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A mulher submersa

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 05/09/2020.

Os livros costumam ter itinerários fora e dentro da casa de gente. Fabricam-se, viajam e um dia chegam aonde deveriam chegar. Depois, diligentes, ocupam o seu lugar nas mesas, cabeceiras e depois ainda vão dormir, às vezes mal acomodados, nas prateleiras, como um volume a mais entre volumes. No entanto há livros que nunca couberam nem em si e logo vão encontrando, em sua vocação líquida, uma forma de se esparramar tão logo desembarcam. Como um parente antigo que, de repente, decide-se por cumprir uma promessa antiga e em definitivo regressa. Há pouco veio “morar” na minha em casa um livro assim, de pessoa que nunca vi, mas vi desde o primeiro instante de “quem” se tratava.

A mulher submersa, primeiro livro de Marceli Becker (ou Mar Becker, como é mais conhecida) e publicado em São Paulo pela editora Urutau, vê-se logo que é livro de gente viva e que se reconhece tão instantaneamente como a alguém que estivesse fadado mesmo ao destino de se deixar compartilhar sem receios, numa poesia impraticada, singular, e ao mesmo tempo comum, tal fosse parte da nossa própria voz a dizer aquelas coisas, em nós mesmos já incorporadas. Pois esse livro antes de chegar para ocupar um espaço entre as coisas da casa, veio não para ser guardado em fileiras de outros livros dorminhocos, mas para dizer por tantos que já andaram e disseram nos dias e noites da nossa vida.

É mesmo um livro um tanto fantasmagórico esse. E, por isso, mágico. Dentro dele, uma poesia discreta e vigorosa deixa falar mais que uma pessoa, mais que um tempo, mais que um motivo só. E antevejo nele minha bisavó, também poeta, e seus poemas riscados com pedaços de hulha no imenso tempo que há numa vida. Numa daquelas fotografias dentro do livro, sei que ela está lá também, carcomida do tempo, como eu a conheci.

Boa parte das pessoas, gaúchos inclusive, pensa na cultura do Rio Grande do Sul como uma cultura formatada em temas perenes e paisagens iridescentes e aconchegantes. O horizonte púrpura, crepuscular, a madrugada fria. Pouco se vê dos pátios, dos lugarzinhos, das gavetas dos móveis, das peças de roupa, das asperezas e dos gestos de pessoas que, muito ao contrário da imagem falastrona, dizem pouco, às vezes até desistem de dizer e deixam-se viver como se numa ciência tácita do próprio destino – e suas coisas.

Marceli é uma poeta que faz disso tudo matéria poética e está além das fronteiras porque sua poesia alcança a intimidade essencial das pessoas seja quando evoca o erotismo de Safo e os temas ancestrais da humanidade e das referências clássicas, da paixão bíblica e o estranhamento do ser e do sentir, como se trouxesse consigo um tanto de paraíso e apocalipse em sua poesia definitiva, como bem definiu certa vez o também poeta e amigo comum José Francisco Botelho, por intermédio de quem a conheci e pelo que sou grato. O fato dele ser poeta também é algo que a seu tempo será revelado, pois consagrou-se como excelente contista, mas há rumores de que logo um livro de versos seus vem por aí também.

Elogiada no Brasil inteiro por estudiosos, diletantes e leitores, desde antes do lançamento de A mulher submersa Marceli é de uma transparência que a faz ainda mais autêntica e se pode enxergar instantaneamente uma poeta devotada à sua arte e a quem ela é, em sua identidade. É algo muito estranho acompanhar o seu perfil nas redes sociais e ver que um dia bem ela está mencionando Herberto Helder como cantores populares do sul. Gildo de Freitas, Jayme Caetano Braun, Pedro Ortaça e os músicos do Folklore 4, de Bagé, estão tão presentes na sua timeline como Antonio Gamoneda, Alejandra Pizarnik, Bashô e Jacques Roubaud. Com uma tranquilidade temperada e um humor semelhante, Marceli é uma excelente companhia (mesmo virtual) e eu recomendo muito segui-la tanto quanto lê-la. É impressionante mesmo que se trate da mesma pessoa na sua composição mais íntegra de simplicidade e complexidade. Talvez daí venha justamente o apodo “Mar”.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker revive uma sentimentalidade do sul, nada óbvia, e faz caber num detalhe doméstico qualquer a imensidão de seu olhar e seu afeto cultural.  Quase nunca se vê o tanto de desterro, de solidão e de reflexão que acompanha a poesia de quem se afasta do seu lugar de constituição e afeto original. Numa gaveta de sua casa, em São Paulo, Marceli encontra um conjunto de atavismos e memórias e imagens a quem ela dá vida como quem é capaz de encantar e transmitir esse encantamento em versos fluídos dos quais ela mesma se faz.

No Quebec ou nas estepes do Azerbaijão, os temas da poesia são os mesmos porque as pessoas são as mesmas em sua aventura. De um olhar atemporal, de quem se observa e reconhece suas faltas, amores, saudades, tristezas, alegrias, de tudo isso se preencheu a minha casa, casa da minha família, em razão deste A mulher submersa. Engraçado é que parece possível encontrá-la numa janela de Porto Alegre, das muitas que vejo desde a reclusão da pandemia. Prova de que a sua poesia viaja apesar de tudo e está também onde estamos e mal notamos. A poesia de Mar Becker tem também a poesia que nós somos e pouco lembramos. Agora, com o livro, tudo finalmente ficou mais fácil e simples, como é de seu modo de ser. O Rio Grande do Sul pode congratular-se sem medo do surgimento em livro de Mar Becker e dizer que ela é sua. Quem a leu, afinal, já notou que a verdade é que nós é que somos dela.

Hors-concours

Artigo publicado na Revista Parêntese, de 20/08/2020.

Mal chegou agosto e já tenho escolhido o meu livro do ano. Meu livro não foi escolhido nem por algoritmos e nem por recomendação de terceiros, nada disso. Ele que me descobriu num dia de trabalho e foi-me apresentado não por seu autor, mas pela mãe dele. Antes que pensem que é cedo demais para uma afirmação dessas, eu garanto que não é. E, se me acompanharem, entenderão o porquê de eu afirmar isso de forma tão categórica.

A julgar pela capa e pelo titulo, A angústia de uma alma, qualquer um imaginaria de imediato um livro religioso ou doutrinário, mas não é disso que se trata. De autoria de um certo Mike Lorry Loudney Joseph, o livro se apresentou a mim de uma forma irrecusável. Eu não conheço o Mike pessoalmente (pelo menos ainda não), mas conheço a mãe dele, que é também é sua maior entusiasta e mercadora. Ela trabalha numa empresa terceirizada que presta serviços à instituição na qual eu trabalho. É uma “colaboradora”, como agora se convencionou chamar – este que é mais um dos eufemismos pós-capitalistas já normalizados no mundo – as pessoas empregadas em serviços terceirizados.

O livro do Mike é muito triste. Triste como a história dos haitianos que emigraram para o Brasil nos últimos anos. Formalmente, não é um livro impecável, mas quase não se nota isso à leitura de um poema que trata de uma prima sua que perdeu a vida num naufrágio, de outro a respeito de um amigo também afogado e, sobretudo, das ruínas de um lugar do qual se quer fugir a todo o custo e da esperança que um outro lugar que damos também como em ruínas – o Brasil – pode encerrar para um garoto de 18 anos de idade.

O Mike viveu o terremoto que atingiu quase em cheio a capital Porto Príncipe no ano de 2010. Separado da família, somente foi reencontrar-se com ela em 2017, quando veio tentar a vida em Porto Alegre. Eu não imagino qual foi a tiragem do seu livro, certamente é bastante restrita, mas tenho certeza que seria sempre pequena, mínima, em relação ao impacto de um livro de um autor que precocemente encontrou a experiência da devastação, do desterro e da morte desde o início de sua vida.

Proporcionalmente ao seu volume, o livro não saiu barato. São cerca de 40 páginas e com o valor que paguei poderia comprar com tranquilidade um pocket-book da L&PM ou da Companhia das Letras, mas acontece que o livro do Mike conta com as suas pernas e as da sua mãe para ganhar a rua e os leitores que entendem da importância e da dignidade de um livro como o dele. Vale cada centavo.

Além de ser tocante por si só, o livro me induz a pensar que a história do livro e da leitura é muito maior que a história do comércio de livros. A bem da verdade, deveria separar-se as duas coisas, mas como isso seria possível num sistema, como diria Walter Benjamin, hipertrofiado? Ou seria exagero usar desse termo para descrever-se uma indústria livreira que, no Brasil, destina milhões de exemplares anualmente à indústria de picotagem e ao final menos honroso que o papel poderia ter em seu nem tão longo ciclo industrial?

Por duro que seja admitir, a indústria do livro tem mais semelhança hoje com a indústria petroquímica do que com a cultural. Para ela, não há problemas na produção de excedentes de milhões de exemplares quando o preço de capa dos lançamentos paga por tudo isso, mesmo que por conta disso Cervantes ou Shakespeare acabem transformando-se em aparas e não cheguem jamais às bibliotecas públicas e escolares do país, despidos definitivamente de sua “aura”.

Não é um escândalo. Há anos, aliás, sabe-se muito bem disso por meio das pesquisas encomendadas pela Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional dos Editores de Livros e que vinham sendo desenvolvidas anualmente pela Fipe. Neste ano, coube a Nielsen Book atestar a estabilidade destes números e o encolhimento de 20% do setor em quinze anos.

Quando a Cosac Naify anunciou que seus excedentes teriam esse mesmo destino, em 2016, o meio cultural esboçou um grande lamento. Mas quem salvou os livros caprichados de Charles Cosac e vendeu todos os exemplares foi a temível Amazon (de acordo com as pesquisas, responsável por 3% de vendas no mercado nacional) com sua política de preços imbatível. Hoje, não há mais nem um exemplar à venda dos livros cujo destino seria virar rolos de papel Neve, a não ser em sebos nos quais chegam a valer até 5 vezes o seu valor de capa original.

No começo deste ano, foi noticiado que apenas o MEC poderia se desfazer de 3 milhões de exemplares intactos, num gasto estimado de R$ 20,3 milhões. Não parece ser uma grande tragédia, já que cíclica. A pujança brasileira, ou a ilusão de sua sustentabilidade, há de dar conta desse desbalanço comercial que se verifica entre produtores, preços e consumidores. Tudo é muito triste e revoltante e me dá a sensação de afogamento em livros.

Bem mesmo quem fez talvez tenha sido o Tyrteu Rocha Viana, poeta modernista rio-grandense, que, na primeira metade do séc. XX, obrigado a uma tiragem de 1.000 exemplares, pagou por todos e mandou imprimir apenas uma dezena deles para distribuir a quem acreditava que realmente o leria. Ou então a mãe do Mike e ele mesmo, decididos que estão a bater perna até vender o último dos exemplares de A angústia de uma alma.

Impecável pela modéstia, Mike é o poeta que, tendo vivido isso tudo, afirma apenas “não sou herói / sou apenas a vitima do destino”. Destino, aliás, é das palavras que mais aparecem nos seus poemas, como se ele desejasse muito sobrepujar a sua vontade. O livro do Mike é mesmo um livro inconformado com o destino e que não pretende calar sozinho com a sua angústia. “Alguém para ouvir o meu grito de desesperança?”, ele indaga. O livro dele é dos que certamente não vai se conformar em virar aparas, num destino trágico, porque não é um livro de um sobrevivente, mas um livro hors-concours, de sobrevivência.

O “Ponto-final” de Marcos Nobre

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 27/06/2020.

Parte integrante da recém-lançada Coleção 2020 – Ensaios sobre a pandemia, da editora Todavia, o mais recente ensaio de Marcos Nobre, Ponto-final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia, é um livreto extraído a quente do momento político brasileiro atual. O autor, que além de professor do Departamento de Filosofia da Unicamp assumiu no ano passado a presidência do cinquentenário Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é um pensador que, pelo menos desde junho de 2013, vem fazendo a análise política institucional brasileira quase sempre ao tempo dos fatos. Essa característica, se por um lado o torna um tanto quanto vulnerável a precipitações, por outro o coloca na vanguarda do pensamento brasileiro conforme ele se expressa na vida política e intelectual da sociedade. O risco invariavelmente tem valido a pena. São de sua autoria boa parte das análises mais consistentes da política nacional desde aquele junho até o atual, intervalo no qual o cenário de forças e influências transfigurou-se na história recente até chegar à eleição de Bolsonaro em 2018 e a primeira crise política relevante do seu governo, agora em 2020, em meio à pandemia do coronavírus.

Ponto-final parte, portanto, do presente em direção ao passado e também a algumas especulações a respeito de tendências futuras de um governo marcado por auto polêmicas. Num livro breve, de leitura rápida, seu autor procura traçar a rota de racionalidade na qual vem se movendo o presidente, o seu governo e a coalizão de forças que, com a saída do ministro Sérgio Moro, agora parece fraquejar nas suas principais promessas, quais sejam o enfrentamento à corrupção e o afastamento de grupos e figuras políticas que o próprio presidente costumava classificar como pertencentes à “velha política”. Além disso, Nobre examina as características funcionais do governo em sua dinâmica interna, propondo que o governo Bolsonaro seja analisado desde a sua própria concepção e funcionamento. Nisso também ele se distingue de boa parte da crítica que se faz ao governo atual na imprensa e no mundo acadêmico, dado que se trata de uma perspectiva que implica todos os atores políticos num mesmo cenário e não externaliza uma visão sectária.

De deputado do baixo-clero a candidato outsider e daí a presidente da República, para Marcos Nobre a trajetória do presidente Bolsonaro está intimamente relacionada à crise do presidencialismo de coalizão que governou o Brasil a partir do centro político desde a instauração da Nova República, representado principalmente no MDB de José Sarney. Precisamente em 2013, véspera da eleição presidencial que reconduziu Dilma Rousseff ao poder, de acordo com ele o sistema político colapsava e acenou insegurança em responder às demandas desuniformes da população passando a agir de forma autofágica justamente quando o enfraquecido PT governava o país e podia ser sacrificado pelo sistema político em prol da salvação de grupos que não viam problema nisso, desde que salvassem a própria pele no processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Situado à margem do processo de instauração do impeachment e afastado do centrismo destroçado pela Lava-Jato, Bolsonaro teria, de acordo com Nobre, aproveitado a dissolução do sistema para reunir em torno da sua candidatura setores também marginais e descontentes com o projeto de coalizão do governo petista. Dessa forma, com o apoio de classes subalternizadas na máquina pública, como militares de baixa patente, pequenos empresários, agricultores e, sobretudo, o baixo clero do Congresso, ele teria finalmente saído vencedor nesse levante contra o sistema político. Nobre diz ainda que estes setores representariam a parcela inarredável de apoio com que o presidente Bolsonaro vem se mantendo principalmente após a crise ministerial e o abalo da chegada do coronavírus ao país e a respectiva crise sanitária.

Tendo vencido o candidato “improvável”, na eleição mais caótica que o país poderia ter, de acordo com Marcos Nobre o presidente Bolsonaro jamais teve interesse em apaziguar o país – o que seria quase o mesmo que acariciar o arranjo contra o qual foi eleito. Mesmo em meio à pandemia, quando seria razoável manter-se uma equipe estável e um projeto de contenção sanitária, a desestabilização institucional continuou sendo o regime ao lado de uma crescente militarização do executivo expressando o desejo de implementação de uma hierarquização cada vez mais vertical na estrutura do Estado. No terremoto constante do seu governo, apenas as figuras incontestavelmente identificadas com essa postura poderiam guarnecer o presidente. Nesse sentido, a demissão dos ministros Sérgio Moro e de Luiz Henrique Mandetta representariam muito mais o descarte de ameaças à integridade do governo do que a popularidade do presidente, como foi aqui e ali aventado.

Assentado no que denomina ser um “governo de guerra”, Marcos Nobre defende a ideia de que a governabilidade de Bolsonaro está calcada na manutenção de um estado de beligerância constante, o que ele chama de “método do caos”. A ideia consistiria na geração incessante de conteúdo ideológico e na permanente desqualificação da esfera pública, na qual a imprensa apareceria como adversário central ao seu projeto de governo. Além disso, a crise da pandemia ao tempo em que teria desgastado sua gestão militarizada da coisa púbica acabou por fortalecer a figura de um personagem político em luta eterna contra o sistema e o aparelho jurídico representado principalmente no STF. Em sua recente guinada em direção ao centrão do Congresso Nacional, elemento central de detratação de sua campanha eleitoral, o presidente administra agora uma parceria insólita com figuras como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, desagradando o setor militar e tornando mais nebulosa a retomada da normalidade, que dirá o “novo-normal” necessário à superação da crise sanitária e econômica.

Concorde-se mais ou menos com suas avaliações, de qualquer forma é muito relevante que as análises políticas, tais como as propostas por essa coleção da Todavia, venham a púbico neste momento e sirvam ao propósito de fermentar o debate público, muitas vezes nebuloso e deprimido. O que Marcos Nobre procura fazer, e que não se encontra tão facilmente entre analistas e comentaristas em geral, é pensar o Brasil para além da agenda na qual os políticos tentam forjá-lo (visando normalmente eleições). A tarefa requer um tanto de sangue frio. No entanto, poucas pessoas como ele têm essa frieza e não se deixam levar pela comoção ou por conveniências narrativas, selecionando apenas elementos de análise que o favoreçam. Se a sensatez caracterizasse o tempo presente, mesmo o governo e seus apoiadores poderiam refletir mais e melhor a respeito da forma de conduzir o Brasil o mais longe possível do precipício que 2020 parece estar se transformando.

“Marrom e Amarelo” e o racismo no Brasil dos anos 10

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 11/01/2020.

O mais recente livro de Paulo Scott, Marrom e amarelo, publicado em 2019 pela Companhia das Letras/Alfaguara, é um livro que não deixa muitas dúvidas, mas deixa algumas (e é bom que as deixe). Desde o primeiro parágrafo, quase um libelo, logo se fica sabendo de sua intenção política: a denúncia da persistência do racismo estrutural no Brasil dos anos 10. É indubitável. Ainda assim, é dessa mesma certeza que provém o seu maior potencial de questionamento e que aos poucos prolifera em dúvidas dirigidas, por sua vez, aos leitores. É que é impossível deixar de pensar em como, ao final de um período político histórico em tese favorável às questões relacionadas aos direitos humanos, não se conseguiu debelar a semente dura, aparentemente inabalável, do racismo em sua forma brasileira.

Ambientado na Porto Alegre contemporânea, o romance é protagonizado por dois irmãos que se reúnem justamente em função de libertar a filha de um deles (sobrinha e afilhada de outro). Ela acaba de ser presa por envolver-se em manifestações políticas emergentes realizadas em torno à desocupação de um prédio no Centro Histórico de Porto Alegre e o responsável pela prisão é justamente um antigo conhecido e desafeto dos irmãos.

Contrapondo experiências de duas gerações de ativistas, o romance de Scott coloca em comparação momentos distintos da história brasileira e também do ativismo negro, apesar de que temporalmente bastante próximos. O primeiro, anterior, e que remonta à redemocratização e aos anos 80 e 90 do séc. XX; o outro, recente, forjado no Brasil pós-2013, no qual uma jovem ativista equipada tecnologicamente vê-se ainda às voltas com o drama inarredável do preconceito e da discriminação.

O romance, no entanto, diz muito mais do que o produto dessa justaposição e desse desconforto político. Lido assim parece resumir uma pedagogia que, de fato, não corresponde ao painel que indiretamente ele conta da vida de uma das capitais com menor distribuição étnico-racial do Brasil. De acordo com o IBGE, Porto Alegre é capital do estado brasileiro com o menor percentual de pessoas pardas em sua população, isto é, de pessoas com múltiplas ascendências étnicas (10,6%). O número de autodeclarados negros também está entre os menores da federação (5,5%). No Brasil inteiro, não poderia mesmo haver cenário mais favorável para um convívio social tão conflitivo.

No livro de Scott, essas diferenças falam da geografia dos bairros de uma cidade ocupada de forma radicalmente diferenciada, mas ainda mais de uma cultura cindida, pouco solidária e, por isso mesmo, violenta. De um lado, toda uma estrutura inacessível e refratária dos bairros ricos e de classe média, dos clubes, das instituições tradicionais da cidade. De outro, as ruas, as escolas precárias e vidas familiares permanentemente acossados por várias espécies de agressão, desde a violência casual, o tráfico, o permanente convite à delinquência e a violência institucional. É curioso, aliás, o modo pelo qual Scott nomeia insistentemente, ao longo do livro, nomes de siglas por extenso. É forma, talvez, que encontrou de imprimir no papel a certeza de que o racismo estrutural chama-se dessa forma justamente por agir muitas vezes desde e a partir das estruturas e instituições sociais e políticas.

Mesmo com um pano de fundo como este, resumi-lo como um livro de denúncia, no entanto, significaria apagar a intensa vitalidade conduzida pelo narrador/protagonista. Seja quando participa da burocracia estatal e manifesta sua crise para com as discussões políticas destinadas ao acesso por cotas ao ensino superior, seja quando retorna à cidade natal e percebe intocada a cultura discriminatória e o cotidiano de pequenas violências, Federico precisa reaver-se com o próprio passado e com as diferenças afetivas com o próprio irmão Lourenço. Não bastasse isso, os dois irmãos são também diferentes na cor da pele (enquanto Lourenço a tem mais escura, Federico é mais claro e tem cabelo liso) e, principalmente, na forma como encararam o drama do racismo individualmente.

Por meio de muitas idas e vindas ao passado, o romance chega a uma culminância muito mais afetiva do que política. É no seu reencontro com a família, os antigos amigos do Partenon e com a projeção das dificuldades enfrentadas agora pela sobrinha que ele precisa tomar a decisão de reirmanar-se aos seus e voltar ou não a viver em Porto Alegre. Até chegar a isso, Scott terá reconstruído uma história e um lugar para Federico que extrapola em muito a jornada pessoal e diz respeito ao destino comum daqueles com quem se importa. O impasse ético de Federico não poderia ser mais crucial. Dividido entre a possibilidade de fixar-se longe de todos, num ativismo cada vez mais anódino e burocratizado, ou a de estar disponível à sua família e comunidade, Federico é recolocado à força nos trilhos da história por problemas tão antigos quanto reincidentes. Suas dúvidas, apesar disso, são o que lhe fazem mais humano e, por tabela, resolvem o romance não numa equação previsível, mas por uma trama que se mostra convincente porque derivada da complexidade inerente às relações humanas e políticas quando tomadas honestamente.

 

Livros de viagem

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 29/02/2020.

Em 1910, muito antes que os primeiros youtubers e coaches literários pisassem sobre a terra, Robert Musil tinha os nervos quase em colapso após uma experiência que transcreveu mais tarde para o seu O homem sem qualidades. No que no livro ele chama de “hospício de livros”, Musil viveu a experiência real de ser um dos bibliotecários da Universidade Técnica de Viena, cargo obtido após o sucesso do biográfico O jovem Törless. Segundo seus biógrafos, parece que lá ele projetava ter o sossego necessário para desenvolver seus posteriores projetos literários. O trabalho, no entanto, acabou revelando-se exasperante em vista da segunda explosão bibliográfica ocorrida logo após a Revolução Industrial (a primeira ocorreu no séc. XVII com a popularização da prensa). Lendas contam que ele redigiu as mais de mil páginas de O homem sem qualidades também como vingança pela extenuante experiência laboral catalográfica na “bibliografia das bibliografias”.

Mais de um século após, e com a sobreposição da revolução tecnológica (sem que a industrial tenha jamais pausado), pense-se no quão exasperante pode ser a um ser humano dotado de apenas um cérebro e uma vida indicar, que seja, apenas um livro a alguém, não interessa quem. É uma tarefa efetivamente impossível e, dada a recente compulsão por listas de recomendações, às vezes parece que estamos todos a tentar compilar a “lista das listas” como se esta fosse a finalidade em si mesma da leitura ou, como em Musil, a única leitura possível.

Objetivamente, tudo se resume ao critério da ignorância, ou seja, todos reconhecem que é humanamente impossível ler todos os livros ou ter absoluta certeza de que o próximo da lista, qualquer que seja ela, não pudesse ser muito superior ao precedente. Como solução para o impasse que vem desde Alexandria, literatos costumam valer-se de recomendações canônicas enquanto que leitores comuns, por outro lado, parecem mesmo tentados a cada vez mais procurar outras fontes de lazer. É pelo menos o que tem demonstrado os achados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada numa parceria entre o IBOPE e o Instituto Pró-Livro e que deve ser reeditada no ano de 2020.

Nessa dissociação, todavia, todos conseguem decodificar rapidamente os males que se refletem na vida de cada um decorrentes da deterioração do hábito de leitura. Não raro se aponta que muitas dificuldades do mundo contemporâneo também possam ter alguma relação com as capacidades intelectivas obtidas (ou perdidas) pelo hábito e, especialmente de ficção e poesia, cujo efeito já foi equiparado por neurocientistas a terapias que retardariam o declínio das funções cognitivas e poderia ajudar a prevenir inclusive condições como ansiedade e depressão. Seja na aquisição de capital cultural ou no aprimoramento das capacidades interpretativas, também dificilmente alguém se oporia à ideia de que estimular a leitura é condição fundamental para a melhoria de toda a vida social. A constatação é das mais banais. Enfrentá-la é que são elas.

Uma das perspectivas em evidência obedece à lógica que o sociólogo francês Pierre Bourdieu denominou em seus livros por “distintiva”. Quase toda ela reside na vantagem social e simbólica decorrente do acúmulo de capital cultural, mesmo desconsiderando variáveis perspectivistas. Embora pareça ser a preferência entre literatos e adictos, não raro os leitores comuns a interpretam como afetação e objetificação, portanto há que se ponderar em seu uso com objetivos de convencimento. Em tempos de guerras culturais, a perspectiva compete muitas vezes mais na autoafirmação pessoal que num efetivo interesse de disseminação do hábito. E, considerando-se que a interpretação costuma ser a primeira baixa e a mútua incompreensão a principal moeda corrente das comunicações digitais, é relevante pelo menos que se tenha ciência dos limites “pedagógicos” interpessoais, mesmo em face dos melhores objetivos.

Outra perspectiva em questão, bibliófila, trata de um estímulo positivo e direcionado à difusão do hábito de leitura, revalorização das bibliotecas em detrimento da tecnologia e iniciativas mais convidativas que pedagógicas. Nos últimos tempos, talvez ninguém como o argentino Alberto Manguel, atual presidente da Biblioteca Nacional Argentina (cargo já ocupado por Jorge Luis Borges), encarne o papel de divulgador literário, principalmente depois da morte de Umberto Eco.

Uma ideia defendida por ele, de que muitas vezes os livros ensinam mais dos lugares e culturas remotas do que até mesmo podem fazer as viagens, pode servir de consolo para quem, em tempos difíceis, sequer pode viajar a lazer. Mas o que ele deseja dizer é que a espécie de viagem que sobretudo a leitura ficcional permite fazer é muito diferente da que é disponível em sua forma consumista.  Ou seja, viajar “estando” num outro mundo, não apenas “visitando-o” e “reportando-o”. Desse modo, e contrariando a tendência predominante que nos condena a estar na mesma posição em qualquer lugar, ou seja, consultando um smartphone, a leitura de ficção pode efetivamente transportar a mente, principalmente se por meio de histórias interessantes e, melhor de tudo, ciceroneada por pessoas habilidosas como são os bons escritores.

Por outro lado, é preciso lembrar que a leitura de literatura e ficção é apenas parte do conjunto de livros que há para ler e se o declínio do hábito de leitura se deve às exigências culturais cada vez mais indisponíveis, não se pode esquecer também do principal vilão evocado quando o brasileiro dá a conhecer sua média de três livros por ano: o tempo. Ao lado da irrefutável imensidão de oferta de títulos, é preciso igualmente usar de honestidade ao admitir a prevalência de outras leituras e fontes de lazer. Tudo a competir com o tempo e com as escolhas de cada um em gastá-lo.

Já o mundo não é o mesmo do crítico Émile Faguet, que recomendava que, para aprender a ler, “é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que tiver a honra de ter sido lido por você, será preciso ler bem devagar”. No país que mais usa ansiolíticos no mundo, convenhamos que é uma recomendação para lá de inquietante. Embora o prazer da leitura venha sendo nitidamente substituído por outros prazeres e compulsões, talvez seja possível um exercício justamente de tempo para levar a efeito uma atividade que inicialmente possa ser assombrosa como, por exemplo, a leitura das mil e tantas páginas de O homem sem qualidades – ou qualquer outro livro.

Nesse exercício, é desnecessário realizar uma equação das recomendações de fim de ano das pessoas mais respeitáveis do ramo. Recomendável também ignorar as listas de mais vendidos ou livros premiados. E, mais importante que decidir por comprar, por tomar emprestado de um amigo ou de uma biblioteca ou mesmo de livros já lidos e relidos, importa aproveitar qualquer livro como passaporte para uma viagem na qual lhe podem acompanhar as mentes mais imaginativas e poéticas com que o mundo já contou, em direção a lugares do mundo que nunca se tenha pisado antes ou mesmo que já não existam mais, quer seja num país distante ou no bairro ao lado. Este privilégio impagável de tomar parte nos dramas e alegrias humanas requer o sacrifício de penhorar, quando possível, apenas o tempo que mais tarde seria lamentado como perdido.

Livros de vidro

Com o tempo branqueando em definitivo o que restou de minha cabeleira, vou concordando cada vez mais com Guimarães Rosa, que disse literalmente que “um autor jamais deveria falar de outros autores, mesmo que não os aprecie. Disto não resulta nada de razoável; penetra-se em mundos estranhos, e isto não conduz a nada.” Bem se vê que o escritor de Cordisburgo tentou sempre conservar a elegância interiorana, que reside praticamente toda no recato e na prudência.

Eu já cometi o deslize do elogio, mas agora o evito como o diabo foge da cruz. Nem por isso assumo o outro lado da moeda, de quem vive a perseguir a falha alheia, e apontá-la como um facho de luz em noites de lua nova, em público e tampouco em privado. Não faço isso porque sei dos meus muitos erros e fraquezas e já experimentei infelizmente o ruído do meu próprio telhado de vidro se espatifando. Não digo que seja a pior coisa do mundo (a autocrítica é muito pior), mas é, dos aprendizados, um dos mais desagradáveis.

Por essa razão, ainda como Guimarães Rosa, não acho mais possível falar da literatura dos contemporâneos. Melhor e menos comprometedor falar dos que já morreram e o tempo não pode dissolver. Ou então, como tenho tentado fazer, falar apenas de tendências ou de livros de não-ficção, ainda que custe estudá-los, mas, por isso mesmo, o que se pode revelar mais proveitoso.

Por agora, a se confirmar a tendência de uma literatura cada vez mais politizada, engajada, comprometida com ideias políticas, o terreno dos comentadores de livros (onde me insiro, lances de escada abaixo dos verdadeiros críticos) vai ficando cada vez mais movediço. Eu, pelo menos, assumo meus problemas com isso tudo.

O que eu quero dizer é que o meu problema com a literatura politizada, engajada, identitária e etc. é que, a meu ver, ela coloca um xeque-mate de partida a qualquer olhar crítico. Ou seja, ela não se coloca em jogo, mas confunde-se completamente em autoria, enredo e estilo. Essa opção autoral (que não questiono) torna impossível dissociar efeito formal e efeito político, mesmo que não signifique que seja a única ou a forma por excelência de abordar questões políticas na literatura.

Quer dizer: é impossível segmentar o olhar em direção ao objeto porque então o leitor ou se vê no impasse de comprar o livro como um pacote, ou parece escamotear uma interpretação política quando poderia (ou até deveria) ser apenas formal. Essa é a faca de dois gumes da literatura politizada e eu, embora sinta vontade de comentar bons livros que tenho lido nessa linha, penso que, sendo assim, é melhor evitá-lo. Apenas lamento que a crítica então se resuma a uma que só possa ser feita ao apanágio da simpatia ideológica (como equivalentes a likes das redes sociais, mas talvez seja essa espécie a única crítica literária possível), ou outra toda reunida na pecha de reacionária.

Se então foi-se mesmo o tempo em que se podia compreender a ficção como ficção, poesia como poesia, religião como religião, filosofia como filosofia e assim por diante, não é que os livros estão deixando de ser impressos em papel, mas gravados em vidro polido e repolido e repolido e assim por diante também. Bem dizia Rosa, é bem melhor falar de Flaubert, Dostoievski, Tolstoi ou dele mesmo e outros que já não são de vidro, mas de bronze mesmo. Pelo menos assim não resta dúvida de que não se vão quebrar.

O recluso Keaton Henson

Por suas raríssimas aparições na mídia brasileira, é possível que poucas pessoas tenham sabido que, no último dia 25 de outubro, o cantor folk, poeta, artista plástico e compositor Keaton Henson lançou o sétimo álbum da sua resguardada carreira. Talvez seus seguidores brasileiros nas redes sociais tenham sabido, mas tampouco isso é suficiente para que seu nome se diferencie no limbo que a depauperada mídia musical nacional vem colocando compositores que não sabe classificar ou entender, porque habituada e constrangida sempre aos mesmos estilos, às mesmas pegadas, aos mesmos nomes, tudo o mesmo de sempre, como um moto-contínuo inescapável.

Com seu novo disco, Six lethargies, Keaton confirma o que se supunha desde 2014, quando lançou Romantic works: trata-se de alguém que sabe se expressar muito bem também na ausência de palavras. Acompanhado pela The Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, Keaton vinha lançando amostras do seu mais recente trabalho em suas redes sociais, em gravações ao vivo. No Facebook, vídeos nos quais ele trabalhava suas composições ou as ensaiava foram vistos por milhares de pessoas. No trabalho a ansiedade se desfaz, segundo ele diz.

Keaton não vive dando as caras por aí. Longe disso. Se artistas “reclusos” vivem dando sopa na internet, ele parece fazer questão de dosar suas aparições. A explicação para o comportamento é sua agorafobia e dificuldade de exposição pública. Também suas repetitivas crises de ansiedade e pânico paralisantes, letárgicas. Daí, aliás, o título de seu trabalho sinfônico.

Este novo disco de Keaton não traz seu canto lamentoso nem as queixas de amor de Dear ou Five years. Sua matéria agora são transcriações que ele desejou fazer de seus estados mentais. Keaton não escreve ou lê a linguagem musical das partituras, é um compositor intuitivo cuja criação se inicia com a elaboração de mapas mentais ilustrados que mais tarde ele transforma em música. Ao longo dos três anos que usou para a elaboração de Six lethargies, Keaton afastou-se dos motivos folk e enveredou para uma música baseada em experiências neurocientíficas. Sua busca é, segundo ele mesmo diz, por “tentar comunicar algo mais complexo e abstrato, explorando a ansiedade, a depressão e a ausência de sentimentos”.

Não é que essa intenção seja uma novidade, afinal, mais do que as outras expressões artísticas, a música é capaz de reproduzir os sentimentos e sensações humanas que são essencialmente abstratos, indescritíveis. Compositores que em outros tempos e circunstâncias procuraram criar para causar emoções por sinal fazem quase a regra. Por outro lado, Keaton busca nas emoções a fonte direta para a criação e acredita que sua expressão pode contribuir na geração de empatia para com as questões que envolvem sofrimento mental. Para ele, “a música é uma ferramenta poderosa para criar empatia e comunicar sentimentos incrivelmente complexos de uma maneira que qualquer pessoa possa entender, sem nenhuma explicação”.

Se o resultado de seu trabalho remete muito ao minimalismo de Philip Glass, aos devaneios experimentais de Ólafur Arnalds ou ao neobarroco de Max Richter, Keaton é um músico de expressividade poderosa que a cada novo registro imprime um passo a mais no sentido de afirmar-se como um artista completo. Para ele, nada importa que se saiba de sua vida pessoal e é mais um a defender que um artista deve responder apenas a partir de sua obra. Seja como poeta, como pintor, cantor ou compositor, nunca se pode saber aonde o inglês recluso pode chegar, mas certo é que muitas vezes ele responde à música desde a poesia. Mas nada embaralha mais os sentidos de quem o escuta que a sinceridade de sua expressão.

Para assistir a “Longe da árvore”

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/10/2019.

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A não ser em publicações duvidosas, “filosóficas” entre aspas, é muito difícil encontrar-se alguém interessado em escrever honestamente acerca da aceitação humana. Em 2012, ao invés de facilitar as coisas, o jornalista norte-americano Andrew Solomon conseguiu torná-las ainda mais difíceis com a publicação de Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade. Imenso em tamanho (o livro publicado pela Companhia das Letras em 2013 contém mais de 800 páginas) e incomensurável em conteúdo, Longe da árvore é ainda mais espantoso quando se sabe que resultou do trabalho de uma década em que seu autor esteve envolvido tanto na escuta de centenas de pessoas quanto no exame detalhado da literatura ficcional, científica e documental publicada a respeito das condições e situações existenciais a que ele se propôs investigar.

Ao tratar da trajetória familiar e afetiva de pessoas que cometeram crimes ou daquelas cujos filhos nasceram em decorrência de casos de estupro, ou pessoas que nasceram com deficiência intelectual, autismo, doenças mentais, nanismo, bem como casos de superdotação ou surdez e chegando até as questões de identidade de gênero, Solomon concretizou uma espécie de fenomenologia do afeto. Uma espécie de compêndio informal e demonstrativo do percurso de cada uma das pessoas em afirmar-se num mundo muitas vezes refratário e violento. Ao invés de hipóteses científicas, Solomon confrontou as ideias sociológicas e políticas contemporâneas às diferentes realidades com que se defrontam as pessoas nas suas peculiaridades existenciais. Mais do que uma reportagem extensiva acerca das situações-limite possíveis de experimentar-se, Longe da árvore é um divisor de águas sobretudo por abordar a experiência humana onde ela costuma ser mais invisibilizada.

Finalizado em 2017 e com uma breve passagem no Brasil no Festival do Rio do ano passado, Longe da árvore chega agora aos cinemas brasileiros em documentário homônimo realizado pela produtora e diretora Rachel Dretzin, ativista feminista e realizadora de diversos documentários acerca das questões identitárias nos Estados Unidos. Dentre as muitas pessoas interessadas em adaptar o livro de Solomon para as telas, Dretzin conquistou a confiança do autor ao procurar ampliar ainda mais o alcance do seu livro. Ao invés de simplesmente transferir e buscar as pessoas já entrevistadas por Solomon, ela foi buscar novos depoimentos e então costurar a sua própria versão da ideia original de Solomon. O resultado é um filme tão corajoso e tocante quanto o livro original e que tem sido aplaudido e premiado nos festivais em que vem sendo exibido, como nos recentes RiverRun International Film Festival e Montclair Film Festival’s.

Além de continuar ampliando o reconhecimento do livro original, o documentário realizado por Dretzin consegue por mérito próprio viabilizar a expansão da ideia central de Solomon. Baseado muito em sua própria experiência individual e familiar, de que a aceitação e o amor constituem valores que fundamentam e oferecem sentido à experiência humana, Solomon relata e compara a própria experiência em torno de sua homossexualidade às de pessoas em outras situações em que a diferença migra do sentido de distinção para o de diversidade. Mesmo nas situações mais dramáticas, como as que envolvem famílias de filhos envolvidos em crimes terríveis como os massacres de Columbine e outros semelhantes, Solomon assume a prevalência da afetividade e deixa para trás qualquer noção estigmatizante do ser humano.

Como uma sociologia às avessas, Longe da árvore é muito mais exemplar do que explicativo e sua força documental decompõe em certa medida as noções de identidade organizadas, por exemplo, em Erving Goffman, onde estão como que consolidadas. A “busca” empreendida em seu livro não se dá pela trajetória de personagens e nem pelo sopesamento de categorias teóricas, mas pela experiência humana como ela é e sem qualquer verniz de fantasia, indulgência ou, principalmente, vitimização. Pelo contrário, trata-se de pessoas que buscam reconstruir-se apesar das expectativas sociais e familiares mais corriqueiras. Não há um drama existencial específico em questão, mas a dramatização da vida social em seu sentido mais amplo.

Longe da árvore é um livro e agora documentário crucial para a compreensão da dimensão de complexidades que atendem a aceitação familiar e a inclusão social e afetiva das pessoas. Para além dos estereótipos, dos preconceitos e dos destinos inescapáveis, sua contribuição reside em alargar a experiência humana das bordas da trivialidade e da previsibilidade. Embora trate apenas indiretamente de pessoas com gigantismo (ele também trata disso), é um livro gigante em todos os aspectos. Se não é possível a ninguém escapar do inesperado, seu trabalho é humanizante em todos os aspectos. Premiado também por O demônio do meio-dia, que aborda a problemática da depressão, e Lugares distantes, no qual trata do drama do desterro das populações migrantes, recentemente também publicou uma série de textos inéditos e conferências sobre a a temática do suicídio. Também professor de psicologia clínica da Universidade de Columbia e consultor de saúde mental LGBT em Yale, com Um crime da solidão Solomon consolidou o seu nome entre os autores mais comprometidos com as questões contemporâneas mais sensíveis.

Por meio de uma promoção do Instituto Alana em parceria com o selo Believe Films, as exibições de Longe da árvore ocorrem desde o dia 19 de setembro em várias cidades brasileiras, em sessões que contarão com todos os recursos de acessibilidade (audiodescrição, libras e legendas em português para surdos usuários da Língua Portuguesa) e com a realização simultânea de debates abertos a respeito do filme e do livro. Além das exibições comerciais, também poderão ser programadas exibições do filme por escolas e entidades a partir de uma plataforma on-line mediante um cadastro simples e orientações que já estão disponíveis na internet.

A terra inabitável

O twitter de David Wallace-Wells nunca mais foi o mesmo depois de 09 de julho de 2017. Nesse dia, na New York Magazine, onde é editor-assistente e articulista, ele publicou um artigo desconcertante a respeito das mudanças climáticas em curso no mundo contemporâneo. Além do título assustador, A terra inabitável, digno dos clássicos filmes do gênero catástrofe, no artigo Wallace-Wells fazia o apanhado visionário distópico mais aterrador sobre as condições climáticas e ambientais do planeta desde que o ex-vice-presidente Al Gore lançou em 2006 o seu documentário Uma verdade inconveniente.

Desde então, o jornalista se tornou um dos grandes protagonistas da retomada das discussões em torno dos impactos imediatos que cercam a questão ambiental, absorvendo tanto o pânico da população quanto críticas severas de setores que tentam minorar sua advertência e converter seu livro apenas numa indigesta presença entre os bests-sellers de cabeceira lançados no início deste século. A estratégia de esfumaçamento seria mais eficiente se Wallace-Wells estivesse mal informado, usando de má-fé ou escrevesse mal. Nada disso acontece. Seu livro consegue ser um trabalho de reportagem de primeira linha e obra de não ficção que não se consegue largar desde a primeira frase.

“É pior, muito pior do que você imagina”, ele adverte a seus leitores para que deitem fora de imediato suas ilusões quanto aos efeitos perniciosos e devastadores das mudanças climáticas não serem tão sérios assim. Neste ponto do livro, em sua primeira frase, talvez as pessoas mais amedrontadas já desistam de encarar a série de evidências que ele vai descortinar num livro que o premiado jornalista Andrew Solomon classificou como “um meteoro”. Não fosse uma metáfora do desastre que possivelmente levou à extinção no passado remoto do planeta os grandes répteis e as primeiras formas de vida, talvez se pudesse dizer que seu livro tem a pretensão de evitar que efeito semelhante àquele possa ocorrer novamente, mas agora por obra exclusiva dos seres humanos e suas opções de produção e sobrevivência.

Cerca de dois anos após a publicação do artigo, Wallace-Wells o expandiu e aprimorou até transformá-lo no livro que a Companhia das Letras está lançando agora no Brasil. Acrescido do subtítulo sugestivo “uma história do futuro”, ele inicialmente parece seguir a linha de outros autores que têm se dedicado a perscrutar o futuro iminente. Ocorre que, diferentemente de historiadores como o israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e 21 lições para o século XXI, Wallace-Wells especula calcado na realidade presente e demonstra com clareza científica suas teses para lá de desconfortáveis. Em seu livro não há, portanto, suposições, mas constatações documentadas. É o tipo de exigência que todo jornalista científico, aliás, deveria fazer antes de provocar estardalhaço ou, da mesma forma, quando visa amortecer narrativamente a realidade. As razões de sua preocupação, se não fossem comuns ao interesse de sobrevivência da humanidade, poderiam ser descartadas solenemente. Seria o mesmo que legar às gerações futuras (não as remotíssimas, mas as que já estão aí) mais do mesmo descaso ambiental que nos trouxe ao colapso da vida marinha, ao esgotamento da camada de proteção à radiação ionizante, ao comprometimento da potabilidade dos mananciais de água e até mesmo das condições atmosféricas.

Nesse desdobrar de capítulos que não permite descanso, consolo ou desculpas, Wallace-Wells desbarata as camadas de coragem que qualquer pessoa minimamente consciente consegue ter quanto à realidade das condições ambientais do planeta. Este efeito é evidentemente por ele pretendido ao dar forma e conteúdo ao seu livro, mas consegue ser ainda mais eficaz pela capacidade de não aliviar nem por um instante os temores mais singelos em relação ao breve futuro ou, ainda mais grave, ao próprio tempo presente. Explica-se sua estratégia argumentativa: a todo o tempo Wallace-Wells lembra que a capacidade adaptativa dos seres humanos é muito grande e, por essa razão, a margem de tolerabilidade com condições degradadas vem ampliando-se na mesma proporção em que se deterioram as condições de vida do planeta decorrentes da atividade econômica e da imprudência humana.

Uma das mais contundentes críticas que A terra inabitável vem recebendo diz respeito justamente a um suposto enfrentamento das condições de produção capitalistas. Não é para tanto, pois Wallace-Wells guarda algumas de suas apostas em medidas de contenção e, principalmente, reorganização produtiva. Apesar de que ele não deixe de apontar soluções políticas e medidas de enfrentamento para situações críticas, é natural que seu livro venha a conflitar com projetos políticos calcados no extrativismo, na economia baseada em alto consumo e taxas de emissão de carbono e numa industrialização inconsequente. Em sua defesa, Wallace-Wells tem dito que privilegiou o enfoque na problemática sem deixar de lado o trabalho já existente em prol da sustentabilidade. Apenas este aspecto não foi mais explorado em seu livro, segundo ele, porque os investimentos irresponsáveis têm sido cada vez mais agressivos e atingido sobremaneira os países menos comprometidos em educar a sociedade para o desafio de iminentes – ou já presentes – pequenos colapsos que, se não freados, conduzirão o século 21 a um momento verdadeiramente dramático na história da humanidade.

Ainda que a pecha de alarmismo seja de difícil remoção, é interessante lembrar que o livro de Wallace-Wells foi publicado nos EUA (segundo suas palavras, o país mais negacionista do planeta) poucos meses após a divulgação do relatório especial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2018 (IPCC). Taxado por ambientalistas mais radicais como um relatório conservador, pela primeira vez o tom emitido pelas Nações Unidas valeu-se de termos como, por exemplo, “catástrofe”. Isso ocorreria, segundo os levantamentos globais, caso não se obtenha a limitação de aumento de temperatura global em torno de 1,5 graus Celsius, a fim de que se preservem condições mínimas para a atividade agrícola e integridade da saúde humana. Isso é menos que o limite convencionado em 2 graus e Wallace-Wells prevê que sem uma transição rápida nos modelos de transporte e consumo de combustíveis fósseis, em 2050 provavelmente já se terá alcançado um incremento de 3 graus centígrados na temperatura do planeta.

2050, aliás, é uma data que os autores dedicados a pensar o futuro da humanidade costumam valer-se para traçar um limite. Enquanto Wallace-Wells aponta que será o ano em que haverá a mesma proporção de água e plástico nos oceanos, Yuval Harari diz, por exemplo, que a data coincidirá com estágio no qual o desenvolvimento de inteligência artificial terá superado a capacidade de gestão humana e passará a depender cada vez mais de si própria. Mesmo que as questões ambientais muitas vezes se confundam a séries ou filmes distópicos, é difícil de acreditar que por um passe de mágica haverá uma tomada de consciência global e mudanças efetivas no encaminhamento de soluções para os seres humanos que viverão ou atravessarão este século para o próximo. O desafio, segundo o autor de A terra inabitável, não poderia ser mais tremendo. E como os advogados das soluções estritamente tecnológicas não têm obtido melhores indicadores ou empregado recursos suficientes em prol de sanar os problemas já presentes, o livro de Wallace-Wells cumpre muito adequadamente a função de alertar a sociedade global quanto à gravidade da situação ambiental. Melhor seria se não houvesse razão para alarme, mas, havendo, não é nada mau que seja de forma tão consistente e arrebatadora quanto ele faz.