O insepulto gaúcho

gaucho

Por mais de um século, uma das grandes filigranas culturais destas paragens sulinas tem sido a origem do nosso gentílico. Sobre a etiologia e o significado do termo “gaúcho” debruçaram-se muitos dos mais respeitados historiadores, literatos, intelectuais, folcloristas, pensadores e opiniáticos do estado. Augusto Meyer, Moyses Vellinho, Manoelito de Ornellas, Guilhermino César, Carlos Reverbel, Barbosa Lessa e mais uma dúzia ou mais de uma dúzia de nomes ataram e desataram braçadas e nós da questão, como se sabe; isso sem contar com a vizinhança do Rio da Prata, que eventualmente alpercou-se na questão, como Ricardo Molas, Madaline Nichols e outros estudiosos.

Porém talvez tenha chegado o momento de trocar-se de preocupações, afinal a estas alturas parece de pouca serventia delimitar o valor de uma palavra quando até se duvida da existência do objeto correspondente. É um problema que, se consegue afligir a alguém ainda, o faz mais por afastar tudo o que envolve a vida real e presente das pessoas que vivem por aqui e por afetar, talvez, algum aspecto da estima socioafetiva da população do Rio Grande do Sul do que por nos provocar a pensar em quem somos, o que fazemos dessa identidade e porque nos enredamos tanto nisso, ainda hoje.

É como se, a este passo da história, fosse preciso ter de decidir entre chamar os romanos de romanos ou italianos. É como querer batizar alguém tomando-o por defunto sem sequer procurar saber se a criatura ainda respira ou não.

À parte os muitos interesses linguísticos, históricos e ideológicos, há um consenso mais ou menos patente de que se trata de um vulto emblemático e histórico, o tal “gaúcho”. Mas quanto tempo dura a história? E mais, há quem possa, de fato, decretá-la em marcos ou períodos sem que esteja igualmente submetido aos seus processos ou influenciado por tendências nem sempre claramente distinguíveis? Pelo sim, pelo não, a relevância da questiúncula etiológica é quase insignificante diante da que a ela vem se sucedendo e diz respeito, a saber, da existência real e observável do “gaúcho” e do que é feito de seus descendentes.

Ainda que constatar tal existência exigisse não mais do que um mero deslocamento geográfico, às vezes a impressão que tenho é de que se espera encontrar, numa incursão dessas, figuras mitológicas e personagens literários ou históricos. De fato, ambas as possibilidades são reais, mas a persistência da descrição mitológica empalidece a coloração real das pessoas e seu habitat. Sobrescreve-lhe o relevo, planifica suas ranhuras. Isso acontece, todavia, mais por um desejo externo e por uma falta de contato com a vida presente, com a vida do interior como ela é, do que por um desejo espontâneo de quem por lá está. Afinal, é sempre mais confortável pensar-se nos termos de uma teoria ou de um preconceito qualquer do que ter-se de lidar com a realidade. No mundo real, as pessoas sentem, vivem e dialogam com o tempo presente a despeito de qualquer idealização histórica e, em grande parte das vezes, sem interlocução alguma.

“Muchos no habrán oído jamás la palabra gaucho/Muitos não terão ouvido jamais a palavra gaúcho”, escreveu o argentino Jorge Luis Borges em seu poema “Los gauchos” (Elogio da Sombra, 1969). Talvez com mais precisão do que muitos estudiosos acadêmicos lograram obter, Borges passa uma ideia peremptória sobre como as pessoas costumam ter ideias a respeito de si mesmas, ou seja, é muito provável que a uma pessoa que sobreviva ainda hoje da atividade pastoril viva sem saber-se ser ou chamar-se isso ou aquilo. Sem ter um nome para si mesmo. Em caso contrário, é bastante provável que, caso ostente o gentílico como definição identitária, esteja fazendo-o por ter incorporado uma noção alheia, provavelmente deslocada por elementos culturais transportados pelos meios de comunicação e bens culturais, tais como a música e literatura, por exemplo. Bem mais a música popular que a literatura, diga-se de passagem, levando-se em conta a profusão de intérpretes da música regional, em suas diversas vertentes.

De qualquer forma, é cada vez mais precária a compreensão da transposição para o presente dessa identidade que, originária dos acertos e conflitos de fronteira, vulgarizada e até certo ponto tomada como impropério, perdeu a maior parte de seus atributos originais, sujeitando-se de forma inevitável aos processos históricos. No imaginário popular, entretanto, acabou por empedrar-se numa espécie de criogenia perpétua. Ou então tornar-se uma espécie de auto-caricatura, num reconhecimento de deslocamento, como evidenciando um mal-estar na contemporaneidade de sujeitos tipificados como há duzentos anos atrás. É uma dúvida comum a todo gaúcho (aqui no sentido de gentílico) que se preze pensar-se representado ou por um resquício solerte de um Capitão Rodrigo Cambará ou pelo carisma do Guri de Uruguaiana, passando-se por uma galeria de muitos outros tipos curiosos. A hipercaracterização cultural do tipo humano associada à hiperinterpretação acadêmica, que o condena a sobreviver como uma espécie de fantasma de si mesmo, amargando o peso de uma história violenta onde se aglutinam degoladores, caudilhos, estancieiros, contrabandistas, escravos, peões, nos faz remeter à barbárie, enquanto somos apenas humanos. Esse direito elementar, entretanto, nos foi interditado. É preciso reconhecer isso. E sobreviver a isso.

Mesmo que ainda se esteja longe de um consenso qualquer sobre a etiologia da palavra “gaúcho”, se o tipo ainda existe subliminarmente ou foi extinto da mesma forma com que seria uma espécie animal qualquer, é preciso avisar àquelas pessoas que, desde os extremos ao sul de Jaguarão até os altos de cima da serra, devem virar-se com o seu modo de vida. Se não evidentemente glorioso, mas notadamente complexo, principalmente por ser necessário lidar com os fantasmas que se lhes impõem e dos quais eles sabiamente não costumam importar-se à onipresença. No tempo histórico dilatado das mentalidades, no entrevero entre o centauro do pampa, o monarca das coxilhas e o gaúcho a pé, vamos gastando a faca. E, de vez em quando, o verbo.

Esse meu guri

futezinho

Já contei, para o espanto e terror de muitas pessoas, que por um tempo tive um artefato auxiliar para aferição do espírito inclusivo escolar do colégio onde estudam meu filho que tem síndrome de Down e sua irmã, que não tem. É o Hulk (e a escola é a mesma para ambos). Esta história do Hulk já foi contada aqui, portanto não irei repeti-la. Não é o caso.

Pois é chegada a hora de informar que o “Hulk” vem sendo felizmente superado. Nem sei como se poderia superar o Hulk, mas a questão é que o “dispositivo” me serviu bastante enquanto a comunicação com meu filho era bastante precária. E a verdade é que o Hulk foi sendo substituído pela sua expressividade e por outros comportamentos sociais capazes de me informar sobre seu desejo autônomo por incluir-se.

Pessoas que esperam pureza infinita e afligem-se com o que possam interpretar como manifestação de um “politicamente incorreto” haverão de tremer daqui em diante, mas não me importo. A questão é que, de forma tácita, meu filho estabeleceu uma série de direitos, para ele inclusivos e inalienáveis, a saber:

1) o direito a participar do fogueirão do fim de tarde custe o que custar (sim, ele tem que jogar bola, garrafinha, tampinha, folhinha ou o quer quer seja chutável com o pé com seus colegas, num evento esportivo improvisado e sem muitas regras onde todos podem participar e o gol fica para qualquer lado);

2) o direito de pagar e escolher o próprio lanche na cantina da escola;

3) o direito de não beijar e abraçar os professores e adultos e colegas sempre que instado;

4) o direito de escolher a quem beijar e abraçar (bem como o dever de eventualmente frustrar-se);

5) o direito de ser s-e-m-p-r-e o último a sair da escola e, ainda assim, lutar por lá permanecer “só mais um pouquinho”;

6) o direito de preferir brincar a fazer seus deveres e o dever de eventualmente frustrar-se, a não ser quando o espírito coletivo exigir o contrário e a bagunça for deliciosamente irresistível;

7) o direito de valer-se de soluções mágicas para a resolução de problemas complexos, desde que acompanhados do infalível sorriso sedutor;

8) o direito de distrair-se e perder-se eventualmente da fila por uma eventual aparição do homem-aranha no pátio escolar ou uma formiga estranha qualquer ou uma bola extraviada (problema seríssimo);

9) o direito de disputar a mão e a companhia da professora, mas o dever de abrir mão da precedência;

10) e, principalmente, por fim, o direito fundamental de não ser exemplo de coisa nenhuma e de na maioria das vezes não ser notado, de estar meramente no anonimato e na gritaria comum do alunado, sem por isso ser julgado ou avaliado, mas compreendido na sua condição de criancice.

Devo admitir que não houve muita negociação e todos estes “direitos” supra foram conquistados sub-repticiamente, com boas doses de malandragem e cavalheirismo mútuo, já que o Hulk (o artefato, não o personagem) e sua brutalidade parece aposentado, dando lugar a um ser bem mais tranquilo e afável, mais parecido com quem realmente é, esse meu guri..

A fronteira desfeita por Sergio Faraco

Publicado na edição 1.361 (jul./ago 2015) do Suplemento Literário MG, este artigo aborda o trabalho de Sergio Faraco como tradutor dos principais ficcionistas uruguaios do séc. XX. Para quem queira conhecer um pouco mais sobre o que o Faraco fez ao trazer do lado de lá da fronteira com los orientales ficcionistas como Mario Arregui, Juan José Morosoli, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano e tantos outros. E o que possivelmente esse contato fez com ele próprio.

A aposta

Lançado na 61ª (2015) Feira do Livro de Porto Alegre (RS), A aposta é meu primeiro livro de ficção.

A aposta - 2 setembro

Conheça um pouco sobre A aposta através do vídeo a seguir.

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Brasil: do modelo social da deficiência ao modelo de mercado

Pictogramas de diversas deficiências sendo depositados em carro de compras.

Exceto enquanto hipótese de estudo, às vezes penso que o assim chamado modelo social da deficiência encontra-se em fase avançada de esgotamento. Talvez até mesmo de superação, para usar um termo em eterna evidência. Alguém que tente explicar as dificuldades do estar no mundo das pessoas com deficiência com o modelo social mas sem adentrar no “social” propriamente dito cada vez mais corre o risco, em meu ponto de vista, de cometer graves equívocos, porque o dinamismo do “social” pouco cria exceções ou se conforma com facilidade em modelos estruturados.

O “social” é sempre um instantâneo e, as nuances das diferenças, matizes solúveis em constante relação com contextos bastante imprecisos. Esta seria uma confrontação bastante apressada e resumida entre o modelo social da deficiência e algumas ideias do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1), expressas na sua coleção de livros sobre o “líquido” (Tempos Líquidos, Modernidade Líquida, etc.). Mesmo que sejam ideias passíveis de refutação, deve-se em muito a sua popularização a imersão conceitual dos modelos materialistas clássicos, justamente dos quais o “modelo social da deficiência” é derivado.

Pois bem, uma vez apresentada a ideia, a indagação é inevitável: e quem o teria esgotado? Além das pessoas que banalizaram seu uso sem dimensioná-lo de todo, justamente o “social”, que, por sua fluidez capaz de frestar-se em qualquer modelo conceitualmente sólido, foi quem o fez. Também contribuíram para isso os processos históricos, que por sua própria natureza conseguem aglutinar tempos e condições de desenvolvimento díspares em seu percurso aparentemente retilíneo, atendendo e desatendendo à diversidade humana em suas distintas condições socioeconômicas, políticas, étnicas e culturais.

Apesar de que nunca tenha se falado tanto em “inclusão” quanto na atualidade (e o conceito se emprega desde a questão econômica até situações particulares e afetivas), não existe, de fato, um “modelo inclusivo” a não ser em uma ideia utópica. E, mesmo como utopia, é difícil perceber de que modelo pudesse tratar-se. O que seria, então, um “modelo inclusivo”? De que ideias de “social” estaríamos falando ao usar o termo? Quero dizer que, tratando-se da ideia inclusiva, a utopia nem sempre é bem vinda ou relaciona-se com ela amistosamente. Desejaram-na claramente os que pretendiam reformar o mundo, tais como os anarquistas do séc. XIX ou até mesmo os socialistas que, a despeito das chances obtidas no séc. XX, não puderem evitar que o “social” e o “econômico” acachapassem-nas, mas a ideia inclusiva não traduz necessariamente um desejo social por reforma nas relações sociais. Pelo contrário, ela diz mais respeito a melhorar-se as condições do mundo tal como ele é. O mundo capitalista, evidentemente. O mundo dos mercados. Este mundo.

Se no centro do modelo social da deficiência reside o conceito de desvantagem social, a ideia inclusiva pode ser interpretada, grosso modo, como a ação social e política capaz de reduzir a desvantagem experimentada pelos indivíduos em suas relações com o “social”. Pelo menos no que diz respeito às pessoas com deficiência, o desejo inclusivo muitas vezes dirige-se tão somente a promover e garantir direitos civis elementares aos indivíduos, como o direito de ir e vir e outros direitos fundamentais, além da equalização de oportunidades. No entanto, como o “social” não é uniforme e se apresenta individualmente em condições diversas, incluir-se no “social” às vezes pode ser uma experiência bastante distinta entre pessoas que tenham inclusive a mesma deficiência, seja ela física, sensorial, intelectual ou múltipla. Um modelo inclusivo uniforme, portanto, apenas seria capaz de atender às diferentes necessidades das pessoas se aquele “social” fosse também uniforme, como supostamente ocorreria em um regime socialista, por exemplo, ou em um pleno Estado de bem-estar social. Nada do que temos em vista. Em uma sociedade cada vez mais organizada pelos mercados e pela capacidade de acesso ao consumo, um modelo único – assim como um conjunto de demandas únicas – não pode ter outra característica a não ser o de expressar um desejo hegemônico superveniente, sem entrar no mérito de sua representatividade política, que pode atender a um contingente maior ou menor de pessoas, mas visa a princípio os próprios interesses sociais.

Via de regra, modelos resultam mais da proposição a priori dos pressupostos de uma teoria do que de um diagnóstico abrangente da realidade. É assim com os modelos propostos nas ciências exatas, nas ciências aplicadas, como a economia, e no ambiente social de um modo geral. Como então um modelo poderia explicar situações que escapam às suas variáveis ou de pessoas que não vivem em seu âmbito e ethos? A verdade é que não explica. E, muitas vezes, parece que se está procurando explicar a trigonometria com gramática, ou seja, aplicar-se um modelo pode servir muito bem para reduzir ou empalidecer as características da realidade, embotá-la ou fazer parecer ao que se quer mostrar. Se o esgotamento de modelos é verificável tanto para paradigmas científicos, para os modelos teóricos sociológicos quanto para os modelos de aplicação econômica, por que razão estudiosos e ativistas do movimento social de pessoas com deficiência então aferram-se tanto ao modelo social?

Analisando-se o movimento de emancipação das pessoas com deficiência no séc. XX, é possível perceber que o modelo social é uma proposição recente, afirmado na década de 70, nascido em uma nação desenvolvida como a Inglaterra (2). Antes disso, pessoas com deficiência ocupavam o espaço público de maneira bastante restrita, em espaços não públicos, mas à parte. A pessoa com deficiência, além de arcar com as próprias dificuldades, via-se na situação de não encontrar receptividade no “social”, mas de receber unicamente uma atenção assistencial ou até mesmo clínica. Trata-se do bem conhecido modelo médico-assistencial, ainda hoje bastante vinculado às instituições filantrópicas ou religiosas. O modelo social, dito resumidamente, pode ter sido mais importante por afirmar o desejo das pessoas em romper com o modelo predominante do que por surtir efeito no “social” propriamente dito, haja vista as grande dificuldades ainda presentes mesmo em nações desenvolvidas quanto à acessibilidade, autodeterminação e até mesmo na dignificação das condições de vida. Sua influência cultural consequentemente se sobressairia à política.

Um modelo social, portanto, que cristaliza o “social” para conformá-lo em sua metodologia analítica, aos poucos vai desvinculando-se da realidade, porque justamente a característica do “social” é permeabilizar-se às variações da cultura, da economia e conformar-se em múltiplas e por vezes discordantes realidades. Se, como adverte a filósofa alemã Hannah Arendt (3), “a condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem” e que “os homens são seres condicionados, ou seja, tudo aquilo com a qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência”, é simples concluir que uma vida que se dá em meio a severas privações, por exemplo, não irá desenvolver-se com o mesmo potencial de outra onde as carências são menores ou inexistentes. Assim, embora em muitas sociedades os poderes de Estado respondam satisfatoriamente pelos equipamentos públicos e por um sistema mínimo de garantias, cada vez mais – pelo menos nos estados liberais modernos – quem supre as demandas e serviços de interesse público são iniciativas de mercado. E, nas sociedades modernas, como se sabe, privado e público nem sempre encenam uma dança concatenada.

Por essa razão, cada vez mais distantes de uma realidade onde preponderasse um modelo social baseado na presença do Estado, a época presente poderia ser caracterizada por um “social” que bem poderia ser chamado de “modelo de mercado”. As implicações para a vida das pessoas com deficiência de uma realidade organizada em uma sociedade de serviços autorregulada, entretanto, não guarda maiores diferenças para as demais pessoas. Ao contrário do às vezes excepcionalizante modelo social, no modelo de mercado não há espaço para exceções. Em sua lógica, todos são consumidores. No Brasil contemporâneo, a situação não é diferente.

Ainda que, analisando-se dados oficiais, perceba-se que no Brasil a maioria da população (82,8%), por exemplo, seja usuária da educação pública, a distância vem diminuindo na razão de cinco pontos percentuais a cada quatro anos, de acordo com Censo Escolar. Em relação aos serviços de saúde, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD, o Serviço Único de Saúde – SUS, responde por cerca de 70% dos atendimentos. Mesmo no Brasil recente, onde experimentou-se um incremento na capacidade de consumo das classes médias e baixa, a situação é conflitante.

Uma vez que seria presumível que o governo atual fosse resguardar o investimento em setores sociais, a realidade é que, no frigir dos ovos, cortes nos investimentos sociais, através dos orçamentos ministeriais, demonstram que a parcela da sociedade que depende dos serviços públicos se encontra, do ponto de vista político, bastante desabrigada. Desde o início de 2015, com o agravamento da crise econômica, o Ministério da Educação foi dos que mais sofreram cortes orçamentários. Além da educação, saúde e verbas destinadas às administrações municipais lideram cortes nos ajustes propostos, conforme divulgado e amplamente noticiado na imprensa nacional. Evidentemente, as condições dos serviços públicos dependem diretamente da vontade política dos governantes, além da capacidade de investimento dos cofres públicos. Deste modo, ao invocar-se o “social”, jamais deve-se esquecer que é deste “social” a que se deve referir e não a outro, puramente teórico.

Se a organização do “social” tem estreita relação com o Estado e em boa parte dele é dependente, sua precarização tem efeitos imediatos entre a população, especialmente entre a classe média e baixa. Não custa lembrar que na experiência individual não existem hipóteses, mas realidades. Como diz o Prof. Michael Sandel (4) e todo mundo mais ou menos sabe, “numa sociedade em que tudo está à venda, a vida fica mais difícil para os que dispõem de recursos modestos”. Alguém que necessite de tratamento médico não irá satisfazer sua necessidade sem esse atendimento. Da mesma forma, um aluno com deficiência apenas usufruirá desse direito ao encontrá-lo em condições minimamente dignas, no qual seja possível pelo menos frequentá-lo.

Tratando-se das condições onde desenvolver o potencial de pessoas com deficiência – estou falando obviamente da educação – a situação presente não é nem um pouco animadora. No âmbito público, dados do Censo Escolar de 2014 dão conta de que apenas 24% das escolas públicas no Brasil oferecem condições de acessibilidade para o ir e vir de alunos com deficiência. Além disso, outros dados a respeito do ambiente escolar, como a carência de recursos adaptados, serviços e até mesmo equipamentos básicos como bibliotecas e ginásios conformam um cenário preocupante, onde se desejava um serviço público em melhores condições. Por outro lado, a situação dos serviços privados não é muito alentadora e, se a política econômica presente visa oportunizar cada vez mais acesso aos serviços privados, isto não significa que o mercado terá investido antecipadamente em qualidade, mas em organizar-se para atividade lucrativa, sua razão de existir. Não é à toa que usuários de planos de saúde privados figuram entre os serviços privados com maior número de ações judiciais e reclamaçãoes no Brasil atual. Ao tempo em que se precariza o serviço público e a parcela da população consumidora dirige-se ao mercado, o próprio mercado reage setorizando-se e escalonando-se, atendendo a população não com base em seus direitos, mas em sua capacidade de crédito e endividamento.

Recentemente, ao vetar dispositivos da Lei Brasileira de Inclusão, instrumento legal que tramitou longamente no legislativo (cerca de quinze anos) para organizar um sistema mínimo de proteção de direitos das pessoas com deficiência, o governo federal deu novas amostras do quanto está comprometido em afastar-se de um mínimo Estado de bem estar social. Isto pode ser verificado tanto pela anulação de políticas afirmativas, como a garantia de reserva de 10% das vagas no ingresso educacional, quanto por deixar por conta da iniciativa privada e do setor da construção civil a opção por seguir ou não os princípios do desenho universal. Quanto à educação, a opção governamental foi a de, “por contrariedade ao interesse público”, segundo a mensagem da Presidente Dilma Rousseff, conceder bolsas integrais dentro do âmbito do Programa Universidade para Todos – PROUNI, ou seja, na iniciativa privada.

Este afastamento, todavia, repercute em todas as esferas sociais, uma vez que todas as pessoas deverão adequar-se ao modelo, cada qual em suas possibilidades. Uma política francamente neoliberal. Desejar-se fornecer explicações desde o modelo social para pessoas que a, bem da verdade, estão subordinadas na realidade a um modelo de mercado, requer de pronto uma flexibilidade que o modelo social não dispõe, pois se está claro que ele servirá muito bem para identificar situações problemáticas, de outro lado o mercado terá garantidas suas prerrogativas e liberdades, ainda que deva subordinar-se a um regramento legal que, se não fiscalizado, permitirá que seu funcionamento se dê de forma bastante comprometida. E os efeitos disso não são difíceis de imaginar quais sejam.

Em uma sociedade e tempo social dinâmicos como os atuais, está claro que nem toda as parcelas da sociedade dispõem de meios para fruir (ou arcar com os custos) de seus direitos e liberdades, ainda mais que ao mercado tem-se entregue a determinação de suas próprias condições de funcionamento. Ao posicionar-se como um país que abre mão de investir em serviços públicos de qualidade e que não provê à cidadania garantias de que os serviços privados sejam cumpridos e fiscalizados a contento, é bem possível que em muitos casos os indivíduos vejam-se na situação de lidar com seus direitos como se mercadorias fossem. Quero dizer com isso que um modelo de mercado exige necessariamente um Estado vigilante, sob pena de que a população – especialmente a população mais pobre – tenha de sujeitar-se às variações inerentes ao próprio investimento da livre iniciativa. E o que o modelo social da deficiência pode indicar, nessa situação, além de indicar que o “social” foi privatizado e os direitos civis conformados às lógicas do próprio mercado? Infelizmente, muito pouco.

É notório que, por tratar-se de um país continental e permeado por ampla desigualdade socioeconômica, no Brasil contemporâneo subsistam diversos modelos de compreensão e atenção à deficiência. Isso vale desde o modelo assistencial, representado pela rede filantrópica presente em quase todo o país, pelo social, que é predominante nas políticas públicas de diferentes esferas e nas abordagens acadêmicas e, por último, pelo de mercado, responsável por dar conta da especiação da sociedade de serviços e regular as relações individuais na sociedade capitalista. Ocorre que, em suas relações com o mercado, pessoas com deficiência provarão de muitas dificuldades, principalmente de ordem econômica, como restrições, abusos e outra situações comuns em relações desiguais. Isso pode ocorrer desde em serviços básicos como os educacionais ou os de saúde, bem como em relações de consumo especializado. Também é bastante possível que pessoas ora abrigadas no modelo assistencial e em instituições filantrópicas, ao serem dirigidas a serviços públicos depauperados, contribuam sensivelmente para o dissenso da ideia inclusiva como um todo, porque sua capacidade de investimento é limitada e a ausência de políticas compensatórias dificulte sua relação com uma sociedade de serviços nem um pouco acessível.

O trânsito da ideia inclusiva, em um mundo por um lado regulado pelo mercado e por outro conformado a serviços públicos insatisfatórios é, portanto, por si só causadora de diversos impasses de ordem pública. E se o Estado indica como prioridade retirar-se da esfera de serviços públicos e sociais, com vem fazendo há cerca de vinte anos no Brasil, desde a sanção da Lei de Organizações Sociais (5), em 1998, a situação torna-se ainda mais contraditória, pelo menos no que diz respeito às pessoas com deficiência, quanto ao que pretende e reserva, uma vez que esvazia-se e encolhe dia a dia.

A complexidade do “social” contemporâneo ou da contemporânea “sociedade de mercado” possivelmente seja cada vez menos apreensível em modelos estruturados e as opções políticas cada vez menos distinguíveis. Entretanto, mais do que autoaplicar ou buscar guarida em um outro modelo, as pessoas comuns continuam a necessitar de soluções pragmáticas para seus problemas cotidianos e, à medida em que se deterioram as condições econômicas, o fenômeno que prospera é o da exclusão, da fragilização do acesso individual ao mercado, seus produtos e serviços cada vez mais disseminados. A opção por agir politicamente em um modelo social, mas sem investir no “social” e prover-lhe de condições concretas para atender um contingente populacional imenso é de um risco imponderável, colocando-se a vida das pessoas em situações de insegurança social. Tampouco agir consertando o mercado é tarefa que o Estado vigente parece desejar ou ter condições de perseguir, haja vista a irrefreável frustração decorrente das relações de consumo, experiência mais que comum e disseminada.

A questão então talvez não seja a de encontrar-se um modelo único em uma sociedade notadamente multiversa, mas de evitar em tempo hábil que o esgotamento de qualquer modelo inutilize o que nele mesmo possa haver de positivo, seja sua capacidade de diagnóstico, de assistência social ou de consertação econômica. Para isso, antes é preciso compreender o tempo social de cada indivíduo e grupo social e favorecer seu “pertencer” ao tecido social de modo que a ideia inclusiva não se torne daqui em diante apenas um convite à exclusão dos mercados. Se o papel da sociedade e dos distintos grupos sociais restringir-se a apenas olhar para as próprias necessidades e demandas, talvez para a utopia inclusiva esteja sendo utilizado um fermento equivocado. Sem compreender o “social” e ao adotar soluções standard, nos tornamos de fato mais iguais. Porém nunca é demasiado lembrar que no Brasil (talvez no mundo inteiro) o consenso social imperativo é o de que, pela lei, todos sejam iguais, mesmo que na prática todos saibam que essa é uma falácia que já não causa graça e o que a reprodução indefinida e rediviva dessa cultura nos tem custado enquanto sociedade e nação.

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Referências

(1) BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 119 p.

(1) BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. São Paulo: Zahar, 2008. 199 p.

(2) DINIZ, Débora; BARBOSA, Lívia; SANTOS, Wederson Rufino dos. Deficiência, direitos humanos e justiça. São Paulo, Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos, n. 11, p. 65-78

(3) ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

(4) SANDEL, Michael. O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 237 p.

(5) GOHN, Maria da Glória. Movimentos Sociais e Redes de Mobilizações Civis no Brasil Contemporâneo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

Zhang Yimou e o expurgo da memória

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O enfrentamento ou a mera sobrevivência a regimes despóticos inciados no séc. XX (muitos infelizmente continuados no atual) renderam livros e filmes memoráveis. No cinema, lembrar dos brasileiros Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, ou Cabra Marcado pra Morrer, de Eduardo Coutinho, é suficiente para que se perceba que a temática é capaz de produzir clássicos, mas essa é uma realidade que não se restringe ao Brasil. Em todo o mundo, filmes mais ou menos conhecidos retrataram momentos históricos inesquecíveis não pela beleza ou pelo maravilhamento, mas pelo horror, pela opressão totalitária e o nonsense de ter de viver em meio a ditaduras. Poucos diretores, entretanto, após obterem sucesso comercial costumam voltar à temática, normalmente permeada por aspereza e não pouca violência. Não é o caso do diretor chinês Zhang Yimou que, no seu mais recente filme, Coming Home (Gui lai, em chinês), voltou a mostrar nuances menos explícitas da violência subjacente à Revolução Cultural liderada pelo “timoneiro” Mao Tsé Tung, na China, entre os anos de 1969 e 1976.

Yimou, que em 1994 havia recebido o Grande Prêmio do Júri em Cannes por Tempos de Viver (Huo Zhe, em chinês), abordando a trajetória de uma família desde a década de 40 até os anos 80, ou seja, atravessando os anos em que o regime de Mao governou o país, experimentou ele mesmo o expurgo do cinema chinês, sob a acusação de que estaria denegrindo a revolução comunista. Vinte anos depois, na mesma Cannes, Yimou voltou a vivificar os momentos de maior radicalização ideológica em seu país, mas desta vez sem concorrer à premiação, com Coming Home sendo exibido fora da premiação. Para tanto, ele ainda pode contar com a atriz Gong Li, com quem produziu alguns dos mais premiados filmes chineses, como Sorgo Vermelho, Lanternas Vermelhas, A História de Qiu Ju e o próprio Tempos de Viver, que ela também protagonizou.

Yimou, cuja filmografia passa por filmes que enfocam a vida tradicional e os costumes da China pré-revolucionária e até mesmo por películas do assim chamado wushia, cinema baseado em histórias de heróis das artes marciais, bastante populares na China, é um dos diretores mais conhecidos e premiados no ocidente. Diferentemente de filmes com baixo orçamento, típicos das produções dos anos 70 dos estúdios de Hong Kong, Yimou realizou filmes de alto orçamento, produções elaboradas beirando o épico (ou um improvável barroco chinês), como o filme Herói ou O Clã das Adagas Voadoras. Curiosamente, Herói foi coproduzido com Quentin Tarantino, vencedor da Palma de Ouro com Pulp Fiction no mesmo ano em que Tempos de Viver levou o Grande Prêmio do Júri.

Sem deixar de ser também uma espécie de épico, Coming Home (que deverá chamar-se De Volta Para Casa no Brasil) é um filme caprichado ao extremo nas especialidades de Yimou, a fotografia impecável e a direção de arte, mas este seria apenas mais um épico de aventura não fosse o tema escolhido por ele um dos mais candentes do seu próprio país. Não poderia ser diferente para quem passou o período da Revolução Cultural justamente nas linhas de produção estatais, na tecelagem do algodão, quase o oposto da seda imperial onipresente em seus filmes wushia, em que a pancadaria é comandada pela fantasia.

Em Coming Home, baseado no livro da escritora Geling Yan, a pancadaria, por outro lado, é comandada pelo real, mas narrada a partir de uma sutileza incomum. Quando o mais fácil seria escancarar o horror da violência totalitária mostrando a dor em seu estado lancinante, Yimou quase apenas a sugere e centra fogo não em uma encenação realista, mas em uma metáfora que diz respeito a muitas maneiras que democracias recém postas tratam o passado arbitrário, não que seja este o caso da China. Porém, talvez exatamente por isso, pela iminência permanente de um reviver de violência e opressão política e cultural, Yimou tenha escolhido mostrar o desenlace de seu enredo tendo como elemento central a temática da perda da memória.

Para ele, que em entrevista ao O Globo, declarou que um filme como Coming Home precisa ser feito em seu país para que a memória não seja simplesmente apagada, para que ela mostre até onde é possível chegar-se na ausência da liberdade, trata-se de um reencontro com o seu melhor cinema e com a musa principal de sua filmografia, a atriz Gong Li.

No filme, a personagem de Gong Li, Feng Wanyu, perde a memória justamente no momento em que o marido Lu Yanshi, interpretado pelo ator Chen Daoming, retorna para casa após o expurgo promovido pela Revolução Cultural, cerca de 20 anos após sua prisão, mas encontra uma família destroçada. Ambos professores, ela preferiu não se opor ao endurecimento do regime, mas ele pagou por sua oposição com a liberdade, como aconteceu na realidade com milhares de professores que desejavam, na época, depurar o regime maoista, mas receberam em troca perseguição e ostracismo. O duro do roteiro adaptado por Yimou é que este pai é justamente levado à prisão por meio da delação de sua filha, a bailarina Dandan, formada no sistema de doutrinação imposto nas escolas chinesas. E, a partir desse momento, uma série de violências apenas sugeridas acontece com a família. Neste ponto, que para muito filmes sobre regimes autoritários seria o ápice, como se por uma necessidade de saturação, em Coming Home é quando o drama dá lugar ao épico e começa a desenrolar-se o restante da vida dos personagens. O restante da vida possível.

Daí em diante, deste ponto de retorno que jamais chega a cumprir-se, porque a personagem nunca recobra completamente a memória do marido, o filme ganha um contorno lírico impressionante, embora muitos possam por isso vir a classificá-lo como melodramático. Neste momento, com a Revolução Cultural já finalizada e o regime dando indícios de uma incipiente rarefação, com a reabilitação dos professores aprisionados e banidos, quer dizer, daqueles que puderam sobreviver às condições degradantes impostas por Mao. No filme, pode-se saber de colegas de ambos que se suicidaram ou simplesmente não voltaram para suas casas e famílias nunca mais. A narrativa de Yimou, neste caso, por sugerir a dor subjacente a um momento histórico tremendo como este, é mesmo comovente, caso essa palavra tão em voga chamada empatia possa ser empregada em relação a um passado nem tão distante, mas que é sem dúvida um exemplo inexpugnável do horror que é viver em um regime sem liberdades.

Daquele momento preciso do retorno de Yanshi até o envelhecimento de ambos, passando-se anos a fio, nos quais ele tenta recuperar a própria identidade (que é afinal de contas dependente do reconhecimento dela, a esposa), ele encontra uma maneira de manter-se ao mesmo tempo junto a ela, sem desistir da ideia de ser recebido e identificado. Ele começa a ler, sem que ela jamais o reconheça, as cartas que escreveu da prisão e até mesmo a forjar estratagemas de convencimento para que a memória dela o perceba e receba em sua própria casa novamente. Em determinado momento, uma conhecida de ambos, também professora, determina e garante “em nome do regime” que ele é mesmo o seu marido, mas a violência sistemática, até mesmo sexual, perpetrada por agentes do mesmo regime, enfim revelada, é traumática demais. Em busca de vingar-se de alguma forma, ele vai perceber que a violência, ao fim das contas, não é casual, mas deflagrada pelo desespero social e que mesmo os algozes do regime maoista são vítimas de uma violência ainda maior, de ordem política, capaz de encobrir a razão social com truculência de sobra e muitas palavras de ordem.

Através da delicadeza da trilha sonora composta e executada pelo pianista Lang Lang, primeiro chinês a figurar com a Filarmônica de Berlim, a história avança e, diante da impossível recuperação da memória da esposa, o incansável professor, em uma cena por si só antológica, une-se a ela na espera por ele mesmo, jamais reconhecido. Com a compreensão da filha e com a família reunida em torno do possível mais do que pelo desejável e do que seria digno e justo, Yimou desenha, através da impecável atuação de seus atores, de uma forma verdadeiramente indescritível o que a capacidade de sobrevivência do afeto torna possível aos seres humanos, mesmo nas mais precárias situações. Convenhamos que sobreviver à Revolução Cultural maoista é dos exemplos mais formidáveis de onde extrair-se um roteiro e uma história de amor vigorosa como a contada em seu filme.

Os altos decibéis de Luciana Pestano

lupest

No centro de Porto Alegre, há uns anos atrás, conheci um curioso vendedor de discos. Sua loja ficava quase escondida em um prédio antigo de salas comerciais e não tinha letreiro, placa na calçada, coisa nenhuma. Propaganda zero. Mas tinha clientes assíduos e um acervo incomum de gravadoras pouco usuais nas grandes lojas do ramo. Discos independentes brasileiros, em sua maioria. E também selos importados de jazz, blues, rock e otras cositas más.

Deixava com ele boa parte do pouco dinheiro que tinha na época (não que esteja distribuindo hoje, frise-se). Hoje vejo claramente que, se tivesse investido na bolsa de valores, eu até poderia estar rico, mas com certeza bem mais pobre de espírito. Ele era engraçado, tinha discos que não gostava de vender. Dizia: “Pôxa, tu vai me levar esse aí?”, mas no fim concordava, afinal tinha contas a pagar no fim do mês, como qualquer cidadão.

Foi das mãos dele que recebi muitas gravações que guardo com carinho e espanto renovado, porque parecem conservadas por alguma magia que as mantém como se intactas, como se num desvão do tempo. Muito antes que se encontrasse de tudo na internet, por meios às vezes pouco legais, foi que tratei de garantir para mim um exemplar do disco homônimo de “Luciana Pestano”.

O disco, gravado em 1997 pelo selo Antídoto, da Acit, foi o primeiro da cantora e compositora gaúcha e é aberto por uma faixa que ganhou, na época do lançamento, as rádios locais e, logo a seguir, a atenção de muita gente Brasil afora, principalmente depois da veiculação do clipe na MTV e o relançamento do disco pela Polygram. É a vigorosa “Vá embora”. Mas, além de “Vá embora”, o disco traz um apanhado de excelentes composições nas quais a voz marcante de Luciana vibra pesado, imprimindo seu tom muito pessoal no rock tardio dos anos 90, como as faixas “Abalada”, “Santo Cristo” e outras. Talvez todas.

Depois de lançar aquele álbum, Luciana ganhou a estrada, tocou Brasil afora, atravessou fronteiras, encontrou parceiros e continuou compondo, isso dentro de um processo muito particular e, de certa forma, um pouco desencontrado do pop que passou a dominar a cena musical da virada do milênio. Ainda assim, mesmo que com sua evidente identificação com o rock e o blue, muitos compositores perceberam que nela o ritmo vibrava em alto decibel (para não dizer quilate), sendo uma extensão quase natural tanto do seu timbre vocal quanto da sua expressividade.

Nesse período, Herbert Vianna foi um parceiro importante, coincidindo com sua mudança para o Rio de Janeiro. Anos depois de participar no álbum dele, “O Som do Sim”, na faixa “Eu não sei nada”, ele retribuiu no segundo disco dela, “Tigra”, de 2008, na faixa “Entre você e eu”. Além de Herbert, o disco trouxe parcerias com Antônio Villeroy, Mu Chemabi e outros músicos.

Em “Tigra”, produção independente, Luciana não fez senão confirmar o que se anunciava em seu primeiro disco. As baladas levadas pelo violão de aço e as batidas ácidas, às vezes flertando, às vezes nitidamente abraçadas ao post-punk e ao rock industrial amadureceram em letras cuja interpretação e vigor vocal não perderam em nada desde o primeiro disco. Para confirmar o que tento dizer, basta ouvir aqui a faixa “Leonino”.

Se na música brasileira pode-se dizer que a figura majestosa de Rita Lee impôs-se por um conjunto ímpar de características como a “roqueira por excelência”, não foram muitas as cantoras que adotaram ou seguiram o estilo para forjar sua expressividade. Mesmo Ângela Rô Rô ou Cida Moreyra, que gravaram baladas roqueiras principalmente nos anos setenta, fizeram-no incidentalmente e não integralmente como vem fazendo Luciana em sua carreira.

Talvez porque a música brasileira sempre tenha oferecido possibilidades interpretativas abundantes em outros estilos e absorvido a atenção de compositoras e intérpretes, apenas com a ascensão do rock nacional nos anos 80 pode acontecer uma aproximação cultural mais amigável com o rock, possibilitando o surgimento de novos compositores. Ainda assim, é de contar nos dedos ainda hoje as cantoras que realmente fazem jus ao estilo, sem que pareçam simulações mais ou menos bem produzidas de artistas estrangeiras. E hoje, como estilos fundem-se e reinventam-se sem parar, quem é que vai dizer o que está ou não valendo?

Por isso é interessante ouvir com atenção o que cada um tem a cantar antes de declarar o que quer que seja. Luciana Pestano, no momento finalizando a produção de seu novo trabalho, mostra que, além de qualidades vocais, tem uma persistência fincada na identidade do rock, coisa que desde o primeiro acorde que se escuta em seus discos pode-se deixar de duvidar.

Ainda não sei quando vai ser o lançamento nem onde vou encontrar (provavelmente não vai mais ser numa loja obscura no centro de Porto Alegre) o seu novo (até onde sei pagão) trabalho, mas para manter a coerência discográfica da minha modesta coleção a aproveitar ainda mais a sua voz, o certo é que este também não vou deixar faltar.

De quantos bodes expiatórios precisa a educação brasileira?

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Desde a divulgação dos mais recentes dados do ENEM – e isso me ocorre a cada vez que se divulgam índices e resultados educacionais de um modo geral – tenho pensado que a educação que se oferece aos alunos tem formado mais brucutus que gênios. Se somarem-se ao cômputo os números da evasão escolar, então, o que temos é o suficiente para demonstrar que estamos diante de uma calamidade, mas de um tipo que ninguém se importa mais. O cenário de destruição talvez fosse propício, portanto, para que se investigassem as causas disso, mas a opção mais fácil e corriqueiramente adotada reside em desviar o foco para uma metodologia tão simples quanto antiga: encontrar o bode (ou bodes) expiatório ideal em quem depositar a culpa de termos uma educação tão ruim, seja qual for seu âmbito, pública ou privada.

Na última semana, a CONFENEM – Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino voltou a apontar o dedo em direção a quem muitas vezes antes já havia indicado como o seu bode expiatório ideal.

Ao ingressar com ação de inconstitucionalidade no STF visando impedir a aplicação da Lei Brasileira de Inclusão, que determina – constitucionalmente – que aos alunos incluídos não recaiam mais ônus do que já têm de arcar (pois os custos de educar um aluno com deficiência chegam a ser três ou quatro vezes maior que os alunos sem deficiência), sugerindo que a obrigação de educar estes alunos seja exclusividade do poder público e que os custos do negócio sejam debitados individualmente diante de uma situação que não é individual, mas social, é de pensar seriamente se há princípios constitucionais e estado de direito ainda em vigor no Brasil, dadas as características e o terrorismo embutidos na situação.

A questão de agora em diante será entender se os ministros do STF também farão dos alunos com deficiência o bode expiatório de uma sociedade pouco afeita à diversidade ou tomarão outro tipo de decisão. A oportunidade de reverter definitivamente essa compreensão errônea e parcial e consolidar a Lei Brasileira de Inclusão, bem como a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e os direitos humanos mais elementares, é ímpar.

As escolas, se oferecerem uma educação digna e honesta e investirem em melhorar a educação de todos, perceberão que podem ser mais do que fazendas que selecionam cavalos de corrida e bodes expiatórios. E que tanto os alunos com aptidão acadêmica quanto os mais corriqueiros (e mesmo os piores entre eles) têm a contribuir com a comunidade, cada um a seu modo, além do óbvio direito de estar ali.

Mas porque se procura chegar repetidamente a essa solução? A resposta para a questão é complexa, envolve a estrutura escolar, os custos, medidas de gestão, política pedagógica e, também, as demandas familiares. Nos últimos anos, uma crescente demanda por atendimento individualizado tem chegado aos tribunais de todo o país. São pais que, diante da constatação de dificuldades no processo de inclusão, aderem à medida de invocar a presença de professores exclusivos em sala de aula, quando não são condicionados a isso. Tais profissionais atendem sob diversas denominações, podem ser “mediadores”, “tutores”, “professores auxiliares” ou o autoexplicativo “professor exclusivo”.

É contra a presumível onerosidade decorrente da adoção de medidas assim, a maioria delas previstas em lei, que a CONFENEM moveu sua ação. Mas não é só disso que se trata. Na ação, a Confederação alega, entre outras coisas, que a obrigação constitucional de atender o alunado incluído recairia exclusivamente ao Estado. Trata-se de uma visão nitidamente inconstitucional, especialmente depois de que o Brasil adotou com efeito de norma constitucional a CPCD, que preconiza o sistema educacional geral como inclusivo, o que a LBI, questionada no Supremo pela Confederação, visa regulamentar, justamente ao vedar cobranças extraordinárias dos alunos com deficiência incluídos nas escolas regulares privadas. É uma postura recorrente da Confederação que, em outras ocasiões, manifestou-se da mesma maneira.

Dessa forma, temos que nenhum outro aluno, com outro tipo qualquer de dificuldade, e há talvez mais de uma centena delas, poderia casar tão bem com o papel de bode expiatório da educação e seus problemas como o aluno com deficiência intelectual.

Coincidentemente, na mesma semana alguns alunos denunciaram o que muito bem poderia chamar-se de “discurso do ódio”, tão presente na atualidade, dirigido por uma professora universitária aos seus alunos, em ambiente escolar. Trata-se de uma professora que, segundo denúncia veiculada pela ONG Movimento Down, teria comentado “sobre a série do Fantástico, Qual é a diferença?, que estreou no domingo passado, dia 9, e é apresentada pelo Dr. Drauzio Varella e pelo ator e judoca Breno Viola, a professora teria dito que as pessoas com a síndrome são horríveis e que não é normal mostrá-las na TV.” Além de gratuita, a declaração demonstra que ainda muito há para ser feito no sentido de melhorar as condições morais do ser humano, como é fácil perceber.

Vendo assim, os “horríveis” alunos com deficiência não seriam apenas causa dos problemas educacionais como pessoas que servem muito bem para dirigir-se uma dose descomunal de ideologia, especialmente uma que deveria a esta altura da História estar suplantada, e insiste em classificar os seres humanos entre aptos e não aptos. Entre lindos e horrorosos. Entre melhores e piores. Ou, ainda, como cavalos de corrida e bodes expiatórios.

A CONFENEM, nesse caso, atua não somente em função de proteger os estabelecimentos de ensino, mas também de chancelar uma ideologia muitas vezes compartilhada com as próprias famílias de alunos com deficiência. A despeito de que muitos alunos necessitem realmente de atenção individualizada, a disseminação da prática conforma uma situação paradoxal.

Por um lado, ao destinar um acompanhante permanente, a escola livra-se do encargo pedagógico de construir uma estrutura que atenda um coletivo repleto de particularidades, assim como buscar recursos pedagógicos adequados a muitos alunos com dificuldades, diga-se de passagem não exclusivamente os alunos com deficiência.

Por outro, as famílias que se veem acolhidas nessa política de “professores exclusivos” deixam de demandar essas mudanças de fundo, que beneficiariam a todos os alunos, inclusive os próprios filhos. Por sua vez, chancelam igualmente um modelo de educação que cumpre geograficamente a prática inclusiva, mas não conceitualmente, ou seja, o modelo continua o mesmo, meritocrático e distintivo, com a diferença de que os alunos incluídos nele são aceitos mediante a condição de que as famílias arquem com os custos, e é este o principal fundamento da ADIN proposta ao STF na última semana.

De fato, os alunos com deficiência podem casar com a imagem do bode expiatório, mas há muitas práticas sociais colaborando para isso. Nada que justifique excluí-los do sistema de educação ou praticar crimes que já existiam mesmo antes que a Lei Brasileira de Inclusão fosse sancionada. A ideia da CONFENEM é, portanto, tentar matar “o mal” pela raiz, não importando-se, por sua vez, em praticar males de outra espécie. O STF está aí para  averiguar o que é cabível no séc. XXI e consolidar em definitivo a legalidade de um processo educacional ainda capenga e com resultados muito ruins, porém o único disponível.

Dessa educação que forma mais brucutus que cidadãos, portanto, o que se deseja é que melhore para todos. Mas, com a presença do bode expiatório, cria-se o substrato ideal para soluções parciais e a disseminação da ideologia abilitista, por outro lado.

Um dos mais clássicos enganos difundidos sobre a inclusão escolar de crianças com deficiência, principalmente a deficiência intelectual, é de que o principal objetivo a visar-se seria o de transformar o aluno num sucesso acadêmico ou, no jargão dos pátios escolares, num nerd. Ou, então, que seu ganho na escola fosse meramente “social”. Ledo engano.

Um aluno incluído pode muito bem ter como objetivo transformar-se num brucutu, destino que muitas vezes não o diferenciaria tanto assim do restante do alunado. E não estou sendo irônico neste ponto, mesmo que a ironia neste caso fosse apenas um recurso discursivo apelativo por atenção, tendo em vista a grande indiferença que cerca o assunto por quem não o vive e a consequente detratação política e institucional.

Pois então, todo e qualquer aluno pode ser um brucutu e a educação tem sido pródiga em formar cidadãos assim, mas ai do aluno incluído que transformar-se porventura num deles. Ele terá o estigma mais cruel entre todos os scholar losers, cultura importada que se espalha viroticamente no ambiente educacional brasileiro. Ele será o intratável por excelência. O ineducável. O irascível. O que atrasa a turma. O insuportável bagunceiro que foge da disciplina, como se ninguém mais o fizesse. O que exige adaptações enquanto para os demais basta a condenação tácita dos exames de recuperação ou uma eventual reprovação. O culpado dos baixos índices na Prova Brasil, índice PISA e todos os demais critérios válidos de um sistema de educação que casualmente seleciona 15% dos alunos e os demais empurra, via evasão, ao subemprego ou para “fora do páreo”.

Poderia existir bode expiatório mais adequado?

Todos podem ser brucutus, exceto o “bode”. Todos podem esquecer a educação que talvez tenham tido em casa e agredir professores, não cumprimentar funcionários, tratar os colegas aos trancos e barrancos. O “bode”, não. Ai do aluno incluído que não se der bem, ele será o “bode” perfeito para que as escolas criem mais e mais subterfúgios para que outros bodes não sejam admitidos, se bem que às vezes seja muito conveniente ter um para jogar as culpas do fracasso educacional geral. Muitos “bodes” juntos, entretanto, é tumulto certo, razão pela qual se impõem ilegalmente limites numéricos a sua presença no coletivo, ou seja, em sala de aula.

Se ele tiver dificuldades apenas elementares e habilidades que o credenciem para as habilidades acadêmicas (e isso é tão variável quanto uma paleta de cores), o estrelato está garantido e qualquer escola das que exigiram ilegalidades para que ele pudesse estar ali não hesitará em coroar-se pelo êxito. Caso contrário, será apenas a confirmação do que já se sabia. O “bode” não aprenderia. Porque todos podem ter o direito de bagunçar, cabular aula, colar à vontade, decorar fórmulas que serão esquecidas no segundo dia depois da formatura, mas o “bode” – pobre “bode” – o “bode” não.

Da escola regular muitas vezes se esperam os piores alunos, especialmente se a escola for pública e situada numa região pobre de uma metrópole (não precisa ser metrópole) qualquer. Na visão da elite econômica, representada por um sem número de instituições, é o lugar perfeito para os bodes expiatórios da inclusão, porque ali não se espera resultado positivo de ninguém e se a vaca (eu e minhas metáforas animais) for para o brejo, ninguém nem notará a presença do “bode” na manada.

À educação pública, com investimentos cortados de cima a baixo, no Brasil infelizmente imaginou-se cumprir essa função, a despeito das promessas eleitorais eternamente adiadas em orçamentos nunca levados a efeito. A educação pública é, por sua vez, o bode expiatório do sistema educacional e da sociedade. Normalmente apontada como culpada, quando evidentemente padece pelos efeitos últimos de políticas extraviadas de uma sociedade cujos cidadãos, todos eles, mereciam outra qualidade de serviços pelo tanto que depositam compulsoriamente nos cofres públicos. Mas claro que pedir educação pública de qualidade é o limite insuperável destes tempos. O que o país tem ganhado com isso, com essa miopia, é, para mim, mais misterioso que as teorias da física quântica ou a existência de Deus. Fato é que há muitos bodes expiatórios para continuar justificando-se o injustificável. Com um “bode” desses na sala, afinal quem precisa se preocupar com os problemas dos outros?