A Pedra do Segredo

Numa das estreitas furnas que se podem ver nessa rocha gigantesca, diz uma lenda corrente na região de Caçapava do Sul ser o lugar onde foram depositados os ossos do cacique guarani José Tiaraju, o Sepé. Junto aos ossos, haveria também incertos tesouros em prata e ouro dos jesuítas que muitas pessoas se animam ainda a procurar. Até hoje, nem uma pataca parece ter sido efetivamente encontrada.

O lugar fica nas bordas do escudo rio-grandense, na Serra de Santa Bárbara, não muito distante do centro da cidade de Caçapava. Apesar da aparência monolítica, na verdade trata-se de um imenso amontoado de pedras gigantescas desabadas umas sobre as outras desde que não havia vida no planeta. É o que explica as grutas e cavernas que atravessam de lado a lado o monte de pedras gigantescas. Nas frestas entre as pedras sobraram espaços de circulação e escoamento e assim se formaram as furnas.

Chama-se Caverna da Escuridão o lugar no qual o enterro de Sepé supostamente possa ter acontecido. Lugar assombrado, dizem, onde as fogueiras se extinguem e fantasmas dos indígenas afastam os visitantes mais atrevidos.

Eu nunca estive lá. Conheço a história de ouvir falar e ler a respeito. Como é uma lenda, também tenho minhas suposições.

O que eu mais fico pensando é como se poderia ter certeza mesmo que o Sepé supostamente enterrado ali se trate do alferes guarani.

“Sepé” é um nome que muitos caciques adotaram entre os guaranis reduzidos e também entre as nações infiéis. É um termo, aliás, originado na nação charrua e não na tupi, das pouco mais de 70 palavras que resistiram do idioma original dos indígenas que povoavam os campos do Uruguai e o sudoeste do Rio Grande do Sul.

Na língua dos charruas, significa o correspondente a “sábio”. É o que diz o Códice Vilardebó, que sistematiza a sua língua e foi compilado em torno de 1840 por um dos fundadores da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico do Uruguai.

Não que seja improvável que o alferes de São Miguel tenha andado por aquelas bandas que integraram antes da Cisplatina a maior de suas vacarias, chegando ao limite do Forte de Santa Tecla, em Bagé. A cavalo e com pouca carga, uma viagem de duas luas bastava para ir até os limites dos territórios em domínio dos jesuítas e guardados pelo exército de guaranis. Nos campos de Bagé, há registro de sua passagem, inclusive do diálogo com os demarcadores dos dois países ibéricos, logo do tratado de Madri que deu origem à guerra guaranítica.

Não muitos anos depois que Tiaraju morreu em combate, em 1756, a nação charrua do sul foi espremida em direção ao massacre de Salsipuedes, em 1831. Salvaram-se cerca de 70 indígenas, fora os que foram foram levados a Paris para estudo e exibição. Em plena campanha de independência, os charruas foram declarados inimigos públicos dos novos governantes e encontraram guarida nos acampamentos dos republicanos farroupilhas. O último cacique charrua chamava-se Polidoro e adotou (mais certo que adotaram para ele) o nome de Sepé, decerto uma homenagem a sua liderança. Nas escaramuças dos farrapos, viajaram o Rio Grande inteiro, inclusive Caçapava do Sul.

Este segundo Sepé teria vivido até o ano de 1864 e morrido em Tacuarembó, no Uruguai. Antes disso, viveu no Brasil e assistiu os remanescentes de seu povo morrerem um a um de varíola, até restarem os três últimos do seu toldo, ele e seus filhos, que não deixaram descendentes. Diziam ser o mais destemido dos charruas e antes que o passassem a cuchillo safou-se sempre com um sexto sentido inato para a guerra. Um guerreiro como poucos. Como não há um livro ou filme sobre uma pessoa assim até hoje?

Antes da colonização, como a maioria das cidades da fronteira, Caçapava do Sul foi um acampamento dos indígenas. Eles escolhiam para viver lugares estratégicos, de passagem, com boas aguadas e fartura de caça e pesca. Mas à chegada dos colonos, eram espantados para o interior dos campos, tornando-se ainda mais nômades e dependentes do roubo dos animais que agora povoavam a região. Um povo que vivera pelo menos 5.000 anos numa grande nação estável, em menos de 200 desapareceu completamente e de uma forma especialmente cruel: pelas mãos de um antigo amigo militar uruguaio a quem haviam servido, mais tarde vingado, dizem, por este Sepé menos conhecido. O militar era sobrinho do presidente Fructuoso Rivera.

Daí que ser um povo sem paradeiro nunca foi uma escolha dos indígenas, mas uma contingência. Que andaram entre as margens da Lagoa Mirim e do Rio da Prata é sabido. Seus vestígios são escassos como precária era sua tecnologia. Para guerrear, nunca usaram as armas dos homens brancos. Seus túmulos eram de pedra e tinham nos minerais sua fonte de setas e ferramentas. Quando morriam, matavam seus cavalos, que cobriam seus túmulos. As mulheres amputavam um dedo da mão a cada membro que perdiam da família. Há relatos militares de mulheres e anciãs encontradas sem nem um dedo nas mãos… No luto, ao invés de pranteá-los, gritavam seus mortos por uma lua. Depois, seguiam viagem.

Se há um Sepé que deveria ser enterrado ali dentro desse magnífico geomonumento é este segundo, mas é provável que não haja vestígio de nem um deles. O nome do primeiro ter batizado o segundo deve ser o bastante para servir de amostra do que foi o vulto de Tiaraju, e seu poder.

É triste que se saiba tão pouco a respeito dos povos originários, os chamados índios-vagos: aqueles sempre arredios e esquivos do convívio com o homem branco. Certamente intuição não lhes faltava, muito menos disposição para enfrentar a luta pela sobrevivência e a morte. Os azares da guerra.

O mais é como o nome da imensa rocha. É segredo.

O que é que a Noruega tem?

Revista Parêntese, ed. 138

Quem observa a ferramenta de busca a seguir, quase idêntica ao formulário oracular do Google, não imagina que a consultando desde alguma cidade norueguesa poderá ter acesso integral a quase todos os livros publicados no país (até 2025, eles pretendem que sejam todos mesmo). Sem pagar nada por isso, sem correr o risco de ser processado por pirataria e nem de prejudicar o negócio de ninguém. Sim, isso mesmo.

Captura da tela principal do website da Biblioteca Nacional da Noruega

Não obstante a estranheza do parágrafo acima, aqueles que pensarem que as medidas de digitalização tomadas pela Biblioteca Nacional da Noruega têm impactado negativamente a cadeia do livro norueguês irão surpreender-se ainda mais: por lá os números editoriais mantêm-se estáveis, e os livros podem ser inclusive adquiridos em livrarias que as próprias bibliotecas abrigam. Além disso, lá se publicou no último ano um livro para cada 530 pessoas, contra um para cada 4.500 brasileiros. Proporcionalmente, o pequeno país escandinavo publica cinco vezes mais que o Brasil.

Não convém criar caso, manda a prudência, com um sistema que funciona. Muito mais produtivo seria entender como isso pode acontecer e, se possível, tomar de alguns bons exemplos e práticas. Além do mais, comparar o Brasil aos países nórdicos é receita certa de dor de cabeça neste e em muitos outros assuntos. Também entender o que se passa aqui quanto ao assunto é fundamental, mas cada coisa em seu tempo. Escandalizando os sistemas educacionais do planeta com um modelo inteiramente subsidiado e gratuito, a Finlândia tornou-se, por exemplo, uma espécie peculiar de vilã internacional. Mas toda a vilania finlandesa consiste, afinal, em ter elevado a régua da qualidade educacional ao máximo possível, num sistema no qual o filho do chanceler divide tranquilamente a classe com o do recolhedor de lixo. Além da política educacional, todo o sistema de proteção social do país é escandalosamente funcional e democrático.

Mas uma vez que repetir o modelo educacional finlandês costuma causar depressão nos brasileiros, o modelo bibliográfico norueguês poderia inspirar medidas que cumpririam ambições mais modestas, mas exequíveis, tanto no que diz respeito à conservação da memória quanto ao desenvolvimento cultural.

Para chegar a um sistema online como o de que dispõe hoje, a Biblioteca Nacional da Noruega ampara-se no instituto do Depósito Legal, em negociações com as casas editoriais, com os proprietários de direitos autorais, em parcerias estratégicas com o uso de tecnologia digital e formação de um repositório livre, em acordo com a missão legal e prerrogativas da biblioteca e os pressupostos do Depósito Legal. Ao menos em tese, são instrumentos acessíveis a qualquer nação do planeta.

O Depósito Legal, no caso, é instrumento adotado em praticamente todos os países, por ato legal próprio, e vem modernizando-se no rastro da inovação tecnológica. Em torno da virada do milênio, primeiro a UNESCO e na sequência a IFLA (International Federation Library Association) publicaram diretrizes de modernização do instituto prevendo a inclusão óbvia de documentos digitais e orientando os sistemas de controle bibliográfico a incluírem em seu escopo muito mais que livros impressos, além de estes serem digitalizados. Isso tudo em função da razoabilidade técnica e do cumprimento dos dois objetivos fundamentais do Depósito Legal: preservação e acesso aos registros do conhecimento.

O que a Noruega guarda de diferença do Brasil, no caso, foi o fato de lutar para que estes objetivos não se configurem uma bela e inatingível meta, mas uma realidade factível. As demais estratégias são empreendimentos políticos e de gestão que encontraram um ramo editorial interessado em investir para além do comércio puro e simples. Não por acaso, muitos países vêm buscando seguir seu exemplo e negociar com os detentores de direitos autorais a cessão de uso ao menos para fins educacionais. Pode-se falar na Nova Zelândia, na Austrália e também em projetos nos Estados Unidos que, na história recente, receberam investidas jurídicas importantes no sentido de contrapor interesses comerciais e públicos.

No exemplo norueguês, no entanto, os inimigos do livro não são a tecnologia nem as bibliotecas, e lá o livro vale mais do que pelo que é vendido. É uma diferença sobretudo cultural que evidencia o abismo imenso, e, no caso brasileiro, parece nos encalacrar e condenar à estagnação de um mercado perenemente problemático, isso num um país que se notabiliza ano a ano por um decréscimo em seu número de leitores.

Permanência vs invisibilidade

Para aqueles que ainda imaginam que basta publicar para eternizar um trabalho de ideias, é dura a informação, mas a verdade é que publicar não é o suficiente. No Brasil, o ciclo de vida comercial de um livro dificilmente passa dos dois anos. Três anos só mesmo para os longevos ou com forte apelo popular. Após esse período, é preciso considerar não ser nunca mais encontrado em lugar nenhum, a não ser em visitas às poucas bibliotecas em condições orçamentárias, isto é, em condições de atualizarem-se, pois o ciclo de vida do livro é curto, ao contrário dos longuíssimos direitos autorais. 

Para comprovar essa afirmação, é suficiente buscar livros publicados antes dos anos 2.000 para constatar a dificuldade. Não se encontra. Há não muito tempo, um clássico nacional como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, só era possível obtê-lo trocando pelo valor de um automóvel usado. Depois de 30 anos de ausência nas prateleiras das livrarias, apenas recentemente uma reedição alcançou a obra do sociólogo. Assim como ele, uma imensa bibliografia compreendida por livros esgotados de interesse histórico, que no mercado de usados extrapolam muitos milhares de reais para adquiri-los (como exemplo, é suficiente consultar neste link os livros mais caros à venda na Estante Virtual. São livros protegidos pelo direito autoral e pelo pecado da ganância.

Capa da 6ª edição da Ed. José Olympio de Raízes do Brasil (reprodução)

Todavia este não é um problema apenas histórico. Com novas tiragens cada vez mais reduzidas, é preciso entender a gravidade do problema e do custo dessa política em longo prazo. É que, fora dos grandes negócios editoriais, as pequenas tiragens impõem-se cada vez mais como as únicas viáveis. Se isso pesa no que toca ao universo de leitores, imagine-se então o impacto no controle bibliográfico, isto é, no conhecimento que o sistema editorial tem a seu próprio respeito.

Embora regulado no Brasil desde 1907 e existente desde o período colonial, por meio da Imprensa Régia, o Depósito Legal é um projeto frustrado muitas vezes pelo desconhecimento dos autores e editores nacionais, mas também por uma cultura descompromissada com a preservação das fontes e permanência dos bens culturais.

Para a felicidade dos especuladores do livro, leiloeiros e sebos que vendem a preço de diamante livros que por nenhuma outra razão não se encontram ainda disponíveis em meio digital, o Depósito Legal brasileiro claudica. O enfrentamento a essa situação não é simples, no entanto parece ser a única forma para que o ambicionado desenvolvimento cultural saia do papel para tornar-se um pouco mais real.

A frustração da biblioteca universal

Com a expansão da internet, a chegada da computação quântica e a facilidade de armazenamento, o sonho da biblioteca total não poderia ter maior viabilidade do que no mundo contemporâneo. Mesmo assim, nunca foi tão postergado quanto agora. No ciberespaço, dado o infinitesimal que cada brochura representa diante da imensidão da internet, e enquanto ele não se concretiza pela vontade oficial, em seu lugar prospera um mundo paralelo onde circula com muita facilidade o extremo oposto ao interesse editorial: a pirataria.

Mas a biblioteca universal é sonho antigo e recorrente na humanidade. Em Alexandria, a biblioteca não foi criada no Museion com outro objetivo que não fosse o de reunir o maior número possível de obras e facilitar a vida dos pesquisadores. Jorge Luis Borges, em suas obras completas, menciona o termo “biblioteca” quase duas centenas de vezes; em onze delas, o exemplo de Alexandria e da sobrevivência do conhecimento diante da intempérie da guerra e das invasões.

Muito recentemente, precisamente em 2004, o Google anunciou ao mundo o seu projeto Google Books, que na época consistia na digitalização de 10 milhões de títulos com direitos autorais decaídos das bibliotecas de Stanford, Harvard, Oxford, da Universidade de Michigan e também da Biblioteca Pública de Nova York. Não muito tempo depois, as big five, ou seja o pool composto por Simon & Schuster, Penguin Random House, HarperCollins, Hachette Book Group and Macmillan, embargaram as intenções da empresa em montar um imenso negócio envolvendo livros livres, trechos de livros e comércio. Frise-se que a parte comercial do projeto do Google mantém-se intacta, enquanto que os processos de digitalização em bibliotecas transformaram-se em projetos autônomos dado que o projeto original foi embargado judicialmente.

Livros livres, de fato, existem na internet, mas não tantos. Se fosse pelo desejo do criador do maior repositório livre da internet, Brewster Kahle, da Internet Archive, todas as bibliotecas poderiam exercer livremente a função para a qual foram pensadas ainda na antiga Alexandria: a consulta, cópia e o empréstimo de obras. Num trabalho sem fins lucrativos, Kahle é mais uma das tantas pessoas que considerou razoável que a internet fosse mais que um espaço de vendas e pudesse incorporar o significado edificante da biblioteca universal. Em 2020, Kahle foi processado por um conjunto de editoras que exigiram que parasse de emprestar livros digitalizados em geral e que destruísse permanentemente os milhões de livros digitais obtidos em acordo com mais de uma centena de bibliotecas. Em artigo publicado na Time, em 2021, ele diz que os grandes negócios editoriais impedem que as bibliotecas adquiram livros digitais e os emprestem, apontando para o fim de sua autonomia.

Brewster Kahle, da Internet Archive.

Outra expectativa foi publicada há mais tempo no NY Times, pelo editor da Wired, Kevin Kelly, num extenso artigo no qual expressou a crença de que é impossível evitar que a tecnologia acabe fazendo por sua conta o que as grandes editoras têm procurado conter. Mas Kelly é um entusiasta da tecnologia e mais uma das pessoas maravilhadas pela possibilidade da consecução da biblioteca universal acessível a um clique e diz considerar incompreensível a orfandade de cerca de 75% de todos os livros guardados pelas bibliotecas públicas em todo o mundo. De acordo com ele, trata-se de livros que não se encontram mais à venda e nem estão disponíveis digitalmente. Em sua maioria, são obras protegidas pela vigência legal dos direitos autorais exercendo uma pressão estática justamente contra quem os preserva: as bibliotecas.

Disputas envolvendo bibliotecas e editoras ou escritórios de direitos autorais estão longe de consistir uma novidade. Desde a Convenção de Berna, de 1886, sobre as bibliotecas recaiu essa missão dúbia: ao mesmo tempo preservar e providenciar acesso ao conteúdo dos livros. Em 2014, um caso envolvendo a biblioteca da Universidade Técnica de Darmstadt e a editora alemã Elgen Ulmer foi parar no Tribunal de Justiça da União Europeia. A causa em questão? O fornecimento de uma cópia da digitalização de um livro. A decisão do tribunal reconheceu o direito à biblioteca em fornecer acesso ao conteúdo do livro, desde que sem os direitos conexos de cópia e impressão. A editora recorreu da decisão ao Tribunal Federal de Justiça da Alemanha. 

Nos Estados Unidos, em 2013, a Author’s Guild (maior e mais antiga agência de direitos literários norte-americana) moveu contra o Google um processo por violação ao fair use de 20 milhões de livros disponíveis no Google Books. Trata-se de trechos dos livros digitalizados para o Google que não chegam a consistir uma agressão aos direitos autorais. Mas a ameaça (e a evidência de que os livros estão inteiramente digitalizados em algum lugar) foi suficiente para a ação. A decisão proferida pelo juiz Denny Chin beneficiou o Google. Ao revés das decisões europeias e norte-americanas e com o aumento exponencial de denúncias de uso irregular e abusivo de obras protegidas em redes sociais como o YouTube e o Facebook, por sua vez, em 2018 o Parlamento Europeu aprovou uma nova Diretiva de Direito Autoral mais restritiva, mobilizando mundo afora mais ações caracterizando como pirataria o fornecimento de acesso a conteúdo autoral protegido. 

Assim como a utopia da biblioteca universal não se materializa, o cabo de força do direito autoral aparentemente não tem fim. Igualmente não tem fim a fantasia em torno do “fim do livro”, assunto que rendeu a diversos historiadores e intelectuais volumosas páginas de brochuras. O espaço aparentemente infinito e inexplorado da internet em algum momento parece realmente ter sacudido o modelo editorial vigente desde Gutenberg. De algum modo, a ascensão das gigantes tecnológicos como o Google e a Amazon sacudiu o mundo empoeirado das bibliotecas até então. Hoje, não é mais possível imaginar-se uma biblioteca nos mesmos moldes do inicio do séc. XX, e países em condições de investir acabam criando soluções criativas e democráticas – como o exemplo norueguês. 

Em 2001, Jacques Derrida reviu em Papel-Máquina a sua Gramatologia, de 1967, no qual havia previsto o apocalipse editorial e a apoplexia do conhecimento escrito. Neste último, reconheceu que a crise do livro não se confunde mais com a crise do suporte, mas da própria capacidade de leitura e interpretação. A essa altura do séc. XXI, já não há mais quem em sã consciência duvide de que se disponha da técnica disponível para ampliar-se o acesso ao conhecimento sem causar um prejuízo incontornável aos autores literários. Há também instrumentos legais garantindo que as recomendações da UNESCO atendam, de fato, ao objetivo do desenvolvimento cultural. No entanto, mesmo com tudo isso, a realidade cultural especialmente de países que mais precisariam desse incremento emperra inexplicavelmente no desinvestimento e no desinteresse social. Enquanto isso, leitores potenciais cada vez mais se afastam da leitura e, por consequência, da própria identidade e memória literária e histórica.


Pós escrito

O trecho a seguir é uma tentativa de responder à pergunta formulada num artigo anterior, publicado na edição #138 da revista Parêntese, intitulado “O que é que a Noruega tem?”

Kulturarven skal ut til folket (a herança cultural deve ir para o povo). Com essa simples frase, por meio da sua Biblioteca Nacional, o governo norueguês justifica os grandes investimentos realizados pela instituição no sentido de implementar a digitalização de todo o patrimônio cultural norueguês. Trata-se de mais que uma frase, mas de um princípio que os noruegueses, talvez como nenhuma outra nação do planeta, decidiriam concretizar.

O prédio da imagem a seguir é justamente o Centro de Digitalização do Patrimônio Cultural da NasjonalBiblioteket. Ali dentro, conforme a imagem ao lado, não há livros e nem revistas, mas petabytes guardados num processo de backup que é renovado de cinco em cinco anos, a fim de que se previnam perdas e de que as fontes mantenham-se armazenadas em veículos legíveis e de código aberto. Em razão desse cuidado, 50 milhões de arquivos de imagens tratados inicialmente em formatos proprietários já foram convertidos para formatos mais duradouros. Os sistemas de backup são baseados no Oracle SAM-FS e a digitalização executada por meio de dois scanners HDR – Scanity, equipamentos com a capacidade de restauração e reparo no tratamento de imagens.

Obviamente que um projeto dessa magnitude depende de um investimento a altura. Em que pesem os esforços da Biblioteca Nacional em implementar esse trabalho venha desde o início do século, recentemente a constituição de um “banco da memória nacional” ensejou um incremento orçamentário da ordem de 90 milhões de euros. Imagens internas e externas dos equipamentos mostram que o investimento é aplicado com racionalidade extrema e todos os excessos e supérfluos são evitados.

Como se trata de um projeto de longo prazo e que procura tratar e armazenar, além de toda a produção bibliográfica nativa, recursos informacionais de instituições públicas e privadas que aderem a um modelo contratual que prevê etapas de tratamento e compromissos de disponibilização inteiramente públicos, os números não são econômicos.

Firmados os contratos, a equipe da Biblioteca Nacional assume o processamento técnico condicionando as espécies de material e suporte, com base num sistema de prioridades que prioriza documentos em estado crítico, como manuscritos em risco de perda definitiva. A estimativa é de que o trabalho seja estabilizado em torno de três décadas.

Até 2018, os números obtidos estavam em torno de:

2,000,000 jornais impressos, cerca de 40,000,000 de páginas;
540,000 livros, cerca de 80,000,000 de páginas;
700,000 páginas de manuscritos e partituras;
1,300,000 fotografias;
1,400,000 horas de transmissão de rádio;
950,000 horas de transmissão de TV;
55,000 registros musicais;
16,000 unidades de filmes e vídeo;
24,800,000,000 páginas da web.

O escopo do projeto é de acesso on-line gratuito e ilimitado a IPs noruegueses.

Outro projeto sediado na Noruega, na cidade mais ao norte do mundo, Svalbard, sob o permafrost do Ártico, inclui um cofre digital com os registros de código aberto desenvolvidos por, entre outros, Linux, bitcoin e Android. Além dos softwares, o repositório guarda documentos cedidos pelos principais arquivos digitais das bibliotecas do mundo, tais como a Vaticana, o British Museum entre outros. A proposta do Artic Vault é durar pelo menos um milênio e preservar registros da humanidade no caso de que as condições de vida, enfim, não sejam promissoras.

Uma crítica absolutamente inválida aos noruegueses é que estejam sendo demasiadamente pessimistas. Talvez, e nisso eu creio também, eles apenas levem a sério a sentença do filósofo francês Paul Virilio que divide as pessoas do mundo em duas categorias apenas: os pessimistas e os mentirosos.


El ultimo malón

As pessoas nessas fotos são indígenas da etnia kolla que, em 3 de agosto de 1946, ou seja, há quase 76 anos, foram recebidos por Juan Domingo Perón, após uma peregrinação de quase 2.000 Km durante 60 dias para levar ao governo argentino uma queixa formal a respeito das condições de vida miserável, da usurpação de seus territórios, trabalho escravo nos algodoais do Chaco, Salta e Jujuy, violências físicas e abusos sexuais.

Naquele momento, o recém empossado Perón promove uma recepção apoteótica. Leva-os consigo e deixa-se fotografar abraçado aos indígenas no balcão da Casa Rosada como se o gesto fosse, de fato, uma acolhida os protestos do “Malón de la Paz”, o último dos malones reportados na história argentina.

Malones eram saques organizados pelo indígenas dos desertos contra as populações de colonos nos quais os aborígenes recolhiam o que podiam: gado, cavalos, mantimentos e até mesmo pessoas que raptavam da “civilização”. Na história argentina, são computados às dezenas, de tão frequentes.

A recepção durou pouco e as promessas de reintegração de posse do governo nunca se concretizaram. Nos primeiros dias, os indígenas ganharam chapéus e trajes “urbanos” para melhor trafegarem na capital e inclusive presenciaram ao vivo uma partida de futebol.

Foram alojados num hotel que era destinado aos imigrantes estrangeiros que chegavam a Buenos Aires, mas dali logo expulsos pelas forças militares, menos de um mês após todo aquele calor humano peronista. As mulheres foram arrastadas pelas ruas e as famílias, sob gás lacrimogêneo, espremidas nos trens para retornar às suas terras de origem, que reclamavam.

Os indígenas voltavam, dessa vez sem pompa nem circunstância, a receber o tratamento de selvagens que, desde Facundo, selou a distinção fatal entre nativos e colonos e custodiados sumiram na poeira do último malón, o Malón de la Paz. De celebridades acolhidas por Perón em pessoa estampando as primeiras páginas dos jornais bonaerenses, passaram a figurar nas colunas policiais, como vândalos depredadores. Disseram-nos estrangeiros infiltrados, bolivianos, e o racismo do rio da Prata encontrou na pele de bronze o verniz perfeito a quem perseguir e difamar.

E o que era mito virou lenda e o que era lenda virou rumor. O malón foi esquecido dos jornalistas e apagado da história oficial por pelo menos 60 anos, quando em 2006 uma nova marcha de indígenas se organizou nas províncias. As queixas? As mesmas, como havia advertido aos primeiros em 1948 o cantor e compositor Atahualpa Yupanqui: “Dentro de poco serás el tema pálido de algo de lo mucho que ocurre en el tiempo.”

Edição do Autor

Não sei se consigo descrever a simpatia que me desperta/causa encontrar estas palavras na folha de rosto de um livro. Acho que tem algo de antiquado, para além do “marginal”, mas também de discrição. Coloque-se um livreto como esse que tenho em mãos ao lado de um calhamaço e parece que um faria imediatamente sombra no outro. Mas isso é totalmente ilusório ou, melhor, uma análise de invólucro ao invés da única que interessa à literatura: aquela que diz respeito ao conteúdo dos livros.

“Cipó” é o segundo livro de poesia que eu tenho do Vitor Simon. Já tinha antes o seu “Cata-vento imóvel”, também de poesia. Ambos são edições do autor, isto é, livros inteiramente produzidos e comercializados por ele próprio. Os seus livros de contos eu não tenho nem conheço.

É um livreto de pequenas dimensões, 15,5 x 10 cm, mas de uma poesia que a mim muito impactou. Gostei muito. Há um salto evolutivo visível entre um e outro dos seus livros e, nesse especificamente, um ganho de vitalidade muito significativo.

MÃE, p. 37

O pó vermelho impregnado
nas solas da alma.
A vogal estiraçada
no final das frases.
Cá estamos, de retorno,
e a criança agora és tu.
Circundando o leito,
tecemos para ti
uma colcha de retalhos
de nossa própria pele.

Quando se lê dois livros de um poeta, e se nesse meio tempo algo de significativo passou-se com ele, é muito difícil não se notar. Não é uma mudança que se dá na forma ou na técnica, mas na perspectiva. Uma inflexão na sensibilidade. Se o “Cata-vento imóvel” denunciava desde o título uma percepção muito auto centrada, com “Cipó” a poesia do Vitor parece ter ganho mobilidade em todos os sentidos. Seus poemas agora são menos especulativos e mais flexíveis. Debruçam-se no tempo histórico, alcançam-no e transferem-se com muito mais liberdade tanto em foco como em percepção.

Embora o nome “Cipó” também remeta a uma espécie de fixidez, seus poemas agora também são menos contemplativos do que no seu primeiro livro. Eles realmente falam do embaraço do poeta com a vida, não são especulações feitas à distância. Por isso, eu diria que é um livro mais sensível e afirmo isso tanto em relação ao seu livro anterior quanto também a uma certa frieza e distanciamento para mim muito presentes na poesia contemporânea de um modo geral. No caso de Vitor, ele parece ter vencido essa distância e os seus novos poemas são como frutos desse seu novo momento.

Não em todos, mas em muitos poetas que li e conheci, os mortos há muito e os que estão vivos agora e leio aqui, e apesar dos estilos muitas vezes diferentes, tenho uma sensação repetitiva de que são pessoas que desejariam por meio da escrita tocar a sensibilidade dos leitores. Alterá-la de alguma forma. O Vitor não me parece ser um poeta assim. Outros me passam a sensação de que desejam fazer como a imagem de Jesus e apontar o próprio coração, como uma espécie de auto devoção. Como se o sentimento do poeta pudesse providenciar significados aos sentimentos dos demais. Também dessa sensação o Vitor me livra, felizmente, e de doutrinações sentimentais.

Ainda que não visando necessariamente o imediato, escrever é sempre um esforço comunicativo. Por certo desembaraçamento da realidade imediata e pelo uso de metáforas mais ou menos adesivas, a poesia parece mesmo um discurso livre e por essa razão é sempre complexo apontar-se o valor disso e daquilo, especialmente porque a liberdade formal obtida no decorrer do séc. XX pressupõe inumeráveis e incomparáveis formas expressivas.

O máximo que como leitor de poesia me atrevo a dizer de um livro é “gostei”, ou seja, este livro parece ter me alcançado a sensibilidade e ganhado em mim um leitor, quer dizer, uma porção da minha atenção apta a concatenar-se ao escrito. Para os que acreditam que a poesia é essencialmente a linguagem do belo ou do espantoso, eu lamento, mas não concordo inteiramente. A poesia do Vitor, em “Cipó”, eu não sinto que queira me mostrar a beleza nem me assombrar, mas mostrar o poeta e a sua forma de perceber o mundo e a si mesmo.

Talvez eu tenha ou sinta um parentesco com a sua poesia, é bastante provável, mas seu livro é bom pelo seu próprio valor. Como disse, eu gostei e esse parece ser o limite do que posso dizer. Todavia não é o limite do que o livro pode dizer e dirá aos demais que o conhecerem.

Caminhos do livro no Rio Grande do Sul

Revista Parêntese, ed. 133

Há pelo menos vinte anos, o governo do Estado do Rio Grande do Sul declarava em forma de lei, entre outras coisas, o desejo de converter-se em centro editorial capaz de competir no mercado. Expressa desde a promulgação da Lei do Livro (Lei nº 11.670 de 19/09/2001), a ambição foi resultante da ação e empenho de muitos vetores: do próprio Poder Executivo, dos editores representados pelo Clube dos Editores e pela Câmara Riograndense do Livro e, pela parte das bibliotecas públicas, do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e do Centro do Livro e Bibliotecas Escolares, também organizadas no âmbito do executivo por meio da Secretaria de Educação.

A publicação ocorreu ainda no governo de Olívio Dutra, com um texto que mais buscava planejar o setor do que discipliná-lo. Denominava-se como Política Estadual do Livro, mas apenas dois anos após sua publicação é que começou a ser regulamentada. A forma escolhida pelo governo estadual já sob o comando de Germano Rigotto foi a edição de um decreto (DEC 43.036 de 20/04/2004) que, por sua vez, estipulou que a política fosse organizada em planos anuais. 

Um rápido corte de cena e quase uma década mais tarde vai encontrar-se, no ano de 2013, a informação de que, no âmbito do Poder Executivo, já no governo Tarso Genro, iniciou-se um novo plano estadual. Debatido e organizado desde 2012, agora em consonância com o Plano Nacional do Livro, o PELLL (Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura) contou com a participação dos mesmos setores que haviam se organizado pela política de 2001, pela Lei do Livro, ao menos em tese ainda vigente. Nesse movimento, os planos anuais foram substituídos pelos planos setoriais da cultura instituídos pela lei do Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 14.310 de 30/09/2013).

Entre idas e vindas legislativas e tempo despendido no qual muitas vezes os objetivos abstratos dos planejamentos setoriais são levados a efeito por iniciativas pessoais, quem efetivamente tem colocado o livro no mercado e nas mãos dos leitores vêm sendo mesmo as bibliotecas e os editores de livros, dado que cerca de dois terços dos municípios do interior não contam com livrarias. Dentre estas, um número significativo não conta com dotação orçamentária e é dependente de doações diretas dos autores ou de livros obtidos por meio do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas ou do Instituto Estadual do Livro (IEL).

As dificuldades orçamentárias são imensas. E o governo busca suprir também o mercado editorial de forma indireta, aplicando um tanto do previsto de fomento na política de 2001 por meio de linhas de crédito especiais, de longo prazo, por intermédio de seus bancos de fomento: Banrisul, Badesul e BRDE. A busca por tais recursos, no entanto, é pouco expressiva, e atualmente apenas a editora L&PM beneficia-se por meio do projeto Pró-Biblioteca

Para os editores, todavia, as dificuldades são ainda maiores. Quase permanentes se lembrarmos, por exemplo, do que na década de 30 do séc. XX José Bertaso já advertia ao filho Henrique, conforme narra Érico Veríssimo em Um certo Henrique Bertaso (1973), de que era preciso considerar “o problema de distribuição, da prestação de contas de remotas livrarias, a fatal devolução de livros consignados, quase sempre em mal estado de conservação”. Quando se percebe que a crise da indústria papeleira ainda afeta o ramo como antes da Segunda Guerra Mundial, quando Monteiro Lobato fazia um lobby quase solitário ao governo de Getúlio Vargas, é de espantar o ânimo de quem ainda se atreve no setor.

Pese-se mais ou menos positivamente o valor dos incentivos estatais, o negócio editorial tem uma gestão e sobrevivência extremamente exigentes, e atender aos requisitos e formalidades exigidas pelo sistema financeiro, ao mesmo tempo conservando-se as contas saudáveis, implica muitas vezes em manter-se o mais possível longe dele. É uma aposta pela autonomia que, se não seduz aos investidores por uma promessa de lucros, garante-se um tanto mais pela estabilidade. E caso se pense que são iniciativas concentradas na capital, onde a circulação dos bens culturais é maior, incorre-se em erro. No interior do Rio Grande do Sul o setor não apenas sobrevive como se reorganiza em face do novo momento cultural e tecnológico.

Editando desde o interior

Trabalhar sem um grande fluxo de caixa, mas de forma sustentável, é o desafio da maioria dos recentes negócios editoriais. Para Mônica Canto, da Ballejo Cultura & Comunicação, as políticas públicas para a leitura são deficitárias e as edições dependem de parcerias com os autores até o processo final de divulgação. Com a boa receptividade do lançamento recente de “Escaler: quando o Bom Fim era nosso, Senhor”, apenas agora a editora começa a buscar incentivos públicos para ampliar o catálogo de livros infanto-juvenis.

Para estar efetivamente no mercado, o negócio editorial exige ao menos a constituição de pequenas empresas ou empreendimentos individuais. Ao passo que a constituição de personalidade jurídica é cada vez mais facilitada, essa presença envolve mais do que colocar livros à venda. Implica também em ter onde colocá-los e encontrar um nicho de leitores dispostos a adquiri-los – isso contando-se de antemão com a concorrência inclemente das mídias digitais, como se pode verificar nas pesquisas do Instituto Pró-Livro que apontam o incremento de acesso às mídias digitais em detrimento da leitura de livros físicos. Mesmo assim, novas iniciativas editoriais não deixam de aparecer, mesmo no interior do estado, especialmente pelo espaço de comunicação aberta da internet.

Criada há cinco anos pelo escritor Daniel Gruber, a editora O Grifo é um exemplo de uso da convergência digital e independência. Apesar de já contar com livros expostos em livrarias de São Paulo, Porto Alegre e Novo Hamburgo, onde é sediada, a editora faz um uso intenso das mídias digitais e financia-se inteiramente com o envolvimento direto dos leitores em campanhas de financiamento. Daniel a caracteriza como uma editora independente e aponta a dificuldade da ausência de uma mídia literária que valorizasse os empreendimentos locais. Quanto ao governo e suas políticas, não demonstra maior interesse, apenas que “valorize o livro ao invés de persegui-lo”.

Sediada em Passo Fundo, região do planalto, a Physalis editora, por outro lado, diz ter boa relação com a imprensa local e, em função de um catálogo predominantemente infanto-juvenil, vale-se de iniciativas municipais voltadas à educação. De acordo com seu proprietário, o escritor Pablo Morenno, vem mantendo-se com recursos próprios obtidos pelas vendas de edições anteriores. A concorrência de grandes editoras e facilidade que podem oferecer na divulgação é o que, de acordo com Pablo, dificulta uma maior visibilidade da editora que, inclusive, vem recebendo prêmios importantes no município e no estado. Ele também aponta que uma política governamental de compras voltada às bibliotecas ajudaria muito a sua e outras editoras do estado.

Em Santa Maria, no centro do estado, a Rio das Letras é uma editora com pouco mais de uma década e um catálogo composto quase inteiramente por autores locais. Jorge Ubiratã da Silva Lopes, ou Byrata, como é mais bem conhecido na cidade, aponta que também nunca sua editora contou com recursos públicos e que deseja sobretudo ampliar sua presença no mundo digital para tornar-se mais atrativa para autores e leitores.

Não muito distante, em Santana do Livramento, na fronteira sudoeste, Thomaz Albornoz Neves há dois anos passou a editar o que chama de projeto conceitual, uma coleção com livros que partilham o mesmo desenho gráfico e que têm em comum pertencerem a autores do interior do Rio grande do Sul e do Uruguai. Presentes nas livrarias locais, os livros da TAN editorial são tiragens limitadas e produzidas numa iniciativa não lucrativa e aposta inteiramente na internet para vendas e divulgação. Thomaz considera a distribuição e as margens de consignação impostas pelas livrarias impraticáveis para pequenos negócios como o seu.

Re-re-planejando 

Em levantamento realizado em 2006 pelo Clube dos Editores, no Rio Grande do Sul existiriam em atividade 453 livrarias. Presentes em 118 dos 497 municípios do estado, a aritmética simples indica que 380 municípios gaúchos não contam com livrarias. Já as editoras no estado não passam de uma centena. O único número efetivamente de encher os olhos é o de bibliotecas públicas. De acordo com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, apenas um município do estado não contaria com uma biblioteca pública municipal, num total de 535 instituições.

Mais recentemente, em 2020, em nota técnica realizada pelo Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo estadual, a cadeia produtiva do livro foi novamente reexaminada. No escopo da nota, entende-se por “cadeia editorial”, o longo processo de realização industrial do livro desde o autor até o leitor final ou, para os efeitos da nota, o consumidor. Entre um polo e outro, o conjunto de pessoas e ramos de atividade envolvidos desde a composição até a venda final dos livros. O documento propõe-se a diagnosticar o impacto tecnológico no setor, evolução, dificuldades e identificar tendências futuras.

Comparar-se a nota à legislação e planos já desenvolvidos para o setor é no mínimo embaraçoso. Não há qualquer referência aos impactos nem da Lei do Livro nem do decreto de sua regulamentação e tampouco do Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura, de 2013. Para os efeitos de análise de impacto, resta a conclusão de que o setor faz-se por conta própria. Para toda a problemática levantada pela nota, resta sempre a necessidade de um novo planejamento, novas necessidades e muitos verbos no infinitivo, tais como naqueles outros documentos: identificar, fortalecer, trabalhar, construir, etc.

O resultado exasperante da preocupação política com o setor editorial talvez peque justamente por um sentido de permanente desconexão com a situação presente. A ideia da nota para a sobrevivência das livrarias, por exemplo, é de que elas se convertam ou assumam funções quase idênticas as de bibliotecas, isto é, cumpram a função de aglutinação e espaço cultural. É uma ideia de certo modo eficiente, até porque desloca da própria biblioteca pública essa missão e, assim, justifica-se para estas um estoque permanente de baixo investimento.

Embora pareça preparar-se logo para uma nova rodada de planejamentos promovida pelos sucessivos governos, o setor subsiste mesmo é pelas estratégias editoriais que enfrentam tanto um cenário de burocratização tremenda como o avanço de uma logística superior, como a proposta e executada, por exemplo, pela multinacional Amazon, mas também por livrarias do centro do país, como a Martins Fontes, que vêm explorando o mercado com valores cada vez mais competitivos e logística de alta eficiência.

Converter o Estado do Rio Grande do Sul em centro editorial, com condições de competir no mercado, era o desejo da Lei de Livro, em 2001. Além disso, outras missões tão nobres quanto: criar novas bibliotecas, preservar o patrimônio cultural, promover o hábito da leitura e assim por diante. A dificuldade de materialização das leis e planos, no entanto, parece repetir a baixa adesão ao Art. 13 da lei, que prevê o depósito legal e do qual ainda se tem infelizmente pouca notícia. Do mesmo modo, é de se lamentar que a utopia da preservação da memória venha sendo adiada, assim como outras ambições do setor livreiro e da sociedade. Não será por falta de planos, leis e boas intenções. Disso, como se vê, o estado vai muito bem. Vinte anos depois, somam-se às dificuldades do setor os desafios da tecnologia que batem a porta. Talvez, para atingir-se outro patamar, seja necessário parar de repetir-se e dar mais chance ao novo do que ao mesmo.

Eufrates

Nesses dias chuvosos de julho, para mim é impossível não lembrar da campanha.

Lá fora, os campos da família ficavam entre o arroio do Tigre e o Camaquã, vulgo Eufrates por ali.

Quando chovia muito, não dava vau. Até determinado volume, abafando-se o motor e passando muito vagarosamente pela ponte, fazíamos a travessia às vezes com a caminhonete quase sendo suspensa na água.

Não é uma experiência lá muito confortável..

Para decidir se era viável a travessia, era preciso ter bom olho para aquelas águas que haviam levado consigo muito gaúcho a tobiano… Nos seus melhores tempos de vaqueano, o pai tinha esse olho e nunca se colocou em risco. Sobreviveu às cheias, quero dizer. Diz ele que algumas vezes por um pouquito só..

A alternativa ao caminho das águas consistia no caminho de dentro, o “das porteiras”… O caminho das porteiras competia em atravessar o passo do Tigre por dentro dos campos dos vizinhos e as porteiras eram várias mesmo. Alongava a viagem em algumas horas e alguns repechos, mas se chegava à cidade.

Em situação extrema, de necessidade de estar na cidade, era a única forma. As porteiras eram livres à passagem, mas, sendo inviável por um atoleiro mais pesado, ninguém se importava que se removesse um ou dois moirões e deitasse o arame para cruzá-lo. Lembro-me bem de segurar com as mãos a guajuvira mais pesada que a força disponível nos meus braços de guri. Lembro-me também que, a despeito da trabalheira, molhaceira e embarramento, tinha tudo aquilo um gosto de aventura verdadeira. Divertido não era, mas a cumplicidade pagava o custo daquelas jornadas. Uma latinha de figada era a refeição de um dia muito maior que o normal dos dias…

A estrada que liga Olhos d’Água a Bagé ainda hoje é a mesma. Caminhozinho de terra batida que na ida levava a família como força de trabalho, às vezes um adolescente contrariado, mas que na volta às vezes tinha disso. Se é que completamente de lá se volta um dia.

9 de julho

Se viva estivesse, Mercedes Sosa amanhã completaria 87 anos. Teria a mesma idade que completou há poucos dias a minha mãe. É estranho pensar que uma diferença de 10 dias apenas separe o nascimento de uma e outra.

Esses dias eu lia na rede social de uma pessoa que sigo, e que aprecio, que já não faz mais sentido na geopolítica global contemporânea aquele ideário de unidade latino-americana o qual Mercedes foi a principal apóstola. Dizia ele que os atuais “cambios” políticos na América do Sul dependiam agora de novos realinhamentos e que, portanto, aquela utopia guevariana/bolivariana mais ortodoxa e revolucionária deixara de fazer sentido.

É difícil discordar, até porque as relações comerciais do Brasil com os demais países hispanohablantes nunca foram uma Brastemp. Bolivianos que o digam. Também o Brasil parece nunca ter contornado completamente suas diferenças com os demais países do Prata, sempre preferiu ser um arremedo e entreposto do “ocidente” que encampar, por exemplo, a latinidade. Mesmo com seus novos pressupostos perspectivistas. Por mais que tudo isso tenha muito a dizer ao próprio Brasil e dele ao mundo, simplesmente isso não faz muito sucesso aqui . O tratamento dispensado aos direitos indígenas nas últimas décadas são nesse sentido exemplares.

Do ponto de vista musical, acho que, tirando Heitor Villa-Lobos, o índio-de-casaca, a cultura nacional é ainda muito colonial. Colonial ou neo-colonial. Quero dizer que é pouco dada ao elemento indígena. Pelo menos eu não conheço muitos cantores, por exemplo, identificados plenamente com essa cultura, mesmo agora quando a questão amazônica se impõe de maneira mais evidente. Talvez Marlui Miranda. Mas quem conhece Marlui Miranda? Mesmo que pareça nome de dupla como Silmara e Simaria, trata-se de uma pessoa só.. Outra pessoa.

Já Mercedes o mundo todo conhece. E foi cantando um mosaico de canções folclóricas, milongas, tango também, rock argentino (sim, ela gravou Charly Garcia, Fito Paez, Spinetta, etc.) e também canções indígenas comos os kaluyos e takiraris bolivianos e cuecas chilenas. A questão é que o cancioneiro argentino se comunicou muito pelas fronteiras e os ritmos folclóricos em sua maioria recombinam elementos indígenas e espanhóis. Definitivamente “La Negra” era uma argentina das que não veio de barco.

É uma coisa que até acontece no Brasil profundo (em muito menor escala), mas não é pelo qual se caracteriza o ponto alto da identidade nacional (o samba e nem esse movimento neo-sertanejo, todo ele forjado numa estética nashvilleana). Às vezes, caracteriza alguma raiz regional, como a mato-grossense. Aqui no RS, em que pese a aparência, a matriz folclórica é essencialmente europeia. O pouco que veio do Prata aportou aqui por obra e graça dos tradicionalistas, depois da década de 50. Lucio Yanel, o violonista argentino virtuose que adotou o RS, já disse que ensinou os gaúchos a tocar “guitarra”, porque até então o instrumento musical predominante era o acordeão e os ritmos em sua maioria alemães e poloneses. Essas milongas todas não eram praticadas aqui até meados dos anos 70.

Então o que eu penso a respeito dessa peculiaridade de cantar as músicas de vários países é de que se trata de uma característica própria do cancioneiro popular argentino. Não me parece que tenha sido um projeto dela, mas uma decorrência natural da sua carreira de cantora. Seu último trabalho, o álbum duplo Cantora e suas 35 faixas, quando grande parte dos artistas mal conseguem gravar as 12 faixas mínimas necessárias para a confecção de um CD, demonstram o colosso de sua expressão artística, sua capacidade de reunir em torno de si compositores de diferentes estilos musicais e, principalmente, sua generosidade cultural. É a mesma Mercedes que ainda nos anos 80 reconhecia que precisou vencer muitos preconceitos próprios para se permitir fugir ao purismo folclorista e cantar a nova geração de roqueiros portenhos. Numa entrevista, disse que era uma cantora de folclore, não popular, e que passou a cantar a canção de protesto porque concluiu que naquele momento era o que deveria fazer.

Também em sua trajetória praticamente não há altos e baixos, nem necessidade alguma de comprovar-se “nova”, “inédita”. Sua fidelidade ao seu país (coincidentemente nasceu no mesmo dia da independência argentina) era tão plena que isso a levou a consolidar uma carreira universal baseada nas músicas cantaroladas nos bairros e províncias e as levou a grande teatros do mundo sem vergonha alguma disso, e por isso mesmo reconhecida. Essa música desse vídeo recuperado há pouco pela TV Espanhola, para mim é a síntese da sua poética. Para mim, que escuto isso desde a tenra idade, foi muito difícil não ser influenciado por esse combinado de força e delicadeza.

Sob o signo do dragão

No ocluso escuro das asas gigantes
que se dobram sobre mim e me cobrem,
a sombra me tem toda. Sem palavras.
A sua cinza me encova em velho fogo.
A sua língua me prega no silêncio.

𝘌𝘯 𝘦𝘭 𝘤𝘭𝘰𝘴 𝘧𝘰𝘴𝘦 𝘥’𝘶𝘯𝘦𝘴 𝘢𝘭𝘦𝘴 𝘨𝘦𝘨𝘢𝘯𝘵𝘴
𝘲𝘶𝘦 𝘦𝘴 𝘱𝘭𝘦𝘨𝘶𝘦𝘯 𝘴𝘰𝘣𝘳𝘦 𝘮𝘦𝘪 𝘪 𝘦𝘮 𝘥𝘰𝘯𝘦𝘯 𝘤𝘰𝘣𝘳𝘪,
𝘭’ 𝘰𝘮𝘣𝘳𝘢 𝘦𝘮 𝘵𝘦́ 𝘵𝘰𝘥𝘢. 𝘕𝘰 𝘦𝘮 𝘷𝘢𝘭𝘦𝘯 𝘦𝘭𝘴 𝘮𝘰𝘵𝘴.
𝘓𝘢 𝘵𝘦𝘷𝘢 𝘤𝘦𝘯𝘥𝘳𝘢 𝘦𝘮 𝘤𝘰𝘭𝘨𝘢 𝘦𝘯 𝘷𝘦𝘭𝘭 𝘤𝘢𝘭𝘪𝘶.
𝘓𝘢 𝘵𝘦𝘷𝘢 𝘭𝘭𝘦𝘯𝘨𝘶𝘢 𝘦𝘮 𝘤𝘭𝘢𝘷𝘢 𝘦𝘯 𝘦𝘭 𝘴𝘪𝘭𝘦𝘯𝘤𝘪.

Sempre que vejo imagens de Maria-Mercè Marçal, a poeta catalã, fico pensando que ela tinha um olhar que me é muito familiar. Não sei a quem se parece, nunca pude reconhecer a pessoa. Mas há algo de mansidão nela que é tanto fascinante quanto discordante da sua poesia, simbolicamente muito enérgica. Há muito sangue e fogo e frio e amor na sua poesia. Eu não conheço muito, apenas do livro “Degelo”, de 2019, da Urutau (de onde copiei a tradução acima, de Meritxell Hernando Marsal e Beatriz Regina Guimarães Barbosa), e de algumas coisas lidas na internet.

Agora, há não muitos dias, recebi um comunicado que a ótima coleção “Caderno de Leituras“, da Chão de Feira, trazia num volume dois ensaios de sua autoria. Já vão 150 edições dos cadernos, todos de livre leitura, e sempre fico pensando porque mais projetos assim não brotam por aí. É um projeto com textos de riquíssima qualidade. Vale muito conhecer.

Mas os textos em questão, de Marçal, tratam do mesmo assunto do poema acima, do mítico dragão. No poema, por uma grande elipse que ela magistralmente executa para desenhar-se protegida na/pela figura.

Porém só agora com os ensaios percebo e fico sabendo da sua devoção mitológica. E agora melhor a compreendo. Ela, que muito militou e escreveu sobre o feminismo e a sexualidade lésbica, diz que o sangue do dragão “alimenta e incuba dentro de si, ao lado da fonte indomável da vida, ao rés da morte — como a origem da escrita literária”.

Depois disso, eu nem precisava ler mais nada, mas ela continua e diz que o dragão “é o poder terrível daquilo que em nós fica do que foi excluído. O escritor, a escritora, encara, frequentemente de forma enviesada e oblíqua, as palavras e, às vezes, consegue que o monstro fale, diga bocados da sua verdade obscura, forçando e ampliando assim os limites daquilo que pode ser dito. Porque sempre o terrível está ao lado do belo, como o seu limite e simultaneamente como a sua condição de existência.”

E faz uma leitura do mito de Jorge como a que encontrei na medievalista e mitóloga Victoria Cirlot, para quem matar o dragão é uma aniquilação da liberdade e seu simbolismo não residiria na proteção da donzela, senão que a nulificação da feminilidade.

Mas não é só pelo dragonismo que me encanta a sua poesia. Toda ela tem a mesma mansidão enérgica e essa combinação me faz olhar os seus retratos com ainda mais estranheza. Talvez não estranheza, mas uma familiaridade estranha. Acho que é isso.

Casa 11, telefone 09

Escrevo para não enlouquecer. Com essa frase, Nydia Bonetti se apresenta em muitos sites e revistas onde tem poemas publicados. Não é uma frase à toa, pelo contrário. Além de qualquer coisa, mostra que a poeta crê, de fato, na possibilidade de ser remediada por intermédio do ato criativo poético. Fica mais fácil entender que é alguém que leva a sério a sua criação e isso não quer dizer que se autovaloriza por isso, mas que empenha a sua saúde emocional nos versos que cria. Realmente, se nota a emoção rapidamente na sua poesia, ainda mais com um livro autobiográfico como 𝗖𝗮𝘀𝗮 𝟭𝟭, 𝘁𝗲𝗹𝗲𝗳𝗼𝗻𝗲 𝟬𝟵 (Urutau, 2021).

Eu sempre tive um pouco de dificuldade com poesia mais biográfica, que conta a vida. Acho que menos pela poesia do que pela vida. Tenho um tanto de receio do que a poesia pode realizar existencialmente. Mais receio pelo traço biográfico e do indevassável da experiência de cada um. Por outro lado, adoro livros de memórias e romances de formação, especialmente se tratam da infância, esse momento tão deslocado da vida adulta e também tão breve. Receio de conhecer demais da pessoa pela sua poesia e de me sentir por isso mesmo algo invasivo.

Com o livro de Nydia, no entanto, eu passei longe dessa dificuldade. Mesmo quando seus poemas breves funcionam como pinturas ou retratos, esse é um passeio conduzido pela sua mão. Sente-se a poeta contando o que é paisagem trivial, o que são personagens e o que são memórias. A poeta no caso não intercede no seu passado, mas flagra-o em seu potencial de efemeridade. E vê além de si, vê dos outros, da casa de infância e dos lugares sensitivos que ela vai colocando como se em haleto de prata para então comunicar uma nova realidade só agora revelada, pela combinação da ação do tempo e da palavra.

Quem escreve a casa da infância e a infância corre o risco de pensar num interlocutor que também a conheça. Mas a casa não fica como um ente, ela é absorvida pelos seus residentes, ela é “a casa onde moro”, lacrada pelo afeto e destelhada pelo “vendaval do tempo”. Quem escreve a casa da infância aceita desabrigar-se do lado de fora, do inevitável distanciamento. Ali, as árvores estão ou não estão por artes do esquecimento. Os objetos estão descorporificados, já não têm substância, só essência.

É um livro para o qual bastaria determinar um elogio para ser descrito, o de Nydia. Os pequenos poemas todos são uma história só. História da sua vida que ela tinha mesmo de escrever, porque para quem cuida da memória afetiva (sua e a dos outros), um livro é um espaço de dignidade, de auto respeito.

Olho para o meu aqui, com o seu autógrafo, e vejo que é um livro que me fez mudar até minha forma de ler; ou que me permitiu ler sem grandes artifícios, pela sua simplicidade encantadora. Um pouco eu sabia que ele seria assim porque já o havia divulgado na Sepé, por gentileza da Nydia, e também porque já gostava muito da sua poesia. Mas não sabia a magnitude desse presente que me dei ao comprá-lo. Agora eu sei.