Novos mares para Mar Becker

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/12/2022.

Pode parecer galhofa, como dizem os portugueses, mas, na falta de uma estimativa (e de qualquer rigor matemático), palpiteiros desocupados arriscam dizer que existem em atividade no Brasil contemporâneo algo em torno na casa dos milhares de poetas. Milhares ou milhões, afirmam os mais entusiasmados.

Considerando-se o Estado do Rio Grande do Sul e sua população estimada em 11 milhões de pessoas, pode-se presumir, portanto, a existência contemporânea de um número não pouco considerável, mantidas as proporções geográficas. Dentre estes, certo é que quase nem um conta ainda com o reconhecimento do nosso maior poeta, Mario Quintana. Lembre-se, por exemplo, da intensa repercussão da descoberta de um inédito seu no início de 2022, quando no Brasil inteirou se discutiu a autenticidade dos versos escritos em 1942, de acordo com a data grafada ao final dos versos de Canção do Primeiro do Ano. Setenta anos mais tarde, a descoberta suscitou o interesse de intelectuais como Antonio Hohlfeldt e Gilberto Schwartsmann, que se dedicaram a autenticar a autoria do poema escrito em papel amarelecido e conservá-lo junto ao acervo mantido pela Casa de Cultura Mario Quintana.

Coisas assim, que acontecem com a obra de Mario Quintana, é muito possível que não se repitam tão facilmente com poetas que lhe são posteriores. Não será por falta de qualidade ou de nomes, mas por uma escassez de reconhecimento diretamente proporcional à profusão de autores e autoras. Isso tanto é real e factível quanto o constrangimento regional do alcance de uma literatura que, todavia, extrapola em muito – e há muito – quaisquer limites, especialmente após a expansão digital das redes sociais, espaço privilegiado de divulgação literária na contemporaneidade. Não seja por isso. Por seus meios e trabalho intenso, poetas contemporâneos têm ampliado sua repercussão e chegado às bordas da publicação intercontinental quase sem que se note. É o que acontece agora com a poeta Mar Becker, que, após vencer o Prêmio Minuano na categoria poesia em 2021 e tornar-se finalista do Jabuti no mesmo ano, prepara-se para lançar em Portugal, pela Assírio & Alvim, um volume que reúne os poemas de Sal, livro lançado por aqui pela mesma editora em 2022, e variações de A Mulher Submersa (2020). Publicado pela Urutau, de São Paulo, foi com A Mulher Submersa que a poeta logrou sua ampla divulgação e os prêmios conquistados em 2021.

Pertencente a um ínfimo percentual de poetas brasileiros que obtiveram a publicação ultramarina, Mar Becker deve lançar âncora em mares portugueses logo no princípio de 2023. Pelo que se sabe por meio de dois dos apresentadores de Sal, os tradutores e também poetas Lawrence Flores Pereira e José Francisco Botelho, sua poesia distingue-se por uma vibração que classificam nada menos que como sublime e inusitada. Por certo o reconhecimento de dois tradutores de Shakespeare não é de menor importância, no entanto o grande reconhecimento de Mar Becker se notabiliza muito mais pela intensidade com que a poeta se apresenta e discute com os seus leitores e leitoras a natureza da sua escrita, seu processo criativo e fontes das quais extrai sua matéria poética ao mesmo tempo tão larga, vasta a ponto de comunicar mundos distantes, quanto aproximar os leitores ao seu universo mais íntimo.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker adotou o seu nome de autora a partir da corruptela pela qual é mais conhecida. Se o nome “mar” remete imediatamente à vastidão oceânica, a poeta não se restringe a explorar efeitos secundários de uma auto poetização. Muito pelo contrário. Em Sal e na Canção Derruída, ela empreende uma busca de confirmação de sua origens ao mesmo tempo em que permite ainda mais que se veja da poeta a pessoa. Há quem ache isso impossível ou reprovável, tendo em vista que a persona poética acaba sempre prevalecendo, mas estamos lidando aqui com uma poeta que fala sobretudo com honestidade e que lida com as memórias familiares com o mesmo zelo que se dedica à poesia mais lírica e amorosa. Não é tarefa fácil delimitar a poesia de Mar Becker, mais simples e proveitoso deixar-se levar pelo canto translúcido de ondina que ela entoa com uma naturalidade que espanta a quem quer que lhe dedique a atenção.

Pois em breve serão os portugueses que terão a oportunidade de conhecê-la. Além da publicação em Lisboa, seus poemas vêm sendo vertidos para outros idiomas por poetas e tradutores que não apenas se deixam levar pelo entusiasmo, mas demonstram com seu labor a intensidade dos seus versos e prosa poética. Nada mais justo poderia acontecer, pois Mar Becker é uma poeta em tempo integral, isto quer dizer que é dedicada ao feito poético com tal entrega que, esta sim, se distingue e reconhece de imediato, bem como a sua voz lírica tramada em guinadas potentes e condução impecável.

No futuro, quando for necessário reconhecer uma postagem de Mar Becker no Instagram e creditar-lhe a autoria de um poema, talvez falte o instrumento paleográfico de que se valem os averiguadores de hoje, mas sua poesia saltará aos olhos pelo que tem de mais inconfundível e legítima. Ainda que seja possível falseá-la numa forma semelhante, é bastante improvável que se obtenha o seu efeito, qual o seja de inevitavelmente naufragar, como se numa busca pelo incontornável, como os mares que os navegadores portugueses enfrentaram no passado. A saber, será passível de erro aquele que jogar-se à poesia de Mar Becker. Logo se saberá de quem se trata, pois o reconhecimento é instantâneo e, imaginam assim tantos quanto eu, dos mais duradouros que já partiram daqui.

Wildcat

Ontem assisti a Wildcat, o documentário que eu havia comentado no outro dia, a respeito da sua trilha sonora. Assisti com um nó na garganta porque filmes, livros ou músicas sobre adolescentes “problemáticos” não me causam outra reação.

Mas eu esperava que no filme o “problemático” fosse apenas Harry, o ex soldado britânico que retorna do Afeganistão com sequelas mentais graves, entre as quais a síndrome de stress pós-traumático e uma depressão profunda, com tentativas de suicídio. Porém a pesquisadora que ele encontra na profunda Amazônia peruana, Samantha, não é menos traumatizada. Ela, no caso, pelo convívio com um pai alcoolista e violento que a fez desde criança preferir o convívio com os animais aos adultos humanoides.

Pode parecer uma estranheza – ou não – encontrar dois adolescentes abdicando da vida social no que é o momento de seu apogeu para viver em um território inóspito e com vida selvagem real, cercados de feras e criaturas humanas mais ameaçadoras que as próprias feras, e que partilham do mesmo território apenas para conquistá-lo e depredá-lo.

Na prática, o filme aborda um processo de reabilitação dos mais complicados. Ao mesmo tempo, Harry trabalha na readaptação à vida selvagem de uma jaguatirica e na sua própria reabilitação emocional. Como num documentário não cabem escapismos à fantasia, o que se pode ver é que o processo está longe de ser uma jornada de superação. Muito mais se vê da tensão absurda que a depressão deita às costas e reserva à mente de um jovem com vinte anos de idade.

Depois de assisti-lo, não me espanta saber a reação emocional que sua exibição tem causado mundo afora. Ao unir dois universos sensíveis, adolescência e relação homem x natureza, sabe-se como a jaguatirica se reintegra ao mundo da floresta, mas permanece a dúvida quanto a adaptação do ser humano. Àqueles que pensam que viver entre feras é experiência terrível, o filme é instrutivo do quão desestruturante pode ser a vida entre os homens.

Poesia de María Zambrano

María Zambrano Alarcón (1904 – 1991 ) foi uma intelectual, filósofa e ensaísta espanhola. Foi aluna de Ortega y Gasset e também de Xavier Zubiri e de Manuel García Morente. Sua María Zambrano Alarcón (1904 – 1991) foi uma intelectual, filósofa e ensaísta espanhola. Foi aluna de Ortega y Gasset e também de Xavier Zubiri e de Manuel García Morente. Sua extensa obra apenas foi reconhecida na Espanha no último período do século XX, após um longo exílio. Já idosa, recebeu os dois maiores prêmios literários concedidos na Espanha: o Prêmio Príncipe das Astúrias, em1981, e o Prêmio Cervantes, em 1988. No Brasil, tem uma única obra publicada, o livro Filosofia e Poesia, pela editora  Moinhos, em 2021. As traduções a seguir basearam-se na edição preparada por Javier Sánchez Menéndez para a Ediciones de la Isla de Siltolá, de Sevilha, em 2018.

QUE TUDO se pacifique como uma lamparina.
Como quando o mar sorri,
como o teu rosto, se de repente esqueces…
Esqueces porque também já esqueci tudo. Não sei de nada.
Nada a teu respeito.
Nada sob tua sombra, semente amarela da árvore do esquecimento.
E tudo será como antes.
Quando nem tu e nem eu havíamos nascido.
Mas… Nascemos?… Talvez não, no entanto não.
Nada, ainda nada. Nunca nada.
Somos o agora sem pensamentos.
Lábios sem suspiros, mar sem horizonte,
como uma lamparina que sobrevive ao oblívio.

§

QUE TODO se apacigüe como una luz de aceite.
Como la mar si sonríe,
como tu rostro si de pronto olvidas.
Olvida porque yo he olvidado ya todo. Nada sé.
Cerca de ti nada sé.
Nada sé bajo tu sombra, amarilla simiente del árbol del olvido.
Y todo volverá a ser como antes.
Antes, cuando ni tú ni yo habíamos nacido.
Pero, ¿nacimos acaso?… O tal vez, no, todavía no.
Nada, todavía nada. Nunca nada.
Somos presente sin pensamientos.
Labios sin suspiros, mar sin horizontes, como una luz de aceite se ha extendido el olvido.

§

NEM BRISA nem sombra.
Por que, morte, te escondes assim?
Sai, salta, solta-te desse abismo!
Foge! Quem te segura?
Por que não apagas o universo com o teu olhar?
Por que não desfazes as pedras
com a tua sombra, com a tua morte, só com tua sombra,
com a mão vazia,
com teu rosto de estátua,
presença nua a quem nada resiste?
Ensina, mostra teu rosto aos mundos,
e que já não há mais espaço sem céu,
sem vento, sem palavras.
Eu só quero afundar no silêncio.

§

NI BRISA ni sombra.
¿Por qué, muerte, así te escondes?
Sal, salte, sácate de tu abismo, escápate tú, ¿quién te retiene?
¿Por qué no borras con tu mirada el universo?
¿Por qué no deshaces las piedras con tu sombra, muerte, sólo con tu sombra, con tu mano desnuda,
con tu rostro de estatua, desnuda presencia a quien nada resiste?
Enseña, muestra tu cara a los mundos, que ya no haya espacio,
ni cielos, ni viento, ni palabras.
Quiero hundirme en el silencio.

§

AO MEU ANJO

… Não há mistério,
apenas trabalho, tristeza,
e essa erva amarga.
Mas me conduzes
sem que eu te peça nada.
Sim, eu quero ser as tuas asas
despencadas, derramando
chuva de lágrimas por mim.
Porque tu me lamentas,
lamentas pelo meu ser,
porque sentes o meu amor contigo.
Sou tua feiura, a estranha
impotência a ti confiada.
Como eu te peso,
eu, a invisível,
sou tua pedra,
o óleo que unge tuas asas,
sou teu arrasto
e, nos instantes infinitos,
teu desespero.

Ó Anjo!
Serei eu teu inferno?
Eterno retorno
da tua leveza que aprisionei.
De uma forma obscura,
eu me ponho a teus pés
para ser queimada, esfumada,
vítima necessária da tua liberdade.
Não me deixes existir,
é o que te peço.
Avalia bem,
sou tu, mas irredutível.
Até quando vai
a tua condenação?

§

A MI ÁNGEL

… Y no hay misterio
sólo trabajos, pesadumbre,
y esa amarga yerba.
Pero tú me conduces
y nada te pido.
Sí, quiero ser tus alas
caídas, ahora, llanto,
lluvia de lágrimas por mí.
Porque tú me lloras,
lloras mi no ser
porque me sientes amantísima a tu lado.
Soy tu fealdad, tu impotencia
extranjera a ti confiada.
Cómo te peso,
yo, la invisible,
soy tu piedra,
el aceite que unta tus alas,
tu rémora
y, en instantes infinitos,
tu desesperación.

¡Oh, Ángel!
¿Seré tu infierno?
Eterno retorno
de tu ligereza por mí aprisionada.
Como una oscura cosa
me ofrezco a tus pies
para ser quemada, ahumada,
víctima necesaria de tu libertad.
No me dejes existir, pues que te
peso.
Tú me mides,
soy tu irreductible,
¿hasta cuándo?,
tu condena.

§

FALA UMA PEDRA

Porque me olharam, porque fui levada, possuída, deixei de viver.
Enfeitiçada, sou apenas um apoio, mas nada me sustenta.
Sempre aqui,
súdita do espaço.
Onde está agora o olhar que me fascinara?
Precisavas de mim para ser tua sombra?
Possuidora, és tão frágil que só com mágica te estabeleces.
Tu, aquela que nasceu assustada, a inválida,
tu me amaste para então cair sobre mim.
O amor que indicas, me diz, é isso?
Eu era luz, reflexo, mas e tu? Diz,
não podias
revelar-te a mim?
Mas não; eu sou o teu ser, eu, teu suporte.
Eu, enterro do meu ânimo e prova do teu não-ser.
Agora, estás longe.
E andas, mendiga, em busca de comida.
Feitiços de alma, gestos do Senhor.
Novos amigos, ainda invisíveis, virão me procurar.
Não, eles cairão, cairão para que tu te ergas, levantes.
Tu virás me procurar, já sem me conhecer, sem saber.
Mas eu sei. Eu não sei de nada.
Eu sou a memória
acusadora, que nada trai, resistente, adversária.
Eu, o peso da tua história.
Eu, também a tua calma.
O lugar maleável
e hostil que não se opõe a ti.
Tu poderás?
E também sou tua calúnia, a mentira já lançada, e não me temas.
Tu me nomeias: matéria.
Nada mais.
Mas tu voltas, alienada, cúmplice, derrotada.
Como és ignorante… a sábia.

§

HABLA UNA PIEDRA

Porque he sido mirada, porque fui tomada, poseída, cesé de vivir.
Hechizada, sólo soy un soporte, mas nada me sostiene.
Aquí, siempre
súbdita del espacio.
¿Adonde estás, ¡ah!, mirada que me fascinaste?
¿Me necesitabas para ser tu sombra?
Poseedora, tan frágil que necesitas hechizar para erigirte.
Tú, la que naciste asustada, la inválida,
me amaste para caerte en mí.
El amor que nombras, dime, ¿es eso?
Era yo luz, reflejo, ¿y tú? Di,
¿no podías
revelarme tu ser?
Pero no; yo soy tu ser, Yo, tu soporte.
Yo, sepultura de mi aliento y prueba de tu no-ser.
Estás ahora lejos.
Andas, pordiosera, en busca de alimentos.
Hechizas alma, gestos del Señor.
Nuevos compañeros, ya invisibles, vendrán a buscarme.
No, caerán, solamente esos caerán para que tú te erijas, te levantes.
Tú vendrás a buscarme, tú, ya sin conocerme, sin saber.
Pero yo sé. Yo sé nada.
Yo soy memoria
acusadora, delatora nada, resistente memoria, adversaria.
Yo, peso de tu historia.
Yo, también tu calma.
Yo, el lugar manejable
y el hostil no que se te opone.
¿Podrás?
Soy también tu calumnia, tu mentira ya arrojada, y no me temas.
Me nombras: materia.
Nada más.
Pero vuelves, enajenada, cómplice, vencida.
Ignorante tú, la sabia.

§

ESTOU MUITO exausta para escrever, muito ocupada. Só podia mesmo fazer poesia, porque poesia é tudo e nela não é preciso que me desmembre. Pensar divide a pessoa; de outro modo, o poeta é sempre uno. Daí a angústia indescritível, e daí a força e a legitimidade da poesia.

ESTOY DEMASIADO rendida para escribir, demasiado poseída. Sólo podría hacer poesía, pues la poesía es todo y en ella uno no tiene que escindirse. El pensar escinde a la persona; mientras el poeta es siempre uno. De ahí la angustia indecible, y de ahí la fuerza y la legitimidad de la poesía.

Inclusão em pauta (3ª ed.)

Nos últimos dias, estive revisando (e revisitando) os textos e trabalhos que, no longínquo 2015, resultaram na edição de um e-book e depois de um livro impresso no qual procurei registrar e conservar um trabalho de quase 10 anos que realizei com muitos amigos e parceiros do movimento social pela inclusão da pessoa com deficiência.

É meu livro de militância e tenho um carinho muito especial pelo que vai nele.

Seria muito normal, talvez, que eu me arrependesse de qualquer coisa (ou muita coisa) escrita há mais de uma década ou desejasse editar o conteúdo publicado no portal e revista Inclusive, além de artigos e ensaios publicados em diversas outras mídias.

Para a minha felicidade, não quero. Nem me parece que o livro precise de uma edição ou maquiagem para se mostrar vívido.

A Inclusive foi um projeto que muito me orgulhou editar com a minha amiga Patricia Almeida e a colaboração de dezenas de pessoas, entre profissionais e ativistas do movimento social das pessoas com deficiência. São pessoas de quem hoje não estou mais tão próximo, mas de quem nunca me sinto afastado.

A sensação, se consigo mesmo interpretá-la, é de que o conjunto de ideias políticas e culturais em torno da inclusão vive uma estagnação nos últimos anos e o esforço necessário ao aperfeiçoamento de políticas públicas e educacionais não será pequeno a partir de agora. Certamente será ainda mais complexo e por essa razão é preciso transformar a apoplexia em oportunidade. Esse é o tamanho do desafio em vista e não se refere apenas ao Estado, mas na forma com que a sociedade encontra para se relacionar com sua força sempre avassaladora.

Que os desafios continuem os mesmos ou tenham se aprofundado, isso me fez rever esse trabalho em outro momento e circunstância da minha vida e do meu interesse na temática. Em sua 3ª edição, o livro “Inclusão em pauta” continua sem fins lucrativos agora poderá ser acessado e consultado integralmente por meio do Google Books, sem custo, como forma de constituir um ponto de encontro de muitas reflexões ao que me parece agora ainda mais necessárias.

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Autenticidade poética

Se alguém procurasse recuperar o que de relevante se passou na poesia rio-grandense no ano de 2022, dificilmente poderia deixar de registrar a descoberta de um poema inédito de Mario Quintana no interior de um dos 5.000 exemplares obtidos de uma coleção particular por um livreiro de Porto Alegre.

Jornais e leitores de todo o país correram para anunciar a descoberta, assim comprovando a vitalidade e o interesse que o poeta ainda desperta Brasil afora, quase 30 anos após a sua morte.

Apesar de trazer sua assinatura ao final do poema, logo se procurou verificar sua autenticidade. Fizeram-no o professor e diretor do Theatro São Pedro, Antônio Hohlfeldt, e Gilberto Schwartzmann, escritor e presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Pública Estadual do RS. Uma vez “certificado” o original, o poema foi adquirido pela associação para daí ser doado ao acervo da Biblioteca e exposto na Casa de Cultura Mario Quintana entre outros manuscritos e objetos do poeta.

Fico eu pensando: mas não bastaria bater os olhos nos versos do poeta para saber-se que não é uma falsificação?

E penso mais: como é que se poderá daqui a 30, 50 ou 70 anos investigar a autenticidade de um inédito de quem quer que seja? Como é que se poderá saber que um poema corresponde a uma autoria quando somos inundados por deep-fakes inacreditáveis de tão perfeitas? E o que dizer da imensidão de adulterações, repetições e falsificações que trafegam internet afora sem qualquer certificação?

Por uma “dicção” particular não será. Sabemos pelo exemplo de Quintana, que é um poeta dos que se costuma denominar por “inconfundível”.

Neste ponto, vivemos num tremendo impasse. Por um lado, não se imagina que se possa refrear a pulsão informativa das redes, muito menos filtrá-la. Uma iniciativa desse porte exigiria o emprego de inteligência artificial e, até onde eu sei, não há como se programar o gosto estético do que é puramente técnica, ou garantir sua incorruptibilidade. Por outro, a noção de materialidade da obra escrita esboroou-se, tornando impossível sua organização; isto significa que as bibliotecas não têm mais condições de comportar tudo o que é escrito e os meios dissolvem-se na tentativa vã de abarcar o aluvião digital.

Mesmo com isso, o impasse da autenticidade permanece.

Tudo o que poetas de todos os tempos sempre aspiraram foi a ambição de não serem confundidos com ninguém, mas aí, de repente, se faz necessária uma investigação.

A bem da verdade, ninguém aceita muito bem a despersonalização de um estilo, nem sua generalização. Todavia a vida digital assim exige. É uma imposição do meio que todo o publicado seja automaticamente liquidificado. E a todos se exige uma espécie de self adaptável, como o os oferecidos pelos apps de “desenho” inteligente.

Como vai ser isso no futuro, é no que eu fico pensando. Alguém comprará um poema inédito de alguém para expor aonde? Numa biblioteca? Biblioteca de que espécie? De postagens do Instagram?

¿Que sé yo?

Uma resenha tardia de ‘O filho eterno’

Com fortuna crítica comparável à fortuna obtida em prêmios e vendas, poucos romances como O filho eterno, de Cristovão Tezza, oferecem uma perspectiva tão abrangente a respeito de um conteúdo tantas vezes dramatizado como o da geração que viveu os estertores da ditadura militar brasileira (1964-1985), a democratização e a mentalidade forjada na transição do Brasil subitamente moderno dos anos de Juscelino, os anos mais caóticos e obscuros do período do “milagre” brasileiro chegando ao triunfo e ao conjunto de esperanças populares depositadas na Nova República (1988). De modo muito particular, e porque Tezza é um autor que pensa a si próprio enquanto crítico, O filho eterno toma de um enredo complexo, obtido no plano psíquico, e o transfere exemplarmente para o plano social e crítico.

Ao contrário do que sugere o título, o romance de Tezza, que se inicia em meio à malfadada Copa do Mundo de 1982, tem como personagem central muito mais a figura de um pai e seu psiquismo do que exatamente da condição do filho. Ambos coincidentes com a vida pessoal de Tezza que, assim como seu protagonista anônimo, tem um filho (no livro, Felipe, o único personagem com nome próprio) que nasceu com a alteração genética que determina a síndrome de Down. Sem nunca ocultar o fundo autobiográfico do romance, mas recriado com o distanciamento de quem atravessou uma jornada pessoal bastante tormentosa, o enredo de O filho eterno detrata o drama de consciência de uma geração contestadora e “contracultural” ao defrontar-se com o impasse da diferença in vivo.

Para além do inesperado e dos temores que o nascimento de Felipe e sua condição inata instalam na vida mental do protagonista, um escritor em formação, Tezza irá conduzi-lo ao que talvez seja o maior drama pessoal de todas as pessoas que geram (e recebem) um filho com deficiência intelectual: a aceitação afetiva.

“Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.” (p. 32)

Na frase acima e em outras nas quais aparece ainda mais evidente o pânico existencial de um adulto (e escritor) em formação diante de uma situação irreversível, a moralidade de toda uma geração que se acreditava o motor de um novo tempo mostra-se numa fragilidade e ambiguidade moral que, se não confere diretamente com o estado de consciência política, descortinam a fragilidade do discurso redentor e revolucionário predominante principalmente na juventude formada em meio à redemocratização brasileira. Valendo-se da experiência pessoal, “o pai” de Tezza representa, de certo modo, um traidor do sonho geracional, antevendo na sua própria sorte a fragilidade das ambições morais e políticas da qual é também, na condição de escritor, um observador privilegiado e intérprete.

Por meio do distanciamento obtido com um narrador onisciente, Tezza observa e conduz esse pai de uma maneira muitas vezes cruel, sem qualquer condescendência e, em que pese o caráter autobiográfico, O filho eterno não oferece uma visão edulcorada ou vale-se do clichê “superacionista”, para finalizar o romance como uma ode redentora à personagem do pai. Longe disso. O filho eterno está muito mais para a denúncia de uma mentalidade geracional do que a particularização de um drama envolvendo reflexões culturais a respeito da condição de deficiência do filho. Prova disso é que a aparição dos demais personagens, mesmo o filho e a mãe, são incidentais. No decurso do seu amadurecimento pessoal, a aceitação ocorre mediante a humilhação daquela prévia arrogância paterna – eis o aspecto mais duro de todo o romance e, certamente, a razão para sua consagração para além da qualidade literária em si mesma, dado que “aquele pai” denuncia o caráter e a fragilidade da ambição humana em estar para as condições inerentes à vida desde um lugar privilegiado que, em efetivo, não existe para ninguém.

3 canções de Karen Dalton

Karen Dalton (1937-1993) foi uma cantora e compositora norte-americana descendente de indígenas Cherokee e que chegou em Nova York, vinda de Oklahoma, para integrar o movimento de folk music do Greenwich Village. Gravou dois discos de estúdio, It’s So Hard to Tell Who’s Going to Love You the Best e In My Own Time, entre 1969 e 1971, e possui algumas gravações ao vivo. Em 2012, uma coleção de suas letras, poemas e escritos foi reunida em livro por Peter Walker. Em 2015, diversos artistas produziram um disco de suas músicas inéditas, intitulado Remembering mountais. Sobre sua vida, carreira e destino trágico, o cineasta Win Wenders produziu em 2020 o documentário Karen Dalton: In My Own Time. Neste ano, 2022, 12 novas gravações e imagens de Karen vieram a público com a edição do disco Shuckin’ Sugar.

Katie Cruel

Quando cheguei na cidade
Me chamavam “joia itinerante”
Agora eles mudaram de tom
Me chamam de Katie Cruel

Eu vou pela floresta
E através da lama pegadiça
Caminho sob a estrada
A fim de ouvir meu coração

Se eu estivesse onde queria
Então estaria onde não estou
Aqui estou porque preciso
Onde queria, não posso mais

Quando eu dei por aqui
Trouxeram bebidas sem fim
Agora mudaram de tom
Trazem as garrafas vazias

Se eu estivesse onde queria
Então estaria onde não estou
Aqui estou porque preciso
Onde queria, não posso mais

Katie Cruel

When I first came to town
They call me the roving jewel
Now they’ve change their tune
Call me Katie Cruel

Through the woods I go
And through the boggy mire
Straight way down the road
‘Til I come to my heart’s desire

If I was where I would be
Then I’d be where I am not
Here I am where I must be
Where I would be, I cannot

When I first came to town
They brought me drinks of plenty
Now they’ve changed their tune
And hand me the bottles empty

If I was where I would be
Then I’d be where I am not
Here I am where I must be
Where I would be, I cannot


Algo em mente

Ontem
De qualquer modo você o fez, está tudo bem..
Eu vi você transformar seus dias em noites
Mas você não sabia
Você não pode fazer isso se não tentar
E algo está em sua mente, não é assim?

Um dia desses você vai ver que estava quebrando a cabeça
Deixando todos os seus sonhos para trás
Você não viu
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo em mente, não é?

Talvez num outro dia você vai querer sentir de outra maneira
Mas você não pode parar de chorar
E você não tem uma só coisa a dizer
E sente que quer fugir
Mas não adianta tentar, de qualquer jeito
Eu vi o que está escrito na parede
Quem não puder se manter sempre irá cair
Você não sabia?
Você não pode fazer isso se não tentar

E você tem algo mente, não é assim?
Você tem algo em mente, não tem?

Something on your mind

Yesterday, any way you made it was just fine
So you turned your days into night-time
Didn’t you know, you can’t make it without ever even trying?
And something’s on your mind, isn’t it?

Let these times show you that you’re breaking up the lines
Leaving all your dreams too far behind
Didn’t you see, you can’t make it without ever even trying?
And something’s on your mind

Maybe another day you’ll want to feel another way, you can’t stop crying
You haven’t got a thing to say, you feel you want to run away
There’s no use trying, anyway
I’ve seen the writing on the wall
Who cannot maintain will always fall
Well, you know, you can’t make it without ever even trying
Something’s on your mind, isn’t it?
Tell the truth now, isn’t it?

Something’s on your mind, isn’t it?
Something’s on your mind


Relembrando montanhas

O sol logo cairá no desfiladeiro
Eu rezo em cada pedra e árvore
Deixe a beleza para o final
E que tudo se acabe belo
E que tudo termine com alguma beleza

Agora o tempo é seu, você está sozinha
Em seu quarto lembrando-se das montanhas
Você acha ainda que as estações mudam sem o seu coração?
Você está sonhando?
Todos os dias iremos até você, desiludindo-a
Você sabe que não há separação sem tristeza

Então você senta perto da janela, vendo os dias passarem
Sozinha em seu quarto, lembrando as montanhas
Você pensa em todos os caminhos que não seguiu
Você ainda está sonhando?
A cada lugar que vamos, você não sabe, mas amanhã
Eu acredito que amanhã você encontrará
O que a trará de volta

Remembering mountains

Sun will fall across the canyon wall
My prayer on every stone and tree
Let the last be beauty
All in beauty, all in beauty

Now your time is your own, you’ll be alone
And sit in your room remembering mountains
Do you think the seasons change without your heart?
Are you dreaming?
Every day and night we’ll come to your mind, undeceiving
You will know there’s no parting without sorrow

So you sit by the window, watching the days go
Alone in your room remembering mountains
Do you think of all the ways that you didn’t follow?
Are you dreaming?
Every way we lead, you are undefined, tomorrow
I’m believing you will find tomorrow
Brings you to return

Poesia de Hannah Arendt

Prometida para o ano de 2020, a edição brasileira dos poemas de Hannah Arendt ainda não aportou nas livrarias nacionais. Tampouco há notícia de que o lançamento esteja no prelo ou ao menos a caminho. O hiato não é bem uma novidade: entre os anúncios de publicação e o efetivamente publicado, sempre restam lacunas. Ao contrário de outros países, no Brasil a poesia de Hannah Arendt infelizmente parece ter caído nesse limbo editorial.

Com poemas escritos entre 1923 e 1961, sua produção é a de uma poeta bissexta que, todavia, praticou os versos ao longo de toda a sua vida. Na edição completa de sua poesia, têm sido considerados os 71 poemas publicados em 2015 na Alemanha sob o título Ich selbst, auch ich tanze, pela Piper Verlag.

As traduções mundo afora não demoraram. No mesmo ano de publicação, em 2015, a espanhola Herder Editorial publicou o trabalho de tradução organizado por Alberto Ciria, intitulado Poemas e que traz o posfácio da professora e estudiosa Irmela von der Lühe, da Universidade Livre de Berlim, também presente na edição alemã. Em 2020, em Portugal, publicou-se uma coleção limpa de seus poemas pela Sr Teste, traduzidos por José Aigner. Nos Estados Unidos, prepara-se a edição para o começo de 2023 do trabalho de tradução da pesquisadora e biógrafa de Arendt, Samantha Rose Hill. Em artigos e estudos, traduções de seus poemas apareceram ainda antes: na década de 1990 na França e em torno de 2013 no Brasil, em trabalho apresentado por Odílio Aguiar e Rosiane Mariano, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Amiga pessoal de muitos poetas, entre eles W. H. Auden, com quem se correspondeu e a quem dedicou um célebre ensaio na New Yorker, Arendt, contudo, nunca se identificou como poeta e toda a sua produção conhecida em livro é póstuma. Entre seus poetas preferidos, os nomes de Schiller, Heine, Goethe e o seu contemporâneo Bertold Brecht.

Estranharão os leitores, talvez, o encontro com uma poesia muito amorosa e com muitas referências aos amigos. As edições incluem um poema aqui traduzido, escrito por Arendt aos 17 anos, ou seja, uma produção bastante precoce. A segunda leva de seus poemas, coincidente com o período da Segunda Guerra Mundial, reflete mais o espírito da época. Nos últimos anos de vida, Arendt parece não ter mais escrito poesia.

Nota – 01/05/2023. Em abril de 2023, a editora Relicário publicou a primeira edição de Também eu danço, bilíngue, traduzida por Daniel Arelli.

[5] Müdigkeit

Dämmernder Abend –
Leise verklagend
Tönt noch der Vogel Ruf
Die ich erschuf.

Graue Wände
Fallen hernieder,
Meine Hände
Finden sich wieder.

Was ich geliebt
Kann ich nicht fassen,
Was mich umgibt
Kann ich nicht lassen.

Alles versinkt.
Dämmern steigt auf.
Nichts mich bezwingt –

Cansaço

Como um lamento silencioso
o crepúsculo soa ainda
a chamada dos pássaros
que eu criei.

Paredes cinzentas
desmoronam
enquanto minhas mãos
se reencontram.

O que vim a amar
não posso pegá-lo.
O que me rodeia
não o posso deixar.

Tudo se funde.
Paira o poente.
Nada me poderá submeter:
assim a vida segue seu curso.


[20] An die nacht

Neig Dich, Du Tröstende, leis meinem Herzen.
Schenke mir, Schweigende, Lindrung der Schmerzen.Deck Deine Schatten vor Alles zu Helle –
Gib mir Ermatten und Flucht vor der Grelle.

Lass mir Dein Schweigen, die kühlende Löse,
Lass mich im Dunkel verhüllen das Böse.
Wenn Helle mich peinigt mit neuen Gesichten;
Gib Du mir die Kraft zum steten Verrichten.

Para a noite

Tu que consolas, inclina-te muda sobre meu coração.
Tu que te aquietas, reserva alívio às minhas dores.
Cobre com tua sombra o que está claro demais
e me traz indiferença para que eu fuja ao estridor.

Deixa para mim teu silêncio, a tua libertação.
Deixa que se oculte o mal em meio à escuridão.
E quando a luz me atormentar com novos fantasmas
dá-me força para prosseguir meu desígnio.


[36] Ohne titel

Flüsse ohne Brücke
Häuser ohne Wand
Wenn der Zug durchquert es –
Alles unerkannt

Menschen ohne Schatten
Arme ohne Hand

Sem título

Rios sem pontes,
casas sem paredes:
não se reconhece nada
à passagem do trem.

Homens sem sombras,
braços sem mãos.


[55] Ohne titel

Helle scheint
in jeder Tiefe;
Laut ertönt
in jeder Stille.
Weckt das Stumme –
dass es schliefe! –,
hellt das Dunkel,
das uns schuf.

Licht bricht
alle Finsternisse,
Töne singen
jedes Schweigen.
Nur die Ruh’
im Ungewissen
dunkelt still
das letzte Zeigen.

Sem título

Não há profundidade
onde a clareza não brilha e
nem silêncio
onde o som não ressoa.

Desperta o silêncio –
mesmo que permaneça dormindo! – .
Ilumina a escuridão
que nos criou.

Não há trevas que a luz não vença
nem silêncio que não se entoe.

Mas essa calma
que repousa no incerto
silenciosamente nos obscurece
como um epílogo.

Compadres

Seu Venâncio dos Angicos não era louco, mas um dia endoideceu.

Primeiro ele salgou os canteiros de folhosas. Depois, decepou um a um os tomateiros. Além ainda, arrancou batatas e cenouras e amputou os brotos de uva. E todo o restante das ervas de chá e até mesmo as de ornamento ele atorou na gadanha e na enxada, até virar tudo uma coisa só. Depois ateou fogo naquilo e sentou-se quase ao lado, até deixar-se incendiar ele mesmo junto às plantações que cavou sem a ajuda de ninguém num campinho emprestado por um compadre que um dia, de raiva das belezas que ele tinha, disse sem mais nem menos que ele lhe devia.

Devia o quê? Devia gratidão (mas ele tinha), devia a parte de comer do homem e seus filhos (que ele dava), devia ser menos avaro (ele não era), devia dever alguma coisa porque o outro embestou que ele devia.

Depois de tanto tempo de amizade, como um vizinho podia pensar isso do outro? Logo em Santa Bárbara, lugar que nem os passarinhos disputavam a água dos empoçados?

O seu Venâncio entristeceu-se. Murchou por dentro e lhe parecia loucura o viço das plantas se o seu único valor verdadeiro fora empenhado nas dúvidas descabidas do amigo. Achou que não era bem a discrepância do seu espírito e dos seus cultivados. Numa loucura, decidiu acabar com tudo, com a razão do desarrazoado sofrimento. Assim voltaria a ter o respeito dos outros e o seu amor próprio, mesmo zerado, poderia voltar a cultivar outra vez.

Mas o que parece ter acontecido foi ele ter visto o amigo observando-o de longe, quieto, impassível como um tronco de angico. Ele pegando fogo e o homem no seu pitar. Da visão não arredou mais pé e até aproximou-se mais, com as roupas chamuscadas incendiando a pele e ele duro, sem dar um grito, foi pouco a pouco consumindo-se no fogaréu.

Quem me contou? Não a mãe, que ela nunca me diria o que foi da morte do meu pai Venâncio, essa desgraça. Eu descobri sozinho. Juntei cacos de história de um e de outro até entender tudo.

Depois o compadre também endoideceu. Matar a fonte do seu sustento? Ele, um sem vontade de nada? Um descansado? Dois dias depois, sem saber o que fazer para cuidar do que não suportava ver o outro fazer tão bem, enfiou um cartucho contra o peito escondido num mato. Seu filho é o João Benedito, que quase foi meu colega, mas era maior que eu. Estudou tudo que pode e logo se sumiu daqui. A mãe ficou sozinha na casa, sem outro destino.

Às vezes, vez por semana, eu vou até lá levar tomates, pães e ovos que a minha mãe envia à viúva. Parece que nunca se falaram mais depois daquela estultice, mas ajudam-se como podem. Não é muito eu levar as coisas lá, mas, às vezes, sento um pouco onde o pai morreu e sozinho penso sempre que teria dado pra apagar o fogo..

Quando foi que fiquei sabendo? Não sei dizer, mas acho que desde ali entendi como se mantinha a mesma cara por fora e envelhecia por dentro.

A divina proporção literária

Revista Parêntese, ed. 150

Que as redes sociais empurraram a literatura num caminho quase sem volta a uma radicalização total da estética de recepção é inconteste para qualquer pessoa que, na qualidade de leitor/usuário das redes, já percebeu isso por conta própria. 

Em 2022, quando os vestígios autônomos de criação literária no mundo digital convergiram para as grandes redes comerciais (Facebook, Twitter, Instagram), deixando no passado a era dos blogues (os anos 2000-10) e tornando obsoletas as tecnologias de mediação criadas com esse propósito (Skoob, Goodreads, etc.), foram mesmo os algoritmos das big techs que abocanharam um sistema literário que reúne características tão elásticas e diversas quanto são os meandros da sociedade brasileira.

O processo ocorreu na velocidade espantosa do desenvolvimento dos gadgets, ou seja, bastou piscar e ele já estava aí. Não tanto assim, é verdade, mas mais ou menos isso.

A data de corte pode ser situada ali por 2010, quando os smartphones da Apple e a popularização do Android tornaram ambulante o acesso à internet. Até então, blogues e redes temáticas como o Orkut dominavam o trânsito de informações, e pontos de referência crítica eram bem mais notáveis que atualmente. Depois, a proliferação de comentaristas em vídeo – os youtubers – fez evaporar os canais de crítica convencionais, quase todos localizados em suplementos literários dos grande jornais, páginas especiais de revistas semanais e veículos especializados.

Hans Robert Jauss, o mais inflexível dos críticos envolvidos na teoria da estética da recepção, ficaria por certo baratinado ao ver como se processa na contemporaneidade o tráfego de influências, a legitimação e a consolidação de carreiras literárias. Para além da desconstrução dos sistemas objetivos, a emergência participativa viabilizou a noção das “comunidades interpretativas” no lugar de uma mediação racionalizante. Gestada nos anos 60 como forma de trazer para a teoria literária a contribuição de Gadamer para o estudo da hermenêutica, no Brasil a teoria foi impulsionada sobretudo a partir da publicação, em 1979, da coletânea A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. A calhar com a crise de leitura diagnosticada nos anos 80, a teoria reposicionou no leitor um poder outrora dissimulado numa relação desigual de valoração. O leitor/receptor dava, dessa forma, lugar ao leitor crítico capaz de por sua ação agir na legitimação autoral dentro do sistema literário.

Falar em leitura e situá-la dentro de uma crise educacional, como se vê, não consiste em novidade nos estudos literários. A estética da recepção todavia pode ser compreendida como uma guinada que, na era presente de digitalização de tudo, empoderou o leitor justamente no momento em que mais se diz que a crise encontra-se mais do que estabelecida: estaria efetivamente consolidada. Isso pode ser verificado pragmaticamente por meio dos números obtidos nas pesquisas regulares que o setor editorial, principalmente por meio da Câmara Brasileira do Livro, vem executando no Brasil, aferindo também o impacto das mídias digitais.

Bem como Jauss e Norman Holland, críticos até então definitivos da história literária no séc. XX, em que podemos acomodar Barthes, Benjamin e até mesmo as correntes psicanalíticas lacanianas, e os analistas do discurso, os estruturalistas e os pós-estruturalistas, todos, sem exceção, precisariam esfregar os olhos antes de redigir uma frase acerca do boom comunicativo da internet nos anos 2020. Para não colaborar muito, as ciências sociais também oferecem um olhar muito receoso a respeito do mundo virtual. Nem perto do que fizeram no séc. XX pensadores como Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Erving Goffmann e outros tantos, para ficarmos nos mais populares.

Embora seja suficiente usar uma hora/dia nas redes sociais para perceber-se a força autoconfigurativa das redes, isto é, a transmigração entre os papéis de crítico e leitor, a própria noção de papéis, identidade e autenticidade se encontra presentemente fora de qualquer lugar. Nisso, é de se perguntar, portanto, para qual direção dirigir o olhar. Porque concentrada cada vez mais no imperativo de leitor e no decaimento do apanhado crítico em condições de suportar as condições meteóricas de surgimento/desaparecimento autoral, a estética da recepção volta a ser uma perspectiva em condições de ventilar a areia do rosto de quem quer que queira debruçar-se no estudo literário na era da “economia da atenção”. (“Era da economia da atenção” é o termo utilizado no marketing contemporâneo para o estudo de formas de manutenção da atenção dos consumidores diante da informação torrencial).

Já a noção de sistema literário predominante no séc. XX resta em prejuízo diante da maleabilidade dos meios hoje disponíveis aos autores. É provável que hoje seria mais adequado etiquetar na nuvem os valores literários do que reunir uma bibliografia. Dado que o substrato literário parece ser menos relevante do que o modo de leitura, é muito possível que qualquer um de nós já tenha se maravilhado com um texto jamais publicado em papel. Não é o mais comum, uma vez que o mercado editorial (essa parcela nem um pouco passiva do sistema literário) costuma agir rapidamente no sentido de transformar os bens intangíveis em material fungível. No horizonte literário, há ainda que entender melhor a superveniência dos tokens e da fungibilidade técnica, conceito quase abstrato que vai se notabilizando como fonte de sustentação dos negócios no capitalismo tecnológico.

Evidente não é para todos que observam o mundo literário, mas é relativamente simples apanhar uma leva de nomes de autores que capitalizaram muito bem a esfera de atenção digital trazendo para o mundo das redes um comportamento de marketing e engajamento mais usuais na publicidade. Funciona bem, afinal o meio é maleável e nele coexistem informações de toda espécie. Na literatura, sobressai-se visivelmente o gênero poético, provavelmente devido ao formato breve e condensação temática. Aqui não abordo nomes específicos, mas parece que o fenômeno dos instapoets (poetas que publicam predominantemente no Instagram) parece ser o caso mais potente entre todos.

De tudo isso, efetivamente não se deve concluir que o leitor na era da economia da atenção é passivo ou, por outro lado, suficientemente informado para portar-se como um crítico legitimador. Por mais curtido que um autor possa ser, isso equivale sempre a um sucesso de público. A crítica, embora reduzida e confinada cada vez mais aos estudos de pós-graduação, persiste e num ritmo muito mais lento do que verificado, por exemplo, até os anos 60, quando a televisão tomou da leitura literária uma parcela considerável de atenção do público. Aliada ao encerramento e diminuição de fontes impressas, a dificuldade de fixação canônica encontra-se agora embaraçada num liame complexo entre “cultura popular” e “alta cultura”, isso considerando a multiplicidade incontável de temáticas e fatias de interesse.

Pense-se nisso e na competição que os autores têm para com outras espécies de conteúdo, para com outros autores e para consigo próprios, pois a manutenção de um público leitor fidelizado é empreitada de altíssima exigência. É preciso alimentar constantemente o vínculo e participar ativamente dele numa nova divina proporção, algo entre o entusiasmo e a reticência. É preciso atender às demandas estéticas, políticas e morais do público ou nada feito. E entrelaçar-se nele numa partilha real ou pelo menos com sinais de realismo, favorecendo os enlaces promovidos pelos dotes simpáticos dos algoritmos. E zelar pela interlocução das subjetividades agora totalmente expostas. 

Como se trata de um mundo heraclitiano, é preciso evitar a repetição e privilegiar o ineditismo. É preciso ser uma agência literária ambulante para publicar e fidelizar leitores, seja o postulante um novato ou um veterano das letras. Felizmente, tudo isso é possível e está ao alcance de qualquer smartphone. Basta força de vontade, insistência e talento. E não necessariamente nessa ordem.