A complexidade do zika

“Zika: do sertão nordestino à ameaça global”, de Debora Diniz (Civilização Brasileira, 2016, 192 páginas)

O mais recente livro da antropóloga e professora de bioética na Universidade de Brasília e na Fundação Oswaldo Cruz, a ativista Debora Diniz, Zika: do sertão nordestino à ameaça global, é um dos primeiros documentos acerca da epidemia do vírus zika e seus efeitos em solo brasileiro. Resultado de uma extensa e imersiva jornada e do seu contato direto com as pessoas e comunidades mais afetadas, no interior da Paraíba e em outros estados do nordeste, o livro aborda desde os momentos anteriores à descoberta da relação do vírus com os crescentes casos de microcefalia e outras doenças neurológicas até o impacto da notícia científica na comunidade global, passando pelos relatos de médicos e familiares e também pelo difícil enfrentamento às condições de atenção à saúde de mães e seus filhos na região.

Ao invés de ser tomado como um livro de clínica sobre uma doença, sua etiologia e consequências, o livro de Debora na realidade é bem mais um documento que nem por um instante sequer realiza concessões às responsabilidades políticas, mas, ao dialogar diretamente com as comunidades envolvidas, acaba por desvelar e esclarecer ainda mais a relação direta entre a situação de vulnerabilidade das comunidades do interior nordestino e as condições propícias para a expansão de uma doença cujo controle dependeria essencialmente de investimentos públicos em saneamento. Tanto isso é real que, paralelo ao livro, Debora também produziu um documentário que foi apresentado primeiramente na Dinamarca, em agosto, na maior conferência mundial sobre a saúde da mulher, a Women Delivery, depois no Brasil e que agora está disponível no YouTube. No filme, é possível assistir-se às muitas pessoas entrevistadas para o livro e conhecer-se um pouco mais uma realidade que muitas vezes acontece distante de quaisquer recursos de atenção primária à saúde.

Ainda que provavelmente não tenha sido sua intenção realizar um trabalho de denúncia acerca das condições de vida das pessoas afetadas ou suscetíveis à epidemia no sertão nordestino, é muito difícil mesmo para um leitor desinteressado no assunto deixar de notar que há um fator de sofrimento humano e social inerente ao que se passa. A percepção de um grande envolvimento comunitário e solidário entre as famílias, especialmente quando e onde a atenção do Estado mais falha, não deixa de ser uma comprovação deste sofrimento, exatamente por consistir em hercúleas tentativas de contraposição ao estado de coisas e o sucateamento dos equipamentos de públicos de saúde.

Em seu livro, todas as situações relatadas são reais, assim como as pessoas envolvidas. Todas têm uma origem, uma procedência e histórias que por vezes chegam a confundir-se com a própria história do sertão paraibano, potiguar, alagoano, baiano e pernambucano. Histórias de carências extremas e de uma desatenção secular que dificilmente permitiriam que se pudesse escapar ao raio de ação do principal vetor do vírus: o mosquito aedes aegypti. O fato de o vírus atingir e comprometer seriamente a saúde de bebês só vem a acrescentar um ingrediente ainda mais dramático a essa que foi a principal e mais grave ocorrência epidemiológica no Brasil em 2016 e que deve repetir-se no verão de 2017, dirigindo-se já aos estados do centro e sudeste, conforme já vem sendo notificado pelas autoridades sanitárias.

Porque inicialmente imaginava-se que a microcefalia seria a única decorrência da infecção pelo zika e as pesquisas em torno da ação do vírus eram incipientes, apenas aos poucos foi se percebendo que as implicações neurológicas envolviam e impunham também outras condições aos recém nascidos. Denominada daí em diante por “síndrome congênita do zika” e declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como situação de emergência em saúde pública de interesse internacional, ainda assim nos meses de inverno, com a trégua relativa na propagação do vetor, pouco de efetivo foi executado pelas autoridades. Além de uma inefetiva “guerra ao mosquito”, o que mais se viu durante o ano foi o aumento dos nascimentos e o incremento na circulação do vírus em outras regiões. Pesquisas sobre vacinas vêm sendo realizadas pelo Instituto Butantan (SP), mas as melhores perspectivas de testes poderão concretizar-se apenas para o final de 2017 ou 2018. Até lá, as recomendações de cuidados extras para gestantes ficam mantidas, pois ainda é inviável pensar-se em outro cenário.

Além de verificar as dificuldades próprias da população, Debora investigou também o trânsito da informação científica sobre o zika e dificuldades muito particulares da comunidade científica brasileira em assimilar pesquisas e achados de pesquisadores que se encontravam distantes dos principais centros de pesquisa e daqueles que partiam de médicos de “beira de leito”, conforme sua expressão. Segundo depoimentos presentes no livro, tais dificuldades teriam colaborado no atraso do desenvolvimento de pesquisas e de ações públicas, inclusive sobre diagnóstico e notificações. De outro modo, ao dar voz a médicos que mesmo sem condições ideais insistiram em averiguar a causa do incremento de casos de microcefalia, o livro ressalta que muito do que hoje se conhece se deve a esse esforço clínico às vezes tão pouco notável. O ponto alto do livro de Debora aparece justamente no esforço em documentar e relatar não apenas as imensas dificuldades que emergem do encontro de um vírus poderoso, uma ciência em estado de transição e um ambiente social desoladamente permeado de precariedades, mas todo o esforço adaptativo de comunidades extremamente carentes.

Ao contrário da vizinha Colômbia, onde o aborto é legal na perspectiva de proteger a saúde (inclusive a mental) da mãe, e onde a circulação do vírus ainda não foi tão intensa e os números de casos mantêm-se reduzidos, no Brasil a situação é bastante diferente. Para Debora, tendo-se em vista a impossibilidade de controle do vetor e da responsabilidade dos agentes públicos no favorecimento de sua propagação, seria preciso superar, portanto, a questão do mosquito e garantir no âmbito dos direitos reprodutivos o direito ao acompanhamento pré-natal e a escolha ou não pela manutenção da gestação.

Nesse sentido, a Anis – Instituto de Bioética, entidade de pesquisa dirigida por ela própria, propôs ação ao STF visando ampliar o direito de escolha das mulheres e em responsabilizar o governo diante de uma epidemia que não foi controlada e cujo combate ao vetor de transmissão tem se mostrado insuficiente. Trata-se de uma ação em aberto cuja decisão final deverá custar ainda muita polêmica, mesmo já contando com o aval da OMS e de alguns juristas, embora outros tantos sejam contrários à medida. O tema, permeado por tabus e interesses diversos, não vem contando com um debate nem sério nem célere no Brasil, possivelmente porque a decisão não passe nem perto da realidade da população atingida. Por isso mesmo, e por ser um documento indispensável a todos os interessados nos debates contemporâneos sobre saúde pública e direitos reprodutivos, o livro de Débora seria também, para muitos, mais que um objeto de interesse eventual, mas uma oportunidade ímpar para inteirarem-se do assunto com um pouco mais de distanciamento do âmbito das crenças pessoais e o mais próximo possível da realidade de seus legítimos interessados.

Cara de corrupto

noite

Desde que assumi a subsindicância do condomínio onde vivo tenho sido permanentemente aliciado para a corrupção. É impressionante. Depois da experiência, estou até quase perdoando os corruptos contumazes. É mesmo um feito resistir às vantagens ilícitas que são oferecidas a qualquer um, mesmo em se tratando de um reles subsíndico como eu.

Esses dias precisamos arrumar o portão do prédio, que dá para a garagem. Aproveitei a ocasião e pedi para verificaram um problema no meu portão interno, que o condomínio não tem nada a ver, em absoluto. Na hora de fazer o pagamento, a oferta com aquele sorriso diabólico do corruptor: “Deixa que eu ponho tudo na mesma nota…”, disse o nobre prestador de serviços.

Senti-me como Eva diante da maçã e a nota ali na minha frente, bastando uma rubrica para ficar tudo por isso mesmo, a própria serpente da danação. “Não precisa, imagina…”, respondi ao sujeito que, depois disso, acabou tendo de ficar sozinho no seu constrangimento.

Ontem, outro prestador de serviço. Dessa vez um eletricista que veio consertar a célula fotoelétrica. Orçamento acordado, aquela coisa e, na saída, pimba! De novo! Dessa vez a oferta era a de colocar também na nota de serviços o material que foi preciso comprar na ferragem, para o qual já tinha nota, não precisava de outra. Mais uma vez o convite malicioso, tipo assim me convidando para o estranho paraíso dos pequenos pilantras, junto a um cartão para o caso de “outras necessidades”. De novo apliquei a minha cara zen-budista até o sujeito perceber que não me interessava a sua proposta.

Na hora fiquei pensando: dois chamados, duas ocorrências. Vai ver todo mundo é corrupto mesmo e eu achando que esse era um papo furado aplicado apenas para o caso de amigos ou amados flagrados em malversações. Ou então, desgraçadamente, eu é que tenho cara de quem está sempre apto e a fim de levar um “purfa”… Pode ser, afinal quem sabe o que os outros veem na gente? De repente, tenho cara de malandro mesmo. Paciência, que é que eu vou fazer?

E também fiquei pensando que, se na ínfima burocracia condominial a ocorrência de aliciamentos é de 100%, que dirá nas altas esferas e altos empreendimentos pagos com dinheiro público. Deve ser 100% de corrupção fora o ágio.

Só lamento é que, no meu universo de observação, os envolvidos não sejam pilantras graúdos, desses que eu desejaria ver mofando na cadeia, mas pessoas humildes, provavelmente habituadas nisso por vantagens menores, muitas vezes insignificantes. Provavelmente, sim. Isso mesmo. Mas a questão de definir o que é significante é muito individual. Tem muitas coisas e gestos que eu acho mesmo insignificantes, pequenos crimes, e jamais me ocorreria puni-los ou bancar o moralista. Casos assim são recorrentes, lamentáveis e normalmente julgados com rigor absurdo, enquanto outros incrivelmente não são.

Seja como for, me enche de tristeza ver trabalhadores humildes recorrendo a expedientes desse tipo. Decerto não temem por isso, mas o fato é que se expõem de uma forma muito absurda, quase obscena. Sei que há nisso uma violência embutida que quase ninguém percebe, ainda mais nesses tempos de justiçagem generalizada, mas, paciência… A pessoa decide que vale a pena correr o risco e aí, no fim das contas, acho que não está nem aí para o que os outros pensam ou vão pensar. É um modus vivendi dos mais comuns.

Essa e outras intercorrências, com outras espécies de estupidez deliberada, têm me feito pensar que os síndicos são pessoas talhadas para os mais duros desafios da vida contemporânea. Ou é o assédio incansável de corruptores ou é o desleixo deliberado do seu vizinho de porta. Quer dizer que a pessoa assume a incumbência de ajudar a coletividade e é levado a provações morais incalculáveis, de quebra tendo de ser um exemplo de cortesia e civilidades e, obviamente, sendo o suspeito preferencial da corrupção endêmica que parece assolar a sindicância de um modo geral.

Bem dizia um amigo meu, com experiência no assunto, que se pode exigir tudo de um síndico, menos fé na humanidade. A frase é de letreiro de caminhão, mas tem 110% de verdade, já descontada a Lei do Gérson embutida.

Um sussurro

incendio

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

há beleza na lentidão
eu copio estas linhas estranhas
respiro
aceito a luz
sob o ar rarefeito de novembro
sob a grama
incolor
sob o céu descascado
e triste
eu aceito o luto e a celebração
mas eu não vim
não virei jamais
no centro de tudo
está o poema intacto
o sol inescapável
a noite sem voltar a cabeça
vagando sua luz
sua sombra animalesca
de palavras
farejando o seu esplendor
seus vestígios
e restos mortais
tudo para dizer
que sempre
tive um cuidado
desarmado

apenas quase
na morte
quase no fogo

Seu Teixeirinha, o faz-tudo

teixeira

Hoje cedo recebi pelo interfone daqui de casa uma chamada de um senhor chamado Teixeirinha. Teixeirinha, no Rio Grande do Sul, ainda hoje é o maior ícone da música popular tradicionalista. Em vida, gravou cerca de trinta discos ou mais, participou de pelo menos dez filmes e incontáveis vezes suas músicas tocaram nas rádios daqui, principalmente as de onda média, de larga penetração nas cidades do interior do estado. É claro que não eram a mesma pessoa, porém, como eu não via o seu semblante, mas ouvia seu modo de falar em tudo interiorano, tive uma conversa estranha com o seu Teixeirinha. Não o fantasma do músico, mas este outro: sujeito aposentado que procurava serviços gerais para ajudar a “criar os neto”, conforme ele disse.

O homem ia falando lá de baixo e eu, cá em cima, montava a fisionomia do outro Teixeirinha mentalmente. Imaginava um homem atarracado como o outro, já falecido. Cabelos escuros improváveis e bigode à gaúcha, como o da imagem do Teixeirinha que eu conservava em mente. À medida que a conversa progredia, entretanto, fui perdendo a imagem do cantor mitológico, mas restava um modo tão simples e direto de dizer as coisas que era como se eu estivesse falando com qualquer pessoa “de antigamente”. E a conversa, como tinha para ele um propósito, e eu, estando impedido de descer no momento, acabou transcorrendo daquela forma impessoal, separados nós por três andares do prédio e camadas e mais camadas de pisos e paredes que impediam que nos enxergássemos frontalmente.

O que ele queria é que eu anotasse o número do seu telefone e, na eventualidade de uma necessidade de qualquer serviço, como de encanador, eletricista, pedreiro, o que fosse, não hesitasse em lhe chamar. Aposentado ele estava agora, mas não tão tranquilamente quanto fosse digno para estar de pernas esticadas numa praia ou numa varanda, mas vagando pela Cidade Baixa, de Porto Alegre, em busca de serviços ocasionais (ou changas, no modo de dizer rural), para ajudar no sustento da família e na “criação dos neto”, com o perdão da repetição da sua fala.

Não sou o síndico do prédio onde moro, mas sou casado com a síndica. Ao contrário de outras composições políticas semelhantes, atuamos em comum acordo e jamais me ocorreu, por exemplo, sabotar sua gestão ou coisa equivalente. A pessoa prevenida inclusive jamais deveria incorrer numa parceria feita à sorrelfa, com pessoas que não se confiam. Se assim não pode ser na vida política, na vida pessoal é completamente inviável ser de outro modo.

Como a titular da pasta não estava em casa, atendi eu mesmo o que ele pedia. Guardei seus telefones e sugeri que me aguardasse um instante, que em minutos eu desceria até lá para falar com ele diretamente. Com o seu Teixeirinha. “Não se incomode”, ele falou, porque estava visitando os prédios todos do bairro e de cada um onde estivera antigamente a serviço ele lembrava-se do nome dos antigos moradores, inclusive do nosso, com quem teria “tratado serviço” há muitos anos atrás. Esta pessoa, já falecida, havia sido major do exército, pracinha da FEB na 2ª Guerra Mundial, e fôra síndico por muitos anos. Na nossa conversa, citar o seu nome funcionava como um atestado de idoneidade. Interiorano como sou, entendi assim a menção a este antigo vizinho que era vivo ainda quando viemos morar aqui. E, na lógica da conversa, era isso mesmo o que ele queria dizer, que não era um ninguém, mas era o seu Teixeirinha, conhecido deste, daquele e daquele outro. Alguém cuja credibilidade era dada quase por uma tradição. Seja como for, foi o suficiente para que eu acreditasse nele.

A conversa não foi longa, mas o bastante para que eu percebesse que a firmeza na voz do meu interlocutor seria exatamente a mesma do seu empenho em qualquer trabalho que fosse fazer. Há não muito tempo atrás eu havia tomado um calote de um sujeito bem jovem que veio fazer um serviço de encanamento aqui em casa e pensei que era uma lástima eu não ter desde antes o contato do seu Teixeirinha. Esse outro fez um serviço péssimo que tive eu mesmo de reparar, ainda que tivesse pago e não pouco pela sua execução. Paciência. Pagava em dobro para ele não pisar mais na minha casa.

Não tenho de imediato um serviço para oferecer ao seu Teixeirinha nem aqui em casa nem no condomínio, mas sou bem capaz de quebrar um cano ou estragar uma coisa qualquer de propósito a fim de chamá-lo. E nem tanto para me certificar de que não se trata de uma reencarnação do antigo cantor de música gauchesca, mas porque se isso fosse ajudá-lo a completar a aposentadoria miserável que pagam aos velhos no Brasil, já valeria a pena. Antes investir diretamente no seu Teixeirinha do que nesses gatunos que agora se resolveu chamar de “gestores”. E, mais a mais, apesar de que certamente fosse mais digno e justo que uma pessoa nessa idade estivesse sossegada, de tanto e tanta pilantra que se é obrigado a ver nas “mídias” e “redes sociais”, sempre é bom ver com os próprios olhos um índio velho desses que não se entrega assim “no más”.

Ninguém nos diz

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

Ninguém nos diz como fazer
para virar a cara contra a parede
e
morrer silenciosamente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que andou rumo a sua agonia
como quem vai
a uma cerimônia inadiável
batendo as orelhas
ao compasso
e à cadência do fôlego
de sua tromba
só mesmo no reino animal
há quem se comporte assim
mudar o passo
aproximar-se
farejar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas

Disputa de narrativas, ideias lacradas ou mera briga de foices?

No populário brasileiro, nenhuma briga pode ser mais encarniçada do que a briga de foice. Trata-se de uma espécie de escaramuça peculiaríssima na qual ninguém invoca o bom senso, as regras, se haviam, foram previamente inutilizadas pelos contendores e o único limite aceitável, já que não há outro que seja conhecido, é o da decapitação final do adversário. Pois não é nem mais nem menos que isso em que tem se transformado a grande maioria das disputas de opinião em torno da aspiração da verdade desde que o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff foi votado pela Câmara dos Deputados, em 16 de abril deste ano, em sessão presidida pelo agora cassado ex-deputado Eduardo Cunha. E pode-se debitar este mesmo qualificativo tanto às mais especializadas opiniões quanto às menos importantes, que se fazem de boca a boca ou, como mais usualmente, de teclado a teclado.

O cenário, como qualquer leitor atento já percebeu por conta própria, é desde então marcado por um profundo desencontro de expectativas, ideias, perspectivas, compreensões e também de um termo cada vez mais caro a uma boa parte das opiniões escritas e divulgadas nos meios de comunicação e redes sociais: as famosas narrativas. Com efeito, provavelmente não existe viva alma entre os leitores que ainda não tenha tomado conhecimento do amplo dissenso de opiniões como expressão de uma possível “disputa de narrativas”. Em que pese a acepção do termo recém incorporado pelo jornalismo opinativo ter assumido uma importância desproporcional na disputa pelo esclarecimento dos acontecimentos políticos recentes, de certo modo não deixa de corresponder ao seu significado original, de construção arbitrária dos fatos, sejam eles ficcionais ou apanhados diretamente do real.

De acordo com o dicionário Houaiss, “narrativa” é um termo polissêmico que tanto pode significar o ato ou efeito de narrar, seus diferentes estilos e modos, o mero encadeamento de acontecimentos ou mesmo forma de denominar a escrita ficcional de um modo geral. De posse dessa definição não custa muito notar que a disputa política em torno do impedimento extrapola em muito a oficialização ou a legitimação discursiva, mas chega às raias da validação de cada fato ou afirmação que venham a público, degringolando para uma guerra de informação nos moldes do bom e velho Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.), ainda que a célebre sentença atribuída a ele, “na guerra, a verdade é a primeira vítima”, também não possa tanto assim corresponder à verdade. Mas, bem dizendo, alguém está ligando para isso?

Verdade verdadeira ou mentira mal contada, na mão de um bom contendor tudo serve para golpear, já que este é um verbo que também não pode faltar. E caso uma informação qualquer se comprove equivocada ou fraudulenta, uma outra ainda mais grave ou impactante sempre estará a postos para tomar o seu lugar e fazer o corpo cerrado do “bom debate”, ainda que se recorram a frases não ditas, declarações não feitas e estratégias informativas do mesmo gênero, tão verdadeiras quanto uma plantação de animais pode ser.

Bem, dessa situação precisa e de uma crônica futebolística imaginativa, com o auxílio de factoides de segunda ordem sobre celebridades e subcelebridades, vem sobrevivendo boa parte do noticioso brasileiro há mais de um ano já. Por outro lado, por ser alimentado por um colunismo jornalístico interminável e por viver-se irremediavelmente no império da opinião, o inconveniente da dissidência de ideias é pulverizado, à medida em que prosperam canais e fontes de informação monotemáticos, talhados para o debate sectário e muitas vezes criados exatamente para esse fim. Não há “verdade” que resista a um embate assim, porque a mais primária filosofia e hermenêutica ensina que a “verdade”, ainda mais nestes tempos de hiperinformação, é como um filme a depender mais do revelador do que a quem é revelada; ou exatamente por isso.

Enquanto os fatos sucedem-se autonomamente sem formar qualquer narrativa, quem tomaria para si a tarefa de atar os pontos dos fenômenos políticos nesse interregno? Ninguém melhor que o colunismo de opinião; isso ocorre justamente por ser composto de uma miríade de facetas e possibilidades infinitas, capaz de satisfazer do mais incauto ao mais bem informado leitor, deste ponto em diante denominado “consumidor de informação”. Assim que, na ausência de uma escrita linear e inquestionável, emergem, antes da narrativa, os narradores, pessoas cuja formação, interesses e ideologia inspiram autoridade e conhecimento de causa, além de uma vocação precípua para contar uma história, isso às vezes de modo mais convincente do que a dedução individual seria capaz de perceber por si só ao analisar os acontecimentos.

Eis que assim, e não de outra maneira, emergem as narrativas. Algumas apoiadas nos bastidores mais insuspeitos da política partidária brasileira, outras no rigor e compromisso acadêmico de quase fornecer atestado metodológico (se necessário, ideológico também), muitas outras na boa vontade dos respectivos “consumidores de informação”, tudo isso atestado pela repercussão notada principalmente nas redes sociais e nas previsíveis reações às narrativas porque, como se sabe, não há mais tempo nem lugar para leitores passivos no mundo contemporâneo. E mais muitas outras apoiadas em factoides e problemas criados para soluções previamente estipuladas, como costuma acontecer nas narrativas dramáticas, especialmente entre as mais singelas.

Esta profusão de opiniões acabadas, emitidas e retransmitidas com a facilidade de um clique ou toque cumpre funções distintas, entre algumas outras improgramáveis. Dirigidas a um público potencial de “consumidores de informação”, elas vêm a calhar para todos aqueles que estão em busca de ideias taxativas e lacradoras, como costuma ser repetido em uma gíria comum nestes dias. A questão de “lacrar”, ou simplesmente fechar questão, confere mais com uma expectativa do leitor em dar-se por satisfeito com uma versão narrativa qualquer do que por uma interpretação e exame finalístico dos fatos, especialmente os sociais e políticos, multiversos por natureza. Essa busca desenfreada por autoridade, por substituir o próprio pensamento dedutivo por um discurso competente e de credibilidade não é obviamente nenhuma novidade nem apareceu ontem. Quem alerta sobre isso é um dos principais teóricos da hermenêutica no séc. XX, Hans-Georg Gadamer, que dizia, entre outras coisas, que o respeito à autoridade gera uma obediência incondicional e uma profusão de preconceitos que bloqueiam o agir especulativo. Gadamer, no seu Verdade e Método, refere-se às escrituras bíblicas, mas trata-se de um alerta em tudo atemporal que vem a “lacrar” perfeitamente com tempos de conturbação política. Nestes, as autoridades conseguem muitas vezes representar alguma estabilidade, ainda que o conjunto de opiniões, assim tomado, mostre-se muitas vezes dissociativo ou esfacelado por fatos ainda mais novos. Em tempos assim, o volume da pronúncia de emissão costuma ser bem mais valorizado que os argumentos.

Também ocorre que o império da opinião parece-se mesmo mais com um império que com uma democracia. Como espécies de feudos ou redomas intelectuais, ao lado dos formadores de opinião, desfila algo como uma procissão de crédulos incansáveis a salmodiar o que lhes é tutelado, absorvendo-se em maior ou menor grau o ruído comunicativo e com doses lenitivas de reabastecimento ideológico e reforço na mensagem. Além de deselegante, teria pouca utilidade citar nomes a este ponto, mas são estes indivíduos a servir de totens e a emitir elipses pouco variáveis da sua ordem discursiva, a partir do seu centro em direção raio de sua credibilidade. Por isso é tão raro ou quase impossível flagrar-se sequer uma nota de arrependimento, uma mea culpa por um equívoco ou uma injustiça praticada e publicada por estes dias. É claro que sua presença atestaria a fragilidade do emissor, mas isso na contemporaneidade é irrelevante dado que a função a cumprir justifica antecipadamente qualquer deslize, a menos que seja contestado por um emissor equivalente. Porém isso, em impérios, obviamente não costuma acontecer.

Na planície abaixo, entretanto, as batalhas são esfuziantes e escarnecidas. Sob o tramado por vezes incompreensível de ideologias, opiniões e também narrativas dos mais diversos matizes, projeta-se uma sombra muito pouco permeável em direção à sociedade. Aliando-se a reprodutores chave, algo como uma intelligentsia conectada, perfaz-se o cenário perfeito de obscurecimento, ideal para a confrontação irracional e simplificadora, de segunda ou terceira ordem, levada a efeito de indivíduo a indivíduo. Neste ponto, a maior baixa neste clima beligerante não seria mais a verdade, como teria afirmado Ésquilo há milênios atrás, mas a própria comunicabilidade. E desde que as pessoas não privam-se de lutar em prol das ideias pelas quais foram lacradas, seja por A, B ou C, o enunciado wittgensteiniano “Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen” (sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar) perde completamente o sentido. A despeito da notável incomunicabilidade, o silêncio é indesejável. Aliado ao obscurecimento, seria a evidência última da mais completa e generalizada desorientação.

No plano político, evidentemente a superposição de narrativas dá-se em outra esfera. Nos meandros do poder político e econômico há mais razões incompreensíveis do que seria razoável imaginar. Para isso, entretanto, não há qualquer limite anteposto, ainda que no baile da política partidária e ideológica brasileira há muito tempo seja impossível distinguir os donos dos dedos, das mãos e até mesmo a identidade dos bailantes. É uma outra espécie de obscurecimento, tendo-se em vista que costumeiramente é em seu nome ou de suas ideias, práticas e legendas que as pessoas acabam por digladiar-se.

Vulgarmente, é o que o populário brasileiro, como dito no início desse texto, denomina por “briga de foices”. O aprofundamento dessa conduta belicosa, portanto, fatalmente descamba para uma variação ainda mais perigosa do embate, que seria popularmente conhecida como a “briga de foices no escuro”. Como quem não deve não teme e há provas suficientes para atestar o estado regressivo da sociedade brasileira contemporânea, quem garante que não existe mesmo a possibilidade de estar-se rumando para tal estado de coisas?

Como qualquer estudante do ensino fundamental sabe, esse estágio da evolução humana antecede até mesmo o da disputa pelo fogo. Mas o que há para temer senão um tramado de palavras e mútuas acusações, não é mesmo? Pouco há para se preocupar, dirão os mais precipitados, afinal está mais do que comprovado que a linguagem é inofensiva e não produz resultados factíveis. Dentro ou fora de uma “narrativa”, o que vale é ajustar o volume do discurso, porque qualquer um pode se tornar aceitável de uma hora para outra. Não parece ser outra a natureza da nova barbárie que vamos nos impondo cada vez mais: uma gritaria sem qualquer limite e sem nenhuma outra finalidade a não ser fazer prosperar o silêncio, custe o que custar, desde que seja um que nos permita, a um tempo só, a própria paz e a danação alheia, mesmo em sucessivos, infinitos, desoladores e frustrados golpes de mestre.

A emoção na narrativa paralímpica

Chega enfim a paralimpíada (ou paraolimpíada, como querem alguns) e algo como uma lei de cotas midiática se estabelece nos meios de comunicação do país inteiro, seja nos tradicionais como nos novíssimos. Compreende-se. Não é mesmo sempre que estas quase 13 milhões de pessoas com deficiência surgem nas manchetes e reportagens Brasil afora, como se repentinamente saídas do avião invisível da mulher-maravilha.

Pessoas com deficiência via de regra são muito pouco notadas na mídia por possuírem uma vida corriqueira como a de qualquer outra pessoa e têm sido bem mais notabilizadas por encarar sérias e reais dificuldades ao tentar levar suas vidas do que por dedicar-se a atividades em tudo normais, como as atividades esportivas. A partir de amanhã (07/09), entretanto, o Brasil sediará pela primeira vez – assim como foi com os Jogos Olímpicos – um evento esportivo da maior grandeza e qualidade, envolvendo pessoas que vêm elevando a prática esportiva a patamares insuspeitados, isso também da mesma forma que os jogos olímpicos regulares.

É bem possível que o espetáculo real, no qual os esportistas realizam o melhor que podem para competir, seja fotografado, filmado ou reportado aqui ou ali como uma espécie de projeção enviesada. A isso deve compreender-se também. É muito natural que quando pessoas normalmente invisibilizadas ou retratadas permanentemente através de muitos estereótipos surjam publicamente isso venha a acontecer, tanto por uma questão de autoimagem quanto de identidade social. É como se fosse uma imagem distorcida a qual é muito difícil colocar em foco justamente porque essa tem sido uma das principais formas de identificação das pessoas com deficiência ao longo da história, mesmo na história recente.

Possivelmente trata-se de uma forma de atalhar os caminhos, especialmente porque nenhuma trajetória de vida é inteiramente contada sem um olhar demorado e, na maioria das vezes, busca-se na mídia o flash instantâneo, a conquista e, quase obsessivamente, o pódio e a medalha. Informações sobre quem a pessoa é, sua formação e sua trajetória individual muitas vezes são substituídas por um resultado redentor e, pelas próprias características do esporte competitivo, cola-se nos esportistas o maior de todos os estigmas positivos com que uma pessoa com deficiência pode contar: o da superação.

Acontece que a superação é, sim, muitas vezes real, mas, em se tratando do esporte, é exatamente a mesma superação que buscam quaisquer atletas. A superação de aperfeiçoar-se, de partir de condições difíceis, de melhorar e de conquistar. Afinal, seja paralimpídada ou paraolimpíada, é olimpíada e ali não há ninguém entrando para perder, mesmo que uns estejam melhor preparados que outros.

Ainda assim dificilmente não haverá sobreposição desses conceitos ou dessas imagens. Embora isso se deva mais à narrativa que se quer imprimir do que à realidade, será sem dúvida uma coleção de momentos por si só emocionantes. E isso é assim porque o esporte tem essa característica de “lavar a alma”, como se diz. Qualquer esporte é assim. Isso, entretanto, não é o bastante para reconfigurar o status humano de nenhum esportista. Eles continuarão humanos durante e ao fim dos jogos, obviamente. É justo que, em respeito ao seu esforço, não sejam convertidos e sacramentados em exemplo de coisa nenhuma. Nem de superação e muito menos de compaixão.

É importante dizer isso porque o sentimento de compaixão e a empatia muitas vezes operam também essa distorção, a revelia do que a pessoa deseja. Encontrar uma narrativa menos lacrimosa ou que deixe ver a pessoa além dos estereótipos que facilmente nela se projetam não é uma tarefa fácil principalmente porque a emoção costuma se impor durante as competições. Mas não há hierarquia na emoção e certamente a emoção dos competidores que desfilarão mídia e internet afora a partir de amanhã é exatamente a mesma de qualquer outra pessoa, especialmente se de alguém que gosta de esporte e suas diversas modalidades.

A partir de amanhã será possível conhecer um pouco mais desses esportistas todos, suas trajetórias, dificuldades e suas conquistas. Não será mais emocionante por causa da deficiência de nenhum deles e não será menos emocionante que outros esportes, mas também não será esporte olímpico se não tiver emoção e não existe, felizmente, uma categoria que se pudesse chamar de “emoção com deficiência”. Portanto não há razão para suprimir a emoção da cobertura dos jogos, basta ajustar o foco e tentar o máximo possível remover as distorções e preconceitos e perceber a pessoa antes e além de qualquer outra coisa. Não vai funcionar sempre, mas, quando funcionar, será como uma medalha de ouro.