Darwin Day

Tenho certeza que a leitura de “Down House” pode ser um tanto frustrante para pessoas que buscam nele algo inédito ou muito relevante para a história da ciência ou as ciências biológicas. Tudo que há ali sobre isso é bem sabido e difundido nas excelentes biografias de Darwin que há nas livrarias. Eu diria que os momentos em que essas coisas aparecem no livro me serviram de “escoras” para contar o que me despertou, de fato, interesse narrativo: a breve vida do seu filho Charles Waring que ele reportou logo da morte do bebê num memorial que, penso eu, é um documento de tanta relevância histórica quanto os seus textos e artigos sobre ciências naturais.

O bebê Charles Waring, ou Charlie, como era chamado em casa, provavelmente nasceu com a síndrome de Down e morreu no mesmo dia em que a teoria da seleção natural foi revelada ao mundo, no salão principal da Biblioteca Linneana, em Londres. Esses tempos perguntei às “inteligências artificiais”, e DeepSeek e ChatGpt foram categóricos: o décimo filho de Darwin e Emma nasceu com a síndrome de Down. Não é que eu confie cegamente nessas coisas, mas acho que elas “leram” bastante para ter tanta certeza assim nisso.

Meu livro é uma ficção histórica contada a partir do mordomo da casa, Joseph Parslow, um narrador comedido e emocionado, efetivamente envolvido com a vida da família e que, além de mordomo, foi o principal auxiliar de Darwin na introdução dos visitantes de Down House nos estudos do naturalista.

Parslow foi tão importante na vida de Darwin e tão reconhecido pela família, que, no funeral que o levou à abadia de Westminster, integrou a primeira fila dos acompanhantes, ao lado de membros da Royal Society, da nobreza britânica e representantes da própria realeza. Darwin não escolheu onde seria sepultado, o documentos referem que preferia o adro da capela de St. Mary, mas assim a Coroa decidiu. Emma principalmente fez questão do acompanhamento do mordomo, deixando nas galerias gente como Herbert Spencer, de quem Darwin gostava de manter certa distância.

Spencer foi o autor da deturpação que deu origem ao darwinismo social e suas derivações mais absurdas e inaceitáveis. A “sobrevivência do mais apto” em lugar da “adaptação”. A “seleção natural” aplicada ao mundo social sem qualquer nuance e consideração. Mas essa é uma discussão que extrapola e muito ao âmbito do meu livro, embora me interesse muito em seus desdobramentos. Até o fim da vida, Darwin manteve o espírito investigativo e em torno do ano de 1873 (15 anos após a morte do bebê) trocou correspondências com o Dr. John Langdon Down, médico que descreveu pela primeira vez a síndrome que depois levou seu nome. Nas cartas, o Dr. Down explicava a Darwin características do “mongolismo” sem entender sua etiologia de fundo genético, mas garantia-lhe que aquele não era um fato da “reversão”, pois ocorria em todas as etnias.

Esta não é a história do livro, mas é uma história muito interessante, pois Darwin havia notado e registrado os atrasos do filho no memorial. Mas o mais importante lá não me parece ser isso, e sim o encanto e os temores para com o bebê. Imaginar estes sentimentos íntimos e esboçá-los sem dar certeza de nada foi a intenção do meu livro.

* * *

Algumas vezes, jornalistas e pessoas da ciência me pediram para dizer coisas absurdas em razão de ter escrito o livro.

“Nos dê um resumo rápido sobre a seleção natural…”

“Por que Darwin não se refere a Mendel no seu trabalho?”

Lamentavelmente, minha pesquisa não chegou a tanto. Cheguei mesmo, não escondo isso, a negligenciar fatos que para os biólogos são indispensáveis na compreensão da sua teoria.

Não. Meu livro é de âmbito doméstico. Privado. Um que os biógrafos não viram nem nunca verão. Só um intruso como eu me camuflaria sob a pele do mordomo para narrar coisas assim. A minha sorte é que o mordomo Joseph Parslow era um sujeito de uma nobreza invejável. Nobreza de espírito, aliás, a única que importa.

* * *

Hoje no mudo inteiro é celebrado o Darwin Day em memória ao nascimento de Charles. Com algum atraso, acho que vamos mesmo fazer a live para falar do livro. Estou só esperando que minha interlocutora tenha condições.

A editora Dialogar colocou nesta semana o livro em preço promocional.

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https://www.dialogar.net.br/product-page/down-house-1858

O nativismo desafiado

O ano era 1985 e o folclorista e historiador Barbosa Lessa refletia e registrava no seu fundamental “Nativismo: um fenômeno social gaúcho” que o nascimento do cancioneiro riograndense fora extremo e dificultoso, havia nascido “por paus e por pedras”. Afirmava, inclusive, que este teria sido o maior problema na consolidação do primeiro movimento tradicionalista: a constatação de um acervo musical muito pobre no Rio Grande do Sul. Desde aí, viram-se o folclorista e seus companheiros na situação de recolher o pouco disponível e de ele mesmo contribuir com o cancioneiro local, compondo letra e música da toada Negrinho do Pastoreio e outras melodias que mais tarde foram compiladas e difundidas no Brasil especialmente pela cantora e apresentadora Inezita Barroso, em seus discos e coleções de música “de raiz”.

Passadas várias décadas desde o livro e mais ainda desde o momento seminal do movimento tradicionalista, não é arriscado dizer que o acervo musical de “extração folclórica” no Rio Grande do Sul tornou-se neste período nada menos que descomunal. Barbosa Lessa, em 1985, falava a respeito do momento excepcional que o nativismo vivia, com o sucesso popular dos festivais musicais, especialmente a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana. Além disso, a propagação do movimento cetegista havia se tornado um fenômeno nacional e até internacional, com a instalação de mais 800 centros tradicionalistas nos mais diversos pontos do país e do mundo. Ao fim do mesmo livro, o folclorista ainda assim afirmava não possuir distanciamento suficiente para avaliar a influência do movimento nem os caminhos que se seguiriam no que viria a ser, para ele, uma “nova fase” do gauchismo.

Um diagnóstico do que ocorreu nesse lapso, de fato, ou pelo menos uma avaliação crítica, não parece ter sido discutida e difundida. Embora o assunto tenha sido e seja ainda bastante pesquisado, e sob os mais variados vieses, o ciclo comercial de exibição, gravação e transmissão parece ter se imposto como um fenômeno cultural autosuficiente, isto é, em condições de sustentar a cadeia econômica erguida em torno da massiva produção autoral do nativismo. O complexo é ainda imenso: são dezenas de festivais musicais espalhados pelo interior e centenas de edições acumuladas ao longo dos anos. Em cada edição, dezenas de composições inscritas, ou seja, uma profusão exponencial de criatividade e influências.

No entanto, provavelmente a “nova fase” do gauchismo antevista por Barbosa Lessa tenha mesmo é derivado para a massificação comercial. E se perdido um tanto da produção de projeção folclórica arduamente laborada e que foi, de acordo com um dos fundadores do movimento tradicionalista, “garibada” de um repertório muito elementar, motivos rústicos e uma linguagem eivada por espanholismos e expressões e termos típicos e passadistas. É natural, pois Lessa também adverte em seu livro que tanto ele quanto Paixão Côrtes foram buscar na experiência dos grêmios gaúchos de João Simões Lopes Neto e Cezimbra Jacques inspiração para a conformação do seu edifício folclórico. Além disso, a projeção do folclorismo platino, seus motivos, estilos, danças e músicas colaboraram numa aproximação inevitável, tendo-se em vista que apoiadas na vida provinciana e no gauchismo como um fenômeno sem fronteiras.

Enquanto o folclorismo riograndense engatinhava, por assim dizer, o argentino já se encontrava consolidado numa estrutura institucional e comercial que encontrou nas ambições nacionalistas o fermento ideal para o seu crescimento. Especialmente pelo trabalho do folclorista Juan Alfonso Carrizo, o conhecimento da cultura local argentina havia frutificado em espetáculos, gravações e publicações que resgatavam para a Buenos Aires metropolitana a cultura espontânea das províncias. O seu trabalho de décadas havia favorecido a primeira onda folclórica no Rio da Prata, em torno da década de 50, com a evidência maior de Atahualpa Yupanqui, o principal coletor, intérprete e autor de projeção folclórica nesse momento — embora os primeiros registros de exibições folclóricas em Buenos Aires datem das primeiras décadas do séc. XX.

Nesse mesmo período, em solo rio-grandense, o modernista Augusto Meyer finalizava a primeira edição do seu “Guia do Folclore Gaúcho”. A sugestão do livro partira do seu amigo Mário de Andrade, escritor e pesquisador musical do folclore nacional, e consistia na consolidação do possível. Em seu prefácio, Meyer dizia que um livro como o dele deveria trazer mais folhas em branco do que texto. E afirmou sem pejo que, por falta de fontes, muitas vezes colaborou intensamente na criação final dos objetos fixados. Pelo seu exemplo e pela mesma dificuldade encontrada pelos primeiros tradicionalistas, o que se pode deduzir é que estes vazios foram compensados por uma resolução muito forte na fixação do imaginário e identidade cultural do Rio Grande do Sul ao tempo que o mundo se recompunha da Segunda Guerra Mundial e a UNESCO fôra criada no sentido de fomentar políticas em prol da diversidade cultural e da valorização dos povos. No Rio Grande do Sul, também a figura do historiador e folclorista Dante de Laytano teve um papel fundamental no estímulo ao grupo formado no colégio Júlio de Castilhos e liderado por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa.

Mas se o primeiro momento da investida tradicionalista foi árduo e o terreno encontrado árido, a frutificação do nativismo, e em especial no que diz respeito à música como produto cultural, logo se tornou imensa. Se a princípio tanto Lessa quanto Paixão Côrtes controlavam as influências uruguaias e argentinas, pujantes, em torno da virada do milênio o movimento abstraiu de qualquer controle interno, influenciando-se por outras ondas culturais. Lessa, que morreu em 2002, certamente não opinou na decisão do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), de 2006, em vetar a participação da emergente “Tchê Music” nos espaços cetegistas. Em suas prerrogativas normativas, o MTG procurava conter o contato intercutural nacional e a manutenção de uma tradição intocada, sendo que em sua própria origem o movimento havia se inspirado em influências extra-nacionais.

Como é de se imaginar, os influxos culturais não podem ser parados por decreto e, mais recetemente, o que vem se flagrando em muitos festivais nativistas é a presença de uma sonoridade e elementos da música “sertaneja” em sua versão contemporânea. Além da sonoridade e entoação, destaca-se até por contraste uma sensibilidade diferenciada daquela consagrada ao gaúcho e o estereótipo da masculinidade altiva e etc. Para além da curiosidade, o que resta é um estranhamento que implica indiretamente na alteração da linguagem, dos costumes e, por estranho que pareça, da própria “tradição”.

Por certo quem viaje ao interior, planalto, fronteira ou a serra do Rio Grande do Sul há de encontrar variações culturais e dialetais importantes. A região do pampa rio-grandense, por ser a mais característica e identificada com o ethos gauchista, supostamente estaria mais “a salvo” dessa influência, no entanto a proliferação do cultivo da soja em detrimento da produção pecuária parece que vem alterando a cultura em redor. Esta é a opinião do escritor José Francisco Botelho, hoje radicado em Bagé, na fronteira com o Uruguai. De acordo com ele, trata-se de uma observação empírica, com base na experiência da realidade. A observação é coerente com o que se reflete, pelo visto, na produção musical nativista. Fato é que as negociações culturais em torno do vocabulário e práticas de vida sem dúvida se alteram em função das necessidades presentes de trabalho e demais elementos da vida cotidiana. Talvez isto signifique que o mesmo impasse na variabilidade da expressão cultural se encontre expresso nas práticas econômicas. A influência econômica sobre a cultura, como se sabe, nunca pode ser completamente desprezada.

Nesse contexto, se refletisse sobre o assunto, uma pessoa incauta indagaria inocentemente: mas pode o folclore pode mudar? Está ameaçado o legado de Barbosa Lessa, Paixão Côrtes, Dante de Laytano e talvez até mesmo o de Augusto Meyer? Pode estar, é claro. Se um repertório folclórico é dado por pessoas que o sistematizem da voz popular, o que for sistematizado hoje logo a seguir o integrará ou substituirá. Esta é a natureza mutável e espontânea do folclore, a concepção popular da vida e do mundo (não apenas uma coleção pitoresca), conforme o anotado por Antonio Gramsci no seus anos de cárcere. Se determinado repertório deixa de atender às necessidades expressivas de uma comunidade, naturalmente ele será substituído. Afinal de contas, ele mesmo nascera de uma mutação histórica ou se encontrava em estado líquido, volátil.

Como se sabe, a busca por reter a história costuma ser um esforço inútil, e mesmo que não identificado com um furor conservador a René Guenón, o tradicionalismo cultural do Rio Grande do Sul permanece na mesma encruzilhada que Barbosa Lessa viu em 1985. Curiosamente, agora mais desafiado pelo próprio Brasil do que pela cultura dos países vizinhos (voltar olhos e ouvidos ao produzido nos demais países latinos, aliás, poderia oxigenar em muito a produção local). Suas opções estão entre cristalizar-se numa resistência tresloucada à mudança ou em descaracterizar-se do arcabouço constituído a duras penas pelos seus fundadores, numa amostra de maleabilidade por ser comprovada. Poderia também, talvez isso seja possível, colar-se a uma noção mais dinâmica de cultura e colher do próprio povo as suas razões de ser, mantendo-se fiel ao escrúpulo de seus idealizadores. Não mal comparando, a opção está como que entre a prudência de apear do cavalo e a busca por refazer seu contrato com a população ou ser derrubado pela passagem do trator da história. Não é questão de apostar nisso ou naquilo, mas, que o desafio está posto, isto ele está. É um contato que já existe, resta ver qual será o impacto ao final do encontro.

Déjà vu

Ao contrário do déjà vu, às vezes me acontece uma estranha sensação do inédito. Estou vendo isso aqui, mas de repente isso aqui não me parece ser o que me parecia até ontem ou mesmo há um instante.

Havia antes essa realidade que eu ignorava ou só agora posso percebê-la?

Decerto é um truque perceptivo que o cérebro nos causa para que suportemos a repetição dos dias, itinerários, paisagens e tudo o mais que se repete ou que precisamos refazer.

Sonoramente, é como se os ouvidos fossem subitamente destamponados. Visualmente, é como se o tisnado opaco que borra a tudo do nada acordasse limpo. Literariamente, é como se o o texto nos mostrasse o seu subconsciente, e do que ele tenta nos dissuadir com seus mil artifícios estéticos e retóricos, mas que está ali, a psicologia do autor, ao alcance dos olhos de qualquer um, como uma espécie de nudez invertida.

Estranho também que a sensação, assim como ela vem, logo ela se vai. E o novo amarelo passa a ser o velho amarelo. A voz magnífica de um cantora parece que entra de volta numa caixa. Os livros resumem-se aos títulos de um catálogo.

Só o sol, sempre o mesmo sol, repete-se infatigável.

Para ele, às vezes também parecemos renovados. Mas ele não se manifesta quanto a ninguém em especial. Se ele pudesse dizer, certo que diria “hoje você está mais colorido que o habitual também” ou “que voz linda a sua” ou “o seu poema diz muito para mim”.

Mas ele nunca diz nada, este velho. Na sua justiça específica, talvez queira nos poupar de alguma coisa. Que sejamos repetitivos, enfadonhos. Que nossa arte seja insignificante. Que nossa vida não seja tanto assim quanto nos parece e queremos que pareça, e nem mais que a de ninguém. Suspenso, nos gasta dia após dia, imparável. Ao mesmo tempo lento e rápido, para que não possamos percebê-lo muito — e nem nos percebermos.

Mantiqueira range

Essa mania que tinha o Tom Jobim de batizar em inglês os nomes de suas músicas me induziu por anos a uma sucessão de erros que não faz muito descobri incorrer.

O primeiro dos erros era atribuir a ele (e não ao seu filho Paulo) a composição “Mantiqueira Range”, gravada em 1973, no seu “Matita Perê”.

Eu lia “Mantiqueira range” obviamente como tradução de “Serra da Mantiqueira”. Segundo erro. É “range” de ranger mesmo. Está na letra que eu também desconhecia, de autoria de Ronaldo Bastos e com o artigo “A” antes de “Mantiqueira range”, para não deixar dúvidas.

Outro. Sempre achei que era uma composição inteiramente instrumental como as que Tom gravou nos seus discos orquestrais. Não era. Erro três.

Há uns dias eu lia que a serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que é apenas parte superior de uma entidade geológica subterrânea, a Província Mantiqueira, um dos escudos da Plataforma Sulamericana (o outro é o Cráton do São Francisco), que une (no subsolo) o Rio da Prata à Bahia, passando pelo Rio Grande do Sul, aprofundando-se no Paraná e ressurgindo São Paulo acima, onde a serra se mostra mais evidente.

Quando na letra Ronaldo Bastos diz que “vi a Mantiqueira falar” é ao rangido tectônico a que ele se refere e que todos os seres acusam (galo cantou/gado berrou/). Mas também da geografia, dos pequenos movimentos de dentes que a serra emana e que os animais escutam melhor que o homem ruidoso.

Musicalmente, “A Mantiqueira range” é praticamente toda uma linha de contrabaixo que modula sem muitas variações, tons abaixo, até ranger com um tremor gravíssimo. Uma pequena peça da joalheira que sabiamente Tom tomou do filho Paulo. Pedra bruta do subsolo, de muito abaixo da serra da Mantiqueira.

Prêmio AGES Livro do Ano 2024

O Prêmio AGES Livro do Ano 2024 foi entregue no dia 4 de dezembro de 2024, no Espaço Força e Luz, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A cerimônia premiou as melhores obras literárias publicadas em 2023 por autores gaúchos ou residentes no estado. 

Na categoria Narrativa Longa, o escritor Lucio Carvalho recebeu o Prêmio AGES por “La Minuana”, publicado pela TAN. O troféu foi entregue por Max Ledur, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro.

A cerimônia de entrega do Prêmio AGES Livro do Ano 2024 ocorreu no dia 4 de dezembro passado no Espaço Força e Luz (Rua dos Andradas, 1223, Porto Alegre/RS).

A presidenta da AGES, Liana Timm, conduziu a premiação, ao lado da vice-presidenta cultural da entidade, Cátia Castilho Simon.

Nesta edição do Prêmio AGES Livro do Ano, a AGES – Associação Gaúcha de Escritores celebrou a literatura produzida no Rio Grande Sul com dois prêmios especiais, entregues à escritora Valesca de Assis e ao escritor Tabajara Ruas, que têm se destacado no cenário literário.

Também foi feita uma homenagem ao escritor e produtor cultural Doralino Souza da Rosa, editor da revista Paranhana Literário, falecido este ano.

Confira os livros escolhidos como vencedores do Prêmio AGES:

NARRATIVA LONGA
La Minuana“, Lucio Carvalho (TAN)

NARRATIVA CURTA
Vespeiro“, Irka Barrios (DarkSide Books)

CRÔNICA
Cevando a palavra“, Demétrio Xavier (Coragem)

POESIA
AB Cena“, Sabrina Dalbelo (Urutau)

INFANTIL
Para onde vai, Dona Lesma?“, Helo Bacichette (Elos do Conto)

JUVENIL
Aguapés“, Giovana Oliveira (Urutau)

TEXTO DRAMÁTICO
Bonecas de argila & Cambalache 2.0“, Jorge Rein (Bestiário)

ESPECIAL
Meu Corpo Negro: Memórias“, Nathalia Protazio, Marieta dos Santos da Silveira, Tônio Caetano, Tiago Maria e outros (Independente)

TRADUÇÃO
Poemas japoneses de morte“, Roberto Schmitt-Prym (Bestiário)

NÃO-FICÇÃO
Nós não caminhamos sós – Histórias de isolamento no antigo Leprosário Itapuã“, Ana Carolina de Oliveira (Sulina)

Neste ano, 66 escritoras e escritores de todo o Rio Grande do Sul, integrantes da AGES, participaram da escolha dos vencedores do Prêmio AGES Livro do Ano 2024.

O júri especializado que indicou os finalistas foi composto por:

POESIA E CRÔNICA: Vitor Diel, Divanize Carbonieri e Ana dos Santos

NARRATIVA LONGA E NARRATIVA CURTA: Dani Langer, Júlia Dantas e Dione Detanico

DRAMATURGIA E ESPECIAL: Janaína Pelizzon, Marília Barcellos e Lígia Sávio

TRADUÇÃO E NÃO-FICÇÃO: Vera Ione Molina, Ronald Augusto e Marília Kubota

LITERATURA INFANTIL E LITERATURA JUVENIL: Noia Kern, Vera Teixeira Aguiar e Vanessa Ratton

A noite de celebração da literatura rio-grandense teve ainda o lançamento da antologia “Literatura Grande do Sul”, com poemas, contos e crônicas escritos por associadas e associados da AGES.

Fotos: Íris Borges/Divulgação AGES

Fonte: Literatura RS / AGES

Necessidade de escrever

Todo o mundo já ouviu alguma vez daquela pessoa que escreve “por necessidade” (já disseram isso a meu respeito, inclusive). O que se quer dizer com isso para mim é uma coisa meio insondável. De que necessidade estamos falando? Editorial? Comunicativa? Confessional? Financeira? Uma só necessidade? Duas? Muitas?

Não há como saber. Porém de alguma forma que também não compreendo completamente, me parece simples distinguir um texto literário escrito “por necessidade” daqueles escritos por outros impulsos. Não leva muito tempo. Na ficção, até ao final da segunda página isso se esclarece por conta própria. Na poesia, me parece que ainda no primeiro fôlego, custe isso um verso, uma estrofe ou o poema inteiro. Há poemas (raros) que se vê que foram escritos sem respirar. Ou pelo menos parece que se vê.

O instrumental é simples e totalmente intuitivo, já que as ferramentas disponíveis ao exame do escrito são sempre superficiais e os escritores são artificiosos ao extremo no sentido de criar jogos de espelhos nos quais tanto mostram-se como ocultam-se ou deliberadamente disfarçam-se. Às vezes, kafkianamente, fazem tudo isso ao mesmo tempo. De qualquer modo, parece haver para cada pessoa leitora uma chave para além das chaves. A chave mestra, a chave micha com que cada qual invade o literário para reconhecer o humano da criatura.

É um segredo para além do lacre. Não fosse isso viável ou desejável, desnecessária seria toda a atividade literária. Bastariam o texto dissertativo e o informativo, mas mesmo o mais lúcido texto analítico nos pesa como um rochedo – e o inacreditável para mim é que muitos escritores de literatura (e até de poesia) parecem também aspirar a essa condição, de que seu texto se consolide e seja o mais direto possível, indubitável, recitativo.

Isso me parece ser mais ou menos como a abolição do mistério da poesia: a escrita sem necessidade. É como se fosse uma arte tomada dos bagaços depois que o fruto morreu.

No frigir dos ovos, nem uma emoção estética se repete. Garantias? Nem uma. O que a alguém parece genial a outro parece apenas insuportável. E tematicamente há quem se comova mais com a poesia amorosa, outros com a ideia de Deus, com a natureza, a vida urbana, etc etc etc.

Mesmo assim, o que me parece é que a emoção estética individual seja mero prolongamento de expectativas prévias, coincidente com crenças, ideologias, etc. E que rejeitamos a diferença também numa atitude instintiva e irracional. Antipatia? A outra face da simpatia.

Mas em todas as entrevistas com escritores que já li, nunca encontrei uma em que fosse indagado à pessoa a razão pela qual ela faz o que faz. Parece implícita a necessidade, curiosamente expressa numa desnecessidade.

Mesmo assim, a única vantagem aparente, ou diferenciação, da arte produzida sob o império da necessidade é que ela entrega mais nitidamente do autor do que, por exemplo, um complexo de racionalizações. E se há uma curiosidade superior no ser humano é a de reconhecer no outro a sua semelhança. Há quem desista das pessoas nesse intento e dirija-se a Deus (ou a ninguém), mas, ao contrário da religião, que isola e serializa as pessoas, a literatura é um poderoso artifício de conexão. Basta ver o quanto e como se reúnem os escritores em torno aos seus interesses comuns. Também isso parece ser uma espécie de necessidade. Todos procuram mais ou menos declaradamente aqueles que compartilham seus códigos, valores, repertório, etc.

Mas a necessidade que move escritores é também objetiva, não apenas um desejo de transbordo expressivo. Tornar a pessoa e o self compreensíveis me parece ser uma grande força mobilizadora. Isso é que diz Hannah Arendt em ‘A condição humana’, entre muitas outras coisas. Ela, que dizia pensar melhor por escrito, prova talvez de que a elaboração verbal escrita seja mesmo um dos pontos mais altos da inteligência, pensava também que os sentimentos humanos não sejam narráveis. Essencialmente, ninguém pode compreender tudo o que há e se passa com o outro. Pode compartilhar. E pode também não compartilhar.

Essa talvez seja a razão pela qual escritores usem bastante as redes sociais. Como se pudessem encontrar eco nesse vale tomado de gente, já que o declínio da leitura em livros é meio que evidente (e até certo ponto uma experiência incomunicável). E até escrever – por alguma necessidade – coisas que pareçam desnecessárias e justamente a respeito da própria necessidade.

O que parece?

What the hell is a flowery boundary tree?
Cormac McCarthy

Ainda estou indo, na verdade, ele disse sem olhar para trás, apenas pressentindo que eu o seguia sem nunca alcançá-lo, sem nunca emparelhar-me em sua marcha ao lado do acostamento derruído da rodovia que, pelo seu próprio propósito, nos levava de volta à fronteira, cada qual em seu tempo.

Como se num feriado, em dias em que as horas parecem durar ao menos o dobro ou triplo do que custam realmente a passar, notei que não passava nunca um carro ou caminhão pela estrada dividida ao meio por tracejados apagadiços. E caminhávamos e falávamos cada vez menos desde que eu havia dormido e acordado nesse lugar ao mesmo tempo estranho e familiar: o caminho a que regressávamos.

Quando eu disse que faríamos, pelo jeito, todo o trajeto a pé, ele não se incomodou e até virou um pouco em minha direção com o olhar irônico de quem perguntava se eu já estava cansado. Não, não era isso, em sonhos a gente pode caminhar a eternidade e não cansa, disse-lhe em voz alta. Foi a última vez que ouvi sua voz, em retorno: é disso que se trata.

Depois não falamos mais, o dia não acabou mais, o tempo não passou e nem um ser vivo encontramos ao avançarmos indefinidamente o caminho do sol poente. Pelo jeito aquele seria também um entardecer eterno, interminável. Mas era também o único modo de compreender aonde estava indo o homem alto, de largas passadas, que olhava a paisagem como se fossem coisas afilhadas a ele os postes e pedregulhos, sintomas da matéria sob os pés, disso que chamamos vida e que nos vai sumindo aos poucos, fatalidade das fatalidades.

Ao alcançarmos o topo de um aclive, uma coxilha, notei o que parecia ser o dedilhado de um violão. Ele não pareceu notar e seguiu caminhando sempre olhando em frente, sempre em frente. Havia algo de sinistro e dissonante naquele som, assim como a árvore de que provinha. Uma árvore de folhas vermelhas, como um coração cansado, que parecia querer me lembrar de alguma coisa.

O contraste agreste, inacessível, de um verde amarelado, o pastiçal sem fim e roído por animais que já não se viam, com o súbito vermelho, fez com que detivesse meus passos. Ele continuou os dele e achei que nem olharia para trás, para certificar-se de que o seguia, mas ele olhou e sorriu em minha direção, como se estivesse satisfeito de saber que eu estava vivo – para ele mesmo, isso não parecia fazer diferença. Não havia feito isso desde que nos encontráramos ali, naquele deambular. Entendi que estava feliz de que o seguira até aquele ponto, mas, de agora em diante, só ele seguiria ao seu destino, qual seja, a ausência de qualquer destino, e eu continuaria preso ao meu.

O espírito da literatura não é o livro

Não me parece que haja muitos lugares mais enigmáticos do que o que havia por detrás dessa porta, em meados do séc. XIX. Hoje, não. Hoje é apenas o quarto de um museu. Ele fica em Amherst, no norte dos EUA. É a porta do quarto de Emily Dickinson, em cujas frestas ela teria guardado — reza a lenda — os seus envelope poems. Talvez o quarto de Fernando Pessoa no Largo do Carmo, em Lisboa, tenha sido assim também fascinante. O pequeno quarto onde Simone Weil morreu sozinha no Sanatório Grosvenor, na mesma Ashford pela qual anos antes haviam passado Charles Darwin e sua filha Anne, em busca de uma salvação que não veio para a menina.

Mais certo é que por detrás dessa porta fosse apenas possível encontrar o quarto de dormir de Emily, a cama onde contorcia-se em razão das dores causadas pela nefrite, sua pequena escrivaninha quadrada e uma única cadeira, na qual ela sentava-se para escrever. Tampouco transparece mistério no quarto de Pessoa. Ali estaria o baú entreaberto com anotações de criaturas que por seu intermédio puderam conhecer este mundo, uma estante dupla de livros e alguma garrafa vazia de vinho ou absinto no piso. Detrás da porta em Ashford, o colchão que uma Simone desnutrida e diáfana deixou intacto, para o próximo convalescente.

Não escolhi esses três nomes por sua aura, nada disso. Escolhi porque estão no topo do meu panteão, um pouco acima de outro autor que morreu praticamente inédito: Franz Kafka. São deles as coisas mais impressionantes que já li, embora de Simone não como poeta. A não ser por um poema chamado justamente “A porta”, o seu é um texto do pensamento, e de “graça”, mas de uma força impressionante.

É uma coincidência estranha que os nomes acima, quase todos eles permaneceram em vida praticamente inéditos em livro. Pessoa ainda chegou a ver Mensagem, Kafka uma coleção de contos, mas tanto Simone quanto Emily publicaram apenas em jornais e suplementos. Nada que denunciasse a imensidão da obra por trás de cada um deles. Mas talvez não seja coincidência, apenas que se dedicaram mais a escrever do que publicar. Emily parecia ter muitos receios de se expor e de ter uma má apreciação. Pessoa acho que não conseguiu se organizar para tanto, embora seus planos fossem até conhecidos de amigos próximos. Kafka incumbiu um amigo para queimar seus originais, não sei se sabendo que o outro não o faria. E de Simone Weil a obra foi mantida por amigos para depois de sua morte ser editada e divulgada por Albert Camus.

Tenho um carinho muito especial pelos autores inéditos, reservados. Não estou falando daqueles que não conseguem editora (hoje alguém não consegue?), mas daqueles que não se entregam à carreira literária, mas vivem tão intensamente a literatura que ela praticamente se consome neles mesmos. Porque são pessoas organizadas por outra ordem que não a do auto-proveito, muitas vezes é preciso que atravessem a última porta para que só então sejam valorizadas. Às vezes, nem assim. Acho isso de uma indignidade terrível, ainda mais porque muitas vezes este espólio é objeto de familiares desinteressados na pessoa e na obra, mas não nessa exposição e exploração comercial. Muito complicado isso.

Neste ano de 2024 eu perdi um amigo muito especial, que morreu praticamente inédito em livro. Salvo um volume juvenil, feito com parcos recursos, sua obra está praticamente perdida. E o que ele mesmo não eliminou, decidiu por não guardar. Então, simplesmente perdeu-se. Eu tenho comigo algumas coisas que ele publicava num blogue e eu salvei, mas não é suficiente para um livro. No meu juízo, a sua poesia é superior a de muitos livros bem-sucedidos por aí, mas me incomoda mesmo é a consciência de que ninguém saberá das horas intensas que ele dedicou à escrita. A intensidade terá sido apenas aquele frêmito momentâneo que poucos conseguem fixar a contento no papel. Este foi um poeta que me abriu a porta e eu pude conhecer um pouco, mas quantos há, como ele, que o mundo ignorará por completo?

No ano passado ou retrasado eu escrevi um prefácio para um livro que deveria existir e ser celebrado por quem gosta de boa poesia. A poeta me pediu para escrevê-lo e eu acho que nunca gostei tanto de escrever um prefácio como o para ela, mas ela não conseguiu ainda se organizar para publicar. Eu lamento, mas entendo perfeitamente. Fato é que obras como a sua estão em falta, no meu juízo, enquanto livros não faltam. É uma pena que as coisas sejam assim, mas cada vez mais eu me convenço de que foi assim sempre.

A história do livro é muito violenta e tem capítulos cruéis. Ao lado disso, feliz e incrivelmente o espírito criativo se mantém. A literatura se mantém a despeito do livro. Mas na minha idade eu já testemunhei injustiças e apagamentos absurdos. Talvez as obras de uma Emily Dickinson ou de um Fernando Pessoa hoje não fossem sequer notadas, ou menosprezadas. Talvez Kafka preferisse lançar ele mesmo seus livros às chamas. É um mundo que se fecha por dentro, o do livro, e que de certa forma sufoca os leitores.. Mas é preciso salvar as obras que estão morrendo por descaso com a memória cultural e as que estão agonizando dentro da casca do ovo por falta de uma mínima atenção, de espaços, de tudo.

Isso não tem a ver com o livro ou o sucesso comercial ou as editoras ou as livrarias ou os suplementos, tem a ver com a literatura. A internet, que lucra com a objetificação de tudo, com a inteligência artificial vai se tornando cada vez mais a “internet das coisas”. A literatura na internet não precisa seguir esse modelo, mas, se acreditarmos apenas nisso, é no que ela fatalmente acabará se tornando.

O calceteiro

Hoje o calceteiro não veio. Havia ameaça de chuva, mas a chuva também não veio. Nem um nem outro vieram. Não sei onde foi parar o som das repetidas marteladas que ontem repercutiram tanto e que hoje repercutiriam outra vez. Havia um partitura pendurada no ar que não se sonorizou.

Às vezes fui a janela observá-lo: ele selecionava como um cirurgião entre tijoletas intactas e machucadas. As machucadas ele ia destroçando e ensacava à disposição de um comboio que passa pela noite levando na caçamba ruínas de pedras, frangalhos e outros destroços que as pessoas deixam na rua.

Na forma pela qual ele alinha as tijoletas, só é possível uma ordem, caso contrário todas perdem o ajuste. E a calçada volta a ser uma espécie de estrada, um caminho. Em frestas retilíneas ele vai ajustando as pedras que não se incomodam do seu manuseio.

Nada disso se parece à vida real, onde tudo se desajusta tão rápido, mais que se possa perceber. Mas, ao contrário dele, que descarta as pedras sem dó, é muito difícil jogar fora o que está arruinado. A consciência de viver é dada por cicatrizes e outras protuberâncias, como o cabelo que cresce, pelos no corpo, unhas, essas coisas. Tudo, menos as coisas intactas.

Já as pedras não têm consciência nenhuma, é claro que não. Se algo lhes falta, não parece ser por culpa do calceteiro. O incômodo rugoso das outras pedras raspando em desencontros é também uma espécie de conforto, assim como as pequenas almofadas nas patinhas dos cães que sem solenidade ou pudor urinam na obra do homem e sobre a sua fronte, tapando-lhe o sol e adulterando sua fisionomia.

Minha amiga Dalva de Oliveira

Ninguém imaginaria que esta senhora confortavelmente instalada sobre o encanamento da calha de chuva do meu edifício seja na verdade uma reencarnação da Dalva de Oliveira.

Mas não só ela é como eu tenho certeza de que mais adiante, no pátio da minha vizinha, vive também a reencarnação pássara de Ângela Maria e num perímetro não muito grande ainda se possam encontrar todas as rainhas do rádio, que por alguma razão resolveram voltar à vida tudo aqui pertinho de casa, numa grande coalizão de talentos que elas exuberam madrugadas afora.

Eu não sei bem a identidade delas — de noite todos os sabiás são pardos —, mas esta aqui eu tenho certeza de que é a Dalva, que, de acordo com a opinião de Heitor Villa-Lobos, foi a maior das cantoras brasileiras da sua época. E porque tenho bom ouvido e certeza de que nunca daquele bico emitiu-se que fosse só uma nota desafinada..

Coisa mais agradável que tem é acordar com o canto de um sabiá. O problema é que nessa época de acasalamento os pretendentes a nubentes acabam montando uma orquestra filarmônica noturna. E o que era mera seresta logo se torna a Primavera de Vivaldi.

Mas… Para que dormir? Vamos aproveitar e ouvir os pássaros!..

Noite dessas, com olhos pesados e ouvidos alertas, cheguei a cogitar em desalojar a Dalva. Cansei de você, vá cantar noutro terreiro, pensei.

Mas tomei do telefone e revendo-a, absorta chocando a ninhada de ovinhos, recobrei o pouco de humanidade que evaporava àquelas horas altas da noite. De ornitopata me conformei em ornitólogo. Fiquei com a foto. Ela, com o seu ninho.

Também pensei que talvez pudesse ser atacado por um sabiá malandro de navalha na mão (um namorado típico dos anos 50, terno branco e chapéu panamá) e achei que não tinha cabimento ninguém passar por essas aventuras e muito menos um despejo tão brutal. Eu era um monstro pensando numa violência de empreiteira imobiliária e ela a reencarnação da Dalva de Oliveira..

Seus trinados, barroquismo que aprendeu involuntariamente na natureza, quando soam eu sei que são três da manhã. Para uns, hora de desbragada boemia. Para outros, o sutil despertar da neurastenia.. Assim é a vida, jamais se pode pretender agradar a todos. Mesmo a voz de uma Dalva de Oliveira pode soar insuportável, a depender do humor do freguês..