Artes do esvaziamento

Não sabia que Dan Brown, do “Código da Vinci”, fosse pianista e compositor. Parece que é. É de sua autoria uma certa “The Wild Simphony”, peça sinfônica muito bem elaborada, pelo menos na minha opinião. É inspirada na vida animal e com apelo infantil.

Não conheço muitos escritores bem sucedidos que também sejam compositores musicais. O outro que lembro é Anthony Burgess, de “Laranja Mecânica”. Não dá pra dizer que é coincidência, mas ambos têm uma visão muito semelhante da relação da música com a escrita narrativa.

Numa entrevista a Paris Review, Burguess disse que “aprende-se bastante (no planejamento de romances) com formas musicais.” Dan Brown, noutra oportunidade que “escrever e compor são atividades muito, muito parecidas”, e que teriam a mesma espinha dorsal.

É um raciocínio simples: artes de composição demandando organização e etc.

Interessante notar que, por outro lado, compor ou executar um instrumento não tem a mesma capacidade, ou seja, não ensina ninguém a escrever. Não quero contradizê-los simplesmente, porém essa me parece uma conversa meio de botequim. Claro que tem fundamento a analogia, mas não é uma necessidade. Desnecessário também contra argumentar apresentando-se autores completamente analfabetos musicais.

Prova de que eles estão errados? Não é isso. O que eu penso é que essa intercambialidade no que diz respeito a narrar empobrece poeticamente o gênero narrativo. Os livros de Dan Brown, por exemplo, me parecem padecer desse problema, são secos como roteiros. Os de Burguess eu não posso comentar, só conheço “Laranja Mecânica” e é um livro pancada mesmo, literalmente duro de doer. Parece que ele tem uma vasta obra inédita, não sei bem, realmente não conheço.

Mas o que me soa mal nessas declarações, afinal de contas, é que ambos buscam na música uma razão quase estruturalista de justificação, quando a música é por excelência a arte da intuição e sugestão.

Hoje passei a tarde escutando esse disco de Keith Jarrett, um programa de pouco mais de uma hora de duração com algumas sonatas e adagios. Eu realmente gosto muito de Jarrett e sua capacidade de improvisação é um dom espantoso que atendeu a poucos seres humanos (hoje Jarrett não toca mais, após ter sofrido pelo menos dois acidentes vasculares graves). Essa peça, de acordo com ele, também é uma improvisação. Ele diz que se guiou com toda a liberdade possível e por um desejo não de exibir uma obra, mas de meditar e louvar a beleza da arte musical.

“Na verdade, todas estas peças nascem de um desejo de elogiar e contemplar e não de um desejo de “fazer” ou “mostrar” ou “demonstrar” algo único. São, de certa forma, orações para que a beleza permaneça perceptível apesar das modas, intelecto, análise, progresso, tecnologia, distrações, “questões candentes” do dia, a falta de modismo de crença ou fé, programação de concertos e o não natural “cena” da “arte”, do mercado, dos estilos de vida, etc., etc., etc. Não estou tentando ser “inteligente” nessas peças (ou nessas notas), não estou tentando ser um compositor. Estou tentando revelar um estado que acho que está faltando no mundo de hoje (exceto, talvez, em particular): um certo estado de rendição: rendição a uma harmonia contínua no universo que existe conosco ou sem nós”, é o que diz na contracapa do disco e que encontrei na Wikipedia.

Não tenho dúvidas que Jarrett nunca foi um romancista, pelo menos nos moldes preconizados pelos dois primeiros. Mesmo assim, sua linguagem é intercambiável com a literatura, ao menos com a poesia, pois a coluna cervical da poesia é música. Não estou falando em métrica, mas em música (ritmo, harmonia, melodia).

A minha forma de ler e escrever poesia (não só poesia) é pela música. Uma vez, uma amiga compositora e cantora me disse exatamente isso: aqui tem música. Não música canção, de cantar, mas música interna. E outra amiga querida, excepcional leitora e editora, uma vez também me revelou quase o mesmo: disse ela que lê poesia de ouvido. Esse estado rarefeito da música, encantatório, também é o que me traz a poesia. Quando eu sinto que ela por sua vez consegue o mesmo, como imitar a música, é porque ali deu certo. Ali funcionou. É como fosse uma germinação e que, depois, adquire vida própria. Em verdadeira arte de crueldade, o poeta só fica mesmo com a falta. É o mesmo que me acontece com a música: um esvaziamento do espírito.

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O anu-brancoO anu-branco

Em madrugadas de primavera chega a parecer que acordo dentro de um conto de João Guimarães. Antes da primeira sirene de ambulância berrar no ar de Porto Alegre, uma sinfonia de aves cantarola, trina, arrulha, assobia, apita, gorgeia e cacareja numa liberdade até desrespeitosa. No breu ainda confiro: são quatro da manhã. Quase sonho que posso ouvir uma queixa de bezerro, ou uma vaca comunicando. Não tem vaca nenhuma, eu sei, mas, se tivesse, não pareceria tão estranho. As aves metropolitanas são músicos desajustados. Integram mesmo a secreta orquestra que executa a mesma sinfonia indiscreta há centenas de anos, indiferente ao que fizemos da natureza, mas com o juízo das horas atordoado, as coitadas. A pandemia aumentou o número de músicos da orquestra e, apesar de me acordarem cedo até para o campo, eu gosto de apontar os cantos que posso distinguir (andavam todos minguando em anos passados). São muitos e sei porque tenho bom ouvido. Na mesma medida sou ruim de nomes, de associar nome e figura. Então não sei quem são direito. Quase sempre me atrapalho, reconheço poucos de nome. Mas mais alto que o melodioso sabiá, num grito selvagem mesmo, o gavionídeo e predador anu branco parece sempre avisar de alguma coisa, na sua trilha de suspense que irrompe como um alarme de dentro do mato. Mas não tem mato (mato queimou). Mas tem, numa agonia de resistir.. Nem que seja dentro de pedaços do seu grito/canto afogueado.

OutboxOutbox

Há uns dia recebi um e-mail (há quem ainda o use) de uma pessoa que nunca me viu e eu nunca vi e que, mesmo assim, dizia sentir falta de mim. Não, não se trata de uma paixão platônica, nada disso.. Trata-se de alguém que se acostumara a ler textos que até há pouco eu costumava escrever sobre um assunto que me é ainda muito caro: a inclusão social e educacional das pessoas com deficiência.

Assim como eu, ela tem um filho com síndrome de Down e disse que eu sempre a ajudara (sem saber) com as coisas que eu escrevia. Hoje, me parece um pouco incrível que alguém pudesse sentir-se apoiado pelas coisas que tenho escrito: implicâncias, epifanias e até mesmo ironias. Mas isso não está em quem escreve decidir, e sim em quem lê. Então se ela disse, não tenho razão para lhe contradizer. Falou, tá falado.

Só que a menor vaidade que eu possa sentir quanto a esse e-mail está soterrada por uma resposta que ainda não consegui redigir. Por que mesmo não escrevo mais sobre inclusão, se foi o tema que justamente me fez voltar a escrever após longos, longuíssimos anos de silêncio branco? Por quê? Por quê? Desculpem a repetição, é apenas eco. Reverberação. A pergunta martelando respostas como prego fraco em madeira de lei. Por quê?

Eu realmente não sei. Não tenho uma resposta exata. Tenho apenas suposições que, todavia, não me demovem desse distanciamento. Mas por que isso? Também não sei. Só mesmo suposições que não ajudam nem a mim mesmo, então não sinto que deva externalizá-las como se fossem conclusões. Só tenho a dizer sobre isso uns achismos. Achismos são pensamentos toscos, inacabados e muito particulares. Às vezes até incompreensíveis. Então pode ter muita bobagem misturada no que lhe diria. Com certeza teria..

O que eu acho, talvez em primeiro lugar, é que não tenho uma boa palavra nesse momento, para oferecer.. Acho que vivemos em tempo sectários e se há um antônimo para “inclusão” não é a mera oposição do termo “exclusão”, e sim o sectarismo. O mérito dessa definição não é meu, mas do filósofo chinês Confúcio. Isso está em algum trecho dos seus Analectos.

Superar o espírito sectário me parece muito mais difícil do que superar a exclusão, que é uma condição social. Não porque eu prefira, mas, na contemporaneidade, o tanto que se diz por aí a respeito de “inclusão” transformou-se em instruções formais amparadas em algumas leis e mediadas por relações comerciais. E mesmo quando as pessoas valem-se dos serviços públicos estão mediando suas relações pela contraparte do que o estado tem a oferecer em troca dos seus impostos. Então há uma relação comercial também nesse caso. A não ser numa vida autóctone, portanto, não me parece haver meios possíveis de superar essa condição. A onda homeschooling, claro, não tem nada a ver com isso, afinal não é uma modalidade gratuita. O assunto até tem alguma relação, mas acho que não nesse ponto.

Já integrei movimentos sectários na minha vida e não me fizeram bem. Também tenho certo caráter dissociativo, dissidente, que me dificulta acatar consensos quando me parecem equivocados ou mal intencionados. Acho que a transformação de uma situação real, vivida, numa disputa conceitual também implodiu com a noção de um discurso preciso, do qual abri mão porque também lá pelas tantas já não me fazia bem empunhar um discurso político, formalista, a despeito da situação real das pessoas, cada uma delas discordante em trajetória, condições materiais, cognitivas, de saúde, etc, etc, etc. Seria uma violência continuar participando dessa barganha (não política, mas moral) e embora não me arrependa das brigas que comprei e de nenhuma vírgula que redigi nessa década, comigo precisou ser assim.

Há também a questão de sombreamento de uma política pública de governo com um movimento em essência conflitivo. Nessa relação de forças, pelo menos no Brasil, sempre a política acaba submetendo a esfera pública e o conceito inclusivo aposto, explicativo, perde muito do seu elã (essa palavra eu tirei do arcabouço materno), fica meio fantoche. Na prática, não há muito protagonismo nem autonomia, mas pessoas sendo conduzidas por processos nem sempre transparentes e que movem uma máquina de recursos públicos (e também afetivos) que pouco ou nada destina-se a melhorar as condições de vida das pessoas. Muito mais à tecnocracia, mas isso também é outro assunto. Só que a politização da questão danificou terrivelmente seu caráter intrínseco, como status social por desejar. Então continuar essa busca é, para mim, como a busca por uma miragem, algo que tem a aparência da coisa mas nunca consegue ser a coisa que aparenta. E assim por diante. Isso reduziu um anseio social a um “faça como puder, você estará sozinho nessa de qualquer jeito”. O conceito revolucionário, o sonho, rendido e constrangido pela realidade. E mercantilizado também. Muito mercantilizado.

Fora isso, ainda há o balcão de negócios que políticos costumam fazer sem nem disfarçar, mesmo quando são práticas nocivas ao convívio democrático. Nada constrange esse pessoal. Não adianta gritar nas redes sociais. Há um muro aqui, um backwall, uma quarta margem intransponível ao cidadão comum. Você, amigo, que luta ou pensa lutar contra essa estrutura, acostume-se a ser uma aberração na matrix. Lá pelas tantas, foi assim que passei a me sentir, como alguém portador de dissonância. Portador aqui, aliás, no sentido exato do termo.

Eu não sei. Não ganhei um centavo só com ativismo. Pelo contrário, muito mais gastei e me gastei. Ganhei foram alguns e-mails que embrulham a garganta por dentro, mas isso não conta para nada nem ninguém a não ser eu mesmo. Não se trata de recompensa nem de reconhecimento, mas de não se sentir enganador, de me sentir um pouquinho verdadeiro, mais real do que posso ver ao espelho. Essa, sim, me parece uma boa sensação.

Tive a sorte de ter me envolvido com esse assunto com a radicalidade que o tempo exigia, de fazer valer pelo conteúdo mais até que pelo mérito. Mas todo o esforço coletivo hoje foi pulverizado em projetos pessoais, em “compartilhamento” em redes sociais. Chega uma hora que a gente entende que gastou sola do sapato demais, só isso. Tem ainda a questão do preconceito social e a impressão que o mundo caminha mal não só por culpa da extrema-direita ascendente, mas que essa ascensão seja a irradiação de energia perigosa que passamos a compartilhar também, individualmente, mesmo que sem percebê-lo e mesmo que pareça sempre muito positiva. Viver no Brasil me parece ser, de certo modo, cada vez mais viver num estado de negação positivada, solarizada. É um não (ou nãos) valendo por sim, mas sem um sim correspondente. Ficou tudo muito estranho e difícil, mais fácil e simples dizer. Sinto também que é preciso agir, mas sob outros significados, outros contextos. Fazer nascer algo novo. Se for para dar parte nisso, nesse milagre, e não em reviver e continuar o que nos trouxe aqui, contem comigo.

Mas o certo, o adequado, seria dizer algo bem menos complicado. É uma pessoa muito simples a minha interlocutora, não uma pensadora sofisticada. Ou uma acadêmica. É uma mãe, nem sei sua profissão, só que seu filho tem mais ou menos a idade do meu e que ela continua esperando de mim uma palavra que não sei se posso ainda dar. Nem um testemunho perfeito, um exemplo, tenho a lhe mostrar. Só uma tentativa que às vezes dá certo, às vezes não. O assunto, claro, será sempre caro para mim. E importante, sem dúvida. É bem por ser tão caro assim que não tenho mais escrito a respeito. Seria o certo a dizer nessa resposta. E enviá-la. Mas ainda está faltando a coragem de apertar o botão “Enviar” e assumir que cheguei mesmo a esse ponto final.

02.07.2019

Michael Jordan, poetaMichael Jordan, poeta

de quando Michael largou a poesia e se tornou um gênio

Há quem maldiga o seu algoritmo por muito pouco. Não eu.

Eu tenho descoberto com ele coisas bem interessantes, como, por exemplo, que o maior jogador de basquete de todos os tempos também tentou a carreira de poeta. Ainda que tenha sido um poema só, e ao que tudo indica dedicado à sua mamãe, ele tinha tudo para se tornar também um gigante dos versos.

É isso mesmo! Quem me revelou isso foi um vídeo do Reels (aqueles vídeos aparentemente aleatórios que cronometram milimetricamente a atenção dos indivíduos para lhe dar e mais mais do mesmo, como se fossemos hamsters).

É por onde o algoritmo parece descobrir o ponto fraco do freguês, a sua droga favorita, a sua perversão secreta, a sua obsessão patológica e passa a lhe oferecer mais e mais daquilo para que ali ele fique o máximo de tempo possível, seja assistindo a vídeos de gatinhos fofos ou coisas que às demais pessoas não importa nem convém saber.

Os vídeos do Reels são, não mal comparando, a cracolândia das redes sociais.

Depois de um tempo variando a oferta de conteúdo, finalmente o algoritmo descobriu que, no meu passado, eu fui um jogador de basquete. Primeiro amador, depois ainda amador e finalmente ex-amador. Essa foi toda a minha carreira.

Mas descobriu o algoritmo que eu ainda hoje posso passar horas sem fim assistindo principalmente às jogadas dos meus diletos gênios da bola ao cesto.

Os gênios são muitos, em todos os tempos, mas divindade, como todos sabem, há uma apenas. Atende pela nome de Michael Jeffrey Jordan, o imortalizado número 23 do Chicago Bulls. Michael Jordan (MJ), o jogador poeta. Sim, talvez o autor de um poema só, escrito na High School, como saber? Mas que importa? Não se pode ter preconceito com detalhes secundários como esses. A poesia é um caminho aberto a todos que se atrevam a trilhá-lo.

Mas desde que eu vi aquilo, entendi subliminarmente que ele, além do basquete, sempre esteve envolvido numa, como eu quero demonstrar, poética.. Exagero? Provarei que não. Pelo menos me deixem blasfemar com liberdade..

Na verdade, nem é preciso que eu prove muito. Os vídeos de Michael estão aí e são auto explicativos. Basta que se perceba a sua atitude em relação ao objetivo do jogo e cada investida sua contra a cesta adversária para que se entenda a intensa catarse a que ele se sempre se entregou ao jogar.

No basquete, como todos que já o praticaram reconhecem, o objetivo da vitória final é secundário, detalhe decorrente de muitas outras coisas. O que importa é que a bola caia no cesto. Quantas tentativas num jogo profissional isso acontece para que o objetivo se cumpra? Centenas, milhares.. Mas cada uma das tentativas é um esforço total, isso em MJ é mais que evidente. E o incrível nele é que sempre o fez de inúmeras maneiras diferentes. Não é uma jogada especializada apenas, um lance de 3 pontos infalível, mas uma versatilidade aliada ao foco que o fez obter o que obteve: ser ainda hoje considerado o “goat”. O bode. O greatest of all times..

Na verdade, o que acontece no basquete são milhares de pequenos jogos dentro de um grande jogo. Há os arremessos de longa distância, média, infiltrações, enterradas.. Para cada uma dessas modalidade de encestamento, diversas possibilidades específicas: reversão, antecipação, explosão, etc etc etc.

Além disso, o jogo em quadra, os movimentos, a levitação, a percepção espacial e de oportunidades. Tudo isso praticado com uma necessidade de solução imediata, de pronto, irrefletida. MJ foi um mestre exímio em tudo isso. É como fosse um Musashi das quadras, um Bach, um Mozart, um Shakespeare, um Machado da bola em gomos.

Mas o que nele há de diferente dos outros jogadores?, indagaria um neófito no melhor de todos os esportes.. O Lebron James não é tão jogador quanto ele? Kobe Bryant não foi? Magic Johnson? Oscar Schmidt, o “mão santa”? A Hortênsia?

Esse é o tipo de heresia que não se pergunta jamais a um basqueteiro..

A questão, para o que interessa aqui, é que nele, MJ, há um senso de obtenção do efeito que é completo. Não há um acaso sequer. E mesmo no erro, o erro é menor, ele não é valorizado, perde o efeito, é como se não existisse em face da nova tentativa. Isso é o suprassumo da vontade criadora. E é aí que justamente reside o que chamo de “poética desportiva” deste hoje senhor sexagenário e multimilionário.

A bola tem de cair e ele vai empregar toda, completamente toda a sua energia para obter um, dois ou três pontos no épico que é cada jogo por inteiro. E isso a cada lance. É um desgaste de atenção descomunal, como sabe bem quem já tentou jogar basquete por mais de cinco minutos.

* * *

Apesar de que prefiro ver aqueles lances bem antigos em que Jordan simplesmente ultrapassa os adversários rumo a mais um dunk destruidor, tem um lance que é muito emblemático na sua carreira. Aconteceu num jogo contra o Los Angeles Lakers, na final do primeiro do seus títulos, quando suplantou outro gênio das quadras: Magic Johnson.

Numa infiltração em três passos (bandeja), nosso herói se depara com uma impossibilidade espacial, uma barreira imprevista, o que ocorre junto ao próprio esgotamento do seu movimento de três passos. Pois de algum reflexo cinético felino, ele simplesmente muda a trajetória no ar e faz com que a bola passe por um espaço humanamente impossível e que não se encontrava bloqueado pelos dois defensores. Mas a bola passa. Passa e cai. Dois pontos só e daí, diria uma pessoa abilolada pelo pragmatismo.. Uma obra-prima do esporte, diriam os fanáticos.

Michael Jordan – famous switch hands layup

Você provavelmente já viu um cesto de lixo de um escritor que faz justiça ao nome, isso antes do computador.. É o mesmo do que se dá na quadra de basquete. Muitas bolas fora até a obtenção do que realmente tem valor.

Isso independente das suas escolhas formais e estéticas — embora elas possam até garantir algum efeito extra no lance (mas jamais antecipar seu efeito). Isso sempre depende muito de quem joga, dessa habilidade, mas também, complementarmente, de quem assiste. É preciso fazê-lo, simplesmente. Just do it, como diz o lema dos tênis..

Pois assim precisa ser um poema. A bola tem que cair.

Nessa minha livre analogia, o poeta tem que fazer tudo, absolutamente tudo, para que a maldita bola caia. Isso de atirar para cima e talvez ela caia, com o perdão da metáfora, não é a mesma coisa. Não tem valor algum. É sorte. Acaso. Valem dois pontos no placar, mas não têm graça alguma..

A ação poética, nessa perspectiva comparativo-desportiva, é o emprego dessa energia, sem perda de tempo, eficiência ou atenção. O treino não vale. A brincadeira também não. Magic Johnson, um brincalhão, diziam que era muito mais competitivo que Michael Jordan.. As pessoas enganam muito.

A ação se dá quando o sujeito entra em quadra e faz tudo que pode fazer, com o maior empenho possível, até que pareça aos olhos dos outros uma trivialidade (que ele, no entanto, sabe perfeitamente o quanto lhe custou obter).

É o que fazia Michael Jordan ao jogar.

* * *

O poema juvenil de Michael Jordan é imprestável. Felizmente ele foi jogar basquete e não continuou naquelas chorumelas..

* * *

A má notícia aqui é que o algoritmo também descobriu que eu tenho fascínio em vídeos de répteis. Valei-me Freud, mas eu simplesmente gosto de observar a existência desses seres primevos. Se querem me interpretar, bom proveito, eu não me importo..

Mas eu tenho pensado há tempos também numa aproximação poética sobre os répteis.. Que que tem de mais?

* * *

Estou pensando nisso enquanto assisto às finais da NBA..

Que jogadores canhestros e desgraciosos…

* * *

Que os dragões os devorem vivos..