A fonte somos nós

Mapa das manifestações

Sem dúvida, no fundo de nós existem exigências e protestos. Mas, não sendo
ratificadas pelos outros, aniquilam-se, deixam-nos com sentimento de frustração e
com hematomas na alma”.
Jean Paul Sartre – Eleições, armadilhas para otários

Talvez até mais do que propriamente gente na rua, as duas últimas semanas trouxeram de roldão junto a si múltiplas inundações. A de informação, sem dúvida, é a maior delas, mas não ficamos por aí, derrocamos até mesmo diante de nós mesmos e nossas convicções anteriores. E isso aconteceu diante de uma frase em um cartaz, da imagem do povo na rua, da declaração de um político e até mesmo de uma inundação dentro de si mesmo, quando ouvimos – lá de dentro – alguém muito semelhante a nós mesmos dizer o que devemos fazer, o que procurar pensar, a quem ou o quê se referir e, principalmente, a quem se dirigir. Nesse último aspecto, parece não restar dúvida que as redes sociais foram de extrema relevância, convertendo-se numa espécie de pólis das palavras e das ideias enquanto que as ruas ou nos receberam ou invadiram a nossa própria revelia. Há frestas nas portas das nossas ideias e percepções que estão dando vazão a muito gás, de um ou outro tipo, de dentro para fora ou então de fora para dentro.

Mas o que aconteceu para que ficássemos assim? Depois desses dias parece até mais fácil encontrar respostas, o problema (ou seria a solução?) é que estamos nos habituando finalmente a responder perguntas com outras perguntas. É uma sublevação intelectual que muitos se permitem fazer a si mesmos e outros tantos parecem convencidos de fazer com os demais. É como ir à feira discutir o preço do peixe. Ou no Facebook discutir qualquer coisa. A rede enreda mesmo e às vezes uma simples frase degringola toda uma linha de pensamento. São ruínas virtuais, muros pichados de hashtags confusas e bombas de efeito moral à direita e à esquerda. E como é que vamos sair disso? Pois calma, recém estamos entrando. Qual a pressa, afinal?

Durante os últimos dias, atire a primeira pedra quem não sucumbiu ao torrent de leituras. À beira do esgotamento, por um instante deixei de pensar na forma de argumentos. Fui invadido por frases. Logo eu, que sou prolixo por natureza. E em seguida as frases me serviram de arapucas que passei aplicar aos demais. Acho que assim é que se inventou a lógica, nem quero saber quando foi. As frases me atravessaram os pensamentos. Levantaram lembranças e experiências insepultas. Tramaram guerras contra a insolvência coletiva, onde encontram forma e espelho. As frases meteram fora as velhas metáforas e foram buscar no anonimato da adolescência dos outros – os que estão diante do choque – outras palavras. E enfim renasceram, dentre o imenso brainstorming coletivo que “a crise” gerou.

Por falar nela, quero pensar que “a crise” já não é mais de um indivíduo contra a sociedade ou contra um estado de coisas. A crise se dá do indivíduo para si mesmo. E ai de quem procurar referências oficiais no estado de coisas. Qual o jornal certo para ler? Qual a revista? Blog? Twitter para seguir? Onde se informar no mar de contrafogos? A busca, entretanto, não é vã. Não se trata da dispersão policial, mas da dispersão da autoridade, do círculo de sabedores. Prova disso pode-se encontrar na Revista Época, que depois das ruas já conflagradas, reuniu 10 especialistas/universitários para explicar o que estava acontecendo, quando nunca se soube se eles mesmos previram que tudo isso pudesse acontecer.

Isso não aconteceria se Jean Baudrillard estivesse dando aulas por aqui ou se tivéssemos prestado atenção quando ele disse que já faz muito tempo que não estamos mais no drama da alienação, mas no êxtase da comunicação. Aqueles que ficaram em seus anos de formação envoltos com os próprios botões perderam a vez para quem acordou junto com o povo ou conhece desde sempre seus passos. A bússola teórica desmagnetizou-se de repente. É hora do povo correr. Todo ele. Mas antes de correr para assistir o povo correndo fartamente na TV e, fatalmente, nas manifestações, seria bem legal ver o que o funk periférico de MC Garden diz (e como diz) a respeito não do “corre”, mas da “pernada”.

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Fala-se por toda a parte uma série de coisas que podem ser medidas pela metalinguagem. Entender o “inverno brasileiro” a partir de um referencial enciclopédico ou da voluptuosa mídia, portanto, é uma cilada. Mas quem é o titereiro, afinal? Quem é a fonte de tudo?

Tenho uma informação secreta: a fonte somos nós, conforme diz nossa própria Constituição, tão cheia de abstrações republicanas aterradoras como “o poder emana do povo”, “soberania”, “cidadania”, “dignidade”…

Na contramaré das análises, o povo continua nas ruas. Ele também está viciado em frases e protestos pessoais. A culpa só pode ser da internet, que recanalizou os fluxos de informação inexoravelmente. Quantas coisas interessantes o povo diz nos cartazes, assim como na rede, desempertigados! Confesso: isso me contaminou, e muito. É quase uma possessão, como se de repente tivéssemos lembrado que podíamos pensar sem recorrer a ninguém, mas ao próprio passado, a um tipo de estrutura do self que só mesmo esse imenso suspiro social – como definiu Bauman – poderia repercutir socialmente. E isso só é possível mesmo por causa do diálogo – que dispomos cada vez mais por meios virtuais, já que as ruas estão lotadas de carros (como parece ser o desejo do governo e da Petrobrás) e as cidades tomadas por interesses comerciais, assim como pelo vandalismo gerado através da violência social.

Mas será que queremos, de fato, outras cidades? Outras configurações ético-urbano-ambientais ou apenas aguardamos as soluções mercadológicas que nos reduzem a eternos consumidores e reprodutores de lixo? Para onde nos levarão os ônibus com passe-livre? Ao passado, no qual uma arquitetura faraônica ergueu monumentos exclusivos dos milionários nos últimos anos? Às favelas, cuja mobilidade se dá através de encanamentos e engarrafamentos? Ou à acrópole do futuro, imagem da utopia, planificada na realidade e na justiça desejada pela pólis?

Enquanto as respostas para essas questões estiverem nas mãos de instituições como a FIFA, é provável que não precisemos sequer esgarçar a imaginação. O óbvio está aí. Tente pesquisar a hashtag #forafifa para perceber o que estou falando. Ou então consulte os excelentes gráficos do Fabio Malini no LABIC, que revelam a dinâmica dos hubs e alicerces da informação conectada. Evite o PIG e o contra-PIG para esse efeito, contudo.

Análises sobram. Reflexões. Suspiros. A fartar. Penso que, basicamente, há duas formas de encarar os fatos: ou fato a fato, ou globalmente. Nesse último caso, poucos cientistas políticos foram tão claros em sua observação quanto a jornalista Eliane Brum que, no site de Época, cotejou o incotejável. Não falo da política por ela mesma, mas de seus efeitos sobre a vida das pessoas. No primeiro, penso no professor Juremir Machado da Silva que, no Correio do Povo, diariamente escrutina o inescrutinável: as mazelas que “o poder” atravanca e engrena na sociedade.

São apenas dicas, claro. E se são gaúchos, como eu, isso é mera coincidência, embora seja um alívio contar com sua presença entre nós, nesse tempo que, pelo menos no tocante à informação, prescinde-se de fronteiras geográficas. Claro que há outras análises especialmente competentes. No Amálgama, está o artigo de André Egg, em minha opinião o primeiro legível sobre “o assunto”, isso por sua honestidade. Até então, o gás nos encobria muito fortemente.

Falei em geografia e é com isso que pretendo cessar. Desconsidere-se a brincadeira do parágrafo anterior e peço que tentem lembrar as cidades que foram tocadas por esse momento tão peculiar, o chamado “movimento”. As imagens me mostraram gente no Acre, no Maranhão, no Pará, no Rio Grande do Sul, etc. São Paulo e Rio de Janeiro nem se fale. Todo o país, enfim. Trata-se de um momento de silêncio. Quem vive de observar é que está sendo observado. A Anistia Internacional montou um mapa (impossível de achar agora no torrent) com as manifestações. Era mais ou menos como uma panela de pipoca. É a imagem que guardei.

Onde chegamos é uma pergunta covarde nesse momento. Será melhor lembrar de onde estávamos. Do que estávamos edificando. Se continuaremos estes edifícios, os reais e os simbólicos também. O que pensamos em continuar fazendo e se continuaremos vivendo como números da urbe ou finalmente como habitantes da pólis. Se tocaremos, com esse movimento, a vida do seringueiro do Acre, do ribeirinho do Amazonas, do índio do Xingu, dos tipos regionais sobreviventes à massificação cultural e do povo resistente à idiotização educacional e institucional. Se faremos da tela do computador uma janela ou um espelho. Se continuaremos na tentativa perpétua de reconexão ao tempo histórico que nos foi furtado pela promessa de um futuro perpetuamente adiado ou, como (sentenciou?) Sartre, o primeiro inspirador desse texto, permaneceremos não na nuvem de tags, mas na tormenta do mútuo desconhecimento.

Notícias fanstasmagóricas sobre o #protestopoa

poa

Nota à imprensa

O estadista Tarso Genro anuncia à Brigada Militar medidas para proteção dos moradores da Cidade Baixa. Fica instituido o vale-taco-de-beisebol e aulas expressas com vídeos do Chuck Norris. Os gaúchos mais antigos estão livres para ir logo aos facões. Tarso ainda disse estar perplexo pela rápida movimentação dos bondes. Fortunati diz que a EPTC não sabe das rotas destes meios de transporte. E a Brigada Militar usa os mesmos mapas de sempre, rumo ao Largo Zumbi dos Palmares, onde o povo está apenas conversando. O pau come. Enquanto isso, os vândalos – iluminados pelos fachos de luz dos helicópteros que sobrevoam o lugar – usam os mesmos mapas pelos quais os escravos negros fugiam no passado, evadindo-se ao sul. A Brigada não os bloqueia por ali, mas eles não tentam avançar à várzea, digo, ao Parque da Redenção e acima dela. A notícia é preocupante. Os moradores foram bem sucedidos na sua iniciativa. Os demais usam água e sabonete em suas extremidades. Não se pode ver sua expressão. Os jornais locais não dispõem de tecnologia para registrar essas coisas. Nos centros espíritas e terreiros, um ectoplasma vindo do Centro Histórico, de um edifício de 3 andares, projeta-se para a Riachuelo e volta logo para dentro. É o Barão de Itararé. Ele emite uma mensagem expressa aos médiuns. “Essa guerra não é minha. Vão dormir!” Sem o RBS Cop por perto, os residentes conseguem esse feito. Videntes de outras correntes espirituais, twitteiros e jornalistas procuram anunciar os próximos fatos, mas os fatos foram/serão corrompidos pela própria História e também vão dormir. Só a História não dorme. Nem com Rivotril.

Os tais

O cerco de Bagé, em 1893.
O cerco de Bagé, em 1893.

Nos últimos dias tenho pensado muito nos meus conterrâneos gaúchos. Melhor, em seus ancestrais. Penso que não é digno – se houver um plano além – que eles possam ver seus descendentes borrados de medo. Dizendo que não aguentam mais a baderna, que durou não mais que 4 dias em duas semanas e rendeu até agora algum dano e prejuízo material endereçado quase que exclusivamente ao Estado e a algumas instituições financeiras, tirando-se outros deslizes lamentáveis, mas não insuportáveis, vamos com calma… Estou falando daquelas pessoas que, defendendo interesses que nãos os seus próprios, encararam coisas tremendas no passado, como a degola criolla, cargas de cavalaria, ditadores científicos como Julio de Castilhos, imperialistas aristocratas como Silveira Martins e uma série interminável de caudilhos e revoltas locais. Sem falar na dureza de ter de atravessar o Oceano Atlântico para dar com isso daqui.

Essas coisas não aconteceram num prazo menor do que meses a fio, anos a fio, através das gerações em muitos casos. Isso para a riqueza de alguns poucos e a desgraça de muitos.

Essas coisas aconteceram em 1835, 1893, 1923 e 1930. Nesse meio tempo, uma guerra mundial e, desde lá, outra guerra mundial e um golpe de estado. E também um episódio chamado a “legalidade”, um foco de resistência isolado ao golpe contra o presidente João Goulart, liderado pelo ex-governador Leonel Brizola.

Esses antepassados suportaram receber notícias por chasque (um tipo de mensageiro a cavalo), rádio e por jornais dominados sempre por grupos nitidamente econômico-políticos: trata-se de uma característica bem antiga do que hoje denominamos grande mídia, ou PIG. Havia também algumas pessoas que, respeitosamente, passaram a debochar do poder. O mais célebre foi o Sr. Apparicio Torelly, o famoso Barão de Itararé, mas parece que ele não foi o único. O barão morou em muitos lugares e, aparentemente, sempre meio “fora da casinha”, para usar um termo local. Foi ele que organizou uma passeata com rolhas à boca, na época em que era chamado de anarquista e em que as pessoas sabiam reconhecer o ridículo do irreverente. Mais sábio e mais velho, dedicou-se à astronomia. Os assuntos terrenos haviam exaurido sua energia.

Esses antepassados, assim como os antepassados de todos os povos que privaram-se de coisas mais sérias que tolices e vaidades pessoais, devem neste momento estar corando por nós. Sim, corando. Não confundir com orando. Nós estamos hoje abdicando do poder pela ordem, cerceando uns aos outros, duvidando uns das intenções dos outros, parece até que há gás lacrimogêneo entre nós, mesmo quando não estamos nas ruas. Embora não faltem candidatos, será mesmo que precisamos de novos caudilhos? Uma renovação “nos quadros” partidários, pelo menos? Não basta que o povo se apresente como tal e desenrole suas queixas?

Nem vou tentar o absurdo de pensar em respostas numa hora dessas. “Os verdadeiros patriotas fazem perguntas”, escreveu o astrônomo norte-americano Carl Sagan certa vez. Ele, mesmo sendo um cético, não era cético porque tinha respostas prontas para tudo, apenas se recusava a abrir mão da dúvida. Para quem acha que o ceticismo é fácil, tente por um momento duvidar de si mesmo, contrabalançar suas crenças e seus interesses individuais. Olhar para o cosmos talvez possa ser difícil para a maioria, mas quem sabe pelo menos o cruzeiro do sul possa nos fazer lembrar de que lado do hemisfério estamos, apesar de farejarmos insistentemente uma vida escandinava. Estamos ao sul do hemisfério e, no caso dos gaúchos, ao sul do Brasil. Tivemos nosso momento na história do Brasil com Getúlio e com Jango, mas ao invés de lamentarmos não tê-lo tanto hoje, talvez fosse importante olharmos mais e melhor para os próprios problemas, para o próprio povo, os tais gaúchos.

Se parece que o termo exorta ao centauro dos pampas ou ao depenado gaúcho a pé, semi-extintos pelo capitalismo galopante (que desgraça usar esses adjetivos), vejam só que gente estranha é essa que está enfrentando o inverno que chega na rua. Lá em Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Bagé, Alvorada, Erechim, Caxias do Sul, etc etc etc. Olhando bem, até que eles lembram mesmo um pouco aqueles que levaram a efeito um orgulho do qual dizemos nunca abrir mão. Pois então!!

Passe livre para grandes expectativas

Saimos do facebook

Tente contar nos dedos o número 21. Os 20 dedos dos seres humanos não são sequer suficientes para chegar a esse total. Vinte e um anos é mais que a maioridade penal. É tempo suficiente – em tempos de adolescência precoce – para a gestação de duas gerações de brasileiros, considerando as meninas que, aos 12, estão tendo seus primeiros filhos. Vinte e um anos é o hiato que separa a semana passada do ano em que se deflagrou no país aquilo que se chamou de movimento Fora-Collor, um dos últimos momentos nos quais a população, por um estrito interesse civil, tomou as ruas das principais cidades brasileiras.

É muito provável que boa parte dos adolescentes que foram às ruas na última semana em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e cerca de outras quinze cidades, tendo como principal bordão o aumento das tarifas do transporte coletivo, sequer tenham nascido antes de 1992, quando os adolescentes de então pintaram o rosto de verde-amarelo e ganharam as avenidas pedindo o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. Não é de se imaginar, portanto, que se trata de pessoas que tenham aprendido a lição dos mais velhos, assim como aqueles por certo não aprenderam com os manifestantes do movimento Diretas-Já, que ocorrera dez anos antes, em 1983, no que seria, para os manifestantes de agora, algo tão remoto quanto a Revolta da Chibata ou o golpe militar de 1964, assim como o respectivo movimento estudantil dos anos de chumbo.

Mesmo que se pretendesse, seria bastante difícil encontrar na história recente do Brasil respaldo para mobilizações populares como as que ocorreram na última semana. Por vinte e um anos, parece que o Brasil experimentou e se deliciou com a pax economica, sob a alternância dos governos de PSDB e PT. Não por acaso, as grandes reuniões populares no período se deram única e exclusivamente nos grandes comícios, principalmente aqueles liderados pelo então candidato Luis Inácio Lula da Silva. Catalisando a expectativa por um governo identificado com os movimentos sociais populares, parecia que pouco mais havia a se desejar socialmente. Bastava que o candidato da proposta “alternativa” chegasse legítima e democraticamente ao poder e então a população poderia desfrutar tranquilamente da nação e fruir de seus direitos, sem qualquer necessidade de protesto. O tom parece fabular, mas os fatos são tão reais que renderam ao candidato, antes o intragável “sapo barbudo”, a própria reeleição e, mais tarde, a eleição de seu sucessor, no caso a Presidente Dilma Rousseff.

A identificação com a qual os protestos da última semana guardam com os movimentos políticos tradicionais, portanto, são bastante tênues. Basta ver que os protestos não incorporam demandas históricas dos movimentos sociais populares, como a reforma agrária, para citar apenas um dos mais relevantes, ou reivindicações semelhantes na América do Sul, como no Chile, onde os estudantes pedem por educação pública de qualidade. Além disso, não se encontram nos protestos, por exemplo, bandeiras do Movimento Sem Terra, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ou de centrais sindicais. As de partidos políticos são bem poucas, à exceção do PSOL e do PSTU que, como se sabe, fazem oposição ao governo federal e à grande maioria dos governos regionais e locais. Talvez não haja mesmo nenhum tipo de reconhecimento por parte destes movimentos tradicionais com o movimento atual e, muito provavelmente, tal reconhecimento sequer seja pretendido. Ao invés do rosto de lavradores ou de trabalhadores cansados, há rostos muitos jovens e, não invariavelmente, de pessoas que portam a máscara do V, personagem principal do filme V – de Vingança e símbolo do grupo de ativismo hacker Anonymous.

Coincidentemente, na mesma semana passou pelo Brasil o sociólogo espanhol Manuel Castells, que conferenciou em São Paulo e Porto Alegre sobre o tema “Redes de indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet”, homônimo do livro que lançará em setembro no Brasil, dentro do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Em Porto Alegre, Castells falou sobre os pontos em comum entre os movimentos que ganharam corpo a partir do uso massivo da comunicação horizontal das redes sociais e da importância das imagens – principalmente as de repressão aos protestos – como elemento de motivação e indignação civil. Segundo ele, “as imagens indignantes divulgadas pela internet foram as detonadoras de todos esses movimentos”. Em relação à violência, Castells foi categórico ao afirmar que o uso de violência nos protestos acaba por selar seu próprio fim, nem tanto por legitimar o uso de maior repressão mas, principalmente, por abolir a autorreflexão, que considera o espírito renovador dos movimentos.

Uma das tantas imagens que circularam nas redes sociais no fim de semana mostrando um jovem carregando um cartaz onde se pode ler a frase “Saímos do Facebook” é possivelmente uma das mais emblemáticas dos eventos. Até mais do que as imagens que registraram a violência da policia militar paulista contra jornalistas, a fotografia diz muito a respeito do sentimento da novíssima geração de manifestantes. Trata-se de uma geração sobretaxada de adjetivos pouco elogiosos. São os “alienados da internet”, os “indignados de sofá” que, seguindo o exemplo de jovens que, como eles, tomaram as ruas em diversos lugares do mundo por outras razões que não o custo da passagem de ônibus, saíram pelo menos de casa, que ao Facebook provavelmente continuam conectados nos seus smartphones. Mas a imagem indubitavelmente responde a uma provocação patente, ou talvez até mais que isso, a um tipo peculiar de menosprezo que os mais velhos costumam ter para com os adolescentes. Talvez se trate de amargura pura e simples, o fato é que o comportamento impõe um distanciamento destes em relação aos mais jovens, como se lhes fosse repetida a mimetizada frase “não me representa”. De fato, seus representantes estão mesmo em outro lugar, ocupando não as ruas, mas os cargos políticos, escolhidos através dos tradicionais esquemas representativos que os manifestantes de agora parecem menosprezar.

Turbulenta pela própria natureza, a adolescência é tanto o quadro da desproteção do indivíduo diante do mundo quanto a imagem de sua afirmação. Se os adolescentes estão massivamente na internet e redes sociais, pode-se ver agora que se trata mais do que avatares, que têm também um corpo físico. O processo de sua individuação social leva-os da anomia à identidade, assim como à responsabilização civil e penal. O fato de muitos estarem ali mascarados revela o quanto se encontram “anonimizados”, e sua existência real situada em um limiar ainda mais sutil que o de um perfil no Facebook ou no Twitter, sem que alguém os esteja representando ou conferindo-lhes um discurso. O movimento civil é um pequeno passo além dos limites da casa paterna, mas é um passo sem volta. Mais do que um protesto específico pela redução do valor das passagens, como bem mostra o vídeo “20 centavos“, trata-se de um saldo negativo de expectativas sociais acumuladas que nem o “milagre econômico” da era Lula, significado pela ideologia e pela expansão do consumismo, conseguiu conter e que regurgitou por conta própria, evidenciando uma insatisfação social amortecida.

No momento, a sociedade observa as manifestações ainda atônita com a energia agregada nos sucessivos protestos. Como num tipo de espasmo, muitos ainda se encontram no processo de absorver o impacto dessa possibilidade há pouco sequer imaginada, a de que pessoas aparentemente desconectadas umas das outras poderiam unir-se na velocidade de um clique em torno de um sentimento de indignação. Se há pretensões revolucionárias no processo de pensamento subjacente aos movimentos ou se será encontrado algum eco em outros setores insatisfeitos, isso é algo que ainda não se pode saber. Se as formas tradicionais de representação política perderam completamente o sentido no espaço de uma semana e passou-se a viver a realidade de um movimento autoexplicativo, horizontal e planificado então talvez seja oportuno lembrar aos novéis manifestantes que a história dos movimentos populares no Brasil tem bem mais de uma semana de vida e que os demais atores políticos esperam logo poder conhecer suas propostas (em Porto Alegre, Castells comentou que, em Nova York, o Occupy chegou a sistematizar mais de 300 propostas) e contar com sua solidariedade (que o digam os sem-terra, os professores, os desalojados da Copa, os indígenas, etc.). A não ser que se trate de um movimento autolimitado, muitas pessoas já esperam pela sequência dos fatos e que seus resultados finais possam ser mais reais que um ou dois memes. Se as perspectivas de participação popular para os protestos são excelentes e parecem a cada dia pipocar por novas cidades, as expectativas sociais não poderiam ser menores.

O freak show deve continuar?

Poucas evidências podem se equiparar às causas do riso para demonstrar quem somos realmente, na ausência de outros discursos mais poderosos. Não fosse a habilidade que temos de nos desvencilhar de evidências comprometedoras, talvez nos preocupássemos um pouco mais em entender melhor e quem sabe até mesmo corrigir o próprio comportamento, mas isso não interessa à lógica de manada que parece reger a sociedade contemporânea. Fosse diferente, não seria possível a sobrevivência do freak show no gênero comédia, vide o trailer de “O Mato sem Cachorro“, ainda em pós-produção.

Mas, afinal, o que temos mesmo a ver com isso? Aparentemente nada, até já falamos sobre isso no parágrafo acima. Nosso grande compromisso parece ter curtíssimo alcance, como chegar ao fim do dia tendo sobrevivido e garantir alguns momentos de descontração, seja em frente à TV ou outras telas, que há infinitas e das mais diversas dimensões. O que é justíssimo, diga-se de passagem. É a dose de circo devida ao dia ou noite que se atravessa em busca do “pão”. Trata-se, a bem da verdade, de um mercado vastíssimo no qual cabem desde telenovelas, jornalismo sanguinolento, propagação da fé, esportes até a assim chamada sétima arte, o cinema e seus subgêneros. Encontrar aí a presença de atores anões com o mero objetivo de fazer rir seria lamentável, se não fosse deprimente. Pois lá estão os anões – como encantados em um gênero fabular do qual parecem não conseguir escapar. E mais para lá, do outro lado da tela, os espectadores, entre atônitos e gargalhantes, como se pode ver em um recente esquete do festejado Porta dos Fundos.

A ideia é antiga, remonta às cortes europeias e à fundamental função de entreter a realeza, quase sempre imersa no tédio. Embora não se trate mais da realeza, o tédio parece ser o mesmo. Nada como o “grotesco” dos outros para nos fazer lembrar de quão somos “perfeitos”. O consumo do que julgamos ser a desgraça alheia é um fértil terreno para o cultivo do preconceito e para o distanciamento confortável. Os séculos passam e não damos amostra de evoluir, pelo menos nesse aspecto. Além do nanismo, as deficiências físicas de um modo geral parecem surtir esse mesmo efeito, muito embora desde a época do apogeu dos circos dos horrores sua presença circense – e no entretenimento de um modo geral – felizmente vem diminuindo ou sendo retratada por outro viés. O nanismo, entretanto, não tem a mesma sorte. O vínculo ao estereótipo é tremendo e mostra com alguma clareza que o desconforto diante do corpo diferente é ainda muito presente, mesmo que isso pareça ultrapassado ou indesejável para a sociedade da era pós-democrática. Afinal, parece que a noção de civilização da qual dispomos não tem muita relação com isso, mas com outros indicadores mais palpáveis, como a capacidade de consumo, qualidade da educação, etc.

Certo mesmo é que, enquanto houver atores anões dispostos a emprestar sua figura como elemento cômico, o show deve continuar. Que há pessoas que não se importam com isso e que há anões que não se preocupam com isso parece não haver dúvida. Mas há relatos diferentes também, de pessoas como Amanda Sobucki, que dão conta da insistência em ser ridicularizada e tratada publicamente como um ser bizarro, e isso cotidianamente. Interessante notar que ela aponta que o tratamento é especialmente “concedido” por pessoas jovens, adolescentes. Ao menos em tese, parece tratar-se justamente de uma parcela da população muito interessada na individualidade, em “ser como se é” e outros bordões que emocionam e parecem conduzir as ideias do público juvenil. Quando se trata dos outros, entretanto, a fórmula parece perder o efeito e o encanto. O que se revela, sob o contraste devido, é que todo o esforço em prol do respeito à diferença ou vem sendo menosprezado nos anos escolares ou outros valores culturais têm obtido maior trânsito entre crianças e adolescentes, como os oferecidos pelo mercado do entretenimento.

Tendo em vista que cada vez mais apenas os discursos diretos parecem surtir efeito – vide o sucesso de campanhas em vídeo -, talvez falte simplesmente esclarecer que não há graça alguma em rir de anões (mesmo que alguns possam querer exatamente isso e isso seja seu ganha-pão) ou de pessoas com deficiência física. Que esse tipo de é humor é um humor “fim de linha”, que não há nada mais bizarro que procurar fazer rir explorando-se as diferenças corporais, ou as diferenças de um modo geral. Sob o pretexto de que a indústria do entretenimento “oferece” aquilo que o público quer ver, invariavelmente o mercado é inocentado nesse processo, apesar de que seja evidente que é ele próprio quem oferece ao público o que quer que seja visto. O que isso diz a respeito da forma como vivemos está colado em nós, já é indisfarçável. Rir e dar crédito a valores morais não é uma fatalidade, é uma escolha. Não é uma roupa que se possa simplesmente trocar peça a peça. Que o show continue ainda vá lá, mas que ao menos perca a graça que lhe conferimos.

O fim do rap é o funk?

gluteos

Na mesma semana em que a funkeira e dançarina Valesca Popozuda chegou às manchetes dos jornais por outra razão que não seu volume glúteo, um outro fato repercutiu fartamente internet afora (ou seria adentro?) a respeito das musicalidades que vêm das periferias brasileiras. Trata-se da aparição do líder do pioneiro grupo de rap Racionais MC’s, Mano Brown, em um clipe de um gênero aparentemente divergente daquele a que estão acostumados os fãs de suas rimas. Enquanto Brown aparece sem dizer uma só palavra no funk composto pelo MC Pablo do Capão, “Tanto faz, tanto fez“, e Valesca torna-se silenciosamente tema de estudo antropológico na Universidade Federal Fluminense, o estrondo se faz, como sempre acontece quando as fronteiras do “admissível” são ultrapassadas, fidelidades corrompidas e papeis são transgredidos. A amplificação do estrondo não poderia ser maior tendo a periferia como cenário e, como som de fundo, o funk e seu batidão.

Como é sabido, no movimento histórico o rap foi quem sucedeu ao funk, e não vice-versa. Aportado no Brasil em meados da década de 80, o rap custou bastante a mixar-se aos ritmos brasileiros. Ainda hoje, a grande maioria dos grupos e cantores prefere manter a estética e motivos daqueles precursores do gênero, da vertente norte-americana. O gangsta rap foi, desde sempre, um forte veículo de denúncia social e, de longe, o modelo preferencial daqueles que se estabeleceram por aqui. Entre estes, poucos grupos, como os Racionais MC’s, incorporaram tão fortemente o modelo que teve, nos EUA, o Public Enemy como principal expositor. O registro desse momento no Brasil chama-se Sobrevivendo no Inferno, um disco que vendeu mais de um milhão de cópias sem que, à época, uma linha sequer o abordasse na mídia. Hoje, é impossível não reconhecer que se trata de um trabalho com lugar garantido na história da música brasileira. Talvez ainda mais radical, no sentido botânico da palavra, possa encontrar-se apenas o grupo Facção Central, que desde os primórdios do rap dividiu com os Racionais a preferência dos fãs do rap paulista, ou seja, do gênero por excelência.

Momento sempre marcante das apresentações do quarteto da zona sul paulista, Brown nunca furtou-se a discursar diretamente para o público, prolongando ainda mais as noites de rap em pregações prolixas e multiversas. Naquilo que a psicanalista Maria Rita Kehl definiu como a “frátria órfã“, a identificação do público com o discurso não poderia assumir, sob a mesma ótica, outra forma que a de uma relação parental. Daí a reedição da orfandade que se verifica largamente, agora, entre os fãs de rap, após a divulgação do famigerado clipe funkeiro.

Mas será que o rap nacional chegou ao fim, desta vez para valer e justamente nas mãos do gênero coirmão, e através de um de seus principais ícones?

É muito provável que não, porque muito antes da aparição de Brown no clipe e do apogeu de vendas e popularidade do funk carioca, alguns compositores extravasaram os próprios limites do gênero e ajudaram a desfazer o arco da sobrancelha da expressão taciturna e revoltada do rapper convencional. Não custa lembrar especialmente de Rappin Hood e Sabotage, cuja morte completa dez anos em 2013. Ambos flertaram com o samba e com a MPB em registros que ainda hoje fogem aos formatos standard do gênero. Mais recentemente, o rapper Criolo transfigurou a cena ganhando prêmios e flertando com muitos estilos musicais além do próprio samba, como o afro beat, o dub, o reggae e até mesmo com os calientes boleros.

Não é no campo da forma que, entretanto, a ruptura se dá, mas principalmente na discrepância que se estabelece entre um estilo musical recheado por muito discurso e a realidade como ela é. Se a estampa de Mano Brown não poderia ser mais polêmica, talvez lhe faltasse cruzar o abismo entre o “funk alienado” e o “rap engajado”, a fim de descolar-se pelo menos um pouco da imagem de herói da periferia e transparecer com suas predileções reais, doa isso a quem doer, pois até mesmo um ícone pode ter seu gosto pessoal sem precisar dar explicações a ninguém. A repercussão do caso, entretanto, parece não conduzir a essa interpretação. Para os fãs do rap engajado, Brown não poderia ter escolhido pior maneira de reaver sua simpatia pelo funk, o que é interpretado inclusive como “alta traição”. A dor, pelo que se vê, vem da percepção de que não foi o mercado ou a mídia que dobrou seus joelhos, mas a mensagem da futilidade e do machismo, ao qual aderiu por vontade própria, imagina-se que por poder suportar as críticas que nos últimos dias o miraram em cheio. Pelo jeito, para os fãs de rap não se trata de tanto faz, tanto fez…

Sensação semelhante deve ter percorrido o corpo da estudante Mariana Gomes, que precisou encarar a cara feia de muita gente e críticas enfezadas ao seu projeto de pesquisa, intitulado “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: identidade, feminismo e indústria cultural” (pdf). No caso dela, só mesmo o preconceito pode explicar a dificuldade em aceitar-se como objeto de investigação um fenômeno de massas como a representação de gênero, mesmo que através da expressividade das conhecidas mulheres-fruta e congêneres. Ou outro tipo de purismo sem razão de ser, haja vista que o funk e a cultura periférica já se encontram presentes na antropologia recente desde pelo menos a década de 90, tendo como marcos principais os trabalhos de Spensy Pimentel e Hermano Vianna. É duro crer que, em pleno 2013, fazer ciência sobre a Atlântida perdida possa ser menos perigoso e mais recomendável que adentrar um pouco mais na geografia urbana das cidades brasileiras e seu ethos. Viva-se com isso.

Talvez aqueles que desprezem o rap como forma musical não saibam, mas há purismo no rap também, e muito, como em qualquer outro estilo musical. Acontece que o rap, pelo menos o feito em terras brasileiras, é um tipo de expressão que extrapola um pouco o limite da criação musical, funcionando como um tipo de identidade coletiva extravasada e perfilada ideologicamente, no qual há valores importantes que são compartilhados pelos fãs. Tocar nesses valores, portanto, é algo que só pode ser entendido como uma espécie de profanação, principalmente porque boa parte do seu discurso denuncia não só a violência dos centros urbanos, mas os valores subjacentes a ela, como o consumismo e o machismo, por exemplo. A leitura do funk, por outro lado, é antagônica a do rap. Ela substitui valores morais por coisas e bens materiais e vale-se da ostentação econômica como forma de afirmação de identidades pessoais, em plena oposição à pregação da humildade e da “conduta”, constantes no rap.

Uma análise mais economicista diria que o rap é consequência de uma geração sem grandes perspectivas, marcada pelo marasmo econômico que dominou os anos oitenta enquanto que o funk diria mais respeito a uma trilha sonora de uma nova geração crescida sob a influência da expansão do consumo na era pós plano-real. O que de pior pode acontecer ao rap brasileiro não é uma crise de criatividade, é seu discurso tornar-se desnecessário e ser substituído por coisa nenhuma, ou pouco mais que isso. Há mais ou menos dez anos os Racionais MC’s anunciam o lançamento de um novo CD, enquanto seus integrantes dedicam-se individualmente a outros projetos. Nesse meio tempo, muita coisa surgiu e desapareceu no rap e no funk, assim como na cena musical em geral. É desse caldo de cultura que surgiram coisas complexas como as letras soletradas, por exemplo, por uma Valesca Popozuda. O espantoso mesmo é verificar que há gente que, diante disso, ainda acha que não vale à pena estudar os significados que há numa coisa dessas e em suas implicações humanas e culturais. É de considerar a hipótese de que os assuntos brasileiros despertem pouco interesse diante das emergências de Atlântida ou outros lugares e épocas, sempre mais sedutoras que as tramas e contratempos que se dão nesta terrae brasilis.

Entre os muros, na escola

Crianças esculpidas no muro pulam o próprio muro

Antes de qualquer outra coisa o título acima não está errado. Não irei falar aqui (atrasadamente) do premiado filme francês “Entre os muros da escola”, mas de uma situação muito real acontecida recentemente aqui mesmo no Brasil, na cidade de Belo Horizonte, revelada numa reportagem do Jornal da Record, disponível neste link: http://noticias.r7.com/videos/direcao-de-escola-em-bh-quer-separar-com-muro-alunos-com-deficiencia-de-outros-estudantes/idmedia/51313f686b710e72f1d31c5f.html

Trata-se de uma iniciativa dos “gestores” da escola em erguer um muro dividindo seu pátio interno para separar alunos com deficiência dos demais. Através das declarações das autoridades competentes pode-se saber que a escola, que no passado havia sido exclusivamente destinada às pessoas com deficiência, enfrenta alguns problemas de convivência. O muro, no caso, foi a solução encontrada para resolver o impasse.

Murar os pátios escolares e os espaços públicos não é exatamente uma novidade mundo afora, muito menos aqui. Sob o pretexto de conter pessoas supostamente incontroláveis ou apenas como edificação de um critério distintivo explícito entre pessoas, muros – queira-se ou não – são símbolos inequívocos do apartheid. Tampouco trata-se de uma novidade para as pessoas com deficiência, afinal por anos elas estiveram encerradas em pátios especiais e instituições filantrópicas. O espanto consiste em verificar-se que, em pleno séc. XXI, ainda se busque esse tipo de solução para a convivência entre os seres humanos, ainda mais em se tratando de crianças.

Muito provavelmente o gênio que bolou a ideia deve pensar consigo mesmo: como não pensei nisso antes? Diante de um problema, o melhor a fazer é liquidar com ele. Não parece verdade o fato de não se perceber um problema significar que ele não exista? Pois é, parece mentira que alguém ainda pense assim, mas não é.

Mas o que mais incomoda na situação é o fato de que a medida, adotada sob as tendas do “gerenciamento” e da “administração escolar”, seja debitada exatamente na conta de uma implausível preocupação com as pessoas com deficiência. É “para o bem” dessas pessoas, dirão outras, de cenho franzido. É claro que uma medida dessas foi gestada sem consulta alguma à comunidade escolar ou mesmo às leis vigentes sobre educação no país. Caso contrário isso não teria sido levado adiante, não é possível.

O fato é escandoloso sob muitos outros aspectos, mas nada que se compare à humilhação que se quer perpetrar sobre as pessoas com deficiência e sua famílias, como aponta uma das mães da entrevista. E, além disso, há tanta coisa para ser construída nas escolas do Brasil inteiro que não sejam muros.. Para que, afinal, gastar tempo, recursos públicos e energia com isso?

Amour até o fim

Amour

Vencedor da Palma de Ouro de 2012 e indicado ao Oscar 2013 de melhor filme e melhor filme estrangeiro, Amour (Amor no Brasil) é um filme alucinante, tal como é por vezes a realidade. Amour dispensa maquiagem, música incidental e qualquer efeito decorativo para abordar um tema duro como a velhice. Indispensáveis ali só mesmo as atuações de seus protagonistas, Georges e Anne, interpretados por Jean-Louis Trintignat (Um Homem, Uma Mulher) e Emmanuelle Riva (Hiroshima Mon Amour). Amour concorre ainda ao Oscar de melhor diretor, melhor atriz e melhor roteiro original.

O filme, que já foi taxado de amargo e excessivamente duro, não faz concessões à trama proposta. Resiste ao choro fácil porque seus personagens não o permitem, nem por um segundo. Não são velhos acuados que permitiriam a violência, a piedade ou a omissão. Não resta dúvida que um filme como Amour não foi feito para o choro convulsivo. É mesmo um filme duro porque a velhice é uma realidade dura e atinente a um mundo obcecado por produtividade e jovialidade, para o qual a velhice não deixa de ser um tipo de estorvo, como a lembrança indesejável do futuro que sempre espreita o tempo presente e os habitantes do interminável agora.

Trata-se de um casal que resiste de dentro da palavra que nomeia o filme, cuja cumplicidade não visa agradar ao espectador, mas cumprir a função que ela própria exerce em suas vidas, a cada momento. Seus protagonistas atravessam o filme sem perder o prumo, na paisagem de um apartamento que é ao mesmo tempo seu desterro e único lar. Georges é suave e severo ao mesmo tempo. Não se enganará com falsas esperanças e falso conforto. Suas roupas são ásperas, como sua pele. Sua doçura não exala pela voz, apenas pelos gestos. Mesmo quando viver não fizer mais sentido, não sentirá desespero. Jamais deixará que Anne sofra, custe isso o que lhe custar. Anne tem um olhar fresco e amável. Está decidida a viver sem necessidade da compaixão. Dois derrames cerebrais irão paralisá-la e comprometê-la definitivamente, até que viva sem resquício de autonomia e dependa totalmente dos cuidados de terceiros. Nem por isso perderá a doçura. Através dela, Anne dará a perceber seus sentimentos. Por causa do nome do filme, Georges os poderá interpretar.

Os outros personagens são menos importantes. Aparecem e desaparecem sem interferir no rumo dos fatos. Mesmo a filha do casal, vivida por Isabelle Huppert, não chega a compartilhar de suas dificuldades. Limita-se a ser uma espectadora do drama dos pais. O zelador do prédio tem papel mais relevante e quase aparece mais vezes no filme que ela. Mesmo quando se torna mais complicado, depois do segundo acidente vascular, Georges parece não se incomodar com isso. A essa altura da vida, há pouco tempo a perder. Além disso, ele não está disposto a negociar sua dignidade. Se cuidar da esposa foi o pouco que lhe restou, ele o fará com toda a sua energia. Georges não abrirá mão de viver essa experiência. Seus passos às vezes claudicantes são de quem sabe o que é preciso fazer, mesmo quando afrontado em sua própria casa. É o que lhe acontece ao tratar com profissionais que deveriam cuidar de Anne mas são completamente incapazes do gesto de cuidar, agindo com violência e brutalidade. Muitas vezes a velhice está ao cuidado de mãos assim.

O que vem depois do final do filme não se pode saber ou sequer imaginar. Há a morte inevitável, que vem para todos. Antes disso, não se pode adivinhar a solidão que ele enfrentará. Ele vai embora, desaparece. Não espera que o encontrem ao lado de Anne, como um cão de guarda. Georges é um homem que encontrou na interpretação de Trintignat a exatidão do gesto e a precisão do olhar. O diretor austríaco Michael Haneke (de A Fita Branca), sabidamente um diretor cruel, encontrou um ator capaz de captar o tom de quem ama sem estardalhaço, capaz de fazer o impossível. Pensando bem, olhando nos olhos de Anne, quem não o faria?

Em um ano em que já fora lançado no Brasil o franco-alemão E Se Vivêssemos Todos Juntos?, a temática do envelhecimento no cinema volta a ganhar destaque com Amour, apontando para a realidade e as necessidades de uma faixa da população que não cessa de crescer. Estimativas da ONU indicam que, até 2050, a população de pessoas com mais de sessenta anos deve triplicar no mundo inteiro. Justamente quando vem a público uma declaração como a do ministro de finanças do Japão, de que os idosos deveriam “se apressar e morrer” para desonerar as finanças públicas, o cinema parece querer dar outro recado, de que se trata de pessoas dispostas a resistir e a não abrir mão nem de sua dignidade nem de seu estar-no-mundo. Por certo o ministro e os que reclamam da dureza de Amour ainda estão bem longe de enfrentar a dureza da velhice.

Dez anos sem o Maestro do Canão

Sabotage

Há quem não goste, é um direito. E há quem não aceite por puro preconceito. Mesmo que traga no próprio nome a qualidade de literatura e que tenha produzido ao longo dos últimos vinte anos milhares de versos, o rap – ou rythm and poetry – continua esmurrando os limites da sociedade brasileira, sem entretanto obter todo o reconhecimento a que faz jus. É de pensar se isso tem mesmo alguma relevância, já que é do lado de dentro das periferias que continua percutindo sua batida e repercutindo a criação dos versejadores do rap nacional. Pois é graças ao seu próprio público e seus autores (se é que se permite usar o termo) que logo no início de 2013, mais precisamente em 24 de janeiro, não passará batida a primeira década da morte do maestro do Canão, o Sabotage, assassinado com quatro tiros nas costas, no auge de sua carreira.

Contam que Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, guardava os versos na sola do pé, como um tesouro. Dono de uma obra registrada em um disco seminal do rap nacional (Rap é compromisso), demorou para que seu talento fosse descoberto. Antes disso, Sabotage frequentou outras paradas, registrando passagem pela FEBEM e outros lugares menos recomendáveis. Suas letras falam das ruas e das quebradas, atravessando o asfalto e a geografia da cidade de São Paulo. No cinema, atuou em O Invasor, de Beto Brant e colaborou intensamente com Hector Babenco, em Carandiru. O diretor Walter Carvalho (de Raul – O Início, o Fim e o Meio) atualmente trabalha em um longa sobre sua vida. Deve ser lançado em 2013.

Mesmo passados dez anos e dado como resolvido, o assassinato de Sabotage ainda é cercado de mistério. O que ele continua a mostrar é que o crime e suas estruturas às vezes parecem se confundir às vísceras da periferia. Em tempos onde coexistem chacinas e pacificação, cabe pensar se há outro cenário possível, ou mesmo se há alguém interessado nisso. Sabotage sabia disso e nunca saiu dali, da favela do Canão, e fez da paisagem o cenário dos versos de quem vê de dentro o que muitos não gostam de ver nem de longe. Mortes mal explicadas são rotina, assim como o envolvimento com o crime, nas favelas brasileiras. O que não é rotineiro é o talento que Sabotage tinha para colocar rimas precisas dentro da dura realidade das quebradas.

Sabotage foi mais um dos que caíram para dentro. Por seu legado, o rap nacional, a poesia e a música brasileira não deveriam esquecê-lo, a não ser que ninguém se importe em riscar do mapa e da história o poder dos seus versos, ainda festejados por milhares de fãs. Há quem não veja poesia nas rimas de Sabotage e de tantos outros letristas do rap nacional, o que ainda precisaria ser melhor compreendido. Felizmente, alguns críticos e grandes autores da MPB, como Caetano Veloso e Chico Buarque (ver aqui – http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1214400-EI6596,00-Chico+B…), têm contribuído em reconhecer a inovação e a importância do rap nacional no cenário cultural brasileiro, principalmente no que se estabeleceu desde uma década antes da virada do século.

Ao lado de outros que se tornaram conhecidos de um público mais amplo e daqueles que aos poucos garimpam seu espaço, a voz de Sabotage é o eco de uma história já antiga e que criou muitas raízes. Infelizmente não se pode saber onde Sabotage teria chegado hoje, mas está claro que muitos estão onde estão apenas porque no passado artistas como ele romperam muitas barreiras da sociedade e da cultura brasileiras – não porque se tratassem de invasores, mas por terem criado um diálogo crítico capaz de ser assimilado para além do perímetro dos gêneros musicais e dos limites da geografia urbana, para a felicidade de muitos e a consternação de alguns que lamentavelmente prefeririam manter a música e a poesia brasileira livres dos versos que vêm da periferia. Não é viagem…