Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Uma única vez na vida tive vontade de erguer a pena, quer dizer, os dedos ao teclado, para interpelar um autor em razão de sua obra. Felizmente desisti em tempo. Desisti porque me sentiria infeliz só de começar a pensar no assunto. Além de tudo, seria não apenas tempo perdido, seria mal empregado mesmo, afinal, é muito provável que o autor (um consagrado) jamais fosse ler aquilo e eu, como disse, não me comprazo nem um pouco na tarefa de desmontar qualquer autoimagem que alguém possa ter para consigo mesmo, isto é, acho justo que todo autor nutra para com sua autoestima as melhores expectativas. Admiro, sim, por outro lado, algum zelo com uma certa tendência a megalomania, mesmo considerando que, por outro, requer-se sempre um pouco dela para uma empreitada que efetivamente valha a pena. Quer dizer, lamento pela inevitável desfaçatez com que se tratam muitas vezes obras inovadoras, mas há que se considerar que, muitas vezes, ao invés de ser efetivamente o produto inovador a despontar no horizonte da mesmice mental e cultural de um tempo qualquer, possa-se estar vendo apenas um tipo de fantasmagoria, uma miragem, ou, pior de tudo, uma projeção enviesada de tendências caquéticas prestes a esfacelar-se, aí sim, num movimento inovador, mesmo que um localizado num eterno porvir. Admiro, sim, aqueles autores que tem a coragem de ver-se sob essa perspectiva, mas os amigos, infelizmente, costumam impedi-los em tempo.

O fim da trilogia prisional de Drauzio Varella

O maior risco que há ao escrever-se sobre um autor muito conhecido provavelmente seja o de recair em obviedades, isto é, o risco de não trazer nada de novo, de dizer nada além do que já tenha sido dito e de qualquer tentativa parecer de antemão algo como mero envernizamento da obra. Por outro lado, este mesmo risco consiste também em um desafio interessante: o de que se torna indispensável fugir de qualquer leitura prévia. A tarefa volta a complicar-se quando se trata de um livro de não ficção e de um autor amplamente conhecido, como é o caso do escritor, pesquisador, comunicador e médico Drauzio Varella.

Com o seu mais recente livro, Prisioneiras, Drauzio retoma o tema da vida prisional e diz estar concluindo a trilogia iniciada em 1999, com Estação Carandiru, e entremeada por Carcereiros, de 2012. Ao todo, completam-se cerca de vinte anos de trabalho em unidades prisionais que conduziram Drauzio a uma posição ímpar entre os escritores brasileiros, de quem não está fazendo propriamente jornalismo, nem etnografia ou historiografia, mas ao mesmo tempo está fazendo tudo isso. Além disso tudo, como não muitas vezes acontece, ele acaba sempre por colocar nas mal afamadas listas de mais vendidos uma temática das mais espinhosas: a vida e as condições de vida de uma parcela da população que de outro modo só ganha notoriedade ao figurar nas páginas policiais dos jornais, via de regra por crimes cometidos e, mais raro, por vítimas também.

A respeito da temática nem se poderia dizer que Drauzio estaria tirando-a da invisibilidade. Trata-se de uma situação conhecida e estudada no âmbito da criminologia brasileira desde a década de 70 pelo menos. Desde O cemitério dos vivos, pioneiro trabalho de Julita Lemgruber e os posteriores Mulheres encarceradas, de Maud Fragoso de Albuquerque Perruci e O mundo do crime, de José Ricardo Ramalho, estudos sobre a cultura prisional e recortes mais específicos proliferaram no âmbito das ciências sociais. É a partir daí, pelo menos, que se consolida no Brasil a antropologia criminal enquanto campo de investigação. O mérito e diferencial do trabalho de Drauzio decorrem, talvez, mais da popularização da temática e de um caráter menos tecnicalista na abordagem das condições de vida dentro dos presídios e unidades carcerárias. Seus dois livros anteriores, por exemplo, respectivamente foram transformados em filme e série televisiva e é provável que algo assim venha também a acontecer com Prisioneiras.

Talvez por praticar constantemente a escuta como instrumento de trabalho clínico, Drauzio é um escritor dotado de grande capacidade observadora. Isso se reflete tanto no que se refere ao ambiente físico, material, quanto ao psicológico e comportamental. Sua capacidade em totalizar o ambiente e mapeá-lo desde seu componente institucional até as suas estruturas de poder nem sempre perceptíveis proporciona algo como uma imersão segura no ambiente prisional, embora ele mesmo ateste que muitas vezes se sinta em maior segurança lá dentro do que fora. O que parece incompreensível para aqueles que jamais estiveram perto dos corredores carcerários, para ele é, portanto, o corriqueiro. Ao longo de todo esse tempo, desde o início de seu trabalho sobre AIDS no antigo Carandiru, ele nunca se afastou completamente do trabalho voluntário nos presídios. A inclinação decorre, segundo ele, de uma atração sobre situações limite que sempre teve, desde a infância, o que acabou desenvolvendo nele uma visão muito particular e abrangente da vida no cárcere.

A linha condutora da narrativa de Drauzio parte de uma visão quase historicista que ele permanentemente evoca para comparar situações semelhantes do passado, no Carandiru e em outros estabelecimentos nos quais atuou, com as quais se debatem as prisioneiras da Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo. Desde aí, narrando situações verídicas e ao mesmo tempo tecendo comentários mais distanciados, provavelmente feitos tardiamente, ele assenta incontáveis situações dramáticas envolvendo desde o abandono familiar, a solidão, o envolvimento com situações limite, o crime, drogadição, filhos, sexualidade e a organização social que vem se estabelecendo ali como na maior parte do sistema penitenciário brasileiro, através das regras e ordenamento providos e executados nem mais tanto pelo Estado, mas por quem efetivamente está no controle da situação, ou seja, facções e organizações complexas como o poderoso Primeiro Comando da Capital.

Não é um trabalho de reincriminação, porém, que Drauzio faz dos casos que descortina ao longo do livro e nem um tratado da criminalidade feminina e suas variantes. Pelo contrário, o que mais se pode conhecer através de Prisioneiras são histórias de vida a quem, via de regra, não se imputa narrativas nem muita importância, mas uma fartura de ocorrências. De tudo, chama a atenção que ele não busque uma visão patológica do crime ou das prisioneiras, mas uma compreensão empírica mesmo, até certo ponto etnográfica, de quem está interessado em seu interlocutor e não o está meramente reportando ou reinterpretando.

Não por outra razão, quer dizer, por nunca empreender uma objetificação de seus motivos de interesse, seu nome não possa mais ser menosprezado entre os mais autênticos escritores de não ficção do Brasil contemporâneo. Se o fato de ser um nome conhecido e fenômeno editorial serve para aumentar a visibilidade do tema, que mal isso poderia causar a alguém? Como seus outros livros, é provável que desperte o interesse de quem de outro modo não se interessaria no assunto. Afinal, não é uma má razão para um livro estar na lista de mais vendidos. Há, em quase todos os estilos, formas mais efetivas de inutilizar o capital dos leitores. Com este Prisioneiras sequer se corre esse risco.

Sobreviventes

Em fins da década de 70, Caio Fernando Abreu escreveu o necrológio do que havia de movimento hippie no Brasil de então. É um poema que está publicado no livro “Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu”, da Ed. Record, e chama-se “OS SOBREVIVENTES”.

Este tipo humano, exatamente assim, já meio fora de tempo e um pouco perdido, eu ainda conheci na minha infância. Pelo menos no interior do RS havia quem procurasse essa indumentária, essa caracterização hippie clássica: cabelos longos, batas indianas, sandálias de couro e um olhar ao mesmo tempo de resistência e estranhamento. Os anos 80 já batiam à porta e a redemocratização brasileira idem. Alguns viviam em modos realmente alternativos, sobrevivendo do artesanato e até de venda de poesia mimeografada. Lembro disso muito bem. Havia, ao lado de muita gente fantasiada, sobreviventes de verdade.

Nessa mesma época prosperava também outro visual comum entre as pessoas mais ou menos da mesma faixa etária. Era o visual do movimento estudantil, politizado. O cabelo não era longo, motivos peruanos e/ou indianos não eram habituais, não usavam drogas e até condenavam-nas por suposto apelo à alienação. A camisa dentro das calças, a cabeça dentro de livros de formação e os ícones, ao invés dos ídolos do rock como Janis ou Lennon, concentravam-se mais em figuras revolucionárias: Che, Lenin, Trotski, etc.

Jovens demais para terem participado da resistência à ditadura ou da luta armada e de certo modo como os hippies de então, encarnavam uma fantasia político-espiritual: tomar o poder, mudar o mundo. Não puderam. Os anos 80 foram implacáveis, crise sem fim, inflação monstruosa, TV a cores e música pop, cultura pop, política pop.

Os 90 continuaram na mesma batida e neles foi protagonizada a grande virada política de então, nas mãos do tucano Fernando Henrique Cardoso: a primeira reforma administrativa desde os anos 60, lei das organizações, novo modelo de assistência, saúde, privatizações e a destruição definitiva do sonho de Anisio Teixeira: universalização da educação. As prioridades voltaram-se ao mercado e sua relação patológica com o Estado brasileiro: esta mesma doença da qual padecemos hoje e nos custa bilhões sem fim.

Depois veio esta história recente, a de agora, em muito levada a efeito por aquela mesma geração dos anos 80, da redemocratização, do movimento estudantil mas já sem barra pesada, sem clandestinidade, que, assim como aqueles sobreviventes hippies, parece insistir em vender o incenso da sua “luta” ideológica sem perceber (ou se fazer notar) que sua imagem ficou fatalmente anexada ao dinheiro na cueca, ao aperto de mão com Maluf e a uma iconografia dramática, feita por sessentões barrigudos como aqueles de então, financiados por esse dinheiro aí, dessa matéria prima manuseada por Odebrecht e outros milagres brasileiros.

Caio Fernando Abreu virou meme e ninguém ainda escreveu sobre esses sobreviventes, nem quem lhes tente herdar a sucessão. A história virou vapor nas redes sociais e nos falta, como Caio fez com os hippies, quem nos esclareça sobre isso. Mas não falta quem recicle a pantomima.

É meio triste e não sei onde isso vai dar, mas agora só consigo sentir saudade dos primeiros sobreviventes.

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OS SOBREVIVENTES
Caio Fernando Abreu

Os sobreviventes
às vezes ainda aparecem
em busca de papo
ou qualquer coisa assim.

Ainda trazem os cabelos compridos
duas ou três pulseirinhas
alguns panos coloridos
ou um incenso nas mãos.

Só os olhos mudaram.
Aquela loucura das pupilas
aterrizou, virou espanto
de ter virado espanto.

Pois um sobrevivente
nunca imaginou que pudesse um dia
virar sobrevivente de um tempo
e de si mesmo. Mas virou.

Pelas tardes, de repente,
os sobreviventes ainda aparecem
procurando nos meus olhos
o que nos olhos deles já não existe.

Mas nada encontram.
Faz tempo, rasguei as fantasias
pendurei os colares nas paredes
mandei o pano indiano pra lavanderia.

Nos reconhecemos assim
esbarrando pela noite ou pelas tardes
feito zumbis de almas para sempre perdidas
no sonho que se foi. E que não volta.

O ofício agora é navegar sozinho.
Sem razão, sem porto, sem destino,
sem irmão nem mapa. Sobre-vivendo
à nossa própria morte. E isso é tudo.

Sampa. 23 de julho de 1979.

Yoñlu, o filme e a narrativa do suicídio na adolescência

É possível fazer um bom filme sobre o suicídio de um adolescente? Como pegar desse enredo inóspito e doloroso e daí realizar um filme que muito provavelmente irá atingir o público que ele mesmo retrata, isto é, o público adolescente? É preciso ser educativo, esclarecedor ou simplesmente basta que conte a história como aconteceu? Como fazer isso se o filme, ainda por cima de tudo, não é ficcional, mas baseado na vida de um adolescente que tomou essa decisão há pouco mais de uma década, aos dezesseis anos, num episódio que talvez tenha mais para amedrontar a sociedade do que, por exemplo, a badalada série 13 Reasons Why, produzida nos EUA e veiculada  em 2017 no canal de streaming Netflix?

Para questões como essas, não há e nem deveria mesmo haver respostas fáceis. Mostrar isso tudo, entretanto, será dos maiores desafios que terão pela frente o diretor Hique Montanari e também o ator Thalles Cabral, que reviverá nas telas o compositor e cantor Yoñlu. Yoñlu é o pseudônimo pelo qual se autodenominava e ficou conhecido este garoto (seu nome era Vinicius) nascido em 1989, em Porto Alegre, onde também veio a falecer, no ano de 2006. Também será o nome do filme que em outubro terá sua primeira exibição, no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

Enquanto o filme ainda não tem data para estrear nos cinemas, na internet dia a dia aumentam as visualizações da fanpage e de seu primeiro trailer já divulgado. Dificilmente poderia ser diferente: Yoñlu e a internet sempre estiveram muito próximos, quase interconectados. Foi nela que ele primeiro divulgou suas músicas, alcançando o mundo inteiro desde o seu quarto de dormir, exatamente como fazem há bastante tempo já, e no mundo inteiro, milhões de adolescentes.

Há uma década, na era pré smartphone e primórdios das redes sociais, não era tarefa das mais simples encontrar-se grupos de interesse mútuo, porém, em fóruns, blogues e grupos de discussão se podia acessar com relativa facilidade e anonimato quem quisesse compartilhar músicas, opiniões e conversas sobre quaisquer assuntos, inclusive formas de tirar a própria vida. Este território sem limites precisos ou censura, a internet, foi o único palco que o compositor e cantor Yoñlu conheceu. Pelo destino que deu a sua breve vida, foi ali também que ao longo de uma década se tornou uma espécie de mito, consagrado principalmente pelos seus contemporâneos adolescentes.

Tão logo a notícia de sua morte se espalhou, sua história foi ganhando visibilidade para além da web e reportagens na mídia impressa começaram a surgir, diferenciando-se do que costuma acontecer nos suicídios de um modo geral. No caso dele, não parecia tratar-se de mais um número entre as estatísticas, mas da morte precoce de uma mente muito criativa e com enorme talento para a música. E também porque trazia consigo uma mensagem ainda hoje complexa a respeito de um potencial um tanto quanto obscuro da web: o de, além de encerrar por muito tempo as pessoas em uma irresistível sensação de imensidão e liberdade, chocá-las de encontro a uma impessoalidade capaz de compartilhar ideias tão radicais como, por exemplo, o suicídio.

Ainda lembro-me do começo do ano de 2008 como o ano em que conheci a adaptação de Sean Penn para o cinema do livro de Jon Krakauer, Na natureza selvagem. Na verdade, conheci um pouco antes a trilha sonora que Eddie Vedder, do Pearl Jam, compôs para o filme e suas baladas folk. As letras melancólicas tratavam de um personagem real, Chris McCandless, um adolescente em franco processo de desadaptação que aos 22 anos, em 1990, resolve isolar-se da civilização e ir de encontro à solidão de uma floresta no Alasca, para lá viver por uns tempos. Quanto tempo, porém, ele teria desejado ficar mesmo por lá, isolado de todos, é algo que nunca se poderá saber ao certo. Chris, que também adotava um pseudônimo e referia a si mesmo como um certo Alex Supertramp, acabou morrendo completamente só, dentro de um ônibus, sem a ajuda de ninguém, vítima de inanição ou um possível envenenamento decorrente da ingestão de sementes tóxicas.

Naquele mesmo período, em uma revista de circulação nacional, li pela primeira vez a respeito do suicídio de Yoñlu. Retratado como um adolescente que perdia a vida após a realização de um meticuloso procedimento todo obtido e reportado na internet, ele deixara uma coleção de canções que entrevia seu talento para compor e aspectos psicológicos de sua abreviada trajetória. Logo após isso fui conhecer a sua música, disponível em registros caseiros aos quais se dedicava intensamente. Na escrivaninha do quarto onde compunha suas músicas, encontrou-se um disco com suas gravações e explicações deixadas aos pais. Além dos registros no CD, Yoñlu deixara gravados em seu computador algo em torno de cem canções. Mais tarde, parte delas seria transformada em dois discos, um produzido no Brasil e outro nos EUA, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne dos Talking Heads.

Assim foi que as duas histórias (e músicas) se misturaram por algum tempo em minha mente. Dois adolescentes, duas espécies distintas de morte, mas duas perdas de garotos excepcionalmente inteligentes numa época da vida em que excessos (e sentir em excesso) são muito comuns, mas o único que não se deveria aceitar tão tranquilamente é o de que justamente pessoas com um potencial tremendo deixem, de repente, de acreditar que ao menos vale a pena continuar vivo.

Sempre pensei na adolescência como o momento da vida em que o tempo perde toda a linearidade e, todavia, não se pode saber ao certo quando aquilo vai acabar nem quando será possível chegar ao próximo platô, ou o que se costuma denominar por “maturidade”. Importa dizer que para muitos adolescentes este pode tratar-se de um processo muito difícil e, se o entorno não colabora, muitas vezes a sensação subjacente é a de aprisionamento, isolamento. E, diga-se de passagem, um isolamento que nem a rede das redes costuma ser capaz de romper ou ainda que, de outro modo, muitas vezes parece colaborar ainda mais em certo confinamento, dado que na internet se configura uma espécie de duplo do mundo real em suas muitas representações, declarações e uma sorte infinita de contatos indiretos e impessoais. Mesmo assim, sob o argumento de ajudar as pessoas até onde seja possível, a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook, tem entre suas políticas de conteúdo a permissão para que os usuários realizem inclusive a transmissão ao vivo de tentativas de automutilação ou suicídio. A informação foi divulgada em maio do ano passado pelo jornal britânico The Guardian, após investigação que revelou as diretrizes mais secretas da rede de Mark Zuckerberg.

A implicação de adolescentes em um mundo em que a representação da morte é banalizada e até certo ponto erotizada, como o psicanalista Contardo Caliigaris alertou em seu artigo Sempre há um exército dos mortos, que amam e propagam a morte, não é exatamente uma novidade. Desde a publicação de Werther, de Goethe, em 1774, teme-se pela replicação entre o público juvenil do drama suicida e as ideias românticas, afinal, são ideias que não podem simplesmente extirpar-se da cultura. Na realidade, são ideias e valores que estão integrados a ela e nela são recicladas periodicamente. Seja na literatura, no cinema ou na música, não poderia haver medida mais infrutífera ou contraproducente do que limitar-se o acesso do público, ainda mais o adolescente, do que se pode obter na internet. Felizmente, em anos recentes, se tem procurado outras condutas e alternativas, como o esforço educativo e campanhas de esclarecimento como o “Setembro Amarelo” e a inserção da temática no âmbito escolar, reduto por excelência do público adolescente.

A ocorrência suicida entre a população adolescente parece não decorrer de mera insegurança ou exclusivamente pela falta de perspectivas econômicas, ainda que tudo isso tenha seu peso na situação de vida de qualquer pessoa. Talvez a situação seja um pouco mais complicada que isso e, para pessoas que já não são mais crianças e ainda não completamente adultas, implica muitas vezes em sentir-se e saber-se impotente em dar conta de um legado ao qual não deram causa e nunca estiveram integrados ativamente, mas que, de repente, é todo o mundo que há para existir. Como lidar com tudo isso não é algo simples ou que se resolva com simples recomendações, isto é, trata-se de um tema socialmente tenso, eu só consigo ficar muito curioso em saber como o filme que conta a história de Yoñlu irá tratar disso tudo, tendo-se em vista um ano que começou com o furor em torno a 13 Reasons Why e logo a seguir entrou em pânico com a disseminação do jogo de automutilação “a baleia azul”.

Se Hannah Baker, a personagem central de 13 Reasons Why causou apreensão por um suicídio decorrente da violência sexual e do bullying por que passou, nesta história não há propriamente um incômodo externo, mas um interno, e por isso mesmo de mais difícil abordagem. Não que as causas de diferentes mortes possam ser comparadas, mas enquanto é relativamente simples localizar num personagem um elemento externo, uma razão prática, do outro permanece uma nebulosa associação com a depressão e uma dificuldade de abordar-se adequadamente – e em tempo hábil – as dificuldades de natureza psicológica que muitas vezes transformam adolescentes em alvos potenciais de ideações suicidas. Seja como for, neste terreno não se tem o direito de ser leviano nem por um instante, dado que as estatísticas apontam para números crescentes entre a população dessa faixa etária por aqui e em todo o mundo.

Embora muitas vezes a associação entre depressão e suicídio pareça a mais óbvia, é relevante pensar que outros elementos possam colaborar tanto para o desfecho quanto para que se aventem medidas para que se o evite. No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, o jornalista e escritor norte-americano Andrew Solomon destaca que depressão e suicídio nem sempre fazem uma equação indissociável. Ele diz ainda que, embora apareçam juntos muitas vezes, a ideia e pulsão de morte são inerentes à vida e que ambas as situações têm vida própria e, portanto, generalizações deveriam ser evitadas a fim de não estigmatizar-se ainda mais as pessoas. Para a psicanalista Julia Kristeva, autora de O sol negro: depressão e melancolia, mesmo a pessoa mais deprimida debate-se com o afeto e sua expressão. Para ela, talvez seja justamente pelo afeto, pela recuperação da saúde afetiva, que passe muito do que pode ser feito em prol das pessoas, especialmente os adolescentes, antes de qualquer outro desfecho.

Até que se possa saber mais e chegue em definitivo aos cinemas, não se pode dizer ainda como Yoñlu, o filme será recebido pelo público. Antes mesmo de seu lançamento, entretanto, já é possível perceber o quanto tem despertado o interesse. Seja como for, o inegável é que cada pessoa é única e tem sua história, seu percurso inigualável e sua forma peculiar de lidar com a informação. Por enquanto, não se pode saber se o filme dará mais eco ao que nunca se entenderá por completo, isto é, a morte em si mesma, ou então da vida e do que se pode fazer por ela. Como uma está imbricada na outra e compõem espontaneamente o drama humano, não se trata de simples desmistificação, mas de uma perspectiva a qual todos estão vulneráveis e para a qual, ao mesmo tempo, ninguém nunca está preparado.

Mito que é cada vez mais decomposto, o suicídio continua assombrando e fascinando as pessoas justamente porque, dos gestos humanos, talvez seja o que mais desestabiliza o mundo como ele é, isto é, o mundo de quem fica. Tudo ao que se confere apreço, que está imbuído de valor e pelo que se preza, em um momento apenas se evapora diante de quem confere sentido ao mundo e lhe dá significação. Se o adolescente está especialmente vulnerável ao suicídio, assim como também a outras formas de violência, e isso em qualquer classe social ou geografia, seu gesto fala não apenas de si, mas de todo o seu entorno afetivo e social. É preciso falar sobre suicídio, sem dúvida, mas também do que isso importa à família, à escola, à sociedade e, já que não se restringe exclusivamente aos adolescentes, aos sentimentos de todas as pessoas. Yoñlu, o filme certamente não tem o dever de fornecer todas as respostas de que precisamos. Por outro lado, nós é que temos o de aproveitar a oportunidade do filme e incrementar as necessárias discussões a respeito do assunto.

* * *

Há quase duas décadas atrás, no ano de 2000, a OMS publicava um guia voltado aos profissionais da mídia na intenção de instruir as abordagens e notícias sobre o suicídio. Em linhas gerais, as recomendações giravam em torno de evitar-se o detalhamento de métodos, certa tendência à espetacularização, associações diretas com outros transtornos mentais, alusões que possa levar a uma estigmatização das pessoas e suas famílias, bem como destacar-se informações alternativas e fontes de informação confiáveis sobre o assunto.

Seguindo o exemplo da OMS, há cerca de uma década o governo federal, através do Ministério da Saúde, publicou as Diretrizes Nacionais para Prevenção ao Suicídio, oferecendo indicações a respeito da necessidade de ações de prevenção ao suicídio e de sua caracterização como um problema de saúde pública. Apenas desde 2004 a OMS passou a publicar relatório exclusivo sobre o tema. Dois anos atrás, em 2015, foi instituído no Brasil o “Setembro Amarelo”, iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) dedicada a reflexão e medidas de enfrentamento ao suicídio.

Na última semana (21/09), o Ministério da Saúde divulgou o primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, contendo dados obtidos entre 2011 e 2015. Importante destacar que a interpretação cuidadosa de estatísticas, o evitamento de generalizações e comparações geográficas, recomendações publicadas pela OMS no longínquo ano de 2000, parecem ainda muito distantes de serem observadas.

 

Os links abaixo remetem aos conteúdos publicados em alguns meios de comunicação sobre a publicação do boletim:

Mapa dos suicídios no Brasil coloca Rio Grande do Sul em alerta (Zero Hora)

Brasil registra uma tentativa de suicídio por hora, diz boletim inédito (Correio Braziliense)

Núcleo identifica uma tentativa de suicídio a cada 10 horas na Capital

Suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos (Agência Brasil)

Brasil registra 30 suicídios por dia; problema afeta mais idosos e índios (Folha de São Paulo)

Cerca de 11 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos no Brasil… (UOL)

Suicídios aumentam 12% em 4 anos e preocupam Ministério da Saúde (Estadão)

 

Fontes e links de apoio:

CVV – Centro de Valorização da Vida (Tel: 188)

FIOCRUZ – Especial sobre suicídio

Setembro Amarelo

Suicídio e vida

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio

Befrienders

A estropiada identidade do gaúcho

Há no populário rio-grandense um termo que muitas vezes me parece em tudo resumitivo do que parece ser ainda hoje o grande drama identitário do povo gaúcho: trata-se da palavra “estropiado”. Primeiro, pelo seu cunho histórico, tendo em vista que o nascimento das primeiras povoações daqui parece ter ocorrido a partir das tropas empreendidas ao longo desta precursora das rodovias que até os dias atuais riscam o mapa físico do estado. Não das tropas de animais em si mesmo, mas do encontro interpessoal travado entre os nativos indígenas e colonizadores, principalmente paulistas comerciantes ou desertores militares. Deste encontro vis-à-vis ocorrido às margens e ao longo do Caminho das Tropas originaram-se, obviamente não de uma tacada apenas, as primeiras vilas e habitantes do estado. Também dessa época colonial ou pouco depois disso, o termo que deu origem ao nosso gentílico: o gaúcho.

Não parece ser um erro tão grosseiro apresentar a ideia de que tanto o gaúcho (o tipo humano, não o gentílico) quanto o Rio Grande do Sul tenham tido origem num projeto político quase imponderável: o da captura do gado alçado ou chimarrão, o comércio dos bens daí extraídos e a defesa da fronteira contra os insistentes espanhóis. Parecem ambos nascer, dentro dessa perspectiva, de uma necessidade pouco pacífica, de um ir e vir, e de um povo que, debalde isso tudo, foi fixando aqui e ali os limites primeiros do estado, depois autoproclamada república, logo a seguir estado novamente.

Este o sentido linguístico do termo estropiado, aquele que se desviou da tropa; tropa, a reunião de seres em marcha de um lugar a outro no espaço físico. Há alguns sentidos mais, porém, para o uso do termo: o de cunho militar, isto é, de um agrupamento de indivíduos em pé de guerra e constantemente em marcha, essencialmente belicoso; o de cunho literal, que diz daquele sujeito inutilizado, desfigurado, inválido; outro ainda de cunho figurado ou literário, de quem se aparta dos demais não voluntariamente, mas por cansaço, por machucados, por tácita impossibilidade. Já para as questões identitárias, a convergência de todos esses significados parece mesmo resultar no gaúcho conforme a acepção literária, ou seja, ao final de tudo há o errante e o espaço da errância, o gaúcho, o gaudério, o sem lugar.

No mundo, talvez não haja quem mais se debruce tanto sobre si mesmo, quanto nós, gaúchos. Esta preocupação para lá de antropológica, aliás, tem rendido ao longo dos anos muito bons resultados editoriais. Bastaria lembrar dos dois volumes de coletâneas “Nós, os gaúchos”, organizados pelos professores Sergius Gonzaga e Luis Augusto Fischer, editados pela Ed. da Universidade (UFRGS), ou de seus continuadores “Nós, os ítalo-gaúchos”, “Nós, os teuto-gaúchos” e “Nós, os afro-gaúchos”, publicados pela mesma editora em 1996. Mais recentemente, em realização conjunta da UFRGS com a Appoa e reunindo dezenas de conferências realizadas em 2015, publicou-se o volume “NósOutros gaúchos: as identidades dos gaúchos em debate interdisciplinar”. A bem da verdade, há uma ampla literatura a respeito de muitas questões sobre o secular problema identitário no Rio Grande do Sul, apenas que os citados resumem hipóteses que de certo modo atualizam os estudos anteriores, sejam literários, historiográficos ou culturais amplo senso. Isso tudo, todavia, parece sempre pouco guiar a quem se interessa e acaba fazendo esta pergunta ao mesmo tempo banal e cabal: quem afinal somos, os gaúchos?

A dificuldade principal em responder à indagação reside, talvez, em que ela honestamente poderia ser respondida somente por uma série de outras perguntas. Uma série interminável, contextual, que inviabilizaria até que, nesta tentativa, se pudesse chegar a um mínimo termo satisfatório. Sem dúvida, a qualquer um parece existir um apelo quase místico ao termo gaúcho. Se o gentílico por um lado denota um tipo humano indubitável, trajado em toda sua indumentária, por outro descaracteriza e enfumaça por completo todos aqueles não suportados nessa representação. A estes, gaúchos não-gaúchos, resta apenas uma como a daqueles gaúchos mais antigos, históricos e literários: são estropiados da representação, ocorrem fora da cultura, quase alijados de qualquer identidade.

Por outro lado, caso se respondesse ainda àquela mesma pergunta “quem somos?” com o que parece mais óbvio, a resposta correta deveria ser nada mais nada menos que “todos”, mesmo que com isso fosse criado o caldo de cultura para algo como uma nova conflagração. Nada do que não estejamos acostumados. E embora a reivindicação do termo, da palavra-chave, ocorra bem mais por quem esteja longe de sua paisagem original, a região da campanha rio-grandense, é possível ou pelo menos poético pensar que a ideação do gentílico de certo modo foi agindo através dos tempos como um tipo de tentativa inconsciente de auto-pacificação. Em que pese a caracterização estereotipada, desde que pelo menos nascidos aqui, todos gaúchos são. Resolve-se ao menos nominalmente a situação. Não obstante, é difícil imaginar que os interessados deem-se por satisfeitos. A generalização, como costuma ocorrer com todas elas, não pode atender a todas as particularidades e anseios e o que ocorre a partir disso é mais ou menos o que economista indiano Amartya Sen chamou, no seu “Identidade e violência”, de deturpação.

Mais aferrados que desunidos, é curioso notar que tem sido difícil para nós, gaúchos, abrirmos mão mais até do que do uso vocabular do gaúcho, mas de sua poderosa simbologia. Não estou pensando aqui na esterotipia da bravura e da valentia, mas apenas no que às vezes me parece ser uma espécie de desterro coletivo ao qual, curiosamente, nos apegamos sobremaneira. Como se não precisássemos ser de todo brasileiros, mas nem por hipótese gostaríamos de que nos associassem em definitivo aos hermanos castelhanos. Como se fosse mesmo rançoso e difícil responder às troças infinitas sobre a masculinidade e provincianismo (como se fossemos os únicos no mundo afetados por essa moléstia maligna) e quiséssemos acessar o cosmopolitismo bem como somos e com nossos muitos sotaques e modos de dizer.

Pois é bem essa disputa e dilema que viemos travando às vezes silenciosamente, às vezes mais ruidosamente. Em um de seus últimos trabalhos, o antropólogo norte-americano Clifford Geertz assinalava que “cosmopolitismo e provincianismo já não se opõe; ligam-se e se reforçam. À medida que aumenta um, aumenta o outro”. Nada disso, porém, nos acalma por completo. E ainda que se discuta, sobretudos no mês farroupilha, se somos mais silenciosos do que barulhentos, milongueiros ou fandangueiros, serranos ou fronteiriços, de chiripá, bombacha ou jeans, índio vago ou bochincheiro, se a pé ou a cavalo, china, prenda ou tão simplesmente mulher, interessa saber que, sendo tudo isso bom ou ruim, temos culpa no que somos, isto é, sem dúvida alguma fomos nós que nos fizemos assim. Temos, portanto, o dever de minimamente aturarmos uns aos outros. O estranho agradável de tudo o mais é que, embora ainda precisemos pensar um pouco antes de arriscar a dizer quem e como somos, de um modo ou de outro preferimos que, por via das dúvidas, essa dúvida permaneça exclusivamente nossa. E como diria não um intelectual, mas a voz do mais incauto pensador popular, o passofundense Teixeirinha, é não nos “pisar no pala” e estamos conversados.

Parece até mentira

Sei que muitos que me conhecem (ou julgam conhecer) me tomam por alarmista, talvez até um arauto preferencial de más notícias. É uma injustiça pensarem isso de mim. Sou um otimista quase doentio. E mesmo quando não há possibilidade alguma, eu luto talvez a luta mais infame de todas, que é a de mesmo na adversidade manter viva alguma esperança. Só o que não me permito é ser lunático, este é meu limite, especialmente quando estão em questão a vida e a realidade dos outros.

De vez em quando, entretanto, minha esperança recebe reforços. E embora eu procure tentar ser parcimonioso ao falar sobre mim, hoje me deu vontade de contar sobre um reforço desses, que se passou comigo mesmo, na realidade. Eu diria até que foi tão inédito e imprevisto que fiquei desarmado na situação, durante o dia inteiro, e só agora, com o dia já acabando, caiu a ficha do que me aconteceu e não sei se eu tanto havia esperado por ouvir uma coisa dessas, mas na hora a porção mais racional da minha mente computou a coisa toda como se fosse absolutamente lógica e natural. No fundo, inconscientemente, percebi que estivera esperando ouvir (trata-se de um diálogo que ouvi furtivamente) aquela conversa por anos a fio. Na verdade, parece até mentira, uma década já…

Imagem editada que mostra um soldado subindo a escada de um helicóptero sobre o mar do qual emerge uma baleia orca em sua direção. A imagem foi por muito tempo alvo de debate sobre edição de imagens e divulgação de imagens falsas na internet.

Tudo se passou hoje próximo ao meio-dia, pela manhã. Fui à escola dos meus filhos para resolver uma burocracia sobre matrículas e presenciei sem querer a conversa de uma família que visitava a escola para conhecê-la pessoalmente com a orientadora pedagógica, nos corredores que dão ao pátio interno. Este é um ritual que conheço bem e que, mesmo que somente nesse último ano tenha vivido relativos momentos de tranquilidade, duvido que as pessoas que não têm filhos com deficiência consigam imaginar em que tormento isso pode se tornar, quando deveria ser o mais trivial dos gestos para qualquer cidadão e sua família.

Bem, feito o esclarecimento, continuo meu relato. A conversa não me chamaria a atenção, provavelmente (não, eu não sou fuxiqueiro nem indiscreto), se no meio da charla eu não tivesse ouvido o nome do meu filho. Bem, não que ele me dê grandes problemas disciplinares (o meu anjinho…), mas os alertas paternais soaram instantaneamente, por via das dúvidas. O que diabos estaria fazendo o nome do meu filho naquela prosa tão animada?

Então foi que ouvi o que me pareceu por um instante ser mesmo o óbvio a ser dito, que foi mais ou menos assim: “Que ótimo saber disso! Nós queremos mesmo uma escola com inclusão! Com pessoas de todo jeito! É isso que queremos para o nosso filho, esse convívio, porque isso conta muito para nós! Deveriam todas ser assim!” Parece óbvio se você tem também um filho com deficiência, não é? Mas e se não tem? Pois este era justamente o caso! Eu estava ouvindo a conversa de uma família de um aluno sem deficiência que gostaria de matricular seu filho numa escola onde houvesse, naturalmente, crianças com deficiência. Não era uma realidade imprevista que lhes estava sendo apresentada, era o desejo deles, de sua livre e espontânea vontade. E eles declaravam que se importavam com isso, que isso pesaria na sua avaliação.

Nada mais natural, não é verdade? Deveria, mas, sendo realista, não mesmo. Aqui também, parece até mentira… Não sei porque não saí atrás da família e me abracei neles e lhes dei beijos e abraços, mas algo do meu temperamento me conteve e eu, ali, no calor do momento, não entendi tão bem quanto descrevo agora do que se tratava. A ficha custou a cair. Falta de hábito dá nisso, não é verdade?

Não que isso justifique um denuncismo quase obsessivo que se vê por toda a parte, sobretudo redes sociais, mas a verdade é que para a infelicidade de todos, não exclusivamente a minha, há um cenário que tem favorecido sobremaneira o surgimento abundante de más notícias a respeito de situações que se na lei estão resolvidas, na prática continuam boiando no amplo mar da precariedade. É com o que temos nos virado como sociedade.

Pois bem, diante de tudo isso não seria eu a menosprezar os sofrimentos autênticos de ninguém e, apesar de ser obrigado a concordar com a máxima que diz que o mal alheio pesa como um fio de cabelo, somente uma criatura sem alma usaria de seu direito de livre expressar para tripudiar do sofrimento alheio, embora um recente caso ocorrido na vizinha Argentina sobre o qual escrevi algumas poucas linhas me mostre que provavelmente, sim, existam bem mais de uma alma assim.

Não sei o porquê (isso é retórica, sei muito bem) mas sinto como agressões não apenas aquelas situações que ocorrem ao arrepio da lei, mas também as que ocorrem à revelia do mínimo senso de humanidade. A mim, particularmente, a indiferença aos problemas dos demais também me passa uma potentíssima sensação de agressão. Ainda que de um teor menos violento, trata-se de uma outra espécie de violência que, se no âmbito moral individual pode ser considerada inofensiva, institucionalmente ela costuma encobrir muitas vezes casos de covardia política ou até mesmo omissão criminosa. Não gosto nem um pouco, mas acontece, e em volume muito maior do que eu desejaria. E também não tenho admiração alguma por sentimentos de compadecimento e piedade; aliás, duvido muito de que alguém goste de ser objeto deles.

Enfim, entendo que às vezes não há para as pessoas soluções em vista e, assim, há que se ter bom senso para não julgar os demais desconsiderando o seu contexto particular. Embora isso não costume vir nos manuais de empatia, trata-se de não prejudicar os interessados da atenção que lhes alcança e muitas vezes é premente, fundamental. Às vezes, a única efetivamente possível. A isso se chama civilidade. Sou avesso, portanto, a qualquer comportamento à Maria Antonieta. Pelo menos no terreno inclusivo, sejamos honestos, não há tantos brioches assim a oferecer. Há que ser compreensivo com situações duras, excludentes e até mesmo ilegais, que ainda subsistem porque, afinal, o processo costuma seguir mais o percurso acidentado da realidade que o terreno argiloso da idealização.

O fato dentre os fatos é que, se dependemos muito mais dos outros do que dispomos muitas vezes de nossa própria força, acho justo que, ao lado de tantas denúncias, abusos e violências também se possa oferecer um pouco de reforço para quem porventura estiver precisando dele. Se me engrandeço por isso, por seu meu filho o exemplo? É claro que, por isso especificamente, não. E nem se trata disso. Para mim, pessoalmente, muitas vezes tem sido difícil romper essa contenção a que nos amarra a realidade social, e também a individual (acredito que como todo mundo), mas, como ouvi quase sem querer o que ouvi, apenas quis dar eco a esse empurrão que recebi sem nem entender direito a razão… Se alguém que tiver lido até aqui estivesse precisando ouvir isso também, saiba que é real, não é ficção. Como li há um tempo no blogue do Paratodos, em texto da Fabiana Ribeiro, é muito bom às vezes poder ouvir um “Vai, meteoro” desses. Em eventos inúmeros a que fui e em palestras, já ouvi coisas das mais fantásticas e singelas sobre inclusão, mas nunca como essa, que a gente recebe sem precisar nem pedir, por acaso, de graça, a troco de nada.

Como assim celebrar a exclusão?

Vem da vizinha Argentina uma notícia forte candidata a ser, pelo menos no que toca ao direito fundamental à educação, campeoníssima no quesito crueldade do ano. Fartamente reproduzida nos periódicos de lá, foi o El Pais Brasil que a trouxe para cá ao contar em não muitas linhas a história de um aluno diagnosticado com a síndrome de Asperger que foi removido do convívio de seus colegas em decorrência de mobilização contrária a sua presença em sala de aula.

Sim, não há erro de leitura aqui: a mobilização reportada foi realmente empreendida por familiares desejosos da remoção da criança para outra sala de aula, uma que a mantivesse longe dos “nuestros“, que assim finalmente estariam “aliviados” daquele convívio.

Também não há erro de leitura algum nas comemorações dos familiares em sua campanha exitosa. Sim, há exclamações, euforia e muitos emojis esfuziantes pelo obtido em mensagens que foram trocadas em grupos de WhatsApp pelos sequiosos progenitores envolvidos, vazadas e tornadas públicas logo a seguir. Foi o bastante para o fato vir a tornar-se polêmica nacional e até mesmo a atravessar fronteiras, decerto por ser uma espécie de situação até certo ponto de conhecimento universal.

Alunos afastados, convidados a procurar outros estabelecimentos, encaminhados para tratamentos e instituições ou simplesmente expulsos não consistem novidade alguma por aqui, no Brasil. Bastaria lançar a pergunta em aberto “Quem já passou por isso ou semelhante?” e choveriam casos e mais casos escabrosos de ofensa aos direitos da criança, aos direitos humanos de um modo geral e até mesmo de violências mal reportadas, mal conduzidas e muitas vezes simplesmente deixadas por isso mesmo, tal o desamparo que costuma atingir quem atravessa a situação ou situações semelhantes. Isso no âmbito da educação pública e privada, frise-se bem. A novidade aqui, neste caso, é poder verificar-se sem sombra de dúvida que isso muitas vezes ocorre para o regozijo dos demais e isto é por si só bestificante, paralisante, demolidor.

É preciso aceitar, em face disso, que boa parte do esforço em prol de qualificar as relações humanas na escola tem sido literalmente em vão. E isso se uma pessoa apenas comemorasse a exclusão de um aluno com autismo ou outra deficiência qualquer. Quando isso atinge uma comunidade, é de pensar que muito mais vai mal, a começar pela noção de que se pode dispor dos direitos individuais em prol do suposto desejo da maioria. Conflito este que é absurdo e falacioso, vale dizer.

Não há um desejo democrático quando ele visa suprimir os direitos mesmo que sejam de uma pessoa apenas. Não há legitimidade alguma neste pleito de exclusão ou, pelo menos, se há, tem a mesma legitimidade do que o seu próprio direito à educação. Esta é a base do estabelecimento dos direitos humanos e a democracia moderna se adapta a isto, jamais o pode suprimir, porque então haveria um regresso a um justificado estado de supressão de direitos. Quantos outros anseios da maioria se justificariam da mesma forma partindo-se dessa conduta? Ou melhor, que qualidade de anseios? Que projeto de sociedade estaria sendo defendido e efetivado dentro desse leque de hipóteses educacionais e sociais?

Está muito certo que não se possa controlar o que move o desejo e a felicidade de ninguém. Não é um processo fácil mesmo a mudança de mentalidades, nunca foi. E o exemplo de tragédias antigas nunca brecou por si só o surgimento de outras mais novas, ou renovadas. É preciso, portanto, cuidar dos direitos humanos a fim de que mesmo por desejos rumorosos não se dê causa a qualquer tipo de violência, abuso ou ilegalidade.

Desde que ocorra sem prejuízo de nenhuma espécie a quem quer que seja, não deveria custar muito imaginar soluções de outra ordem tanto no âmbito educacional quanto legal quando se vai resolver conflitos e é bastante normal que situações assim confluam para os espaços públicos, como por exemplo a escola. É duro admitir que a opção mais fácil tem sido esta mesmo: dar oportunidade ao esvaziamento do conflito, ao seu apagamento mesmo que custe a exclusão de um ou outro aluno, afinal isolando-se um a um parecem mesmo que são pouco significativos, mas não são. Nem um é.

Neste caso dos “hermanos“, o que é entristecedor é que se percebe o quão poucos notam a dimensão da violência que perpetram. E que fiquem felizes e extasiados pelo sucesso da violência é quase um espancamento coletivo que fazem, ainda que invoquem a privacidade do diálogo e a casuística do fato em si. Que a educação (amplo senso) das crianças não vai bem não é exatamente uma novidade, mas ocasiões assim são esclarecedoras a respeito de pelo menos parte da origem do “problema”. Bem, pelo menos nesse caso pode-se admitir com boa dose de franqueza que a educação (amplo senso) dos pais também não está lá essas coisas.

Poesia, sua desgraçada

Para mim é triste lembrar isso, mas conheci o nome de Orides Fontela acho que em uma referência a ter sido “mais um poeta a morrer na pobreza”, não me lembro exatamente onde, pois é tema dos mais recorrentes. Embora muita gente pense nessa combinação com certa reverência, a mim sempre invade uma tristeza muito grande quando me deparo com essa associação. Mais ainda quando referida antes do que a qualidade de uma obra poética magistral como a de Orides.

Ela, que há alguns poucos anos (porém mais de uma década após a sua morte) recebeu da Ed. Hedra uma edição à altura da sua obra completa (org. por Luis Dolhnikoff), ganhou também um volume biográfico (por Gustavo de Castro) que, mesmo entrevendo a vida bastante dura que teve, o fez com muita delicadeza e competência. Além disso, acompanha o volume biográfico uma coleção de inéditos da poeta, o que é um deleite à parte, além do que parece ser sua única anotação filosófica a respeito da poesia, reproduzida bem ao final do volume.

Os poucos poemas dela que eu conhecia, publicados em meados dos anos 70, muito haviam me impressionado anteriormente, mas como só recentemente editoras têm voltado a realizar a compilação e publicação de obras completas de poetas (para a desgraça dos bibliófilos pobres como eu), pude colocá-la ao lado de outros poetas contemporâneos seus de quem gosto muito e, provavelmente por ignorância minha, só agora percebo a força e a imensidão de sua obra.

Que outros poetas por quaisquer outras razões não tenham precisado enfrentar suas mesmas condições de vida só me faz pensar que são exceções neste país que costuma remunerar muito melhor outras opções e vocações, além de práticas escusas, criminosas ou vexaminosas. Por alguma razão que não compreendo bem, isso em algum momento foi se tornando aceitável e naturalizando-se como incontornável, quando se trata em absoluto de uma opção consagrada pela classe política e avalizada periodicamente por toda a cidadania. Isso só torna, aliás, tudo ainda mais incrível e inacreditável.

Apenas que a mim há muito tempo soa insuportável a associação e uma certa mitologia a respeito da poesia e dos poetas com a vida desgraçada, com a pobreza, com o alcoolismo, com a drogadição, a loucura e assim por diante. Quando deixa de ser suficiente (ou sai de moda) o desregramento dos sentidos, começa-se a precisar então do desgraçamento biográfico, como se dele dependesse a qualificação da obra ou isto sempre a ela se antepusesse. Não fosse esse reconhecimento costumeiramente póstumo, bem como a atenção editorial, estaria tudo bem. Porém, antes que tudo isso aconteça, a desgraça precisa estar completa.

Esse é uma espécie de apreciação da poesia que eu considero um tanto quanto doentia. E eu até tento, mas não encontro outra palavra mais adequada. É como se, antes de conhecer a poesia e a própria pessoa, por alguma razão fosse fundamental certificar-se de que se trata de alguém desgraçado o bastante ou que isso fosse, sabe-se lá por que razão, relevante investigar.

Se não duvido nem um pouco que uma vida atribulada no plano psíquico ou material possa realmente conferir maior densidade existencial a um trabalho artístico, tal relação não pode ser arbitrária e nem muito menos constituinte do aspecto criativo/expressivo de quem quer que seja. Há sem dúvida um interesse quase místico nessa associação, mas o caso de Orides é revelador nesse sentido. Ao morrer, Orides era professora primária aposentada e isso, no Brasil, representa muito mais uma condenação às dificuldades financeiras do que propriamente a poesia conseguiria. Como se sabe bem, na história brasileira a poesia ocorreu também entre carreiras públicas menos desafortunadas, tais como a diplomacia, o ensino superior e outras mais. O mesmo vale para as atribulações da vida como, por exemplo, a dependência alcoólica. Entretanto nestes casos menos afetados pela pobreza, isso curiosamente é bem menos lembrado e evocado.

De minha parte, no caso de Orides, considero algo pusilânime associar-se às condições precárias da sua vida à poesia. Como qualquer um pode imaginar, não existe comprovada relação entre dinheiro e poesia, a não ser para quem pense sustentar-se justamente com os menos vendidos entre todos os livros. Mesmo que isso não fosse uma má ideia de todo, parece cada vez mais improvável que venha a acontecer algum dia de pelo menos um poeta sequer conseguir manter-se com o produto do seu trabalho. Como é típico nas culturas rudimentares, a poesia, mesmo que não seja literalmente punida como em Brodsky por Kruschev, inacreditavelmente ainda é associada à vadiagem. Daí que dizer que um poeta morrer pobre parece ter se tornado ao longo do tempo uma espécie macabra de tautologia. Mas será que não se percebe que isso compete em uma ainda maior desvalorização generalizada do fazer poético? E o que dizer da insinuação tácita de que a criação poética ocorre sob a desgraça, como se decorresse dela e não pudesse ser por si só um momento de realização ou felicidade?

Embora eu nunca tenha ouvido falar a respeito de algum poeta notável pela ambição financeira ou autodeclarado amante da acumulação, é possível, sim, que em algum lugar exista ou tenha existido. Quanto a Orides, importa saber que seu despojamento foi muito além das questões materiais. Seu interesse e filiação ao zen-budismo não comprova outra coisa que um desejo profundo por limpidez e desbastamento do desnecessário. Seus motivos silenciosos de quem vivera acostumada a longos períodos de solidão fizeram-na como um sopro de vento acontecendo lado a lado ao rumor de escolas, movimentos e tendências poéticas que se estabeleceram na história literária quase como fenômenos sociais autônomos.

Ao fim de tudo, restou a sua poesia mais que um manifesto ou mesmo uma declaração da poeta em prol de uma estética ou, vá lá, cosmogonia. A pobreza, e isso só pode acontecer mesmo é na poesia, é mero detalhe que nunca chegou perto do imenso tesouro de tenazes delicadezas que Orides criou e publicou ao longo de sua vida. Seus poemas, frutos talvez de sua intimidade para com a filosofia, têm uma simplicidade avassaladora e uma musicalidade interna à palavra, essencial, como se proveniente mais de seu miolo do que da casca externa das metáforas, hipérboles e demais figuras com que se costuma encobrir os significados poéticos.

Para quem a criação poética era mais fruto de uma opção do que uma intercorrência, Orides sabia melhor do que ninguém e porque a pobreza lhe acontecera. Disse ela em entrevista reproduzida no volume biográfico:

Uma mulher, professora primária, pobre, sem marido, poeta, neste país, não é possível. (…) Tive que escolher o menor dos males. O menor mal possível é ser pobre e sozinha. E o maior bem possível sempre foi a poesia.” (Castro, Gustavo de. O enigma Orides. São Paulo: Hedra, 2015. p. 47

Quem desejar confundir isso ao seu legado e fizer questão de erigir antes de qualquer outra essa memória, afinal só pode mesmo estar obcecado por entender a vida e a obra de um poeta como curiosidade de almanaque. A estes, eu apontaria sem grande dificuldade muitas outras situações onde a pobreza é responsável por obras tais como a violência, a miséria humana e horrores tais. E, aproveitando a ocasião, perguntaria por que tanta obsessão em imbricar poetas e a criação poética a uma ou muitas espécies de necessários destinos trágicos. Eu penso que não teria maiores dificuldades em apontar uma coisa de cada vez. Aqui, a poesia. Acolá, a pessoa. E o destino, ora, infelizmente o destino não existe. No mais das vezes e ainda que isso seja uma advertência das mais tardias, ele costuma ser a expressão do desejo ou de projeções alheias. Nada que efetivamente interesse à poesia, muito menos à límpida poesia que Orides Fontela nos deixou.

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Alguns dos poemas do livro.

ERRÂNCIA  – p. 223

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.

O ANTI-CÉSAR – p. 246

Não vim.
Não vi.
Não havia guerra alguma.

GATHA – p. 255

O vento, a chuva, o Sol, o frio
tudo vai e vem, tudo vem e vai.
Tenho a ilusão de estar sonhando.
Tenho o manto de Buda, que é nenhum.

Myosen Xingue
(Meu nome como leiga zen-budista)

DRAGÃO – p. 274

Do amor sem
fundo
– do
___inominável –

o dragão: raio
__________densa
__________energia
__________ascende

e ao
sacro
ímpeto
que amor
resiste?

Rasgam-se os
véus
do inominado.

A vida secreta das árvores

Um dos livros mais vendidos de não-ficção do ano nos Estados Unidos e na Europa, A Vida Secreta das Árvores, do botânico alemão Peter Wohlleben, parece tratar de tudo, menos de árvores. Nele, clãs e famílias digladiam-se pela sobrevivência, criaturas solitárias enfrentam o cerco de inimigos, pedem socorro, socorrem-se, tornam-se amigas, realizam pactos, conversam entre si e até mesmo contra-atacam àqueles que agridem os membros destas curiosas sociedades de faias, freixos, carvalhos, bétulas, abetos, teixos e assim por diante.

Se quisesse, Wohlleben poderia ter escrito um épico que entremeasse as muitas desventuras arbóreas. O que acabou fazendo, entretanto, foi esclarecer uma dimensão inesperada e oculta da vida das árvores. E, nesse mundo quase imperceptível, o modo como estes seres sobrevivem e relacionam-se, mesmo quando costumam ser pouco notados e até certo ponto menosprezados no mundo da racionalidade. O inesperado maior é que ele faz isso quase literariamente, apesar de contar apenas com o instrumental da ciência, com uma impressionante capacidade observadora e uma narrativa até certo ponto afetiva a respeito dos enormes vegetais. É a maneira que encontrou para tornar acessível esse universo a qualquer leigo em botânica.

À leitura, é praticamente impossível não reconstituir-se imediatamente a imagem das árvores vivas da ficção fantástica de J. R. R. Tolkien: os ents e suas movimentações pelas florestas da Terra Média. É bom lembrar, porém, que não é apenas em Tolkien que a relação das árvores com a literatura acontece. Trata-se de um fenômeno universal, dado que a coexistência e dependência entre os diferentes tipos de seres acontece desde sempre, isto é, praticamente desde que os seres humanos desocuparam de seus galhos e postaram-se em dois pés, no solo. Assim que desde o Édem bíblico e de suas duas árvores seminais: a da vida e a do conhecimento, passando por tradições culturais tão diversas quanto a do extremo oriente e a dos povos do norte europeu, árvores e homens vêm dividindo espaço na geografia real e também na imaginação popular.

Primeiro, na mitologia mais arcaica em que dríades nasciam de dentro de carvalhos, ninfas eram transmutadas em loureiros, deuses africanos incorporavam em baobás gigantescos, teixos e salgueiros assombrosos protegiam residências e seus moradores de influências maléficas da natureza e outras inumeráveis possibilidades. Depois, na literatura, o aspecto mágico da relação também foi consolidando-se como dos mais duradouros. Um exemplo extremo dessa simbologia sobrenatural pode ser encontrado na literatura fantástica que tanto predominou na América espanhola no último século, quando eventualmente árvores e homens chegaram até mesmo a fundir-se, como no caso de José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão.

No Brasil, em específico, as árvores também costumam aparecer desde os mitos de formação, principalmente os de matriz indígena. Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, relata que mitos como o do caipora e o da mãe-das-seringueiras cumprem o papel de proteção das florestas, vivendo no interior dos troncos das árvores, surgindo para defender as matas de seus invasores externos. Na literatura, entre aparições incidentais, há um conto que facilmente poderia ser dado como precursor do realismo fantástico, de João Simões Lopes Neto, publicado na imprensa no começo do séc. XX, e que narra a história de certa figueira que teria absorvido características de muitas árvores cujas sementes depositaram-se acidentalmente próximo às suas raízes. O conto intitulado A figueira encontra-se no livro Casos do Romualdo, recompilado e republicado em 1954 pela editora Globo, de Porto Alegre.

Exemplos míticos e literários como os acima atestariam de certo modo que, a despeito da visível fixidez, as árvores ocupam diversos lugares na literatura, demonstrando que, pelo menos no imaginário, elas não são tão fixas assim. Não é difícil lembrar de árvores sábias e confidentes, como o pé de laranja-lima de José Mauro de Vasconcelos ou da presença ameaçadora e constante nos bosques de fábulas e contos infanto-juvenis de um tempo em que seres humanos e florestas tinham limites de não tão fácil transposição quanto há hoje. Movido talvez por isso, Wohlleben tenha apressado-se a narrar a história e a natureza dos fenômenos botânicos de modo a sensibilizar a razoabilidade presente em relação ao tema, tendo em vista a crescente dessensibilização do ser humano para com quaisquer elementos da natureza objetiva. E isto é visível sobretudo na constatação de que mitos e seres afins simplesmente deixaram de dar conta da tarefa de delimitar territórios de árvores e de homens, não que a exposição permanente de números de desmatamento venha tendo melhor sorte.

Em seu livro, ao invés de agir como biólogo ou guarda florestal, Wohlleben assume-se como um narrador de realidades tão pouco aparentes que chegam a parecer fantasia. Para ele, mesmo que tratando especialmente das florestas alemãs e europeias, importa mais que as pessoas reconsiderem o papel das árvores e florestas, que não as percebam como meros conversores de oxigênio, mas como seres dotados de uma dinâmica capaz de interferir decisivamente no mundo contemporâneo, quem sabe até mesmo pelos seus exemplos de comportamento social, mesmo que isso pareça estranho dizer.

O leitor que está limitado a uma visão utilitarista da natureza por certo irá aborrecer-se com a leitura de A vida secreta das árvores, mas não é o desejo de Wohlleben realizar a missão de convencimento ou pregação ambiental. Nada disso. Talvez o mais espantoso seja afinal que ele está a mostrar o que de outro modo parece incompreensível, ou seja, de que tanto as florestas quanto a vida não são inexpugnáveis e que se a literatura tem logrado sobreviver sem a necessidade das árvores, o mesmo não se pode dizer nem de autores, nem de leitores, nem de ninguém. Já é um motivo e tanto para, pelo menos, escrever-se um livro assim.