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Era só o que faltava

poetas

Durante todo o ano de 2016 tive uma companhia que há anos eu vigiava a uma distância respeitosa, mas ainda não tinha para mim: a poesia completa do Mario Quintana. Ele, um gaúcho sem o menor gauchismo, pessoa com um senso de observação do humano atiladíssimo, foi dos primeiros poetas cosmopolitas e verdadeiramente universais destes pagos sulinos, senão o primeiro (ou o único).

Tinha ele uma simplicidade que chegava a ser hermética. E um anti hermetismo total capaz de extrair poesia (para muitos rasa e superficial) do seu contato com a própria superfície das coisas, das pessoas, do tempo, dos lugares e às vezes parece que de quase tudo sobre o que pensava ou colocava os olhos. A poesia nele não era fácil, difícil nele era o que não convertesse em poesia.

Poeta da ironia e da sutileza, Quintana não precisava adentrar na mente alheia para entendê-la. Por outro lado, parecia ter um sentido de revelação que dispensava qualquer caráter invasivo ou colonizador. Não a revelação mágica ou divina, que muitas vezes impõe ritos e hiper interpretação onde muitas vezes nem os há, mas aquela de desvendar os pequenos mistérios da vida e estes para ele eram justamente os maiores: o de notar o traço humano que se oculta na trivialidade cotidiana e a irreverência em apontar que há poesia nisso, e muita.

Hoje, por tudo que leio dos contemporâneos, penso que o Quintana seria um transgressor incompreendido. Mas talvez outros poetas e escritores geniais do passado também o fossem (ou continuassem a ser).

Junto a ele, bem ao lado da sua poesia completa, coloquei a nova edição completa de Adélia Prado e também a poesia de Wislawa Szymborska traduzida e publicada neste ano pela Companhia das Letras, num lindo trabalho de tradução. Os três ali, um pouco mais afastados de outros até mais festejados, mas que me importa? Foram estes os que me acompanharam durante o ano, como se os tivesse colocado a conversar entre si. Até procurei me intrometer na conversa deles, às vezes, em objeções idiotas, só para criar caso. Mas eles insistiram em permanecer naquela perenidade dos já eternizados e, por isso mesmo, não precisaram se ocupar das minhas tolices e advertências, Quintana principalmente. Era só mesmo o que faltava.

Cara de corrupto

noite

Desde que assumi a subsindicância do condomínio onde vivo tenho sido permanentemente aliciado para a corrupção. É impressionante. Depois da experiência, estou até quase perdoando os corruptos contumazes. É mesmo um feito resistir às vantagens ilícitas que são oferecidas a qualquer um, mesmo em se tratando de um reles subsíndico como eu.

Esses dias precisamos arrumar o portão do prédio, que dá para a garagem. Aproveitei a ocasião e pedi para verificaram um problema no meu portão interno, que o condomínio não tem nada a ver, em absoluto. Na hora de fazer o pagamento, a oferta com aquele sorriso diabólico do corruptor: “Deixa que eu ponho tudo na mesma nota…”, disse o nobre prestador de serviços.

Senti-me como Eva diante da maçã e a nota ali na minha frente, bastando uma rubrica para ficar tudo por isso mesmo, a própria serpente da danação. “Não precisa, imagina…”, respondi ao sujeito que, depois disso, acabou tendo de ficar sozinho no seu constrangimento.

Ontem, outro prestador de serviço. Dessa vez um eletricista que veio consertar a célula fotoelétrica. Orçamento acordado, aquela coisa e, na saída, pimba! De novo! Dessa vez a oferta era a de colocar também na nota de serviços o material que foi preciso comprar na ferragem, para o qual já tinha nota, não precisava de outra. Mais uma vez o convite malicioso, tipo assim me convidando para o estranho paraíso dos pequenos pilantras, junto a um cartão para o caso de “outras necessidades”. De novo apliquei a minha cara zen-budista até o sujeito perceber que não me interessava a sua proposta.

Na hora fiquei pensando: dois chamados, duas ocorrências. Vai ver todo mundo é corrupto mesmo e eu achando que esse era um papo furado aplicado apenas para o caso de amigos ou amados flagrados em malversações. Ou então, desgraçadamente, eu é que tenho cara de quem está sempre apto e a fim de levar um “purfa”… Pode ser, afinal quem sabe o que os outros veem na gente? De repente, tenho cara de malandro mesmo. Paciência, que é que eu vou fazer?

E também fiquei pensando que, se na ínfima burocracia condominial a ocorrência de aliciamentos é de 100%, que dirá nas altas esferas e altos empreendimentos pagos com dinheiro público. Deve ser 100% de corrupção fora o ágio.

Só lamento é que, no meu universo de observação, os envolvidos não sejam pilantras graúdos, desses que eu desejaria ver mofando na cadeia, mas pessoas humildes, provavelmente habituadas nisso por vantagens menores, muitas vezes insignificantes. Provavelmente, sim. Isso mesmo. Mas a questão de definir o que é significante é muito individual. Tem muitas coisas e gestos que eu acho mesmo insignificantes, pequenos crimes, e jamais me ocorreria puni-los ou bancar o moralista. Casos assim são recorrentes, lamentáveis e normalmente julgados com rigor absurdo, enquanto outros incrivelmente não são.

Seja como for, me enche de tristeza ver trabalhadores humildes recorrendo a expedientes desse tipo. Decerto não temem por isso, mas o fato é que se expõem de uma forma muito absurda, quase obscena. Sei que há nisso uma violência embutida que quase ninguém percebe, ainda mais nesses tempos de justiçagem generalizada, mas, paciência… A pessoa decide que vale a pena correr o risco e aí, no fim das contas, acho que não está nem aí para o que os outros pensam ou vão pensar. É um modus vivendi dos mais comuns.

Essa e outras intercorrências, com outras espécies de estupidez deliberada, têm me feito pensar que os síndicos são pessoas talhadas para os mais duros desafios da vida contemporânea. Ou é o assédio incansável de corruptores ou é o desleixo deliberado do seu vizinho de porta. Quer dizer que a pessoa assume a incumbência de ajudar a coletividade e é levado a provações morais incalculáveis, de quebra tendo de ser um exemplo de cortesia e civilidades e, obviamente, sendo o suspeito preferencial da corrupção endêmica que parece assolar a sindicância de um modo geral.

Bem dizia um amigo meu, com experiência no assunto, que se pode exigir tudo de um síndico, menos fé na humanidade. A frase é de letreiro de caminhão, mas tem 110% de verdade, já descontada a Lei do Gérson embutida.

Seu Teixeirinha, o faz-tudo

teixeira

Hoje cedo recebi pelo interfone daqui de casa uma chamada de um senhor chamado Teixeirinha. Teixeirinha, no Rio Grande do Sul, ainda hoje é o maior ícone da música popular tradicionalista. Em vida, gravou cerca de trinta discos ou mais, participou de pelo menos dez filmes e incontáveis vezes suas músicas tocaram nas rádios daqui, principalmente as de onda média, de larga penetração nas cidades do interior do estado. É claro que não eram a mesma pessoa, porém, como eu não via o seu semblante, mas ouvia seu modo de falar em tudo interiorano, tive uma conversa estranha com o seu Teixeirinha. Não o fantasma do músico, mas este outro: sujeito aposentado que procurava serviços gerais para ajudar a “criar os neto”, conforme ele disse.

O homem ia falando lá de baixo e eu, cá em cima, montava a fisionomia do outro Teixeirinha mentalmente. Imaginava um homem atarracado como o outro, já falecido. Cabelos escuros improváveis e bigode à gaúcha, como o da imagem do Teixeirinha que eu conservava em mente. À medida que a conversa progredia, entretanto, fui perdendo a imagem do cantor mitológico, mas restava um modo tão simples e direto de dizer as coisas que era como se eu estivesse falando com qualquer pessoa “de antigamente”. E a conversa, como tinha para ele um propósito, e eu, estando impedido de descer no momento, acabou transcorrendo daquela forma impessoal, separados nós por três andares do prédio e camadas e mais camadas de pisos e paredes que impediam que nos enxergássemos frontalmente.

O que ele queria é que eu anotasse o número do seu telefone e, na eventualidade de uma necessidade de qualquer serviço, como de encanador, eletricista, pedreiro, o que fosse, não hesitasse em lhe chamar. Aposentado ele estava agora, mas não tão tranquilamente quanto fosse digno para estar de pernas esticadas numa praia ou numa varanda, mas vagando pela Cidade Baixa, de Porto Alegre, em busca de serviços ocasionais (ou changas, no modo de dizer rural), para ajudar no sustento da família e na “criação dos neto”, com o perdão da repetição da sua fala.

Não sou o síndico do prédio onde moro, mas sou casado com a síndica. Ao contrário de outras composições políticas semelhantes, atuamos em comum acordo e jamais me ocorreu, por exemplo, sabotar sua gestão ou coisa equivalente. A pessoa prevenida inclusive jamais deveria incorrer numa parceria feita à sorrelfa, com pessoas que não se confiam. Se assim não pode ser na vida política, na vida pessoal é completamente inviável ser de outro modo.

Como a titular da pasta não estava em casa, atendi eu mesmo o que ele pedia. Guardei seus telefones e sugeri que me aguardasse um instante, que em minutos eu desceria até lá para falar com ele diretamente. Com o seu Teixeirinha. “Não se incomode”, ele falou, porque estava visitando os prédios todos do bairro e de cada um onde estivera antigamente a serviço ele lembrava-se do nome dos antigos moradores, inclusive do nosso, com quem teria “tratado serviço” há muitos anos atrás. Esta pessoa, já falecida, havia sido major do exército, pracinha da FEB na 2ª Guerra Mundial, e fôra síndico por muitos anos. Na nossa conversa, citar o seu nome funcionava como um atestado de idoneidade. Interiorano como sou, entendi assim a menção a este antigo vizinho que era vivo ainda quando viemos morar aqui. E, na lógica da conversa, era isso mesmo o que ele queria dizer, que não era um ninguém, mas era o seu Teixeirinha, conhecido deste, daquele e daquele outro. Alguém cuja credibilidade era dada quase por uma tradição. Seja como for, foi o suficiente para que eu acreditasse nele.

A conversa não foi longa, mas o bastante para que eu percebesse que a firmeza na voz do meu interlocutor seria exatamente a mesma do seu empenho em qualquer trabalho que fosse fazer. Há não muito tempo atrás eu havia tomado um calote de um sujeito bem jovem que veio fazer um serviço de encanamento aqui em casa e pensei que era uma lástima eu não ter desde antes o contato do seu Teixeirinha. Esse outro fez um serviço péssimo que tive eu mesmo de reparar, ainda que tivesse pago e não pouco pela sua execução. Paciência. Pagava em dobro para ele não pisar mais na minha casa.

Não tenho de imediato um serviço para oferecer ao seu Teixeirinha nem aqui em casa nem no condomínio, mas sou bem capaz de quebrar um cano ou estragar uma coisa qualquer de propósito a fim de chamá-lo. E nem tanto para me certificar de que não se trata de uma reencarnação do antigo cantor de música gauchesca, mas porque se isso fosse ajudá-lo a completar a aposentadoria miserável que pagam aos velhos no Brasil, já valeria a pena. Antes investir diretamente no seu Teixeirinha do que nesses gatunos que agora se resolveu chamar de “gestores”. E, mais a mais, apesar de que certamente fosse mais digno e justo que uma pessoa nessa idade estivesse sossegada, de tanto e tanta pilantra que se é obrigado a ver nas “mídias” e “redes sociais”, sempre é bom ver com os próprios olhos um índio velho desses que não se entrega assim “no más”.

Irrecuperáveis

Não são muitas as vezes em que sinto necessidade de falar ou escrever sobre meu filho. É sério isso. Nestes quase dez anos, posso contar nos dedos de uma mão apenas as situações em que isso me ocorreu. Isso de não resistir ao ímpeto de lançar-me ao recurso caudaloso da escrita. Isso é estranho para mim mesmo porque, desde o seu nascimento, boa parte (ou pelo menos a melhor parte) de tudo o que tenho feito ou pensado tem a ver direta ou indiretamente com ele, embora isso não signifique que me coloque antes dele em nada nem situe ele no centro absoluto e copernicano da minha vida. Até porque ele tem a sua própria vida e a sua particular maneira de interagir com o mundo e de ser quem e o que ele é. Porém, porque sou seu pai, é obvio que, assim como eu o tenho, ele também tem a mim, daí ser isso tudo um sistema, vamos chamar assim, dinâmico.

Mas hoje, desde muito cedo, diferente da maioria dos outros dias, quando a rotina ordena idas e vindas, enumera atividades, lista deveres e faz agenda até mesmo dos nossos minutos, hoje acordei pensando muito em que, talvez de um modo um pouco diferente do que sinta a maioria dos pais e mães de crianças com deficiência intelectual que tenho conhecido, eu sinto necessidade de falar menos dos meus “sucessos” que dos meus “fracassos”. E por pensar num fracasso em especial entre os muitos que devo estar acumulando nesse meio tempo, esse sentimento me invadiu de uma maneira irrefreável.

E logo cedo uma certeza se tornou inegável para mim mesmo: a de que fracassei em ensinar ao meu filho ou em fazê-lo perceber que, praticamente desde a sua concepção intrauterina, quando era um mero amontoado de células multiplicando-se alucinadamente, e que isso está escrito no seu genoma como uma espécie assustadora de sistema operacional inextirpável, que ele nasceu com e tem e terá pela vida inteira a síndrome de Down.

Pois é isso: eu fracassei. E percebi claramente a dimensão do meu fracasso ao perceber que o trouxe comigo nesta enrascada: nem eu e nem ele sabemos o que é a síndrome de Down. Nem ele para notá-la em si mesmo; nem eu para ensiná-lo do que não sei ao certo o que seja.

Pelo menos quanto a mim, sei muito bem de onde vem essa falha. Vem de eu não saber nem como definir a mim mesmo. O que sou, afinal, além de um genérico ser humano, como os outros 8 bilhões de genéricos seres humanos praticamente todos essencialmente iguais a mim mesmo? Salvo algumas particularidades visíveis e outras nem tão visíveis, ser “humano” é o que de melhor posso dizer a meu próprio respeito, mas posso e desejo dizer isso a respeito de todos os outros 8 bilhões também. Então isso embora pareça relativamente pouco, é o máximo para exatamente todos.

Posso dizer também minha profissão, minha  identidade de gênero e orientação sexual, minha idade, minha condição econômica e, talvez, a cultural. Posso dizer também, se isso me definir para alguém, o salário que declaro à receita federal, minhas últimas opções eleitorais e outros pormenores do mesmo gênero. Além disso ou, ainda com tudo isso, que diferença isso tudo faz à minha condição de humanidade? Pois é. Isso mesmo. Nenhuma. Mas, por um convenção social a meu ver completamente equivocada, para ele, meu filho, isso deveria fazer toda a diferença.

Quanto a ele, talvez eu devesse ajudá-lo a ter maior autoconsciência, maior metacognição. Mas a verdade é que ninguém pode, a rigor, ensinar a quem quer que seja uma consciência arbitrada sobre si mesmo. A verdade é que somos como podemos ser e como podemos nos imaginar. Meu filho com certeza não imagina que tenha a síndrome de Down. E nem eu imagino que ele devesse imaginar uma coisa dessas.

Eis a complexidade da situação.

Se para qualquer pessoa definir a si mesmo é uma tarefa complicada, seja porque muitas vezes não sabemos como abordar a nós mesmos, ou porque nos falte consciência ou até mesmo coragem de assumir a integralidade da própria condição, como então esperar que uma criança, justamente uma criança, possa compreender e assumir irrevogavelmente essa condição pétrea, essa identidade fixa, isso que os adultos todos, pais, professores, médicos, comunidade e etc. dizem sempre que não faz a menor diferença, ou seja, a sua própria diferença?

É complexa e mais difícil do que parece a situação, na verdade.

Fosse tudo diferente, se soubéssemos o que estamos fazendo nesse intervalo particular a que chamamos “nossa vida”, certamente videntes, astrólogos e psicólogos estariam falidos, bem como possivelmente os poetas estariam em silêncio e viveríamos sem maiores inquietações criativas e nem haveria necessidade da arte, matriz e expressão final das mais estranhas inquietações humanas. Não é o que afirmamos implicitamente ao dizer que arte é vida e precisamos dela assim como de oxigênio: às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos?

Acho que sim. E que, ao contrário dos demais seres vivos, nós – os seres humanos – sentimos uma imensa necessidade de atribuir e conferir significado à vida, seus intervalos, etapas e, se possível, até aos mais triviais minutos e segundos. Então dizemos por aí ou assumimos como verdadeiras algumas sentenças e verdades acerca de nós mesmos porque o tempo de autorreflexão é cada vez mais exíguo diante das urgências da vida, as reais e as “virtuais”. Daí a pressa toda.

Pensamos que somos belos ou feios, estúpidos ou inteligentes, egoístas ou altruístas, legais ou chatos, ricos ou pobres e assim por diante. E muitas vezes, isso também eu suspeito que seja verdade, nos enganamos a fartar a respeito de nós mesmos. Algumas vezes até deliberadamente. Por que então não nos enganaríamos a respeito dos outros? Por que tentaríamos não deliberar sobre os outros se dispomos até mesmo da nossa própria identidade e condição humana, como kits avulsos, como rótulos de produtos e embalagens? Como nomes cujo sentido muitas vezes sequer entendemos por completo?

Por outro lado, duvido que nunca nenhum de nós tenha pensado que a vida do “deficiente”, do “doente mental” ou de um “desviante” qualquer que se possa escolher como objeto de racionalização não contenha mais verdade, ou pelo menos felicidade, do que qualquer outra vida corriqueira e cheia de rotinas e tudo isso que “faz uma vida”… E duvido por uma única e exclusiva razão: a chance desse pensamento estar correto é tão plausível quanto o seu oposto e pensar-se em uma única forma de vida válida é apenas a expressão da mais subjetiva arrogância, isso que exacerbamos como conquista e mérito na nossa cada vez mais egocêntrica e tendenciosa compreensão do mundo, dos outros e de nós mesmos.

Então, vamos ver. Pelo menos a complexidade da situação parece simplificar-se um pouco. Mas tem mais.

Lembro que logo que meu filho nasceu, ou nos seus primeiros anos de vida, acompanhei mais ou menos à distância um diálogo, num grupo de pais e mães reunidos via internet, de que determinada criança, não sei filho de quem, também nascida com a síndrome de Down, de que essa criança de não mais de quatro ou cinco anos de idade “sabia” que tinha nascido com a síndrome de Down.

Lembro de que imediatamente essa informação me pareceu chocante e estarrecedora e não somente por conhecer desde aquele momento um pouco a respeito das dificuldades cognitivas inerentes à síndrome, mas porque, na ponta do lápis, ainda hoje o que se sabe melhor a respeito da síndrome de Down é a sua etiologia, sua causa, mas não no que ela implica biológica e psiquicamente. Pelo menos não na sua totalidade. Pelo menos não com a mesma clareza que se entendem outras condições, porque o genoma humano é um complexo relacional dinâmico e não um mapa astral, de onde não se tem muita saída e ao qual se estaria fatalmente atrelado. Para completar, a síndrome também falha em ser abordada como patologia justamente porque esse é um limite impreciso que, como se vê, provém do interior da vida intracelular e chega até a vida social e em suas tentativas de explicá-la, bem mais tarde, na vida adulta propriamente dita.

Naquele momento, entretanto, a questão para mim era outra. O que me importava era entender o que essa criança efetivamente sabia sobre a síndrome e saber o que os seus tutores no assunto sabiam também a respeito dela e teriam conseguido transmitir-lhe assim tão precocemente. Ou se ela apenas dizia que “era Down” como dissesse “sou menino” ou “sou menina”.

Provavelmente era isso mesmo, mas a conversa na época não prosperou a ponto de que eu pudesse entender melhor isso porque pelo menos eu não lembro mais nada significativo que tenha se dito, a não ser o anúncio estarrecedor de que uma criança com deficiência intelectual teria hipoteticamente consciência de uma condição que, na verdade, nem hoje ainda a ciência sabe dizer o que poderia defini-la, para além da trissomia do cromossomo 21 e sua atabalhoada expressão.

Quando me lembro dessa situação, fico pensando ainda hoje em que tipo de lições ou instruções eu deveria ter fornecido e estar fornecendo ao meu filho para que ele entendesse o que é “ser Down”. E, sinceramente, duvido que ele fosse conseguir entender! E afirmo isso nem tanto pelas suas dificuldades cognitivas, mas por culpa das minhas dificuldades explicativas. Não existe a possibilidade que meu filho, mesmo quase aos dez anos de idade, possa entender as implicações genéticas e bioquímicas da síndrome de Down, das quais sou assumidamente um quase total ignorante.

Esta possibilidade, portanto, está completamente descartada.

A possibilidade seguinte me parece pior ainda. Parece hedionda do ponto de vista ético e humano. Se eu procurar explicar-lhe, por exemplo, que as suas dificuldades em tudo humanas são elas mesmas a síndrome, será antes de qualquer coisa cientificamente errado, além de ser uma violência de minha parte, ou uma espécie de fuga, como é sempre o gesto de atribuir ao desconhecido a razão de ser de qualquer comportamento ou característica. Seria como admitir que a fase lunar ou a estação do ano estariam agindo nesse sentido. Seria uma fraude de minha parte. E uma violência para ele, porque eu estaria condicionando a minha visão a seu respeito com base numa fantasia pela qual optei unilateralmente, uma crença qualquer ou até mesmo uma ideologia que eu determinaria e que poderia falsear ao meu bel prazer entre o que é deficiência e o que ela não é, conforme os pressupostos e interesses ideológicos em questão, sejam meus ou tomados de empréstimo.

A verdade, ou pelo menos a única verdade que me interessa, é que eu não sei e espero nunca saber lhe explicar o que é a síndrome de Down. E isso não é uma opção simplista por viver na ignorância, mas talvez seja a opção mais difícil entre todas: a de assumir para mim mesmo que a diferença não existe. Que ela é um atributo linguístico. Uma imposição clínica determinada por uma convenção cientificamente provisória, como são todos os diagnósticos clínicos, como é todo o conhecimento científico.

A verdade é que eu penso que meu filho não precisa saber de nada disso, porque acredito que nem isso vai lhe parecer compreensível, dada a sua condição intelectual, e nem vai lhe fazer falta nenhuma saber. É o que eu penso e como tenho agido desde que ele nasceu.

Ele é assim e, a despeito de procurarmos melhorar suas condições de vida, o respeitamos. Jamais irei lhe dizer, mesmo nas previsíveis situações de discriminação, que ele não recebeu um convite de aniversário de um colega, por hipótese, porque “é Down”, e sim porque os outros são estúpidos, porque a estupidez é muito mais difícil de ser autoidentificada e assumida que uma alteração cromossômica, por mais incrível que pareça.

Também as suas dificuldades cognitivas e/ou comportamentais eu jamais pensei ou pensarei em atribuí-las a um erro de expressão de um gen qualquer, mas simplesmente vou tentar convencê-lo que dificuldades dessa ordem eu e todos os 8 bilhões de outros seres humanos temos também em relação a muitas, inumeráveis e incomparáveis situações e que, bem, temos sobrevivido com isso…

Por que haverei eu de complicar as coisas para ele? Não sou seu pai? Tudo bem que é função dos pais fornecer limites comportamentais aos filhos e não penso em fugir a essa incumbência social (está bem, às vezes penso em dar umas escapadelas, sim, a este dever…) nem em criar por minha própria vontade um selvagem, mas inculcar preconceitos precoces, além de liquidar com a autoestima de qualquer pessoa e ainda por cima dar um nome a isso, me parece de uma perfídia incomum, mas a sorte é de que ela seria pelo menos de um tipo a qual se poderia compreender e, mesmo que a duras penas, sendo o caso e caso a caso, lógico, corrigir.

Não vou lhe dar esses limites conceituais, sobretudo porque gosto de vê-lo assim, sem pensar neles nem confirmar nessa idade da vida uma identidade pétrea, um rótulo, uma caricatura humana qualquer… Suas opções, escolhas, seu desejo cheio de vontades (que coisa mais estranha isso!) às vezes até o fazem um tipo difícil, mas se eu quisesse formar uma criatura totalmente dócil e passiva eu não teria filhos, teria ficado nos animais de estimação.

Talvez seja esse sentimento, seja tudo isso, uma espécie de negacionismo tardio de minha parte. Não sei. Pode ser. Apenas sei que meu filho nasceu com a síndrome de Down e de que ele não tem a menor noção disso. Eu espero que, por respeito ao ser humano que ele é, no seu futuro pessoal não fiquem lembrando a ele disso desnecessariamente, de um nome que não faz nenhuma diferença nem muda nada na sua vida. Se alguém espera de mim, como pai, que lhe ensine isso e “seu lugar no mundo”, eu sinto muito, mas pode contar desde já com a sua própria decepção. A dar-lhe essa lição, se é a mim que caberia ensiná-la, já falhei “de nascença”. Ele com a síndrome de Down e eu como sou, nós somos mesmo irrecuperáveis.

Muito em breve em Porto Alegre

porto

Porto Alegre é uma linda cidade que encanta visitantes de todas as partes do mundo, mas que cada vez menos consegue encantar aos próprios habitantes. Suas mazelas machucam-nos, esta que é a verdade, e não há declaração oficial que nos possa trazer conforto, até mesmo porque declarações oficiais costumam ser não mais que pedidos de desculpas tardios e apenas supostamente preocupados. Dependendo de vindos de quem, bota supostamente nisso.

Esses machucados se fazem notar seja quando as enchentes desabrigam centenas ou milhares de pessoas e sabe-se que se cometem furtos nas doações espontâneas que são feitas, seja quando tornados (agora temos disso também!) evidenciam o destrato histórico que uma das capitais mais arborizadas do país (e que se jacta por disso) tem para com o seu patrimônio natural.

Isso sem falar das obras viárias intermináveis nas avenidas longitudinais, surreais, que duram desde os preparativos da Copa do Mundo de 2014 e até hoje são refeitas e refeitas, numa demonstração impressionante de complete com o que quiser aqui. E sem falar, também, do lixo urbano e seu sistema de coleta sugismundo, terceirizado e precarizado, para o qual muitas vezes a higiene acaba incidindo no trabalho “voluntário” dos próprios moradores.

Seja como for, em torno daqui a cem dias os cidadãos porto-alegrenses estarão indo às urnas para decidir os próximos quatro anos da sua administração, assim como a futura composição da sua Câmara de Vereadores. Muitos sem saber direito quem são os possíveis candidatos, isso mesmo considerando o tempo exíguo para o pleito. Culpa, talvez, da complicada situação política nacional ou estadual. Ou, como quero dizer, de uma identificação precária dos quadros políticos com as questões da cidade.

Excluindo-se alguns nomes já certos e algumas pesquisas de opinião pouco divulgadas, o que não se pode perder de vista é a possibilidade de um revival de uma disputa insossa, capaz de mencionar mais maquetes computadorizadas que a realidade das ruas e promessas que muito logo acabam por revelar-se desvios de finalidade. Também é certo que não faltarão promessas por mais segurança pública utilizando-se a guarda municipal e outras inconstitucionalidades do gênero, bem como o anúncio de novas fontes de captação de água sem que haja indício de como isso poderia ser feito e com quais recursos. Fiscalização e auditoria nas contas das concessões de transporte público então nem se fale!

A tudo isso temos sobrevivido, portoalegrenses naturais e chegados. Ônibus lotados e frota maquiada é nossa praia! Até água com gosto de lodo e efeito parquet no trânsito toleramos. Só o que não se suporta mais são debates sem graça nem sentido e promessas que não encham nem balão de ar. Isso nós todos não fizemos nem pagamos por merecer.

Inenarrável e indescritível

valentine

Um amigo bem íntimo ontem perguntava se eu deixaria passar em branco o dia do escritor (25/07), se não diria nada sobre o assunto, se não me uniria aos tantos que se rejubilavam pelo título e comemoravam a data. Disse-lhe exatamente o que penso e pensei: que não é o meu caso. E que sempre tive claro, pelo menos para mim mesmo, que escrever é mais importante do que ser escritor e, portanto, todos os dias são de escrever, mesmo que isso por si só não me faça um escritor, mas apenas alguém que escreve…

O português Herberto Helder, que agora, postumamente, começa a ser mais publicado e conhecido no Brasil, disse numa de suas raras entrevistas que, para ele, o prestígio é uma poltrona, uma armadilha, e que o artista consciente saberá que êxito é prejuízo e que os autores que temem por desagradar a seus leitores embarcam antecipadamente no fracasso, ainda que tomados de louros e prêmios e de que a única confiança que um autor deve ter é com a possibilidade de frustrar a si mesmo e às expectativas de salão (como essas reentrâncias que há nas redes sociais também), ainda que delas viva o mundo editorial.

O custo de escrever e não viver numa dessas poltronas é o de contar com pouca divulgação. Mas sobre a vantagem de estar em pé, e em movimento, essa sim é que me importa. E essa, meus amigos, é inenarrável e indescritível.

O mundo é um moinho mesmo

amoinho

Mais que em qualquer outra cultura popular de que eu tenha conhecimento, a música popular brasileira é especialmente pérfida, sádica, terrível e completamente inadequada para os pais e mães de crianças quase adolescentes. Da Menininha de Toquinho e Vinicius, passando pelo O Caderno de Chico Buarque, Antigamente de Paulo Tatit e até mesmo O Mundo é Um Moinho, de Cartola, a coleção de serestas melancólicas e avisos prévios de um mundo terrível no porvir é impressionante. O melhor que todas dizem é: não cresça se possível. Como se fosse possível….

É uma tristeza, ainda mais se pensarmos que o recado passado é de que é melhor ficar para sempre na infância, não crescer jamais. Como os personagens de Peter Pan, por exemplo.

Está muito certo que o país e o mundo não andam lá essas coisas e é sempre bom quebrar desde cedo altas expectativas e evitar decepções talvez inevitáveis, mas há um gosto amargo que permanece na boca de qualquer pai/mãe que se vê obrigado a dizer sobre o mundo externo, por primeiro, um alerta de cuidado. Além de ficar implícita uma espécie inegável de atestado de incompetência.

Daí a versos como “o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos” e “fique assim, meu amor /sem crescer/porque o mundo é ruim, é ruim e você/vai sofrer de repente/uma desilusão” serem tidos como amorosos é de uma violência absurda. Para mim, são dignos de um Edgar Allan Poe de ressaca. E, bem.. A verdade é que, em se tratando dos citados compositores, talvez pelo menos a ressaca seja verdadeira…

No mundo da música pop estrangeira, por outro lado, a adolescência é exaltada e seu comportamento já nem tão infantil, nem ainda adulto, completamente idealizado. Por diversos artifícios da cultura, é feito um mundo de demandas insaciáveis de consumo cuja forma de satisfazer vai criar, mais tarde, insatisfações severas e inevitáveis violências paralelas ou perpendiculares. Talvez por isso haja mesmo uma necessidade em avisar previamente aqueles que abandonam as brincadeiras e bonecas de que, afinal de contas, o mundo é um moinho mesmo..

Longe de mim querer tolher dos meus filhos o seu crescimento inevitável. Como qualquer pai, é lógico que preferiria que ficassem brincando aos meus pés por longos e inumeráveis anos, pra que mentir? Porém, como não é possível e é necessário seguir o exemplo dos que vieram antes de mim, o mais prudente é deixar a roda continuar a girar, porque sabidamente o efeito de mantê-la em inércia costuma ser pior que a encomenda. Ainda assim, por uma intuição paterna diversa daquela dos grandes compositores da MPB, vou tentar evitar assustá-los demais do que eu mesmo colaborei em fazer.

O tempo é só perda de tempo

tempo

Uma vez, não sei que vez, não sei há quanto tempo, li um crítico literário comentando, a respeito de determinado poeta, que ele seria alguém que tinha obsessão por escrever sobre o tempo. Sobre a passagem do tempo e o que o tempo faz ou deixa de fazer sobre as coisas e sobre as pessoas.

Para este crítico, o tempo seria apenas uma entidade dimensional, como uma categoria física, nada além disso. Para ele, o tempo e sua passagem eram um motivo poético frágil e superficial, mostra de pouco conteúdo dada a sua repetição episódica na produção escrita do outro.

Para aquele poeta, de outra forma, o tempo era a própria vida acontecendo, depositando-se na realidade, materializando-se nas coisas todas, em todas as paisagens, nas impressões sensíveis do ser humano sobre tudo, inclusive sobre si mesmo e na sua capacidade de perceber ao mundo inteiro.

Para o crítico, o tempo era apenas um intervalo cronológico sobre o qual ele analisava fenômenos literários como se fossem quantidades e não qualidades. Aqui tantas rimas, ali aquele outro tanto de metáforas e assim por diante.

Ambos sobreviveram nos livros. Um a notar que o tempo é determinante da vida, senão sua própria razão de ser. E o outro a dizer que aquilo nenhuma diferença fazia. Pura perda de tempo.

Para o poeta, sem o tempo não seria possível escrever poesia.

Para o crítico, não se tratava exatamente de poesia.

Para o poeta, não se tratava do que o critico acreditava ou não, mas do que ele sentia e tinha vontade de dizer/escrever.

Para o crítico, não interessava à poesia nem tempo nem sentimento, mas unicamente a eficácia da palavra.

Para o poeta, o tempo era mais eficaz que a palavra e se ele não o exibisse em contraste à vida, era o mesmo que não viver ou não existir vida.

Para o crítico, o tempo era apenas uma evidência entre tantas e como tal deveria ser tratada.

Cada um a seu modo, ambos viveram da mesma matéria, mas um vivia de comprová-la ou refutá-la enquanto o outro não procurava convencer de coisa nenhuma a ninguém.

Ambos estiveram sempre certos no que diziam e pensavam, pelo menos para si mesmos. Ambos tinham de certo modo razão no que pensavam, mesmo que fossem razões eternamente inconciliáveis.

Para a felicidade de ambos (e também de seus leitores), ao que se sabe nunca que eles debateram isso abertamente.

O tempo passou e os argumentos do critico enrijeceram-se, porque essa é sua natureza, como monumentos implacáveis. Os poemas do poeta entraram em ciclo, bem como as estações do ano ou as fases da lua. Eventualmente, um ou outro e de seus versos ainda prega um sorriso, ou causa espanto, ou flagra uma lágrima fortuita de um novo ou velho leitor. Tanto faz se novo ou antigo. Lá dentro dos seus parágrafos rigorosos, por mais sóbrios e acertados que fossem, os argumentos continuam sempre os mesmos, sisudos e compenetrados em terem razão e em parecerem razoáveis.

O tempo, seja ele o que for, tem efeito diverso, como se vê, até mesmo na palavra escrita, mas isso nunca é dado a ninguém prever como irá ou não acontecer. Para o crítico, trata-se sempre de conferir validade. Para o poeta, de mera transitoriedade.

Essa é mais uma das óbvias razões pelas quais um poeta também nunca deve perder tempo com um crítico, porque aquele normalmente já o está fazendo pelos dois. O benefício daquele poeta parece ter sempre sabido disso de antemão. E o malefício que o outro quis lhe atribuir na verdade estava atingindo era a si mesmo, porque parecia desconhecer que, tanto para a vida quanto para a critica e para a poesia, tempo é tempo e é matéria e é vida (que se substitui *) também.

* “Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.” A Passagem das Horas, Álvaro de Campos/Fernando Pessoa.

Papai Noel do mal

lobomaunoel

Você ainda é daqueles/las que quer perpetuar a fé infantil na magia do bom velhinho? Quer perpetuar a inocência da infância temoroso da antecipação da canalhice adulta? Tsc, tsc. É compreensível, mas é bom contar desde já com alguma oposição. E o seu esforço, lamento informar, pode ter pouquíssima efetividade. O mudo está virado, amigo/a. E, se você tirar a cabeça da tela um pouquinho para o mundo real, irá concordar comigo.

Deixe eu lhe contar o que me aconteceu.

É que peguei meu guri, fomos no super e lá presenciamos umas barbaridades. Vertendo do gauchês para o português: convidei meu menino para acompanhar-me nas compras, no supermercado, e ele aceitou, como costuma aceitar qualquer convite para ir porta afora. Lá aprendemos democracia de verdade, exercitando-a na prática, coisa que na escola se tem uma pálida noção, além dos valores do mercado in loco. Quem não frequenta o supermercado tem uma visão distorcida da realidade, chapada e idealizada. Não é o nosso caso, o meu e o do meu guri. Lá negociamos o que comprar e o que deixar, na maior civilidade. Isso é ruim. Aquilo é caro. Isso vai. Aquilo fica. E assim vamos pelas prateleiras, no mais alto espírito civil e dialógico. Em resumo, aprendemos valores (e que valores!).

Com a proximidade do Natal, é uma temeridade levar uma criança que efetivamente crê no Papai Noel ao supermercado, mas enfim… Tudo deve ser aprendizado na vida, salvo a ignorância, é uma convicção que tenho. Se bem que tem gente se esforçando bastante em aprender a ignorância, produto infelizmente sem obsolescência programada.

A minha sorte, no caso, é que o supermercado é de bairro e, portanto, não tem Papai Noel a caráter, mas apenas as respectivas referências iconográficas. Bolas vermelho-douradas em profusão. Fitas caudalosas. Neve artificial feita de isopor picotado. E, óbvio, a trilha sonora de fundo, que não pode faltar.

Pois então, estávamos nesse dia atravessando o corredor de enlatados, rumo ao dos produtos de limpeza, quando escuto um diálogo improvável, digno de um filme de terror. Meu filho estava, por seu lado, envolvido com o desequilíbrio de umas compotas de pêssego… O diálogo era mais ou menos assim:

– Deixa isso aí senão o Papai Noel ta hoahsaksj hjah.

Ta hoahsaksj hjah significa que não ouvi o restante da conversa, mas vi que era uma jovem mãe que se dirigia a uma menina nos seus prováveis 4 anos de idade. Ela com seus cabelos encaracoladinhos e de vestidinho. Uma bonequinha.

Passado o susto pelo tom ameaçador, seguimos o nosso caminho. Uma curva lá e outra cá e de novo as duas, mais ou menos à distância:

– Te comporta senão o Papai Noel trnen cnjkcdcin hjk.

Trnen cnjkcdcin hjk é algo de uma vilania tão horrível que nem vale a pena reproduzir o que seja.

Não pude evitar o que me aconteceu. Tive pena. E eu detesto penalizar-me, mas tive. Da menina chorosa, da mãe obviamente incapaz de atender a série de desejos irrefreáveis da filha e, principalmente, do Papai Noel, convertido em um personagem maléfico e assustador, cheio de condicionantes e portador por excelência das mensagens mais chantagistas do perímetro.

Passada a compaixão generalizada, veio a tentativa de compreensão. Eu me espanto é que, ao descobrir-se que Papai Noel é uma fábula, as crianças não passem a odiá-lo, pelo menos numa projeção da raiva que poderiam ter daqueles que manipularam como bem entenderam a figura fanfarrona do bom e simpático velhinho gorducho.

Essa mãe, talvez na melhor das intenções educacionais, uniu o Papai Noel ao Lobo Mau, ao Velho do Saco, ao Bicho Papão e a todas as abominações que os adultos vêm representando na mente infantil ao longo dos tempos, despersonalizando-se, quando talvez eles próprios estejam dando a entender que eles não são assim, como dizer? Um exemplo de beatitude…

Quando contamos aos projetos de adultos que há monstros no mundo, eu penso que às vezes estamos antecipando um tipo de autojustificação, porque a face humana comporta naturalmente a ambivalência do bem ou do mal, salvo entre os santos, embora haja quem queira convencer os demais que assim o seja também entre os seres humanos comuns. É um direito inalienável do indivíduo o de fazer crer aos demais a própria perfeição. Porém também pode ser que seja apenas uma perda de tempo de livre escolha. Bom, mesmo que haja alguns que se esforcem bastante, e estou longe de queixar-me disso, cada vez mais contamos apenas com uma pálida noção da intimidade alheia, porque progressivamente ela é mediada por filtros de toda a espécie. E pela arbitrariedade de uma humanidade virtualizada que pode, inclusive, tentar manipular a própria identidade, temperamento, características, etc. Tempos hipermodernos.

Nessa intermediação, todos os ícones do passado já foram para o beleléu. A ambivalência e a falta de credo na ponderação de verdade é uma tendência inexorável, ao que tudo indica. Prova disso são os negacionismos escancarados que se sustentam por aí. Gente flagrada no ato insistindo em inocência. Outros defendo o indefensável e cometendo o impensável ostentando sua dignidade de araque mundo afora. E vamos bem nessa marcha, ensinando às crianças que, na falta de argumentação, a chantagem e a mentira podem ser um bom negócio.

E depois querem que a educação formal dê conta de formar bons cidadãos e a panaceia de um novo mundo, mas sem jamais admitir que estamos entranhados da mediocridade que falseamos talvez essa seja uma exigência exagerada. Ou absurda. Eu mesmo vi essa mãe liquidando com o coitado do Papai Noel abertamente e nem consigo condená-la pela precariedade do artifício. Minha empatia é sem limites, coloco-me até no lugar dos criminosos, os reais e os morais. Quem garante que, num desespero, também não tenha de usar dessa barganha infantil? Mas, por um exercício de crítica, prefiro ceder às pressões por um chocolate ou por uma eventual bugiganga do que em vilipendiar a imagem alheia. E depois não querem que as crianças tenham medo da criatura. Vá entender esse pessoal.

Esse meu guri

futezinho

Já contei, para o espanto e terror de muitas pessoas, que por um tempo tive um artefato auxiliar para aferição do espírito inclusivo escolar do colégio onde estudam meu filho que tem síndrome de Down e sua irmã, que não tem. É o Hulk (e a escola é a mesma para ambos). Esta história do Hulk já foi contada aqui, portanto não irei repeti-la. Não é o caso.

Pois é chegada a hora de informar que o “Hulk” vem sendo felizmente superado. Nem sei como se poderia superar o Hulk, mas a questão é que o “dispositivo” me serviu bastante enquanto a comunicação com meu filho era bastante precária. E a verdade é que o Hulk foi sendo substituído pela sua expressividade e por outros comportamentos sociais capazes de me informar sobre seu desejo autônomo por incluir-se.

Pessoas que esperam pureza infinita e afligem-se com o que possam interpretar como manifestação de um “politicamente incorreto” haverão de tremer daqui em diante, mas não me importo. A questão é que, de forma tácita, meu filho estabeleceu uma série de direitos, para ele inclusivos e inalienáveis, a saber:

1) o direito a participar do fogueirão do fim de tarde custe o que custar (sim, ele tem que jogar bola, garrafinha, tampinha, folhinha ou o quer quer seja chutável com o pé com seus colegas, num evento esportivo improvisado e sem muitas regras onde todos podem participar e o gol fica para qualquer lado);

2) o direito de pagar e escolher o próprio lanche na cantina da escola;

3) o direito de não beijar e abraçar os professores e adultos e colegas sempre que instado;

4) o direito de escolher a quem beijar e abraçar (bem como o dever de eventualmente frustrar-se);

5) o direito de ser s-e-m-p-r-e o último a sair da escola e, ainda assim, lutar por lá permanecer “só mais um pouquinho”;

6) o direito de preferir brincar a fazer seus deveres e o dever de eventualmente frustrar-se, a não ser quando o espírito coletivo exigir o contrário e a bagunça for deliciosamente irresistível;

7) o direito de valer-se de soluções mágicas para a resolução de problemas complexos, desde que acompanhados do infalível sorriso sedutor;

8) o direito de distrair-se e perder-se eventualmente da fila por uma eventual aparição do homem-aranha no pátio escolar ou uma formiga estranha qualquer ou uma bola extraviada (problema seríssimo);

9) o direito de disputar a mão e a companhia da professora, mas o dever de abrir mão da precedência;

10) e, principalmente, por fim, o direito fundamental de não ser exemplo de coisa nenhuma e de na maioria das vezes não ser notado, de estar meramente no anonimato e na gritaria comum do alunado, sem por isso ser julgado ou avaliado, mas compreendido na sua condição de criancice.

Devo admitir que não houve muita negociação e todos estes “direitos” supra foram conquistados sub-repticiamente, com boas doses de malandragem e cavalheirismo mútuo, já que o Hulk (o artefato, não o personagem) e sua brutalidade parece aposentado, dando lugar a um ser bem mais tranquilo e afável, mais parecido com quem realmente é, esse meu guri..