Pela segunda vez, com poemas para a infância, no portal Cronópios.
A reabilitação do afeto por Andrew Solomon
O que podem ter em comum pessoas surdas, anãs, pessoas com síndrome de Down, pessoas com autismo, pessoas diagnosticas com esquizofrenia, com deficiências físicas, superdotados, crianças que nasceram a partir de violência sexual, transgêneros e outras que se tornaram criminosas? Talvez muito, mas este possível elo não é necessariamente o foco do novo livro de Andrew Solomon, Longe da árvore: Pais, filhos e a busca da identidade.
Colhidos em centenas de entrevistas e pensados na perspectiva de ampla leitura e bibliografia, os relatos de Solomon têm como principal ponto de contato a qualidade da diferença. De uma diferença estabelecida primeiramente dentro de casa, na própria família, na relação entre filhos e pais, sob a sombra da “copa da árvore” (o que ele chamou de identidade vertical). Depois disso, ele vai ainda mais além ao examinar os intrincados percursos sociais que as pessoas fazem ao longo da vida, sedimentando ou às vezes arruinando suas identidades pessoais (denominada como identidade horizontal, aquela baseada na interação social).
Mas o que ele deseja com esse mosaico, afinal?
Como o próprio título do livro diz, talvez demonstrar que mesmo aqueles mais próximos a nós – nossos descendentes – podem nascer ou vir a estar distantes de nossa própria identidade, do nosso tronco parental. Lá, longe da árvore, e expostos ao mundo tal como ele é, são pessoas cuja vulnerabilidade demonstra não necessariamente um destino marcado pela infelicidade pessoal, mas certo fracasso social (e também uma possibilidade de mudança), no sentido de que são pessoas portadoras de identidades desajustadas, mesmo que em grande parte devido a razões alheias à própria vontade.
Solomon, entretanto, é otimista. Estas identidades horizontais (que bem podem ser chamadas de ortogonais), mesmo que definidoras de uma distinção à filiação idealmente desejada, aquela na qual o descendente perpetua e verticaliza as características e a história de vida dos seus progenitores, são entendidas como mera expressão da diversidade e, o amor, o único elemento de adesão possível entre as pessoas.
Que outros livros você lembra-se de ter recebido uma crítica como a feita pelo The Observer em relação ao livro? – “Fazendo uma matéria sobre o Google, descobri que uma das dez perguntas mais feitas no mecanismo de busca é ‘O que é o amor?’. No futuro, o Google fará bem se indicar o extraordinário livro de Andrew Solomon àqueles que digitarem essa recorrente questão.”
No entanto é disso mesmo que se trata. O próprio Solomon corrobora essa perspectiva ao dizer que “a predisposição para o amor dos pais prevalece na mais penosa das circunstâncias.”
Longe da árvore faz uma aposta em um futuro menos árido para pessoas com identidade horizontal, segundo os próprios termos do autor. Isso depende, entretanto, menos das próprias pessoas em anular ou mascarar suas características do que pela necessidade cada vez mais expressa de reconhecimento e aceitação.
Embora seja uma palavra de simples significado, a aceitação comporta em um gesto bastante complicado, principalmente quando relacionada a filhos que até bem pouco eram renegados ou segregados institucionalmente. Isso vale para pessoas com síndrome de Down, esquizofrênicos e com todas aquelas pessoas cujas vidas deveriam ocorrer a partir de uma dissociação social e, principalmente, afetiva. Vidas afastadas umas das outras, como um arquipélago desconectado. O livro de Andrew Solomon é também como um grande mapa sobre pessoas que, no mundo contemporâneo, passam a existir socialmente a partir do reestabelecimento das relações afetivas e do reconhecimento.
Antes de chegar à solução do amor e da aceitação, ele descortina as grandes dificuldades inerentes ao convívio humano, especialmente porque envolvendo pessoas cujas especificidades biológicas e/ou culturais destoam do que poderia ser chamado de eixo da normalidade. Frustrações, negações, rejeições e exclusões estão presentes no livro. Mas também o afeto, a aceitação, a reciprocidade e a inclusão.
Lançado ano passado nos Estados Unidos, o livro foi vencedor do National Book Critics Circle Award 2012 na categoria não ficção. No website promocional do livro e no do próprio autor, vídeos com a participação de muitas das pessoas entrevistadas para a construção do livro (sim, construção, trata-se de um livro de 1050 páginas) dão uma amostra do colossal empreendimento do escritor e jornalista que já havia trabalhado a fundo sob o tema da depressão, a qual acometeu a ele próprio, em O demônio do meio-dia, que lhe valeu o National Book Award em 2001 e em 2002 chegou a finalista do Pulitzer.
No TED, em abril deste ano, Solomon antecipara alguns elementos do novo livro e apresentou suas ideias centrais, equiparando identidades e reafirmando que a disposição em amar é universal e que as identidades com as quais trabalhou em Longe da árvore são algumas entre tantas. Ele crê que a diversidade configura uma nova maioria, a maioria das minorias. Uma imagem social bem mais ampla que a previsível no “eixo normal”. A grande aventura do livro, entretanto, é o empreendimento da desconstrução de conceitos que por muito tempo articularam a rejeição e exclusão das minorias. Convertendo em identidades conceitos como doença, condição, síndrome, defeito e outros, ele recupera a trajetória humana de indivíduos reais, identificando as diferentes expressões pelas quais os vínculos sociais se estabelecem.
Sem deixar de ser um livro jornalístico para se transformar em uma espécie de Sociologia da contemporaneidade, ele como que ultrapassa o sentido de identidade estabelecido no clássico de Erving Goffman, Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, no qual o indivíduo é sempre uma espécie de refém do social. Mesmo que não ultrapasse de todo, suas histórias de vida demonstram que já estamos ou podemos estar a caminho de um pacto social mais tolerante. Sua felicidade extrema foi ter reabilitado o sentido do amor como fundamento do humano e das relações sociais e afetivas.
Notícias botânicas sobre o #protestopoa
Nota à imprensa #2

Inconformadas com o fim dos protestos populares na capital gaúcha, querência amada, diversas árvores resolveram tomar
para si a dianteira das manifestações abandonadas pelos residentes daquela bonita localidade. Incorporando gestos tresloucados e extremados como o suicídio arbóreo e assim evitando a intervenção prévia dos técnicos ambientais do município (onde está esse pessoal afinal?) ou a decapitação programada pelos mandatários aldeães, famosos por chacinar vegetais enfileirados e impertinentes, as árvores decidiram programar uma série de incursões visando alarmar os transeuntes locais. Preocupações preocupantes de imediato são levantadas nas reuniões e amontoados de gente por aí. Publicitários e cinegrafistas comentam se, até o Natal, restará uma sequer em pé para edulcorar as tradicionais e aguardadas propagandas de supermercado. Jornalistas locais tentam averiguar nas redes sociais (vai querer que eles se misturem ao populacho?)
se há um correspondente Bloco de Lutas organizando as manifestações e tentam identificar se há algum tipo de orientação anarquista no autodeclínio das plantas. Estadistas e polícia já teriam expedido mandados de busca e apreensão na expectativa de descobrir a espécie de literatura que anda inspirando as baderneiras criaturas (sim, árvores são seres vivos) e aquela parte da demografia que preza muito exercitar as panturrilhas, mas desde que no exterior,
finalmente parece ter-se importado em saber onde é que estão as tais árvores. Vê-se que a comoção é geral. Rumores espalhados pela rádio-sabiá-da-madrugada têm informado que os vegetais planejam intensificar as manifestações com vandalismo. Estaria claro para elas que só o suicídio não tem sido o suficiente. O efeito mesmo só é notado ao cair na cabeça de alguém, pessoa física, já que com esse patrimônio público ninguém mais parece preocupado.
Espanando o pó de giz
Minha vida sempre foi cercada por professores da escola pública. Minha mãe, professora. Muitas tias professoras. Amigos e conhecidos, vários. Não sou eu mesmo professor, mas sou casado com uma. É o tipo de pessoa que é sempre boa companhia. Boas histórias para contar, muitas queixas incríveis para ouvir… Só tento assimilar ainda o tanto de trabalho que aporta em casa, às vezes em feriados e fins de semana. Com salários tão ruins, vale mesmo à pena?
Vale, é a resposta que ouço mais frequentemente. Não pelo salário, óbvio que não. Pelo reconhecimento de políticos e gestores? Nem pensar, seria esperar em vão. Mas vale porquê, então? Vale por corresponder às expectativas de crianças e adolescentes. Vale pelos alunos. Não vale pelo vale-refeição. Nem pelo vale-transporte-lotado. Aí não vale mesmo.
Colocando na balança, bem que talvez valesse buscar outra profissão. Porque ao simples exercício democrático de reclamar melhores condições de salário, os professores da escola pública têm recebido sabe-se muito bem o quê. Sim, direto nos olhos, spray de pimenta. Cassetete nas costas. Recepção estatal da tropa de choque. Descaso e violência.
Sem falar em outro tipo de violência também bastante habitual. A violência pedagógica que a tecnocracia de tanto em tanto tempo impinge aos “mestres”. Projetos complexos que, de um ano para o outro, mudam radicalmente, demonstrando a clara dissociação que há entre a realidade das salas de aula e a imaginação de quem elabora políticas educacionais. Mesmo assim, grandes parcelas de recursos destinam-se a tais projetos, mesmo que para pagar consultores que, via de regra, pensam entender melhor do riscado do que aqueles que estão ali na frente, cobertos do pó de giz.
Mas o desrespeito a que estão submetidos os professores é sem limite. São os alunos que têm a consciência precoce que a educação que recebem é desconsiderada pela sociedade e recolhem-se ao destino do subemprego e do abandono das classes. São as famílias que usam a escola como extensão de suas casas e também não depositam muita esperança no resultado do processo educacional. São as próprias comunidades que demonstram ter perdido toda a fé em que a educação possa lhes alterar o destino.
Parece desolador demais? E é mesmo, mas é claro que pode ser diferente. Sem começar pela elementar necessidade de melhor remunerar os professores, entretanto, não há projeto milagroso capaz de revolucionar a educação. Mesmo que a lei do piso vigore já há alguns anos, são muitos os estados que ainda não chegam nem ao rés do chão. É o caso do Rio Grande do Sul, estado do Ministro da Educação que assinou a lei, o atual governador Tarso Genro, do PT. E o que falar do Rio de Janeiro, estado que nem sequer oferece plano de carreira aos professores e vem protagonizando tratamento e cenas vexaminosas em relação às reivindicações e protestos da classe?
Muitas pessoas dizem que ser professor na atualidade é quase uma “profissão de fé”, e eu tendo a concordar cada vez mais com a ideia. Têm coisas que só mesmo a fé consegue explicar (e suportar). Num país que se quer orientar pelo desenvolvimento social e econômico, é incompreensível constatar que a educação não integre esse projeto de nação. Promessas de investimentos colossais, como os que deverão advir da exploração do pré-sal, continuarão a ser promessas caso os municípios, estados e governo federal continuarem protagonizado casos escandolosos de corrupção com verbas do FUNDEB, da merenda e não demonstrem evidência em sentido contrário. Diante de um cenário desses, haja fé…
Boas práticas, entretanto, são como oásis para todos que ainda a mantém consigo, a tal fé. É o caso que o PORVIR trouxe no mês passado sobre o CIEJA Campo Limpo, onde a diretora, Dona Eda, provou ser capaz de, mesmo com os alunos mais improváveis (adultos e jovens que a própria dinâmica escolar e social vem enxotando das escolas), recuperar para a própria vida e para um destino menos cruel que a marginalidade social.
É inspirado em seu exemplo e no daqueles professores que diariamente desafiam o terremoto que quase faz sucumbir a educação pública e suas possibilidades, da qual em última análise depende o futuro de nosso país, e também por respeitar o exemplo que tenho em torno de mim, que faço o registro da data. É que diante de políticos tão safados e oportunistas, só restar ter fé mesmo é nos professores. E desejar que as próximas palestras sobre “resiliência” para que os convoquem sejam finalmente ministradas por eles mesmos, habílissimos que são no assunto. E chega de espanar o pó de giz.
Quer brincar? Deficiência intelectual e a interdição precoce do brincar
Dizem que brincar é como se fosse a linguagem natural das crianças. A sua forma preferencial de interação com o mundo exterior, ainda não fixado totalmente pela razão e pelo conhecimento. Se isso é mesmo verdade, deveria ser a realidade de todas as crianças, mas muitas delas não têm esse direito ou o têm frustrado (ou mesmo interditado) muito cedo na vida.
Isso pode acontecer por muitas razões diferentes. Contra a sua própria vontade, certamente, na grande maioria das vezes. Quem tem um filho que nasceu com deficiência intelectual, como eu, conhece bem o grau de exigência que recai desde muito cedo sobre crianças assim, muitas vezes impedindo-se que elas aproveitem plenamente o ato de brincar, este que funda o surgimento do ser humano no mundo social e cria as primeiras conexões da pessoa com o mundo ao seu redor.
Ao contrário da maioria das outras crianças, sua brincadeira deverá ser sempre de um tipo proveitoso, milimetricamente planejado de modo a suprir o que aparentemente lhe falta ou está indevidamente atrasado. A preponderante noção de que se está correndo contra o relógio e que se deve aproveitar cada possibilidade de estímulo é um tipo de sequestro que muitos pais fazem tranquilamente com os próprios filhos, muitas vezes amparados e até estimulados “cientificamente”.
Creem estes pais que estão agindo pelo bem de sua prole, mas com a mesma facilidade deixam de perceber que até este “bem” (ou pelo menos seus parâmetros) pode ser apenas uma construção assimilada a partir de vários tipos de discursos, entre pedagógicos, terapêuticos e médicos. É mesmo muito difícil para pais com filhos que têm deficiência intelectual equilibrar estímulo e obrigação, diversão e intervenção. Trata-se de uma corda bamba e, como todas, implica sempre em riscos importantes.
Mesmo que muito se tenha evoluído da década de 1960 para cá, época em que a estimulação precoce teve suas bases lançadas, difunde-se cada vez mais a mentalidade “abilitista” (ableism, em inglês), que diz que a pessoa tem de equiparar-se e minimizar o máximo possível as próprias características de sua deficiência para ter uma vida social em tese mais satisfatória ou, em sua versão mais radical, para ser socialmente mais aceitável.
Por menos que pareça, é uma visão refinada que mira preferencialmente os pontos fracos do sujeito e procura consertá-los a qualquer preço. O refinamento de que falo obviamente não reside nisso, mas na forma pela qual suas ideias subjacentes se reproduzem no discurso e na prática dos profissionais que se relacionam diretamente com a pessoa, ao ponto de naturalizar-se até mesmo no cotidiano familiar. No modo de viver a vida.
Trata-se de um modo de entender a deficiência, entre outros, mas que ganha repercussão científica e se confunde a outros modelos de compreensão. Em sua perspectiva, pelo menos em relação à deficiência intelectual, a ideia básica que subjaz às práticas terapêuticas é a de estimular os saltos de desenvolvimento e antecipar capacidades, minimizando-se uma possível expressão dos déficits, além de patologizar e corrigir clinicamente comportamentos. É a intervenção precoce levada ao extremo, radicalmente. Ou então uma tentativa de correr na frente do relógio, como se isso fosse mesmo possível. Para tanto, faz-se necessário viver como um “costureiro”, com um tipo de fita métrica ao pescoço, aferindo-se cada passo da pessoa a cada instante, a despeito inclusive de sua vontade e tendo-se em mente evitar um desajuste social decorrente da deficiência.
Ao mesmo tempo que se repete exaustivamente o direito da criança em desenvolver-se em seu próprio ritmo e tempo, pais e terapeutas se apropriam cada vez mais do seu tempo biológico na tentativa de equiparação com os demais. Esse é o tipo de investimento emocional que, a priori, desfaz da própria identidade da criança e a coloca numa métrica social absolutamente sem equivalência, na qual a diversidade é apenas aparentemente festejada, mas que é permeada por valores da sociedade ordinária que preponderam, como a competição, a distinção meritocrática e até mesmo o preconceito.
Sim, o preconceito. Embora muitas vezes o termo seja tomado como um caminho de mão única, o preconceito também pode ser um tipo de estatuto social ou uma espécie de pacto. Se você se submete a ele ou mesmo se vale de seus preceitos, lutar contra ele talvez faça pouco ou nenhum sentido. Ou então talvez não se trate de uma luta, mas de um tipo de encenação. A vida social tem muito disso também, como todos já sentiram de um ou outro modo, cada um na sua própria oportunidade.
2
Num gesto de rebeldia extrema, meu filho às vezes recusa-se a brincar de jogos pedagógicos. Se por muito tempo me frustrei por perceber seu pouco interesse em associar algum tipo de conhecimento ao ato de brincar e associei isso às suas dificuldades cognitivas, lá pelas tantas compreendi o que ele queria me dizer, apesar da sua dificuldade expressiva (ele nasceu com a síndrome de Down e sua linguagem verbal ainda é bastante limitada).
Ele queria dizer não. Sim, “não”. E queria que eu entendesse isso com alguma pressa pelo óbvio estabelecido, o fato de que sou seu pai, não seu professor, que seu quarto de dormir não é uma sala de aula, que nossa casa não é uma escola, que ele não quer submeter-se a provas justamente diante de mim, ser medido e avaliado como um funcionário que almeja promoção.
Não. Ele quer sua liberdade e, ao lutar por ela, irrompe como um sujeito poderoso, aquele que interage ativamente com seu interlocutor, que diz não, expressa sua vontade e se recusa a dobrar-se às intenções alheias, mesmo que elas sejam supostamente as melhores do mundo. E elas normalmente são mesmo, tanto as minhas como as da maioria dos pais que conheço. Melhores, autênticas e ainda assim insuficientes, porque na maioria das vezes unilaterais.
Meu filho, quando faz isso, quer dizer que brincar só é mesmo uma coisa interessante, como dizia Huizinga (1) , quando interrompe o fluxo de necessidades reais e substitui a vida imediata pela liberdade plena. O pioneiro dos direitos das crianças, o polonês Janus Korczak (2) disse mais ou menos a mesma coisa, que “o jogo não é o paraíso infantil, mas o único onde nós lhe permitimos um pouco de liberdade, de iniciativa”.
Nesse afã, ele dispensa sempre todos os seus jogos pedagógicos, geringonças eletrônicas programadas para a satisfação automática e passa a brincar com suas roupas, justamente objetos que não são nem “brinquedos”. Por sua escolha, é a brincadeira que lhe interessa. E se por acaso algum adulto topa brincar segundo suas regras (que nada mais são do que um jogo de atirar e amontoar tecidos), aquele se torna claramente o momento mais feliz do seu dia. É o momento em que finalmente ele é um sujeito como outro qualquer e não alguém a ser inculcado, instruído, levado a compreender a vida e o mundo sempre através de terceiros.
Mas viver não pode ser sempre assim, é claro que não, embora seja bastante perceptível que ao longo da vida os adultos estejam compenetrados em tentar recuperar o gesto lúdico sob muitas outras formas, talvez como forma de aplacar a saudade, quem sabe?, das brincadeiras infantis.
O início da educação escolar, de certa forma, é o grande marco na vida infantil depois do nascimento. Ali, as figuras paternas e maternas são relativizadas e a cultura doméstica vai sendo suplantada pela cultura formal, pela instrução. Muitas outras coisas se ganham e se perdem na entrada da vida escolar. Na maioria das escolas, a liberdade é a primeira a perder-se. A própria orientação do sentar em classe estabelece uma ordem arbitrária. Também a explosividade natural da criança e suas tendências fantasiosas são sistematicamente anuladas e paulatinamente substituídas pela regra social. Aprender a viver socialmente tem dessas coisas também. A brincadeira finalmente vai perdendo espaço e configura-se mais tarde como um momento de alienação da vida real, no qual tudo é permitido, quase como num estado alterado de consciência. A criança finalmente sublima o brincar, torna-se uma mimese forjada dos adultos, adolesce.
A criança com deficiência intelectual, nesse processo de aquisição cultural, normalmente é duplamente exigida. Ou mais que isso, até. Ela deve responder às necessidades dos outros, e isso é comum a todas as pessoas, mas ela deve fazer isso tendo como parâmetro alguém muito diferente de si mesma. É a pessoa ideal. Aquela que não existe ou, se existe, talvez possa ser até o produto de uma invenção ou da imaginação de alguém. Via de regra, trata-se idealmente de uma pessoa minimamente ajustada socialmente, que responde também minimamente bem a testes padrões e ao convívio social. Fora desse padrão, seria uma pessoa sem lugar. É um cidadão exilado. É uma promessa não cumprida de socialização, de inclusão, porque baseada em um desejo que sequer lhe pertence, mas que é compartilhado socialmente como o único desejável no sistema social cultural ou, pior ainda, como o único tolerável.
O trajeto que uma pessoa com deficiência intelectual faz até sua inclusão ou sua exclusão não está anteposto a ninguém, mas ainda assim é algo mais ou menos previsível. São as condições econômicas da família a determinar grande parte dos fatores que influem aí. É o acesso a estímulos indispensáveis ao desenvolvimento social e cognitivo. Mas também, e penso que principalmente, uma espécie de ideologia que perpassa o seu crescimento, através de suas vivências pessoais, começando pela vida em casa, pela escola, pelos relacionamentos e assim por diante.
Mesmo que não sejamos simpáticos a ele, o abilitismo já está aí, a nossa disposição, e de várias maneiras. Seja na forma de psicofármacos que visam amortecer “sintomas” indesejáveis, seja em modelos educacionais voltados à padronização e serialização ou até mesmo na maneira pela qual os pais de crianças com deficiência intelectual são orientados a interagir com seus filhos. Recolocar a pessoa como um sujeito protagonista da própria vida, como titular de seu desejo e busca pela felicidade certamente não é algo que se possa conseguir isoladamente, mas pelo acordo social. Todavia às vezes será necessário pensar que espécie de acordo é esse a que estamos submetendo-nos e submetendo nossos filhos.
Ultrapassar o próprio reconhecimento da pessoa que está ali, sob nossa (da família, da escola, etc.) responsabilidade, não faz sentido se nossa visão de mundo estiver sedimentada em valores que recusam a sua humanidade inata. Como ao Narciso grego, a imagem de nossas idealizações deve servir prioritariamente a nós mesmos. Nossos filhos têm o direito de estar fora disso e construir sua própria vida, certamente com nosso apoio, mas igualmente certo que com o mínimo de respeito a sua liberdade e individualidade.
(1) John Huizinga. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 1980.
(2) Janus Korczak. Como amar uma criança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
Simples assim
O dia do brinquedo está aí novamente. Todos os anos ele vem. Basta estar minimante conectado ao mundo e suas mídias para perceber que ele vem chegando. Num passe de mágica, ou melhor, através de campanhas publicitárias milimetricamente pensadas, as crianças tomam conta das propagandas de TV, outdoors, internet e qualquer lugar onde se possa despertar seu desejo. Especialmente se ele apontar para a fonte de uma das palavras mais prometidas do mundo contemporâneo: o divertimento.
Trata-se de um imperativo absoluto em se tratando de crianças e uma promessa irresistível em se tratando dos adultos, afinal estes últimos parecem pessoas condicionadas a crer que é possível comprar tudo na vida, até mesmo divertimento. Na língua portuguesa, divertimento é apenas um substantivo comum, mas na mente de fabricantes de brinquedos e publicitários é um mantra rentável como poucos.
Você não está enganado, até de comida divertida você já viu anúncio. E mais de um, mais de dois, até. Na mente da indústria destinada à criança e seus marqueteiros, é mais importante que o produto traga o rótulo de “divertido” que o selo de aprovação do INMETRO. E para seus pais, mesmo que idealmente não devesse ser assim, parece que também. De certo modo, funciona como um tipo de certificado de garantia. Significa que, de posse do brinquedo, a diversão está garantida. Abstrai-se inclusive a necessidade de brincar. A posse do objeto é mais que suficiente e assim se criam legiões de adictos ao consumismo irracional, como efeito último da prática social.
Embora a ONU diga que o Dia Mundial da Criança é o dia 20 de novembro e a UNICEF afirme que o 24 de agosto é o Dia da Infância, é o 12 de outubro que se consagrou como o dia delas, o Dia das Crianças. Mas o que as crianças têm efetivamente de seu em suas pequenas vidas? A sua escola? A sua rua? A sua casa? Não, as crianças não têm nada de seu, nem suas pequenas posses, muito menos o “seu” próprio dia.
Mesmo que estejam no centro do mundo contemporâneo e de sua horda de vendedores reais e virtuais, estão ali mais no sentido dos adolescentes e adultos que virão a ser do que propriamente as pessoas que são, com suas ideias impertinentes sobre a vida e o mundo. As crianças são seres marginais sendo socializados a marretadas culturais e pedagógicas. E adocicadas pelo consumo que os próprios pais lhe oferecem e presenteiam.
Tão logo chegam à escola, quando têm uma decente para ir, sua curiosidade natural é substituída pela necessidade imperiosa da repetição e sua criatividade adestrada a aguardar a vez, uma vez que muitas vezes nem nunca virá, dependendo do modelo “pedagógico” adotado pela instituição escolar. Sem falar quando chega tarde demais, quando outros “divertimentos” já levaram sua atenção para muito longe dali.
Mas no Dia das Crianças, neste e em todos os próximos, elas poderão brincar como se fossem livres, que sua liberdade na verdade já foi subtraída e sugada justamente por aqueles que deveriam zelar por esse momento fugaz em que o ser humano consegue evadir-se naturalmente do destino social da mediocridade e da serialização. É preciso conter a rebeldia natural das crianças e sacar-lhes do calendário uma vida livre e cheia de brincadeiras e fantasia. Um dia no ano não deveria ser o suficiente?
Nesse ano, não dê presentes a seu(s) filho(s). Deixe-o(s) brincar. Simples assim.
A música que não vibra
Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.
Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”
Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociênica sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.
Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musiciais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.
No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.
Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.
De toda a maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.
Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível. O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentisas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.
Pelo que lutam as pessoas com deficiência
Hoje (21/9) é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Consultando no CEDIPOD, um dos primeiros centros de referência sobre legislação relacionada à pessoa com deficiência no Brasil, lembro que a data foi instituída por lei. Em 2005, o presidente interino José Alencar sancionou a data, através da Lei 11.133.
Segundo o CEDIPOD, “O Dia Nacional de Luta das Pessoas Deficientes foi instituído pelo movimento social em Encontro Nacional, em 1982, com todas as entidades nacionais. Foi escolhido o dia 21 de setembro pela proximidade com a primavera e o dia da árvore numa representação do nascimento de nossas reivindicações de cidadania e participação plena em igualdade de condições. Esta data é comemorada e lembrada todos os anos desde então em todos os estados; serve de momento para refletir e buscar novos caminhos em nossas lutas, e também como forma de divulgar nossas lutas por inclusão social.”
Mas por que lutam as pessoas com deficiência? Lutam as mesmas lutas? Querem as mesmas coisas? Têm os mesmos objetivos? O que têm, afinal, de comum entre si além do fato de abrigarem-se sob as mesmas leis e partilhar, às vezes, o mesmo desejo social?
A pergunta não é de simples resposta e há, sem dúvida, pessoas com deficiência e militantes com muito mais acúmulo histórico que eu para respondê-la. Mesmo assim, não consigo evitar de fazê-la, até porque é evidente que as reivindicações das pessoas com deficiência não são exatamente as mesmas, nem na data de hoje nem fora dela. Tampouco seria realista afirmar que são pessoas em franco consenso em relação a isso. Não são. Sabemos bem que mesmo entre pessoas com deficiência do mesmo tipo há diferenças importantes em relação não só as reivindicações, mas inclusive sobre as formas de lutar por elas.
Muitas vezes as pessoas com deficiência são comumente identificadas pela sociedade através do famoso símbolo da cadeira de rodas, mas será que essa mesma sociedade percebe que há um sem fim de razões para que uma pessoa use uma cadeira de rodas, isso sem falar na evidente necessidade de locomoção? A reivindicação por acessibilidade, por consistir num objeto de interesse público que demora tanto a concretizar-se, talvez seja a mais visível das reivindicações das pessoas com deficiência, mas há muitas, muitas outras. Algumas tão específicas que podem parecer até particularidades, mas não o são pela simples razão de que significam as formas concretas pelas quais o indivíduo – mais que o grupo de indivíduos – tem para se relacionar com o espaço público, o meio ambiente e as outras pessoas.
Pergunto-me ainda se todas as reivindicações têm sua razão de ser. Embora a concordância ou não com isso não elimine nenhuma das razões, é preciso ficar claro que a resposta para essa indagação é sim. Sim, absolutamente. Seria fantasioso demais imaginar que, pela instituição de uma data, as diferenças de concepção sobre as deficiências e suas reivindicações específicas seriam suprimidas. Não, definitivamente. As diferenças continuam e, ouso dizer, é preciso tirar-se partido disso para amadurecer ideias políticas, consertar pontos de vista, criar novas possibilidades, mesmo que isso não ocorra – e não irá ocorrer – sem conflitos ou através de um passe de mágica. Trata-se de um desafio permanente para toda a sociedade que se quer democrática.
Desafios, falando neles, não faltam às pessoas com deficiência. Nem no âmbito do indivíduo nem no social. Eles dizem respeito desde o acesso aos mais elementares direitos sociais (principalmente educação, saúde e trabalho), ao enfretamento dos preconceitos e à luta contra a exclusão porque, sem isso, também não há forma de criar uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Mesmo que as condições econômicas sejam determinantes para o indivíduo, as condições sociais devem ser favoráveis e, preferencialmente, para todos, cada um em sua especificidade.
Eu não estava lá em 1982, mas fico imaginando que, se a data foi criada para luta e reflexão, é interessante manter essa perspectiva reflexiva, para além dos movimentos civis e manifestações públicas. Assim, a ideia aqui é tão somente uma brevíssima e despretensiosa reflexão que considera abrigar sob um mesmo guarda-chuva a absoluta diversidade de formas de ser e estar no mundo. Isso significa a diferença que se aponta, mas também a igualdade que se deseja. Antes de qualquer reivindicação especifica, trata-se de uma data para lembrar da dignidade inerente a todas as pessoas, porque de luta sabemos que todo os dias o são…
Educação especial, uma miragem no Plano Nacional de Educação?
A semana que começa deve recolocar no cenário político, através da expectativa pela votação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado Federal do PNE (Plano Nacional de Educação), uma situação recorrente no que diz respeito ao financiamento da oferta de educação especial no Brasil. Trata-se da polêmica Meta 4, que organiza o plano sobre a distribuição de verbas do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação).
A polêmica, que envolveu entidades filantrópicas associadas ao modelo de escolarização especial e movimentos em defesa da educação inclusiva irrestrita, resume-se para este caso na disputa em torno a presença ou não da expressão “preferencialmente na rede regular de ensino”, o que garantiria – ou não – a continuidade do financiamento público da escolarização no ensino especial, contrariando orientação do direito constitucional vigente, principalmente após a adoção da CPCD (Convenção sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência) que orienta os países a adotar sistemas inclusivos em todos os níveis, com a educação especial servindo de modalidade complementar e transversal.
Mas afinal, o que significa dizer “preferencialmente”? Preferencialmente quando? Preferencialmente por quê? Talvez aí esteja o erro fundamental, a miopia verdadeira. Não se trata de simplesmente suprimir o “preferencialmente”, mas de explicar em detalhe as condições para que um aluno não possa frequentar a escola regular. O cruel de manter o “preferencialmente” assim, como um termo vago, é que a culpa, no caso, recai sempre sobre o elo fraco da corrente, ou seja, o cidadão: o aluno e sua família, e se obtêm vilões e heróis automaticamente.
O que o executivo deveria assumir, mas prefere deixar em suspenso, é que muitas vezes não tem como ofertar uma educação com dignidade. Não digo que se precise ver com os próprios olhos a situação de muitas escolas, fotografias já são suficientes. Relatos são de fazer c(h)orar. E não é porque lhe falte recursos, mas na perspectiva do pacto social vigente, ele (o governo) prefere simplesmente lavar as mãos e manter a roubalheira que se faz com os recursos públicos. Inclusive os do FUNDEB, que sabidamente são foco de intensa corrupção.
Suprimir o “preferencialmente” para agradar a quem não está na escola pública sem enfrentar o problema em si mesmo, que é a oferta de uma educação pública de qualidade para todos, não é nem miopia, é uma política minuciosamente equivocada que envolve sistemáticos desrespeitos, a começar pelo salário dos professores, passando por escolas esfrangalhadas, salas de aula lotadas, serviços especializados sobrecarregados (porque os problemas educacionais atingem a muito mais pessoas que as pessoas com deficiência), carência de equipamentos e, principalmente, o direito – este sim inalienável – dos alunos em ter na escola pública uma educação que não seja meramente aquela que nos envergonha quando a UNESCO e outros organismos multilaterais vêm olhar de perto, já que a tal “sociedade” prefere olhar bem de longe os próprios problemas, ou tratá-los como se fossem alheios.
Então eu penso que o preferencialmente deveria ser mais bem detalhado e que se o usasse simplesmente quando o Estado não tivesse nada melhor para substituir as escolas especiais e que, nesse ínterim, o Ministério Público se ocupasse em punir e exigir do executivo até que ele se mostrasse em condições de oferecer o que suas leis constitucionais ordenam, e o Judiciário prendesse os políticos e gestores comprometidos exclusivamente com sua vida eleitoral e sua corrupção ordinária, e a cadeia os mantivesse presos lá, a fim de evitar danos sociais repetitivos.
O que eu quero dizer é que há bem mais que um termo impreciso atrapalhando a inclusão de alunos com deficiência na escola regular pública. Preferencialmente, a sociedade deveria entrar em consenso sobre essas coisas mais do que por uma terminologia formal. Eu fico me perguntando é se é digno tratar dos interesses públicos tão restritamente ou se não estamos fazendo disso um tipo de miragem com a qual nos compadecemos do centro do oásis da nossa vida privada.
Já disse em outra oportunidade e volto a dizer: se enfrentar o “preferencial” no campo político é duro, talvez seja mais oportuno criar debates de outra ordem. Penso que a construção dos indicadores de qualidade previstos no item 13 da Meta (definir, no segundo ano de vigência deste PNE, indicadores de qualidade, política de avaliação e supervisão para o funcionamento de instituições públicas e privadas que prestam atendimento a alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação) já está mais do que atrasada no âmbito da sociedade civil, até para que se possam contrabalançar os apelos assistenciais com dados mais concretos que a simples contabilização de matrículas.
Do ponto de vista estratégico, mesmo com o aporte legal da CPCD, o debate está sustentado pelos argumentos – e pela realidade – de sempre, onde se sabe bem como as coisas terminam, principalmente quando os atores que a decidem são preferencialmente os atores políticos, através de suas emendas à legislação e bastidores costumeiros. Se a sociedade e seus representantes se ocupassem da qualidade da educação pública e dos direitos dos outros com a mesma intensidade que defendem os próprios direitos, esse “preferencialmente” não significaria absolutamente nada. Além disso, as pessoas, que deveriam ter o direito a sempre deixar seus filhos na escola com toda a tranquilidade do mundo, também não precisariam se preocupar com isso. Nada mais justo, nada mais complicado que isso…
Confissões manifestantes
Sempre estive curioso pelo oculto. O oculto do próprio real, cumpre dizer, não o oculto do ocultismo. Não que eu menospreze o que não é sabido nem nominado, mas tenho dificuldade patente em apreender a linguagem das brujas (que las hay hay?). O oculto que é meramente desconhecido por ignorância, tenho curiosidade por ele. Fico aflito só em imaginar que a gravidade ou a relatividade existam independentemente da compreensão que temos dela. Assim como a economia monetária, a política internacional e muitas correntes filosóficas que ignoro por completo e, ainda assim, estão determinando minha vida. Nossas vidas.
Recentemente nada tem me intrigado mais que saber para onde foi o imenso sentimento de indignação que percorreu o país de norte a sul há cerca de dois meses. Acabou? Foi para casa? Para o shopping? Tomou Rivotril? Voltou a dormir? Ou, pior dos piores, não era nada disso, teria sido apenas um mal entendido? Uma invasão de um sentimento absolutamente virtual no real? Uma mera confusão provocada pelo choque de memes da internet, palavras de ordem aleatórias e uma dose de insatisfação popular?
Há poucos dias atrás consegui uma pista interessantíssima por onde começar a pensar no assunto. Um amigo, adesista de última hora aos protestos, me revelou o que segue. Seu depoimento é banal e ao mesmo tempo fundamental, mais ou menos na mesma medida.
Ele me diz que nunca na vida protestou por coisa nenhuma. De origem humilde, esforçou-se bastante para chegar a universidade e formar-se. Mas conseguiu. Durante praticamente toda a vida valeu-se do transporte coletivo, nunca teve facilidades, mesmo quando a família precisou morar em uma área conflagrada da cidade. Escapou de “algumas” e hoje vive com a mãe, a mulher e o filho em um bairro mais tranquilo. Trabalha, paga seus impostos, tem o nome limpo no SERASA e joga um futebol no fim de semana, com os colegas de trabalho. Ele se diz bem feliz da sua vida, o que o faz, sobretudo, um amigo agradável.
Quando os protestos começaram, aqui em Porto Alegre, não pensou em aderir, não sentia que tivesse um porquê para ir às ruas, uma necessidade expressa. Nunca tinha visto aquilo na vida, porque cresceu no hiato entre a redemocratização e a era Lula, mas vendo que entre as pessoas cada vez mais havia pessoas como ele próprio, resolveu ir à rua também. Por um desejo de identificação, apenas. Não levava cartaz nenhum nas mãos, apenas os olhos abertos e a voz para o coro daqueles que cantavam e gritavam por melhores condições de vida. Havia coisas que os outros gritavam que ele não gritou e pulinhos que os outros deram que ele não pulou. Estava ali a sério e pela vontade de sentir-se participante de alguma coisa. Não depredou coisa nenhuma e acompanhou as marchas inclusive nos dias mais frios do inverno. Mesmo assim conheceu a ardência do gás lacrimogêneo e correu da polícia, que bobo ele não é nem nunca foi.
Tudo normal até aí, mas ele relata também que, pensando com um pouco de distanciamento, não se sentia lá muito à vontade nos protestos. Disse que não sabia se podia confiar em quem estava ao seu lado ou não, ali não eram todos iguais, nem bandeira de partido havia, fora os sujeitos com aquela máscara sorridente e ameaçadora. Ônus da vida na metrópole, o anonimato e a desconfiança mútua estão inscritos como se no DNA de seus habitantes. Ainda mais em aglomerações. Também ele disse que não se sentia digno o suficiente para reclamar da vida, porque nunca na vida o tinha feito. Se a vida é de viver, o que ele fazia era vivê-la. Com seus prazeres e dissabores. Tudo muito claro e certo.
O que me espanta no seu depoimento é que ele revela o que deveria ser óbvio, mas não o é, que é o simples fato de que as pessoas não se sentem à vontade em um protesto. Claro, isso se você não está na vanguarda, com muita vontade de queimar um contêiner de lixo ou bater de frente com a policia militar, mas simplesmente acompanhando as pessoas. Ele diz que sentia um dever cívico de estar ali, porque não gosta do esquema político, nem dos partidos e nem das pessoas que fazem a política, mas que era um dever que, se pudesse, abriria mão. Na sua concepção de democracia, protestar é um gesto excepcional. O natural é levar a vida, com seus cotidianamentes.
À vontade mesmo ele diz que estaria no shopping, fazendo compras, no estádio torcendo pelo seu time, na sala de casa assistindo TV com a família ou navegando no aquário das redes sociais. À vontade ele diz que está quando vai ao supermercado e não falta dinheiro para pagar as compras. Quando deixa os filhos na escola e eles ficam ao encargo de professores interessados em sua educação. Quando precisa de médicos e basta pegar o telefone e marcar uma consulta. Porque isso foi tornando-se cada vez mais improvável de obter assim, com essa tranquilidade, ele pensou que era hora de unir-se ao coro dos descontentes, mesmo que mais tarde eles fossem resumidos socialmente em minorias absolutas, como os Anonymous ou os Black Blocs. Não ele. Ele era a maioria, mas agora ele sumiu também. E junto a sua indignação anterior, agora também acompanhado por certa decepção. A decepção do dissenso. A decepção do “não sei se vale a pena fazer alguma coisa”.
O que ele queria é o que o transporte público fosse outro, a educação e a saúde também. Essas coisas que se chamam direitos sociais. E que os serviços pelos quais ele paga também fossem outros. Nada disso, ele não havia saído a rua para depor os governantes, mas para reclamar que eles governassem. Para que as coisas funcionassem do mesmo modo que sua vida funcionava, com hora marcada, tributo pago, dever cumprido.
Mas será que, por não aparecer às claras, a insatisfação deixa simplesmente de existir? Onde a guardamos, quando a ocultamos e depositamos (uns mais, outros menos) alguma fé nas jogadas políticas que visam amortecer o sentimento público de revolta e a impaciência civil?
A impressão que fica é a de que, enquanto não pagarmos para nos revoltarmos, deve-se tolerar tudo, como se há tolerado através dos tempos. Seria o caso, talvez, de estabelecer o ticket-protesto, porque parece que há um convencimento de que a única lógica da qual se pode integrar socialmente nestes tempos é a lógica do consumidor. É pagar ou não ter.
Porque tenho filhos pequenos, me vi compelido lá pelas tantas a conhecer um pouco sobre desenvolvimento infantil. O psicólogo suíço Jean Piaget foi o autor que pensou a teoria da permanência do objeto, pela qual se explica um marco específico de desenvolvimento no qual a criança é capaz de entrever a presença de um objeto mesmo ele estando oculto. É a famosa brincadeira do “achou”, que tantas gargalhadas rendem aos infantes e seus pais. Pois bem, não sei se as outras pessoas sentem-se assim também, mas eu mantenho (talvez de forma infantil) a expectativa de que a população saia do encobrimento e volte a manifestar-se, nem que seja por abstrações incondenáveis, como “dignidade”, “direitos”, etc.
Talvez ainda mais certo fosse subir alguns degraus da escala do desenvolvimento e apelar logo para o poder dos verdadeiros ocultistas, videntes, cartomantes, etc. Já que grande parte dos cientistas e analistas falhou em prever os fatos do “inverno brasileiro” e superstimou seus efeitos, a chance de entender onde nós guardamos o pinguinho de civilidade demonstrado dias atrás voltou a estar lá fora, no oculto, já que nossa “revolta interior” parece aquietar-se facilmente com doses regulares de sossego e consumo. O resultado dessa pasmaceira é conhecido, é a manutenção da insatisfação geral em oculto. É receber em conta-gotas o que deveria ser água corrente. E se isso era para ser apenas uma brincadeira de crianças, sinto muito, então já perdeu a graça. Melhor deixar o véu cair e ver cara a cara quem é quem.








