A casa do filósofo está a queimar

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 24/07/2021.

Não foram poucos os pensadores do mundo contemporâneo com alcance global que, desde janeiro do ano passado, emitiram opiniões quanto ao impacto da pandemia no mundo político e no mundo das ideias. De Edgar Morin, a Bertrand Brasil (Record) publicou em 2020 “É hora de mudarmos de via: as lições do coronavírus”. Yuval Harari, autor do best-seller Sapiens, teve seus artigos compilados pela Companhia das Letras em “Notas sobre a pandemia”. Slavoj Žižek projetou a reinvenção do comunismo em lançamento da Boitempo: “Pandemia: Covid-19 e a reinvenção do comunismo”. Judith Butler analisou a questão do luto e do acesso desigual à saúde com o seu “Vida precária: os poderes do luto e da violência” (Autêntica). Mas Alain Badiou, Byung Chul-Han, Angela Davis, Theodore Dalrymple, David Harvey, Bruno Latour e outros nomes menos difundidos por aqui também publicaram artigos e movimentaram a vida mental do planeta enquanto o vírus se espalhava em suas mutações, além dos próprios autores brasileiros. Entre todos, todavia, ninguém como o italiano Giorgio Agamben se expôs tanto e foi tão combatido em suas polêmicas. É dele que a Âyiné publica agora “Quando a casa queima”, obra na qual o pensador italiano leva ao expoente máximo a sua compreensão biopolítica (e filosófica) do momento.

Quando um filósofo oferece ao mundo a sua compreensão de um assunto, não há garantia alguma de que será compreendido, bem recebido ou sequer tolerado. Pensar o mundo requer tanto uma visão abrangente quanto um potencial de leitura do qual cada vez mais as pessoas têm abdicado em prol dos filtros que a leitura por meio da internet canaliza às pessoas em suas convicções ou preferências, a depender de como se queira denominá-las. E pensar a contemporaneidade parece cada vez mais requerer um atestado de frequência escolar, mesmo que alguém como o centenário Edgar Morin não se furte nem a pensá-lo e nem a emitir suas impressões sobre o tempo de agora e, como visionário, também o mundo do futuro. Essa, porém, é uma ressalva improdutiva dado que o pensamento acompanha a vida e pode ser dado como sua grande fonte de energia. Ao longo dos últimos anos, Agamben vem se notabilizando pela cimentação de um edifício teórico baseado na ideia do estado de exceção, confluência da biopolítica foucaultiana e das técnicas de controle de Estado cada vez mais amparadas pela indústria tecnológica. A crise do coronavírus e suas medidas de contenção caíram como uma luva, portanto, para que ele desenvolvesse os pensamentos mais polêmicos entre todos os que vêm refletindo quanto à crise e seu enfrentamento.

Embora seja injusto afunilar o trabalho de Agamben unicamente em direção aos seus escritos mais recentes a respeito da pandemia, seu gesto em prol de uma defesa da autonomia da vontade caiu malissimamente mal na opinião púbica planetária porque justamente ao mesmo tempo em que a Itália (e logo depois o mundo inteiro) mesma se via na dificuldade extrema com a crise sanitária, mal tendo como dar conta de seus mortos. Após a publicação do seu polêmico texto inaugural a respeito da crise, A invenção de uma pandemia, o mundo ficou um tanto chocado com as opiniões do italiano ao classificar as medidas de contenção da vírus como “irracionais” e “imotivadas”. Lido com o distanciamento de ano e meio transcorrido e um saldo de quatro milhões de mortes, o artigo soa escandaloso, pois mesmo uma reclamação à liberdade factual foi generalizada como se a pandemia pudesse resumir-se num subterfúgio dos governantes para limitar e condicionar a experiência da vida social sem qualquer prazo ou transigência.

O rigor que Agamben aplicou na interpretação do decreto-lei do governo italiano que deu providências em relação ao surto do coronavírus na Itália, em fevereiro de 2020, por sua vez foi aplicado de volta ao seu próprio artigo. Apesar de que Žižek tenha cogitado inicialmente seguir um caminho semelhante de análise, Agamben não parou de refletir e publicar a respeito do assunto em sua editora, a Quodlibet, e dali espalhar-se ao mundo. Se o caráter suspensivo da pandemia atingiu aos demais pensadores ou levou-os a considerar outros aspectos e derivações do problema, nele se radicalizaram.

Não é de hoje que filósofos que causam escândalo conseguem às vezes serem mais interessantes do que aqueles que simplesmente surfam na opinião pública. Neste caso, Agamben pode ser considerado o único a tomar de uma onda gigante como o surto pandêmico e refletir, diante disso, quanto ao desnudamento total do ser humano em relação ao mundo político. Assim, mesmo que contestado, ele demonstra que o pensamento é sempre uma atividade de risco. O fato de ele jogar-se a um risco não calculado poderia inicialmente tê-lo detido em suas reflexões, porém isso também não aconteceu. Ao longo de 2020 e 2021, ele publicou quase duas dezenas de outros artigos em que prosseguiu discutindo as implicações da pandemia e suas medidas de controle, culminando neste “Quando a casa queima”, que a editora Âyiné agora traduz para o público brasileiro.

Com um título que remete à fábula budista da “casa em chamas”, Agamben desvela um mundo de pessoas conformadas e amedrontadas por um estágio derradeiro do estado de exceção que ele já vinha pensando desde o seu Homo Sacer, de 1995, no qual as pessoas teriam sacrificado voluntariamente a liberdade em prol da sobrevivência mais elementar. E mais drástico é que não haveria nesse sacrifício qualquer recompensa a não ser perdurar. Agamben é o filósofo que afirma que a história não oferece saídas e que o mundo, tal como a casa em chamas da parábola, oferece vida e morte na mesma receita.

Lido rapidamente, o texto de Agamben se parece mais a um esboço poético, uma sublimação extremada do espírito, que a um conjunto pragmático de soluções renovadoras para as condições de vida das pessoas no mundo pós-pandêmico. Essa imaginação, aliás, também já suspensa em vista da obtenção de um controle relativo do surto decorrente mais da técnica das vacinas do que exatamente de uma contenção autônoma das pessoas. O espanto da negligência com a vida só faz sentido quando a vida é mais valorizada que as coisas.

Este é bem o espanto de ver a menos valia que as pessoas parecem dar ao autocuidado e isso não se dá por uma disputa consciente no nível dos conceitos biopolíticos, como quer o italiano, mas pelo que cada um tolera como suportável do controle que o outro, ou o Estado, procura exercer, seja por meio da coerção legal, da reprovação moral ou do cancelamento social. Agamben sem dúvida corre o risco do cancelamento e de receber os qualificativos negativos que já recebeu, mas, por meio do livro em questão, poderá se concluir se ele vai ser consumido pela própria alegoria ou, então, surfar no topo da onda de uma liberdade de pensamento que há tempos os pensadores e humanos mortais vêm penhorando em troca da sobrevivência.

Dedicatórias

Se tem uma coisa que me deixa atordoado ao comprar livros em sebos é me deparar com pequenos cartões, bilhetes e lembranças alheias dentro dos volumes. Não sinto isso e tenho nada contra anotações, grifos e marcas de leitura. Mesmo pequenos rasgões não me incomodam, mas cartões de hotel, invólucros de chocolates e até mesmo pétalas e folhas pequenas me deixam inquieto, como se estivesse invadindo a intimidade de alguém. Parece que os livros são, na verdade, simples adereços e que existem apenas para enfeitar as pequenas relíquias esquecidas ou deixadas em seu interior.

Porque ninguém é imortal ou faraó do Egito antigo, já comprei livros em sebos de pessoas conhecidas. Até mesmo de escritores famosos. Às vezes assinados, noutras autografados e dedicados, precisavam de um destino e, mesmo não sabendo que seriam as minhas mãos e olhos, sei que fizeram longas, inimagináveis viagens até que eu flagrasse seus nomes ali dentro. A sensação (absurda, eu sei) é de uma espécie estranha de furto, como se estivesse me intrometendo na memória alheia, reduto último da individualidade. Muitos escritores e colecionadores têm grandes bibliotecas e às vezes, por falta de outra opção, seus livros acabam indo parar nos sebos.

Aqui, em Porto Alegre, já comprei livros que foram de Laci Osório, Manoelito de Ornellas e Caio Fernando Abreu. Também tenho alguns livros com um carimbo não identificado que muito me intriga. Um ex-libris com uma frase em latim e uma criatura mitológica que desconheço. Mas o mais estranho que já me aconteceu foi ter comprado um livro provavelmente presenteado a alguém e que tinha uma dedicatória apaixonadíssima não endereçada e nem assinada. No lugar dos nomes, apenas as iniciais “M L” no cabeçalho e uma única letra “D” no rodapé. Entre um e outro, uma declaração de amor eterno, é claro, e um convite para um encontro num banco de praça, “sob a paineira encachopada”.

Acho que comprei o livro mais pela dedicatória que pelo conteúdo, é provável que sim… Logo ao sair do sebo e procurar o caminho de casa e depois de tanto ficar ali dentro, precisava fumar (nessa época ainda fumava) e, de preferência, acompanhado de um bom café. Ali perto não havia onde encontrar o café, mas a carteira de cigarros consegui comprar numa tabacaria modesta. Pensava em quando teria disposição para abandonar o vício, andava pensando muito nisso naqueles dias, mas não seria naquele momento. “Um dia desses eu paro”, era como eu me auto enganava sobre a resolução, sempre adiada.

Com o cigarro entre os lábios e fumaceando a avenida, decidi atalhar pela Redenção. Ganharia uns bons quinze minutos se o fizesse e ainda aproveitaria o restinho do sol da tarde de inverno. Já não havia tanto por ali namorados fazendo hora, mas, à direita do meu caminho, notei que havia um casal bem jovem que brigava amargamente, entre lágrimas, gestos e as costumeiras e inúteis reparações discursivas. A cena lamentável, de amargar, chegava a pedir que tentasse ajudá-los a encontrar um acordo, mas o bom senso mantinha-me à distância. Se tivesse apressado o passo, poderia tê-la escutado dizer qualquer coisa antes de dar as costas ao jovem e partir rumo a Osvaldo Aranha de onde eu viera. Mesmo assim, o chão de terra teria abafado o impacto de um livro que ela deixou no chão e ele não sabia se a seguia ou se pegava o volume do chão. No fim das contas, não se agachou e foi atrás dela até um pedaço do caminho sem, no entanto, alcançá-la. Depois, parecendo ter caído em si, parou e tomou a direção oposta. Rumo ao chafariz central ou além.

Desacelerando o passo, observei a cena o quanto pude. Os dois caminhos distintos, os destinos de um e de outro também. No meu trajeto, ficara apenas o livro abandonado e, por força do hábito, agachei-me para pegá-lo do chão, quase ao pé de uma árvore de tronco espinhento que havia ali (não posso dizer se uma paineira, porque não guardo nome de árvores). Julgando-o pela capa, não parecia valer mais que o jornal do dia. Mesmo assim, folheei rapidamente sem saber o que fazer com a brochura. Jogaria ao lixo? Correria atrás de um deles para devolvê-lo? Atrás dele? Dela? Não, melhor nada. Talvez o livro fosse aproveitável, porque nenhum livro deve ser julgado pela capa, não é mesmo? Levaria comigo. Algum espacinho haveria para guardá-lo em casa. Na verdade, já tinha tudo planejado: guardaria o comprado junto ao encontrado e leria a ambos, um dia desses, com o mesmo cuidado, pelo menos até onde fosse possível… Mais cedo ou mais tarde eu perceberia que ilustravam um e outro a mesma dedicatória, apesar de outras iniciais. Sem dúvida não se tratava das mesmas pessoas, mas nenhuma dúvida que do mesmo amor.

Conforme o prometido

Se não tivesse ainda alguma dúvida, o cartazinho esfarrapado colado ao poste nem teria me chamado a atenção. Teria passado os olhos por ele e me fixado no céu azul por detrás do arvoredo da rua. Limpo e azul, céu de um frio tão impermeável que até os passarinhos o evitavam, escondidos nos galhos mais grossos, sem um pio que se ouvisse.

Esperando a vez no dia mais gélido do ano, sem ir pra frente nem pra trás e sem mais o que olhar de tanto tempo ali, não sei como, mas guardei o número comigo, como se ele tivesse sido por mágica impresso por dentro das pálpebras. Logo eu, que nunca fui bom de guardar números.

Mas aquele era um cartaz que tinha tanta eficácia de promessa que eu me vi obrigado a repensar se ainda usaria uma chance mais de vê-la na minha frente. A sua cara mais inconfundível. Desenxabida mor.

Só que, pra cumprir a sua promessa, “trazer de volta”, a criatura ainda precisava ser minha. Ainda precisava ser o “meu amor”, mas será que era mesmo? Amor? E meu?

Eu não sei…

Desde quando a gente sabe, aliás, que deixa de ter o outro, se o outro é sempre mais hábil em esconder isso do coração da gente do que a gente pode perceber?

E pra ser “meu”? Não é preciso mais que eu assim o sinta? Ou que ela, vá lá, que esperança… ela também se sinta assim? Ou basta só a vontade de um e outro dobrando os joelhos, justo, ao sentimento vizinho, mas, ainda assim…

Por essas dúvidas e outras que talvez seja melhor deixar tudo isso de lado. Melhor, muito melhor, é adiantar o passo e deixar anúncio e poste pra trás. Deixar tudo pra trás. Isso sim seria uma solução e nada disso de trazer de volta, nada disso de revolvido, nada disso de requentado.

Além do mais, “de volta” vai quem foi pra voltar dali há pouco e não pra sempre, conforme o prometido. De volta vai quem a quem o destino é o mesmo nosso, ou pelo menos o pretende como seu.

Mas será que não?

“Posso pagar em vezes?”, eu perguntaria quando o nome me atendesse.

Não. Parar com isso, já, meu amigo, digo-me. Oriento-me. E a fila, sem falar nisso, já vai andando mesmo.

Mas, se voltar, de fato, que seja sem promessa alguma. Não mais. Seja naquele vestido de flores escondidas em seu nome, que só eu soube. A única maneira admissível.

Sete dias e, então, na próxima terça-feira, de volta.

E no rádio vai tocar a música do nosso noivado, num bandolim de cordas dobradas como se fosse tocado por anjos – e verdadeiros.

Ou então não pago nada. Ou o dobro, pra que tome distância segura. Desapareça ainda que isso me abandone na desassistência de mim mesmo, que tanto se me dá? Que vai mudar? Não pago nada e ponto. Já me gastei de tudo o que devia e o que não era devido. E tudo anotado aqui ó.

Sete dias é tempo o bastante até pra que eu me ponha longe daqui e, quando ela voltar, eu não esteja mais. E é só por isso mesmo que aceito pagar. Use o que for preciso. Feitiço, vela, mandinga, que me importa… O “meu” amor de volta, contanto que eu não esteja mais aqui.

Um assalto

Quis me assaltar (eu não deixei) um homem muito velho, ali na André da Rocha. Ali um pouco antes da escadaria.

É que eu fiquei um instante só olhando a luz do sol do outono desabando pelos degraus, naqueles caquinhos de azulejos, e me perdi um pouco da hora da minha consulta e ele então me alcançou.

Eu acho que ele estava antes numa padaria que tem por ali (não lembro o nome) e, ao me ver passar, decidiu-se por me perseguir. Teria abandonado o pingado à meia taça, o cacetinho fornido de queijo e mortadela, a troco de quê, meu Deus? Por minha causa? Teria deixado o jornal de lado, a esvoaçar sozinho sobre a mesa, por quê?

Sabendo que estava atrás de mim, pensei que imediatamente precisava de um ou mais planos de fuga.

Vou subir a escadaria, pensei, assim eu mato o velho do coração antes que ele chegue na Duque, e me safo.

Vou adiante e peço ajuda na lavanderia de onde vem lá, parece, um meninote carregando um pacote de papel pardo muito maior do que ele, como se fosse um cadáver verde, sobre o ombro.

Vou até o fim da rua (não me custa!) e dobro a lomba do viaduto e ganho o centro. Logo chego na Salgado Filho e ali estará o meu bom doutor sorrindo sempre com minhas manias de doença e exames sempre por fazer.

Se eu paro e olho pra trás, aí então é que ele me alcança. Não posso deixar que isso aconteça. Não volto. Sigo em frente. Os passos atrás.

Num momento chego a pensar tê-lo ouvido a me chamar pelo nome, mas é incerto que tenha acontecido. Sinto um arfar no peito que nunca senti das tantas vezes, inumeráveis, que atravessei o Menino Deus inteiro (e a Cidade Baixa) para estar ali. É velho esse indivíduo, eu posso saber, mas ligeiro também: já está no meu calcanhar.

Também chego a ver sua sombra esparramar-se entre meus pés, no chão, e penso que se eu tivesse a mesma decência de quando cheguei aqui, eu pararia imediatamente, olharia em seus olhos, perguntaria seu nome, adivinharia a sua nascença no seu sotaque e me deixaria levar por ele. Que tanto mal assim um pobre velho, afinal, me poderia causar?

Foi como evitei o assalto.

Parados os dois, quase no meio fio, olhamo-nos com uma estranheza total, e uma familiaridade ainda mais estranha. Era óbvio que ele me conhecia porque me ria e não era um riso cínico e nem me ameaçava. Pelo contrário, seus olhos me faziam um convite impossível de responder, como se me oferecesse ao mesmo tempo voltar e prosseguir.

Sim, ele parecia mesmo um parente antigo ou amigo que eu nem lembrava de que tinha tanta vontade de voltar a falar. Falar sem olhar no relógio, que é o jeito certo de falar aos amigos.

A mesa da padaria continuava vazia e só víamos as folhas do jornal executando uma dança muito particular, dança das palavras e das notícias do dia. Não havia dúvida de que eu precisava sentar e perder a hora do médico, esquecer um pouco da mania de doença e falar até do jogo que eu não assisti ontem pra lhe fazer companhia. Inventar gols e lances que ninguém viu sempre foi o meu forte mesmo…

Sentamos. Quase defronte, o sol ainda escorria na escadaria. Sem pressa, porque Deus fez o sol ter a velocidade certa para que ninguém percebesse o tempo que está passando.

Sem falarmos, sabíamos que um dia, numa corrida, subiríamos por ela até o final. Pode ser… Que remédio? É inescapável mesmo. Mas, quando for, há de ser num dia assim, de maio, com ele ao meu lado – não mais atrás de mim. Então eu lhe darei tudo o que ele quer. Esse mesmo nada pelo que tanto a gente teme.

Acídia ficcional

Há um ano, mais de um ano, dois talvez, fui tomado pela acídia ficcional. Romances não me pegam mais: nem lançamentos premiados, às vezes nem monstros consagrados.

A doença chegou a levar que eu desenvolvesse a teoria da segunda chance, na qual uma pessoa teria uma chance de escrever um romance e outra, definitiva, no verso do mesmo romance. E acabou. Depois disso, gastos cara e coroa da moeda, soaria às esperanças do escritores como que o estridor do corvo de Poe: nunca mais..

A teoria não é injusta, de modo algum, e inclusive daria chance aos novos e incessantes autores. Seria como um ticket literário. Gastou, acabou. A vantagem secundária seria a de que poderíamos conhecer muito mais autores e não nos prenderíamos às garras do bom nome e da reputação. Afinal, mesmo autores de excelentes romances praticaram iniquidades e muitos publicaram às vezes mais por exigências contratuais do que por ânimo sincero.

Ânimo é a palavra, mas desânimo também. Eu sei, entendo que o problema está em mim e não nos livros. Não sempre. Há uma falta de paciência generalizada e essa é sempre uma boa ideia: dividir responsabilidades…

Mas não é isso. O problema também está menos na capacidade estilística dos autores que propriamente nas ideias. O problema são justamente as ideias e romances também são ideias. Às vezes, uma ideia só desenvolvida ao máximo. Mas, se por isso, por que não escrever a ideia simplesmente? Ou, melhor, porque a expressão da ideia não basta e é preciso lançar mão de tantas metáforas, alegorias, enredos?

Pensando bem, às vezes é isso mesmo que tem me atordoado nos romances. Certo exagero de engenhosidade ou, por outro lado, extremo apreço às ideias – tão extremo que se vê bem que sua principal qualidade é serem justamente ideológicos. E cansativos, por essa mesma razão, já que uma ideia apenas oferece o mesmo que um livro de duzentas páginas. Diante disso, é muito difícil que meu demônio do meio-dia não se manifeste. Logo ele (a acídia ficcional) aponta suas garras e toma – não raro para sempre – os livros das minhas mãos. E o pior: eu deixo…

E é tão real essa doença que ela não se verifica com outros gêneros. Livros teóricos, de não ficção (onde cabe o mundo), ou ensaios, ou contos o monstro preserva e leio com prazer, pois também é uma leitura como a da internet, em links e interrupções (talvez aí esteja a chave da questão). E a poesia também, que eu tenho repetido que vai salvar a literatura por sua brevidade de forma – mas também por sua carga concentrada de sentido, às vezes muito maior que toda a lista da ficção mais vendida da semana.

Eu não tenho dúvidas que a doença é minha ou está em mim (é pelo que eu torço – e que ela se vá dia desses). Mas vai se ver na pilha de débitos e livros abandonados de cada um e se poderá perceber que se trate, talvez, de insuspeita pandemia…

Morphopolis

Já se passou uma década desde que comecei a escrever essa história e até hoje não consigo dizer ao certo do que se trata. Às vezes, me parece claramente uma história infanto-juvenil. Noutras, parece um pouco além do que hoje se propõe como literatura infanto-juvenil e que está mais para uma novela que flerta com o sci-fi. Mas um sci-fi com os pés no chão, sem fantasia, realista mesmo. Desde o começo eu desejava que fosse uma aventura hacker e também a primeira parte de uma história de amor.

Se tudo der certo, é por aí que vai continuar e futuramente vai unir ainda mais o destino desses dois adolescentes que se encontraram no mundo dos games e decidiram lutar contra o status quo disfuncional familiar (e político) de um maneira nada convencional.

Morphopolis é o mais antigo “work in progress” que eu mantinha nas minhas gavetas. Nasceu como um blogue de experimentação em 2009, virou por um tempo um projeto de um livro e agora voltou a ser um site. Um livro num site ou um site num formato de livro. Algo assim.

Por muito tempo, era uma história de experimentos mesmo. Há uma década, pouco se imaginava do que aconteceria com as novas redes sociais e o fenômeno dos massive online games. Na minha história, tudo é uma coisa só e sem muitas explicações se transita do real ao virtual, alterando um e outro de onde quer que se esteja. De alguma maneira, Morphopolis é hoje mais atual do que quando foi escrito.

Nesse ano de 2021 eu tinha me prometido que o tiraria das “gavetas” e o revisaria pela última vez. Depois disso, conheci os desenhos do Vinicius Silva e achei que tinham muito a ver com o astral da história. O Vinicius fez algumas ilustrações baseado no que leu e depois foi decidir como publicar, se num livro e suas burocracias ou de volta à internet, origem da história toda. Bem, a história na íntegra (sua Parte 1) está publicada no site abaixo, no qual também se pode adquirir por e-book. Na verdade, o e-book eu fiz apenas para ter um registro de autoria, porque a diagramação e leitura no site são muito superiores ao que é possível no Kindle.

Também estou querendo incluir algumas coisas mais multimídia no site, mas ainda por ver de que formas. Apesar do realismo, Morphopolis é uma novela bem truncada e com muitos personagens. Não é lá muito uma leitura linear, ainda mais que eu decidi me valer de vários pontos de vista. Bom, eu escrevi sem me preocupar com o leitor, que é como se recomenda. Se ficou fácil ou agradável (ou o contrário disso) já não me cabe fazer mais nada. Em breve (daqui há dez anos mais), a segunda parte das aventuras de nossa heroína cadeirante.

Conheça em: https://morphopolis.media/

Adaptações

Se tem algo que eu não tenho dúvida é de que basta uma semana no inferno e até São Pedro e os apóstolos já estão aclimatados. Dúvida nenhuma mesmo. Zero dúvidas.

Uma vez eu tive uma experiência no trabalho que me instruiu para a vida. Até hoje, na memória, me espanta. Foi quando eu percebi que a capacidade de adaptação do ser humano não tem limites e nem sempre age em seu benefício, mas com certeza sempre age sob a condução da necessidade.

O fato se deu com uma prestadora de serviços terceirizada que veio trabalhar conosco para suprir as férias da prestadora habitual e essa pessoa tinha a incomum capacidade de ficar sentada horas na mesma posição, olhando para um parede de azulejos, sem nem mexer num celular pra matar tempo ou jogar cobrinha, sem folhear um livro ou um jornal, acho que nem coçar o nariz ela coçava aproveitando a discrição do ambiente metro por metro que é a nossa cozinha improvisada.

Num primeiro momento, pensei que ela pudesse ter algum tipo de autismo, ou ainda tivesse alguma condição especial que a aparência uniformizada não me permitia perceber. Depois de algumas trocas de frases com ela, vi que não era nada disso. O que havia é que ela tinha um roteiro de trabalho com alguns momentos de espera e horários de controle e se movia criteriosamente por isso. No restante do tempo, fazia absolutamente nada de uma forma extremamente perturbadora, pois ela realmente não era impedida por ninguém de se ocupar com o que desejasse no seu tempo de espera, mas ela simplesmente não fazia questão. Era como se estivesse num estado contemplativo inacessível aos demais, de repouso completo e absoluto, igual a um monge em meditação vipássana.

Por um tempo eu achei que ela podia estar descansando de um rotina noturna pesada, talvez um terceiro turno de trabalho, talvez uma situação familiar difícil – ninguém sabia e nem seria discreto assuntar assim a pessoa que, como uma espécie de transe, passava longos períodos de tempo sentada na mesma e absoluta posição, em completo silêncio. Além do mais, ela não deixava de fazer suas atribuições e aceitava a condição pela mesma razão que leva o ser humano a tolerar o insuportável: a necessidade, sem demonstrar a menor contrariedade com aquilo e suas implicações.

É difícil imaginar que alguém suporte olhar para uma parede de azulejos por horas a fio sem surtar, mas acontece se essa é a sua melhor opção de sobrevivência. Também é difícil suportar que alguém se comporte de maneira tão passiva diante de uma situação tão precária. Acontece também, pois é preciso respeitar a condição das pessoas mesmo que nos pareçam aviltantes, ainda mais quando elas precisam daquilo e sua sobrevivência depende disso. Parece óbvio, não é? É óbvio mesmo, mas, por outro lado, é bem complicado…

Eu lembrei hoje cedo da situação dessa pessoa (com que convivi por cerca de três dias) porque realmente fiquei impactado com a sua capacidade de adaptação a uma condição de trabalho que nem é violenta no sentido ortodoxo da expressão, mas que é resultante de uma combinação de coisas que, apesar da estranheza, consegue gerar comportamentos limítrofes como esse.

Eu lembrei porque eu já percebo que vamos acabar nos adaptando tanto às mortes incessantes quanto à condição de ter de viver sob essa condição. Nós nos adaptamos, essa é a verdade. Subiremos aos ônibus. Entraremos em filas. E às vezes deliberadamente sabotaremos a condição do próximo, seja lambendo a maçaneta do seu carro – como já foi filmado – ou menosprezando os cuidados com a máscara e o distanciamento. Seja editando um decreto, uma medida legal, uma norma, uma regra qualquer que vai nos submeter ao comportamento do vírus ao invés de enfrentá-lo com racionalidade e conhecimento. Essa capacidade de adaptação nos leva a criar tanto um pensamento distorcido (para saciar a própria crença), quanto a submeter o maior número de pessoas a esse ordenamento. É olhar para o Estado brasileiro (ou o governo do RS) para notar que estamos já sendo governados pela ótica do COVID e que pouco a pouco (a cada fim de semana esticávamos essa corda, agora já fazemos isso todos os dias) vamos abandonando a noção social do cuidado.

Das epifanias mais aterradoras que as pessoas podem ter, a de compreender que não estão no governo dos fatos, mas organizados por estruturas maiores, é das mais acachapantes. Diante da compreensão, muitos optam por não entender e normalmente fantasiam formas de imaginar um controle da realidade, uma negociação qualquer, teorias, religiões, qualquer coisa. Comportamento neurótico clássico. Depois de se espalhar por todo o mundo com a nossa colaboração, o vírus vai aprendendo, claro, modos de conviver conosco. Ele vai se aclimatando em nós, na sua “vida” acelular.

De alguma maneira que não requer uma inteligência ou instrução, ele nos testou entre outras espécies e decidiu que seríamos um bom mecanismo estratégico para a sua própria sobrevivência. Por nos adaptarmos a viver em péssimas condições, em condições desumanas mesmo, e por não cuidarmos uns dos outros, o vírus sacou qual era a nossa. E todas as nossas sabotagens e artifícios o vírus conta exatamente com isso para ir exterminando-nos sem pressa, até que passemos a suportar. Desse maneira, o vírus está nos adaptando a ele, é lógico. E a miséria dessa situação é maior do que qualquer um de nós suportaria imaginar.

Scroll-down

O normal para as pessoas de todas as épocas sempre foi viver num ou noutro período de guerra, em períodos de dificuldade tremenda, de escassez e penúria. Dificilmente uma geração passaria inteira sem atravessar ou vivenciar alguns eventos histórico marcantes. Me basta pensar nos meus pais, por exemplo, que nasceram antes da Segunda Guerra Mundial. Ou dos meus avós. Esses atravessaram duas guerras, pandemias, ditadores de toda a espécie e nem antibiótico tinha. Meus bisavós viveram uma época em que chegar aos cinquenta anos já era longevidade. E nem havia infância para esse pessoal. Eles pulavam direto das calças curtas para a vida adulta, de trabalho sem facilidades e tecnologia rudimentar, morando em lugares sem estrada, num interior sem horizonte e nem tempo certo.

Mas o destino teria me oferecido (por alguma razão mágica) viver nessa paz perpétua, nessa fruição consumista sem dano e nem tragédia à vista. Nem a ditadura militar, o período mais complicado da história recente, eu vivi direito. Quando dei por mim como ser vivente, já estava tudo se encaminhando para Tancredo e a Nova República. E depois, o mundo político foi mais ou menos sempre um levar com o abdômen o status quo, sem grandes mudanças.

Nas aulas de História no colégio eu até ficava pensando em como teria sido viver em situações e momentos terríveis, mas como um exercício mental mesmo. E não é que se vivesse um estado de coisas equilibrado, mas aparentemente estava meio dado que as coisas seriam meio essa pasmaceira. Sem muro de Berlim, as crises seriam sempre apenas marolinhas na boca dos experts e logo a pujança capitalista sanaria – num passe de mágica – dificuldades imensas, heranças terríveis como a escravidão e uma desigualdade econômica incontornável, sem par no mundo civilizado e que alimenta uma sociedade abertamente violenta, só na fachada feliz.

Não me espanta que morram agora 4000 pessoas/dia e nada aponte no cenário que a sociedade possa mudar o rumo das coisas. É claro. É claro que não. Vivemos no show de Truman, no show do Zuckerberg, causando uns aos outros e não queremos acreditar que essa é uma época trágica protagonizada por nós mesmos e que nos pegou infantilizados ao extremo. E quando eu vejo a geração de septuagenários morrendo, octogenários, eu fico meio em pânico porque com a sua memória se vai a lembrança de como era necessário ser bravo para viver.

Dê uma senha de wifi e umas moedas ao povo e está garantido o show de patetas que nós nos tornamos. Nem originalidade temos nas lamúrias todas iguais. É dar Ctrl + C e Ctrl + V e seguir adiante, num scroll-down sem fim. Mas se essa pandemia e esse governo for apenas o começo de uma crise maior, muito maior, nós ainda assim não hesitaremos em mentir aos nossos filhos e netos de que fizemos todo o possível. Na verdade, fizemos nada. Quase menos que salvar a própria pele, andando que nem baratas tontas, tal o nosso estado de desorientação.

Medo e sobrevivência

Muito antes que eu desenvolvesse o inevitável medo dos boletos, eu tive um pânico absoluto da bruxinha Memeia, personagem dos gibis da Luluzinha. É verdade. Pensando bem, até hoje sinto um desconforto estranho com a apenas aparentemente inocente figura destrambelhada da bruxinha. Embora me pareça que ela não represente qualquer espécie de perigo real, por via das dúvidas eu mantenho um remoto respeito pela menininha e sua bata preta. Outro medo indestrutível que eu desenvolvi na infância foi com o Coronel Urko, do Planeta dos Macacos. Ou melhor, todos os filmes antigos e a série do Planeta dos Macacos me inspiravam e inspiram certo desconforto.

Mas o medo é isso mesmo: é como um gatilho ligado diretamente na adrenal que escapa totalmente ao domínio da racionalidade. No mapa cerebral, ele tem endereço fixo no sistema límbico, na porção da massa cinzenta que temos em comum com praticamente todos os animais e, não por outra razão, predomina na instância dos instintos ao lado da sua meio-irmã: a agressividade.

Se no mundo imperasse a lógica e não a estultice, haveria de ter muito mais monumentos aos medrosos que aos temerários. Se fosse por esses últimos, a espécie não teria nem sobrevivido. Ao sair da caverna, nos teríamos jogado diretamente aos tigres de dente de sabre e teríamos acabado ali mesmo, na porta da toca. Precisou um prudente de plantão para alertar aos demais quanto ao risco evidente de enfrentar feras com pedras e galhos de árvore e pensar em estratégia.

Eu não tenho dúvida de que uma das razões principais do sucesso do Covid se deve ao fato de sua invisibilidade e também de uma arrogância do ser humano contemporâneo em situar-se num lugar privilegiado na natureza. Ou seja, um pouco de medo real não faria mal a ninguém, mas essa é justamente a dificuldade no caso da pandemia: não há uma imagem a ser temida e mesmo a figura do vírus, por minúscula, é tratada pela maioria das pessoas como se não existisse.

Quando eu era criança e sentia medo da bruxinha Memeia eu reconhecia um fator de estranheza na personagem, já que ela introduzia uma aparência e comportamento dissonante entre uma enormidade de outras personagens inocentes. Estava ela ali alertando que não há só inocência no mundo e que, ainda mais grave, ela se oculta numa aparente situação de normalidade, como uma espécie de camuflagem. O mesmo com o Planeta dos Macacos, afinal, é muito insólito que os seres humanos possam ser escravizados por animais. Também uma normalidade aparente está acobertando uma situação terrível, assustadora. Não muito diferente da pandemia também.

O que parece é que poucos detectam um padrão que inspire medo e prudência a não ser que se viva de perto ou em si mesmo o aprendizado da doença e da fragilidade da condição humana. Por isso, a ansiedade é como um medo difuso, desorganizado e insuficiente para a autoproteção e se tornou a sensação predominante nesses dias. Existe a consciência de um risco, mas também uma enorme dificuldade em localizá-lo e precisá-lo com clareza.

Por essas e por outras, já que o vírus e seu contágio são invisíveis, o temor que ele inspira nas pessoas é fraco porque sobrenatural, ou seja, não é pelo seu comportamento evidente, mas pelo que se pode imaginar a seu respeito, com as devidas matizes e informações de cada um.

Como se trata de uma população sem noção e temerária, o contágio é descontrolado. Normalmente, as pessoas temerárias não esboçam uma reação de medo ao ver um gráfico, ao contabilizar números, para elas isso é um cenário tranquilo, administrável na sua neurose cotidiana. São as mesmas pessoas que expõe a comunidade ao risco por serem tomadas de um sentimento de invulnerabilidade.

Este mundo (e também o novo normal) é o império do homo demens e essa época o antropoceno que vai se arruinando dia a dia. O Covid, nesse caso, tem muito pouco trabalho e, se pudesse, o que ele faria mesmo é agradecer as facilidades oferecidas. Nunca foi tão fácil colonizar uma espécie que não tem medo e se julga acima da natureza.

Eles em nós

IHU on-line

Das muitas escoriações eleitorais do Brasil recente é do senso comum que resta um público fatigado da política. O inacreditável percentual de abstenções na eleição de 2018 (20,3%) é por si só autoexplicativo da dificuldade das alianças políticas engendradas pelo presidencialismo de coalizão em manter o eleitorado agregado principalmente a partir de 2013 e da ruptura do pacto popular com o petismo. Apesar disso, a curiosidade política é incessante, tanto quanto são as análises realizadas – mesmo a contrapelo de um estado de ânimo civil deprimido como o do Brasil da pandemia do Covid-19 – e respectivas publicações.

A fim de entender o Brasil e sua história política recente e procurar responder a uma questão chave (Como teve lugar isso que nos aconteceu?), o professor de literatura brasileira em Tulane, Nova Orleans, Idelber Avelar, vale-se de uma fresta pouco ou nada explorada na análise política para debater ao lado de muitos jornalistas, cientistas políticos, sociólogos e tantos outros interessados no percurso da democracia brasileira que vêm publicando ultimamente. Seu mais recente livro, Eles em nósretórica e antagonismo político no Brasil do século XXI (Record, 2021), se, por um lado, fundamenta-se teoricamente na análise de discurso e nos estudos linguísticos, por outro, pode muito bem ser lido como uma crônica de viagem temporal por meio da qual se pode rever a inflamável trajetória brasileira do início do século até os primeiros anos do governo Bolsonaro.

No livro, encontram-se os momentos cruciais da vida política nacional recente levados à reflexão com um debate aprofundado e extensa contraposição bibliográfica. Não poderia ser diferente para um autor que deseja não apenas reportar os acontecimentos e analisá-los, mas confrontá-los em relação aos diversos atores sociais envolvidos no debate público, sejam eles os militantes da base petista e seus intelectuais orgânicos, com o seu discurso mais ou menos afinado, ou a desorganização caótica característica do bolsonarismo. No entanto, apesar de valer-se do arcabouço usualmente empregado na análise literária, não é de ficção que trata Eles em nós, mas de um documento sobre um país real, de pessoas reais e que, por isso mesmo, exigem uma compreensão menos simplória que as abordagens consagradas nas polarizações eleitorais. Portanto não é apenas de categorias políticas que trata Idelber, mas da cidadania, sua relações imediatas, reais ou virtuais e da forma com essa população vem sendo desgastada no encontro das disputas em torno ao poder político no Brasil.

A forma pela qual Idelber obtém esse raio amplo de observação baseia-se em primeiro lugar em sua vontade em extrapolar da ciência política convencional. Ao beber da fonte dos estudos antropológicos e econômicos, mas também por considerar o substrato comunicativo da internet como teia de negociações simbólicas, potencializa-se em seu livro a expressão dos fenômenos culturais que perpassam as decisões eleitorais e políticas ao mesmo tempo que incide nesse caldo o olhar de quem discerne sem compromisso ideológico; pelo contrário, o seu é um olhar que se preocupa com o exame coerente e lógico dos eventos sem abrir mão de estabelecer relações entre os campos. Também seu horizonte se amplifica exponencialmente por verificar o Brasil até onde ele é menos visível e compreendido, como no interior onde se desenvolve tanto o drama ambiental e indígena quanto se dá a expansão do agronegócio, ou seja, há uma preocupação em abordar o Brasil e sua inteireza e complexidades.

No entanto é por ver mais na política do que mera dança de cadeiras e por fugir a uma recriação historicista da ocupação dos espaços públicos que Eles em nós rompe um bocado a tradição de análises lineares de cunho mais acadêmico sem, contudo, deixar de dialogar com elas. Da mesma forma, Idelber não deixa de ilustrá-lo com a leitura jornalística, de recheá-lo com declarações de políticos ou confrontá-lo a outras opiniões. Além disso, sua atenção aos embates ilocutórios das redes sociais e leituras efetuadas até mesmo em grupos do WhatsApp garante-lhe uma apreciação menos categórica da que costumam obter os estudos mais especulativos. É como um caráter informativo subjacente ao texto que guarda em muitos momentos o estilo de crônica que emprega nas análises que ele mesmo mantém nas redes sociais, espaços nos quais realiza intensa troca com seus leitores (/idelber.avelar) e (@iavelar).

Essa característica de um texto acessível, todavia, não diminui em nada da profundidade e do impacto de suas observações. Pelo contrário, o reconhecimento de categorias políticas expressas no mundo objetivo conforme as pessoas lidam cotidianamente confere ao seu texto um elemento de intenso realismo, pois ele não parte tanto de especulações teóricas quanto de fatos reportados que qualquer leitor pode imediatamente reconhecer. Quem quer que tenha testemunhado ou participado dos eventos políticos de 2013, por exemplo, poderá rever finalmente com algum distanciamento aqueles momentos que detrataram a confiança popular na gestão petista e cujo eventos foram versados livremente por intérpretes políticos atordoados. Também logo mais, na crise energética e ambiental, nos eventos preparativos à Copa do Mundo, na evolução do fenômeno lavajatista e culminando na campanha eleitoral de 2018 quando, colapsados pela realidade, deixou o Brasil levar-se ao governo de quem melhor soube encampar as forças antagônicas e o reverb das massas insatisfeitas. Em vista do caráter nebuloso causal e da dificuldade hermenêutica generalizada, é bem possível que muitos leitores perceberão que faltava quem procurasse desvelar o ornitorrinco brasileiro com o auxílio de figuras de linguagem, procedimentos retóricos e um tanto de lógica, ainda que isso pareça o mais estranho de tudo.

Da emergência da era das narrativas, é natural que emergisse, portanto, uma leitura habituada a desvelar os recursos retóricos e a safar-se da virulência argumentativa que vai se colando ao real como camadas sobrepostas. A dificuldade que representa desbastar os muitos encobrimentos semânticos e os jogos de interesse que estão sempre no centro da disputa política não é tarefa de simples execução, muito pelo contrário. O esforço visível de Idelber consiste em estar ao tempo e ao centro da intempérie dos fatos e das sobreinterpretações criadas a todo o tempo pelos múltiplos interessados, em tautologias e aproximações que se multiplicam numa razão infernal como a disponível na internet, meio de expressão das opiniões e laboratório de testes por excelência das ideias políticas na contemporaneidade. Daí que a crítica literária e especialidades linguísticas ofereçam uma lente das mais interessantes para se observar o mundo político e fugir à “cacofonia” de livros sobre o Brasil atual e o endosso costumeiro que se faz ao modo com que se vinha fazendo e compreendendo política, de acordo com ele um sintoma intelectual da própria crise.

Das hipérboles e exageros dos muitos discursos com que se vem moldando a imagem da população, do gerenciamento político dos antagonismos partidários e coalizões até a ruptura e emergência do bolsonarismo como redenção antagônica, da quebra do “equilíbrio oximorônico” e da dificuldade dialética de equacionar-se um entedimento comum, do esvaziamento argumentativo e o “lexicocídio” daí resultante, da desorganização narrativa à dessensibilização lexical dos nomes em seus enunciados ao giro retórico da radicalização bolsonarista, Idelber realiza em seu livro o mapeamento discursivo de um país que por duas décadas passou a transmigrar livremente no tempo (sem nunca ser o país do futuro e sem jamais abandonar os ranços do passado), ancorando-se agora no mais oblíquo embaraço.

Por fim, cabe lembrar que seu objetivo era entender “como teve lugar isso que nos aconteceu” e não “por culpa de quem isso nos aconteceu”, como é praxe no tribunal continuado das redes sociais. Se cada assunto abordado no livro é o bastante para refletir longamente, por outro lado a prosa do professor de literatura garante uma fruição nada opaca e bem humorada sempre que possível. Aos leitores acostumados a receber afagos teórico-ideológicos nas próprias convicções, é uma oportunidade de confrontarem-se consigo mesmos no que costuma ser mais habitual na literatura de ficção: a suspensão voluntária da descrença. Pode requerer algum esforço no começo, mas, no decorrer do livro, ficará cada vez mais claro que a argumentação é suficientemente forte para sustentar-se em pé e prender e surpreender o leitor imbuído de curiosidade honesta.