõem na vida humana, sejam de ordem física ou psicológica.

É justo e admissível que as pessoas optem, em determinados momentos de sua vida, por dedicar-se a uma inclinação ou talento individual. Principalmente quando se trata de uma decisão autêntica. Mas me intriga muito compreender de que forma as pessoas incorporam crenças e tomam decisões e o que pressupõe a ideia de que o ser humano deve esfolar-se na própria carne para alcançar muitas vezes aquilo que está, ou deveria estar, disponível socialmente.

Em muitos e visíveis aspectos da vida social, encontramos vestígios ou até mesmo evidências de que a ideia de funcionalidade tornou-se um imperativo no mundo contemporâneo. Se a pessoa é uma criança, deve funcionar minimamente bem para progredir nos estudos. Se for um adolescente, deve funcionar minimante bem socialmente para não ser enjeitado pela comunidade. Se for um adulto, deve produzir e contribuir regularmente para o social e, finalmente, se é um idoso, deve ter boa saúde para não sobrecarregar a previdência social e a família. Dentro de cada um desses estágios, uma escala ou mais estão disponíveis para ajustar socialmente a pessoa. Quando há um desajuste, há recursos imediatos de compensação que deveriam funcionar. Quando não há estes recursos, produz-se a deficiência social, embora o sujeito possa ser convencido de que tudo é culpa sua e do seu precário engajamento ao “Graal” da plena funcionalidade. É por isso que entendo que a fixação em torno a este modelo ideal de existir é altamente produtora de frustrações e desadaptações. Entendê-lo como ideal emancipatório preferencial (ou exclusivo) pode significar um aprisionamento sem precedentes para as possibilidades de vida das pessoas.

Se do ponto vista social os seres e grupos humanos são comumente avaliados segundo critérios matemáticos (demográficos, estatísticos, etc.), no que diz respeito ao indivíduo cada vez mais ele tem sido verificado e analisado a partir de seu isolamento em relação ao seu ethos, seu ambiente. Assim, tem-se privilegiado a parte em detrimento do todo e o sujeito, nessa perspectiva, aliena-se do social para então “existir”. A pessoa aparta-se de sua comunidade. Medidas de inteligência e critérios diagnósticos de doenças parecem fixados definitivamente nessa métrica patologizante, na qual o ser humano é escalonado e comparado em relação aos seus semelhantes e a um impreciso eixo de normalidade para ser compreendido em sua particularidade.

Entretanto, essa ideia (vamos chamá-la assim), obedece muitas vezes a critérios esdrúxulos, exorbitantes ou simplesmente inacessíveis às pessoas, dada a precariedade das condições sociais e capital cultural que lhe estão disponíveis. Ao mesmo tempo em que se propaga a ideia de superação ou de plena expressão da autonomia individual, consolidam-se as noções do individualismo, do discurso da competência, da meritocracia e do “vire-se com o seu melhor”. É uma ética bem particular da sociedade contemporânea que gera, aos jorros, exclusões e violências.

Por isso, compreender a extensão pela qual uma pessoa pode expressar seu potencial humano para a realização psíquica e social de forma isolada parece obviamente inviável. Entretanto, cada vez mais se utiliza como forma de análise das capacidades humanas o seu nível particular de funcionalidade, adaptação e desempenho. No meu ponto de vista, é uma emboscada para a qual poucos estão preparados. O uso do exame de funcionalidade pode ser suficiente do ponto de vista do examinador, mas jamais será do examinado. Por mais que se ampare em um modelo social de compreensão, o uso da funcionalidade como escala extirpa o social da vida do indivíduo, transforma-o numa amostra, anulando a importância das relações humanas na expressão potencial de cada pessoa.

O biólogo e filósofo austríaco Konrad Lorenz, em A Demolição do Homem, tenta lembrar-nos que a cooperação voluntária e o envolvimento emocional são mecanismos culturais de seletividade operando em favor aos seres humanos. Para ele, a compaixão não é natural, embora o sofrimento o seja, mas é ela (e não ele) que nos capacita para o amor e o desenvolvimento afetivo. Quando observamos os fundamentos dos sistemas educacionais, a lógica dos mercados de trabalho e até mesmo as dinâmicas sócio-comportamentais, fica bastante claro que estamos propondo ao indivíduo um modelo de exclusão. Estamos lhes dizendo que nesse mundo social não há cooperação, mas competição. Não há apoio mútuo, mas concorrência. E que a oportunidade disponível confere apenas em um ajuste unilateral, como se um contrato no qual apenas uma das partes tenha sido consultada.

No momento em que não questionamos isso e defendemos a ideia de que as pessoas façam de-um-tudo para ajustar-se a este tecido social há uma gritante fraude social em questão. Estamos dizendo às pessoas que minimizem suas características indesejáveis e submetam-se ao critério da norma, da qual elas mesmas são essencialmente sujeitos desviantes. Se o “Graal” da funcionalidade total visa entregar seres mais habilitados a essa dinâmica social, então tanto o modelo social quanto o modelo médico chegaram a colapso. São modelos que podem até explicar o indivíduo e justificar o social, mas são insuficientes em habilitar novos valores sociais que são desejos de muitos e que estão na boca de todos, com mais ou menos verdade. Palavras tão antigas como compaixão, aceitação, tolerância, apoio e solidariedade ao mesmo tempo em que nutrem a esperança para outro modelo social, deflagram a falência do atual. Parece até que, quanto mais as usamos, mais longe de seu sentido estamos.

Ao propor a ética do reconhecimento como forma de acordo social, o filósofo alemão Axel Honneth ergue um pressuposto inteiramente novo. Ele diz que o ser humano deve ser reconhecido em todas as suas limitações para ser estimado socialmente e gozar de autoestima, sem que deva ser tomado por estas. E que ele depende tanto do reconhecimento de suas habilidades quanto de suas necessidades para tal. Para ele, a noção de autonomia é sempre apoiada socialmente, jamais tomada em isolamento do indivíduo. É um pensamento que rompe muitas amarras, mas principalmente de quem se quer ver desamarrado.

Lembro que há alguns anos atrás, no festival Assim Vivemos, em Porto Alegre, assisti a um filme iraniano muito tocante sobre duas irmãs, Mitra e Jamileh, que se comunicavam inteiramente pelo contato físico e gestual. O filme chama-se “Quando brilha um raio de luz”. Mitra nascera com uma severa deficiência física e Jamileh nascera surda. Mitra é o elo comunicativo da dupla e, a despeito de sua deficiência física, tem um talento especial para o desenho. Juntas, elas vivem intensamente em um ambiente social precário. Sua energia é extraída da colaboração. Suas vidas são um exemplo perfeito de que o indivíduo não prescinde dos demais e que mesmo a funcionalidade é um valor relativo, que pode ser compensado (e recompensado) pelo envolvimento social.

Que a vida não é um moto-contínuo todos nós sabemos, de forma mais ou menos racional. Ela supõe obtenção e gasto de energia, ela necessita também de estratégias de sobrevivência, mesmo que às vezes de formas quase irreconhecíveis pela inteligência. Talvez aí esteja seu grande mistério ou a razão pela qual dependemos uns dos outros e de ambientes sociais favoráveis. Como em poucos momentos antes do atual, o ser humano parece empenhado em sua felicidade. Eu até penso que seja admissível e interessante que as pessoas busquem ao máximo o seu desenvolvimento, mas que esse não seja o único “Graal” de suas vidas. Quem sabe não pode haver vários, de outros tipos e finalidades? Também não se pode esquecer que nem mesmo o Graal original foi utilizado na solidão, mas no encontro de muitos. E se esse encontro faz algum sentido até hoje e marcou indelevelmente a cultura ocidental isso não é por causa de um copo, mas pelo tempo ali compartilhado, pelas trocas feitas, pelos compromissos selados.

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Jean Paul Sartre. Entre quatro paredes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

Axel Honneth. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2009.

Konrad Lorenz. A demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. São Paulo: Brasilinse, 1986.

PNE e educação especial: vazou água para dentro da canoa furada?

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O título acima parece pessimista? Irônico? Sarcástico? Derrotista? Diga você (pense um pouquinho antes) o que ele a si mesmo parece. A mim parece definitivamente claro que o Plano Nacional de Educação (PNE) é uma canoa furada. Eu poderia ser mais cruel e chamar de engodo, mas como acredito que algumas pessoas realmente envolvidas e comprometidas participaram desse arrastar de correntes em que se tornou sua tramitação, não irei usar esse termo. Se você acha que estou demasiado amargo, sinta-se livre. Procure outras fontes, não há profusão de fontes interessantes e sérias por aí? Vai lá.

Se você quiser continuar, já vou antecipando uma salvaguarda pessoal. Quando estou falando em pessoas comprometidas e envolvidas não estou inserindo nesse grupo nem um e nem meio sujeito desses que se chamam políticos. Nem senadores nem deputados. Nem deputados nem vereadores. Nem a presidente nem os governadores. Nem os prefeitos nem os vereadores. Nem os com mandato nem os que o buscarão no próximo ano.

Dito isto, posso mostrar alguns argumentos que o caro leitor poderá ou não refutar. Somos adultos, livres e desimpedidos. Correto? Então não há o que temer.

Primeiramente devo dizer que não gostaria de analisar a situação atual partindo do próprio PNE. Pelo menos em relação à educação especial, o arrastar de correntes ainda é mais antigo, remonta a outros momentos, outras situações. É claro que, se tivéssemos a capacidade de aprender com os erros, não chegaríamos aqui dessa maneira. Todavia insistir nos erros parece um destino fatal que ronda a sociedade brasileira. Toda ela. A sociedade, essa quase abstração. Penso que isso ocorre ainda mais quando suas condições sociais estão indelevelmente marcadas pelo imobilismo social (a despeito ou a exemplo das políticas afirmativas) e a educação pública – foco central do PNE – mantém seu locus social inalterado.

Desta forma, embora hoje se discutam filigranas para um plano que deveria apontar para indicadores concretos e realidades “sensoriáveis”, o embate repetitivo volta a ser, no caso das pessoas com deficiência, o mesmo de sempre. Procura-se definir num plano de metas concretas (onde não deveriam constar verbos no infinitivo, mas quantidades) o que é cabível e até legal (isso incompreensivelmente) em relação à oferta de educação especial e possibilidades de escolarização. Parece até que há legisladores convencidos de mudar os ditames constitucionais com o plano, o que é um devaneio jurídico. O que o plano é, de fato, é um retrato de um projeto ou, como quero metaforizar, de uma canoa. Acontece que parece que a tal abstração chamada sociedade, governos e movimentos sociais parecem não querer entender o que são, onde estão e porque existem os furos no casco dessa canoa, que a impede de ir adiante e torna o debate claudicante, arrastado e às vezes até modorrento.

A despeito das pressões legítimas de todos os setores sociais envolvidos (falo nas pressões a favor da educação inclusiva e nas pressões a favor da escola especial), do crescente interesse da mídia pelo assunto e da premência governamental, a impressão que eu tenho é de que a canoa não vai partir nesse ano e talvez nem no próximo (imagina na Copa) ou, pior, de que possa partir para chegar a lugar nenhum, porque seu alicerce prometido – os investimentos do pré-sal – também já se mostrou bastante comprometido, conforme visto no caso do leilão do campo de Libra.

Então, o que há de acontecer? Bem, como os senadores tomaram para si a tarefa de reescrever e deturpar o discutido pela sociedade, deve acontecer o que sempre acontece quando tais pessoas decidem a coisa pública no Brasil. Alguns interesses serão acomodados, algumas aberrações inconstitucionais serão propostas e vamos assim, tocando a canoa.

Como se trata de um debate que veio a público através de inúmeros veículos, como o site do Luis Nassif , o blog do Sakamoto e em outros lugares, poucas vezes se pode ver tão claramente o que o público (não vamos chamar isso de sociedade) pensa a respeito, já que seus comentários lotaram os sites e suas matérias. Embora se saiba hoje que “comentador de internet” é até profissão, penso que há muito que depreender das apreensões populares registradas nestes comentários, mantido algum fitro, talvez o da mesma espécie que devemos ter em relação à mídia governamental e para-governamental, por exemplo, assim como toda a mídia caso você pense em contrário (vai sobrar alguém?).

Mas o que se pode ler sobre inclusão e sobre escola especial nesses comentários são ambos relatos concomitantemente assustadores e alentadores. Aqui penso que cada um deve tornar-se sensível ao que lhe parece admissível ou não. Não serei eu a declarar um édito dessa importância. Minha intenção é apenas tentar reendereçar aos cidadãos, às pessoas comuns, a atenção de formadores de opinião e até mesmo dos políticos (embora eu acredite que eles estão lixando-se e preocupados com outro tipo de coisa, haja vista sua total ausência pública).

Eu não sei quanto às demais pessoas, mas eu sinto-me verdadeiramente agredido tanto pela violência quanto pela indiferença institucional em relação às pessoas com deficiência, principalmente as que dependem dos serviços públicos ou dos serviços assistenciais. Preocupa-me também a persistência do modelo assistencial, é claro que sim, mas me preocupa mais ainda a permanência de condições políticas e sociais que favoreçam isso. É preciso ter consciência de que o modelo assistencial é duradouro também porque parcelas significativas da população vivem em situações de extrema carência e o sistema educacional público não consegue (quero muito que um dia consiga) aplacar suas necessidades, que são muitas vezes mais assistenciais que propriamente educacionais.

Tanto quanto procuro fazer a leitura dos fatos políticos, até porque recebemos muitos comentários aqui na Inclusive, leio com muita atenção tanto as críticas das pessoas comuns, das famílias, às escolas especiais quanto às escolas regulares. Leio com mais atenção ainda seus relatos pessoais, que dizem respeito às situações reais da vida das pessoas. Como não existe um filtro que indique onde há ficção ou realidade, afligem-me seus temores, indigno-me com situações violentas e, sobretudo, com a indiferença institucional, parta de onde partir. Como pai de uma criança com deficiência, sinto-me muitas vezes emocionalmente espancado.

Sei que é ingênuo querer que políticos sintam-se como eu ou que gestores acostumados a cadeiras almofadadas embrenhem-se com suas ideias na vida real, lá onde as pessoas já não esperam muito da educação, ou seja, em boa parte das escolas públicas deste país. Quando eu penso na necessidade de um amplo diagnóstico social e mirar estrategicamente outros alvos no sentido de promover o acesso a uma educação inclusiva com dignidade, quero também crer que é para essas pessoas que relutam diante aos portões de escolas sucateadas (que muitas vezes elas mesmas frequentaram e conhecem melhor que ninguém) que devemos mirar.

Quero crer ainda que devemos exigir mais que um PNE, ou uma meta sua, para lhes garantir um atendimento educacional digno, mas que esse movimento social seja permeado pelas camadas populares que ele visa atingir, com todas as suas características sociais e culturais, tão diversas. Que ele angarie tanto autocrítica quanto a bem conhecida autoreferência. Que se manifestem às claras e coloquem-se disponíveis ao exame social. Quanto a mirar o poder e políticos comprometidos com sua vida eleitoral, a esperança de que um gesto vindouro de bondade extrema no qual eles percebam as necessidades das pessoas com deficiência pobres e comovam-se (ou mais difícil ainda, dêem sua vida política por isso), esse tipo de esperança social tem uma história nefasta no Brasil, como atestam outras movimentos sociais (e até raciais) e segmentos minoritários.

Se é preciso estratégia tanto para melhorar este plano e, como disse antes, felizmente temos muitas pessoas verdadeiramente interessadas trabalhando nesse sentido, quanto para o próximo, talvez seja fundamental parar de olhar tanto a canoa e conhecer melhor seus buracos. Pode-se chamar isso, inclusive, de diagnóstico. Reflexão só parece já não bastar. Ainda que às vezes uma palavra nos demova, como estamos falando de pessoas, talvez devamos procurar exercitar a empatia que temos (se é que temos) e considerar que mesmo as ideias que para o nosso tempo social estejam ultrapassadas – até porque as condições econômicas permitem acesso seletivo a bens sociais e capital cultural – para outros podem simplesmente não estar. Voltando à metáfora da canoa, eu quero pensar que talvez seja a hora de considerarmos seriamente as preocupações de seus ocupantes, isso mesmo se vamos de barco oficial ou barco particular.

Tire seus olhos verdes de minha filha

chico

Estou prestes a cometer a heresia de voltar a falar de Chico Buarque de Hollanda sem tocar no assunto biografias. Penso tanta coisa sobre isso e tenho tão pouca certeza do que penso que, por via das dúvidas, acho quase tudo cabível (e ao mesmo tempo muita coisa condenável). Parece contraditório? Se a vida sabidamente o é, por que diabos a biografia não seria?

Mas meu assunto não é esse. Meu assunto é o Chico e, como se trata dos encantos de uma filha minha para com o sujeito, deveria até dizer que meu assunto é “com” o Chico.

Por muito tempo achei que a razão de todo o seu encanto estava naqueles seus translúcidos olhos verdes, varados de timidez. Ou na voz mansa e relutante. Ou num certo bom mocismo de quem cantava sobre moças nas janelas e detalhes da vida corriqueira das pessoas mais comuns com delicadeza, com boa educação e com um bom gosto indiscutível. Ora, mas isso não seria encantador em qualquer pessoa? É verdade, mas deu o acaso de cair tudo numa pessoa só. Isso pode acontecer e, como sabemos, aconteceu de verdade…

A descrição acima, porque obviamente já tenha passado pela cabeça de inúmeras pessoas deste país, é uma constatação até certo ponto repetitiva. O inesperado, no meu caso, é de que jamais imaginei que esse senhor quase septuagenário (sim, ele é de 1944) pudesse tontear de encanto uma criança de nove anos de idade.

Pois é. Mas o Chico pode. Um dia cheguei em casa e encontrei minha filha em prantos. Embora lá em casa a gente vá aos prantos com certa facilidade, obviamente que fiquei preocupado. O que teria acontecido? Brigou na escola? Tomou uma nota ruim? Puxaram-lhe o cabelo? Afinal, digam de uma vez… Não, se acalme, não é nada disso. Está assim porque esqueceu de uma música linda que ouviu no YouTube, não lembra de quem, nem porquê, nem coisa nenhuma. Só uma melodia em sua pequena boca soprando em meus ouvidos um som melancólico e familiar, com uma letra entrecortada sobre enamorados numa praça. Deus meu, o que pode ser isso? Um vídeo cômico não é. É uma música. A mais bela de todas, cantada numa voz de fada…

Vamos em busca disso, falei. E fomos. Ali de cara, no histórico do navegador, estava a razão definitiva daquele desespero. A razão defintiva e digna de ser. A Valsinha, de Chico e Vinicius cantada pela Mônica Salmaso, fritou o coração e a memória da minha pequena menina.

Como pude não precavê-la de que isso podia um dia acontecer? Falhei como pai, porque pensei em protegê-la destes “terríveis” ídolos teenagers que saem por aí pichando as ruas cercados de guarda-costas, expondo-se ao risco absurdo de fazer alguma coisa de verdade na vida, como esse menino que andou esses dias em tournée no Brasil, o Bieber. Deixei de perceber que a poesia e a música são mais perigosas que tudo. Isso que ela ainda não cresceu o tanto para prestar atenção naqueles velhos olhos verdes…

Para mim, é um espanto real viver essas coisas. E é mais espantoso ainda que a ternura consiga falar mais alto para uma criança que o espetáculo incessante e em alta definição de tudo, oferecido o tempo inteiro aos seus incautos sentidos. E será sempre um espanto que depois de tantos anos eu voltasse a redescobrir a poesia e melodia do Chico pela voz embevecida (e abençoada) de minha pequena filha. E assim como o tesouro é grande, grande será a descoberta. E como isso não vai ser contado em nehuma biografia, fica aqui o registro.

Espanando o pó de giz

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Minha vida sempre foi cercada por professores da escola pública. Minha mãe, professora. Muitas tias professoras. Amigos e conhecidos, vários. Não sou eu mesmo professor, mas sou casado com uma. É o tipo de pessoa que é sempre boa companhia. Boas histórias para contar, muitas queixas incríveis para ouvir… Só tento assimilar ainda o tanto de trabalho que aporta em casa, às vezes em feriados e fins de semana. Com salários tão ruins, vale mesmo à pena?

Vale, é a resposta que ouço mais frequentemente. Não pelo salário, óbvio que não. Pelo reconhecimento de políticos e gestores? Nem pensar, seria esperar em vão. Mas vale porquê, então? Vale por corresponder às expectativas de crianças e adolescentes. Vale pelos alunos. Não vale pelo vale-refeição. Nem pelo vale-transporte-lotado. Aí não vale mesmo.

Colocando na balança, bem que talvez valesse buscar outra profissão. Porque ao simples exercício democrático de reclamar melhores condições de salário, os professores da escola pública têm recebido sabe-se muito bem o quê. Sim, direto nos olhos, spray de pimenta. Cassetete nas costas. Recepção estatal da tropa de choque. Descaso e violência.

Sem falar em outro tipo de violência também bastante habitual. A violência pedagógica que a tecnocracia de tanto em tanto tempo impinge aos “mestres”. Projetos complexos que, de um ano para o outro, mudam radicalmente, demonstrando a clara dissociação que há entre a realidade das salas de aula e a imaginação de quem elabora políticas educacionais. Mesmo assim, grandes parcelas de recursos destinam-se a tais projetos, mesmo que para pagar consultores que, via de regra, pensam entender melhor do riscado do que aqueles que estão ali na frente, cobertos do pó de giz.

Mas o desrespeito a que estão submetidos os professores é sem limite. São os alunos que têm a consciência precoce que a educação que recebem é desconsiderada pela sociedade e recolhem-se ao destino do subemprego e do abandono das classes. São as famílias que usam a escola como extensão de suas casas e também não depositam muita esperança no resultado do processo educacional. São as próprias comunidades que demonstram ter perdido toda a fé em que a educação possa lhes alterar o destino.

Parece desolador demais? E é mesmo, mas é claro que pode ser diferente. Sem começar pela elementar necessidade de melhor remunerar os professores, entretanto, não há projeto milagroso capaz de revolucionar a educação. Mesmo que a lei do piso vigore já há alguns anos, são muitos os estados que ainda não chegam nem ao rés do chão. É o caso do Rio Grande do Sul, estado do Ministro da Educação que assinou a lei, o atual governador Tarso Genro, do PT. E o que falar do Rio de Janeiro, estado que nem sequer oferece plano de carreira aos professores e vem protagonizando tratamento e cenas vexaminosas em relação às reivindicações e protestos da classe?

Muitas pessoas dizem que ser professor na atualidade é quase uma “profissão de fé”, e eu tendo a concordar cada vez mais com a ideia. Têm coisas que só mesmo a fé consegue explicar (e suportar). Num país que se quer orientar pelo desenvolvimento social e econômico, é incompreensível constatar que a educação não integre esse projeto de nação. Promessas de investimentos colossais, como os que deverão advir da exploração do pré-sal, continuarão a ser promessas caso os municípios, estados e governo federal continuarem protagonizado casos escandolosos de corrupção com verbas do FUNDEB, da merenda e não demonstrem evidência em sentido contrário. Diante de um cenário desses, haja fé…

Boas práticas, entretanto, são como oásis para todos que ainda a mantém consigo, a tal fé. É o caso que o PORVIR trouxe no mês passado sobre o CIEJA Campo Limpo, onde a diretora, Dona Eda, provou ser capaz de, mesmo com os alunos mais improváveis (adultos e jovens que a própria dinâmica escolar e social vem enxotando das escolas), recuperar para a própria vida e para um destino menos cruel que a marginalidade social.

É inspirado em seu exemplo e no daqueles professores que diariamente desafiam o terremoto que quase faz sucumbir a educação pública e suas possibilidades, da qual em última análise depende o futuro de nosso país, e também por respeitar o exemplo que tenho em torno de mim, que faço o registro da data. É que diante de políticos tão safados e oportunistas, só restar ter fé mesmo é nos professores. E desejar que as próximas palestras sobre “resiliência” para que os convoquem sejam finalmente ministradas por eles mesmos, habílissimos que são no assunto. E chega de espanar o pó de giz.

Quer brincar? Deficiência intelectual e a interdição precoce do brincar

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Dizem que brincar é como se fosse a linguagem natural das crianças. A sua forma preferencial de interação com o mundo exterior, ainda não fixado totalmente pela razão e pelo conhecimento. Se isso é mesmo verdade, deveria ser a realidade de todas as crianças, mas muitas delas não têm esse direito ou o têm frustrado (ou mesmo interditado) muito cedo na vida.

Isso pode acontecer por muitas razões diferentes. Contra a sua própria vontade, certamente, na grande maioria das vezes. Quem tem um filho que nasceu com deficiência intelectual, como eu, conhece bem o grau de exigência que recai desde muito cedo sobre crianças assim, muitas vezes impedindo-se que elas aproveitem plenamente o ato de brincar, este que funda o surgimento do ser humano no mundo social e cria as primeiras conexões da pessoa com o mundo ao seu redor.

Ao contrário da maioria das outras crianças, sua brincadeira deverá ser sempre de um tipo proveitoso, milimetricamente planejado de modo a suprir o que aparentemente lhe falta ou está indevidamente atrasado. A preponderante noção de que se está correndo contra o relógio e que se deve aproveitar cada possibilidade de estímulo é um tipo de sequestro que muitos pais fazem tranquilamente com os próprios filhos, muitas vezes amparados e até estimulados “cientificamente”.

Creem estes pais que estão agindo pelo bem de sua prole, mas com a mesma facilidade deixam de perceber que até este “bem” (ou pelo menos seus parâmetros) pode ser apenas uma construção assimilada a partir de vários tipos de discursos, entre pedagógicos, terapêuticos e médicos. É mesmo muito difícil para pais com filhos que têm deficiência intelectual equilibrar estímulo e obrigação, diversão e intervenção. Trata-se de uma corda bamba e, como todas, implica sempre em riscos importantes.

Mesmo que muito se tenha evoluído da década de 1960 para cá, época em que a estimulação precoce teve suas bases lançadas, difunde-se cada vez mais a mentalidade “abilitista” (ableism, em inglês), que diz que a pessoa tem de equiparar-se e minimizar o máximo possível as próprias características de sua deficiência para ter uma vida social em tese mais satisfatória ou, em sua versão mais radical, para ser socialmente mais aceitável.

Por menos que pareça, é uma visão refinada que mira preferencialmente os pontos fracos do sujeito e procura consertá-los a qualquer preço. O refinamento de que falo obviamente não reside nisso, mas na forma pela qual suas ideias subjacentes se reproduzem no discurso e na prática dos profissionais que se relacionam diretamente com a pessoa, ao ponto de naturalizar-se até mesmo no cotidiano familiar. No modo de viver a vida.

Trata-se de um modo de entender a deficiência, entre outros, mas que ganha repercussão científica e se confunde a outros modelos de compreensão. Em sua perspectiva, pelo menos em relação à deficiência intelectual, a ideia básica que subjaz às práticas terapêuticas é a de estimular os saltos de desenvolvimento e antecipar capacidades, minimizando-se uma possível expressão dos déficits, além de patologizar e corrigir clinicamente comportamentos. É a intervenção precoce levada ao extremo, radicalmente. Ou então uma tentativa de correr na frente do relógio, como se isso fosse mesmo possível. Para tanto, faz-se necessário viver como um “costureiro”, com um tipo de fita métrica ao pescoço, aferindo-se cada passo da pessoa a cada instante, a despeito inclusive de sua vontade e tendo-se em mente evitar um desajuste social decorrente da deficiência.

Ao mesmo tempo que se repete exaustivamente o direito da criança em desenvolver-se em seu próprio ritmo e tempo, pais e terapeutas se apropriam cada vez mais do seu tempo biológico na tentativa de equiparação com os demais. Esse é o tipo de investimento emocional que, a priori, desfaz da própria identidade da criança e a coloca numa métrica social absolutamente sem equivalência, na qual a diversidade é apenas aparentemente festejada, mas que é permeada por valores da sociedade ordinária que preponderam, como a competição, a distinção meritocrática e até mesmo o preconceito.

Sim, o preconceito. Embora muitas vezes o termo seja tomado como um caminho de mão única, o preconceito também pode ser um tipo de estatuto social ou uma espécie de pacto. Se você se submete a ele ou mesmo se vale de seus preceitos, lutar contra ele talvez faça pouco ou nenhum sentido. Ou então talvez não se trate de uma luta, mas de um tipo de encenação. A vida social tem muito disso também, como todos já sentiram de um ou outro modo, cada um na sua própria oportunidade.

2

Num gesto de rebeldia extrema, meu filho às vezes recusa-se a brincar de jogos pedagógicos. Se por muito tempo me frustrei por perceber seu pouco interesse em associar algum tipo de conhecimento ao ato de brincar e associei isso às suas dificuldades cognitivas, lá pelas tantas compreendi o que ele queria me dizer, apesar da sua dificuldade expressiva (ele nasceu com a síndrome de Down e sua linguagem verbal ainda é bastante limitada).

Ele queria dizer não. Sim, “não”. E queria que eu entendesse isso com alguma pressa pelo óbvio estabelecido, o fato de que sou seu pai, não seu professor, que seu quarto de dormir não é uma sala de aula, que nossa casa não é uma escola, que ele não quer submeter-se a provas justamente diante de mim, ser medido e avaliado como um funcionário que almeja promoção.

Não. Ele quer sua liberdade e, ao lutar por ela, irrompe como um sujeito poderoso, aquele que interage ativamente com seu interlocutor, que diz não, expressa sua vontade e se recusa a dobrar-se às intenções alheias, mesmo que elas sejam supostamente as melhores do mundo. E elas normalmente são mesmo, tanto as minhas como as da maioria dos pais que conheço. Melhores, autênticas e ainda assim insuficientes, porque na maioria das vezes unilaterais.

Meu filho, quando faz isso, quer dizer que brincar só é mesmo uma coisa interessante, como dizia Huizinga (1) , quando interrompe o fluxo de necessidades reais e substitui a vida imediata pela liberdade plena. O pioneiro dos direitos das crianças, o polonês Janus Korczak (2) disse mais ou menos a mesma coisa, que “o jogo não é o paraíso infantil, mas o único onde nós lhe permitimos um pouco de liberdade, de iniciativa”.

Nesse afã, ele dispensa sempre todos os seus jogos pedagógicos, geringonças eletrônicas programadas para a satisfação automática e passa a brincar com suas roupas, justamente objetos que não são nem “brinquedos”. Por sua escolha, é a brincadeira que lhe interessa. E se por acaso algum adulto topa brincar segundo suas regras (que nada mais são do que um jogo de atirar e amontoar tecidos), aquele se torna claramente o momento mais feliz do seu dia. É o momento em que finalmente ele é um sujeito como outro qualquer e não alguém a ser inculcado, instruído, levado a compreender a vida e o mundo sempre através de terceiros.

Mas viver não pode ser sempre assim, é claro que não, embora seja bastante perceptível que ao longo da vida os adultos estejam compenetrados em tentar recuperar o gesto lúdico sob muitas outras formas, talvez como forma de aplacar a saudade, quem sabe?, das brincadeiras infantis.

O início da educação escolar, de certa forma, é o grande marco na vida infantil depois do nascimento. Ali, as figuras paternas e maternas são relativizadas e a cultura doméstica vai sendo suplantada pela cultura formal, pela instrução. Muitas outras coisas se ganham e se perdem na entrada da vida escolar. Na maioria das escolas, a liberdade é a primeira a perder-se. A própria orientação do sentar em classe estabelece uma ordem arbitrária. Também a explosividade natural da criança e suas tendências fantasiosas são sistematicamente anuladas e paulatinamente substituídas pela regra social. Aprender a viver socialmente tem dessas coisas também. A brincadeira finalmente vai perdendo espaço e configura-se mais tarde como um momento de alienação da vida real, no qual tudo é permitido, quase como num estado alterado de consciência. A criança finalmente sublima o brincar, torna-se uma mimese forjada dos adultos, adolesce.

A criança com deficiência intelectual, nesse processo de aquisição cultural, normalmente é duplamente exigida. Ou mais que isso, até. Ela deve responder às necessidades dos outros, e isso é comum a todas as pessoas, mas ela deve fazer isso tendo como parâmetro alguém muito diferente de si mesma. É a pessoa ideal. Aquela que não existe ou, se existe, talvez possa ser até o produto de uma invenção ou da imaginação de alguém. Via de regra, trata-se idealmente de uma pessoa minimamente ajustada socialmente, que responde também minimamente bem a testes padrões e ao convívio social. Fora desse padrão, seria uma pessoa sem lugar. É um cidadão exilado. É uma promessa não cumprida de socialização, de inclusão, porque baseada em um desejo que sequer lhe pertence, mas que é compartilhado socialmente como o único desejável no sistema social cultural ou, pior ainda, como o único tolerável.

O trajeto que uma pessoa com deficiência intelectual faz até sua inclusão ou sua exclusão não está anteposto a ninguém, mas ainda assim é algo mais ou menos previsível. São as condições econômicas da família a determinar grande parte dos fatores que influem aí. É o acesso a estímulos indispensáveis ao desenvolvimento social e cognitivo. Mas também, e penso que principalmente, uma espécie de ideologia que perpassa o seu crescimento, através de suas vivências pessoais, começando pela vida em casa, pela escola, pelos relacionamentos e assim por diante.

Mesmo que não sejamos simpáticos a ele, o abilitismo já está aí, a nossa disposição, e de várias maneiras. Seja na forma de psicofármacos que visam amortecer “sintomas” indesejáveis, seja em modelos educacionais voltados à padronização e serialização ou até mesmo na maneira pela qual os pais de crianças com deficiência intelectual são orientados a interagir com seus filhos. Recolocar a pessoa como um sujeito protagonista da própria vida, como titular de seu desejo e busca pela felicidade certamente não é algo que se possa conseguir isoladamente, mas pelo acordo social. Todavia às vezes será necessário pensar que espécie de acordo é esse a que estamos submetendo-nos e submetendo nossos filhos.

Ultrapassar o próprio reconhecimento da pessoa que está ali, sob nossa (da família, da escola, etc.) responsabilidade, não faz sentido se nossa visão de mundo estiver sedimentada em valores que recusam a sua humanidade inata. Como ao Narciso grego, a imagem de nossas idealizações deve servir prioritariamente a nós mesmos. Nossos filhos têm o direito de estar fora disso e construir sua própria vida, certamente com nosso apoio, mas igualmente certo que com o mínimo de respeito a sua liberdade e individualidade.

(1) John Huizinga. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 1980.
(2) Janus Korczak. Como amar uma criança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

A música que não vibra

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Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.

Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”

Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociênica sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.

Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musiciais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.

No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.

Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.

De toda a maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.

Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível. O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentisas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.

Pelo que lutam as pessoas com deficiência

Duas pessoas com deficiência em cadeira de rodas praticam esgrima

Hoje (21/9) é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Consultando no CEDIPOD, um dos primeiros centros de referência sobre legislação relacionada à pessoa com deficiência no Brasil, lembro que a data foi instituída por lei. Em 2005, o presidente interino José Alencar sancionou a data, através da Lei 11.133.

Segundo o CEDIPOD, “O Dia Nacional de Luta das Pessoas Deficientes foi instituído pelo movimento social em Encontro Nacional, em 1982, com todas as entidades nacionais. Foi escolhido o dia 21 de setembro pela proximidade com a primavera e o dia da árvore numa representação do nascimento de nossas reivindicações de cidadania e participação plena em igualdade de condições.  Esta data é comemorada e lembrada todos os anos desde então em todos os estados; serve de momento para refletir e buscar novos caminhos em nossas lutas, e também como forma de divulgar nossas lutas por inclusão social.”

Mas por que lutam as pessoas com deficiência? Lutam as mesmas lutas? Querem as mesmas coisas? Têm os mesmos objetivos? O que têm, afinal, de comum entre si além do fato de abrigarem-se sob as mesmas leis e partilhar, às vezes, o mesmo desejo social?

A pergunta não é de simples resposta e há, sem dúvida, pessoas com deficiência e militantes com muito mais acúmulo histórico que eu para respondê-la. Mesmo assim, não consigo evitar de fazê-la, até porque é evidente que as reivindicações das pessoas com deficiência não são exatamente as mesmas, nem na data de hoje nem fora dela. Tampouco seria realista afirmar que são pessoas em franco consenso em relação a isso. Não são. Sabemos bem que mesmo entre pessoas com deficiência do mesmo tipo há diferenças importantes em relação não só as reivindicações, mas inclusive sobre as formas de lutar por elas.

Muitas vezes as pessoas com deficiência são comumente identificadas pela sociedade através do famoso símbolo da cadeira de rodas, mas será que essa mesma sociedade percebe que há um sem fim de razões para que uma pessoa use uma cadeira de rodas, isso sem falar na evidente necessidade de locomoção? A reivindicação por acessibilidade, por consistir num objeto de interesse público que demora tanto a concretizar-se, talvez seja a mais visível das reivindicações das pessoas com deficiência, mas há muitas, muitas outras. Algumas tão específicas que podem parecer até particularidades, mas não o são pela simples razão de que significam as formas concretas pelas quais o indivíduo – mais que o grupo de indivíduos – tem para se relacionar com o espaço público, o meio ambiente e as outras pessoas.

Pergunto-me ainda se todas as reivindicações têm sua razão de ser. Embora a concordância ou não com isso não elimine nenhuma das razões, é preciso ficar claro que a resposta para essa indagação é sim. Sim, absolutamente. Seria fantasioso demais imaginar que, pela instituição de uma data, as diferenças de concepção sobre as deficiências e suas reivindicações específicas seriam suprimidas. Não, definitivamente. As diferenças continuam e, ouso dizer, é preciso tirar-se partido disso para amadurecer ideias políticas, consertar pontos de vista, criar novas possibilidades, mesmo que isso não ocorra – e não irá ocorrer – sem conflitos ou através de um passe de mágica. Trata-se de um desafio permanente para toda a sociedade que se quer democrática.

Desafios, falando neles, não faltam às pessoas com deficiência. Nem no âmbito do indivíduo nem no social. Eles dizem respeito desde o acesso aos mais elementares direitos sociais (principalmente educação, saúde e trabalho), ao enfretamento dos preconceitos e à luta contra a exclusão porque, sem isso, também não há forma de criar uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Mesmo que as condições econômicas sejam determinantes para o indivíduo, as condições sociais devem ser favoráveis e, preferencialmente, para todos, cada um em sua especificidade.

Eu não estava lá em 1982, mas fico imaginando que, se a data foi criada para luta e reflexão, é interessante manter essa perspectiva reflexiva, para além dos movimentos civis e manifestações públicas. Assim, a ideia aqui é tão somente uma brevíssima e despretensiosa reflexão que considera abrigar sob um mesmo guarda-chuva a absoluta diversidade de formas de ser e estar no mundo. Isso significa a diferença que se aponta, mas também a igualdade que se deseja. Antes de qualquer reivindicação especifica, trata-se de uma data para lembrar da dignidade inerente a todas as pessoas, porque de luta sabemos que todo os dias o são…