Arquivo da categoria: Outros

Em branco

O que mais tem no mundo hoje é protagonismo. E eu acho estranho que essa ideia prospere tanto nos novos movimentos sociais porque é evidente que ela espelha uma noção competitiva nas relações sociais. Ao invés da busca por reformá-las ou transformá-las, vale aparecer mais, aparecer antes, capitalizar a imagem. A busca por protagonismo é uma nova forma de exploração do individuo pela sua imagem e o sofrimento correspondente a esse processo.

*

Caso a inteligência artificial assuma cada vez mais as funções comunicativas, é de esperar que o indivíduo se aliene completamente nesse self ponderado por algoritmos e disjunções aritméticas. Num mundo de redes de relações proveitosas, ou networks, a exclusão assume formas imponderáveis e inimaginadas no modo como as pessoas de mais de vinte anos de idade foram educadas. Todo o esquema de status pessoal torna-se um produto do sucesso da comercialização do seu ego. A ideia de carreira, de obra ou trajetória sucumbe a uma nova ordem de acumulação simbólica. Mais importante que talento é aferir valor a si mesmo, e vender-se a este preço, num esquema licitatório que seleciona as melhores ofertas de valor ao que o sistema simbólico (cultural) necessita explorar.

*

Às vezes, só às vezes, temos noção realista do tempo mal empregado de nossa energia mental e vital. No mais das vezes, por uma espécie parassimpática de proteção, essa percepção nos é vedada. Com ela, saberíamos que a maior parte dessa energia foi simplesmente dispersada. Como uma carga elétrica que se perde num circuito, simplesmente muitas vezes os grande aportes de energia não resultam em nada. Quando muito, choques periféricos sem maiores consequências. E a energia não se armazenou, não constituiu um fundo de aposentadoria, ela simplesmente evaporou. Sumiu. Acabou.

*

O maior agente de dispersão de energia são as pessoas. E não é porque elas sejam essencialmente dispersantes, mas porque são necessariamente egoístas. Muitas pessoas pensam que o egoísmo é uma deformação de caráter. Eu discordo. O egoísmo é uma forma elementar de diferenciação do eu ao notar que, para o seu bem estar, é preciso prestar mais atenção a si mesmo do que dispersar sua energia.

*

Não estou defendendo o egoísmo, claro que não, mas é fácil constatar que 99% das pessoas vivem dessa forma, priorizando a si mesmas. O egoísmo é a forma mais conservadora de comportamento. É um espécie de acumulação primitiva ahistórica, inarredável por qualquer processo revolucionário. O egoísmo só cessa com a morte do indivíduo.

*

O protagonismo é uma espécie de egoísmo da imagem, uma receita simbólica que se origina na comercialização do eu. Uma super projeção do eu, isto é, uma virtualização.

*

Dispersante, por outro lado, é o gregarismo, a vida em grupo, o cuidado. Quem dispensa cuidados dispersa sua energia, sua atenção. O benefício que ele tem é o de alienar a sua consciência, o de pensar menos em si mesmo e mais no contexto do que de si depende, mas isso só acontece quando ele o faz sem notá-lo.

*

O bem que se sabe bem e que se autodeclara, não é bem, é mera vaidade, disse Hannah Arendt.

*

A vida social é desarmônica porque o altruísmo é uma noção intelectualizada de ação política. Quem pratica o altruísmo muitas vezes está mais interessado no benefício moral da ação do que no bem estar coletivo.

*

As pessoas que dizem que preferem ajudar a alguém que pode olhar nos olhos ao invés de colaborar com a sociedade anônima computam recompensas que, se ajudassem a um fundo público organizado, traria mais resultados, mas elas então não afeririam benefícios da ação.

*

A situação mais vulnerável em que uma pessoa pode estar é a dependência do outro. No entanto é ao viver essa situação que se pode superar a condição do egoísmo. Por essa razão a negligência com as crianças e com os idosos é punível.

*

Deixar de fazer algo, abster-se, é mais poderoso que participar, pois se anula o emprego de energia e ela dessa forma não serve a nada nem ninguém.

*

Não podem coexistir a ideia inclusiva e o protagonismo. É um paradoxo.

*

É isso que agride a sensibilidade contemporânea e nos leva ao fascismo pós-moderno: a ideia de que a nossa melhor energia será de uma forma ou de outra canalizada num esquema competitivo de proveitos simbólicos e políticos. A mesma ideia da vingança, mas delegada.

*

Nada está mais distante do mundo hoje que a ética cristã ou budista. O séc. XX nos serviu para perceber definitivamente o fardo inútil da moral social. O séc. XXI nos vem servindo para dispersar a própria energia mental indefinidamente.

*

Um caderno vazio, no qual se projetasse uma forma de vida mais desinteressada, um mundo conscientemente distributivo e reparador, poderíamos ambicionar? Não descreio, mas antes precisaríamos ir até o final do livro que viemos escrevendo. Um livro com protagonistas demais. E um caderno cujo protagonista seria, de forma natural e especial, ninguém.

O sagrado coração

O coração de Jesus é o de um pedinte. É mais uma advertência que uma oferta. Jesus não foi o único homem que existiu que foi capaz de oferecer a própria vida. Cada soldado anônimo antes o fizera e continuaram fazendo depois. Anônimos, transfigurados pela abstração de uma tribo, pelo medo de viver sem nem uma razão. Jesus foi o primeiro indivíduo de que se tem notícia na historia que entendeu ser alguém por indução cósmica, porque ele não conheceu antes quem houvesse simplesmente se recusado a continuar a história dos outros nem os mitos de ninguém, nem tradição nenhuma. Ele fundou a primeira religião individualista. Tudo o que importa está contido num coração do qual ele pode abrir mão, como da vida, se necessário. Um coração enrolado em espinhos. E quem queira tocá-lo será fatalmente ferido com o próprio sangue. Jesus tinha a convicção de que poderia habitar o coração de cada qual que o amasse. É o transplante mais bem sucedido da história, felizmente. Mas, em face da pessoa, não poderia ter sido diferente. Eu não sou católico nem bom cristão, mas espero sinceramente que continue sendo assim. Que não lhe inventem um coração artificial nem o substituam por algo assim.

Darwin Day

Tenho certeza que a leitura de “Down House” pode ser um tanto frustrante para pessoas que buscam nele algo inédito ou muito relevante para a história da ciência ou as ciências biológicas. Tudo que há ali sobre isso é bem sabido e difundido nas excelentes biografias de Darwin que há nas livrarias. Eu diria que os momentos em que essas coisas aparecem no livro me serviram de “escoras” para contar o que me despertou, de fato, interesse narrativo: a breve vida do seu filho Charles Waring que ele reportou logo da morte do bebê num memorial que, penso eu, é um documento de tanta relevância histórica quanto os seus textos e artigos sobre ciências naturais.

O bebê Charles Waring, ou Charlie, como era chamado em casa, provavelmente nasceu com a síndrome de Down e morreu no mesmo dia em que a teoria da seleção natural foi revelada ao mundo, no salão principal da Biblioteca Linneana, em Londres. Esses tempos perguntei às “inteligências artificiais”, e DeepSeek e ChatGpt foram categóricos: o décimo filho de Darwin e Emma nasceu com a síndrome de Down. Não é que eu confie cegamente nessas coisas, mas acho que elas “leram” bastante para ter tanta certeza assim nisso.

Meu livro é uma ficção histórica contada a partir do mordomo da casa, Joseph Parslow, um narrador comedido e emocionado, efetivamente envolvido com a vida da família e que, além de mordomo, foi o principal auxiliar de Darwin na introdução dos visitantes de Down House nos estudos do naturalista.

Parslow foi tão importante na vida de Darwin e tão reconhecido pela família, que, no funeral que o levou à abadia de Westminster, integrou a primeira fila dos acompanhantes, ao lado de membros da Royal Society, da nobreza britânica e representantes da própria realeza. Darwin não escolheu onde seria sepultado, o documentos referem que preferia o adro da capela de St. Mary, mas assim a Coroa decidiu. Emma principalmente fez questão do acompanhamento do mordomo, deixando nas galerias gente como Herbert Spencer, de quem Darwin gostava de manter certa distância.

Spencer foi o autor da deturpação que deu origem ao darwinismo social e suas derivações mais absurdas e inaceitáveis. A “sobrevivência do mais apto” em lugar da “adaptação”. A “seleção natural” aplicada ao mundo social sem qualquer nuance e consideração. Mas essa é uma discussão que extrapola e muito ao âmbito do meu livro, embora me interesse muito em seus desdobramentos. Até o fim da vida, Darwin manteve o espírito investigativo e em torno do ano de 1873 (15 anos após a morte do bebê) trocou correspondências com o Dr. John Langdon Down, médico que descreveu pela primeira vez a síndrome que depois levou seu nome. Nas cartas, o Dr. Down explicava a Darwin características do “mongolismo” sem entender sua etiologia de fundo genético, mas garantia-lhe que aquele não era um fato da “reversão”, pois ocorria em todas as etnias.

Esta não é a história do livro, mas é uma história muito interessante, pois Darwin havia notado e registrado os atrasos do filho no memorial. Mas o mais importante lá não me parece ser isso, e sim o encanto e os temores para com o bebê. Imaginar estes sentimentos íntimos e esboçá-los sem dar certeza de nada foi a intenção do meu livro.

* * *

Algumas vezes, jornalistas e pessoas da ciência me pediram para dizer coisas absurdas em razão de ter escrito o livro.

“Nos dê um resumo rápido sobre a seleção natural…”

“Por que Darwin não se refere a Mendel no seu trabalho?”

Lamentavelmente, minha pesquisa não chegou a tanto. Cheguei mesmo, não escondo isso, a negligenciar fatos que para os biólogos são indispensáveis na compreensão da sua teoria.

Não. Meu livro é de âmbito doméstico. Privado. Um que os biógrafos não viram nem nunca verão. Só um intruso como eu me camuflaria sob a pele do mordomo para narrar coisas assim. A minha sorte é que o mordomo Joseph Parslow era um sujeito de uma nobreza invejável. Nobreza de espírito, aliás, a única que importa.

* * *

Hoje no mudo inteiro é celebrado o Darwin Day em memória ao nascimento de Charles. Com algum atraso, acho que vamos mesmo fazer a live para falar do livro. Estou só esperando que minha interlocutora tenha condições.

A editora Dialogar colocou nesta semana o livro em preço promocional.

Peça ao seu livreiro preferido ou visite em
https://www.dialogar.net.br/product-page/down-house-1858

Mantiqueira range

Essa mania que tinha o Tom Jobim de batizar em inglês os nomes de suas músicas me induziu por anos a uma sucessão de erros que não faz muito descobri incorrer.

O primeiro dos erros era atribuir a ele (e não ao seu filho Paulo) a composição “Mantiqueira Range”, gravada em 1973, no seu “Matita Perê”.

Eu lia “Mantiqueira range” obviamente como tradução de “Serra da Mantiqueira”. Segundo erro. É “range” de ranger mesmo. Está na letra que eu também desconhecia, de autoria de Ronaldo Bastos e com o artigo “A” antes de “Mantiqueira range”, para não deixar dúvidas.

Outro. Sempre achei que era uma composição inteiramente instrumental como as que Tom gravou nos seus discos orquestrais. Não era. Erro três.

Há uns dias eu lia que a serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que é apenas parte superior de uma entidade geológica subterrânea, a Província Mantiqueira, um dos escudos da Plataforma Sulamericana (o outro é o Cráton do São Francisco), que une (no subsolo) o Rio da Prata à Bahia, passando pelo Rio Grande do Sul, aprofundando-se no Paraná e ressurgindo São Paulo acima, onde a serra se mostra mais evidente.

Quando na letra Ronaldo Bastos diz que “vi a Mantiqueira falar” é ao rangido tectônico a que ele se refere e que todos os seres acusam (galo cantou/gado berrou/). Mas também da geografia, dos pequenos movimentos de dentes que a serra emana e que os animais escutam melhor que o homem ruidoso.

Musicalmente, “A Mantiqueira range” é praticamente toda uma linha de contrabaixo que modula sem muitas variações, tons abaixo, até ranger com um tremor gravíssimo. Uma pequena peça da joalheira que sabiamente Tom tomou do filho Paulo. Pedra bruta do subsolo, de muito abaixo da serra da Mantiqueira.

Prêmio AGES Livro do Ano 2024

O Prêmio AGES Livro do Ano 2024 foi entregue no dia 4 de dezembro de 2024, no Espaço Força e Luz, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A cerimônia premiou as melhores obras literárias publicadas em 2023 por autores gaúchos ou residentes no estado. 

Na categoria Narrativa Longa, o escritor Lucio Carvalho recebeu o Prêmio AGES por “La Minuana”, publicado pela TAN. O troféu foi entregue por Max Ledur, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro.

A cerimônia de entrega do Prêmio AGES Livro do Ano 2024 ocorreu no dia 4 de dezembro passado no Espaço Força e Luz (Rua dos Andradas, 1223, Porto Alegre/RS).

A presidenta da AGES, Liana Timm, conduziu a premiação, ao lado da vice-presidenta cultural da entidade, Cátia Castilho Simon.

Nesta edição do Prêmio AGES Livro do Ano, a AGES – Associação Gaúcha de Escritores celebrou a literatura produzida no Rio Grande Sul com dois prêmios especiais, entregues à escritora Valesca de Assis e ao escritor Tabajara Ruas, que têm se destacado no cenário literário.

Também foi feita uma homenagem ao escritor e produtor cultural Doralino Souza da Rosa, editor da revista Paranhana Literário, falecido este ano.

Confira os livros escolhidos como vencedores do Prêmio AGES:

NARRATIVA LONGA
La Minuana“, Lucio Carvalho (TAN)

NARRATIVA CURTA
Vespeiro“, Irka Barrios (DarkSide Books)

CRÔNICA
Cevando a palavra“, Demétrio Xavier (Coragem)

POESIA
AB Cena“, Sabrina Dalbelo (Urutau)

INFANTIL
Para onde vai, Dona Lesma?“, Helo Bacichette (Elos do Conto)

JUVENIL
Aguapés“, Giovana Oliveira (Urutau)

TEXTO DRAMÁTICO
Bonecas de argila & Cambalache 2.0“, Jorge Rein (Bestiário)

ESPECIAL
Meu Corpo Negro: Memórias“, Nathalia Protazio, Marieta dos Santos da Silveira, Tônio Caetano, Tiago Maria e outros (Independente)

TRADUÇÃO
Poemas japoneses de morte“, Roberto Schmitt-Prym (Bestiário)

NÃO-FICÇÃO
Nós não caminhamos sós – Histórias de isolamento no antigo Leprosário Itapuã“, Ana Carolina de Oliveira (Sulina)

Neste ano, 66 escritoras e escritores de todo o Rio Grande do Sul, integrantes da AGES, participaram da escolha dos vencedores do Prêmio AGES Livro do Ano 2024.

O júri especializado que indicou os finalistas foi composto por:

POESIA E CRÔNICA: Vitor Diel, Divanize Carbonieri e Ana dos Santos

NARRATIVA LONGA E NARRATIVA CURTA: Dani Langer, Júlia Dantas e Dione Detanico

DRAMATURGIA E ESPECIAL: Janaína Pelizzon, Marília Barcellos e Lígia Sávio

TRADUÇÃO E NÃO-FICÇÃO: Vera Ione Molina, Ronald Augusto e Marília Kubota

LITERATURA INFANTIL E LITERATURA JUVENIL: Noia Kern, Vera Teixeira Aguiar e Vanessa Ratton

A noite de celebração da literatura rio-grandense teve ainda o lançamento da antologia “Literatura Grande do Sul”, com poemas, contos e crônicas escritos por associadas e associados da AGES.

Fotos: Íris Borges/Divulgação AGES

Fonte: Literatura RS / AGES

Down House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin

Eu sei que a minha falta de pressa quase exasperou os editores da Editora Dialogar, especialmente a Letícia Möller, por divulgar a chegada de “Down House” do parque gráfico. Bom, este é um livro que está nascendo há quase dez anos, então isso explica a minha falta de pressa. As pessoas que me julgam impaciente na verdade cometem uma grande injustiça. Eu tenho muita paciência e cautela com as coisas que me disponho a fazer.

Nestes dias que já estamos com o livro temos trabalhado bastante no sentido de viabilizar o seu lançamento e outras providências. Eu nem digo que eu tenho a boa sorte de ter uma editora tão compenetrada quanto ela, pois não é sorte, eu tinha certeza de que seria assim e fico muito feliz que agora, sim, temos data e local de lançamento deste livro que, como peça gráfica, é uma joia nas suas 180 páginas. Isso vale para a concepção, para o design maravilhoso bolado pela Cintia Belloc, para tudo.

Em relação ao texto e ao que o motivou eu convido a que visitem o site que preparamos para divulgar e também para comercializá-lo. Em breve, espero poder dar mais informações e tb tirar dúvidas dos leitores e curiosos. Até lá, estaremos trabalhando para que essa breve história possa chegar o mais longe possível.

Vou aproveitar a oportunidade e registrar meu profundo agradecimento à minha querida amiga Ana Claudia Brandão, que gentilmente leu e só depois escreveu a orelha do livro, como tem que ser..

O lançamento vai ser no dia 25/05, no Museu de Ciências e Tecnologia da PUC RS e haverá um debate prévio com os os professores José Roberto Goldim e Vivian Missaglia.

O livro já está à venda tanto no próprio site como no da editora. E não é pré-venda. Quem comprar, já recebe, sem demoras.

O site fica em https://downhouse.online

Além do Rio da Prata

No tempo em que estive pesquisando e conhecendo um pouco mais a respeito dos povos originários do RS e do Uruguai, muitas vezes chegava até as bordas do Rio da Prata e ficava apenas imaginando no que a história da vizinha Argentina guardaria a respeito da relação com os seus próprios povos. Sabia que não era muito diferente da relação deste lado da margem, mas também sabia que havia algumas diferenças de monta.

A terra dos ranqueles, dos tehuelches, dos mapuches, dos querandies, dos pampas, araucanos, onas, kollas, diaguitas, tobas, rankulches, pilagas, m’ bias, chanas, mocovis e charruas também, entre outras etnias, é um universo gigantesco de culturas e histórias. O desconhecimento que temos a respeito da história e desdobramentos antropológicos das nossas próprias etnias dá a dimensão do que é a nossa ignorância quanto aos povos mais próximos a nós.

Mas só o que eu tenho certeza é de que tudo o que atribuímos de ruim aos argentinos é espécie de projeção às avessas do tanto ruim que nós mesmos somos por conta própria. E me parece que a cultura argentina é muito mais permeável e permeada por influências indígenas do que pelo menos me parece ser a rio-grandense.

Quando digo Argentina, penso na imensa nação para além de Buenos Aires, assim como penso no Brasil para além da ponte aérea Rio-São Paulo e como penso o Rio Grande do Sul muito maior do que dois ou três bairros de Porto Alegre. Não que, é claro, sua história não esteja menos recheada de massacres, violências, traições e apagamentos que a nossa. Mas há diferenças, muitas.

Esta imagem, por exemplo, parece vir de um certo Congreso de Aborigenes realizado por lá em 1920. Teria reunido pelo menos essas quase 20 lideranças que trataram, ao que parece, de decisões políticas cruciais, como a questão das reservas e direitos culturais, como o complexo direito de viver segundo os próprios costumes, coisas que o Brasil começou a pensar bastante tempo mais tarde.

No Rio Grande do Sul, em 1920, os indígenas – pelo menos os do pampa – já haviam se dissolvido por completo na miscigenação, isso aquela parcela que resistiu às doenças, guerras e mortes. E por aqui se abominava a ideia e o temor que rondou a Argentina até o terço final do séc. XIX, de que o país se transformasse numa espécie de “império inca” ao sul. O temor provinha de que boa parte das lideranças indígenas lá havia se educado com os franciscanos no período de Rosas e os nativos começavam a ter acesso a armas de fogo, além de um cacicado muito bem organizado militarmente e com fortes relações políticas com o caudilhismo. Foi o que culminou na deflagração da Campanha do Deserto, na qual pelos menos 30.000 indígenas foram massacrados pelo exército.

Mesmo assim, nas primeiras décadas do séc. XX o Estado argentino já reconhecia o direito de organização dos povos. Só isso é uma grande diferença em relação a nós, sem falar na influência direta na produção artística e cultural, muito mais significativa que, por exemplo, a rio-grandense. Essa relação mis direta levou a que recentemente fosse levado a julgamento a promoção de campanhas de massacre, como o de Napalpi, de 1924, o que acabou revelando um desastre da política de aldeamentos forçados e reduções.

Em 1920, não seria muito possível que mulheres participassem desses conclaves militarizados. Por isso não é de estranhar o absoluto masculino do cacicado. A relação dos indígenas do pampa e de suas mulheres é muito complexa e não pouco turbulenta, mas parece que houve, por exemplo, lideranças mulheres entre guenoas-minuanos, não sei se investidas no cacicado. Normalmente, as mulheres ocupavam mais posições religiosas. Hechiceras ou curandeiras, como La Minuana..


Agora, na Feira do Livro de Porto Alegre (27/10 – 15/11),
interessados em conhecer La Minuana poderão
encontrar o livro nas bancas da Livraria Érico Veríssimo
ou da Martins Livreiro. Comigo, tenho ainda alguns
poucos exemplares para venda direta que
podem ser adquiridos neste link: https://abre.ai/g6Bv

Homislobus

Nenhum lobo em sã consciência desejaria se transformar em homem e é por isso que existem lobisomens, mas não existem homislobus. À besta que nos observa parecemos ridículos e imaginativos, eu tenho certeza disso. Se tudo o que desejamos é uma justificativa para voltarmos ao estado de fera, ela já se encontra nesse estado e, mesmo assim, ao contrário de nós, consegue descansar entre os campos floridos ou no deserto sem o desejo de estar noutro lugar ou de disciplinar a natureza ou de que as flores durem o ano inteiro para satisfazer suas ambições.

* * *

Não é por outra razão que apreciamos a companhia dos cães. Se os cães nos toleram é porque somos toleráveis, pensamos, e por isso eles estabelecem um critério de sociabilidade a que podemos acessar. A verdade é que são eles que nos permitem e a sua companhia é que nos pacifica e dociliza, e não o contrário.

* * *

Não somos homislobus. E felizmente os lobos estão livres de que possamos verdadeiramente parecer a eles e também de que eles possam se transformar em qualquer coisa parecida a nós.

* * *

Nós somos a espécie que estabelece as normas pelas quais podemos matar uns aos outros. Nós somos retaliadores naturais, um comportamento dissonante na natureza.

* * *

A seleção natural e a evolução (ou Deus) possivelmente nos trouxeram a isso e por isso ficamos embaraçados ainda hoje. Mas não é mesmo embaraçoso?

* * *

O mesmo homem que se emociona pela beleza deixa-se levar pelo ódio. A força lhe arrasta desde os músculos, movida pelo homo demens que trás dentro de si. Irresistível é a vingança, é o sectarismo, é a divisão entre as tribos dessa espécie.

* * *

Com as alcateias é diferente. Sua sobrevivência segue regras não ditas nem escritas e nem por isso parecem ter menos compaixão do que dedicamos uns aos outros.

* * *

Porque sofremos a violência, a única forma de a expurgarmos de nós é cometendo mais violência. Nesse ímpeto, nada nos freia, nem o desejamos, pelo contrário, desejamos mais força para cumprir o desígnio que nos confiaram e do qual estamos sempre cegamente convencidos. Nós não conseguimos questionar essas coisas. Pedimos aos deuses e ancestrais que nos ajudem nesse propósito. Essa é, por exemplo, a mensagem da Ilíada, que atravessa os séculos intacta. Não é honra e nem muito menos justiça o que pedimos aos deuses ou seus equivalentes, pedimos para que nos vinguem e que não demorem e poupem nossas crianças, somente as nossas.

* * *

Se homo homini lupus fosse mesmo verdade, nunca teríamos chegado a tanto e tão raso.

Coisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.

3 canções de Sibylle Baier

Sibylle Baier (1945) é uma atriz e cantora folk alemã. Seu disco Colour Green, de 2006, reúne canções que ela gravou nos anos 70 e só veio a público por insistência do seu filho, tornando-se quase imediatamente objeto de culto.

Eu perdi algo nos montes

Nos últimos tempos
Eu sempre choro
Quando passo pelos montes

Oh, o que as imagens me trazem
Oh, eu espero tanto
Pelas raízes da floresta
A origem das minhas brutalidades

Eu perdi algo nos montes
Eu perdi algo..

Outros crescem nas cidades
Eu cresci nesses montes
Onde primeiro o amor e a alma surgem
Lá vão os tempos da minha vida
Quando me sentia doida, desvairada
E somente a campina me trazia esperança

Quando minha perna passar da grama alta, eu morrerei
Eu vou morrer sob o jasmineiro –
Sob a árvore mais velha –
Então eu não preciso estar preparada

Eu vou morrer sob o jasmineiro
E sob uma velha árvore
Eu não preciso me preparar para um novo dia
Onde vou preencher a profundidade do que sinto?

Você vai dizer que eu não sou o pisco da floresta
Mas como eu poderia não deixar sinais
De que perdi algo nos montes?

Eu perdi alguma coisa nos montes
Oh, eu perdi algo nas montes..

Agora eu me inclino no peitoril da janela
E eu choro, embora seja bobagem
E eu estou sonhando completamente..

Oh eu sei, mais a oeste existem estas montanhas
Marcadas por macieiras, sulcadas pela corredeira
Isso me leva aonde eu quiser

Bem, eu perdi algo nos montes
Eu perdi algo nos montes.
Oh, eu perdi algo..

I Lost Something in the Hills

Everytime I shed tears
In the last past years
When I pass through the hills

Oh, what images return
Oh, I yearn
For the roots of the woods
That origin of all my strong and strange moods

I lost something in the hills
I lost something in the hills

I grew up in declivities
Others grow up in cities
Where first love and soul takes rise

There were times in my life
When I felt mad and deprived
And only the slopes gave me hope

When I pass through the leg high grass, I shall die
Under the jasmine, I shall die
In the elder tree
I need not try to prepare for a new coming day
Where is it that fills the deepness I feel?

You will say I’m not Robin the Hood
But how could I hide from top to foot

That I lost something in the hills
I lost something in the hills
Oh, I lost something in the hills

Now I lean on my windowsill
And I cry, though it’s silly
And I’m dreaming of off and away

Oh, I know farther west, these hills exist
Marked by apple trees
Marked by a straight brook
That leads me wherever I want it to

Well I lost something in the hills
I lost something in the hills

Oh, I lost something in the hills


Esqueça isso

Você me fez esquecer
De ter, querer, exercer

Eu de repente me sinto orgulhosa
Por ficar sem dizer nada

Você me fez esquecer
Passado e dor

E o tempo você lavou
Como uma chuva repentina de verão

Você me fez bem,
Me fez tão bem
Que me fez esquecer

Você me fez esquecer
De ter, de querer, de exercer

E de repente eu descobri
Como é lindo o jeito que você veste sua camisa

Você me fez tão bem…
Você me fez esquecer

Forget about

You made me forget about
Have, want, exert
And all of a sudden, I feel proud
Of being, without saying a word

You made me forget about
Past and pain
Time, you washed out
Like a soft, sudden, summer rain

You do me good
You do me
So good, you made me forget about

You made me forget about
Have, want and exert
And all of a sudden, I found out
Oh, it’s beautiful, the way you wear your shirt
You do me good, you made me forget about


O fim

É o fim, amigo meu
É o fim

Foi-se o tempo quando poderíamos simplesmente dizer eu te amo
Agora você abriu a porta
E me deixou chorando
Tentando te abraçar de novo
Buscando enfrentar essa maldita situação, cara
Mas eu não posso
É o fim, amigo meu
É o fim

Querido amigo, eu não sei dizer porque começamos bem
Bons tempos, mas me dê um pouco de vinho quando abrir a porta
Você parece magoado, não tente falar nada
O que neste mundo poderia mesmo dar errado entre nós?
No entanto, é o fim, meu amigo
É o fim, doce amigo meu
Parece que acabou o tempo quando poderíamos simplesmente dizer eu te amo

Agora você abriu a porta
E eu sinto frio
Acordada, tenho você em meus braços
Eu disse que a vida é curta, mas o amor antigo
É o fim, amigo meu
É o fim, doce amigo

The end

It’s the end, friend of mine
It’s the end, friend of mine

time is over where we could simply say I love you
Now you opened the door
Leave me crying
Trying to embrace you again
Trying to face this damn situation man
I can’t
It’s the end, friend of mine
It’s the end, sweet friend of mine

dear friend, I cannot tell the reasons why we started well
Good time, give me some wine when you open the door
You seem hurt, don’t try to speak a word to me
What on earth could really go wrong with you and me?
Yet its the end, friend of mine
It’s the end, sweet friend of mine

time seems to be over where we could simply say I love you
Now you opened the door
I feel cold
Wakened, I hold you in my arms
Told you that life is short but love is old
It’s the end, friend of mine
It’s the end, sweet friend