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Desmatamento

É tarde já, muito tarde
para recolher minhas sombras.
Tarde para recuperar milagres
que deixei para depois.

Há menos de um ano
prometi um livro de versos
que hoje eu não entendo mais
o que seriam.

Esqueci porque ficou tarde
e posso fazer tanto agora
e é preciso lustrar o tempo,
mas sequer é a mesma mão.

O tempo é um volume de coisas
que não aconteceram
em lugar de outras
precedentes, que existiram.

Primeiro a escada que os pés,
as roupas que o corpo,
as ruas que a vida urbana,
as árvores que a floresta.

Mero conforto dos relógios,
o tempo é essa preguiça
que adormece em olhos de criança
pouco antes de dormir.

Mas meus poemas não eram
para ser sobre o tempo.
Seriam mais complexos,
como uma purificada matemática.

Palavras essenciais
para dizer essencialmente
que a esse momento da vida
tudo já entardeceu.

Há um aplastamento de fatos
como massa de bolo
mole pingando da colher
espessamente.

Os animais e suas fúrias
ilustrativas,
é tarde também para eles
e seus efeitos.

Tantos dias por vir
ficarão sem saber o que seriam,
mas os lugares sem as viagens
não se amofinam.

Ganham sentido em encontrar
alguém no caminho.
Em mim, talvez,
se eu permitir.

Os lugares e as pessoas
parecem estátuas vivas
e pinturas vulgares
e dissimuladas.

Nem parecem quanto dizem,
não valem quanto custam,
não são grande coisa,
nada disso.

Têm pressa e desespero
de existir,
de acontecer,
de inferir.

Que estou dizendo?
Não sei sobre o que seria
o livro aquele,
pois esqueci.

Não se fazem colheitas na floresta,
não se fazem pontes ali.
É preciso aceitar a chuva
sem comedimento.

É tarde para esperar
e, se agora há um lugar para ir
só para dentro,
eu compreendo:

tenho resgates
para fazer em mim
quando acabar
o desmatamento.

O guardador de carros

Depois de Alberto Caeiro

Quase sempre a essa mesma hora
o guardador de carros
assovia estridentemente

(eu nunca guardei carros,
mas é como se os guardasse).

Quem ele chama? O que quer?
Assim, caso ele soubesse,
não precisaria de olhos
tão marejados – e os carros,
como monstros súbitos do acaso,
um dia o estatelariam no chão,
verdes como se fossem da natureza
remanescente os seres estacionários
que a vingariam em sua fúria;
e Deus, que os colocou em pé
e lhes deu vida pela primeira vez,
saberia que falhara da mesma forma
que falha um poeta ao imaginar
em que diferença faz dizer ou não dizer

(que diferença faz?).

Poderia ser outro, não eu,
a guardar carros, se fosse ele,
mas concilio o que faço
ao que não posso fazer
e escrevo as memórias no chão
no rastro que os carros deixam ali.

Os carros são melhores e mais caros
que a minha vida e os admiro
como a imagens cobertas por véus

(que diferença eu faço?).

Posso aprender a fazer contas um dia,
se eles não corressem tanto
e usassem luz baixa
e fizessem sinal ao dobrar.

Mesmo eu sendo tangido por eles
eu nunca sei por quem eles são
e não me espantaria saber
que comandam seus donos
e eventualmente podem ceifar-lhes as vidas
e roubar toda a sua fortuna

(que diferença lhes faz?).

Quando a noite se aproxima
e a luz dos postes se acende
eu penso no que me faria ser
outra pessoa, justamente,
mas se não existem milagres –
exceto os da imaginação –
eu interrompo o pensamento
porque um novo carro chegou
para mim, no estacionamento

(quando foi que não percebi
que me transformara nele?).

Aqui estou sentado
como quem não pensa em nada,
contando o troco em moedas
que me jogaram à calçada

(sinto que agora estou
muito mais próximo a Deus,
mas o rio que corre perto daqui
está podre e cheio de pneus
e sinto que a terra abaixo
um dia destes cedeu).

Eu não me engano com nada –
a vida foi sempre assim –
e eu não notei o assovio
que eu mesmo, não o vento,
mandava a mim.

Ele me mostraria a morte
e suas cores sombrias,
ele me seria o inusitado aroma
a lembrar o tempo em que estou aqui.

Os dias a passar por mim,
eu a mal notar os dias.
O mistério suntuoso e inútil
da água correndo no rio.

Todo o ruído que é feito
por eles – os carros – é perfeito:
uma sinfonia absoluta
em buzinas, motores e gritos.

Mas eu, que penso em mim como noutro
qualquer, guardo carros
até por moedas.

Por tudo (eu nunca guardei carros,
mas é como se os guardasse),
prefiro a noite quieta e soturna
a observar borboletas.

E se todos dormem a essa hora,
então eu posso também.

A extração das metáforas

No amor, não há nada mais doloroso
do que a extração das metáforas;

tirar de si o estupor magnânimo
que a tudo desdenha e desobedece,

que esvazia os significados
e desnuda as paredes em branco,

que deserta a voz e anula o eco
e desfaz a lente especial

pela qual o mundo parecia outro,
parecia possível.

Nada mais doloroso pode haver
que retirar das músicas o seu enlevo,

deixá-las vazias, uma tigela
emborcada no nada.

Tirar a cor em cada coisa:
o azul cúmplice dos dias ensolarados,

o amarelo da tarde já feita em noite
fazendo de alguém

em ninguém, só a memória
afrontando o real, só

a aparência de que vive
no que morreu.

Pode haver algo mais doloroso
do que partir a uma estrada

que já foi apagada? Buscar
orientação, consolo

na solidez, quando tudo ficou
etéreo, gasoso?

Não pode. O delicado
embruteceu. Além disso,

resta só não ser recebido.
Nunca mais ouvir o alô.

A rua desligada, fantasmas
no caminho de outro passado

de volta, quando foi
desde o começo

o que se acabaria em silêncio.
Já nem tão dolorido quanto previa.

Metáfora nenhuma. A solidão
maior que uma palavra só.

Granada

Ao final, somente restarão
estes poemas que falam do amor.

Do amor que não resta em palavras,
de palavras que nem guardam o que é amar.

O mais será como as cócegas
sumindo nas pernas de um cão

e tudo o que impacientou seu sangue
momentaneamente.

A água de amanhã no rio de ontem.
A sede adiada outrora

(enfim saciada).
Todo mundo verte de si “amor”

na esperança de se ver cultivado
alhures.

Depois, dobrado ao fundo de uma caixa
num poema incompreensivel,

o amor abandonado a si mesmo
é uma folha triste e, mesmo assim,

ninguém em são consciência
se libertaria de amar.

Preferimos o seu assalto, mesmo que ele
nos tome a capacidade de entender.

O amor que os poetas cantam
tão mal, às vezes, bem

como caluniosamente.
O amor que tínhamos para dar

guardado num diploma de amante.
Mas o afeto consignado a troco de nada,

afinal, é o que de melhor foi feito.
Agora, repara em ti as avarias.

Pena o teu coração
explodido nessa granada.

Polar

Ela mora no outro lado da cidade.
Nas ranhuras de um espelho arranhado.

E toca com os dedos na luz
em pingos de chuva trançados.

Ela mora na pintura de um vaso
e é a única que o conhece de dentro.

Ela é quem eu posso ver
quando o sol se abandona no céu.

O seu olhar não está à venda,
disso ela sabe perfeitamente bem.

E sob farrapos de algodão partido
irá aguardar pela chuva

como se fosse cumprimentar a noite
e permanecer até o final

e dissesse tudo o que é preciso ouvir
uma última vez.

Mas ela pode apenas estar me enganando.
Do outro lado da cidade,

os filmes acabam antes do fim
e não são refeitos pela memória.

Mas eu espero que dessa vez ela esqueça
porque eu me sinto quebrado

como fica um pedaço de gelo
que é mascado na boca de um urso.

Porto Alegre, 7

Todos os dias
aconteces cedo,
quando a primeira luz
ainda não ligou
teu autorama atropelado
que as sirenes da noite
por alguma razão
que eu não entendo
em alguma hora da noite
silenciaram.

Esse despertador que ofereces,
este sabiá desorientado,
acorda também
certo rumor intestino teu.
Ele me alcança os ouvidos
com sotaques que não manténs
e do eco desses
animais alucinantes
e de gente que também
é fantástica demais
para que pareçam reais
(mesmo à memória,
que aceita tudo)
e assim me sobrescreves
todos os dias.

Um dia desses
precisamos entrar
em acordo com isso,
e justamente.
Mas então como ficariam
as coisas que não se acomodaram
perfeitamente em ti?
E como é que ficariam
aqueles que te armazenaram
como o cenário de vidas
delicadamente pouco importantes?
Tu não farias nada?

Quanto agressiva tu sabes ser, cidade
nada imperfeita e nem torta
e que, sobe lomba e desce lomba,
esconde-se num espelho brônzeo
e se magnetiza?

Mas ao menos uma coisa é certa:
tu és imparcialmente boa e ruim
e, às vezes, podemos imaginar
a vida noutro lugar
enquanto fertilizas
em nós coisas estranhas como
músicas, filmes, saudades, poemas…