Como você vai viver sem ser um exemplo de vida?

A capa do superman pendurada num cabide.

Inclusive

A pessoa com deficiência que não se supera é um…

Um fiasco? Um fracasso? Um traste inútil? Um loser, no melhor sentido made in USA do termo? Mas por que não seria apenas um ser humano como outro qualquer, enquadrado pelas situações normais da vida, lutando sem ter de ganhar, mas apenas por ter de lutar?

Perguntas respondendo perguntas são, para mim, um hábito difícil de superar, então tento tirar alguma vantagem disso, nem que seja para não me dar por satisfeito com respostas prontas ou fáceis, mesmo que isso não me traga nenhum benefício, pelo contrário, me deixe num estado de dúvida permanente. As do parágrafo acima nasceram em minha mente após a ampla difusão, na mídia nacional, da notícia de um jovem que nasceu com a síndrome de Down e comemorava sua aprovação no vestibular de uma universidade pública federal, no estado de Goiás.

Deveria ficar feliz, esfuziante, pelo feito do rapaz. Afinal, diante de tanto descrédito quanto às pessoas com deficiência intelectual e de tantas pedras e outras coisas no caminho, trata-se inegavelmente de um verdadeiro herói. Ou não? Será? E se seu feito for apenas decorrência de uma sequência de situações favoráveis, no que diz respeito às oportunidades, sejam elas de ordem particular, divinas ou socioculturais? Em que medida sua família tem parte em seu sucesso? Seus professores, sua comunidade escolar? Registre-se que, mesmo com todos esses questionamentos, estou muito feliz por ele, por sua família, seus professores, comunidade, etc. Ficarmos felizes importa muito, mas a vida também tem suas infelicidades. É preciso olhar para elas também, até para não confundirmos a felicidade autêntica com a bobeira pura e simples.

A situação do exemplo acima não é emblemática nem única. A todo o momento lê-se, até nos mais sérios meios ditos “inclusivos”, aqueles que lutam ferrenhamente contra estereótipos, preconceitos e todo o eixo do mal, uma manchete dando conta da tal superação. Palavra que traz o heroísmo dentro de si e que transformou-se, nos últimos tempos, num tipo de obrigatoriedade, caso você seja uma pessoa com deficiência e não queira sentir-se um derrotado em vida.

Você que é cadeirante e ainda não fez rapel ou surf, saiba que seu potencial de felicidade está seriamente ameaçado. Você que tem síndrome de Down e não está dando shows, seja nos palcos da vida, nas noites de autógrafos ou nos vestibulares, você precisa fazer algo. Você precisa imediatamente de aulas expressas de alguma coisa, nem que seja pela madrugada, até você ter direito de ser alguém por si próprio, sem andar pendurado em ninguém. Você que é cego ou surdo, dê logo um jeito de sobressair-se em algo, a despeito de sua deficiência. Ai de você, pessoa com deficiência, que pretenda ser apenas um cidadão comum. Como você vai conseguir viver sem ser um exemplo de vida?

Você, leitor, que chegou até esse ponto, deve estar pensando que eu estou super-preocupado com essas coisas. Não, não, não estou. Verdade verdadeira que não. Não acho que nenhum de vocês, meus amigos com deficiência, necessitem mesmo desse super-espanto que as trilhas da superação oferecem àqueles que topam percorrê-las. Nem de super-pena, tampouco. Nem de nada que seja super. Não desejo que vocês abarrotem-se de júbilo pelo fracasso da sociedade em reconhecê-los humanos como são, despejando uma carga de compensação que muitas vezes sequer vocês pretendem ou desejam. Isso é uma super falta de respeito que vocês não deveriam aceitar a menos que… Bem, a menos que não se importem de secularizar essa condição que na verdade não deveria chamar-se de “super”, mas de “sub”, por duro que seja pensar nesses termos.

Então quer dizer que estou dizendo que um cadeirante não deve fazer rapel, uma pessoa com síndrome de Down não esforçar-se nos estudos e assim por diante? Claro que não! Deve fazer se desejar, mas não para satisfazer a ninguém. Não para atestar que precisa ser menos deficiente para ser mais humano, ou palatavelmente humano. A ideia de estar submetido a esses valores é uma armadilha atroz para quem busca uma sociedade verdadeiramente inclusiva. É um jogo de espelhos que se sustenta socialmente na necessidade de negar o reconhecimento legítimo à diferença, com todos os entraves que isso possa trazer ao mundo e suas estruturas oxidadas. Aderindo a esse modelo de pensamento, o que se obtém é a chancela de que a exclusão se resolve a sós, com dinheiro e “superação” a não poder mais. Pode começar a esfalfar-se. Só depende de você, como dizia a propaganda de cigarros.

Já há muito tempo as pessoas com deficiência vem lutando por inclusão e dignidade, o que é justíssimo e absolutamente necessário. É chegado o momento, talvez, de lutar também por liberdade. De liberdade, entre outras coisas, certamente. Mas todas as outras coisas sem liberdade são sub-coisas, não se pode perder isso de mente. Da liberdade semântica, inclusive. A vida não é carnaval, deixemos a fantasia de super-herói guardada para os dias de folia.

Fórum Social Temático 2012 – do centro à periferia

O Fórum Social Mundial continua caótico. Nesse aspecto, em tudo semelhante ao mundo que pretende substituir. Talvez também semelhante ao outro mundo possível que propugna – ideia que ajudou a inaugurar desde a virada do milênio aqui mesmo, em Porto Alegre, em 2001. Mas isso não se pode saber, o mundo continua sua marcha e o fórum, neste ano rebatizado por Fórum Social Temático, também.

É um caos de muitos idiomas, sotaques e vontades. A extensa programação é como um jogo de espelhos. Depois de 10 anos, ainda é tarefa complicada encontrar o prédio ou a sala certa para as atividades programadas, quando não são canceladas sem prévio aviso. Não que isso não traga surpresas interessantes, como debates inusitados nos quais personagens remotos ladeiam-se até mesmo com os próprios idealizadores do fórum, pessoas com extensa vida política que, por vezes, são tomadas como se o próprio fórum fosse. Ambos estão ali para ouvir e se fazer ouvir e isso também vêm mantendo-se desde 2001, assegurando um tipo de fôlego do qual o Fórum é de certo modo dependente, ainda que grande parte das atividades tenha cunho declarativo ou expositivo.

A despeito dos múltiplos debates periféricos que há, a ideia do fórum assenta-se em um centro. Os cartazes e panfletos espalhados por Porto Alegre são afirmativos. Eles reforçam uma ideia principal: “sair do capitalismo”. Que o capitalismo não é um lugar, como uma sala ou um território, não há quem questione e boa parte dos participantes do Fórum não pensa nessa ideia de forma tão simplista como se pode querer fazer crer mesmo que, para bilhões de pessoas no mundo inteiro, concretizar essa ideia pudesse ser absolutamente desejável, porque são claramente desfavorecidas do ponto de vista da dignidade humana, sem que seja necessário adentrar muito no terreno dos percentuais oferecidos nos relatórios da ONU e suas agências.

Mas a imagem de “utópicos”, “pós-alguma-coisa” é insistentemente colada aos participantes do Fórum. A sedimentação dessa pecha se dá principalmente via imprensa, mas de uma forma que restem mudos as milhares de iniciativas que sustentam o próprio movimento e seus protagonistas. O foco é seu tema central – paradoxal que ele é – ilustrado com imagens de manifestações ao ar livre protagonizadas em sua maioria por estudantes. Apesar disso, um fantasma ronda a cobertura de mídia e as análises sempre tão taxativas acerca do Fórum Social Mundial. Trata-se da crise econômica mundial, tantas vezes denunciada nestes últimos 10 anos sob as tendas do Fórum e agora mais que evidente, como se sabe bem.

Nestes dias (o Fórum aconteceu entre os dias 24 e 29 de janeiro), não se encontra vestígio de um cinismo até cabível, como um que reproduzisse aquelas placas em jogo de futebol “eu já sabia”. Ninguém está ali comemorando a situação do povo grego ou o colapso financeiro das bolsas de valores europeias ou norte-americanas. Insiste-se em afirmar que um novo mundo possível continua necessário e já que os próprios organismos internacionais fraquejam em demonstrar os indicadores resultantes (assim como aventar culpados) da crise global, o que cala nas bocas é mais o desafio de superar a fácil constatação da crise que propriamente a dificuldade em engendrar uma nova aventura social capaz de competir política e socialmente com o modelo predominante.

Ao contrário das edições anteriores, neste ano o fórum é chamado “Fórum Social Temático” e seu foco são justamente a crise capitalista e as justiças social e ambiental. Na periferia do Fórum, e um pouco distanciado do tema central, centenas de atividades têm outro enfoque. São oficinas, palestras e debates com assuntos fora de escala e até mesmo desse eixo, abordando realidades específicas e projetos muitas vezes autônomos, de interesse restrito. Inclusive os assuntos relacionados à educação tem um fórum próprio, o chamado Fórum Mundial de Educação. Nestes espaços, a crise econômica é apenas cenário, os debates cercam e buscam outros limites. Mas, de fato, é nesses espaços onde se pode encontrar as melhores respostas formuladas nos grandes debates altermundistas, onde brilham as grandes estrelas do evento e pisca o maior número de flashes.

No dia 26, foi a vez da presidenta Dilma Rousseff, ladeada pelo governador do RS, Tarso Genro, afirmar, contra a expectativa geral, que a Conferência Rio+20 será um momento de “renovação de ideias”. Ao contrário da presidente, mesmo os principais ideólogos do fórum, assim como a maior parte das entidades ambientalistas presentes, tem uma visão pessimista da conferência. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, figura presente no fórum desde a primeira edição, em 2001, assegura que a pedra de toque da conferência, a assim chamada “economia verde”, não é mais do que uma nova “afirmação do capitalismo”. Assim como ele, organizações ambientalistas são pessimistas com a conferência, articulam no fórum a Cúpula dos Povos (http://cupuladospovos.org.br/) e denunciam, como o Greenpeace, que muitas organizações e movimentos estão presos às agendas de empresas poluidoras e dos governos, comprometendo a liberdade e autonomia dos debates.

Em encontro fechado com o Comitê Internacional do Fórum Social Mundial, no mesmo dia 26, declarando que “nenhum governo debaterá uma alternativa anticapitalista”, a presidenta Dilma deu a resposta governamental, e de seu partido, à própria questão que se coloca diante dos participantes do fórum: “sair do capitalismo”. Assim como parece evidente que ninguém presente em Porto Alegre espera “sair” do capitalismo como quem muda de sala, também resta evidente que o governo brasileiro e aqueles que o sustentam estão muito cientes de que o modelo presente é como um poço sem fundo, ou um beco sem saída, e temas insurgentes, que mobilizaram as pessoas durante todo o ano de 2011, como a construção de Belo Monte e aprovação do novo Código Florestal tem aí lugar garantindo, operando o governo federal a despeito do desejo dos movimentos sociais e sob o critério de forças políticas que jamais frequentaram o Fórum Social Mundial, mas que ordenam a seu modo a política nacional.

O cenário de contradição, entretanto, não impediu que cerca de 1.500 pessoas participassem, no dia 28, da assembleia dos movimentos sociais e definissem os eixos de um documento final capaz de aglutinar uma agenda comum de ações, centradas em questões como a democratização da comunicação, a violência contra as mulheres, o desenvolvimento sustentável, a reforma agrária, a agricultura familiar, o trabalho decente, educação e saúde de qualidade, entre outras. Assim como não tem sido tarefa simples localizar atividades programadas na geografia do fórum, ainda mais quando estão dispersas pela cidade, a tarefa de identificar se o Fórum Social Temático de 2012 continua indo de encontro ao centro do que se propõe, ou seja, o altermundismo real, ou se vem tomando outro tipo de direção não é menos complicada mas, por uma questão de coerência com sua trajetória nos últimos 10 anos, ainda necessária, tanto para aqueles que postulam desde seu centro como os que espalham-se na periferia de suas ramificações mais remotas.

Em 2012, o baile da educação inclusiva continua

Silhueta de um par dançarinos de salão

Eu concordo com a questão de reconhecer as diferenças e entendo que esse é o princípio ético que tem servido de norte à educação inclusiva. É um princípio fundamental, que o Prof. Boaventura de Sousa Santos sintetizou perfeitamente há 10 anos aqui mesmo em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial.

Entretanto, acho igualmente importante considerar que a educação – principalmente no caso da educação pública, onde a escola é muitas vezes o único espaço de desenvolvimento social das crianças (inclusive de alimentação, atenção psicológica, etc.) – tem por objetivo igualar e equiparar oportunidades. Então penso que o termo igualdade deve ser bem vindo à escola inclusiva, de alguma forma.

Às vezes tenho a impressão de que todo o discurso inclusivo está muito centrado na questão da ética da diferença, mas o trata sempre de forma particular e, embora seja muito relevante que cada um seja considerado em sua realidade, o objetivo da educação é um objetivo social, coletivo. Nesse aspecto, há muito a evoluir. Pelo menos, precisa-se de mais um ou de um novo passo, já que os de até agora só nos trouxeram até aqui.

De que vale fechar escolas e classes especiais e, todavia, manter alunos especiais, considerados sempre a parte, sem um projeto realmente coletivo, mútuo, de interferência e transformação? Além de mudá-los fisicamente de lugar, é preciso mudar a lógica de ocupação social, de hierarquias, de sentido, de coletividade. Alguns dirão que se trata de um processo. Que é preciso dar um passo e depois outro. Eu quero dizer que precisamos começar a caminhar e parar de mudar de lugar, porque isso pode dar a impressão de movimento, assim como o álcool, o LSD, mas a exclusão move-se rápido e já chegou à nova escola inclusiva também. Ela é camaleônica, é a própria cultura social que precisamos tirar para dançar, já que o baile continua.

Cada vez mais o que vemos é a educação inclusiva sendo tratada como um pacote de soluções, mas o que precisamos debater é se a educação inclusiva, enquanto projeto inovador, não deveria exatamente se diferenciar desse modelo empacotado, que não rompe com as estruturas sociais excludentes nem sequer as remodela ou problematiza.

No meu ponto de vista, isto está aquém inclusive das políticas de integração, em tese anteriores às políticas inclusivas. Prova disso é a crescente terceirização pedagógica da gestão pública educacional para ONGs, institutos e etc., principalmente em municípios. Sem falar de estados da federação, inclusive do mesmo partido do governo federal, que não têm sequer diretrizes nem políticas específicas para o seu âmbito de ação.

Já falei que meus dois filhos estudam na escola pública. O momento mais chocante que vivi nos últimos anos foi ter que responder, na entrevista de início de ano, se a merenda da escola (servida as 15 h) seria a sua primeira refeição do dia. É claro que nada comparável a ter de chegar às 15 h sem ter comido nada ainda.

Às vezes, quando vou buscá-lo na saída, vejo ele, sua deficiência estampada no rosto, um autêntico excluído no meio de tantos excluídos, alvos de um projeto educacional (seja federal, estadual ou municipal) que os capacitará para a subalternidade eterna, mas aptos a consumir também e, se isso significa inclusão, então deveríamos estar todos bem. Eu é que tenho mania de, como dizem os gaúchos, ficar vendo chifre em cavalo.

Por isso, em 2012, eu vou mudar de terminologias. Não quero mais incluir meu filho, que tem síndrome de Down. Não quero que ele seja dado como “aluno incluído”. Quero educá-lo excluído como ele é, como somos, ou como nos permitimos reconhecer. Mudar uma palavra por outra não mudará sua situação, nem a minha, nem a de ninguém. Devemos ter uma boa escola de excluídos, mas na qual eles sejam donos de sua própria voz, sujeitos da sua exclusão, dançarinos de outra dança, felizes e amigos porque igualados à maioria, no rés do chão, longe dos castelos onde ninguém é igual a ninguém.

Educação especial e inclusão: de volta à berlinda

2 pesos 2medidas - um jogo da velha vencido apesar das regras, sem completar-se a sequencia exigida

Em cerimônia no Palácio do Planalto, no último dia 17, a presidente Dilma Rousseff anunciou aquela que é a primeira grande iniciativa de atenção à pessoa com deficiência em seu governo. O Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, batizado “Viver sem Limite”, destaca a necessidade de viabilizar a inclusão social das pessoas com deficiência em todo o país e prevê um investimento de cerca de 7,6 bilhões de reais até 2014, em áreas como acessibilidade arquitetônica e urbanística, saúde e educação, entre outras.

Na esteira do plano, o governo também lançou um conjunto de medidas visando sustentá-lo legalmente, entre as quais os Decretos 7.611 e 7.612. Este último diz respeito ao detalhamento do plano em si mesmo, enquanto o primeiro reorganiza os serviços da educação especial, complementares ou suplementares ao ensino regular, o assim chamado atendimento educacional especializado (AEE), e a específica distribuição de verbas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB) destinadas a financiá-lo, nas diferentes modalidades de sua oferta.

Posicionando o Dec. 7.611 no marco legal

O decreto consolida a legislação anterior e confirma a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, revigorando o conceito de dupla matrícula, presente desde 2007 através do Dec. 6.278, que restituiu às escolas especiais o direito de ofertar educação especial no âmbito da política governamental em vigor. Além disso, o Decreto também dispõe sobre a oferta de educação bilíngue para surdos e outros dispositivos de financiamento aos sistemas de ensino.

Do ponto de vista educacional, a dupla matrícula amplia as condições de oferta dos serviços de AEE pelas escolas especiais, agora novamente habilitadas a captar recursos do FUNDEB e a investir em qualificação, conforme os demais dispositivos do novo decreto. Já do ponto de vista político, o decreto pode ser interpretado como uma fonte de recuperação das escolas especiais, que na atual política haviam perdido a anterior preponderância no atendimento às pessoas com deficiência, uma vez que a adoção da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CPCD) e sua incorporação ao texto constitucional, em 2009, obrigou definitivamente o país a implementar e investir na educação para pessoas com deficiência em ambientes inclusivos.

O Dec. 7.611 e a oferta de educação especial

O percurso recente da educação especial no Brasil está vinculado ao estrito conceito de inclusão educacional, que diz respeito à presença dos alunos com deficiência nas escolas regulares. Todo o investimento governamental dos últimos anos dirigiu-se, portanto, a programas destinados à qualificação docente, adaptações e investimentos que pudessem garantir o acesso e a permanência dos alunos nas escolas regulares, espaço preferencial da educação das pessoas com deficiência, de acordo com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

A opção pela nova política, regulamentada no Dec. 6.571 de 2008 e pavimentada pela Resolução 4, de 2009, do Conselho Nacional de Educação, não se deu entretanto sem uma ruptura. Trata-se, afinal, de partir de um modelo em vigência desde a década de 60, no qual escolas e classes especiais esboçavam um gesto tímido de integração à escola regular, para um outro no qual os estudantes passaram a conviver nos mesmos ambientes e a exigir uma nova organização escolar e também a ressignificação do fazer pedagógico.

Todo esse movimento foi impulsionado nos últimos quatro anos, brevidade que explica, pelo menos em parte, as inúmeras dificuldades que ainda permeiam a escola regular, na qual a praxis educacional está ainda especialmente orientada à competitividade e ao mérito distintivo, política também fomentada pelo governo federal, que a partir de 2011 envida esforços e destina recursos ao ensino técnico e profissionalizante.

A retomada das escolas especiais

A retomada que as escolas especiais obtém com o decreto recém editado acontece sob a mesma gestão que estava à frente do Ministério da Educação há quatro anos, com o Ministro Fernando Haddad. Desde lá, as políticas públicas destinadas à educação têm tido como referência a perspectiva da educação inclusiva, recolocada no centro do debate educacional incorporando uma série de novos conceitos e valores, tais como o mútuo reconhecimento e o amplo respeito à diversidade individual das pessoas. É portanto no foco da nova política de educação especial inclusiva que o Decreto 7.611 se inscreve, modificando alguns de seus detalhes, mas não alterando sua essência, até porque deve obedecer a precedência legal e temporal de acordo com o previsto na CPCD, razão pela qual traz embutidos em seu texto vícios de inconstitucionalidade.

Uma vantagem possível para as escolas especiais de agora em diante, em relação a oferta do AEE nas próprias escolas, é o número reduzido de alunos e a possibilidade reconquistada de outras fontes de financiamento exclusivas às escolas, como convênios autônomos com o poder público nas esferas estadual e municipal, entre outros. A oferta e financiamento de seus serviços, entretanto, continua dependente da dupla matrícula, como assevera o Art. 9-A do Dec. 6.253 de 2007, que regulamenta o FUNDEB, modificado por este novo Dec. 7.611 e circunscrita ao AEE, para alunos que continuam obrigados a frequentar a escola regular para usufruir do direito à dupla matrícula. Frise-se que as modificações impostas pelo novo decreto dizem respeito exclusivamente ao financiamento a alunos matriculados na escola regular e na escola especial concomitantemente, caracterizada aí a dupla matrícula, mote principal do decreto. Fora isso, a escola especial não adquire legalmente qualquer efeito substitutivo. O decreto não se presta a essa finalidade, mas sim à orientação de diretrizes dos serviços do AEE, sua oferta pelas escolas especiais, e ao financiamento público.

Financiamento público, para a educação inclusiva

De outra parte, a desvantagem da oferta do AEE na escola pública é agravada pelas dificuldades de orçamento e recursos ordinários. Por isso, uma verdadeira e qualificada oferta de educação inclusiva compete ainda na ampliação da destinação de recursos orçamentários, como pretende a campanha pelos 10% do PIB na educação, na qualificação e valorização docente, no cumprimento imediato e integral do piso salarial dos professores, na concretização de uma educação em direitos humanos orientada ao fim do preconceito, homofobia, racismo e intolerância no ambiente escolar, apontados em inúmeras pesquisas realizadas recentemente. Estas são necessidades prementes e complementares para uma educação pública, inclusiva, universal e de qualidade para todos.

Além disso, é urgente rever as necessidades de um universo escolar em constante transformação e a crescente deturpação do interesse público e vulnerabilização da educação pública. Além das pessoas com deficiência, aquelas que podem portar um diagnóstico, há uma imensa população de alunos apresentando “necessidades educacioanais especiais”, como os casos envolvendo transtornos de atenção, hiperatividade, depressão, psicoses e aqueles que simplesmente têm imensas dificuldades porque imersos na pobreza e em condições desumanas de sobrevivência, como desnutrição e outras situações de vulnerabilidade social.

Para esta clientela, “preferencial” da escola pública, não há escola especial que abrigue nem escola privada que a deixe passar perto da porta, mas a verdadeira educação inclusiva deve estar apta a recebê-la e possibilitar sua inclusão social, porque se trata de seus legítimos interessados. A escola que estiver apta a receber e educar toda essa clientela, em igualdade de condições e proporcionar seu desenvolvimento social e humano, é que é a digna de todo o investimento público possível. Nesse sentido, outra medida do plano “Viver sem Limite”, o BPC na Escola, que monitora os estudantes de famílias que recebem o Benefício de Prestação Continuada oferecido pelo Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome às famílias de pessoas com deficiência carentes, para garantir sua escolarização, vem somar-se à perspectiva da educação inclusiva.

O que será possível verificar, a partir da vigência do Dec. 6.711 e da injeção de novos recursos na escola especial, é a sua capacidade de encontrar as necessidades presentes na sociedade contemporânea e complementar, através da oferta de seus serviços e acúmulo, lacunas na educação dos alunos com deficiência na rede pública. Por isso, trata-se de uma oferta “complementar”, porque o dever de oferecer e manter a educação pública e universal continua sendo exclusividade do Estado.

* Coordenador-Geral da revista digital Inclusive – inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br)

Fonte: Inclusive – inclusão e cidadania

O radinho da Simone: espalhado Brasil adentro

Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui um pouco mais.

O estorvo indígena

Os últimos charruas levados a Europa como exibição após extermínio no Uruguai

Passados 511 anos do descobrimento, a população indígena brasileira mantém-se como um dos grandes estorvos aos projetos de civilização nacional e bem-viver da sociedade. Essa foi, provavelmente, a mensagem transmitida aos bandeirantes no passado, ao ponto de torná-los mais célebres quanto maior fosse o número de presas abatidas. O convite, na época, também falava em patacas de ouro e lotes de sesmaria.

Hoje, o discurso do estorvo indígena renova-se vigorosamente sob o apelo irresistível do progresso e do seu aparente deslugar no mundo contemporâneo. Mais uma vez as patacas de ouro tilintam, o clamor de um progresso que nunca veio ergue-se derradeiramente aqui e ali, lotes de terra demarcada ou empacada na burocracia são griladas e o saldo de aniquilamento moral de toda a sociedade sobrepõe-se ao incrível e incessante morticínio de lideranças, de etnias de todo o Brasil.

A alegação de incompatibilidade do modo de vida indígena tradicional com a vida urbana tem sido ao longo da história do Brasil um marco de distinção entre o projeto de nação que vem se desenrolando através dos sucessivos regimes e governos, no qual aparentemente o indígena só teve lugar na colonização, em sua expropriação territorial e subalternização cultural. Ainda hoje há quem defenda que o legado indígena tenha importância apenas relativa na construção da identidade nacional. Um esforço no qual sua relevância é reduzida a um tipo de herança dadivosa, assim como deveria ser o destino dos povos que vivem ainda hoje e, principalmente, o que restou de seus territórios. Essa incompatibilidade tem sido a tônica das interpretações acerca de todos os fatos que cercam as populações indígenas, por mais díspares que elas possam ser.

Se há indígenas vivendo em acampamentos de beira de estrada e seus filhos estão morrendo por falta de assistência a saúde, a culpa é da incompatibilidade de seu modo de vida em relação ao sistema público de saúde, ainda que o serviço mais próximo situe-se a léguas de onde vivam.

Caso um cacique seja assassinado em uma fortuita emboscada, isso se deve a sua insistência em permanecer na casa de seus antepassados, afinal ele deveria mesmo era estar na beira da estrada, mesmo que ali seus filhos tivessem piores condições de saúde.

Se um indígena sair da aldeia, enfrentar as barreiras socioculturais de uma sociedade que não o quer e chegar a estudar e formar-se, como vem acontecendo, isso certamente será dado como comprovação de que o modo de vida original de seus familiares é insuficiente do ponto de vista da sobrevivência e até mesmo da cultura.

Se uma floresta for submersa e solapada em sua biodiversidade, base da sustentação de famílias e aldeias inteiras, os culpados são estas pessoas estorvando projetos que negam inclusive o seu direito de ir e vir, a não ser que desenvolvam a milagrosa capacidade de andar sobre a água ou viver sob ela. Para estes também haverá a beira das estradas, é o que está reiterado na racionalidade destes tempos e deste país, há muito tempo já.

Por mais que a razoabilidade clame por atenção pública e policial à violência e ao morticínio que vem se praticando em todas as regiões brasileiras contra as populações indígenas, pouquíssimos são os que dão atenção a esse silencioso massacre. Na mídia, na maioria das vezes são descritos tais como fatos havidos com estrangeiros inconvenientes, não fossem os mais brasileiros dentre todos e os mais marginalizados dentre os marginalizados.

Com o governo federal atuando como desarticulador de políticas públicas e agente-mór na vulnerabilização dos direitos constitucionais, os indígenas cada vez mais contam consigo mesmos, é o que fica comprovado no manifesto lançado no último dia 9 por dezenas de organizações dos povos indígenas, divulgado pelo incansável CIMI – Conselho Indigenista Missionário (http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=5931&action=read).

O tempo passa e mais uma vez são reeditadas as entradas e bandeiras e, como lá, os interesses nacionais são invocados como rito de exclusão. Mas parece que nunca uma limpeza de terreno foi tão menosprezada pelos veículos de informação, agentes públicos e autoridades. Só pode ser porque os fatos são, mais uma vez, totalmente incompatíveis com os discursos.

* Coordenador da revista digital Inclusive: inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br) e autor de Morphopolis (www.morphopolis.wordpress.com).

A letra fria da lei

 

Não é segredo ou novidade que a grande maioria dos livros sobre o direito são a personificação da chatice empolada, mas os livros escritos sobre a justiça sabem ser tocantes na medida em que não reduzem o ser humano a mero objeto da lei e sua letra fria. Por isso é de lamentar e muito que um livro como Descasos, de Alexandra Szafir, talvez sequer conste ou pelo menos seja mencionado nas bibliografias necessárias à formação dos advogados brasileiros.

Pois é justamente no país em que há mais faculdades formando advogados que em todo o restante do mundo somado que esse livro foi escrito, numa necessidade expressa de registrar a existência de um sem-número de pessoas padecendo pelos descasos da justiça, logo no país onde abunda um contingente gigantesco dos assim chamados operadores do direito.

Ao lado das pesadas doutrinas penais, Descasos: uma advogada às voltas com os direitos dos excluídos, só aparentemente é um livro menor. O formato pocket lembra que pudesse ser uma espécie de livro de bolso, útil sobremaneira àqueles que, nos bancos da faculdade, aprenderam a judicializar a dignidade humana ou a coisificá-la, igualando ou inferiorizando seu valor às coisas materiais.

De caso em caso, ou como quer a autora, de descaso em descaso, rapidamente se percebe que o livro não traz e não quer trazer achados jurídicos inovadores nem remete suas histórias aos territórios hermenêuticos tão cruciais à sobrevivência do estado de direito. De outra forma, a autora mostra que há fraturas no sistema jurídico aguardando operação, mas de um tipo que vem sendo postergada apenas porque nela estão envolvidos especialmente os mais pobres.

Dessas postergações, desses abandonos sistemáticos e sem qualquer sutileza é que se compõem os casos que ela traz. Uns chamarão de mazelas. Outros tantos lhes dirão inevitáveis. Ela, Alexandra, é clara – quase ao ponto de cegar – ao demonstrar que o injusto e o insano das situações que relata se devem, sobretudo, a pessoas que com sua ação vem consolidando o descaso como forma de atenção jurídica e social. Mas se a institucionalização do descaso deveria deprimir a vontade das pessoas, o livro de Alexandra – e seu exemplo de vida – poderia servir para deprimir justamente o estrelismo que ronda parte do judiciário e seus regiamente pagos agentes.

Sobre a vida de Alexandra há muito a ser dito, mas nada que se compare ao imenso legado que registra nas 80 páginas de seu livro. Seu pequeno grande livro que, a despeito da fria letra da lei, aquece o sangue exatamente da forma que é preciso, num momento histórico no qual ainda infelizmente é muito necessário distinguir os homens das coisas. Convém lembrar que Descasos foi produzido livre de custos pelos profissionais da Editora Saraiva e Aero Comunicação e sua renda será revertida à ABRELA – Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica, doença neuromuscular que acometeu Alexandra após os casos relatados no livro e que fez com que o livro fosse escrito com o nariz.

Mas seria uma simplificação grosseira dizer que um livro como Descasos tenha sido escrito com o nariz. Foi toda a Alexandra que o escreveu.

O primeiro não

A silhueta de um macaco

Quando, em meados dos anos 60, o escritor argentino Jorge Luis Borges declarou em entrevista à Paris Review (a entrevista está na edição compilada pela Companhia das Letras, Os Escritores, de 1988, e republicado neste ano sob o nome As Entrevistas da Paris Review) que os faroestes de Hollywood seriam sua preferência cinematográfica, talvez quisesse apenas gerar algum tipo de impacto, de polêmica. Em plenos anos 60, época de prolíficas declarações e proclamadas revoluções, por outro lado Borges talvez estivesse apenas revelando a verdade. O autor que posicionou no mundo o remoto Uqbar e tinha predileção confessa pelo épico, via no faroeste um gênero onde este poderia ainda subsistir, ao tempo que o cinema enveredava por outras lentes e se desenvolvia em plenitude no que hoje é chamado de “cinema autoral”.

Pois é amparado na entrevista de Borges, que já completou pelo menos quarenta anos de vida, que posso revelar que, neste ano, entre o badalado Árvore da Vida, premiado em Cannes, e o derradeiro Melancolia, do polemista Lars von Trier, eu fico com O Planeta dos Macacos – A Origem (The Rise of Planet of Apes, no original em inglês). E tudo em razão de uma única palavra presente no filme que, para muitos, pertence a um gênero que sequer poderia ser chamado de cinema. Há quarenta anos, provavelmente diriam o mesmo dos faroestes de John Ford.

Debater Árvore de Vida ou Melancolia sem incorrer numa repetição de tantas opiniões já publicadas é algo impossível de pretender, por isso nem cogito em tentá-lo. Também não compararei um espécime de um gênero menor do cinema, a ficção científica, a filmes que têm a aura e o esplendor das obras de arte, quer se as considere sublimes ou terríveis. O problema é que uma palavra dita por um macaco, que é cotado inclusive para o próximo Oscar de melhor ator, me mantém estarrecido desde o dia em que assisti ao filme até hoje. A palavra é um sonoroso não. A evolução do homem ao macaco

Na voz do macaco, aquele “não” soa como se fosse a primeira palavra da espécie humana. Contraditoriamente, a sua primeira afirmação autoconsciente, o seu primeiro desejo manifestado como recusa e negação, como alternativa expressiva do ser e do existir, mesmo que entre jaulas ou a barbárie. É o não que tem faltado às pessoas que vivem como que reduzidas a animais pela miséria, pela segregação e pela opressão, seja econômica ou civilizatória. É o não que dorme na boca dos famintos do Sudão e dos escravizados na China, é o não que explode nas ruas do Oriente Médio e do Chile, o mesmo que está sinalizado num mundo onde cada vez mais cabem carros e cada vez menos pessoas. Pois aquele macaco disse não. E assim ele me faz lembrar que estamos ficando menos humanos, porque nós mesmos aceitamos a miséria do mundo por falta de confiança em dizermos não, essa que é a primeira palavra, entre todas.

Um dos elementos que difere a ficção científica dos outros gêneros cinematográficos é justamente a possibilidade de colocar dilemas da humanidade em situações ortogonais, não lineares ou mesmo irracionais. A ficção científica é bem mais que um conjunto de efeitos especiais de encher os olhos. Seu modo de tocar em elementos críticos da humanidade é incomum e, se boa parte dos filmes produzidos hoje podem ser considerados um pastiche de conhecidos sucessos e colagens visuais, há aqueles que conseguem distinguir-se exatamente por abordar situações que, na realidade, são complexas e inacessíveis a boa parte das pessoas. Os filmes de ficção científica, ou sci-fi, conseguem fazer isso de um modo muito peculiar. Não por acaso, um dos grandes últimos filmes do gênero, o blockbuster Avatar, aborda a devastação dos recursos naturais, a indústria bélica e a necessidade um novo pacto com a natureza de uma forma impactante, evidenciando que muitas tentativas reais de educação ambiental e de acordo entre nações beligerantes ainda estão muito aquém do que se pode imaginar e desejar, considerando um planeta que precisa sobreviver a si mesmo.

Muito provavelmente The Rise of Planet of Apes não seja, nem de perto, o melhor filme de ficção científica já feito. Talvez nem considerando os últimos anos. Mas me recuso a discutir seus problemas de coerência e refutabilidade científica, como tem se tentado fazer. É só um filme, talvez nem seja cinema, como querem afirmar alguns. Mas é um filme que grava na mente de quem o vê um não como nunca parece ter sido dito ou, pelo menos, testemunhado. O primeiro não. O não da dissidência, talvez o mesmo que tenha separado Caim de Abel. O não épico, como gostava Borges, e que talvez tenha sido o mesmo que tirou o ser humano de dentro do buraco de uma caverna e o fez fundar a humanidade.

Eu não sei. Um não desses a gente não vê todo o dia.

Quem souber que conte outra

Crianças lendo livro

Um assalto. A banalidade da notícia de um assalto à mão armada. Mais um dentre tantos que fazem da rotina das cidades brasileiras de sul a norte um entediante espetáculo de violência que, vez ou outra, assume as manchetes por espetaculoso, desesperado ou sanguinolento que seja. Nem sempre é assim, entretanto. Principalmente quando os envolvidos não são exclusivamente os assim chamados “marginais”. Um assalto como esse aconteceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no penúltimo fim de semana.

O fato, desimportante se avaliado pela repercussão, envolveu um juiz de direito (a vítima), a polícia, um médico aspirante a oficial do exército (apontado inicialmente como autor do crime), 40 suspeitos ou mais, algumas testemunhas e a imprensa. Em se tratando de uma cidade onde muitas vezes é difícil encontrar a mera presença policial, o cenário parece ser o de uma verdadeira operação de guerra, mantidas as devidas proporções. Espécie de operação indisponível, por certo, a uma vítima qualquer que fosse identificada como o muito bem conhecido “cidadão comum”.

Para certificar-se da informação acima, não é necessário sequer a presença ou opinião de um expert em Direito penal. Basta que se verifique o número de inquéritos abandonados por falta de indiciados nas delegacias Brasil afora ou uma simples consulta aos dados quantitativos de investigação criminal que chegam a ir a julgamento resultado da ação judicial. Em se tratando do acontecido, tal lógica não foi observada. A ação foi rápida, suspeitos presos, tudo resolvido, pelo menos de forma aparente.

Análise foi desprezada pela mídia

No caso em questão, a imprensa deu conta da apuração instantânea de pelo menos 40 suspeitos. Até aí, nada de novo sob o céu nacional. De acordo com o Mapa da Violência 2011, suspeitos são tomados facilmente por rápida interpretação racial e faixa etária, já que em sua maioria são presos jovens e negros, como se sabe. A exceção aqui é o fato de que o suspeito imediatamente reconhecido pela vítima do assalto não é o que de modo comum se pode chamar “elemento”, no jargão criminológico. O suspeito, tomado erroneamente pela própria vítima como autor do assalto, é um médico aspirante a oficial do exército que, na oportunidade de sua prisão, sem portar identificação ou credenciais, é algemado “quase a quebrar os pulsos”, como ele mesmo afirma em entrevista ao jornal Zero Hora, e submetido ao que qualificou de “inacreditável”.

Experimentando o que costuma ser a regra do tratamento dispensado aos suspeitos de crimes – desde que encontrados pelas ruas, ruelas, vielas e favelas – e confundido com um criminoso comum, o caso da prisão do médico virou rapidamente notícia local, pois o suspeito permaneceu preso cerca de 24 horas, tendo sofrido, inclusive, agressões. Por menos comum e emblemático que pareça, o caso não deixa de ser uma espécie de fenômeno social ou criminal, assim como outros da mesma espécie que estão sempre pipocando por todo o país. Diz respeito às pessoas que são a todo o tempo tratadas de formas diferenciada, da cidadania subdividida em categorias, da dignidade fracionada pela escala da violência institucional que, não protegendo a quem deveria pelo acordo social vigente, emerge como a face real da desigualdade que mais gera revolta e violência entre aqueles que são tratados, via de regra, como “menos gente” ou, no mínimo, como gente de menor valor.

Todo o destaque a respeito do caso da prisão do médico girou em torno dos fatos mais concretos, nos meios de comunicação. As notícias e comentários foram todos feitos com isenção, distanciamento e impessoalidade. As abordagens dissonantes comentaram, no máximo, sobre o absurdo de um médico, e ainda por cima militar, ser confundido com um bandido comum. A oportunidade de uma análise – rasa que fosse, como esta – considerando os aspectos distintivos da situação, ou pelo menos sua peculiaridade, foi solenemente desprezada pelos meios de comunicação e ignorada por tantos colunistas e especialistas hábeis em dar opinião sobre a vida cotidiana e seus fatos mais relevantes, como devem ser a rotina do trânsito, dos aeroportos ou os curiosos hábitos dos animais de estimação e seus donos, por exemplo.

Sinceridade no anonimato

Com os cidadãos devolvidos à sua paz habitual, com vítima e acusado retornando à sua vida ordinária e Porto Alegre podendo ser novamente invocada como cidade mágica que é, aqui talvez coubesse também um ponto final. E nada mais haveria a ser dito, caso uma novidade trazida pela internet aos meios de comunicação não prolongasse a notícia através de comentários calorosos e opiniões mais arriscadas, registradas pelas mãos de leitores – em sua maioria anônimos.

Uma das grandes inovações obtidas via internet e incorporada pela mídia eletrônica é a abertura do campo de comentários que se incorporou ao corpo das notícias e reportagens de jornais e revistas que povoam o mundo online. A inovação tecnológica abriu definitivamente o campo de leitura da informação jornalística ao leitor comum e suas impressões pessoalíssimas, além de superar em muito o espaço tradicionalmente reservado aos leitores nas mídias impressas, o celebrizado “carta do leitor”, “espaço aberto” e congêneres.

Não é mais possível, na atualidade, uma leitura de largo alcance dos fatos, quaisquer que sejam eles, que possa prescindir da leitura dos comentários que povoam os veículos eletrônicos. Ali se travam debates anônimos, ou pseudônimos, dignos de um verdadeiro pugilato de ideias. Qualquer um, enfim, que tenha algum tempo livre e vontade de registrar no etéreo universo dos bits sua opinião, está livre para fazê-lo, mesmo que a censura nesses casos não seja infeliz e exatamente uma fantasia. Se estas opiniões são consideradas por alguém ou podem ser levadas minimamente a sério – afinal para fazer um simples comentário na internet dispensa-se a apresentação de diploma ou Currículo Lattes – é uma decisão também pessoal de cada leitor.

Recentemente, ninguém mais ninguém menos que o cantor e compositor Chico Buarque se viu aturdido ao perceber que em comentários, na internet, as pessoas diziam, segundo ele, “o que vem à cabeça”. O caso, o de Chico, rapidamente foi celebrizado na própria internet e hoje está entre os tantos hits online obnubilados pelas incessantes novidades, destino comum de tudo o que acontece no mundo nestes tempos digitais.

O fato é que, graças à possibilidade dos já bem conhecidos “comentários”, o tema do assalto em questão ganhou contornos e nuances reveladores. Um dos comentários indagava se, caso o suspeito preso fosse um cidadão comum, haveria a mesma repercussão de um caso assim. Outro questionava o próprio empenho da polícia no caso, não partisse a denúncia de um magistrado. Um terceiro perguntava se a humilhação pela qual indevidamente passara o suspeito diferia da humilhação por que passam as pessoas que são revistadas, algemadas e presas Brasil afora, diariamente. E tantos outros comentários abordando assuntos que estão na mente das pessoas comuns, que dizem respeito ao seu cotidiano.

Daí a conclusão de que apenas um leitor pode mesmo entender outro leitor. Ou que um cidadão comum, se não pode contar com interpretação mais profunda do que acontece na sociedade, ainda pode contar com a compreensão de, pelo menos, outro cidadão, mesmo que anônimo e igual a si mesmo.

Cada vez menos e cada vez mais

A serpente Ourobouros em antigo manuscrito alquímico

Recentemente uma notícia foi amplamente reproduzida na imprensa do mundo inteiro: a descoberta de um exame não invasivo capaz de detectar precocemente a síndrome de Down ainda no início de uma gestação. Antes da descoberta, o único exame capaz de confirmar com precisão próxima aos 100% a presença da síndrome era a amniocentese, procedimento de risco para a gestação. Em alguns estados dos Estados Unidos, assim como em outros países que permitem o aborto, a descoberta pode levar a que muitas famílias e principalmente as mães tomem a decisão legítima, e legal nesse caso, de interromper a gestação de um feto que apresente a síndrome de Down. No Brasil, o aborto é considerado crime e isso deveria bastar para que se concluísse que se trata de um assunto desinteressante aos brasileiros, mas isto seria uma grande hipocrisia e, além disso, o exame se presta também a outras finalidades para aquelas mães e/ou famílias que pretendem levar até o final a gestação, como uma maior busca por informações e a diminuição do impacto psicológico da notícia do nascimento de um filho com deficiência, dentre outras possíveis.

Mas, além das questões acima mencionadas, o assunto não é desinteressante porque torna evidente, antes de mais nada, duas situações imbricadas que deveriam primeiramente ser consideradas em separado. Uma questão é a própria conformação legal do aborto, seu sentido no início do novo século,  o peso aparentemente indelével dos juízos morais e religiosos e as pressões exercidas em relação a alterações em seu marco legal. Outra questão é a filiação e a forma com que a sociedade contemporânea parece compreender o estatuto da família, seu formato e finalidades.

Dentre estas, ainda há a questão da possibilidade de que um filho venha a nascer com algum tipo de deficiência, seja intelectual, física, sensorial, múltipla ou mesmo multisensorial.  Se muitos médicos ainda hoje são capazes de predizer uma vida de desgraças na sala de parto a uma família que recebe uma criança com deficiência, que fariam se pudessem prevê-lo, com meses de antecedência e com a possibilidade de mudar-se o curso da história? Assim é que, mesmo sendo proibido no Brasil, muitos pais (não todos, evidentemente), de posse da informação de que seu filho nascerá com a síndrome de Down, optarão por interromper a gestação, antes mesmo de vir a saber exatamente do que se trata e quais suas reais implicações para a vida de uma pessoa, como lembra Carol Boys, presidente da Down Syndrome Association (http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/10/081007_sindromedownnovoexame_np.shtml): “É muito importante que os pais tenham informações precisas sobre a Síndrome antes que tomem a decisão de interromper ou não a gravidez.”

Os números sobre o aborto de fetos que apresentam a alteração cromossômica em países onde o aborto é permitido, entretanto, são conflitantes. Talvez haja ainda muita especulação por grupos anti-aborto que, por exemplo, afirmam que na Espanha 9 entre 10 fetos com síndrome de Down são abortados (http://www.cnsnews.com/public/content/article.aspx?RsrcID=37421). Enquanto que na Inglaterra o número de nascimentos teria aumentado em 25%, conforme a Down Syndrome Education International (http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/mais_qualidade_de_vida_para_pessoas_com_down.html). De um ou outro modo, o que passa a estabelecer-se como referência-padrão é algo um tanto quanto assustador, são as famílias sendo formadas praticamente como um núcleo industrial, antes que afetivo, e as gestações avalizadas clinicamente, como num dos tantos padrões de certificação de qualidade creditados a empresas e indústrias por institutos como a ISO, por exemplo. No Brasil e em outros lugares do mundo, onde vige a proibição do aborto nesses casos, é fantasioso imaginar que caminhos alternativos não sejam aventados até mesmo por médicos e sua prática não aconteça. O problema é que aqui a desinformação e o preconceito contra a deficiência aportaram muito antes dos avanços científicos.

É sabido desde há muito tempo, provavelmente desde a identificação da síndrome pelo Dr. John Langdon Down em fins de séc. XIX, que uma de suas características é a capacidade de afetar o sistema neurológico em dimensões ainda não precisamente esclarecidas pelo conhecimento da genética humana e neurociência. O que as pesquisas que visam esclarecer as condições pré-natais em relação à síndrome de Down tem trazido ao conhecimento científico e à sociedade contemporânea é uma nova versão de um antigo tipo de afetação (e este é um termo que cai bem aqui), um que afeta especialmente a ilimitada vaidade humana e sua busca pela filiação ao ideal eugênico.

Se no passado as pessoas com deficiência padeciam pela dificuldade de aceitação afetiva e social e a sociedade elegia a segregação como forma de efetivar esse desejo, atualmente parece muito preferível que ninguém precise passar por isso, que o estado isente-se dos custos sociais destas diferentes formas de vida humana, que inclusive estes problemas nem cheguem a existir e que, enfim, as pessoas com deficiência nem venham a nascer, afinal é preciso que as pessoas tenham cada vez menos preocupações para com os outros e cada vez mais tempo livre para dedicarem a si mesmas e às suas coisas, objetos e interesses. É a demorada urgência da própria vida consumindo a si própria sem descanso, fato que nenhum exame parece ainda apto a revelar, pelo menos a ponto de mudar as decisões individuais e a vontade social em relação à deficiência, seja ela qual for.