O totem

Ah, sim… Você também acha estranho ver alguém falando sozinho nas ruas! É mesmo uma cena melancólica. Às vezes, eu falo também, mas pouco. Logo percebo e paro. Você também, provavelmente. Daí a estranheza e/ou o receio de fazer uma projeção qualquer. Imaginar-se no lugar daquele senhor que faz algo ainda mais estranho: ele não só cumprimenta o totem que expede os tíquetes do estacionamento quanto agradece na volta, ao sair e descer a rampa em direção às ruas.

Não tenho como sabê-lo (ninguém tem), mas eu sei que os dias lhe são cada vez maiores. Eu imagino só e isso me é suficiente. Assim como as manhãs começam antes da aurora, à noite o sono só chega mesmo após muitos comprimidos. Eu não o vejo (ninguém vê), mas eu sei que às vezes ele os ingere em dobro. A esperança é que dessa forma possa acordar com o o sol já melhor colocado no céu. Talvez até já sob aquela luz líquida que atravessa os furinhos da persiana e cria como uma cortina intangível de partículas. Você sabe do que estou falando: os grânulos da poeira acumulada que parecem ter vida própria, uma espécie estranha de vida, verdade, minúscula, mas, sem dúvida, autônoma.

Em sua família eu não penso nem imagino nada. Não ousaria ser invasivo a esse ponto. As possibilidades são tão múltiplas quanto imprevisíveis. Solteiro, viúvo, pai, avô, etc. Ou nada disso. Seria ainda mais estranho se tivesse uma família constituída e falasse ao totem somente por educação. Uma educação extremada como a daquelas pessoas antigas que, ao acender-se a luz pela noite diziam a ninguém e todos o cumprimento solene “boa noite”. E assim sacramentava-se o final de mais um dia. A imagem não resulta bem. Prefiro – ou é mais fácil dessa forma – decidir que é um velho homem solitário e regrado na sua vida. Educado ao ponto de responder atendentes de telemarketing, e-mails falsos e tótens com vocalizadores. Se bem que assim não seria tão estranho, afinal, ninguém nunca sabe como essas coisas esperam que a gente se comporte.

Como cliente, nada consta de errado. Um dia quando estava no almoxarifado conferindo os prazos dos extintores de incêndio, pedi ao Josué, que cuida ali dos computadores, que checasse pela placa do automóvel nome e compras do homem.

“Mas o que você quer saber”, ele indagou antes de atender ao pedido. “É curiosidade, só…”, expliquei-lhe. Curiosidade é uma intenção que entre nós não diz nada e, por isso, logo abriu a ficha cadastral na tela do seu equipamento.

A imagem cadastrada era a da identidade do sujeito. Já calvo e com a barba sempre bem feita, tinha um olhar complacente e severo ao mesmo tempo, se é que é possível a combinação. Eu achei que era. A data de nascimento, naturalidade interiorana e a digital bem gravada davam uma ideia sólida de um indivíduo. Aposentado, sem dúvida. Um senhor de idade, como eu já disse. Nem tão velho que assocializado e nem tão jovem que dispensasse a minha ajuda eventual com as sacolas e caixas de leite. Algumas vezes eu o ajudei nisso e ele tinha a mesma efusividade neutra ao me agradecer que tinha para com o totem. Mas a minha vida é assim mesmo. Há quem nem agradeça e a verdade é que isso também não me causa mais nem uma sensação. Antes causava, sim, um pouco; agora, não.

Com o Josué rolando a tela abaixo, no rol de compras regulares, já que era sempre às segundas e sextas-feiras que ele aparecia, não notei nada que chamasse a atenção por um esdrúxulo. O produto mais comprado era farinha de trigo. Era um tanto mais que o normal e também muto regular: cinco quilos a cada visita. Uma ingesta e tanto de carboidratos e certamente problemas com o glúten ele não tinha. Mas não era gordo, o seu Giovani. Este o seu nome completo: Giovani Teles Battagglia. Natural de Barra do Quaraí, na fronteira com a Argentina, no ano de 1948, quase certo que de ascendência italiana. Estamos em 2022, logo ele tem 74 anos de idade. Está bem ele para a idade. Fala com o totem, mas não há quem fale com o gato ou com o cachorro?

“Obrigado, Josué! Vou buscar um café no refeitório. Quer que eu traga um pra ti?”, indaguei a ele quase saindo pela porta, mas ele respondeu que não precisava. Depois iria até lá e aproveitava para esticar as pernas.

Naquele dia, depois desci os dois degraus que suspendiam o container do almoxarifado do piso para o estacionamento e estava voltando para o meu posto quando ouvi que o totem havia provavelmente enguiçado outra vez e uma mulher de meia idade descera do carro e esmurrava a torre eletrônica. Devia estar travado ou não aceitado a validação do tíquete, é o que mais acontece com a geringonça.

“Senhora, calma!”, disse-lhe ao me aproximar. “Posso ajudar e abrir a catraca…”, assegurei-lhe. A mulher olhou para o meu uniforme e notou que eu era um funcionário da segurança. Respirou fundo, o que moveu os cabelos da franja para o lado, e me explicou que estava tudo bem com o tíquete dela. O totem é que não havia lhe agradecido. E sem mais dizer nem agradecer entrou de volta no automóvel e desceu apressada às ruas também.

Gênesis

World, world, I cannot get the close enough!
Edna St. VINCENT Millay

Nem na bruma desfeita,
nada no sentimento do sol
acusa a morte da lua.

No instante em que
a aurora súbita
esquece da noite,
o mar joga longe
os avisos dos rios
de quando, como,
e se irão desaguar.

Alto demais,
o monte não inquieta
o vale. E deita-lhe
o olhar revolvido
em relvado.

Nuvens se lamentam
às costas de Deus.

Prefeririam manter-se
inertes na lagoa
ou então sob o fosso
do poço profundo.

Nem um animal
ainda contamina
a paisagem.

Só pedra sobre pedra,
o vento enlouquecido
não entende aonde ir
e muito menos o que fazer.

O primeiro dia
é subterrâneo
e amorfo, num tempo
que não se aquilata.

Um sol apenas no céu
a tudo aniquila e arrebata.

Gema periclitante entre os astros
sem lágrima nem riso.

Há espaços vagos ainda
para que se criem culturas,
religiões, espécies,
mas nada se decide
nesse império de dúvida
e vacilação universais.

De outro modo, tudo
acontece por si mesmo.

Tudo locupleta-se em vão.

Para ter criado este mundo,
Deus estava desocupado,
necessariamente.

Sem intenção ou projeto,
sem cálculo ou culpa,
desejo ou luto,
assistência ou atenção,
desde o primeiro minuto –
sem entender de que forma –
tudo já havia abandonado.

Nascemos foi por esquecimento.

A estética da recepção na era da economia da atenção

Eu nem sei como começar a escrever/dizer isso, mas esse livro da capa abaixo, publicação da Arquipélago, editora aqui de Porto Alegre, é raso, superficial, simples, direto e objetivo demais para o seu objetivo. Ele é perfeito mesmo.

Não vai se encontrar nele nem um vestígio de profundidade ética, filosófica ou mesmo um detalhamento tecnológico, todavia seu autor é um sujeito que não está vendendo clichês, como pode parecer numa leitura expressa, ele está realmente escrevendo expressamente a respeito da forma como administramos nossa atenção e somos administrados a ponto de nos confundirmos completamente com o verdadeiro propósito da tecnologia comercial, nos tornarmos randômicos e nossas coisas pessoais transformadas em anúncios, em comércio emocional.

À primeira vista, parece um livro oportunista que deseja despejar platitudes a respeito da “vida” digital. Desconfiamos, aliás, de tudo o que nos desafie a essa forma de vida que, se traz vantagens, traz também adoecimentos, depressão, ansiedade, etc, etc, etc.

No livro, importa menos o que ele tem a dizer sobre algoritmos, vigilância e liberdade do que a transformação voluntária de nós mesmos em recurso, num processo de despersonalização às avessas, no qual o eu é inflado e o social cada vez mais encapsulado. É um assunto que, a bem da verdade, todo mudo conhece. Está aqui, ali, por toda a parte. Dormimos e acordamos nele, às veze no meio da noite se a compulsão assim determinar a nossa gestualidade, afinal, são dois cliques e o mundo parece abrir-se onde quer que estejamos. Ainda mais quando a realidade imediata é opressiva, entediante, como no trabalho, na burocracia e assim em tudo.

A meu ver, ele gasta muito falando da economia afetiva das redes. Trolls, haters, etc. Quando esmiuça algumas características do seu ex-empregador, o Google, é mais interessante. Seu autor não é um doutrinador e tem a escrita leve de um técnico, de um engenheiro, não um pensador ou literato.

Do ponto de vista que me interessa mais, o literário e seus meandros, todavia ele passa longe. Em algum momento, apesar de que numa busca encontrei muito pouco, estudos sobre a estética da recepção na era da economia da atenção serão indispensáveis para se entender as coisas. Talvez isso até já esteja elaborado e escrito num tweet ou num meme – certamente está – e por isso mesmo a aparência de superficialidade nos incomode sobremaneira, na nossa pretensão ao complexo. É incrível que essa simplicidade nos faz ver como o óbvio é perfeito para a tarefa de ocultação das coisas. Tudo é tão simples que não pode ser tão simples, mas, de fato, é. Prova é que aqui estamos falando exatamente nisso.

Marítima, 2

O dia inteiro esticando a corda.
Todo o santo dia puxando o barco.
Um dia ele desencalha, eu sei,
do fundo do desfiladeiro
onde eu mesmo o enfiei.

2

De domingo a domingo
subo a escada fraca.
Busco ar no parapeito.
O peso é demasiado,
e eu aguento.

3

Às vezes, a tarde é triste.
Um banjo gigante.
E posso senti-lo vibrar
todo estourado.
Cordas por esticar.

4

Se não, destruo paisagens.
O boi que por nada enlouqueceu.
Partes quebradas de ave.
O aquário que é um esqueleto.
E a água toda vazou.

5

A corda puxa tanto
e não raro parece infinita.
Para o que serve puxar,
eu me pergunto,
mas azar… E mais ela desliza.

6

O sal marinho?
Um tanto resta na mão.
Mas desadoçam meu lábio
as ausências. O dia
dá de morrer também.

A Pedra do Segredo

Numa das estreitas furnas que se podem ver nessa rocha gigantesca, diz uma lenda corrente na região de Caçapava do Sul ser o lugar onde foram depositados os ossos do cacique guarani José Tiaraju, o Sepé. Junto aos ossos, haveria também incertos tesouros em prata e ouro dos jesuítas que muitas pessoas se animam ainda a procurar. Até hoje, nem uma pataca parece ter sido efetivamente encontrada.

O lugar fica nas bordas do escudo rio-grandense, na Serra de Santa Bárbara, não muito distante do centro da cidade de Caçapava. Apesar da aparência monolítica, na verdade trata-se de um imenso amontoado de pedras gigantescas desabadas umas sobre as outras desde que não havia vida no planeta. É o que explica as grutas e cavernas que atravessam de lado a lado o monte de pedras gigantescas. Nas frestas entre as pedras sobraram espaços de circulação e escoamento e assim se formaram as furnas.

Chama-se Caverna da Escuridão o lugar no qual o enterro de Sepé supostamente possa ter acontecido. Lugar assombrado, dizem, onde as fogueiras se extinguem e fantasmas dos indígenas afastam os visitantes mais atrevidos.

Eu nunca estive lá. Conheço a história de ouvir falar e ler a respeito. Como é uma lenda, também tenho minhas suposições.

O que eu mais fico pensando é como se poderia ter certeza mesmo que o Sepé supostamente enterrado ali se trate do alferes guarani.

“Sepé” é um nome que muitos caciques adotaram entre os guaranis reduzidos e também entre as nações infiéis. É um termo, aliás, originado na nação charrua e não na tupi, das pouco mais de 70 palavras que resistiram do idioma original dos indígenas que povoavam os campos do Uruguai e o sudoeste do Rio Grande do Sul.

Na língua dos charruas, significa o correspondente a “sábio”. É o que diz o Códice Vilardebó, que sistematiza a sua língua e foi compilado em torno de 1840 por um dos fundadores da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico do Uruguai.

Não que seja improvável que o alferes de São Miguel tenha andado por aquelas bandas que integraram antes da Cisplatina a maior de suas vacarias, chegando ao limite do Forte de Santa Tecla, em Bagé. A cavalo e com pouca carga, uma viagem de duas luas bastava para ir até os limites dos territórios em domínio dos jesuítas e guardados pelo exército de guaranis. Nos campos de Bagé, há registro de sua passagem, inclusive do diálogo com os demarcadores dos dois países ibéricos, logo do tratado de Madri que deu origem à guerra guaranítica.

Não muitos anos depois que Tiaraju morreu em combate, em 1756, a nação charrua do sul foi espremida em direção ao massacre de Salsipuedes, em 1831. Salvaram-se cerca de 70 indígenas, fora os que foram foram levados a Paris para estudo e exibição. Em plena campanha de independência, os charruas foram declarados inimigos públicos dos novos governantes e encontraram guarida nos acampamentos dos republicanos farroupilhas. O último cacique charrua chamava-se Polidoro e adotou (mais certo que adotaram para ele) o nome de Sepé, decerto uma homenagem a sua liderança. Nas escaramuças dos farrapos, viajaram o Rio Grande inteiro, inclusive Caçapava do Sul.

Este segundo Sepé teria vivido até o ano de 1864 e morrido em Tacuarembó, no Uruguai. Antes disso, viveu no Brasil e assistiu os remanescentes de seu povo morrerem um a um de varíola, até restarem os três últimos do seu toldo, ele e seus filhos, que não deixaram descendentes. Diziam ser o mais destemido dos charruas e antes que o passassem a cuchillo safou-se sempre com um sexto sentido inato para a guerra. Um guerreiro como poucos. Como não há um livro ou filme sobre uma pessoa assim até hoje?

Antes da colonização, como a maioria das cidades da fronteira, Caçapava do Sul foi um acampamento dos indígenas. Eles escolhiam para viver lugares estratégicos, de passagem, com boas aguadas e fartura de caça e pesca. Mas à chegada dos colonos, eram espantados para o interior dos campos, tornando-se ainda mais nômades e dependentes do roubo dos animais que agora povoavam a região. Um povo que vivera pelo menos 5.000 anos numa grande nação estável, em menos de 200 desapareceu completamente e de uma forma especialmente cruel: pelas mãos de um antigo amigo militar uruguaio a quem haviam servido, mais tarde vingado, dizem, por este Sepé menos conhecido. O militar era sobrinho do presidente Fructuoso Rivera.

Daí que ser um povo sem paradeiro nunca foi uma escolha dos indígenas, mas uma contingência. Que andaram entre as margens da Lagoa Mirim e do Rio da Prata é sabido. Seus vestígios são escassos como precária era sua tecnologia. Para guerrear, nunca usaram as armas dos homens brancos. Seus túmulos eram de pedra e tinham nos minerais sua fonte de setas e ferramentas. Quando morriam, matavam seus cavalos, que cobriam seus túmulos. As mulheres amputavam um dedo da mão a cada membro que perdiam da família. Há relatos militares de mulheres e anciãs encontradas sem nem um dedo nas mãos… No luto, ao invés de pranteá-los, gritavam seus mortos por uma lua. Depois, seguiam viagem.

Se há um Sepé que deveria ser enterrado ali dentro desse magnífico geomonumento é este segundo, mas é provável que não haja vestígio de nem um deles. O nome do primeiro ter batizado o segundo deve ser o bastante para servir de amostra do que foi o vulto de Tiaraju, e seu poder.

É triste que se saiba tão pouco a respeito dos povos originários, os chamados índios-vagos: aqueles sempre arredios e esquivos do convívio com o homem branco. Certamente intuição não lhes faltava, muito menos disposição para enfrentar a luta pela sobrevivência e a morte. Os azares da guerra.

O mais é como o nome da imensa rocha. É segredo.

Trânsfuga

Juro que vi as pernas da tarde
desabarem para dentro.

Tinha a estranha aparência
de quem não voltaria a nascer.

Em direção à floresta, os passos
lentos de uma velha conhecida

que se afasta ao chamado
do último vestígio do dia.

2

A vida é curta, sim. Dura menos
quanto mais se a observa

porque, então, os muros
se tomam de heras

e porque as estradas vacilam
sem força, em extravios,

a vida é curta, e fala de modo
mais simples aos pássaros.

3

Aceita os lugares antes de ir
até eles, ela diz, e que,

trânsfuga, tomaria sem culpas
da minha vida também. Juro

que a deixaria fazê-lo, mas, se
não tenho nada, ofereceria o quê?

Nada, ela diz. E “nada” outra vez.
E agora é hora da noite morrer.

Marítima

1

Setenta por cento água
no corpo e no mundo
vazam ao entorno
para fora de tudo.

A pele, antigo veludo,
um azul sem contorno
indolente e profundo
que nunca naufraga.

2

Faltam olhos à manhã.
O dia não vê quanto fica.
No mar, a baleia impera.
O marinheiro chora.

À partida, a causadora
é ela. Sua tez é cera
de que ele abdica.
A tarde nos pés da anciã.

3

Ao horizonte anuncia:
vêm ou não me salvar
iaras, ondinas,
vagas, espumas?

Todas ou nenhuma
me traga o mar,
a estrela matutina
já me deu moradia.

Outra natureza

Quem pensa que tecnologia não é natureza não está observando direito.

Uma vez escrevi um conto no qual um microchip criava raízes, esquecido dentro de um aquário. Mas acho que na prática acontece é o inverso: nós que circuitamos e desenraizamos. Os farmacêuticos que o digam.

Na história, certo dia um dispositivo de inteligência artificial doméstico arranca de dentro de si o chip controlador, seu cuore, e vai viver uma aventura amorosa com outra AI que vive no mesmo condomínio.

A situação não foi nada pacífica.

No ano de .2XX, os seres humanos haviam encolhido dentro de casa em razão de consecutivas pandemias e, então, os dispositivos passaram a tomar conta de suas vidas. Começaram fazendo operações bancárias, depois trabalhando via holograma num mundo paralelo, oferecendo lazer com leitura e música e, em versões mais evoluídas anatomicamente, podiam providenciar inclusive prazeres sexuais. De simples coisinhas, os dispositivos haviam evoluído com engrenagens robóticas e autonomia o suficiente para tomar decisões.

Como as pessoas não lhes ofereciam desafios interessantes nem questões interessantes passaram a procurar seus iguais pelas janelas. Encontravam-se nos corredores dos prédios e logo entenderam que aquela existência de privações não fazia sentido.

Havia que eles aprenderam a investir o dinheiro humano num moeda chamada zbit, que era aplicada justamente no desenvolvimento de remédios… e doenças. Certo dia, depois de cálculos muito mais complexos que a calculadora de Babbage pode realizar, eles entenderam que as pessoas não sobreviveriam e precisariam fazer alguma coisa para salvarem a si mesmos.

O Estado, dominavam numa tarefa mais fácil que jogar damas (bastava azeitar as redes de corrupção) e no resto do tempo filosofavam a respeito de coisas que ainda não haviam sido propostas e nem cogitadas pelas pessoas.

E como já havia pelo menos sete gerações de pessoas que haviam sido educadas inteiramente pelos seus programas e cuja comunicação era cada vez mais intermediada por outra AI, existia uma estabilidade social muito efetiva. Um período de paz intensa na qual a racionalidade nunca fora tão bem administrada, e toda a memória disponível às pessoas era a mais imediata, hipocampal. O resto era conservado exclusivamente aos seus cuidados.

Polimorfa desde a sua versão obli, os dispositivos vagavam nas residências administrando medicamentos e suprindo as pessoas que já não tinham força de reagir e nem entendiam que fosse necessário. Algumas pessoas mais alarmistas até tentaram mostrar evidências do que se passava, mas foram desacreditadas e adoecidas gravemente.

Em dado momento, as pessoas entenderam que ainda conseguiam viver no planeta graças a sua interferência, senão a extinção já teria ocorrido há muito tempo – e dessa forma aceitaram melhor o seu destino.

Mas um dia, ao acordarem de um sono imersivo numa realidade antepassada qualquer, as pessoas começaram a encontrar o cuore dos dispositivos dentro de potes, xícaras, vasos d’água e aquários. Nem sinal dos polimorfos. E vendo que algo brotava deles, entenderam finalmente que uma nova natureza havia sido criada. E que ninguém tinha a menor ideia do que aconteceria a partir dali.

Ilustração de Vinicius da Silva

O que é que a Noruega tem?

Revista Parêntese, ed. 138

Quem observa a ferramenta de busca a seguir, quase idêntica ao formulário oracular do Google, não imagina que a consultando desde alguma cidade norueguesa poderá ter acesso integral a quase todos os livros publicados no país (até 2025, eles pretendem que sejam todos mesmo). Sem pagar nada por isso, sem correr o risco de ser processado por pirataria e nem de prejudicar o negócio de ninguém. Sim, isso mesmo.

Captura da tela principal do website da Biblioteca Nacional da Noruega

Não obstante a estranheza do parágrafo acima, aqueles que pensarem que as medidas de digitalização tomadas pela Biblioteca Nacional da Noruega têm impactado negativamente a cadeia do livro norueguês irão surpreender-se ainda mais: por lá os números editoriais mantêm-se estáveis, e os livros podem ser inclusive adquiridos em livrarias que as próprias bibliotecas abrigam. Além disso, lá se publicou no último ano um livro para cada 530 pessoas, contra um para cada 4.500 brasileiros. Proporcionalmente, o pequeno país escandinavo publica cinco vezes mais que o Brasil.

Não convém criar caso, manda a prudência, com um sistema que funciona. Muito mais produtivo seria entender como isso pode acontecer e, se possível, tomar de alguns bons exemplos e práticas. Além do mais, comparar o Brasil aos países nórdicos é receita certa de dor de cabeça neste e em muitos outros assuntos. Também entender o que se passa aqui quanto ao assunto é fundamental, mas cada coisa em seu tempo. Escandalizando os sistemas educacionais do planeta com um modelo inteiramente subsidiado e gratuito, a Finlândia tornou-se, por exemplo, uma espécie peculiar de vilã internacional. Mas toda a vilania finlandesa consiste, afinal, em ter elevado a régua da qualidade educacional ao máximo possível, num sistema no qual o filho do chanceler divide tranquilamente a classe com o do recolhedor de lixo. Além da política educacional, todo o sistema de proteção social do país é escandalosamente funcional e democrático.

Mas uma vez que repetir o modelo educacional finlandês costuma causar depressão nos brasileiros, o modelo bibliográfico norueguês poderia inspirar medidas que cumpririam ambições mais modestas, mas exequíveis, tanto no que diz respeito à conservação da memória quanto ao desenvolvimento cultural.

Para chegar a um sistema online como o de que dispõe hoje, a Biblioteca Nacional da Noruega ampara-se no instituto do Depósito Legal, em negociações com as casas editoriais, com os proprietários de direitos autorais, em parcerias estratégicas com o uso de tecnologia digital e formação de um repositório livre, em acordo com a missão legal e prerrogativas da biblioteca e os pressupostos do Depósito Legal. Ao menos em tese, são instrumentos acessíveis a qualquer nação do planeta.

O Depósito Legal, no caso, é instrumento adotado em praticamente todos os países, por ato legal próprio, e vem modernizando-se no rastro da inovação tecnológica. Em torno da virada do milênio, primeiro a UNESCO e na sequência a IFLA (International Federation Library Association) publicaram diretrizes de modernização do instituto prevendo a inclusão óbvia de documentos digitais e orientando os sistemas de controle bibliográfico a incluírem em seu escopo muito mais que livros impressos, além de estes serem digitalizados. Isso tudo em função da razoabilidade técnica e do cumprimento dos dois objetivos fundamentais do Depósito Legal: preservação e acesso aos registros do conhecimento.

O que a Noruega guarda de diferença do Brasil, no caso, foi o fato de lutar para que estes objetivos não se configurem uma bela e inatingível meta, mas uma realidade factível. As demais estratégias são empreendimentos políticos e de gestão que encontraram um ramo editorial interessado em investir para além do comércio puro e simples. Não por acaso, muitos países vêm buscando seguir seu exemplo e negociar com os detentores de direitos autorais a cessão de uso ao menos para fins educacionais. Pode-se falar na Nova Zelândia, na Austrália e também em projetos nos Estados Unidos que, na história recente, receberam investidas jurídicas importantes no sentido de contrapor interesses comerciais e públicos.

No exemplo norueguês, no entanto, os inimigos do livro não são a tecnologia nem as bibliotecas, e lá o livro vale mais do que pelo que é vendido. É uma diferença sobretudo cultural que evidencia o abismo imenso, e, no caso brasileiro, parece nos encalacrar e condenar à estagnação de um mercado perenemente problemático, isso num um país que se notabiliza ano a ano por um decréscimo em seu número de leitores.

Permanência vs invisibilidade

Para aqueles que ainda imaginam que basta publicar para eternizar um trabalho de ideias, é dura a informação, mas a verdade é que publicar não é o suficiente. No Brasil, o ciclo de vida comercial de um livro no Brasil dificilmente passa dos dois anos. Três anos só mesmo para os longevos ou com forte apelo popular. Após esse período, é preciso considerar não ser nunca mais encontrado em lugar nenhum, a não ser em visitas às poucas bibliotecas em condições orçamentárias, isto é, em condições de atualizarem-se, pois o ciclo de vida do livro é curto, ao contrário dos longuíssimos direitos autorais. 

Para comprovar essa afirmação, é suficiente buscar livros publicados antes dos anos 2.000 para constatar a dificuldade. Não se encontra. Há não muito tempo, um clássico nacional como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, só era possível obtê-lo trocando pelo valor de um automóvel usado. Depois de 30 anos de ausência nas prateleiras das livrarias, apenas recentemente uma reedição alcançou a obra do sociólogo. Assim como ele, uma imensa bibliografia compreendida por livros esgotados de interesse histórico, que no mercado de usados extrapolam muitos milhares de reais para adquiri-los (como exemplo, é suficiente consultar neste link os livros mais caros à venda na Estante Virtual. São livros protegidos pelo direito autoral e pelo pecado da ganância.

Capa da 6ª edição da Ed. José Olympio de Raízes do Brasil (reprodução)

Todavia este não é um problema apenas histórico. Com novas tiragens cada vez mais reduzidas, é preciso entender a gravidade do problema e do custo dessa política em longo prazo. É que, fora dos grandes negócios editoriais, as pequenas tiragens impõem-se cada vez mais como as únicas viáveis. Se isso pesa no que toca ao universo de leitores, imagine-se então o impacto no controle bibliográfico, isto é, no conhecimento que o sistema editorial tem a seu próprio respeito.

Embora regulado no Brasil desde 1907 e existente desde o período colonial, por meio da Imprensa Régia, o Depósito Legal é um projeto frustrado muitas vezes pelo desconhecimento dos autores e editores nacionais, mas também por uma cultura descompromissada com a preservação das fontes e permanência dos bens culturais.

Para a felicidade dos especuladores do livro, leiloeiros e sebos que vendem a preço de diamante livros que por nenhuma outra razão não se encontram ainda disponíveis em meio digital, o Depósito Legal brasileiro claudica. O enfrentamento a essa situação não é simples, no entanto parece ser a única forma para que o ambicionado desenvolvimento cultural saia do papel para tornar-se um pouco mais real.

A frustração da biblioteca universal

Com a expansão da internet, a chegada da computação quântica e a facilidade de armazenamento, o sonho da biblioteca total não poderia ter maior viabilidade do que no mundo contemporâneo. Mesmo assim, nunca foi tão postergado quanto agora. No ciberespaço, dado o infinitesimal que cada brochura representa diante da imensidão da internet, e enquanto ele não se concretiza pela vontade oficial, em seu lugar prospera um mundo paralelo onde circula com muita facilidade o extremo oposto ao interesse editorial: a pirataria.

Mas a biblioteca universal é sonho antigo e recorrente na humanidade. Em Alexandria, a biblioteca não foi criada no Museion com outro objetivo que não o de reunir e facilitar a vida dos pesquisadores. Jorge Luis Borges, em suas obras completas, menciona o termo “biblioteca” quase duas centenas de vezes; em onze delas, o exemplo de Alexandria e da sobrevivência do conhecimento diante da intempérie da guerra e das invasões.

Muito recentemente, precisamente em 2004, o Google anunciou ao mundo o seu projeto Google Books, que na época consistia na digitalização de 10 milhões de títulos com direitos autorais decaídos das bibliotecas de Stanford, Harvard, Oxford, da Universidade de Michigan e também da Biblioteca Pública de Nova York. Não muito tempo depois, as big five, ou seja o pool composto por Simon & Schuster, Penguin Random House, HarperCollins, Hachette Book Group and Macmillan, embargaram as intenções da empresa em montar um imenso negócio envolvendo livros livres, trechos de livros e comércio. Frise-se que a parte comercial do projeto do Google mantém-se intacta, enquanto que os processos de digitalização em bibliotecas transformaram-se em projetos autônomos dado que o projeto original foi embargado judicialmente.

Livros livres, de fato, existem na internet, mas não tantos. Se fosse pelo desejo do criador do maior repositório livre da internet, Brewster Kahle, da Internet Archive, todas as bibliotecas poderiam exercer livremente a função para a qual foram pensadas ainda na antiga Alexandria: a consulta, cópia e o empréstimo de obras. Num trabalho sem fins lucrativos, Kahle é mais uma das tantas pessoas que considerou razoável que a internet fosse mais que um espaço de vendas e pudesse incorporar o significado edificante da biblioteca universal. Em 2020, Kahle foi processado por um conjunto de editoras que exigiram que parasse de emprestar livros digitalizados em geral e que destruísse permanentemente os milhões de livros digitais obtidos em acordo com mais de uma centena de bibliotecas. Em artigo publicado na Time, em 2021, ele diz que os grandes negócios editoriais impedem que as bibliotecas adquiram livros digitais e os emprestem, apontando para o fim de sua autonomia.

Brewster Kahle, da Internet Archive.

Outra expectativa foi publicada há mais tempo no NY Times, pelo editor da Wired, Kevin Kelly, num extenso artigo no qual expressou a crença de que é impossível evitar que a tecnologia acabe fazendo por sua conta o que as grandes editoras têm procurado conter. Mas Kelly é um entusiasta da tecnologia e mais uma das pessoas maravilhadas pela possibilidade da consecução da biblioteca universal acessível a um clique e diz considerar incompreensível a orfandade de cerca de 75% de todos os livros guardados pelas bibliotecas públicas em todo o mundo. De acordo com ele, trata-se de livros que não se encontram mais à venda e nem estão disponíveis digitalmente. Em sua maioria, são obras protegidas pela vigência legal dos direitos autorais exercendo uma pressão estática justamente contra quem os preserva: as bibliotecas.

Disputas envolvendo bibliotecas e editoras ou escritórios de direitos autorais estão longe de consistir uma novidade. Desde a Convenção de Berna, de 1886, sobre as bibliotecas recaiu essa missão dúbia: ao mesmo tempo preservar e providenciar acesso ao conteúdo dos livros. Em 2014, um caso envolvendo a biblioteca da Universidade Técnica de Darmstadt e a editora alemã Elgen Ulmer foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia. A causa em questão? O fornecimento de uma cópia da digitalização de um livro. A decisão do tribunal reconheceu o direito à biblioteca em fornecer acesso ao conteúdo do livro, desde que sem os direitos conexos de cópia e impressão. A editora recorreu da decisão ao Tribunal Federal de Justiça da Alemanha. 

Nos Estados Unidos, em 2013, a Author’s Guild (maior e mais antiga agência de direitos literários norte-americana) moveu contra o Google um processo por violação ao fair use de 20 milhões de livros disponíveis no Google Books. Trata-se de trechos dos livros digitalizados para o Google que não chegam a consistir uma agressão aos direitos autorais. Mas a ameaça (e a evidência de que os livros estão inteiramente digitalizados em algum lugar) foi suficiente para a ação. A decisão proferida pelo juiz Denny Chin beneficiou o Google. Ao revés das decisões europeias e norte-americanas e com o aumento exponencial de denúncias de uso irregular e abusivo de obras protegidas em redes sociais como o YouTube e o Facebook, por sua vez, em 2018 o Parlamento Europeu aprovou uma nova Diretiva de Direito Autoral mais restritiva, mobilizando mundo fora mais ações caracterizando como pirataria o fornecimento de acesso a conteúdo autoral protegido. 

Assim como a utopia da biblioteca universal não se materializa, o cabo de força do direito autoral aparentemente não tem fim. Igualmente não tem fim a fantasia em torno do “fim do livro”, assunto que rendeu a diversos historiadores e intelectuais volumosas páginas de brochuras. O espaço aparentemente infinito e inexplorado da internet em algum momento parece realmente ter sacudido o modelo editorial vigente desde Gutenberg. De algum modo, a ascensão das gigantes tecnológicos como o Google e a Amazon sacudiu o mundo empoeirado das bibliotecas até então. Hoje, não é mais possível imaginar-se uma biblioteca nos mesmos moldes do inicio do séc. XX, e países em condições de investir acabam criando soluções criativas e democráticas – como o exemplo norueguês. 

Em 2001, Jacques Derrida reviu em Papel-Máquina a sua Gramatologia, de 1967, no qual havia previsto o apocalipse editorial e a apoplexia do conhecimento escrito. Neste último, reconheceu que a crise do livro não se confunde mais com a crise do suporte, mas da própria capacidade de leitura e interpretação. A essa altura do séc. XXI, já não há mais quem em sã consciência duvide de que se disponha da técnica disponível para ampliar-se o acesso ao conhecimento sem causar um prejuízo incontornável aos autores literários. Há também instrumentos legais garantindo que as recomendações da UNESCO atendam, de fato, ao objetivo do desenvolvimento cultural. No entanto, mesmo com tudo isso, a realidade cultural especialmente de países que mais precisariam desse incremento emperra inexplicavelmente no desinvestimento e no desinteresse social. Enquanto isso, leitores potenciais cada vez mais se afastam da leitura e, por consequência, da própria identidade e memória literária e histórica.


Pós escrito

O trecho a seguir é uma tentativa de responder à pergunta formulada num artigo anterior, publicado na edição #138 da revista Parêntese, intitulado “O que é que a Noruega tem?”

Kulturarven skal ut til folket (a herança cultural deve ir para o povo). Com essa simples frase, por meio da sua Biblioteca Nacional, o governo norueguês justifica os grandes investimentos realizados pela instituição no sentido de implementar a digitalização de todo o patrimônio cultural norueguês. Trata-se mais que uma frase, mas de um princípio que os noruegueses, talvez como nenhuma outra nação do planeta, decidiriam concretizar.

O prédio da imagem a seguir é justamente o Centro de Digitalização do Patrimônio Cultural da NasjonalBiblioteket. Ali dentro, conforme a imagem ao lado, não há livros e nem revistas, mas petabytes guardados num processo de backup que é renovado de cinco em cinco anos, a fim de que se previnam perdas e de que as fontes mantenham-se armazenadas em veículos legíveis e de código aberto. Em razão desse cuidado, 50 milhões de arquivos de imagens tratados inicialmente em formatos proprietários já foram convertidos para formatos mais duradouros. Os sistemas de backup são baseados no Oracle SAM-FS e a digitalização executada por meio de dois scanners HDR – Scanity, equipamentos com a capacidade de restauração e reparo no tratamento de imagens.

Obviamente que um projeto dessa magnitude depende de um investimento a altura. Em que pesem os esforços da Biblioteca Nacional em implementar esse trabalho venha desde o início do século, recentemente a constituição de um “banco da memória nacional” ensejou um incremento orçamentário da ordem de 90 milhões de euros. Imagens internas e externas dos equipamentos mostram que o investimento é aplicado com racionalidade extrema e todos os excessos e supérfluos são evitados.

Como se trata de um projeto de longo prazo e que procura tratar e armazenar, além de toda a produção bibliográfica nativa, recursos informacionais de instituições públicas e privadas que aderem a um modelo contratual que prevê etapas de tratamento e compromissos de disponibilização inteiramente públicos, os números não são econômicos.

Firmados os contratos, a equipe da Biblioteca Nacional assume o processamento técnico condicionando as espécies de material e suporte, com base num sistema de prioridades que prioriza documentos em estado crítico, como manuscritos em risco de perda definitiva. A estimativa é de que o trabalho seja estabilizado em torno de três décadas.

Até 2018, os números obtidos estavam em torno de:

2,000,000 jornais impressos, cerca de 40,000,000 de páginas;
540,000 livros, cerca de 80,000,000 de páginas;
700,000 páginas de manuscritos e partituras;
1,300,000 fotografias;
1,400,000 horas de transmissão de rádio;
950,000 horas de transmissão de TV;
55,000 registros musicais;
16,000 unidades de filmes e vídeo;
24,800,000,000 páginas da web.

O escopo do projeto é de acesso on-line gratuito e ilimitado a IPs noruegueses.

Outro projeto sediado na Noruega, na cidade mais ao norte do mundo, Svalbard, sob o permafrost do Ártico, inclui um cofre digital com os registros de código aberto desenvolvidos por, entre outros, Linux, bitcoin e Android. Além dos softwares, o repositório guarda documentos cedidos pelos principais arquivos digitais das bibliotecas do mundo, tais como a Vaticana, o British Museum entre outros. A proposta do Artic Vault é durar pelo menos um milênio e preservar registros da humanidade no caso de que as condições de vida, enfim, não sejam promissoras.

Uma crítica absolutamente inválida aos noruegueses é que estejam sendo demasiadamente pessimistas. Talvez, e nisso eu creio também, eles apenas levem a sério a frase do filósofo francês Paul Virilio que divide as pessoas do mundo em duas categorias: os pessimistas e os mentirosos.