O recluso Keaton Henson

Por suas raríssimas aparições na mídia brasileira, é possível que poucas pessoas tenham sabido que, no último dia 25 de outubro, o cantor folk, poeta, artista plástico e compositor Keaton Henson lançou o sétimo álbum da sua resguardada carreira. Talvez seus seguidores brasileiros nas redes sociais tenham sabido, mas tampouco isso é suficiente para que seu nome se diferencie no limbo que a depauperada mídia musical nacional vem colocando compositores que não sabe classificar ou entender, porque habituada e constrangida sempre aos mesmos estilos, às mesmas pegadas, aos mesmos nomes, tudo o mesmo de sempre, como um moto-contínuo inescapável.

Com seu novo disco, Six lethargies, Keaton confirma o que se supunha desde 2014, quando lançou Romantic works: trata-se de alguém que sabe se expressar muito bem também na ausência de palavras. Acompanhado pela The Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, Keaton vinha lançando amostras do seu mais recente trabalho em suas redes sociais, em gravações ao vivo. No Facebook, vídeos nos quais ele trabalhava suas composições ou as ensaiava foram vistos por milhares de pessoas. No trabalho a ansiedade se desfaz, segundo ele diz.

Keaton não vive dando as caras por aí. Longe disso. Se artistas “reclusos” vivem dando sopa na internet, ele parece fazer questão de dosar suas aparições. A explicação para o comportamento é sua agorafobia e dificuldade de exposição pública. Também suas repetitivas crises de ansiedade e pânico paralisantes, letárgicas. Daí, aliás, o título de seu trabalho sinfônico.

Este novo disco de Keaton não traz seu canto lamentoso nem as queixas de amor de Dear ou Five years. Sua matéria agora são transcriações que ele desejou fazer de seus estados mentais. Keaton não escreve ou lê a linguagem musical das partituras, é um compositor intuitivo cuja criação se inicia com a elaboração de mapas mentais ilustrados que mais tarde ele transforma em música. Ao longo dos três anos que usou para a elaboração de Six lethargies, Keaton afastou-se dos motivos folk e enveredou para uma música baseada em experiências neurocientíficas. Sua busca é, segundo ele mesmo diz, por “tentar comunicar algo mais complexo e abstrato, explorando a ansiedade, a depressão e a ausência de sentimentos”.

Não é que essa intenção seja uma novidade, afinal, mais do que as outras expressões artísticas, a música é capaz de reproduzir os sentimentos e sensações humanas que são essencialmente abstratos, indescritíveis. Compositores que em outros tempos e circunstâncias procuraram criar para causar emoções por sinal fazem quase a regra. Por outro lado, Keaton busca nas emoções a fonte direta para a criação e acredita que sua expressão pode contribuir na geração de empatia para com as questões que envolvem sofrimento mental. Para ele, “a música é uma ferramenta poderosa para criar empatia e comunicar sentimentos incrivelmente complexos de uma maneira que qualquer pessoa possa entender, sem nenhuma explicação”.

Se o resultado de seu trabalho remete muito ao minimalismo de Philip Glass, aos devaneios experimentais de Ólafur Arnalds ou ao neobarroco de Max Richter, Keaton é um músico de expressividade poderosa que a cada novo registro imprime um passo a mais no sentido de afirmar-se como um artista completo. Para ele, nada importa que se saiba de sua vida pessoal e é mais um a defender que um artista deve responder apenas a partir de sua obra. Seja como poeta, como pintor, cantor ou compositor, nunca se pode saber aonde o inglês recluso pode chegar, mas certo é que muitas vezes ele responde à música desde a poesia. Mas nada embaralha mais os sentidos de quem o escuta que a sinceridade de sua expressão.

Para assistir a “Longe da árvore”

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/10/2019.

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A não ser em publicações duvidosas, “filosóficas” entre aspas, é muito difícil encontrar-se alguém interessado em escrever honestamente acerca da aceitação humana. Em 2012, ao invés de facilitar as coisas, o jornalista norte-americano Andrew Solomon conseguiu torná-las ainda mais difíceis com a publicação de Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade. Imenso em tamanho (o livro publicado pela Companhia das Letras em 2013 contém mais de 800 páginas) e incomensurável em conteúdo, Longe da árvore é ainda mais espantoso quando se sabe que resultou do trabalho de uma década em que seu autor esteve envolvido tanto na escuta de centenas de pessoas quanto no exame detalhado da literatura ficcional, científica e documental publicada a respeito das condições e situações existenciais a que ele se propôs investigar.

Ao tratar da trajetória familiar e afetiva de pessoas que cometeram crimes ou daquelas cujos filhos nasceram em decorrência de casos de estupro, ou pessoas que nasceram com deficiência intelectual, autismo, doenças mentais, nanismo, bem como casos de superdotação ou surdez e chegando até as questões de identidade de gênero, Solomon concretizou uma espécie de fenomenologia do afeto. Uma espécie de compêndio informal e demonstrativo do percurso de cada uma das pessoas em afirmar-se num mundo muitas vezes refratário e violento. Ao invés de hipóteses científicas, Solomon confrontou as ideias sociológicas e políticas contemporâneas às diferentes realidades com que se defrontam as pessoas nas suas peculiaridades existenciais. Mais do que uma reportagem extensiva acerca das situações-limite possíveis de experimentar-se, Longe da árvore é um divisor de águas sobretudo por abordar a experiência humana onde ela costuma ser mais invisibilizada.

Finalizado em 2017 e com uma breve passagem no Brasil no Festival do Rio do ano passado, Longe da árvore chega agora aos cinemas brasileiros em documentário homônimo realizado pela produtora e diretora Rachel Dretzin, ativista feminista e realizadora de diversos documentários acerca das questões identitárias nos Estados Unidos. Dentre as muitas pessoas interessadas em adaptar o livro de Solomon para as telas, Dretzin conquistou a confiança do autor ao procurar ampliar ainda mais o alcance do seu livro. Ao invés de simplesmente transferir e buscar as pessoas já entrevistadas por Solomon, ela foi buscar novos depoimentos e então costurar a sua própria versão da ideia original de Solomon. O resultado é um filme tão corajoso e tocante quanto o livro original e que tem sido aplaudido e premiado nos festivais em que vem sendo exibido, como nos recentes RiverRun International Film Festival e Montclair Film Festival’s.

Além de continuar ampliando o reconhecimento do livro original, o documentário realizado por Dretzin consegue por mérito próprio viabilizar a expansão da ideia central de Solomon. Baseado muito em sua própria experiência individual e familiar, de que a aceitação e o amor constituem valores que fundamentam e oferecem sentido à experiência humana, Solomon relata e compara a própria experiência em torno de sua homossexualidade às de pessoas em outras situações em que a diferença migra do sentido de distinção para o de diversidade. Mesmo nas situações mais dramáticas, como as que envolvem famílias de filhos envolvidos em crimes terríveis como os massacres de Columbine e outros semelhantes, Solomon assume a prevalência da afetividade e deixa para trás qualquer noção estigmatizante do ser humano.

Como uma sociologia às avessas, Longe da árvore é muito mais exemplar do que explicativo e sua força documental decompõe em certa medida as noções de identidade organizadas, por exemplo, em Erving Goffman, onde estão como que consolidadas. A “busca” empreendida em seu livro não se dá pela trajetória de personagens e nem pelo sopesamento de categorias teóricas, mas pela experiência humana como ela é e sem qualquer verniz de fantasia, indulgência ou, principalmente, vitimização. Pelo contrário, trata-se de pessoas que buscam reconstruir-se apesar das expectativas sociais e familiares mais corriqueiras. Não há um drama existencial específico em questão, mas a dramatização da vida social em seu sentido mais amplo.

Longe da árvore é um livro e agora documentário crucial para a compreensão da dimensão de complexidades que atendem a aceitação familiar e a inclusão social e afetiva das pessoas. Para além dos estereótipos, dos preconceitos e dos destinos inescapáveis, sua contribuição reside em alargar a experiência humana das bordas da trivialidade e da previsibilidade. Embora trate apenas indiretamente de pessoas com gigantismo (ele também trata disso), é um livro gigante em todos os aspectos. Se não é possível a ninguém escapar do inesperado, seu trabalho é humanizante em todos os aspectos. Premiado também por O demônio do meio-dia, que aborda a problemática da depressão, e Lugares distantes, no qual trata do drama do desterro das populações migrantes, recentemente também publicou uma série de textos inéditos e conferências sobre a a temática do suicídio. Também professor de psicologia clínica da Universidade de Columbia e consultor de saúde mental LGBT em Yale, com Um crime da solidão Solomon consolidou o seu nome entre os autores mais comprometidos com as questões contemporâneas mais sensíveis.

Por meio de uma promoção do Instituto Alana em parceria com o selo Believe Films, as exibições de Longe da árvore ocorrem desde o dia 19 de setembro em várias cidades brasileiras, em sessões que contarão com todos os recursos de acessibilidade (audiodescrição, libras e legendas em português para surdos usuários da Língua Portuguesa) e com a realização simultânea de debates abertos a respeito do filme e do livro. Além das exibições comerciais, também poderão ser programadas exibições do filme por escolas e entidades a partir de uma plataforma on-line mediante um cadastro simples e orientações que já estão disponíveis na internet.

O descolamento da poesia contemporânea

Não há nada melhor para fixar o retrato de uma geração de escritores do que a publicação de uma antologia “definitiva”. Isso é um dado histórico na literatura, não suposição pessoal. Idealmente, se chancelada por um figurão acadêmico, um “entendido”, a antologia costuma ser ao mesmo tempo celebração de alguns e pá de cal na esperança de muitos outros em pleitear um espacinho na glória, essa ambição imaterial e supostamente perpétua que tanto fascina os mais incautos espíritos quanto envenena as relações entre as pessoas. O paradoxo não é meu, eu apenas o noto e gostaria muito mesmo de estar errado em minha interpretação acerca da competitividade desembestada que há no meio literário contemporâneo e, talvez, de todos os tempos.

Há cerca de dois anos, o livro é de 2017, coube à compositora, cantora e diletante Adriana Calcanhoto a fixação de um cânone da poesia contemporânea. Escolhida pela mais influente editora nacional, a Companhia das Letras, Adriana simplesmente fez reunir o que a ela pareceu “ter a ver” (sic) com o seu próprio filtro. Com a ressalva de trazer em seu próprio título a denominação de “incompleta”, a antologia, de acordo com reportagem da Folha de São Paulo, poderia ter sido realizada em muitos volumes, mas a organizadora teria optado por fazê-la em um apenas, reunindo exemplos de 41 autores nascidos entre 1970 e 1990. Pouco tempo antes, uma antologia preparada a pedido da Folha de São Paulo tinha abarcado um universo um pouco maior, com 70 poetas.

Datando uma contemporaneidade essencialmente “jovem”, a antologia de Adriana parece ser sobretudo um mostruário de uma determinada dicção “jovem”. Para mim, que penso em “jovem” como um atributo dos adolescentes, o termo se esgotaria lá pelos vinte e poucos anos. Depois disso, o que vejo são adultos, muito embora nunca tenha sido tão complexa a definição destes limites. Seja como for, a antologia preparada por Adriana é realmente um cardápio de boa poesia, a meu gosto, embora certamente tenham ficado de fora dela outros excelentes poetas. É o imponderável em questão. Mas, ao contrário de denominá-la por “contemporânea” eu diria “recente” ou, sendo irônico mesmo, “descolada”.

Para além das acepções sociológicas, é preciso clarificar o fato de que contemporâneas são todas as pessoas vivas de um mesmo período de tempo, quer tenham vinte e poucos ou oitenta e tantos anos de vida. No que me importa dizer aqui, é a definição a que me atenho. Sob esse ponto de vista absolutamente geracional, é bem interessante o uso da antologia de Calcanhoto para observarem-se características comuns, influências, etc. No caso da antologia em questão, salta aos olhos uma semelhança notável no uso do verso livre, do coloquial quase crônica e também de uma estética liberal, ainda que não necessariamente libertária ou politicamente engajada. Se essas características podem resumir as qualidades de toda a poesia realizada atualmente, este é outro debate e, para mim ao menos, muito mais inacessível.

Não é preciso que eu diga o quão polêmico foi a publicação da antologia e o número de reclamações, postagens, discussões e etc. A julgar pelo prêmio Oceanos, um dos principais do país e no qual centenas de poetas anualmente inscrevem seus livros no afã de concorrer, é compreensível a grita. Não compreendê-la, sim, é o que seria incompreensível.

Ainda que noutra qualidade de polêmica, no mesmo ano, 2017, foi escolhido para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras o poeta, critico e professor de filosofia Antônio Cícero. Porque as unanimidades quase sempre ocorrem aos já falecidos, obviamente a escolha suscitou desagrados. Como o dito logo acima, seria incompreensível é se não suscitasse. Pode-se sem dúvida objetar pela qualidade literária de seus livros, pertinência, pela própria credibilidade da Academia, o que seja, mas a indicação sobretudo ofende exatamente essa noção de contemporaneidade. Cícero é um poeta que tanto escreve dentro de uma vertente formalista quanto mais livre, mas também flerta com a canção popular e, o mais grave de tudo, com a filosofia.

Nesse ponto, realmente a porca torce o rabo, desculpem-me o dito abrupto, porque se há um preconceito visceral da poesia brasileira é em relação à filosofia. Uma não pode ser a outra e, de fato, não ocupam o mesmo espaço nem requerem as mesmas características, mas fazem um namoro fascinante que poucos, como Cícero, conseguiram levar a um casamento. Isso é minha opinião. Os namoros da poesia brasileira com a filosofia ou, noutro extremo, com a canção popular, são sempre muito mais reclamados do que com uma possível tradição com o bom humor. Quando o flerte é com a filosofia, simplesmente ocorre o veto e a determinação estranhamente provém (no mais das vezes) mais dos poetas que dos filósofos. Nesse sentido, pelo menos, ocorreram recentemente debates acalorados nas páginas do mais importante jornal brasileiro e daí afora (ver o artigo em que Mariella Masagão acusa a poesia contemporânea de “sisuda” e “hermética”).

Mas eu não diria isso apenas de Cícero, outros poetas vivos (não tão joviais quanto os antologizados por Adriana) e atuantes também vão à berlinda com os temas metafísicos, do pensamento e da reflexão. Penso que são contemporâneos também e sobretudo porque sua temática não é casuística ou delimitada temporalmente. Nem maiores nem melhores que os outros, isso não, pois não é meu critério, mas me parece absolutamente incompreensível apontar a poesia contemporânea e, ao mesmo tempo, sepultar em vida poetas produtivos e com uma obra complexa ou obliterá-los em razão, ora veja-se, da sua “lírica”. Esse é que me parece ser, aliás, o descolamento mais impressionante da poesia contemporânea: para com a subjetividade. Isso que não estou falando aqui dos que não publicam ou deixaram de publicar (por n razões), mas continuam escrevendo. Ou seus “títulos” de poetas foram cassados porque seus nomes não estão nas feiras e festas literárias e antologias da hora?

Seja como for, na minha opinião, há muita injustiça no mundo e continuará havendo; sou muito pessimista em relação a isso. Eu apenas considero relevante apontá-la e suas nuances e implicações secundárias. Espero que seja tolerado por isso.

***

A título de curiosidade, porque foge ao assunto (ou o circunscreve), só há pouco fui assistir ao filme realizado em homenagem ao cantor Freddie Mercury, compositor e vocalista da banda de rock britânica Queen. No filme, além dos nostálgicos momentos musicais, há um momento breve que é muito tocante em meu ponto de vista. A cena transcorre quando a banda está dissolvida, antes do regresso no Live Aid, e Mercury está solitário, já se sabe soropositivo e tenta reatar com o restante dos músicos pois deseja volta a cantar com o grupo.

Num encontro promovido pelo produtor, os músicos aceitam conversar com aquele que os havia dispensado num surto arrogante. Antes de recebê-lo, porém, o guitarrista Brian May, devoto à genialidade do cantor e amigo, resolve dar um “gelo” em Mercury. Os demais integrantes da banda não irão simplesmente recebê-lo com uma festa. Então ele simplesmente alega que a banda tem de conversar um pouco sem a presença de Freddie para decidir. Acontece que os integrantes da banda não falam absolutamente nada. Não trocam uma palavra porque não tinham nada a dizer, mas queriam que o astro de carisma irresistível pensasse um pouco com seus botões, sozinho, e percebesse que precisava dos outros mais até do que eles precisavam dele. Faz parte de ser uma melhor pessoa reconhecer o caráter intrinsecamente humilhante que há na vaidade excessiva.

Essa noção de coadjuvar, de simplesmente “estar com” e de não “estar para este ou aquele” é em meu ponto de vista uma das faltas mais melancólicas da literatura, ainda que não expressa em versos e nem sempre mostrada tão bem quanto após o advento das redes sociais. Como diz o autor (também não antologizável, já que rapper) Mano Brown, “ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. Alguém o refutaria? É que é muito próprio das sociedades violentas, como o Brasil, a escassíssima simpatia para além das listas vip, dos círculos preferenciais, das panelinhas tediosas. Reconhecer a necessidade da presença dos outros não é um traço de grandeza ou nobreza, mas de reconhecimento devido, sobretudo de respeito interpessoal. E de um viés democrático que, infelizmente, não está tão evidente quanto gostaríamos em nosso cordial modo de ser.

Mas notem que nem sempre fomos assim ou, não sei, talvez tenhamos sido mesmo e só agora nos é facultado esclarecê-lo. Sempre que penso nisso, lembro-me dessa foto e, ainda que seja impossível entender o que passaria naquelas cabeças, eu nunca vejo nela um pódio. Mas eu sou um lírico, não contem comigo para espezinhar a malevolência humana. O que eu tenho mais dos poetas é um pouco de pena, porque julgo entender um pouco do que os anima. Para mim, são pobres estrelas desconsteladas, sobrando no vazio noturno, com suas arestas ferindo a poesia inacessível da noite..

Arvorezinha

A partir de Robert Walser

Todos dizem ter uma árvore que é sua na cidade. Ter duas é avareza.

A minha, vive numa rua na qual nunca entro. No meu caminho de todo o dia, ela sempre está na contramão ao meu destino. Mesmo assim, eu gasto esses segundos por dia pensando em quem teve a ideia de plantá-la ao invés de mim. Magrinha, quase imperceptível entre postes de luz e casinhas amarrotadas, de bairro, nem sombra tem a oferecer.

Já no campo as árvores não são de ninguém. Os animais não as reclamam mais do que precisam. Os pássaros ocupam-nas um pouco só e partem. Nem o vento se deposita em demasia, no pacto de manter intactas folhas e flores.

Por mais inóspita a cidade, todas têm dessas árvores com dono cujas vidas tem sido apenas ser esquecidas. Paradas, não cansam de esperar o regresso dos pés da criança que um dia a escalou, o bêbado que entendeu em suas raízes um improvável regaço. Ou nem que fosse o cortejo das cruéis formigas cortadeiras. Mas não vem ninguém. Todos passam.

Contra o céu enfumaçado, açodada, suspira a minha arvorezinha. E insinua um cansaço apenas pelos braços curvos. A um tempo solene e humilde, a verdade é que não é de ninguém. Nunca foi. Se ela pudesse, diria “nem sua”..

Nasce a Valentine

Se aos quinze anos alguém me dissesse que quase aos cinquenta eu me portaria na vida como um outsider, acho que eu não estranharia muito, mas me manteria um tanto incrédulo. Até porque a imagem convencional do outsider (até os outsiders têm uma imagem convencional) é a de um sujeito intrépido, desafiador e inconformado e nenhuma dessas imagens ou arquétipos casa muito bem com a minha. Ficam bem num Dylan Thomas, num Allen Ginsberg, num Jim Morrison, num Kurt Cobain, etc, mas não exatamente na minha que, como quem me conhece sabe, é bem menos (ao menos na aparência) atormentada. Também, isso é preciso dizer de uma vez, não fui um gênio literário aos quinze, portanto está tudo errado nessa composição (ok, talvez aquele cabelo desgrenhado e a barba mal feita enganasse a alguns). Apenas que, ao mesmo tempo, não está.

Acho que dei azar, certamente dei, ao ter me resolvido (ou me auto impelido) por voltar a escrever numa época de decadência do hábito da leitura. Não vou vaticinar aqui sobre o hábito de leitura amplo senso, que é um assunto muito discutido, delicado (e bombástico!), mas apenas falar da tendência realista e verificável de que o hábito de leitura tem sido absorvido, talvez como nenhum outro, pelo impacto da expansão tecnológica (isso falando no leitor mediano, conforme pesquisas têm revelado). Seja como for, não pretendo ponderar a respeito de toda essa problemática, mas apenas tomá-la como ponto de partida para explicar como cheguei aqui.

Poucos anos antes de morrer, o escritor norte-americano Philip Roth também previra que esse hábito (o da escrita ficcional) logo acabaria, já estava acabando e, portanto, parecia-lhe um contrassenso alguém investir seu tempo nisso. Antes de eclodir a segunda Grande Guerra, Walter Benjamin também advertira que “a cotação da experiência baixou”, continuando terrivelmente a seguir dizendo que continuará baixando “até desaparecer por completo”. Talvez (e vejo às vezes muitos escritores aconselhando-se a isso) o melhor fosse que todos passassem a roteiristas, uma vez que, assim como o romance ficcional predominou no lazer cultural até algum momento impreciso do último século, hoje poucos se atreveriam a questionar a preponderância do meio audiovisual e do seu objeto mais consumido: as mui difundidas séries televisivas. De um ponto de vista de mercado, já chega a parecer que nem a coexistência pacífica seria mais suficiente, dado que a oferta já não mais encontra uma procura correspondente, e dizer isso, embora triste, também é apenas tentar ser minimamente realista.

Eu concordo com o que Philip Roth disse, mas acontece que o ímpeto de escrever é meio que inelutável. Ou inevitável até, porque a escrita não começa no papel ou na tela em branco, mas na mente. Então escrever, pelo menos no meu caso, é apenas uma questão de amarrar pontos. De chegar a um termo nas ideias depois de mastigá-las mais ou menos demoradamente. Não fecha muito comigo o termo “compulsão”, acho que não; muito mais me serve “necessidade”, porque o tempo da literatura muitas vezes me parece como uma ou mais dilatações do tempo real ou, pelo menos, de desembestadas tentativas de ir para além da obviedade factual da vida histórica e cotidiana.

Para além disso tudo, pelo menos quanto a mim, é um momento de estar livre com o próprio pensamento. E, por isso talvez, por uma indisposição contemporânea ao tempo de reflexão do outro, a literatura hoje possa soar um tanto quanto “desnecessária”. Ok. Não vamos discutir aqui sobre preferências nem sobre o “contemporâneo”. Não é mesmo o caso disso e não haveria tempo e argumentação que bastasse.

Também é preciso levar em consideração quem entenda a coisa toda como uma procura por status social. É claro que existe e isso é muitíssimo evidente nessa novíssima esfera pública virtual: a internet. Essa é teoria da psicologia do gosto e do consumo conspícuo. Como não possui uma função prática, a produção artística seria mera tática de impressionar os demais, sejam estes os vizinhos, os alvos sexuais, os colegas, a família, quem dera a humanidade… Porém essa é uma situação que a idade (está bem, “avançada”) me permite desprezar e transcendê-la. A essa altura, não tenho pretensão alguma de impressionar a quem quer que seja. Bem como o mais resguardado poeta brasileiro, Dante Milano, penso que a busca pela glória (estrepito y ceniza, segundo Jorge Luis Borges) deveria pressupor o desejo de admiração da humanidade, mas, para ele, essa admiração dependeria igualmente da sua admiração individual “pela” humanidade e esta, segundo escreveu, infelizmente inspirava-lhe muito mais piedade que admiração… Daí certa dificuldade que também compartilho.

Muitos escritores gostam de, por falsérrima modéstia, mencionar seus poucos leitores. Bem, esse é o meu caso real e, sendo o mais honesto que consigo, sempre me senti tranquilo com isso. Esse, talvez, seja um privilégio de ter retomado a escrita já adulto, quase aos quarenta anos. Escrever sem nenhuma pretensão acessória me parece mesmo uma espécie de luxúria literária. Também há que, à exceção dos ghost-writers e roteiristas contratuais, não há muitos bons escritores que se organizem em torno a ideias “necessárias”.

A atividade da escrita, com efeito, é sempre “não solicitada” e, deste modo, é uma sujeição que o autor faz em relação aos seus leitores, mesmo que seu número restrinja-se a casa decimal. Não é esta miserabilidade, no entanto, a que mais costuma afligir aos autores literários, mas a espectral “fortuna crítica” e suas manifestações corpóreas: a reputação e o reconhecimento. Vem daí que o sistema literário possa estar, em razão de uma crescente especialização e elitização, migrando cada vez mais claramente para um modelo mercantil no qual o livro e a literatura passam a ocupar e disputar espaço entre muitos outros objetos culturais e, pelo tempo e dedicação que a leitura exige, atualmente em grande desvantagem. Pelo menos eu penso assim.

Já disse isso uma vez: não tenho nada contra o sistema literário nem contra o mercado literário. Muito menos, entretanto, tenho a favor. Já ouvi e li de muitos escritores sobre suas motivações e nunca me senti totalmente representado. A opinião preponderante de que livros são escritos para serem lidos, aliás, me parece das mais problemáticas. Tudo que já escrevi na vida foi, em primeiro lugar, para ser escrito. Caso alguém tenha lido e gostado, ou venha a ler e a gostar, eu só posso achar isso impressionante, pois um escritor que escreve focado na audiência é uma pessoa talhada para a mediocridade, ainda que seja alguém que conte com uma repercussão unânime. Nada de muito interessante pode resultar de quem se dedica a escrever para agradar a quem quer que seja ou por edulcorar o status quo, qualquer que seja ele.

Nesse ponto, concordo com Charles Bukowski quando ele diz que “if you first have to read it to your wife / or your girlfriend or your boyfriend / or your parents or to anybody at all, / you’re not ready” (se tens que o ler primeiro à tua mulher / ou namorada ou namorado / ou pais ou a quem quer que seja, / não estás preparado). Ocorre que, pelo menos no sistema literário corrente, é isso que veladamente se tem solicitado aos escritores. Obviamente que não de uma forma explícita, contratual, mas de uma implícita nos escritórios das editoras, nas reuniões dos conselhos editoriais, nas decisões de premiações e também nas bancas de pós-graduação, que é de onde mais recentemente se tem chancelado e exarado o que é hoje entendido como o “literário”.

Penso que não é difícil entender como, afinal, acabem por existir uma ou mais tendências outsider na literatura. Existem porque o sistema é estreito, um curral, um caixotinho. E o mais estranho é perceber que, se a internet tenderia a permeabilizar e/ou facilitar o trânsito de novas experiências, ela tem acabado mesmo é por contribuir na guetificação pactuada entre autores, leitores e publicações. Vou tentar exemplificar, a seguir, minha compreensão com um pouco da minha própria experiência.

Atualmente, com a expansão das facilidades tecnológicas que há, a primeira barreira editorial parece estar mesmo superada, ou seja, dificilmente um autor não vai encontrar editora que o publique, basta que ele se submeta ao critério comercial de pagar antecipadamente pela publicação. Desculpem-me se lhes apresento alguma novidade, mas é como as coisas realmente são. Isso, todavia, nada tem a ver com a consecutiva decência do trabalho editorial no que confere desde a revisão ortográfica e gramatical até a fase final do trabalho: sua distribuição comercial. Não é o mais grave. Muito piores são os profissionais do ramo que exigem dos seus contratados uma vocação extra: a de marqueteiros. Sei por mim mesmo que há casas editoriais muito criteriosas que submetem autores a comprovar o número de seguidores em redes sociais e que isso consiste, pasmem, em critério definitivo para a publicação. Nada disso de leitura técnica. Nada disso de “parecer”. Um formulário preenchido na internet e uma vasculhada no nome do proponente resolvem tudo. É isso.

Pois é nesse ponto da situação que o canto dos outsiders volta a me soar como o único possível, mesmo em se tratando de indivíduos já um tanto “longevos” para o termo, como eu. É que não dá para encarar isso aos cinquenta com (ou contra) uma geração inteira que acredita que assim é que as coisas são e devem ser, justamente fortalecendo essa dinâmica. Simplesmente, é preciso guardar a viola no saco ou, como desejo fazer, cantar à minha própria maneira, nem que pareça em direção à parede. Não me importo e por razões muito simples: não tenho tempo ou paciência e muito menos vocação para a autopromoção, essa que é a forma ultraneoliberal de viver que a internet veio coroar. Além disso, prefiro usar esse tempo indefinido que me resta lendo outras coisas (minha lista de débitos é irrecuperável), e talvez ainda mentalizar outras ideias e projetos… Não sei. Não julgo quem faça as coisas de outra maneira, mas estas são as minhas possibilidades reais. E o tempo, claro, urge e ruge.

Espero que tenha sido claro que essa atitude, essa posição, não significa o mesmo que dizer que nenhuma casa editorial seja digna ou séria. Realmente não é essa minha intenção, porque as conheço e poderia elencá-las se desejasse, mas não é o caso. Isso, todavia, não me faz sobrevalorizá-las. Nunca é demais lembrar que foram empresas desse ramo que rejeitaram Proust, Faulkner, Gertrude Stein, Cummings, Kipling, Orwell, Joyce e até fenômenos de vendas como Agatha Christie e Stephen King. Por essa razão, acho bem razoável ter prudência com o ramo. Nada contra, no entanto, obviamente, a sua existência e razão de ser. E longe de mim querer dizer-me incompreendido pelo “sistema”. Não poderia, pois mal cheguei a dirigir-me a ele…

Dito isso (sei que já fui bastante longe, mas para mim é importante dizer isso tudo), há algum tempo venho testando algumas alternativas editoriais. Alternativas que me parecem mais adequadas a um modelo, digamos, mais sustentável de publicação. Como quem já passou pela experiência convencional, não acho mais possível nem honesto bancar grandes tiragens para nada. Também não vou me engajar no endomarketing. Definitivamente, não é para mim. Minha ideia é bem mais modesta e começou com testes que fiz no sistema de publicações impressas da gigante Amazon.com. Aconteceu que eu desejei ver como ficaria o resultado visual de algumas coisas nas quais trabalhei e fui dessa maneira organizando tudo o que havia escrito na última década, em revisões bastante radicais que às vezes duraram muitos anos até chegar ao ponto que desejava.

Para minha grata surpresa, o resultado gráfico se mostrou muito razoável tanto na qualidade do papel interno como nas capas. A única desvantagem é que não comporta as famosas “orelhas” e elaborações gráficas mais personalizadas. Mas mesmo isso tem um lado bom, que é o de não precisar pedir aos amigos a redação de apresentações e etc. Dessa forma, quem vier a ler terá de decidir se valeu ou não a pena por sua própria conta. É uma dispensa arriscada a de jogar-se nesse mundo sem quem me apresente, mas estamos aqui falando em outsiders, não é mesmo?

Antes de concluir (de verdade), eu gostaria de dizer que o mais difícil para um escritor nem é tanto escrever bem quanto escrever algo que interesse às pessoas. Mas confundir esse fabvro com oportunismo ideológico ou mercadológico é um veneno que se encontra disponível inclusive aos mais talentosos ou bem intencionados. Se eu fosse um tiquinho preconceituoso, pensaria ao ver de longe o que estou fazendo como algo ridículo ou inadequado ou nem saberia o que pensar a respeito. No fundo, essa iniciativa toda tem apenas um mérito: o econômico. Nem que eu quisesse alguém toparia editar e publicar de uma vez só oito livros e, nem que eu quisesse também, nesse modelo comercial vigente, teria eu recursos para financiar isso tudo.

Então a situação toda obedece, no fim das contas, à possibilidade de eu gerenciar a minha vida e em não ser gerenciado por demandas e exigências de ninguém mais. Eu acho isso muito bom. No entanto, nem por hipótese menosprezo o trabalho de quem se relaciona com o mercado editorial de outra maneira. Então, mesmo sabendo do preconceito em torno à autopublicação, estou bem tranquilo com a minha opção. Não há que sentir compaixão por isso porque se trata de uma atitude meramente racional. Não estou fazendo isso porque não encontrei quem me publicasse, mas, das condições que pude conhecer, nenhuma me serviu. E, depois, me enjoei um pouco da ideia de publicar, é verdade.. Se, a partir daí, me surgir uma nova ideia ou conseguir proposta menos aviltante, volto a pensar noutra forma de fazer as coisas.

Por ora, vai ser assim mesmo. Afinal, o bom da liberdade é que cada um vive como quer, escolhe o que lê ou não lê e não precisa justificar-se para ninguém. Para mim, tentar portar-me como um outsider quase aos cinquenta é apenas uma forma de resistir à desistência, por isso só peço que não sejam complacentes. Um livro (ou oito) pode ser muito bom e interessante para uma pessoa e péssima experiência para outra. Mas isso é da vida! Não há que se queixar por essa razão e, aliás, por nenhuma outra.

Saiba mais em http://ed-valentine.com

Da literatura indianista à literatura indígena

Custou muito tempo para que a representação literária dos povos indígenas superasse aquela formalizada no “indianismo” brasileiro. Trata-se, a bem da verdade, de um processo ainda não concluído. Não é que Gonçalves Dias e José de Alencar tenham sido irrepreensíveis em seu trabalho, mas a marginalização das identidades indígenas brasileiras por mais de um século competiu na manutenção de uma visão estereotipada da realidade e condições de vida dos povos originários. Nesse julgamento, de certo modo fosse mais correto inocentar os autores românticos e denunciar, talvez, o interesse pitoresco da sociedade brasileira para com uma população que, a despeito das mais variadas investidas e violências, atravessou os séculos garantindo sua sobrevivência e autonomia cultural.

Desde a conclusão de O Guarani, provavelmente a obra máxima do indianismo brasileiro, quando a insólita união de um indígena com a filha dos colonizadores acontece de forma mirabolante, parece que certo caráter imobilista veio encerrando (ou encarcerando) a imaginação literária brasileira em respeito ao índio enquanto motivo literário. Seja como tentativa de concretização artificial de certa visão iluminista, seja como pretensão de desvencilhar os povos indígenas de qualquer relação com a sociedade contemporânea e, nesse sentido, corroborar seu estatuto civil de “incapazes”, desde as últimas décadas do séc. XX esta composição passou paulatinamente a perder força e sentido. Foi com a insurgência de um novo movimento social indígena gestado desde a conformação da chamada Nova República, ou seja, do Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, que os povos indígenas passaram a integrar e atuar politicamente de forma mais decisiva e, consequentemente, sua literatura ganhou novos contornos. O marco editorial deste período é o livro Antes o Mundo não Existia, de Umúsin Panlõn & Tolamãn Kenhíri, pertencentes ao povo Desâna, do Alto Rio Negro/AM, considerado o primeiro livro editado de autoria indígena.

A partir desse momento histórico do qual emergem os primeiros cursos interculturais de formação entre os povos indígenas e o letramento em português começa a possibilitar-se o registro das tradições orais, cerimoniais, narrativas tradicionais e todo o repertório identitário que vai constituindo aos poucos o que hoje se entende por “literatura indígena”. A consolidação do termo, todavia, ainda é muito debatida e a percepção de mais de 300 idiomas particulares dificulta a tarefa, sobretudo quando se torna possível apenas denominá-la aquele escrita em português, ou seja, aquela acessível ao povo não-índio.

Antes que se fizessem notar pela própria produção cultural, grande parte dos saberes tradicionais dos povos indígenas foi transcriada pelo etnografia e também pelos estudiosos do folclore brasileiro, como Silvio Romero e Câmara Cascudo, no passado, e, mais recentemente, com Claude Lévi-Strauss e Darcy Ribeiro. Na literatura brasileira, desde o período romântico passando-se pelo modernismo e chegando nas manifestações mais contemporâneas, a presença do indígena é quase toda ela meramente incidental. Com exceção de alguns poucos autores, como Mário de Andrade em Macunaíma e Guimarães Rosa com Meu tio o Iauaretê, sempre havia sido necessária a transfiguração do mundo indígena pelo mundo branco, como aponta Luzia Aparecida Oliva dos Santos, no trabalho de doutorado que resultou no livro O percurso da indianidade na literatura brasileira : matizes da figuração, editado pela UNESP no ano de 2009.

Para a pesquisadora, não é por acaso que o indígena compõe os fundamentos da incipiente literatura nacional do séc. XIX, mas por garantir-lhe uma noção de pureza original, fundacional, na qual não cabe a representação da realidade violenta da conquista, mas a cristalização do mito selvagem e da inauguração de uma unidade histórica pacífica idealizada a partir da ótica exclusiva do colonizador português e as escolhas pontuais de uma imagem projetada para ser justamente seminal:

“Ao lado do aparato histórico, marcado pela Independência política do país, o romantismo brasileiro relê a infância da literatura pelo viés histórico-nacionalista, apontando para o futuro da nação a partir de suas raízes, recuperadas nas lendas indígenas e em seus mitos, que deslocam para o eixo tríplice natureza, etnia e língua o espaço de construção do princípio regulador, capaz de instaurar a literatura nacional.” (SANTOS, 2009, p. 149)

Ainda que seja também um livro da tradição etnográfica, A queda do céu, de David Kopenawa e Bruce Albert é um trabalho sem precedentes para o campo antropológico brasileiro dos estudos indígenas e também do literário. Primeiramente escrito em francês e depois traduzido para o português, o livro é a transcriação de um convívio de muitas décadas entre o antropólogo francês e o xamã yanomani no qual é apanhada toda a cosmogonia indígena. Nas três seções e oito capítulos do livro são desveladas a iniciação do xamã, o contato destrutivo com o “povo da mercadoria”, isto é, o homem branco, e as impressões dele a respeito do destino do seu povo e de toda a civilização.

Dentro da emergência de um discurso político indígena, o trabalho de Kopenawa e Albert, além de situar a continuidade social e histórica dá relação povos indígenas e não-indígenas, instaura um campo de subversão simbólica. Nas palavras de Albert, o que se revela é “todo um processo político-cultural de adaptação criativa que gera as condições de possibilidade de um campo de negociação interétnica onde o discurso colonial possa ser contornado ou subvertido” (ALBERT, 1995, p. 4). Toda essa negociação passa, evidentemente, pela superação de qualquer noção teatral do modo de vida da população yanomani. Pelo contrário, o livro é um registro incomparável das formas de resistência subjetiva de uma comunidade tradicional que não apenas não percebe ganhos na relação com a civilização ocidental como ela é vendida, como ousa confrontá-la na sua dimensão destruidora, representada principalmente na persistência de um modelo econômico extrativista de relação com a floresta e os recursos naturais.

Ao passo em que se multiplicaram os estudos antropológicos e literários em torno da obra de Kopenawa e Albert, muitos outros autores indígenas ganharam nitidez no mercado editorial e estudos acadêmicos[1]. Além de Kopenawa, outros autores indígenas têm publicado seus livros com grande repercussão na crítica e no mercado editorial. Dentre muitos, pode-se citar Daniel Munduruku, Cristino Wapichana e Eliane Potiguara. No entanto, poucos como Ailton Krenak têm estado tão evidentes.

Líder político dos krenak de Minas Gerais, povo recém vitimado pelo desastre da barragem de Mariana, Ailton Krenak é jornalista e ambientalista de longa data. Ficou conhecido nacionalmente ao defender os direitos indígenas na Assembleia Constituinte de 1988, pintando o rosto com tinta jenipapo ao tempo em que discursava. Seu mais recente livro, editado pela Companhia das Letras e intitulado Ideias para adiar o fim do mundo, também busca fazer uma tentativa de alerta para toda a sociedade brasileira quanto ao risco ambiental. Em um vídeo gravado para o Itaú Cultural há poucos anos, Krenak realiza um questionamento vital a respeito da literatura indígena. Para Krenak, até aqui o interesse social em torno da temática indígena tem sido muito semelhante àquele indianista, do período romântico, idealizado e inocente. Para ele, é chegado o momento de desafiar a história e a contemporaneidade com dados mais realistas a respeito dos povos indígenas e descolonizar (sic) a cultura nacional.

Se a literatura é um campo simbólico privilegiado no qual traços culturais e valores são contrabalanceados, tendo em vista que a própria sobrevivência de tribos e nações inteiras está sempre em jogo, a presença indígena consegue ser no tempo atual das mais impactantes. Mais do que isso, segundo palavras do próprio Krenak, os indígenas não procuram lutar por sua terra, mas pela terra e pela sobrevivência de todos, de todas as dimensões da natureza. A despeito da história brutalizante de violência sobre violência, a literatura indígena é um sopro de vitalidade e esperança em meio a um tempo que se anuncia cada vez mais breve, antes que o céu desabe, como diz Kopenawa. Na ausência de um consenso sobre o bem estar da sociedade, é imprescindível conhecer a literatura indígena e não por uma questão de identidade, mas cada vez mais pela necessidade de aprendizado para a sobrevivência.

Referências

ALBERT, Bruce. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. Série Antropologia, 174. Brasília: UNB, 1995. 33 p.

CASTRO, Eduardo Viveiros de Castro. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: A inconstância da alma selvagem., p. 301-346.

KOPENAWA, David; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 729 p.

KRENAK, Ailton. Ecologia Política. Ethnoscientia, [S.l.], v. 3, n. 2, ago. 2018. ISSN 2448-1998. Disponível em: <http://www.ethnoscientia.com/index.php/revista/article/view/193>. Acesso em: 17 Jul. 2019. doi:http://dx.doi.org/10.22276/ethnoscientia.v3i2.193.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo : Companhia das Letras, 2019. 98 p.

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção [recurso eletrônico] / Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.) – Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. 424 p.

SANTOS, Luzia Aparecida Oliva dos. O percurso da indianidade na literatura brasileira: matizes da figuração. São Paulo : UNESP, 2009. 447 p.

[1] Uma boa ideia dessa produção literária e ao mesmo tempo militante pode ser obtida no livro Literatura indígena brasileira contemporânea: criação crítica e recepção, publicação da Editora Fi/Acesso aberto, de 2018.

Dez contos (ou crônicas) para uma playlist

Não foi tarefa fácil a que escolhi. Em primeiro porque a música popular brasileira é, na minha memória afetiva, predominante. Um hábito familiar do qual jamais declinei em favor de outros estilos e que aprecio desde que me entendo escutador, e isso é mesmo bem remoto no meu caso. Não é difícil explicar: embora nunca profissionalmente, minha mãe tem sempre cantado e cantarolado na sua vida. Creio que, como os demais nascidos no apogeu da era do rádio, a música popular lhe ensinou do mundo até mais que os livros. No interior mais interno do interior, na sua época, só o mesmo o rádio tinha esse poder.

É importante dizer que esta escolha não obedece a nenhum critério de preferência, classificatório, mas apenas elenca, dentro muitos, dez exemplos de quando a música popular brasileira foi literária para além do poético que lhe é comum. De quando foi narrativa da mesma forma de um conto, breve e contundente, e também de quando foi, como crônica, mais calcada na revelação do espírito de um tempo qualquer. Esse, variável por natureza.

Mas não será da sua memória que fiz minhas escolhas, mas da minha própria e de como fui identificando aqui e ali os traços que me permitiram distinguir entre a vertente mais poética da música popular e onde ela se embrenhou, por outro lado, nos meandros da narratividade.

Os exemplos são incalculáveis, em se tratando da música brasileira. No entanto, é preciso aqui traçar um recorte e não será casual, mas escolhido entre os mais de centenas de milhares de registros da música brasileira. Esses dados aproximados são do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, que reúne informações de mais de 5.000 compositores brasileiros.

Foi uma aventura das mais agradáveis, afirmo e confirmo, mas precisei me deter naquelas composições que estavam mesmo registradas na minha memória afetiva. Seja pelo impacto ou pela percepção de uma voz narrativa, o que mais este trabalho me mostrou é uma grande vocação do povo brasileiro em contar-se, isso de um modo mais historicista ou constituído pela expressão de quem deseja registrar uma experiência comum, de todos os homens, configurando-se no que talvez se pudesse chamar de “crônica”.

Pois a música popular brasileira tem muito conto, mas também muita crônica. Para mim, pessoa nascida e desenvolvida em meio aos anos 70 e 80 do séc. XX, foi como rever momentos em que entendi muito do meu país, das suas peculiaridades locais e talvez até a certo espírito (às vezes mais recalcado, às vezes mais evidente) de nacionalidade. Hoje seria bem difícil, creio eu, para quem começa a ouvir música popular identificar elementos assim, mas a música tem, para além de uma facilidade em ultrapassar fronteiras formais da expressão, uma potência comunicativa incrível. Nesse território, não convém mesmo duvidar de nada.

Abaixo, não me alongando mais, relaciono alguns destes momentos nos quais a experiência estética literária me parece ter se fundido incomparavelmente à sinestesia da música popular brasileira. E, se me cabe esse tipo de consideração (se não, desculpem-me), a mais impressionante de todo o mundo, como certa vez afirmou o “bruxo” Hermeto Paschoal.

Minha playlist começa por duas músicas com temática rural. Parecem-me contos em sua capacidade de deter a atenção do ouvinte do começo ao desfecho e da riqueza entre esses dois extremos. Por primeiro, a voz mais do coração que já pude ouvir, Milton Nascimento. A canção chama-se “Morro Velho” e é um conto (desculpe professor, não tenho dúvida disso) daqueles que fazem um torção na alma da gente, ainda que seja “correndo atrás de passarinho”. Em seguida, na mesma toada, já fui colocando o menestrel Elomar Figueira de Mello. A sua “Arrumação” o que é senão um desafio a entender a linguagem do povo do sertão na sua própria maneira de dizer? De um povo que conta e espera a chuva para “plantar feijão no pó”? É só danos… Aqui, se a lista fosse ainda maior, sem dúvida encontraria desde o mais popular cantor do Rio Grande do Sul, Teixeirinha, exemplos formidáveis de contos. Todavia, como a lista é curta e o tempo também, vou adiante.

Minha próxima parada é a boa Bahia. Em Gilberto Gil, como não notar a mão oculta do narrador naquele “Domingo no Parque“, no qual Juliana se via triangulando, igual aos pés dos capoeiristas? Foi que ele viu… No segundo ponto, mesma parada, vejo o mano de Bethânia, Caetano, reconstituindo em prosa, como um redivivo Homero, a história de ninguém menos que Alexandre, cujo pai “foi um raio que veio do céu”. Pobre Felipe, também não resistiu à concorrência do glorioso Zeus…

Numa mudança radical, porque o Brasil é mesmo radical, encontro certo poeta, Luiz Gonzaga Jr, carioca de nascença e brasileiro em essência, uma perda precoce e absurda, e que deu vida ao “filho da Dina“… Passado é um pé no chão e um sabiá.

Só que não para. Ainda tem no caminho certo Luiz Melodia dizendo como deveria ser lhe matar de amor no Holly Estácio, certa Pérola Negra, numa crônica absoluta e definitiva do Brasil negro de 1973, mas tente esquecer em que ano estamos.

Alguns aventam (eu tenho quase certeza) que os períodos mais difíceis, mais duros da história também são os mais criativos. Quem melhor atestaria isso que a dupla João Bosco e Aldir Blanc, com um flagrante “De frente pro crime“, ou com a história épica de um menino, um Deus de bermuda e pé-de-chinelo, que nem os Orixás livraram da barbaridade de um “Tiro de Misericórdia” (por que mesmo nos abandonamos em cada cruz?)…

Um longa estadia se poderia fazer com aquele que tirou do anonimato Geni, o Meu Guri e tantos outros, incontáveis.Mas já ficaria demais e não daria tempo de dizer dos meninos que, com guitarras, lá nos anos 80, escolheram não ficar de costas pro Brasil, como dizia Fernando Brant, e botaram pra quebrar porque, afinal, isso é que é rock and roll. Estou falando claro, das histórias de Eduardo e Mônica, de certo interminável Faroeste Caboclo, de Bete Balanço por aí e mais uma enormidade de personagens e situações marcadas pelo capítulo da história da música brasileira que atende por rock nacional.

Como não há epílogo na história, ainda há que não esquecer-se do fenômeno do rap, Racionais MC’s e a saga de Guina, o que não tinha dó, em “Tô ouvindo alguém chamar meu nome?”. Aqueles manos são foda…

Já passam de dez (é um excesso), acho que posso parar aqui. As vozes de todos continuam. São como as nossas. De certo modo, dizem muito por nós. E como dizem… E, como dizia o já citado Gonzaguinha, o futuro é o que virá.

A terra inabitável

O twitter de David Wallace-Wells nunca mais foi o mesmo depois de 09 de julho de 2017. Nesse dia, na New York Magazine, onde é editor-assistente e articulista, ele publicou um artigo desconcertante a respeito das mudanças climáticas em curso no mundo contemporâneo. Além do título assustador, A terra inabitável, digno dos clássicos filmes do gênero catástrofe, no artigo Wallace-Wells fazia o apanhado visionário distópico mais aterrador sobre as condições climáticas e ambientais do planeta desde que o ex-vice-presidente Al Gore lançou em 2006 o seu documentário Uma verdade inconveniente.

Desde então, o jornalista se tornou um dos grandes protagonistas da retomada das discussões em torno dos impactos imediatos que cercam a questão ambiental, absorvendo tanto o pânico da população quanto críticas severas de setores que tentam minorar sua advertência e converter seu livro apenas numa indigesta presença entre os bests-sellers de cabeceira lançados no início deste século. A estratégia de esfumaçamento seria mais eficiente se Wallace-Wells estivesse mal informado, usando de má-fé ou escrevesse mal. Nada disso acontece. Seu livro consegue ser um trabalho de reportagem de primeira linha e obra de não ficção que não se consegue largar desde a primeira frase.

“É pior, muito pior do que você imagina”, ele adverte a seus leitores para que deitem fora de imediato suas ilusões quanto aos efeitos perniciosos e devastadores das mudanças climáticas não serem tão sérios assim. Neste ponto do livro, em sua primeira frase, talvez as pessoas mais amedrontadas já desistam de encarar a série de evidências que ele vai descortinar num livro que o premiado jornalista Andrew Solomon classificou como “um meteoro”. Não fosse uma metáfora do desastre que possivelmente levou à extinção no passado remoto do planeta os grandes répteis e as primeiras formas de vida, talvez se pudesse dizer que seu livro tem a pretensão de evitar que efeito semelhante àquele possa ocorrer novamente, mas agora por obra exclusiva dos seres humanos e suas opções de produção e sobrevivência.

Cerca de dois anos após a publicação do artigo, Wallace-Wells o expandiu e aprimorou até transformá-lo no livro que a Companhia das Letras está lançando agora no Brasil. Acrescido do subtítulo sugestivo “uma história do futuro”, ele inicialmente parece seguir a linha de outros autores que têm se dedicado a perscrutar o futuro iminente. Ocorre que, diferentemente de historiadores como o israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e 21 lições para o século XXI, Wallace-Wells especula calcado na realidade presente e demonstra com clareza científica suas teses para lá de desconfortáveis. Em seu livro não há, portanto, suposições, mas constatações documentadas. É o tipo de exigência que todo jornalista científico, aliás, deveria fazer antes de provocar estardalhaço ou, da mesma forma, quando visa amortecer narrativamente a realidade. As razões de sua preocupação, se não fossem comuns ao interesse de sobrevivência da humanidade, poderiam ser descartadas solenemente. Seria o mesmo que legar às gerações futuras (não as remotíssimas, mas as que já estão aí) mais do mesmo descaso ambiental que nos trouxe ao colapso da vida marinha, ao esgotamento da camada de proteção à radiação ionizante, ao comprometimento da potabilidade dos mananciais de água e até mesmo das condições atmosféricas.

Nesse desdobrar de capítulos que não permite descanso, consolo ou desculpas, Wallace-Wells desbarata as camadas de coragem que qualquer pessoa minimamente consciente consegue ter quanto à realidade das condições ambientais do planeta. Este efeito é evidentemente por ele pretendido ao dar forma e conteúdo ao seu livro, mas consegue ser ainda mais eficaz pela capacidade de não aliviar nem por um instante os temores mais singelos em relação ao breve futuro ou, ainda mais grave, ao próprio tempo presente. Explica-se sua estratégia argumentativa: a todo o tempo Wallace-Wells lembra que a capacidade adaptativa dos seres humanos é muito grande e, por essa razão, a margem de tolerabilidade com condições degradadas vem ampliando-se na mesma proporção em que se deterioram as condições de vida do planeta decorrentes da atividade econômica e da imprudência humana.

Uma das mais contundentes críticas que A terra inabitável vem recebendo diz respeito justamente a um suposto enfrentamento das condições de produção capitalistas. Não é para tanto, pois Wallace-Wells guarda algumas de suas apostas em medidas de contenção e, principalmente, reorganização produtiva. Apesar de que ele não deixe de apontar soluções políticas e medidas de enfrentamento para situações críticas, é natural que seu livro venha a conflitar com projetos políticos calcados no extrativismo, na economia baseada em alto consumo e taxas de emissão de carbono e numa industrialização inconsequente. Em sua defesa, Wallace-Wells tem dito que privilegiou o enfoque na problemática sem deixar de lado o trabalho já existente em prol da sustentabilidade. Apenas este aspecto não foi mais explorado em seu livro, segundo ele, porque os investimentos irresponsáveis têm sido cada vez mais agressivos e atingido sobremaneira os países menos comprometidos em educar a sociedade para o desafio de iminentes – ou já presentes – pequenos colapsos que, se não freados, conduzirão o século 21 a um momento verdadeiramente dramático na história da humanidade.

Ainda que a pecha de alarmismo seja de difícil remoção, é interessante lembrar que o livro de Wallace-Wells foi publicado nos EUA (segundo suas palavras, o país mais negacionista do planeta) poucos meses após a divulgação do relatório especial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2018 (IPCC). Taxado por ambientalistas mais radicais como um relatório conservador, pela primeira vez o tom emitido pelas Nações Unidas valeu-se de termos como, por exemplo, “catástrofe”. Isso ocorreria, segundo os levantamentos globais, caso não se obtenha a limitação de aumento de temperatura global em torno de 1,5 graus Celsius, a fim de que se preservem condições mínimas para a atividade agrícola e integridade da saúde humana. Isso é menos que o limite convencionado em 2 graus e Wallace-Wells prevê que sem uma transição rápida nos modelos de transporte e consumo de combustíveis fósseis, em 2050 provavelmente já se terá alcançado um incremento de 3 graus centígrados na temperatura do planeta.

2050, aliás, é uma data que os autores dedicados a pensar o futuro da humanidade costumam valer-se para traçar um limite. Enquanto Wallace-Wells aponta que será o ano em que haverá a mesma proporção de água e plástico nos oceanos, Yuval Harari diz, por exemplo, que a data coincidirá com estágio no qual o desenvolvimento de inteligência artificial terá superado a capacidade de gestão humana e passará a depender cada vez mais de si própria. Mesmo que as questões ambientais muitas vezes se confundam a séries ou filmes distópicos, é difícil de acreditar que por um passe de mágica haverá uma tomada de consciência global e mudanças efetivas no encaminhamento de soluções para os seres humanos que viverão ou atravessarão este século para o próximo. O desafio, segundo o autor de A terra inabitável, não poderia ser mais tremendo. E como os advogados das soluções estritamente tecnológicas não têm obtido melhores indicadores ou empregado recursos suficientes em prol de sanar os problemas já presentes, o livro de Wallace-Wells cumpre muito adequadamente a função de alertar a sociedade global quanto à gravidade da situação ambiental. Melhor seria se não houvesse razão para alarme, mas, havendo, não é nada mau que seja de forma tão consistente e arrebatadora quanto ele faz.