Adaptações

Se tem algo que eu não tenho dúvida é de que basta uma semana no inferno e até São Pedro e os apóstolos já estão aclimatados. Dúvida nenhuma mesmo. Zero dúvidas.

Uma vez eu tive uma experiência no trabalho que me instruiu para a vida. Até hoje, na memória, me espanta. Foi quando eu percebi que a capacidade de adaptação do ser humano não tem limites e nem sempre age em seu benefício, mas com certeza sempre age sob a condução da necessidade.

O fato se deu com uma prestadora de serviços terceirizada que veio trabalhar conosco para suprir as férias da prestadora habitual e essa pessoa tinha a incomum capacidade de ficar sentada horas na mesma posição, olhando para um parede de azulejos, sem nem mexer num celular pra matar tempo ou jogar cobrinha, sem folhear um livro ou um jornal, acho que nem coçar o nariz ela coçava aproveitando a discrição do ambiente metro por metro que é a nossa cozinha improvisada.

Num primeiro momento, pensei que ela pudesse ter algum tipo de autismo, ou ainda tivesse alguma condição especial que a aparência uniformizada não me permitia perceber. Depois de algumas trocas de frases com ela, vi que não era nada disso. O que havia é que ela tinha um roteiro de trabalho com alguns momentos de espera e horários de controle e se movia criteriosamente por isso. No restante do tempo, fazia absolutamente nada de uma forma extremamente perturbadora, pois ela realmente não era impedida por ninguém de se ocupar com o que desejasse no seu tempo de espera, mas ela simplesmente não fazia questão. Era como se estivesse num estado contemplativo inacessível aos demais, de repouso completo e absoluto, igual a um monge em meditação vipássana.

Por um tempo eu achei que ela podia estar descansando de um rotina noturna pesada, talvez um terceiro turno de trabalho, talvez uma situação familiar difícil – ninguém sabia e nem seria discreto assuntar assim a pessoa que, como uma espécie de transe, passava longos períodos de tempo sentada na mesma e absoluta posição, em completo silêncio. Além do mais, ela não deixava de fazer suas atribuições e aceitava a condição pela mesma razão que leva o ser humano a tolerar o insuportável: a necessidade, sem demonstrar a menor contrariedade com aquilo e suas implicações.

É difícil imaginar que alguém suporte olhar para uma parede de azulejos por horas a fio sem surtar, mas acontece se essa é a sua melhor opção de sobrevivência. Também é difícil suportar que alguém se comporte de maneira tão passiva diante de uma situação tão precária. Acontece também, pois é preciso respeitar a condição das pessoas mesmo que nos pareçam aviltantes, ainda mais quando elas precisam daquilo e sua sobrevivência depende disso. Parece óbvio, não é? É óbvio mesmo, mas, por outro lado, é bem complicado…

Eu lembrei hoje cedo da situação dessa pessoa (com que convivi por cerca de três dias) porque realmente fiquei impactado com a sua capacidade de adaptação a uma condição de trabalho que nem é violenta no sentido ortodoxo da expressão, mas que é resultante de uma combinação de coisas que, apesar da estranheza, consegue gerar comportamentos limítrofes como esse.

Eu lembrei porque eu já percebo que vamos acabar nos adaptando tanto às mortes incessantes quanto à condição de ter de viver sob essa condição. Nós nos adaptamos, essa é a verdade. Subiremos aos ônibus. Entraremos em filas. E às vezes deliberadamente sabotaremos a condição do próximo, seja lambendo a maçaneta do seu carro – como já foi filmado – ou menosprezando os cuidados com a máscara e o distanciamento. Seja editando um decreto, uma medida legal, uma norma, uma regra qualquer que vai nos submeter ao comportamento do vírus ao invés de enfrentá-lo com racionalidade e conhecimento. Essa capacidade de adaptação nos leva a criar tanto um pensamento distorcido (para saciar a própria crença), quanto a submeter o maior número de pessoas a esse ordenamento. É olhar para o Estado brasileiro (ou o governo do RS) para notar que estamos já sendo governados pela ótica do COVID e que pouco a pouco (a cada fim de semana esticávamos essa corda, agora já fazemos isso todos os dias) vamos abandonando a noção social do cuidado.

Das epifanias mais aterradoras que as pessoas podem ter, a de compreender que não estão no governo dos fatos, mas organizados por estruturas maiores, é das mais acachapantes. Diante da compreensão, muitos optam por não entender e normalmente fantasiam formas de imaginar um controle da realidade, uma negociação qualquer, teorias, religiões, qualquer coisa. Comportamento neurótico clássico. Depois de se espalhar por todo o mundo com a nossa colaboração, o vírus vai aprendendo, claro, modos de conviver conosco. Ele vai se aclimatando em nós, na sua “vida” acelular.

De alguma maneira que não requer uma inteligência ou instrução, ele nos testou entre outras espécies e decidiu que seríamos um bom mecanismo estratégico para a sua própria sobrevivência. Por nos adaptarmos a viver em péssimas condições, em condições desumanas mesmo, e por não cuidarmos uns dos outros, o vírus sacou qual era a nossa. E todas as nossas sabotagens e artifícios o vírus conta exatamente com isso para ir exterminando-nos sem pressa, até que passemos a suportar. Desse maneira, o vírus está nos adaptando a ele, é lógico. E a miséria dessa situação é maior do que qualquer um de nós suportaria imaginar.

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São JuéversonSão Juéverson

Se houver justiça nesse mundo, no futuro, um dia de veneração será reservado nesse país brasileiro a São Juéverson.

Ele ainda santo não é, mas é questão de tempo para que se reconheça a beatitude dessa criatura de Deus.

Eu o conheço há pelo menos meia dúzia de anos, que é o tempo em que o vejo, no supermercado, do lado de dentro do balcão da fiambreria. Sempre a mesma placidez, o gesto imparcial, a correção platônica que o Juéverson oferece de bom grado aos clientes dos seus patrões que, não tenho dúvida disso, sequer suspeitam da sua existência.

Do Juéverson nunca ninguém ouviu um “Tá bom assim?”, diante a um deslize de microgramas nos fatiados. Ele corrige seus erros, coisa que a maioria das pessoas simplesmente não faz, quando intencionalmente não piora, sabe-se lá por que razão. E acerta as pilhas de muzzarela, presunto ou mortadela com a precisão de um robô e a delicadeza de um ourives.

Mesmo nunca tendo ganhado um elogio por isso, o Juéverson exibe aquela satisfação inatacável de quem está fazendo o certo pelo certo. Nem o nome esdrúxulo nunca foi capaz de lhe importunar o semblante sereno, mesmo quando clientes engraçadinhos erram por gosto a sua pronúncia, suprimindo o “u” intruso e o “v” trocado pelo “f”.

“É Juéverson mesmo! E eu adoro o nome que a minha mãe escolheu pra mim!”, ele diz sempre que indagado a respeito, sem nem suspeitar do assédio e da importunação embutidos ali ou fazendo parecer que não suspeita.

Aos “tira uma pouquinho”, “bota mais umas duas fatias”, “não, troca pelos daquela outra pilha ali”, “acho que eu não vou querer desse” e “eu não falei duzentas gramas?” de todo o santo dia, o Juéverson exibe sempre o seu sorriso impávido, de Gioconda. E continua o serviço sem nunca olhar para o tamanho da fila, mas plenamente atento à precisão das solicitações inacreditáves que lhe fazem.

No futuro ainda mais distante, se houver mesmo justiça no mundo, não se dirá mais “paciência de Jó”, mas “paciência de Juéverson”.

Mas e o milagre para ser santo? Devem estar fazendo contas os incréus…

Considere apenas que, mesmo em face do seu direito ao homicídio, ele jamais o cometeu. No meu, o critério é o bastante. Não por isso, há mais de 10 meses o Juéverson não erra um pedido. É mandar e pesar. Sempre na bucha. O que seria isso, inclementes, se não ajuda divina?

São Juéverson, residente desde o nascimento na Restinga, em Porto Alegre, filho da dona Mariana e do seu Zacarias. Funcionário na fiambreria do Zaffari há seis anos. Ficha limpa. Padroeiro do queijo laminado e da salsicha a granel.

SchoolSchool

Não sei que filme é esse que colocaram sob o fundo dessa versão de School, a única em estúdio que parece ter no YouTube para a música do Supertamp. É de algum filme, talvez um documentário sobre essa escola em Berlim, o Rheingau Gymnasium. É um casamento perfeito de imagens e música, ainda mais com a imagem tremeluzente das TVs de tubo e raios catódicos.

“School” é a música que mais me remete ao meu próprio ambiente escolar, lá no início dos anos 80. Acho que foi o primeiro disco do Supetramp que ouvi, o álbum ao vivo “Paris”, gravado em 1979, pouco antes da dissolução. O Supertramp foi uma banda já meio derradeira da parcela progressiva do rock, mas colheu frutos ainda do estilo do qual o Pink Floyd e o Yes, principalmente, foram os principais expoentes. Fizeram belos discos, muito competentes tanto no que diz respeito ao aporte instrumental quanto vocal e temático. O público ainda cabeludo daqueles dias ouvia bastante e crianças como eu também. O Supertramp gravou alguns clássicos do estilo com arrojados solos de saxofone, harmônica e piano. “From now on”, a operística “Fools overture” e essa “School” são na minha opinião o seu melhor, apesar de terem ficado mais conhecidos com “Logical Song” e outras que não gosto tanto. “School” é uma joia musical e, com esse vídeo, entra numa combustão espontânea, parece, como um fogo-fátuo.

No fim do ano passado, numa viagem que eu fazia com a família e no mesmo período que desejava terminar de escrever o “Trapézio” (que inicialmente pensei em chamar de “Fica na tua”, como na canção de Vitor Ramil, mas mudei por pressão doméstica), mostrei a minha filha a música e ela ficou meio espantada com os andamentos e principalmente o vigor musical da gravação. “Que loucura é essa aí?”, lembro-me dela perguntando no banco de trás do carro. E de responder-lhe “Isso aí? Isso era o que eu mais ouvia quando tinha a tua idade. Todo mundo ouvia..” Aquilo ali era, na verdade, apenas uma pequena amostra desse vigor do começo dos anos 80, uma década enérgica ao extremo, na qual se emendava Supertamp no Queen e numa discografia que tinha a missão de prorrogar o tempo regulamentar de Beatles e Led Zeppelin sem imaginar que logo tudo viria abaixo sob o som dos helicópteros de “The Wall”, sepultando as ruínas do sonho hippie e fazendo emergir uma geração alucinada em todo o mundo. No Brasil, a geração que degelou diretamente do permafrost dos anos cinzentos da ditadura militar e logo mais fundamentou a cena rock nacional, ou a consumiu, ou foi por ela consumida.

Naquele verão, eu tinha uma semana mais ou menos para fazer um romance de algumas anotações, um esboço temporal e uma coleção de tipos humanos contemporâneos daquela época que vivi fazendo a transição de quem vinha do interior para a capital e a da adolescência. Um movimento talvez definitivo de toda uma época que se globalizou por interesse próprio e, ao menos simbolicamente, no Brasil recolocou a capital do país de volta no Rio de Janeiro, sob a monarquia da Rede Globo de televisão e sua indústria monumental de entretenimento, informação, dirigismo intelectual e, principalmente, moral.

Nem lá no cafundó do interior as coisas chegavam com a vagarosidade de antes. A tevê naqueles dias enrolou tempo e espaço numa narrativa uniforme, misturando numa mesma massa tradição e futuro, repressão e liberdade. O momento político que culminaria numa democracia parcelada, com eleições indiretas, tinha o substrato de um derretimento total de uma história insustentável. E a entrada da música estrangeira no Brasil, a explosão do pop e uma voracidade consumista sem precedentes, talvez semelhante a experimentada pelos boomers nos anos 50, e o cinema, e as grifes e a retomada norte-americana do fim-de-século nas mãos de criaturas que desconfiavam da seriedade das intenções liberais do próprio país. O país que explodira meio mundo voltava a vender o seu modo de vida com toda a força, como uma locomotiva desembestada, levando por tudo gerações distintas, países periféricos, culturas locais, tudo.

Essa é uma história que ainda não terminou, mas realizou muita coisa também. No rastro dessa locomotiva, pérolas de uma contracultura que também não se conclui nunca, que também é seu combustível e seus restos são carne humana, violência e um modo de vida meio que desesperado, de uma época controlada por ansiolíticos ou ainda mantida em drogas ilegais, mas só de fachada ilegais.

Os anos 80 foram anos muito drogados. Acho que bem mais que os 90, meio diluídos num novo sonho americano de prosperidade yuppie. Nos 80 havia uma certa panela de pressão. “School”, do Supertramp, mostra um pouco desse estado de espirito sedento. E “The Wall” não é senão é a culminação desse espólio capitalista ressurgente, irrefreável, trucidando a subjetividade de pessoas sem condições de sustentar nos braços e mente a potência exigida pela “máquina”.

Quando pesquisava sobre o romance e anotava minhas coisas, busquei livros que tratassem da história dessa década no Brasil e fora daqui. Há um certo vácuo, eu diria. Talvez uma ressaca da qual ainda não nos recuperamos completamente e um saldo que ainda não sabemos muito bem o que fazer dele. É a minha sensação. Em alguns momentos daquela semana que precisava encerrar essa história toda achei que não conseguiria. Uma noite, depois de dormir não mais que duas horas, retomei de onde eu tinha parado antes de recomeçar e então fui até o fim. Parecia estar sob o efeito de um poderoso estimulante, mas me bastava ouvir a harmônica de “School”, como um chamado do fundo do tempo (e dos pátios escolares) e a energia voltava. Se eu tivesse crescido nos 90 teria sido bem mais difícil. Ali a pressão já havia cedido bastante. E, em seu lugar, a depressão. Mas aí é outra história bem diferente e nem me sinto capaz para tentar escrevê-la. Talvez ainda não..

Silêncio GhibliSilêncio Ghibli

Às vezes, me acontece uma grande vontade de silêncio. Não é o silêncio da ausência dos decibéis, mas aquele dos pequenos ruídos. A possibilidade de calar os grandes rumores e concentrar-me nos pequenos resíduos. Como se fosse possível prestar atenção contínua no som que o vento causa ao passar pela superfície das folhas e das ramas, no zumbido de uma abelha indo e vindo, numa portinhola de uma casa abandonada batendo para ninguém. Um silêncio como o dos filmes do Studio Ghibli.

Estar no mundo de uma forma silenciosa é um desejo um pouco metafísico e por isso mesmo inacessível. É preciso estar no mundo para saber-se vivo. E estar no mundo significa ouvir incessantemente o que está sendo dito, ler o que está sendo escrito, devorar o que está sendo oferecido. É estar submetido à informação, aos anúncios das coisas e portar a angústia de não conseguir debulhar isso tudo numa forma razoável de consumo. É um empanturramento de vazios. Vazios rumorosos.

Ou você tem livros demais para ler ou tem todas as músicas do mundo à sua disposição ou está zapeando um catálogo labiríntico de uma referência que se dissolve noutra, de uma montanha de produtos que se materializam para você. Coisas que aparentemente existem e estão ali disponíveis, mas nada disso é o que você quer.

O seu desejo é o de poder ouvir a água como um peixe pode ouvi-la. Zunir como um inseto e ser ignorante do zunido. Ter aquelas imensas orelhas de um elefante e o seu mesmo direito de não compreender nada.

Mas não tente encontrar uma porta por onde acessar esse silêncio que não é o dos museus e suas coisas, tapetes, objetos e falsas aberturas. Esse silêncio de todas as músicas quando se as espreme muito. Talvez seja mais simples entrando numa indústria e aquele ruído tão absoluto que não se pode ouvir mais nada, e apenas suporta-se sem saber quando aquilo vai terminar, como uma espécie perfeita de infinito.

Por outro lado, há sons extremamente silenciosos. E há pessoas silenciosas que não ocupam mais do que o espaço que têm, embora se exija cada vez mais que todos estendam a sua existência e a prolonguem e signifiquem para além da própria vida. Logo já não será possível mais morrer neste mundo. Alguma coisa técnica tomará o seu lugar e continuará a sua vida, reproduzindo uma sucessão de hábitos, como se viver fosse apenas esse deslocamento da sua aparência e seus pensamentos repetitivos. Algo como os livros faziam e cada vez mais serão outras coisas e objetos.

A minha vontade, às vezes, era de acessar um silêncio elementar como o que eu sentia quando era criança ao carregar com minhas mãos infantis, numa vasilha, a água para encher os vasos de flores das sepulturas dos antepassados nos dias de Finados, quando acompanhava meu pai. O som da água na vasilha sacudindo era tão silencioso… Mas, se quisesse, eu podia quase tocá-lo e parar até ele com meus dedos. Essa possibilidade que agora me falta absolutamente, que a vida toma de todo o mundo e só mesmo a morte restitui, porque definitivamente não há outra forma possível de obtê-lo. Até mesmo escrever isso não é uma forma de rompê-lo?