2016 e a tangente à curva

2016

Ninguém sabe exatamente quando o tempo passou a ser circular nem quando um artigo que se pretende sério passou a ter de ser iniciado da mesma forma de um conto de ficção científica, mas qualquer um que deseje contar o ano de 2016 sentirá necessidade de primeiramente derribar-se das medidas convencionais do tempo e aceitar apenas embarcar num dado momento da jornada. Casualmente, neste 2016.

Em janeiro, ainda dentro da paisagem distópica e aterradora da tragédia do rompimento da barragem de Mariana, o ano começava (ou o tempo continuava) não muito diferente do que terminaria para aquelas pessoas atingidas: sem sinal de quaisquer providências nem de punição dos responsáveis. A despeito das muitas manifestações populares e de promessas governamentais nunca cumpridas, o cenário de “lama, luto e impunidade permaneceu intacto, como se precisasse ser assim para que se atestasse a ineficiência institucional quando o que está envolvido é a vida das pessoas e a sobrevivência do meio ambiente. A tragédia de Mariana é para o Brasil uma das suas incógnitas temporais: ninguém sabe precisar em que momento da história recente ela foi gestada pela negligência na construção e em sua fiscalização nem muito menos se há um prazo para que os danos causados às pessoas e ao ambiente sejam finalmente reparados.

Também no verão passado, o até hoje mal compreendido vírus Zika iniciava seu trânsito (ainda não encerrado, diga-se de passagem) pelo Brasil. Porém, também é provável que ele viesse circulando no Brasil desde a Copa do Mundo de 2014 tendo chegado por aqui através de visitantes das ilhas do Pacífico, onde se havia manifestado anteriormente. Partindo do sertão nordestino, sua rápida propagação fez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretasse no começo do ano estado de emergência global em função dos crescentes casos de microcefalia, logo a seguir denominada “síndrome congênita do Zika”. Mais recentemente, embora a OMS recentemente tenha retirado o alerta global, pesquisadores declararam esperar que os casos de microcefalia e da síndrome de Guillain Barré, outra intercorrência do vírus, aumentem em outras regiões do Brasil, principalmente na região sudeste. Também a epidemia do Zika parece ter uma origem imprecisa e, dado o mínimo esforço em debelar o vetor da doença, previsão nenhuma de acabar. Os dados sobre a população desassistida  no sertão paraibano igualmente colaboram para um cenário muito distante de ser solucionado.

A batalha do impeachment

Como uma ilha encravada no meio da circularidade de 2016, realizaram-se no Rio de Janeiro, entre agosto e setembro, a Olimpíada e a Paraolimpíada. Apesar de algum pessimismo da opinião pública e do terrível desabamento da recém-inaugurada ciclovia Tim Maia, os eventos transcorreram sem maiores contratempos. A Paraolimpíada, provavelmente por uma baixa expectativa de retorno publicitário, sequer teve sua abertura televisionada pelos canais abertos, o que motivou intensos protestos na comunidade de pessoas com deficiência no Brasil . Mas ainda que ambos os eventos tenham sido bem-sucedidos, logo ao seu final o estado do Rio de Janeiro já viria a decretar estado de calamidade financeira. Com os megaeventos encerrados, era a hora de conferir o saldo final e o prejuízo recaiu amargamente nos serviços públicos e salários do funcionalismo. A crise econômica, como uma caixa de Pandora retida a muito custo, podia já ser aberta e espalhar seus horrores.

Desde o ano anterior, que terminara com os movimentos em torno da Agenda Brasil capitaneada pelo senador Renan Calheiros e com o movimento “Fora Levy”, anunciavam-se já problemas mais sérios na área econômica que logo iriam repercutir nas finanças dos estados e também dos municípios. Além do Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul também decretou estado de calamidade financeira e outros 15 estados estudam fazer o mesmo. Contas no vermelho, parcelamento nos salários e projetos de ajuste fiscal no âmbito estadual fazem do cenário uma paisagem desoladora que o governo federal repete no seu âmbito e vem buscar deter através da PEC 55, projeto de ajuste em tudo semelhante ao PLP 257/2016, originado em 2014, mas que passou a contar com a oposição de sindicalistas, movimentos sociais e dos partidos que deixaram o governo logo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a posse de seu antigo vice, o presidente Michel Temer, ao final de agosto.

Toda essa impressão de circularidade, todavia, poderia ser quebrada através da observação do movimento político na esfera federal, tendo em vista que o ano foi iniciado com uma composição de governo e terminou com outra. Ainda que por um determinado tempo tivessem sido o mesmo, numa composição de forças organizada anteriormente, precisamente no ano de 2011, quando se formou a chapa encabeçada por Dilma Rousseff, do PT, e tendo como vice o atual presidente, Michel Temer, do PMDB, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff pode ser apontado sem dificuldades como o grande divisor de águas do ano na política nacional, assim como as eleições municipais de outubro a confirmação da tendência de rejeição ao governo anterior e aos partidos de esquerda.

Com a opinião pública aparentemente dividida apenas entre apoiadores e detratores do impeachment, com a polarização política levada ao extremo e contando com uma intensa batalha jurídica e grandes manifestações populares como background, o processo realizou todo o percurso previsto na Constituição Federal, desde a aprovação do pedido numa Câmara dos Deputados ainda presidida pelo ex-deputado Eduardo Cunha, até a aprovação final no Senado, com 61 votos favoráveis e 20 contrários.

Um governo sem um projeto claro

O pedido de impeachment protocolado pela advogada Janaina Paschoal e pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior tramitou por longos meses e, ao lado do avanço da Operação Lava-Jato, dinamitou as relações políticas no país inteiro, cuja estagnação econômica iria despencar logo em seguida para números negativos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projetou uma queda de 3,3% no PIB brasileiro para 2016 e um cenário de estagnação para 2017. Para o Fundo Monetário Internacional, o ano deve fechar com uma taxa desemprego em torno dos 11,2%. O mesmo movimento parece ter dinamitado também as relações pessoais de um modo geral. Nas redes sociais, os efeitos da saturação informativa  evoluiram, às vezes, para um acirramento sem precedentes que aqui mesmo no Observatório da Imprensa foi equiparado a uma “briga de foice.

Ao final de novembro, o mesmo Hélio Bicudo autor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff declarou em entrevista à revista Época que “o impeachment de Temer já deveria ter ocorrido” . A Lava-Jato, operação iniciada em 2009, depois de investigar nomes do antigo governo do PT, em operações de caixa 2 e outros crimes administrativos, passou a investigar também doações feitas a políticos do PSDB, figurando inclusive na capa da revista Veja . No âmbito da investigação, políticos como o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e os ex-governadores do estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho e Eduardo Paes, foram presos em operações levadas a efeito pela Polícia Federal. De acordo com o MPF, outras operações devem ocorrer ainda em 2016 e prolongar-se em 2017, envolvendo centenas de políticos e empresários, tendo-se em vista o desvio de bilhões de reais das contas da Petrobras , além da celebração do maior acordo de leniência com a Odebrecht, que resultará no pagamento da multa nem um pouco irrisória de sete bilhões de reais.

Um ponto completamente fora da circularidade foi sem dúvida o trágico acidente envolvendo o time de futebol catarinense da Chapecoense, que vitimou setenta pessoas na Colômbia, onde seria disputada a final da Copa Sul-Americana. A comoção popular chegou ao mundo inteiro, dentro e fora do esporte e uma homenagem  protagonizada espontaneamente pelos colombianos na data em que se disputaria a final simbolizou a perplexidade que atravessou o país inteiro, rendendo imagens tocantes da população que se reuniu no estádio Atanasio Girardot. Uma vez que o soterramento do Rio Doce Mariana aconteceu em 2015, apesar de haver se prolongado durante todo o ano, o desastre da Chapecoense provavelmente terá sido mesmo o grande evento trágico do ano, a despeito de outras tragédias duradouras e já velhas conhecidas, como a da população indígena e a da discriminação racial, mas principalmente pelo imponderável que há em tragédias assim.

Se em algum momento houve realmente alguma linearidade na história recente, 2016 pode talvez ser encarado como o ano em que simplesmente se deu continuidade a um ou vários processos já em curso. Seja no afunilamento institucional no campo político, no crescente embate entres os poderes de Estado ou no hiato administrativo caracterizado em um governo sem um projeto claro, é como se o tempo simplesmente pudesse desaguar no próximo janeiro e seguir seu curso ininterrupto. Dessa forma, é bem possível que tanto a tragédia humanitária em torno do Xingu e da usina de Belo Monte, a epidemia de Zika e de outras doenças virais transmitidas pelo aedes aegypti em decorrência de más condições sanitárias tenham vindo mesmo para ficar, assim como a Lava Jato e a conflagração política e o amplo dissenso político, notado principalmente no acirramento de opiniões nas redes sociais.

Tangenciar os problemas

O mais curioso, ou não tão curioso assim, é que justamente a operação Lava-Jato tenha recebido os maiores “investimentos” para sua eliminação. Trata-se do esforço empreendido pelo poder legislativo em derrubar o pacote anticorrupção , conjunto de medidas de ampliação da capacidade de investigação e o endurecimento de penalidades para com políticos envolvidos em crimes de corrupção. Tendo reunido interesses e partidos tão diversos quanto o espectro de investigados pela própria Lava-Jato, ainda assim não foi um movimento suficiente para evitar que o STF aceitasse denúncia de 2006 e transformasse o presidente do Senado Renan Calheiros em réu nem tampouco em ter reunido no início de dezembro dezenas de manifestações em todo o Brasil, tendo o combate à corrupção e a imagem de Renan como focos principais . Mais uma prova de que mesmo um fato de tal ineditismo nem sempre obedece a uma lógica cronológica coerente.

Com a credibilidade dos partidos políticos parecendo cada vez mais residual e apesar de ser perceptível um maior prejuízo para os partidos de esquerda, ainda assim a população parece ainda não conseguir distinguir a emergência de nem um novo projeto político, mas apenas o reavivamento mortiço de antigas figuras que, curiosamente, parece mesmo que serão as que levarão o Brasil ao futuro. Mesmo que políticos pareçam no mais das vezes apenas pessoas que dão voltas em torno de si mesmas numa composição formada por nomes e imagens desgastadas (diga-se de passagem em todos os poderes e esferas), é justamente com a desconfiança popular em alta e as contas e serviços públicos em baixa que o país caminhará para 2017 para dirigir-se muito em breve a um novo processo eleitoral.

Ponto a ponto e caso a caso, como em sucessivas marcações da circularidade histórica, ao fim de mais um ano o que parece escassear não é propriamente o tempo, mas as possibilidades de pontos de corte radicais na circularidade das vicissitudes históricas e políticas nacionais. Tangenciar os problemas às vezes parece indispensável e o mais sábio a fazer, mas também pode acabar por competir num afastamento de toda e qualquer centralidade. Acontece na astronomia com os satélites desgovernados. Sobre qualquer outra analogia o autor exime-se da responsabilidade.

Homo Deus

homo-deus

Não é à toa que Homo Deus, o novo livro de Yuval Noah Harari começa com uma imagem, ao invés de por uma palavra. Tomando conta de toda a página inicial do livro e lembrando uma gravura em preto e branco, a imagem reproduz a tomada ampliada de uma microinjecção intracitoplasmática em um óvulo humano e de imediato situa o leitor onde Harari quer colocá-lo: do ponto em que o ser humano passa a dominar a biotecnologia e adquire um controle sem precedentes sobre a natureza em sua travessia no espaço-tempo.

Em seu livro anterior, o sucesso de vendas Sapiens: uma breve história da humanidade, a biotecnologia também aparecera, mas apenas no terço final de um livro que tinha o ambicioso projeto de narrar a história da civilização e da inteligência humana até o tempo presente. Em Homo Deus, Harari parte para um ponto de inflexão temporal que se ocupa mais do futuro e de especulações sobre o que pode estar por vir, reportando-se apenas eventualmente ao passado histórico da humanidade. Se em Sapiens a biotecnologia e sua expansão eram apresentadas como a forma encontrada pelo mundo globalizado em sustentar a escalada frenética da civilização em torno do consumo, do esgotamento dos recursos naturais e da expansão do crédito comercial em todo o mundo, em Homo Deus ela surge como uma situação já dada para a contemporaneidade, como se uma nova etapa da ciência talhada especialmente para a sobrevivência e a adaptação da espécie humana daqui em diante.

Homo Deus, portanto, não é um prolongamento de Sapiens e nem uma crítica epistemológica do contemporâneo ou um livro de filosofia da ciência. Mesmo assim, não deve ser tomado como um livro inteiramente fácil, de variedades cientificas. Apesar de manter a característica da leitura agradável e contínua que fizeram o sucesso de Sapiens, Harari investe pesado em uma contraposição ao senso comum e ao humanismo como ideologia e aponta muitas vezes para a composição de um cenário distópico para o futuro, no qual a novíssima face do humano seria engendrada pela composição de uma nova técnica e consciência, dado que sua dissociação da racionalidade começa a ocorrer por meio da mediação tecnológica e proliferação de sistemas artificiais de inteligência, como as que já existem hoje principalmente na internet.

Igualmente seria exagero ou equívoco afirmar que Homo Deus pudesse ser considerado uma extensão da ficção distópica do seriado inglês Black Mirror por tratar de um futuro que já dá seus sinais evidentes e altera inclusive a percepção que se pode obter do tempo. Mesmo que tanto o livro quanto o seriado realizem especulações sobre o futuro breve e muitas vezes se valham de exemplos semelhantes, isso apenas acontece porque ambos tratam da mesma matéria: a ascensão tecnológica e suas implicações. Mas as coincidências param por aí, uma vez que as projeções de Harari referem-se a um futuro mais distendido do que o cultuado seriado exibido pelo de streaming Netflix.

Para além de suas questões centrais, a biotecnologia e a inteligência artificial, Homo Deus é permeado por muitas referências históricas, literárias e culturais. É de onde emergem muitas de suas mais indagações, porque dialogam com o mundo real e o mundo de ontem ao invés de especular tão livremente, a ponto de parecer um mero devaneio. Harari parece estar bem mais preocupado em procurar entender as condições históricas do desenvolvimento humano futuro do que em propor um modelo de substituição do homem pela tecnologia.

De modo diferente de outros pensadores e idealizadores do futuro, como o japonês Michio Kaku ou mesmo o crítico da religiosidade Richard Dawkins, Harari devolve ao campo filosófico a precedência na crítica da racionalidade científica. Aos 40 anos, o autor israelense não apenas entrou de vez na lista de best-sellers do mundo inteiro, mas de forma ainda mais competente na lista de livros interessantes e populares sobre divulgação científica. Sem o astrônomo Carl Sagan no “páreo” e situando o pensamento humano no horizonte da ciência e da tecnologia, Harari propõe que a autonomia do pensamento e a liberdade, para ele os maiores desafios futuros, colocam-se desde já como desafios evolucionários para dar fisionomia a própria natureza humana. Embora por vezes possa soar superficial ou realize especulações um tanto temerárias, seu livro é uma aventura do pensamento. Não é pouco e, pela riqueza de detalhes e qualidade de informação, não é também um livro comum.

Era só o que faltava

poetas

Durante todo o ano de 2016 tive uma companhia que há anos eu vigiava a uma distância respeitosa, mas ainda não tinha para mim: a poesia completa do Mario Quintana. Ele, um gaúcho sem o menor gauchismo, pessoa com um senso de observação do humano atiladíssimo, foi dos primeiros poetas cosmopolitas e verdadeiramente universais destes pagos sulinos, senão o primeiro (ou o único).

Tinha ele uma simplicidade que chegava a ser hermética. E um anti hermetismo total capaz de extrair poesia (para muitos rasa e superficial) do seu contato com a própria superfície das coisas, das pessoas, do tempo, dos lugares e às vezes parece que de quase tudo sobre o que pensava ou colocava os olhos. A poesia nele não era fácil, difícil nele era o que não convertesse em poesia.

Poeta da ironia e da sutileza, Quintana não precisava adentrar na mente alheia para entendê-la. Por outro lado, parecia ter um sentido de revelação que dispensava qualquer caráter invasivo ou colonizador. Não a revelação mágica ou divina, que muitas vezes impõe ritos e hiper interpretação onde muitas vezes nem os há, mas aquela de desvendar os pequenos mistérios da vida e estes para ele eram justamente os maiores: o de notar o traço humano que se oculta na trivialidade cotidiana e a irreverência em apontar que há poesia nisso, e muita.

Hoje, por tudo que leio dos contemporâneos, penso que o Quintana seria um transgressor incompreendido. Mas talvez outros poetas e escritores geniais do passado também o fossem (ou continuassem a ser).

Junto a ele, bem ao lado da sua poesia completa, coloquei a nova edição completa de Adélia Prado e também a poesia de Wislawa Szymborska traduzida e publicada neste ano pela Companhia das Letras, num lindo trabalho de tradução. Os três ali, um pouco mais afastados de outros até mais festejados, mas que me importa? Foram estes os que me acompanharam durante o ano, como se os tivesse colocado a conversar entre si. Até procurei me intrometer na conversa deles, às vezes, em objeções idiotas, só para criar caso. Mas eles insistiram em permanecer naquela perenidade dos já eternizados e, por isso mesmo, não precisaram se ocupar das minhas tolices e advertências, Quintana principalmente. Era só mesmo o que faltava.

O ódio

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Brilhando por inteiro ao sinuoso
passo vai o tigre, suave como um verso,
e a ferocidade lustra qual terso
topázio o olho seco e vigoroso.

Estirando o músculo em desuso
dos flancos, lânguido e perverso,
encosta-se lentamente no disperso
outono das folhagens. O repouso…

O repouso na selva silenciosa.
A fronte plana dorme entre as finas garras
e o olhar fixo, sem gáudio,

espia, enquanto abafa com a nervosa
cauda todas as outras feras,
como em esgueira… Este é o meu ódio.

A complexidade do zika

“Zika: do sertão nordestino à ameaça global”, de Debora Diniz (Civilização Brasileira, 2016, 192 páginas)

O mais recente livro da antropóloga e professora de bioética na Universidade de Brasília e na Fundação Oswaldo Cruz, a ativista Debora Diniz, Zika: do sertão nordestino à ameaça global, é um dos primeiros documentos acerca da epidemia do vírus zika e seus efeitos em solo brasileiro. Resultado de uma extensa e imersiva jornada e do seu contato direto com as pessoas e comunidades mais afetadas, no interior da Paraíba e em outros estados do nordeste, o livro aborda desde os momentos anteriores à descoberta da relação do vírus com os crescentes casos de microcefalia e outras doenças neurológicas até o impacto da notícia científica na comunidade global, passando pelos relatos de médicos e familiares e também pelo difícil enfrentamento às condições de atenção à saúde de mães e seus filhos na região.

Ao invés de ser tomado como um livro de clínica sobre uma doença, sua etiologia e consequências, o livro de Debora na realidade é bem mais um documento que nem por um instante sequer realiza concessões às responsabilidades políticas, mas, ao dialogar diretamente com as comunidades envolvidas, acaba por desvelar e esclarecer ainda mais a relação direta entre a situação de vulnerabilidade das comunidades do interior nordestino e as condições propícias para a expansão de uma doença cujo controle dependeria essencialmente de investimentos públicos em saneamento. Tanto isso é real que, paralelo ao livro, Debora também produziu um documentário que foi apresentado primeiramente na Dinamarca, em agosto, na maior conferência mundial sobre a saúde da mulher, a Women Delivery, depois no Brasil e que agora está disponível no YouTube. No filme, é possível assistir-se às muitas pessoas entrevistadas para o livro e conhecer-se um pouco mais uma realidade que muitas vezes acontece distante de quaisquer recursos de atenção primária à saúde.

Ainda que provavelmente não tenha sido sua intenção realizar um trabalho de denúncia acerca das condições de vida das pessoas afetadas ou suscetíveis à epidemia no sertão nordestino, é muito difícil mesmo para um leitor desinteressado no assunto deixar de notar que há um fator de sofrimento humano e social inerente ao que se passa. A percepção de um grande envolvimento comunitário e solidário entre as famílias, especialmente quando e onde a atenção do Estado mais falha, não deixa de ser uma comprovação deste sofrimento, exatamente por consistir em hercúleas tentativas de contraposição ao estado de coisas e o sucateamento dos equipamentos de públicos de saúde.

Em seu livro, todas as situações relatadas são reais, assim como as pessoas envolvidas. Todas têm uma origem, uma procedência e histórias que por vezes chegam a confundir-se com a própria história do sertão paraibano, potiguar, alagoano, baiano e pernambucano. Histórias de carências extremas e de uma desatenção secular que dificilmente permitiriam que se pudesse escapar ao raio de ação do principal vetor do vírus: o mosquito aedes aegypti. O fato de o vírus atingir e comprometer seriamente a saúde de bebês só vem a acrescentar um ingrediente ainda mais dramático a essa que foi a principal e mais grave ocorrência epidemiológica no Brasil em 2016 e que deve repetir-se no verão de 2017, dirigindo-se já aos estados do centro e sudeste, conforme já vem sendo notificado pelas autoridades sanitárias.

Porque inicialmente imaginava-se que a microcefalia seria a única decorrência da infecção pelo zika e as pesquisas em torno da ação do vírus eram incipientes, apenas aos poucos foi se percebendo que as implicações neurológicas envolviam e impunham também outras condições aos recém nascidos. Denominada daí em diante por “síndrome congênita do zika” e declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como situação de emergência em saúde pública de interesse internacional, ainda assim nos meses de inverno, com a trégua relativa na propagação do vetor, pouco de efetivo foi executado pelas autoridades. Além de uma inefetiva “guerra ao mosquito”, o que mais se viu durante o ano foi o aumento dos nascimentos e o incremento na circulação do vírus em outras regiões. Pesquisas sobre vacinas vêm sendo realizadas pelo Instituto Butantan (SP), mas as melhores perspectivas de testes poderão concretizar-se apenas para o final de 2017 ou 2018. Até lá, as recomendações de cuidados extras para gestantes ficam mantidas, pois ainda é inviável pensar-se em outro cenário.

Além de verificar as dificuldades próprias da população, Debora investigou também o trânsito da informação científica sobre o zika e dificuldades muito particulares da comunidade científica brasileira em assimilar pesquisas e achados de pesquisadores que se encontravam distantes dos principais centros de pesquisa e daqueles que partiam de médicos de “beira de leito”, conforme sua expressão. Segundo depoimentos presentes no livro, tais dificuldades teriam colaborado no atraso do desenvolvimento de pesquisas e de ações públicas, inclusive sobre diagnóstico e notificações. De outro modo, ao dar voz a médicos que mesmo sem condições ideais insistiram em averiguar a causa do incremento de casos de microcefalia, o livro ressalta que muito do que hoje se conhece se deve a esse esforço clínico às vezes tão pouco notável. O ponto alto do livro de Debora aparece justamente no esforço em documentar e relatar não apenas as imensas dificuldades que emergem do encontro de um vírus poderoso, uma ciência em estado de transição e um ambiente social desoladamente permeado de precariedades, mas todo o esforço adaptativo de comunidades extremamente carentes.

Ao contrário da vizinha Colômbia, onde o aborto é legal na perspectiva de proteger a saúde (inclusive a mental) da mãe, e onde a circulação do vírus ainda não foi tão intensa e os números de casos mantêm-se reduzidos, no Brasil a situação é bastante diferente. Para Debora, tendo-se em vista a impossibilidade de controle do vetor e da responsabilidade dos agentes públicos no favorecimento de sua propagação, seria preciso superar, portanto, a questão do mosquito e garantir no âmbito dos direitos reprodutivos o direito ao acompanhamento pré-natal e a escolha ou não pela manutenção da gestação.

Nesse sentido, a Anis – Instituto de Bioética, entidade de pesquisa dirigida por ela própria, propôs ação ao STF visando ampliar o direito de escolha das mulheres e em responsabilizar o governo diante de uma epidemia que não foi controlada e cujo combate ao vetor de transmissão tem se mostrado insuficiente. Trata-se de uma ação em aberto cuja decisão final deverá custar ainda muita polêmica, mesmo já contando com o aval da OMS e de alguns juristas, embora outros tantos sejam contrários à medida. O tema, permeado por tabus e interesses diversos, não vem contando com um debate nem sério nem célere no Brasil, possivelmente porque a decisão não passe nem perto da realidade da população atingida. Por isso mesmo, e por ser um documento indispensável a todos os interessados nos debates contemporâneos sobre saúde pública e direitos reprodutivos, o livro de Débora seria também, para muitos, mais que um objeto de interesse eventual, mas uma oportunidade ímpar para inteirarem-se do assunto com um pouco mais de distanciamento do âmbito das crenças pessoais e o mais próximo possível da realidade de seus legítimos interessados.

Cara de corrupto

noite

Desde que assumi a subsindicância do condomínio onde vivo tenho sido permanentemente aliciado para a corrupção. É impressionante. Depois da experiência, estou até quase perdoando os corruptos contumazes. É mesmo um feito resistir às vantagens ilícitas que são oferecidas a qualquer um, mesmo em se tratando de um reles subsíndico como eu.

Esses dias precisamos arrumar o portão do prédio, que dá para a garagem. Aproveitei a ocasião e pedi para verificaram um problema no meu portão interno, que o condomínio não tem nada a ver, em absoluto. Na hora de fazer o pagamento, a oferta com aquele sorriso diabólico do corruptor: “Deixa que eu ponho tudo na mesma nota…”, disse o nobre prestador de serviços.

Senti-me como Eva diante da maçã e a nota ali na minha frente, bastando uma rubrica para ficar tudo por isso mesmo, a própria serpente da danação. “Não precisa, imagina…”, respondi ao sujeito que, depois disso, acabou tendo de ficar sozinho no seu constrangimento.

Ontem, outro prestador de serviço. Dessa vez um eletricista que veio consertar a célula fotoelétrica. Orçamento acordado, aquela coisa e, na saída, pimba! De novo! Dessa vez a oferta era a de colocar também na nota de serviços o material que foi preciso comprar na ferragem, para o qual já tinha nota, não precisava de outra. Mais uma vez o convite malicioso, tipo assim me convidando para o estranho paraíso dos pequenos pilantras, junto a um cartão para o caso de “outras necessidades”. De novo apliquei a minha cara zen-budista até o sujeito perceber que não me interessava a sua proposta.

Na hora fiquei pensando: dois chamados, duas ocorrências. Vai ver todo mundo é corrupto mesmo e eu achando que esse era um papo furado aplicado apenas para o caso de amigos ou amados flagrados em malversações. Ou então, desgraçadamente, eu é que tenho cara de quem está sempre apto e a fim de levar um “purfa”… Pode ser, afinal quem sabe o que os outros veem na gente? De repente, tenho cara de malandro mesmo. Paciência, que é que eu vou fazer?

E também fiquei pensando que, se na ínfima burocracia condominial a ocorrência de aliciamentos é de 100%, que dirá nas altas esferas e altos empreendimentos pagos com dinheiro público. Deve ser 100% de corrupção fora o ágio.

Só lamento é que, no meu universo de observação, os envolvidos não sejam pilantras graúdos, desses que eu desejaria ver mofando na cadeia, mas pessoas humildes, provavelmente habituadas nisso por vantagens menores, muitas vezes insignificantes. Provavelmente, sim. Isso mesmo. Mas a questão de definir o que é significante é muito individual. Tem muitas coisas e gestos que eu acho mesmo insignificantes, pequenos crimes, e jamais me ocorreria puni-los ou bancar o moralista. Casos assim são recorrentes, lamentáveis e normalmente julgados com rigor absurdo, enquanto outros incrivelmente não são.

Seja como for, me enche de tristeza ver trabalhadores humildes recorrendo a expedientes desse tipo. Decerto não temem por isso, mas o fato é que se expõem de uma forma muito absurda, quase obscena. Sei que há nisso uma violência embutida que quase ninguém percebe, ainda mais nesses tempos de justiçagem generalizada, mas, paciência… A pessoa decide que vale a pena correr o risco e aí, no fim das contas, acho que não está nem aí para o que os outros pensam ou vão pensar. É um modus vivendi dos mais comuns.

Essa e outras intercorrências, com outras espécies de estupidez deliberada, têm me feito pensar que os síndicos são pessoas talhadas para os mais duros desafios da vida contemporânea. Ou é o assédio incansável de corruptores ou é o desleixo deliberado do seu vizinho de porta. Quer dizer que a pessoa assume a incumbência de ajudar a coletividade e é levado a provações morais incalculáveis, de quebra tendo de ser um exemplo de cortesia e civilidades e, obviamente, sendo o suspeito preferencial da corrupção endêmica que parece assolar a sindicância de um modo geral.

Bem dizia um amigo meu, com experiência no assunto, que se pode exigir tudo de um síndico, menos fé na humanidade. A frase é de letreiro de caminhão, mas tem 110% de verdade, já descontada a Lei do Gérson embutida.

Um sussurro

incendio

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

há beleza na lentidão
eu copio estas linhas estranhas
respiro
aceito a luz
sob o ar rarefeito de novembro
sob a grama
incolor
sob o céu descascado
e triste
eu aceito o luto e a celebração
mas eu não vim
não virei jamais
no centro de tudo
está o poema intacto
o sol inescapável
a noite sem voltar a cabeça
vagando sua luz
sua sombra animalesca
de palavras
farejando o seu esplendor
seus vestígios
e restos mortais
tudo para dizer
que sempre
tive um cuidado
desarmado

apenas quase
na morte
quase no fogo

Seu Teixeirinha, o faz-tudo

teixeira

Hoje cedo recebi pelo interfone daqui de casa uma chamada de um senhor chamado Teixeirinha. Teixeirinha, no Rio Grande do Sul, ainda hoje é o maior ícone da música popular tradicionalista. Em vida, gravou cerca de trinta discos ou mais, participou de pelo menos dez filmes e incontáveis vezes suas músicas tocaram nas rádios daqui, principalmente as de onda média, de larga penetração nas cidades do interior do estado. É claro que não eram a mesma pessoa, porém, como eu não via o seu semblante, mas ouvia seu modo de falar em tudo interiorano, tive uma conversa estranha com o seu Teixeirinha. Não o fantasma do músico, mas este outro: sujeito aposentado que procurava serviços gerais para ajudar a “criar os neto”, conforme ele disse.

O homem ia falando lá de baixo e eu, cá em cima, montava a fisionomia do outro Teixeirinha mentalmente. Imaginava um homem atarracado como o outro, já falecido. Cabelos escuros improváveis e bigode à gaúcha, como o da imagem do Teixeirinha que eu conservava em mente. À medida que a conversa progredia, entretanto, fui perdendo a imagem do cantor mitológico, mas restava um modo tão simples e direto de dizer as coisas que era como se eu estivesse falando com qualquer pessoa “de antigamente”. E a conversa, como tinha para ele um propósito, e eu, estando impedido de descer no momento, acabou transcorrendo daquela forma impessoal, separados nós por três andares do prédio e camadas e mais camadas de pisos e paredes que impediam que nos enxergássemos frontalmente.

O que ele queria é que eu anotasse o número do seu telefone e, na eventualidade de uma necessidade de qualquer serviço, como de encanador, eletricista, pedreiro, o que fosse, não hesitasse em lhe chamar. Aposentado ele estava agora, mas não tão tranquilamente quanto fosse digno para estar de pernas esticadas numa praia ou numa varanda, mas vagando pela Cidade Baixa, de Porto Alegre, em busca de serviços ocasionais (ou changas, no modo de dizer rural), para ajudar no sustento da família e na “criação dos neto”, com o perdão da repetição da sua fala.

Não sou o síndico do prédio onde moro, mas sou casado com a síndica. Ao contrário de outras composições políticas semelhantes, atuamos em comum acordo e jamais me ocorreu, por exemplo, sabotar sua gestão ou coisa equivalente. A pessoa prevenida inclusive jamais deveria incorrer numa parceria feita à sorrelfa, com pessoas que não se confiam. Se assim não pode ser na vida política, na vida pessoal é completamente inviável ser de outro modo.

Como a titular da pasta não estava em casa, atendi eu mesmo o que ele pedia. Guardei seus telefones e sugeri que me aguardasse um instante, que em minutos eu desceria até lá para falar com ele diretamente. Com o seu Teixeirinha. “Não se incomode”, ele falou, porque estava visitando os prédios todos do bairro e de cada um onde estivera antigamente a serviço ele lembrava-se do nome dos antigos moradores, inclusive do nosso, com quem teria “tratado serviço” há muitos anos atrás. Esta pessoa, já falecida, havia sido major do exército, pracinha da FEB na 2ª Guerra Mundial, e fôra síndico por muitos anos. Na nossa conversa, citar o seu nome funcionava como um atestado de idoneidade. Interiorano como sou, entendi assim a menção a este antigo vizinho que era vivo ainda quando viemos morar aqui. E, na lógica da conversa, era isso mesmo o que ele queria dizer, que não era um ninguém, mas era o seu Teixeirinha, conhecido deste, daquele e daquele outro. Alguém cuja credibilidade era dada quase por uma tradição. Seja como for, foi o suficiente para que eu acreditasse nele.

A conversa não foi longa, mas o bastante para que eu percebesse que a firmeza na voz do meu interlocutor seria exatamente a mesma do seu empenho em qualquer trabalho que fosse fazer. Há não muito tempo atrás eu havia tomado um calote de um sujeito bem jovem que veio fazer um serviço de encanamento aqui em casa e pensei que era uma lástima eu não ter desde antes o contato do seu Teixeirinha. Esse outro fez um serviço péssimo que tive eu mesmo de reparar, ainda que tivesse pago e não pouco pela sua execução. Paciência. Pagava em dobro para ele não pisar mais na minha casa.

Não tenho de imediato um serviço para oferecer ao seu Teixeirinha nem aqui em casa nem no condomínio, mas sou bem capaz de quebrar um cano ou estragar uma coisa qualquer de propósito a fim de chamá-lo. E nem tanto para me certificar de que não se trata de uma reencarnação do antigo cantor de música gauchesca, mas porque se isso fosse ajudá-lo a completar a aposentadoria miserável que pagam aos velhos no Brasil, já valeria a pena. Antes investir diretamente no seu Teixeirinha do que nesses gatunos que agora se resolveu chamar de “gestores”. E, mais a mais, apesar de que certamente fosse mais digno e justo que uma pessoa nessa idade estivesse sossegada, de tanto e tanta pilantra que se é obrigado a ver nas “mídias” e “redes sociais”, sempre é bom ver com os próprios olhos um índio velho desses que não se entrega assim “no más”.