Stephen Hawking e a metafísica de boteco

Depois de ter boa parte da vida filmada, ficou bem mais fácil para leigos como eu entender a extensão da complexidade do trabalho e das formulações de Stephen Hawking. Em A Teoria de Tudo, filme que rendeu o Oscar de melhor ator a Eddie Redmayne, embora seja retratada mais sua vida privada do que a intelectual, pode-se saber que o percurso do conhecimento empreendido por Hawking resulta de estudos muito aprofundados, mas também que muitas de suas motivações eram mais metafísicas que astrofísicas.

A notícia veiculada no dia último dia 20.07, de que Hawking participara do lançamento do programa Breakthrough Message, que buscará vida extraterrestre através do espaço, não é senão a confirmação dessa motivação metafísica. “Devemos saber” se há vida inteligente fora da Terra porque não há “maior pergunta”, disse Hawking.

Justamente por não haver “maior” indagação possível, o esforço empreendido por Hawking procura talvez lançar mão de “ajuda não humana” para compreender-se o que está além da nossa compreensão e que, findos os 100 milhões de dólares empregados pelo magnata russo Yuri Milner, talvez assim permaneça. Não estou de modo algum duvidando do que quer que seja, até porque seria tolice discordar das premissas de Stephen Hawking, mas a perspectiva de frustração também “deve” estar presente, suponho eu.

Talvez seja comum a astrofísicos o sentimento deste “dever” expresso por Hawking. De certo modo é um sentimento profundamente enraizado nos seres humanos, porque a necessidade de observar o cosmos é tão antiga quanto os registros humanos. Prova disso é a presença de estudos e registros astronômicos em praticamente todas as culturas primitivas, da antiguidade ou não. Da mesma forma, os questionamentos metafísicos também parecem acompanhar a história da humanidade, reforçando-se naturalmente a cada geração; basta que se converse demoradamente com uma criança para perceber que o desconhecido é tanto incômodo quanto fonte inesgotável de questionamentos.

Está claro que uma iniciativa deste porte implicaria em uma série de repercussões, isso tanto entre os cientistas quanto entre os leigos. Para Hawking, o programa deve priorizar a investigação passiva de sinais de vida inteligente. Na opinião de outros cientistas, deveriam ser enviadas mensagens espaço afora, tal como o empreendido pela Missão Interestelar Voyager, cujas sondas devem ter energia para enviar informações aos centros de controle da NASA até meados de 2020. Ainda assim, tanto a Voyager 1 quanto a Voyager 2 levarão indefinidamente, através das galáxias, informações bastante precisas sobre a Terra, como registros sonoros da natureza e outros culturais, como saudações em diversos idiomas.

Ao que tudo indica, Hawking é cauteloso em repetir o gesto de comunicação intergaláctica. Sua justificativa reside em que os contatos culturais nem sempre se resolvem amistosamente. Ele usa frequentemente o exemplo da colonização da América e o contato entre os nativos e os hispânicos para tanto. De outra forma, Ann Druyan, a viúva do também astrofísico Carl Sagan, entende que o contato não só pode como deve ser provocado. Em 1985, Sagan publicou o seu Contato, livro que foi adaptado de forma homônima para o cinema em 1997, por Robert Zemeckis, o mesmo de De Volta Para o Futuro. O livro trata, além das apreensões técnicas, das implicações culturais e éticas do possível encontro.

Embora as razões belicosas de Hawking para refutar a ideia de enviar mensagens sejam facilmente compreensíveis (afinal quem quer nações alienígenas invadindo o espaço aéreo terráqueo?), a iniciativa de exploração abstrai do “contato” entre possíveis formas de vida inteligente. De uma maneira rude, seria como dizer que a ideia reside em bisbilhotar o universo e captar por aí algumas informações interessantes, mas sem muita exposição. Trata-se de uma política bastante difundida por aqui, entre culturas e nações que coexistem precariamente, mas agora parece que o que se quer é levar essa conduta a outros recantos do universo. De qualquer forma, é conveniente alguma discrição. Sagan e os pesquisadores que enviaram informações na década de 70, talvez influenciados por um sentimento pacifista, tinham nitidamente outra noção de vizinhança que talvez de lá para cá tenha se perdido ou degringolado.

É interessante notar que, a despeito da curiosidade metafísica expressa no “dever saber” da vida alheia proposto por Hawking e financiado com estardalhaço e pujança típicas dos magnatas russos, expressamos nessa conduta mais de nossa própria personalidade do que talvez possamos imaginar. Seja no universo como o concebemos, circular e ainda um tanto quanto ptolomaico (dado o nosso comportamento geocêntrico), ou em possíveis e desconhecidos multiversos, parece que somos um tanto quanto infantis, ao olhar pelo buraco da fechadura e tentar entender o que está inacessível aos sentidos e inteligência, como costumam fazer os astrometafísicos e astrólogos em geral, pessoas comumente desprezadas nos meios científicos.

Se Hawking teme encontrar vestígios de tecnologias beligerantes de culturas capazes e interessadas em nos colonizar, fulminar ou simplesmente aniquilar de uma vez por todas ou, por outro lado, há outros tantos que nutrem a esperança de absorver exemplos de uma cultura mais evoluída (seja lá o que isso signifique) e melhorar nossas condições de vida, garantindo nossa presença no calendário cósmico futuro. Seja como for e seja que resultados tenham os investimentos milionários do projeto, o certo é que Hawking dá vazão a um pensamento que continua sendo fascinante e, ao mesmo tempo, aterrador. Além, claro, de permitir que os leigos possam descansar da política de boteco e elevar o nível habitual da conversa para a metafísica de boteco, o que, diga-se passagem, se não é um salto para a humanidade, é um salto de qualidade, haja vista o nível por que vai a primeira.

Turismo para cegos

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  • Revista Amálgama

A pior reação que um livro, seja de que gênero for, pode causar em uma pessoa é nenhuma. Ser uma leitura como a de uma bula de remédio ou do invólucro de uma pasta de dentes é, para os efeitos da leitura, o mais alto anticlímax que um livro pode obter. Do outro lado da moeda, há os livros que desde o primeiro parágrafo sacodem os nervos do leitor, desacomodando-o. Fazendo com que desperte do seu ensimesmamento. Aos livros que têm essa capacidade, para todos os efeitos, eu costumo dizer que são meus livros de boxe. São livros que não me espantaram pelo rigor formal ou por qualquer inovação estética, mas por terem sacudido, como em um ou mais golpes, os sentidos e o que vai por dentro deles, seja qual for o nome que se use para isso.

Turismo para cegos, romance de estreia de Tércia Montenegro, é um livro que se impôs muito sutilmente nessa classificação. Digo sutilmente porque é um romance permeado de nuances psicológicas e personagens apenas aparentemente delicados que se revelam mais humanos justamente na medida em que mais se pode percebê-los complexos e falíveis.

O livro conta o romance entre Laila e Pierre. Ela, uma estudante de artes visuais que vai se descobrindo cega em razão de uma doença degenerativa denominada retinose pigmentar. Ele é um funcionário público que se decide a ajudá-la nesse momento crucial da vida, mas com a perplexidade afetiva de quem se encontra, por sua vez, também desamparado e buscando conhecer-se melhor.

Na literatura brasileira, personagens cegos não são novidade, mas também não há muitos. No papel de protagonista, então, diminuem bastante. Via de regra, a deficiência sensorial costuma surgir como uma característica redentora da pessoa, como um poder especial ou uma dificuldade tornada artifício, assumindo como se uma forma de compensação. A Laila de Tércia Montenegro, contudo, passa muito longe do estereótipo. Ela é irresignada, em certa medida amargurada e nem um pouco interessada em transformar sua vida num transbordo de piedade e comiseração.

Talvez este confronto de Laila com um mundo que se dobra forçosamente à condição da deficiência e que é espontaneamente inadequado e inacessível, inclusive delimitando o discurso e o raio de ação dos demais personagens, possa criar ao leitor um ambiente desconfortável. Isso acontece porque Tércia não se ampara na hipótese da condescendência, nem a social nem a afetiva. O tom por vezes até agressivo de Laila para com Pierre, ou de sua recepção ao modo como ele presta cuidados, parece ser um reflexo da sua própria interlocução com o mundo, interrompida pela deficiência que lhe tomou justamente o que lhe era mais caro: a estética visual. No romance Laila é, além de estudante, também artista plástica. E Pierre é também o nome que ela dá ao cão-guia que irá ajudá-la em sua mobilidade.

No novo mundo de Laila, não cabem eufemismos politicamente corretos nem uma jornada pela superação, como é presente em muitas narrativas sobre deficiências, mas o enfrentamento da realidade social e individual, mesmo que ao custo do endurecimento afetivo e de muitos desencontros interpessoais. De certo modo, muito do que se depreende da personalidade de Laila é predominantemente dado pelo que é narrado de sua voz interna, uma vez que sua ação delimita-se pela relação de dependência com Pierre, que é ao mesmo tempo asfixiante. Imbuída de um temperamento instável, a Laila de Tércia vai tentar romper no plano real com as amarrações que a deficiência lhe impõe, exigindo uma dose considerável de coragem para conduzir-se com coerência e veracidade. Coragem e alguma temeridade, portanto, são as apostas de Tércia tanto para sua protagonista quanto para o enredo proposto.

Coincidentemente ou não, Turismo para cegos é também um livro bastante visual. Mesmo quando Tércia internaliza a narrativa, ela o faz como se procurasse demonstrar a eficácia da palavra em transmitir as impressões sensoriais e em fixar o mundo de forma objetiva. Em muitos momentos da narrativa, quando a ação é suspensa e a introspecção toma corpo, torna-se muito fácil entender as reações psicológicas de Laila, justamente porque são descritas com o rigor e a vontade de quem procura não deixar dúvidas sobre os sentimentos, mesmo em suas repercussões mais veladas, já que em última análise é deles que provêm a força narrativa do romance.

É esta coragem precisamente que, para mim, o faz com que o coloque junto ao que chamo de “livros de boxe”, porque é um romance que se realiza através de um esforço que luta contra os desfechos previsíveis e personagens caricaturais, quando só aparentemente a deficiência poderia impor soluções fáceis ou cartadas certeiras. Em Turismo para cegos, se a inocência não resiste a um round inteiro, tampouco os leitores serão conduzidos através de um cenário plenamente sólido. A consistência do romance de estreia de Tércia talvez encontre-se justamente na impossibilidade de antecipar-se o comportamento humano, mesmo diante do abismo imposto pela deficiência visual.

Mesmo que a autora pinte com nitidez o ambiente psicológico de seus personagens, seu livro fixa-se mais por tornar evidentes as incertezas inerentes à vida e seus efeitos nas decisões dos personagens do que por traçar-lhes um destino inescapável, dado ou não pela condição da deficiência. Neste caso, por irascível que possa parecer à primeira vista, sua Laila tem a inconformidade necessária a quem deseja, a despeito de tudo, permanecer em combate e não se dar por vencida. Se um livro “de boxe” precisa de um lutador, o certo é que Turismo para cegos conta com um deles.

Fernando Brant é um colosso

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Num de seus muitos textos primorosos (ver aqui), a Eliane Brum faz duas sugestões letais. A primeira é uma constatação: “Há algo de melancólico, desestabilizador, em testemunhar o momento exato em que um imortal morre.” A segunda é sobre os efeitos da constatação: “De certo modo, é assim que o mundo da gente começa a morrer antes da gente.”

O que ela faz é dizer de um sentimento geracional, de perceber-se que o mundo como o conhecemos é povoado de ícones imortais que vão, aos poucos, partindo dessa para a presumivelmente melhor. Como se dissessem sem querer que o tempo compartilhado, em que se sabia mesmo remotamente da sua existência, vai escoando. O tempo vai escoando. E ninguém precisa entender de Física para perceber isso.

Ontem, quando li a notícia de que o Fernando Brant havia morrido, imediatamente lembrei dessas duas frases e, sem que notasse como, elas ocuparam o vazio que o pipocar da manchete começou a perfurar na minha memória. Mas então um tipo de magia sinestésica começou a acontecer, porque de cada rombo emergia um pedaço das músicas escritas pelo Fernando e cantadas pelo Bituca. E, como todo mundo sabe, a voz do Bituca exerce um predomínio incomum entre os sons que há no mundo.

Não era uma magia de libertação, acho que especialmente porque o que mais lembro do Fernando é uma expressão de perplexa generosidade, como de alguém que, com os olhos e com as palavras, sempre tentou dizer que não há muitas alternativas entre as pessoas senão o amor, a amizade e esses sentimentos tão evidentes na sua poesia.

E já que falei em poesia, é justo dizer que embora nem o Fernando nem os demais letristas da música popular brasileira sejam reconhecidos, a rigor, como poetas, seu legado em ter desencerado os ouvidos e a sensibilidade de uma, duas ou três gerações é colossal. Fernando Brant será sempre um desses colossos. E reconhecer isso, nesse momento de instabilidade, pode nos ajudar a situar na própria memória e na memória nacional, da qual ele tanto se ocupou fixando momentos irrepetíveis da música brasileira.

O afiador de versos

EW

  • Germina – Revista de Arte & Literatura

Quem, entre qualquer pessoa, poderia atestar sobre os passantes na rua: ali vai um tabelião, um pouco atrás um sapateiro? Um professor, o mais de trás? Aquele outro talvez seja… Quem sabe? Um poeta?

Não sei. Provavelmente ninguém. Para mim ao menos são indistinguíveis. Não sei avaliar (talvez nunca saiba) por que modos ou características precisas, se é que deveriam portá-las ou exibi-las ostensivamente, se poderia diferenciar os criadores de versos dos demais seres humanos. Por isso, poetas e não poetas têm a mesma cara na rua. Pela fisionomia não se pode saber com que termos e palavras a pessoa pensa a si e ao mundo. Talvez pelo brilho nos olhos, mas há quem se aproxime o bastante? Cada vez menos. Que dúvida! Poetas e não poetas caminham como os demais caminham. Frequentam lugares, entram e saem através das portas assim como todos os demais seres viventes. Aqueles que imaginam antever uma espécie qualquer de aura provavelmente enganaram-se de referência: estas são para os santos e anjos. De efetivamente seu, poetas mal têm os versos.

No fim da minha infância, num momento impreciso da vida, conheci um poeta no seu próprio território e talvez até um pouco mais que isso, na sua intimidade, mesmo que de modo indireto. Eu subia, muitas vezes atravessando o vento gelado do inverno, um perau, quase um penhasco mesmo, para chegar lá em seu topo, na rua Líbio Vinhas, em Bagé, a uma casa situada num recôncavo da rua postado de frente ao poente. Um ambiente quente e acolhedor onde morava um amigo muito especial naqueles dias e sua família; entre eles, o tal poeta.

De nome eu já o conhecia, mas muito pouco de vista. Com a família, havia residido muitos anos fora, em Santa Maria e outros lugares e voltavam agora, depois da sua aposentadoria, para Bagé, interior do Rio Grande Sul, fronteira com o Uruguai. Logo eu saberia reconhecê-lo nas ruas, mas, apenas porque já o havia visto na própria casa, eu sabia então de quem se tratava. Definitivamente não caminhava como um poeta porque isso não existe. Fazia-o do seu próprio jeito, o olhar mais para baixo que para cima, por uma cidade que conhecia desde a geografia mais óbvia até a mais imperceptível, a que se desenha no modo de ser de sua gente, seu jeito de ser e de falar e, talvez, até mesmo do jeito de andar: humilde em muitos, altivo em uns poucos – às vezes mais do que o cabível e necessário.

O calor de sua casa tanto provinha dos afazeres ininterruptos de sua esposa Dona Vitória e de sua boa conversa, da amizade dos filhos do “homem” quanto de um detalhe muito especial que eu percebia incomum, porque as casas que eu frequentava, a minha própria, tinha espaço para os livros, mas nada perto do que havia naquelas prateleiras. A casa do pai do meu amigo era tomada por livros. Os livros eram, em sua maioria, de seu pai e muitos, os mais antigos, de seu avô, o também escritor Pedro Wayne, autor de Xarqueada e Lagoa da Música. Pronto, agora não posso mais falar da pessoa sem dar seu nome. O pai do meu amigo, o poeta Ernesto Wayne, eu atesto que era mesmo um poeta de ofício. E digo não porque o tenha reconhecido ao caminhar na rua, mas por vê-lo trabalhando. E não pouco.

Durante os anos que convivi com sua família (não foram muitos, mas intensos), jamais deixei de reparar na dedicação de Ernesto Wayne para com a palavra. Mesmo assim, ouvi de sua voz algumas palavras (eu não diria lições) de bom professor de literatura que ele era. Algumas até de um incipiente incentivo, porque algumas poucas vezes me atrevi a lhe mostrar alguns versos. Não me foi condescendente. Mandou-me ao trabalho, mas de uma forma agradável: através dos livros. Mais tarde, a vida, como ela costuma fazer, levou-me para longe daquele endereço, mas não da amizade e das boas lembranças com este meu amigo e de sua família, ao fim todos carinhosos amigos.

Ourives da palavra, artífice da métrica precisa dos sonetos, não é por isso, entretanto, que sempre me admiro da poesia de Ernesto Wayne. Tanto em Ossos do Vento quanto em Extrato de Conta, o que é notável nele é o seu domínio do ritmo. Mesmo que por muitas vezes a escolha de uma palavra obedeça a uma necessidade formal, o Ernesto Wayne de que me lembro jamais deixou de submetê-la ao ritmo interno, de solfejador disciplinado que ele sempre foi.

Ernesto Wayne viveu a literatura de sua época e isso desde a fundação do grupo de Bagé – formado pelos artistas plásticos Glênio Bianchetti e Glauco Rodrigues e pelo também poeta Jaci Maraschin – até o fim de seus dias, ao que me consta. Sei que muitas pessoas e críticos gostam de classificar geograficamente os escritores. Segundo essa ordenação, o sujeito pode ser tanto um autor universal, nacional, regional ou local. Na minha memória, o seu Ernesto (desculpem, mas sempre o chamei assim) está junto com os livros dos poetas que me mostrou e através dos quais travei contato pela primeira vez, protegido do inverno bageense e do açoitador vento minuano, com os versos de Ezra Pound, Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Drummond, Quintana, Neruda, Bandeira, Vinicius e mais uma lista interminável. Pouco me importa se ele seja melhor conhecido aqui ou ali, porque é ao lado destes nomes que para mim estará sempre o deste afiador de versos.

Abaixo, transcrevo do seu Extrato de Conta o poema que o intitula.

EXTRATO DE CONTA

Meu corpo coração tem
Com duas pontes, ramal
Que desvia e passa além

Do estreito e triste canal
Que entupir meu peito vem
De pesares em geral.

Minha alma tem também
Coração, mas esse tal
Vai mal, mal bate, meu bem!

Garranchos do meu final
No eletrocardiograma
Da alma que vai muito mal.

Tão mal que a Velha Dama
A mim, deficiente da alma,
Quer levar, porém reclama

Que relate, antes, com calma
O que fiz de anjo ou de cobra:
– De bem pouco levo a palma,

Pago o que a vida me cobra,
Quitada a dívida, a conta,
Somo e reparto o que sobra.

Obra que não está pronta,
Um que outro amigo disperso
E bens de nenhuma monta.

Do azul licor do universo
Que doido sorvi outrora
Resta um pouco em cada verso.

Do que fui, que fica agora?
– Um resquício, ralo caldo.
Pago juros de mora,

De saudade tenho um saldo,
Mocidade na memória,
Recordação de respaldo:

A minha mulher Vitória,
As minhas sete crianças,
Minha existência ilusória.

Raspo em banco de lembranças
A minha conta-corrente:
Descontadas as cobranças

Disponíveis ao cliente
Rasos créditos escassos
Com que velho me sustente.

Descaminhos de meus passos,
Meus depósitos de ventos,
Meus grosseiros erros crassos.

A dor de tantos momentos
Não sei onde começou,
Termina nestes lamentos.

E do que fui, do que sou
Não me sobrou uma estética,
Luta sim, talvez sobrou.

Mais um certo senso de ética
Por sobre o viver diário
Numa visão meio cética.

Contas perdi do rosário,
As que restam arroladas
Vão aqui neste sumário,

Sem ordem, desarrumadas,
Em anos de desenganos,
A seguir discriminadas:

Me ficam perdas e danos;
Dos raros ganhos nem rasto,
Se dissiparam insanos

Na alma não tenho pro gasto.

Tudo como dantes

abrantes

Sei que há pais e mães que festejam como vitória “inclusiva” sobre a segregação/exclusão/eixo-do-mal/tudo-que-há-de-ruim as escolas que de modo oficial ou extraoficial “instalam” junto a(o) aluno(a) um monitor/professor assistente/professor auxiliar/professor exclusivo/ou outra terminologia (eu diria eufemismo) qualquer. Eu não consigo. Nem que me autoinjetasse drogas de pseudo-inclusão e self-deception na veia eu conseguiria. Acho que já vim vacinado de outras encarnações contra esse tipo de enganação. Não sei se um dia não terei que assinar também sobre essa linha, mas, se o fizer, será como vencido, jamais como vencedor.

Acho sinceramente que isso é uma patifaria geral. Patifaria das escolas, das famílias, dos gestores, educadores, autoridades, estudiosos, ideologizadores de um modo geral e quem mais aparecer para tentar convencer a clientela que isso é o que há de melhor que se pode fazer em termos de “educação inclusiva”. Penso o contrário. Penso que é o pior. E se isso vai se tornando a prática por excelência é preciso admitir que estamos num barco à deriva no qual, como em tudo, quem pode mais safa-se melhor. Ou seja, tudo como dantes (talvez melhor seria dizer tudo como sempre) no castelo de Abrantes.

Já espero alguém saltar na minha jugular virtual e me cobrar soluções. Injusto! Eu ainda estou averiguando os problemas! E de uma maneira especialmente cruel: vivendo-os. E desde que nem governo algum nem ONG alguma nem coisa nenhuma consegue me dar informações qualitativas sobre o que está acontecendo realmente, verdadeiramente, factualmente com os alunos “de inclusão”, eu penso que a proliferação dessa alternativa do profissional anexado não é nada mais nada menos do que o mais claro diagnóstico possível, ou seja, de que a educação inclusiva, de fato, ela é real e está por aí (se alguém tiver endereços confiáveis na minha cidade favor divulgar!), mas as escolas inclusivas são estruturas arquitetônicas da ficção, seja ela acadêmica ou política.

Dirão alguns eufóricos: “quanto pessimismo”. Claro, para pessoas acostumadas ao proselitismo e a discurseira habituée, o mínimo de realismo soa apavorante, ainda mais se o seu orçamento familiar permite trafegar sociedade afora a bordo de uma bela bolha. Assim é moleza. Assim qualquer um. Assim, deveria ser para todos. #soquenao

Devo esperar muito para que me enfileirem os bons exemplos? Os premiados, agraciados, documentados, encerados e alisados como bichinho de pet shop? Por favor.. Não se cansem com minhas reclamações, afinal vivemos no melhor dos mundos possíveis. Pátria educadora. Não sei que outra panaceia mais.

Sei que é preciso superar as dificuldades e concordo com isso. Dizem-me (alguns alucinados) que políticos estão aí para ajudar. Mas só o que vejo são ministros de alto quilate incapazes de berrar (e isso seria o mínimo) contra cortes orçamentários na educação pública. Eu acho que políticos estão aí para outro verbo e ação. Ou o plural disso, mas eu só queria ter também essa boa-fé. No puedo. Como dijo Martin Fierro: mas sabe el diablo por viejo que por diablo.

Agora superar as dificuldades como faria um Shazan, sem diagnóstico algum, apenas com números de matrículas, com a corrupção roendo as verbas do FUNDEB, com a inoperância do judiciário em agir a não ser quando em favor de suas benesses e um senso de coletividade e espírito civil cindido entre “coxinhas” e “petralhas” e sei lá o que mais, como num fla-flu ou num gre-nal, é muito mais do que auto-engano e boa vontade. Beira o masoquismo. E masoquismo está, felizmente, bem para lá do meu limite de tolerância.

Alguém deve estar festejando a este momento as vitórias inclusivas do Brasil. Não deve ser alguém que está incluido nas escolas públicas que fecham vexatoriamente salas de recursos e oferecem (oferta irrecusável!) uma educação de sexto mundo aos cidadãos. Todos eles bem excluidinhos da silva, sob o teto e a mão protetora de um estado combalido e vampirizado por uma elite econômica de quinta categoria que tem a seu serviço uma escória chamada classe politica. Como Junot em Abrantes.