Delírio persecutório

Nem sempre se pode enxergá-la direito, ou compreendê-la, mas há uma espécie de criatura que vem detrás dos nossos passos, quase nos mesmos rastros do tempo, roendo o nosso passado.

Ela pega do que pensamos guardar e aos poucos vai ocultando tudo em sua barriga enorme, que o seu apetite é infinito.

Ela chama o nosso nome e espera pela voz antiga, doce ainda, talvez, mas ouve ao invés disso um murmúrio insolente. Ouve-o como uma ameaça que ela não consegue decifrar, e, por essa razão, ela não para, não se detém. Mais se embrutece e avança.

A criatura também não enxerga direito, também não entende muito bem, mas continua sempre na sua sina incontrolável. Se pudesse, subiria os nossos calcanhares e, por debaixo das roupas, transfiguraria o nosso corpo, tal tatuagem, a fim de apaziguar-se de uma vez por todas. Mas como nós temos medo demais, e ela, parece, fome demais, nos afastamos sem, no entanto, olharmo-nos por muito um nos olhos do outro.

Por simpatia mútua, por um mesmo temor, por um pasmo sublime, por respeito que seja, talvez ambos desejássemos parar com aquilo. Encerrar essa aproximação indefinida. No entanto, não conseguimos.

A criatura vai tomando o nosso lugar no mundo, desocupando-o de nós, sublinhando no vento as memórias mais duras e as mais preciosas, as alegrias, as surpresas, para que, tomados de amor e horror, notemos que nós também cabemos em seu ventre. Nosso espaço já é previsto e, além do mais, às vezes ali há mais de familiar que ao redor. Há as músicas que ouvíamos aos catorze ou quinze anos; há o retrato da primeira namorada no meio de um livro igualmente perdido; há os livros que nos levaram aonde não parecia possível chegar, em frestas do absurdo, e, sobretudo, há provas concretas, cabais, de que se trata de nós mesmos. Aceite que a vida é igual a fugir, ela parece querer dizer. E continua.

Por um instante só fica claro que na realidade o seu olhar é inapetente, e de repente fica claro também que ela é velha como o tempo, mais velha até que o próprio tempo, e que não é matéria e nem é energia, e que não se pode apontá-la precisamente, e que ela não faz nada. A sensação é inteiramente nossa. O mais é um delírio persecutório que imaginamos de alguma forma deter (não podemos, esse é outro delírio). E enquanto devoramos o futuro cuidando do que inevitavelmente logo perderemos, continuamos adiante, a partir de agora por nós mesmos devorados.

A prima-pobre do setor livreiro

IHU on-line

Primas-pobres na grande família do sistema literário brasileiro, as bibliotecas públicas agonizam num mercado que se volta cada vez mais à bibliofilia.

O texto podia parar aí mesmo porque inclusive entre pessoas que não frequentam o espaço de bibliotecas (ou por isso mesmo) sabe-se que esta é uma realidade que vem sendo decantada ao longo da história cultural brasileira, especialmente a partir da explosão digital dos anos dois mil. No entanto, a afirmação é insuficiente para compreenderem-se as dimensões do problema. É preciso servir-se de esclarecimentos e maior precisão.

Como primas-pobres, cabe-lhes a atenção ocasional, as roupas usadas que não servem mais e uma promessa de crédito que raramente se cumpre, imaginada desde projetos legislativos que, afinal, parece que tudo bem se nunca forem cumpridos. Não há quem os fiscalize ou tenha em alta consideração. É por isso mesmo que, do Oiapoque ao Chuí, seguidamente vê-se o estado falimentar e número insuficiente de prédios deteriorados da administração municipal e estadual que apontam para a obsolescência do interesse genuíno da sociedade brasileira em cumprir a utopia constitucional de igualdade.

É a internet, diagnostica o senso comum. Bem poderia ser, mas a internet não foi o suficiente para que outros países do mundo deixassem de investir em novos espaços e ampliações. É preciso, pois, explicar a natureza da discrepância. Em vésperas do ano 2000, por exemplo, a Dinamarca reabriu o seu “diamante negro”, a impressionante Biblioteca Real Dinamarquesa. Em 2006, em Taiwan, inaugurou-se a sustentável sede da Biblioteca Pública de Taipéi. No México, fundou-se a Biblioteca Vasconcelos em 2006.

Em contrapartida, de acordo com a FEBAB e o IBGE, o número de instituições públicas vem caindo (de 97,7%, em 2014, a 87,7%, em 2018). No âmbito educacional, o cenário não é melhor. Informa o Censo Escolar de 2018 que metade das escolas brasileiras ainda não contam com bibliotecas. O “atenuante” é que há projetos de lei jogando para um buraco negro temporal a obrigação de cumprir a Política Nacional do Livro, como o Projeto de Lei 4003/20. Menos mal que o projeto continua emperrado na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

As comparações são reiterativas, dolorosas e detratam não apenas o descaso político, mas a distância que se amplia em relação ao restante do mundo no único desenvolvimento sustentável efetivo: aquele que é mediado pela educação. Os indicadores são ásperos e os resultados socializados na materialização da precariedade que atravessa o país sob qualquer angulação.

No entanto as bibliotecas padecem por outras razões também. Há a autosuficiência de um mercado que se organiza pela relação paradoxal entre um tempo de leitura cada vez mais escasso e ofertas cada vez mais torrenciais e inacessíveis. Há ainda o fantasma da hipertributação proposta pelo governo federal assombrando o mercado e consumidores. Não bastasse isso, o vaticínio permanente do anacronismo a encantar gestores ávidos por economia sem notarem que o que fazem é investir no empobrecimento.

Certamente não foi em razão do investido nas bibliotecas (cuja maioria vive sem orçamento próprio), mas paulatinamente o ciclo do livro nacional foi se transformando numa cadeia de exorbitâncias. Apesar disso, pesquisas regulares como as realizadas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pelo Instituto Pró-Livro demonstram que a projeção de quebra no começo da pandemia foi em parte detida pelo incremento do comércio digital num patamar de crescimento em torno de 41% em 2021.

Apesar da recuperação, a tendência de queda histórica se consolida em quase 40% desde 2005, pelos números da Câmara Brasileira do Livro. Exorbitância negativa, a caixa-preta dos direitos autorais continua indevassável e objeto de dúvidas permanente, dada a subjetividade da composição de preços e dificuldade em aquilatar-se a expressão real das vendas. Na pandemia, com a ausência de eventos, a crise foi ainda mais nitidamente exposta no que toca ao ciclo.

Embora as bibliotecas públicas participem cada vez mais marginalmente do setor, a situação de subdesenvolvimento exaspera uma população que, por conta da dinâmica de leitura imposta pelos canais digitais, cada vez mais se afasta do mundo da leitura. Seja pela política de preços das editoras que compensam os baixos números com altos valores ou pela substituição de fontes de informação, o setor se especializa cada vez mais em torno de consumidores de alto poder aquisitivo. Os valores praticados para o mercado de tiragens cada vez menores exorbitam, por sua vez, na composição e consolidação do livro como artigo de luxo. Como exemplo disso, basta ver a que títulos e edições se referem os valores mais altos praticados na Estante Virtualmarketplace mais utilizada pelos sebos no Brasil.

Se dirigir o olhar para exemplos de países que investiram massivamente na educação e amparo à leitura no mundo contemporâneo, como Índia e China, é insuficiente e arrebatador, então o que se pode pedir é que o setor se comporte com menos voracidade. O custo da voracidade é diretamente proporcional à dissolução do mercado consumidor, como já atestou a crise das duas grandes redes brasileiras, Cultura e Saraiva. Aplacaria os efeitos colaterais danosos, talvez, um esforço em garantir o livro após o esgotamento do seu ciclo comercial, justificando o investimento na acessibilidade digital e universal. Ao invés de simplesmente tributar, reinvestir o valor nos elos fracos da cadeia. Por complexa, a problemática não será resolvida por uma sublimação do valor simbólico do livro, quem sabe mais pelo empenho em recuperar a cadeia e evitar ao máximo o desperdício do bem cultural.

Esqueleto

Na minha rua nunca se vê ninguém à janela. Só às vezes uma furtiva cabeça chega rápido e atravessa o limiar dos prédios para ver o que foi o barulho, a que se deve a grita. Se o caminhão do gás (gás raro e nobre, pelo valor absurdo), furto de qualquer coisa, colisão ou conflito de espécies. Mais raro ainda o corpo atravessa a porta e posta-se à calçada por estar ali: a vida é cada vez mais ir e vir e menos estar. A rua desempenha a função de trafegar os entes, só nunca se percebe que é um tanto viva também.

Da minha janela, entretanto, nesses dias vi deslocarem sonoramente a sua pele. Ruazinha estreita da Azenha que mal comporta uma mão única, mas se fez mão dupla certamente num decreto da prefeitura, não efeito da observação de criatura viva que se convencesse opticamente da impossibilidade. Mas, à distância, tudo é possível e simples. E assim decidiram atrolhar de carros e movimento a ruazinha que, num passado não muito distante, talvez não comportasse sequer duas carroças em sentido contrário. Agora tem suvs e caminhões espremendo com seu rugido as margens das calçadas e espantando o povo pra dentro de casa.

Sob a pele, o esqueleto de uma cidade empedrada ainda, mas asfaltada à força. “É pra andar mais rápido”, eu lembro-me do pai me explicando, criança, numa vinda à capital, muito tempo atrás e eu ficava fascinado que a gente andava no carro sem tremer inteiro por dentro graças ao deslize fácil da cobertura preta. Alguém me disse até que agora em novembro próximo se podia fritar um ovo ao meio-dia só quebrando a casca e depositando clara e gema sobre o asfalto. Nunca fiz nem vi a experiência, mas deve ser possível. O solado emborrachado dos tênis e sapatos gruda mesmo, parece um molho derretido entre o corpo do indivíduo e o chão da cidade, num prato sui generis mesmo: o homem urbano.

Retirada a pele, o esqueleto de que falava Quintana aparece como fratura exposta de um lugar que já não sossega muito, nunca está muito a passeio, que é devedor dos próprios deveres, e de um povo que às vezes parece nunca dever nada à cidade. Quase nunca. Só por cobrá-la do que muitas vezes também se prefere não lhe oferecer. De bom grado, Porto Alegre se entristece às vezes, e mais do que merecia. Mas não dói, quase não se nota sua dor, não grita ao descarnamento, à exposição. Sequer geme.

Será essa a “dor infinita” de que falava o poeta? Tem quem hoje recuse Quintana como o grande poeta da cidade também. O “velho bobo”. Mas que desaforo! Tem que ser muito poeta pra ouvir um lamento desses. Vista do alto, do meu terceiro andar, Porto Alegre faz bem em não doer mesmo. Finge bem a cidade como uma velha mãe desiste de queixar-se pra não fustigar os filhos..

Canções espirituais

Há um encontro subterrâneo entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Existe há muito, eu desconfiava. Tive provas disso há pouco. Ontem mesmo.

Ouvi ontem seus rumores eclodindo em ondas sonoras (como se água extravasada do solo) nos “Olhos D’água” do disco surpreendente que uniu de um lado Calos Di Jaguarão e, de outro, o belo-horizontino Nelson Angelo.

Muitas coisas estranhas no disco, a começar por encontrar-se na fronteira ao extremo-sul do Brasil/Uruguai um compositor totalmente deslocado da musicalidade mais característica do Rio Grande do Sul e suas platinidades. Lá nas bordas do rio Jaguarão, é como se um autêntico “clubeiro” tivesse se extraviado dos destinos da constelação de músicos que “brotaram” na famosa esquina mineira, confluência da Divinópolis com Paraisópolis.

Conheço as composições dele, Carlos, desde o disco “Clarice”, de Simone Guimarães e da sua estonteante “Trilogia da Sereia”. Depois eles fizeram juntos um disco (Sinhá-vida) que tem, entre outras, a hipnótica “Ingazeiro“. A Simone eu conhecia de antes. Falei do seu radinho e discos seus que me tocaram muito e toquei muito também, que a sua voz tem algo que solicita ouvir mais, e mais. E mais um pouco só… E nunca para mais.

Mas ele eu não conhecia. Talvez intuísse, mas isso só conta pra gente biruta mesmo. Mas já percebi o que têm de encontro dele com o Nelson Angelo. O Nelson conheço desde que nem tinha tamanho de gente, do disco “Geraes”, do Milton Nascimento. O Nelson é compositor de “Fazenda”, a música que é um lugar só no Brasil e ao mesmo tempo todas as suas fazendas. Isso quem disse foi Caetano Veloso, não eu. O que eu percebi é que são duas pessoas aquáticas e que, por essa essa estranha razão, uniram-se numa celebração do sagrado da água e de outros “Cantos Espirituais”. É o nome do disco deles, aliás.

Disco cheio de chuva, canções molhadas, barrentas até, água de rios. Bonito de ouvir e molhar também. De perder a hora. Parece feito em tempos outros, com poesia meio como a de Cacaso e outros que cantavam só – o visto e o vivido. Quer dizer, só cantavam mesmo. Isso que é bom no disco. Isso que é bom, afinal.

O melhor livro do ano (de 1987)

Nada mais absurda que a difundida ideia de que um romance excelente inspira a procurarem-se outros ainda melhores. É uma falácia de salão. O mais habitual de acontecer às pessoas, de fato, é uma excomunhão do tempo perdido e a indagação mental de como aquele autor ou autora passou tanto tempo imperceptível, ainda mais quando se descobre tratar-se de um romance publicado no longínquo 1987. Apenas que ninguém consegue suportar a ideia de que a literatura às vezes é intragável desde a primeira página e, por razões estranhas à arte, como o apreço ao bom nome do autor ou de uma casa editorial, insiste-se em perseguir recompensas que de imediato mostram-se improváveis. Também o tabu de não maldizer o consagrado impede que prospere a crítica honesta e, em seu lugar, quando muito, o silêncio constrangido, substrato ideal dos pactos de mediocridade.

Como A Porta (Intrínseca, 2021) é inexplicavelmente o primeiro livro traduzido e publicado no Brasil da escritora húngara Magda Szabó, infelizmente é um pouco mais difícil obter traduções em português de seus outros livros. A menos que se recorra às livrarias e editoras estrangeiras, nada feito. Se valeria à pena? Não só valeria, no meu juízo, mas seria igualmente fator de economia financeira e temporal, tendo-se em vista que as ofertas editoriais por abundantes não redundam necessariamente em significantes. Talvez em húngaro, o tal idioma do diabo*, fosse complexa demais a leitura, mas nos mais familiares é certamente uma boa viagem.

Especular a razão do seu obscurecimento é bastante simples. Apesar de que, no leste europeu, nos anos 50 e 60 rasgou-se o véu férreo da cortina, seus escritores, principalmente aqueles que afrontaram os regimes comunistas, foram por aqui solenemente ignorados, essa que é a forma primeva do que hoje se denomina “cancelamento”. Ora, um autor que não se dobrasse às exigências históricas e revolucionárias a inteligência tropical e caribenha consagrava um grande vazio, um deserto de referências. Nesse sentido, poucos escritores que viveram o desterro das invasões múltiplas em países como Polônia, Checoeslováquia e Hungria atravessaram a cortina de fumaça que se estabeleceu acima de seus nomes e obras. Era como se não fosse preciso saber a dificuldade que era viver e sobreviver sob o tacão comunista, afinal, como então se manteria a aura utópica?

Mas Magda Szabó, assim como o bem mais difundido por aqui Sándor Márai, faz um uso soberbo da característica mefistofélica do seu idioma. É por melíflua, acessível e clara que ela torna ainda mais estranha a tomada de consciência interpessoal marcante entre a narradora e a fabulosa personagem Emerenc, síntese dos traumas humanos comuns a quem tem de viver apesar da irracionalidade histórica a que a política e o poder sempre conduzem.

Para além de tudo, é um salto para fora da obviedade e previsibilidade das listas de favoritos que logo estarão por aí. A porta, de Magda Szabó, é um livro que é mesmo uma porta a outro universo de violências e silêncios que uma pessoa e uma cultura sonegam à outra em prol da sobrevivência. É um “atravessar” conduzido por uma narradora magistral. Quando me perguntarem, se perguntarem, qual o meu “livro do ano” eu já posso dizê-lo: é “A porta”. Do ano de 1987, mas que isso importa?

* No prefácio que Guimarães Rosa escreveu para a antologia de contos húngaros que o amigo Paulo Rónai verteu diretamente ao português, em 1957 (Antologia do conto húngaro), ele fez a definição do que lhe parecia o idioma magiar, um entre os que ele estudava. A palavra escolhida foi “diabólico”. De acordo com ele, a língua ideal com que se falar ao próprio capiroto.

Fica na tua

Nem imagino quem lembraria de um antigo best-seller dos anos 70: “O maior vendedor do mundo”. Nunca li, mas também nunca esqueci da capa com o título e o nome do autor, um certo Og Mandino ornada com louros, como um César romano. Não sei nem de que trata o livro, mas tenho certeza de que sou a sua antítese. Sou realmente o pior vendedor do mundo. Não tenho ilusões de melhorar isso e não sei como, aliás, pessoa como eu se atreve ainda a fazer coisas que possam ser vendidas, como livros.

Todavia, dito isso, mesmo assim.. contando com a inestimável ajuda do Cláudio B. Carlos e do Angel Cabeza, da Saraquá edições, hoje partiram pra gráfica os originais de uma pequena tiragem de um romance que comecei a escrever há uns anos e finalmente neste ano dei por concluído, depois de várias releituras e revisões. Filhote com 6 anos de idade já.

Da releitura, surgiu a vontade de rebatizar a história. Rebatizar com o título que primeiro pensei para ela e que, numa edição limitada preliminar foi preterido por outro, um certo “Trapézio” que circulou timidamente entre alguns leitores e pessoas que aceitaram recebê-lo por delicadeza mesmo.

Família e amigos agora me advertem que o titulo – agora definitivo – poderia trazer uma expressão “datada” e/ou regional demais. Eu concordo com isso, mas acontece que o livro é realmente datado nos atropelados anos 80 e guarda muito da vida disponível naqueles tempos. Pelo menos é o que eu espero que ele transmita. Então – sem traumas – este é mesmo o único título que ele deveria sempre ter tido: um livro que, apesar disso, é bem livre de sotaques e gírias, salvo aquelas que se incorporaram ao modo de falar dos gaúchos da capital e do interior.

A história não mudou muito, à exceção de alguns ajustes temporais e esclarecimentos, mas o livro ficou mesmo muito melhor agora. Depois de ter passado pelas competentes mãos do pessoal da Saraquá e de completar-se com o tratamento visual igualmente inestimável do meu amigo Vinícius da Silva, eu diria que ficou como sempre deveria ter sido. Um livro que extrapola um pouco a dimensão do texto por sinestésico e pelas camadas de tempo pelas quais viaja.

Editora sediada em Cachoeira do Sul, a Saraquá e o Claudio sempre me impressionaram muito com a qualidade das suas edições e eu posso dizer com tranquilidade que não haveria melhor casa para o “FNT”. Além disso, me agrada muito ser coerente com a ideia de valorizar o trabalho hercúleo de quem produz e edita literatura desde o interior brasileiro. Então, o que eu sinto é um tanto de orgulho e respeito por que o romance “renasça” agora definitivamente nessa casa.

Mas bem, como eu disse, a tiragem é realmente pequena e eu penso em esgotá-la ao fim desse processo, quer dizer, não pretendo fazer estoques e ficar vendendo nas redes. Dessa forma, todos os livros que não forem resgatados desse “sequestro” eu pretendo destinar a divulgadores literários e bibliotecas, vencido o prazo do aceitável. E também assumo o compromisso de oferecer a todos que compraram o antigo “Trapézio” um exemplar sem custo dessa edição rebatizada, basta que entrem em contato comigo. No mais, vou procurar comercializá-lo com a ajuda de algumas livrarias tb, algo que agora que começo a ver. E a divulgá-lo mais tb.

Nesse tempo, também poderá ser comprado comigo e criei um site com essa finalidade, além de mostrar assim um tanto do livro. Entre outras coisas, como o texto da orelha que explica a escolha do título, ali também estará a playlist da “contracapa” com os discos e músicas mencionados ao longo do livro que, como qualquer história dos 80, só pode ser mesmo muito musical.

Aqui o endereço do site:
https://ficanatua.com/

Importante dizer também que não se trata de uma pré-venda sem prazo nem horizonte. O livro já está na gráfica e quem comprar até o final do mês eu estou fazendo um valor que é quase de custo + frete. Mais próximo ao fim do mês ou no comecinho de outubro eu já começo a enviá-los, com a minha caligrafia paleográfica.

Eu ainda não entendi direito como vai ser a Feira do Livro neste ano, se apenas as associadas à Câmara do Livro terão espaço para lançamentos. Eu vou tentar agendar lá também, nem que seja pra tirar foto de máscara com quem se interessar em me rever (ou ver pela primeira vez em carne e osso). Se não der, paciência. Virão outras feiras e, a depender, novos livros. A live é outra questão em aberto. Agora, parece que sem live não houve lançamento. Então estou pensando, sim, mais seriamente, agora que arranjei quem colabore com a função toda. Mas a ver. Quando e se confirmar, aviso e prometo uma conversa anárquica, como são as boas conversas.

Enquanto uns vendem terrenos no mar, garrafas cheias de ar até a boca e promessas vagas, eu acho que vou indo bem. Aprendendo ainda. Penso que talvez o velho Og Mandino não me reprovasse completamente..

Margarida de Antióquia

20/07 é o dia de Santa Margarida de Antióquia. Não é uma santa de grande devoção por aqui, mais no hemisfério norte. A história de Santa Margarida é milenar, data de cerca de 300 DC e transcorre no Levante, na Siria antiga, nos 15 breves anos do que teria sido a sua vida inteira. O seu primeiro registro é da época medieval, na Legenda Aurea, o célebre manuscrito de Jacoppo de Varage. O mesmo na qual a história de São Jorge, Santa Marta de Betânia, Santa Bárbara, São Silvestre, São Patricio e outros apareceram em contos escritos pela primeira vez, embora suas histórias fossem bem conhecidas na tradição oral e popular medieval. Naquele conjunto de incunábulos muitas histórias dos santos mártires se popularizaram na Europa cruzada e a santidade e a fé dos mártires serviu perfeitamente para encorajar os militares cristãos em sua batalha centenária contra os mouros. A história de Margarida, apócrifa, nem com iluminura contava.

A simbologia de Santa Margarida repete a de outros mártires que começavam a consolidar o cristianismo nascente durante o último século do império romano ocidental, entre a legalização de Constantino e o édito de Teodósio. Ela mesma teria vivido na época de Diocleciano. Nos séculos seguintes, contra a figura diabólica dos dragões e outras bestas, os mártires confirmavam o credo cristão para depois dissociarem-se na afirmação das primeiras monarquias absolutistas e não era incomum encontrá-los (os dragões) nos escudos e bandeiras da alta idade média, ali como uma lembrança da luta ancestral da qual emergiu (ou na qual foi erguida) a legitimidade das dinastias que governaram as monarquias europeias, cuja autonomia da influência da Igreja só foi se consolidar após a penosa revolução da qual resultaram a reforma, o liberalismo e a moderna noção de estado laico.

Mas há mais do que história factual na suposta (nunca comprovada) vida de Santa Margarida – há a história simbólica e o sacrifício do feminino que o cristianismo começou a empreender desde sua origem (só bem mais tarde com as ordens religiosas de mulheres). Em todas as histórias das santas mártires elas repetem o ciclo de Maria, mantém-se na pureza e depois são elas mesmas sacrificadas. Tornam-se exemplares e fonte de inspiração contra a malignidade e todas as suas tentações na forma dos dragões, normalmente tomados como metáfora diabólica mesmo. Ou meramente adversária..

E é incrível a forma como as mulheres vencem as bestas, se comparadas a São Jorge, por exemplo, que o faz de cima de um cavalo. As mulheres não raro entram em contato direto com os dragões, chegando mesmo a insinuar que seus poderes de persuasão poderiam domesticar o aspecto mais selvagem da besta-fera. Daí que, em muitos credos, a simbologia da luta entre razão x natureza, civilização x barbárie encontre um decodificação perfeita, exemplar, nos mitos cavalheirescos e, mais ou menos ao mesmo tempo, nas baladas populares. E, dessa aproximação, deve-se em muito o caráter diabólico e da contenção do corpo feminino, marcado pela simbologia fecundante, por isso maldito.

Alguns medievalistas, no entanto, e teólogos também, comentam como a Igreja abrigou em seu interior essa simbologia e a incorporou, tornando-se exclusiva portadora tanto de uma mensagem quanto da outra (o mal nomeado pelo bem é mal também), o que também explicaria a sua autoridade para executar obras em nome de Deus com violência, tais como o apoio a expansão de impérios coloniais e as tarefas inquisitoriais. Mas esse é um território muito complexo e, para mim, pouco claro. Dos meandros teológicos eu sei muito pouco, apenas que certamente não devem ser reduzidos a um maniqueísmo barato. Meu interesse é pelas alegorias e o que elas comunicam das crenças e crendices. Não os mitos, mas a mitologia cristã e pagã, e do quanto se confundem.

Na história dos dragões, nunca escrita, Santa Margarida é mais uma a esfolá-lo vivo com a fé imaculada. O dragão, que é o mal em forma de mal (logo não inteiramente mal), é o ser intermediário até o homem cristão e por meio dele será conquistada a purificação. Mito que atravessou as fronteiras no mundo da antiguidade, tanto no ocidente quanto no oriente, ele está na lenda de Siegfried, na de Uther, nos bestiários gregos e nas lendas hebraicas e sumérias. Está no símbolo da sabedoria das virtudes cardinais (até mesmo na Praça da Matriz, em Porto Alegre, sintetizada no brasão dos Bragança a quem Júlio de Castilhos sobrepujou), na alegoria política de Thomas Hobbes e também como domínio do imperfeito e do aspecto brutal do ser humano. Por tabela, das populações bárbaras por dominar e submeter, portanto, como o mal absoluto.

Margarida de Antióquia é a santa que, recusando-se a casar contra a vontade, converte-se ao cristianismo também contra a vontade do pai, um sacerdote de aldeia, por quem, por essa razão, é repudiada. Aprisionada, torturada ao extremo, martirizada, Margarida é a santa dos nascimentos e do bom parto, padroeira das gestantes e por meio de quem Jona D’Arc iluminou-se. No claustro, em solidão, encontrou-se (sem nenhuma razão aparente) com o mal na forma de um dragão e o subjugou (há versões apócrifas que dizem que fugiu da prisão dentro do seu corpo, num sacrifício carnal como querem alguns estudiosos do medievalismo), depois matando-o para renascer purificada e, por fim, morrer decapitada.

Na história cristã, virgem consagrada e inimiga ardorosa do paganismo. Na história dos dragões, que eu saiba, uma lenda só. Quase nada.. (carece de fontes)

* * *

Margarida de Antioquia
2017

Tenho lutado sem forças
contra o que nem posso saber.

Posso entender, no entanto,
o que de mim quer Margarida.

Com nome de flor do campo
e um olhar sereno que furta

o cansaço que dorme em meu corpo
quer me tirar a pele hirsuta,

despir-me até de minha alma,
levar-me embora da vida.

2

Para tanto, ela esculpiu-me
na pele de um monstro hediondo,

disse-me um sujeito tremendo,
implorou meu poder já desfeito

como se o quisesse portar,
parece, em seu corpo.

3

Eu, que buscava dormir
no profundo interior desta gruta,

despertei, como se dado a viver
na benção a mim conferida

pelos mais belos olhos
da alma mais quente dos prados

e fui encontrar-me com ela
para desde então ser banido

e do mundo dos justos aos ímpios
descer em poucos segundos.

4

Eu sabia meu nome dos livros,
mas, sem nunca haver pronunciado

uma queixa de dor ou lamúria,
ela o aprendeu de minha boca

como se eu que a tivesse chamado –
o seu tinha a beleza da vida…

5

Ela sabe e eu sei
que nenhum de nós deve morrer,

mas, de outra maneira,
a paz abandonará estes tempos

até um de nós perecer.
Lutaremos, assim deve ser.

6

Vestido das roupas mais velhas
para o seu corpo envolver,

pensei em levá-la comigo
a um ninho nos céus, um abrigo,

e em farrapos compareci
ao juízo e à ira do povo

parecendo um velho por fora.
Por dentro, o mesmo menino.

7

Minha pele é para ela envolver-se
e pensar que sou como ninguém.

Acima das nuvens, perto de Deus
ou ainda mais longe, além

de tudo e de todos, mas, do meu destino,
Margarida não quis saber.

E entregou meu corpo ao meio partido
no qual a levava comigo

aos mercados da Antioquia
onde nunca valeu um vintém.

Duas peles

Eu nunca vi um gato. Nem sei como eles são, na verdade. Na minha rua, nunca houve um deles. É como se vivêssemos num deserto ou mar adentro, onde também não há gatos.

Agora que trouxemos para casa um cão, sentimos a presença cada vez mais próxima dos gatos. É estranho. É como se eles passassem a habitar um andar suspenso, por tudo, a evitar o encontro definitivo com o cão. E é justamente por não vê-los que mais os vemos. Só ainda não sabemos porque essa curiosidade repentina quanto a nós e nossa vida. Será algo que comemos? Algo que oferecemos ao cão e eles pensariam se ofereceríamos a eles se fossem eles os animais domésticos? Ainda não vimos os gatos (pelo menos eu não), mas agora estamos sempre sentindo a sua vigilância.

Tenho certeza também que um dia serei acordado por olhos que serão de gato. Mas como saberei? Poderá ser o cão com uma máscara, mas os cães não são dados ao fingimento. Poderá também ser um gato com máscara de gato ocultando a verdadeira e desconhecida face do gato. Seja como for, como não sabemos lidar com eles, devemos apenas aceitar a sua presença.

Outra coisa que eu não duvido é que, um a um, ele nos escravizará com a sua ausência. Será como se ele pudesse chegar a qualquer momento, pois os gatos não reconhecem os limites das janelas ou portas. Não importa a cor da sua pelagem, ele chegará (espero eu) depois das seis da tarde, quando eu estiver cansado o bastante e depositar os óculos sobre a prateleira e, naquela penumbra, descansarei finalmente do dia passado na luminosidade do laboratório.

O cão, eu sei que ele já se acostumou ao perfume químico das minhas mãos e roupas, mas, e o gato? Tolerará? Eu não sei, todavia ontem mesmo providenciei nova tigela – não outra para o cão, mas uma só para ele. Dessa forma, quando ele chegar, terá certeza de ser aguardado e bem recebido. Quanto a nós, teremos um gato sem tê-lo, pois esse é o jeito certo de ser e ter do gato. Deve ser assim. Eu nunca vi um gato exceto o que veio dentro da pele do cão. Quando ele me olha daquele jeito que seleciona as camadas da realidade, eu me esqueço de tudo e fico imaginando o que ele deve ficar enxergando em mim.

Lugar da poesia no pensamento brasileiro

O ensaio foi também publicado na revista Sísifo (13), jan./jun. 2021

Mesmo que soe sempre como um “a quem interessar possa” ou uma encoberta inclinação filosófica, é constante a presença mais ou menos declarada do que se definiu chamar metapoesia em boa parte da obra publicada pelos poetas brasileiros do séc. XX. Considerando que é uma expressão que se volta para si mesma, é de pensar que o interesse do público quanto aos processos intelectuais e estéticos dos poetas fosse bem menor que os motivos líricos mais corriqueiros e de interesse universal. Ainda assim, continuando uma tradição auto especulativa que rendeu poemas até hoje lembrados e interrompendo um tanto a fluência e dicção de extração mais coloquial, o espaço da poesia de caráter mais reflexivo – embora limitado – está garantido na história literária nacional por meio de seus maiores expoentes, tais como o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e os fluminenses Dante Milano (1899-1991) e o contemporâneo Paulo Henriques Britto.

Ao menos na poesia em língua portuguesa – em especial a realizada no Brasil – os exemplos não se encerram nestes nomes e abordam desde poemas tomados isoladamente como livros inteiros dedicados a pensar a metalinguagem empregada na poesia. São cada vez mais presentes, aliás, estudos que examinam as obras dos poetas em particular sob esse aspecto, como em Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, entre muitos outros nomes. Fora isso, o interesse de muitos poetas brasileiros recentes (no limite, estou pensando do fim da Primeira Guerra Mundial em diante) voltou-se frequentemente a questões menos atinentes à metapoesia e ao ordinário cotidiano, dirigindo-se a outros aspectos de interesse da filosofia, tais como as relações do indivíduo com o mundo social em suas diferentes perspectivas, impactando diversamente a vida intelectual do país.

Para além de deslocar-se do etapismo por meio do qual muitas vezes se aborda a história literária, pode consistir num campo de estudos interessante a análise da contribuição da poesia na história do pensamento brasileiro e a verificação da inclinação dos poetas a refletirem tanto quanto a si mesmos como suas escolhas e intenções temáticas. Dado que o contato dos poetas com as ideias filosóficas do seu próprio tempo costuma ser muito presente, é possível que naquela poesia mais reflexiva tais ideias compareçam de uma forma mais explícita, contaminando sua produção de acordo com o seu contato com essas ideias e a sua permeabilidade subjetiva.

Desde que se esclareça que essa interferência ocorra de modo multilateral, ou seja, sem uma ordem de precedência ou influência, poderemos ver também que, a seu tempo, muitos poetas brasileiros introduziram questões filosóficas entre o público leitor brasileiro (e mesmo entre outros poetas e intelectuais). Isso pode ter ocorrido sobretudo em momentos nos quais pouco havia de realização e publicação nacional original em filosofia. Trata-se, portanto, de garantir que cada qual seja percebido conforme a sua perspectiva particular, numa amostra da elasticidade intencional nas relações possíveis entre poesia e filosofia realizada pelos diferentes poetas.

No decurso histórico, a necessidade de uma expressão poética mais reflexiva não parece ser distribuída igualmente, então sua visibilidade é proporcional tanto aos movimentos culturais globais quanto às problemáticas com as quais a sociedade precisa lidar e, principalmente, quanto à medida a qual poetas sentem-se tocados por essas questões. Tanto a distinção histórica quanto a diversidade cultural impactam as motivações criativas de modo muito particular. Enquanto para João Cabral de Melo Neto, por exemplo, a extrusão de uma poética intelectualmente rigorosa decorre de uma percepção mais preocupada com a expressividade do que com a subjetividade, a poesia de Dante Milano, por seu turno, é mais atenta aos processos mentais e metafísicos. Já Paulo Henriques Britto, poeta contemporâneo que traz em sua produção um forte componente autorreflexivo, debate-se com o esgotamento da lírica em substituição a outras formas, como a canção, e investe mais na investigação dos impactos da representação e dos limites da autoexpressão. Dessa forma, Britto retorna com mais vigor ao debate a respeito da criação poética do que parece importar aos seus contemporâneos, isso pelo menos quanto é possível verificar na produção contemporânea publicada em livros, em periódicos especializados e antologias, de acordo com debates realizados por estudiosos e interessados na mídia cultural. Todavia seria uma limitação sem sentido atribuir a ele esse interesse exclusivo, pois a sua poesia, principalmente a registrada em seu mais recente livro, Nenhum mistério, avança muito mais em direção ao que pode a poesia em relação ao pensamento subjetivo do que aos seus aspectos formais.

É importante que se diga que o interesse aqui não é proporcionar uma leitura comparada dos poetas, mas a verificação da autopercepção e seus impactos na subjetividade expressa na poesia brasileira recente, examinando a disposição de alguns poetas em investir mais na poesia de cunho reflexivo e seu impacto na história cultural e do pensamento. Tomando-se em conta as implicações históricas particulares que afetaram diversamente aos poetas ao longo de quase um século, é preciso não ser restritivo quanto ao distinto aporte cultural de cada um nem as suas preferências e influências filosóficas. De outro modo, considerar estas questões como naturais apenas pode garantir que não se esteja procurando qualquer espécie de nivelamento prévio.

Por tratar-se essencialmente de uma metalinguagem voltada ao próprio psiquismo, a metapoesia tem uma expressão diversa e dispersa em muitos poetas. Alguns terão escrito um verso dentre muitos manifestando o contexto do qual emerge sua expressão; outros registrarão poemas dedicados a discutir a sua criação quanto às questões históricas e estéticas; alguns ainda tratarão do tema em livros inteiros ou em comentários redigidos na forma de artigos e ensaios. Talvez fosse inocente demais considerar que os poetas não elaboram uma avaliação do que criam, mas o séc. XX e a emergência modernista no Brasil tornou muito evidente este debate entre poetas no que diz respeito a sua criação, também comparativamente. É possível imaginar que, muitas vezes, não se trata apenas da defesa de uma concepção estética individual, mas de um debate mais complexo no qual se podem antever as influências filosóficas que mais os atingem e a maneira como eles resolvem a intrincada relação que se estabelece na apreensão do mundo, das ideias que nele circulam e a forma final que tudo isso impacta a criação e os interesses subjetivos.

Encontrar-se evidências ou vestígios de metapoesia, portanto, às vezes significa a expressão de uma preocupação menos aleatória do que parece à primeira vista, pois constituinte do psiquismo e do processo criativo criação de cada poeta. Além disso, como os poetas costumam conhecer-se mutuamente e trocar impressões, muitas vezes acontece desse debate evidenciar-se entre contemporâneos ou em análises históricas, de poetas do passado. Quando um poeta como Manuel Bandeira escreve a sua “Poética” e afirma do que lhe interessa, está manifestando a sua impressão a respeito do que vinha sendo feito e suas preferências. “Estou farto do lirismo comedido”, disse ele para anos mais tarde rever a si próprio e “lançar a teoria do poeta sórdido”. E quando João Cabral de Melo Neto diz a Carlos Drummond de Andrade que “não há guarda-chuva/contra o poema” e este declara a Manuel Bandeira que “(…) a minha / musa de pescoço fraco / a ver-te, mete a violinha / no saco” e Bandeira, por sua vez, escreve um livro inteiro de Louvações a outros poetas, vê-se nitidamente que os poetas dialogavam por meio da poesia para além da eventual ou corriqueira correspondência, a depender da intensidade do laço de amizade. O hábito de Drummond em dedicar versos inclusive foi reunido pelo também poeta Eucanaã Ferraz no volume intitulado Versos de circunstância, publicado em 2011 pelo Instituto Moreira Salles. Quanto à obra de João Cabral Melo Neto, Antônio Secchin registrou nela a ocorrência de dedicatórias e menções em 13 dos seus 20 livros.

Também os seguintes versos são muito demonstrativos de que os grandes poetas brasileiros modernistas e os subsequentes ocuparam-se da autorreflexão e da metapoesia muitas vezes: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã.” – Carlos Drummond de Andrade; “O poema final ninguém escreverá.” – João Cabral de Melo Neto; “O poema deve ser como a nódoa no brim” – Manuel Bandeira; “Fere de leve a frase… E esquece…” – Mario Quintana; “Entendi que as palavras / daquele modo agrupadas / dispensavam as coisas sobre as quais versavam / meu próprio pai voltava indestrutível.” – Adélia Prado; “Densa / a palavra fere / o branco / expulsa a presença e – humana – é esplendor memória / e sangue.” – Orides Fontela.

Assim como seria inocente cogitar-se a ausência de reflexão dos poetas quanto a sua poesia, seria igualmente ingênua a suposição de que tenham se restringido a pensar apenas em si próprios. Caso fosse assim, aliás, como angariariam a simpatia dos leitores? Aí estão as coletâneas póstumas, de correspondência, artigos para a imprensa e ensaios que podem demonstrá-lo. Em relação à filosofia da composição, o desenvolvimento dos estudos acadêmicos propiciou inclusive que muitos poetas com formação em filosofia elaborassem ao mesmo tempo obra crítica e poética. No presente, os mais conhecidos no Brasil parecem ser Antonio Cícero, que tem dois livros abordando a intersecção/afastamento entre os campos filosófico e literário, e Alberto Pucheu, que, por sua vez, organizou um dos poucos livros recentes que abordam a congruência dos temas. Adélia Prado, embora tenha formação pela Faculdade de Filosofia de Divinópolis, ao que me consta não tem publicação teórica a respeito da poesia, a despeito de ser uma poeta que reivindica muito em seus poemas o lugar da reflexão metafísica e tenha algumas poucas vezes concedido entrevistas e realizado conferências a respeito de sua obra. Adélia é muito mais conhecida por poeta, no entanto, que por filósofa. Orides Fontela, que em 1983 foi premiada com o Jabuti de poesia por Alba, formou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo e registrou num único ensaio a sua percepção quanto aos dois temas, afirmando que, em seu ideal, “poesia não é loucura nem ficção, mas um instrumento altamente válido para apreender o real” (FONTELA, 2018, p. 11). E provavelmente haja outros nomes não tão conhecidos ou menos evidentes que presentemente estudam filosofia e escrevem poesia de forma concomitante, uma vez que nem toda a poesia escrita é bem divulgada e difundida.

No exterior, são bastante conhecidos muitos filósofos que também foram aos versos para expressarem-se; ocorre-me rapidamente a alemã Hannah Arendt (cuja obra poética traduzida para o português parece estar finalmente avançando) e, um pouco mais remotamente, Miguel de Unamuno. Também seria possível buscar aqueles poetas cujas obras foram tomadas em algum momento como ponto de partida de estudos teórico-filosóficos, tais como Wallace Stevens, T. S. Eliot, Paul Celan, Robert Frost e outros – são os assim chamados philosophical poets. Especificamente Hannah Arendt interessa a esta argumentação porque, mais adiante, será possível verificar que ela discute em seu livro final, A vida do espírito, não apenas a origem e relevância da metáfora na constituição e organização do pensamento, mas também o tempo, elemento constantemente evocado na poesia de muitos poetas do modernismo brasileiro, como Cecília Meireles, Jorge de Lima e Mário Quintana.

Para além das preocupações autoexpressivas e metalinguísticas observáveis na poesia, as ideias filosóficas, por outro lado, muitas vezes nela diluem-se em temáticas e abordagens tão diferenciadas quanto são as vozes poéticas. As inflexões filosóficas e reflexivas ocorrem, por essa razão, de forma assistemática e essencialmente desigual, com algumas poéticas mais atentas ao mundo externo e outras ao mundo interno, mas num movimento desuniforme. Além da reflexão sobre a poesia e o ato de escrevê-la, poetas de todas as épocas têm induzido por meio de suas obras as pessoas à reflexão. De uma forma religiosa ou profana, sob o rigor formal ou por meio do verso livre, não importa, o poema “altera” o mundo sem alterá-lo efetivamente. Faz simbolicamente e é por meio de suas atribuições figurativas e argumentativas que no leitor cresce ou decresce sua empatia para com ele, numa negociação de linguagens, crenças e expectativas. O poeta, por meio de seus recursos e artifícios, causa sem causar no mundo físico, mas atinge o psiquismo das pessoas na sua emoção, sentimentos e capacidade reflexiva.

Se é mesmo vedado ao poeta descrever ou narrar completa e efetivamente seus sentimentos (para o filósofo coreano Byung-Chul Han “nem o afeto nem a emoção são narráveis”) (HAN, 2018, p. 60), seu elo comunicativo com o leitor então é sempre limitado e incompleto, pois duas pessoas nunca são plenamente equiparáveis em personalidade, experiência e compreensão. Contudo, mesmo considerando países com letramento precário como o Brasil, é na poesia que as pessoas muitas vezes primeiro tomam contato com ideias intelectuais mais elaboradas ou filosóficas e criam laços importantes de identificação com poetas e suas ideias e metáforas. Se a incomunicabilidade entre as pessoas é por vezes facilmente identificável e constatada, também é notável a capacidade que muitos poetas têm de induzir as pessoas às emoções e pensamentos menos usuais na vida cotidiana, gerando empatia e identificação. Por muito tempo, os jornais brasileiros contaram com poetas que contribuíram regularmente e que, desse modo, fizeram-se conhecidos e deram a conhecer sua visão de mundo e de humanidade.

Evidentemente que, ao longo de um século (e ainda por cima um século como o vigésimo), os padrões comunicativos e estéticos se alteraram muitas vezes; e radicalmente em muitas delas. A poesia, que se desenvolveu e transformou a reboque de movimentos históricos, políticos e culturais marcantes, foi inevitavelmente impactada por todos esses elementos sociais e históricos, além dos provocados por movimentos de reivindicação estética ou ideológica. Foi durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial que um poeta com uma dicção um tanto incomum se fez notar entre os leitores e autores modernistas, diferenciando-se ao mesmo tempo do modernismo brasileirista, do grupo espiritualista reunido em torno da revista Festa e também dos elegíacos Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes: em 1948, contra a sua vontade, pois preferia a posteridade à publicação, Dante Milano impactaria leitores e crítica com sua lírica cerebral, por meio do livro Poesias, publicado pela José Olympio no Rio de Janeiro.

Dante Milano

No período anterior à publicação de Poesias, livro que reúne os poemas que foram praticamente todos os que ele escreveu (ou pelo menos manteve) em vida, Dante Milano publicou esparsamente em jornais, principalmente no suplemento Autores e Livros, do jornal A Manhã, poemas, traduções e artigos a respeito de literatura e outros assuntos. Ainda assim, para a crítica da época, composta por alguns estudiosos e muitos escritores, o seu lançamento em livro foi determinante para balançar ainda mais a torre modernista, pois a sua poesia intelectualizada exigia uma percepção mais acurada que, pelas mãos de amigos e admiradores de anos anteriores, não tardou a chegar. Dante Milano guardou o quanto pode seus poemas e sua publicação tardia, por esforço de amigos, em 1948, constituiu, de acordo com Sérgio Buarque de Holanda, no evento literário mais importante da vida literária daquele momento. Além dele, Franklin de Oliveira, Paulo Mendes Campos e Manuel Bandeira também, no calor do momento, saudaram a chegada de seu livro e dedicaram-lhe críticas muito positivas.

Essa poética intelectualizada, em grande medida filosófica, nascia para o Brasil como outros poetas haviam aparecido no mundo, tais como Fernando Pessoa em Portugal, Eugenio Montale na Itália e T. S. Eliot e W. H. Auden no mundo anglófono. De acordo com Ivan Junqueira, Dante Milano esfriava um pouco o ânimo naturalmente exaltado do brasileiro e de forma inaudita:

É que, contrariando as tendências efusivas e algo emocionais da poesia brasileira – mas não, necessariamente, as da poesia de língua portuguesa -, Dante Milano cultiva uma poética do pensamento emocionado, como o fizeram os chamados “poetas metafísicos1” ingleses do séc. XVII, o que não significa que sua expressão haja renunciado à emoção. Quem nele sente, porém, é o pensamento (JUNQUEIRA, 2005, P. 300).

Embora não fosse filósofo e nem comungasse das propostas estéticas das vanguardas do entre guerras e preferisse a austeridade das formas fixas às experimentações em verso livre, a sua publicação viria a influenciar mesmo poetas que surgiram e foram publicados antes dele, como Murilo Mendes. Murilo, mais espiritualizado do que ele, também escrevia uma poesia bastante diferenciada em relação aos seus contemporâneos, mais por conta de uma autoimersão na proposta surrealista, tendo uma visão muito particular a respeito do que a poesia deveria realizar: “a poesia deve propor não só um conhecimento, mas ainda uma transfiguração da condição humana, elevando-nos a um plano espiritual mais alto.” Dante Milano, por outro lado, não se devotava de todo às ideias metafísicas e, mesmo identificado por seus críticos como o poeta do “pensamento emocionado”, costumava conservar uma lucidez constante quanto às possibilidades poéticas e as suas como indivíduo. Essa atitude filosófica que transborda para a sua poesia de certo modo compeliu muitos leitores sensíveis e outros poetas também na realização, a seguir, de uma poesia mais introspectiva.

Além dele, outros poetas, modernistas e posteriores, cada qual com sua peculiaridade, aproximaram-se dos temas mais reflexivos por desejo autônomo. Embora Vinicius de Moraes abandonasse o misticismo religioso com Forma e exegese e passasse a tematizar preocupações mais mundanas, com o lançamento de Mar absoluto, de Cecília Meireles e O aprendiz de feiticeiro, de Mario Quintana, a poesia mais introspectiva aprofundou suas raízes e expandiu sua presença na literatura brasileira na década seguinte, quando Carlos Drummond de Andrade publica os seus dois livros mais intelectualizados (ou filosóficos): Claro enigma e Fazendeiro do ar e João Cabral de Melo Neto, com o Cão sem plumas e Psicologia da composição, aprofunda sua reviravolta formal e consolida sua poesia lúcida e visual de forma ímpar na poesia brasileira.

Porque recluso da vida social literária – embora guardasse amizades duradouras com os principais artistas e intelectuais da sua época – Dante Milano descolou-se muito das influências predominantes no período, em sua maioria provenientes do exterior, e recuperou da leitura dos clássicos e da filosofia muito de sua perspectiva peculiar. Mal situado no modernismo e na poesia de vanguarda que logo apareceria com mais força no Brasil, na década de 50, mesmo um crítico estudado como José Guilherme Merquior preferiu colocá-lo como um dos poetas “avulsos” em meio às principais tendências poéticas do modernismo brasileiro, sem deixar de registrar a particularidade de sua “marca de permanência” dada pelo rigor que aplicava na expressão de sua poesia intimista.

Voltando sua atenção a temas filosóficos universais e ao drama humano marcado sobretudo pela consciência do desamparo da finitude, Dante Milano desembaraçou-se de debater em sua poesia muitas questões candentes de seu tempo, o tempo da Segunda Grande Guerra. Todavia, em seus artigos e pequenos ensaios, ele também se dedicou a assuntos de interesse político e voltou-se algumas vezes à poesia contemporânea, mas ainda mais a do passado, com a de Dante e de Baudelaire, que traduziu. É o suficiente para desmentir a hipótese de poeta isolado do mundo e afastado dos problemas de seu tempo, ainda que o “tempo” considerado filosoficamente parece ter-lhe ocupado mais e rendido um dos estudos mais conhecidos, publicado em 1942 no suplemento Autores e Livros. Em Na biblioteca do tempo, Dante Milano demonstra sua preocupação acerca da transitoriedade de tudo, inclusive da modernidade e confirma assim a sua preocupação em manter a sua própria percepção do mundo por meio da escrita: “O Tempo é um velho leitor, atento e incansável. Nem um instante larga o livro. Parece que da vida só existe para ele aquilo que ficou escrito. O resto desaparece, o Tempo não o lê.”

Na poesia de Dante Milano, o desencanto com a própria condição humana o conduz a uma espécie de rendição à aniquilação inevitável da existência. De um tempo fugaz, preenchido pelo cotidiano e pela materialidade das coisas, Dante Milano se desprende em direção ao pensamento em sua forma mais pura, decisiva para ele mesmo e menos intencional que poderia ser uma poesia mais cerebral. Que ele tenha tratado isso de forma encantadora e poética se deve, talvez, ao seu intenso amor pela arte poética e pelo que ela consegue devolver ao poeta do que o tempo e a condição humana, débil e finita, a própria vida paulatinamente foi quitando. Sem nunca perder essa autoconsciência, talvez como a obra de Fernando Pessoa se concentra sobremaneira na dualidade do ser e do pensar o ser, Dante Milano conseguiu consagrar na poesia brasileira uma mentalidade mais autocrítica do que crítica do mundo e diferenciou-se dos demais poetas brasileiros de sua época pelo que Paulo Mendes Campos denominou de “antilirismo lúcido”, confluindo o pensamento simbólico da poesia em direção a uma subjetividade esvaziada pela ruína moral experimentada pela humanidade no período em torno ao horror da Segunda Guerra Mundial. Possivelmente pelo arruinamento do mundo, Dante Milano tenha se voltado à introspecção. Dessa sua tendência ou determinação, não importa, conseguiu criar sonetos, cantigas e poemas em verso livre sobre a própria condição da existência, como nos versos a seguir:

Cantiga

A vida é tempo perdido.
O que se ganha é bem pouco.
Que vale ao morto o vivido?
Que vale ao vivo, tampouco?

E nunca me sai do ouvido
Esse rumor incessante:
“A vida é tempo perdido”…
Oh, que marulho distante,

Voz de sepultos oceanos
Num caracol aturdido.
Longos dias, breves anos.
A vida é tempo perdido.
(MILANO, 1979, p. 49)


Lugar da poesia no pensamento brasileiro

Não há dúvida que Dante Milano não foi o único poeta brasileiro que se voltou a uma tendência intimista no decurso do séc. XX. Muitos outros poetas já mencionados o fizeram e precederam, porém, a radicalização empreendida por ele até a sua aparição era inaudita. Talvez por conta de seu afastamento dos círculos literários ou por suas predileções temáticas particulares, nunca se poderá saber ao certo, sua dicção se diferenciou bastante dos seus contemporâneos, apesar de muitos compartilharem mais ou menos de preocupações subjetivas e desenvolvessem também uma poesia de caráter mais especulativo, aproximando-se do pensamento mais filosófico ou, como às vezes suponho, tenha especulado filosoficamente por meio da poesia, embora não seja por isso, entretanto, que um poeta possa ser mais ou menos notável em razão de sua poesia. Como adverte o poeta e filósofo Antonio Cicero: “o que torna um poema admirável enquanto poesia não é o que torna um texto filosófico admirável enquanto filosofia” (CICERO, 2012, p. 30).

De todo modo, o trato com categorias simbólicas e a expressão do sentimento pessoal e interpessoal é motivo constante na poesia brasileira do séc. XX, e a própria conformação de um público leitor de poesia decorre de sua identificação para com poetas próximos e daqueles que se fizeram conhecer popularmente sobretudo por meio da publicação na mídia impressa. De acordo com Carlos Felipe Moisés:

“A valorização da intimidade, na lírica moderna, de certo modo define o caminho a ser inevitavelmente explorado tanto pelo leitor quanto pelo poeta, qual seja o do convívio mais estreito com a vida interior. Para o poeta não há alternativa. Dispensado das atividades diárias da Urbe utilitarista e inóspita, este se recolhe na subjetividade, de onde espera extrair a matéria de sonho e realidade a ser carreada para seus poemas. Já o leitor será convidado a reproduzir a experiência do recolhimento, primeiro na condição de confidente privilegiado, diante de quem (ou diretamente a quem) o poeta expõe suas inquietações profundas, seus receios e anelos, sua mais secreta intimidade, na expectativa de encontrar algum acolhimento, recepção afetiva e compreensão. O convívio com a interioridade alheia conduzirá o leitor, num segundo momento, a desenvolver a experiência paralela do convívio com sua própria vida interior, seja sob o signo do contraste e da repulsa provocada pelas “estranhas inquietações do poeta, seja sob o signo da empatia e da identificação eventualmente experimentadas diante dessas mesmas inquietações.” (MOISÉS, 2007, p.92).

Considerando um período histórico no qual os estudos filosóficos acadêmicos recém começavam a ser publicado na forma de livro e o mundo das ideias era tratado por pessoas de formação diversa, como juristas, escritores e jornalistas, muitas reflexões de natureza existencial chegaram ao público leitor pela forma poética. Dado que o mundo da canção popular se ocupava cada vez mais dos motivos líricos, o campo filosófico abriu-se também aos poetas. Em que medida cada poeta apropriou-se desta ou daquela ideia seria uma tarefa imensa por descortinar, porém certa tendência intelectualizada se confirmou na poesia brasileira a partir dos poetas que abertamente abordaram os grandes temas filosóficos, Dante Milano entre eles.

Os precedentes dessa tendência estão no mundo por toda a parte e evidentemente os poetas e estudiosos brasileiros vinham travando, como desde o séc. XIX, contato com a poesia e a crítica realizada no estrangeiro. Paul Valéry, T. S. Eliot, André Breton, Francis Ponge e críticos como Edmund Wilson eram bem conhecidos entre os modernistas, assim como os poetas portugueses reunidos em torno da revista Orfeu e Presença.

Fernando Pessoa, o autor de Autopsicografia, o poema metapoético por excelência, influenciou os poetas brasileiros e inclusive Cecília Meireles teria procurado encontrá-lo pessoalmente, em Lisboa, alguns anos antes de sua morte, em 1935. Ele, que pensava em si mesmo tanto na forma de poesia como analítica, tinha uma autocrítica incomparável tanto em relação às possibilidades da poesia como a cotejava permanentemente com a filosofia, ocultismo e tantas outras coisas que estudou. Numa das autodefinições encontradas em suas anotações filosóficas, ele se diz como “um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas (PESSOA, 1966, p. 14)”, mas, logo a seguir, diz por meio de seu heterônimo mais antifilosófico, Alberto Caeiro, que “Os poetas místicos são filósofos doentes, / E os filósofos são poetas doidos.” (PESSOA, 1946, p. 53). Conforme comenta Leyla Perrone-Moisés, quanto a ele “os citadores contumazes parecem não se perturbar com o fato de, para cada citação de Pessoa, haver outra que diz exatamente o contrário” e mais, que “cada vez que Pessoa é citado, é em nome de uma verdade; ora suas verdades são tantas e tão contraditórias que, no conjunto, negam a existência de qualquer verdade.” (PERRONE-MOISÉS, 2000, p. 146).

Como Heidegger ao procurar na poesia de Holderlin a expressão mais autêntica do sentimento moderno, filósofos muitas vezes se valeram do trabalho de poetas para situar e analisar a história das ideias. No Brasil, o estudo da poesia com base em sua apreciação filosófica tem menos um marco acadêmico que autocrítico, sendo normalmente realizada tanto por outros poetas e escritores quanto pelos próprios. A Segunda Guerra Mundial, se trouxe para cá o desencanto de um projeto de modernidade arruinado, trouxe também muitos estudiosos que rapidamente se integraram à vida intelectual brasileira, como Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai e outros. Apesar da tradição nacional de estudos literários do séc. XIX, esses críticos tinham mais facilidade com idiomas e tradições literárias pouco difundidas até mesmo no Brasil dos modernistas. Já na década de 1950, a compreensão da poesia brasileira e seus movimentos externos se encontrava bem mais consolidada, mas, até então, poetas escreviam muito a respeito de si próprios e a metapoesia serviu bem a esse propósito reflexivo ainda carente de uma abordagem essencialmente crítica, como a inaugurada nos trabalhos de Aurélio Buarque de Holanda, Antonio Candido e seus tantos discípulos.

À parte essa aproximação, é interessante notar que quando o mundo letrado parecia ser mais permeável ao cidadão comum e não tanto território de especialistas e teóricos, menos se distinguia essa irmandade entre poesia e filosofia e, contraditoriamente, mais elas se mesclavam. Qualquer pessoa que trave contato com os grandes poetas em língua portuguesa do séc. XX encontrará pessoas que se preocuparam e exprimiram, por meio da literatura, inquietações filosóficas, religiosas, políticas, mas, sobretudo, subjetivas. A especialização dos estudos literários, por um lado, permitiu uma compreensão mais detalhada e esmiuçada do fenômeno poético, por outro, tornou menos terrenas as inquietações poéticas que, para alcançar esse status, precisaram cada vez mais nutrir-se de elementos estéticos de diferenciação à teorização crescente. Embora aqui não se deseje avaliar a qualidade disso ou daquilo, este impasse acabou se tornando central na consolidação de um repertório literário. Este é um problema, portanto, da alçada da contemporaneidade. A questão de examinar a metapoética e a aproximação da poesia contemporânea com outros campos de saber, tais como a filosofia ou a história, por exemplo, parece ser um larguíssimo território por explorar.

Ao longo da segunda metade do séc. XX, o Brasil protagonizou, assistiu e absorveu muitas outras influências. Desde o cinema norte-americano até a literatura do pós-guerra e, de forma atrasada, autores centrais anteriores à guerra, como Kafka, que teve em Carpeaux um dos seus primeiros difusores no Brasil. A questão interessante de pensar o séc. XX é que seus principais autores e poetas produziram ao longo de todo esse tempo, transformando uns aos outros. Nessa segunda parcela do século, encontram-se ativos e produtivos boa parte dos poetas modernistas, como Drummond e Bandeira, além de testemunharem a chegada de outros e o nascimento de vertentes muito características do período como, por exemplo, o movimento concretista. Talvez porque seja da natureza da poesia justificar-se ou explicar a si mesma e aos demais, também aí se observa uma considerável produção de metapoesia e crítica elaborada pelos próprios poetas, avançando-se até o final do século com diversos percalços de ordem política nesse intervalo.

Ferreira Gullar, poeta que surge em 1955 com A luta corporal, além de romper com a discursividade lírica do modernismo, pensa a respeito de sua poesia e apaga nela um tanto da expressividade de tom confessional predominante na geração de 1945. Para Gullar, “o poeta, portanto, não cria, não inventa, mas apenas diz, mostra o existente existindo” (GULLAR, 1978, p. 47). Sua poesia, para Ivan Junqueira “descarnada” e “seca”, simboliza a partir do real e é reflexiva também quanto ao próprio estar no mundo do poeta e sua passagem pela vida:

Lição de um gato siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
           finita
           da minha precariedade.

O tempo fora
de mim
            é relativo
mas não o tempo vivo
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo.

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo).
(GULLAR, 2015, p. 496)

Cada qual a seu modo e sob influências as mais diversas, poetas buscam sempre formas de fixar as inquietações subjetivas e mundanas conforme alcançam a percepção do mundo e de si próprios. Algumas vezes, de acordo com a compreensão de Susan Sontag a respeito da arte moderna e do “hábito crônico” em desagradar, essa comunicação foi inteiramente negativa, ou mesmo “inaceitável”; isso pode tanto significar a intenção de silenciar a repercussão pública ou impactá-la. Pelo menos nos momentos políticos mais opressivos também ocorreu um chamado à poesia engajada. Nos anos 80, Paulo Leminski, poeta modelar da geração pós-marginal, tentou definir dessa maneira o que seria a função do poeta, ao mesmo tempo sujeito existencial e social: “Os poetas dizem uma coisa que as pessoas precisam que seja dita. O poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental, ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade.” (LEMINSKI, 1985). Isso sem falar que um poeta canônico como Drummond reiterou até o último momento (como em entrevista de 1987, pouco antes de sua morte) ser “inteiramente partidário da ideia de inspiração” (EMEDIATO, 1987), demonstrando a concomitância de vozes e perspectivas poéticas.

No que interessa mais ao estudo do pensamento e às relações com a poesia, e desbastando os abundantes estudos sobre os aspectos filosóficos na poesia de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e qualquer um dos grandes nomes da poesia do séc. XX, surgem nomes recentes e contemporâneos que poderiam ser bem observados nessa relação. Além de Orides Fontela, que foi uma poeta que também teve formação acadêmica em filosofia, penso que a poesia de Leonardo Fróes, a do próprio Antonio Cícero e, mais ainda, de Paulo Henriques Britto, poderiam ser apreendidas no viés de uma poesia que pensa a respeito de si mesmo e do mundo de forma mais especulativa e menos lírica. Esta suposição decorre da leitura dos mais recentes livros de Britto, Formas do nada e Nenhum mistério. Nos dois livros, além da metapoesia formal, vê-se também, e muito, a presença da metapoesia subjetiva, que investiga a motivação do pensamento em contraposição ao efeito criativo de consolidá-lo.

Paulo Henriques Britto

No intervalo geracional que vai desde o momento posterior ao fim do período militar até o presente, parece precipitado e injusto apontar uma dicção homogênea na poesia brasileira. Seria muito possível apontar nomes de outras tendências e estilos, mas interessa notar que, por também ser um teórico da literatura, Paulo Henriques Britto é bastante exemplar de uma trajetória poética que reflete muito a respeito de si mesma, como é bastante verificável em outros poetas que também se dedicam aos estudos acadêmicos. Britto pertence a uma geração que apareceu publicada em torno aos anos 1980 e 1990. De uma tendência formalista e afeita às formas fixas, apenas recentemente Britto tem permitido um maior acento emocional em sua poesia sempre contida e cerebral, aliás, como toda uma geração que foi bastante influenciada pelo anti-lirismo, principalmente o difundido por meio da poesia de João Cabral de Melo Neto.

Seu primeiro livro de poemas remonta a 1982, com Liturgia da Matéria, e chega a 2018, com Nenhum Mistério. Nesse meio tempo, recebeu prêmios importantes como o Alphonsus de Guimaraens, por seu Trovar Claro, de 1997, e o Portugal Telecom (atual Oceanos) por Macau, de 2004. Além disso, Britto vem traduzindo para o português inúmeros autores, dentre os quais a poeta Elizabeth Bishop, o poeta Wallace Stevens e outras várias dezenas de poetas e romancistas.

Em seus livros mais recentes, nota-se uma exacerbação de certo caráter filosófico que, se também encontrado em poetas da mesma geração, como Antonio Cícero, Claudia Roquete-Pinto, Leonardo Fróes ou Alberto Pucheu, extrapolou certo limite e contenção a que ele vinha submetendo a própria poesia, ancorada na metalinguagem e em reflexões estético-filosóficas. Embora a temática da busca de sentido e um ceticismo de pensamento estivessem presentes desde os seus primeiros livros, é notável o quanto, em seu mais recente livro, os temas da perda e da negatividade sobrepujaram os questionamentos formalistas iniciados anteriormente. Onde um poeta que antes indagava os significados objetivos da realidade, sobreveio outro que responde desde a constatação acentuada da perda, traço para ele comum a toda experiência humana e ponto de contato com a obra de Elizabeth Bishop, principalmente no poema A Arte de Perder, do qual provém o título de Nenhum Mistério, que também serve de negativa à metafísica e sujeição à casualidade de viver, temática também presente no poema transcrito a seguir.

Da metafísica


Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda –
o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.
(BRITTO, 2018, p. 65)

Seja porque Britto continua sem abrir mão do tratamento rigoroso do verso e, ainda que tenha permeabilizado a sua poesia à linguagem coloquial, popular, pela primeira vez em sua carreira ele parece ter se permitido uma maior abertura emocional. Em entrevista para a Folha de São Paulo, em setembro de 20182, Britto chegou a afirmar que “as maiores realizações artísticas são aquelas que veiculam uma carga emocional forte através da forma” (BRITTO, 2018). Trata-se do mesmo poeta que, alguns anos antes, afirmara que o lirismo já não cabia mais na poesia e que “muito do que geraria poesia hoje resulta numa canção popular. Então o território que sobrou para a poesia foi o da reflexão sobre a linguagem” (BRITTO, 2018). No que diz respeito a sua trajetória, vê-se bem que sua poesia ganhou muito com as perdas naturais da vida, o que se parece contraditório e terrível à primeira vista, revela agora uma poesia amadurecida pela forte autoconsciência que sempre o distinguiu dos demais poetas contemporâneos e mais atenta ao drama humano e suas nuances psíquicas.


Nenhuma arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)
(BRITTO, 2018, p. 9)

Como o Drummond que procura o consolo na praia, Britto radicaliza a busca despersonalizada e do esvaziamento subjetivo, um tanto mais semelhante ao cenário “desértico” (de acordo com Manuel Bandeira) da poesia de Dante Milano. Além de recusar o conforto metafísico, Britto está empenhado em combater a memória, como se procurasse desembaraçar-se do passado para enfrentar a vida presente. Quando o poeta assevera logo no começo de Nenhum mistério que “Rememorar o que não foi não dá em nada”, Britto elimina até mesmo a ausência de sua atenção mental. Essa é uma ideia que de certo modo colide com uma das ideias mais impactantes defendidas por Hannah Arendt em sua palestra O pensar, presente em A vida do espírito. Para ela, “o pensamento sempre lida com ausências e abandona o que está presente e ao alcance da mão” (ARENDT, 2016, p. 221). No entanto, Britto agora desafia a lógica filosófica em prol da sustentabilidade da própria existência. A memória evocativa e episódica é objetificada no discurso poético para uma memória semântica na qual paisagens e sentimentos são examinados com o rigor de um poeta observando a própria materialidade do poema. Outro poeta brasileiro que lida muito com metáforas contrastantes à ausência é Manoel de Barros, que muitas vezes molda sua poesia no descarte de sua aparência, como no poema a seguir:

Os deslimites da palavra

2.5
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
(BARROS, 2010, p. 310)

Mesmo que para Hannah Arendt a poesia pareça dependente da memória, pois até para saber-se que “rememorar o que não foi não dá em nada” é necessária uma avaliação prévia do que “foi”, a poética de Paulo Henriques Britto quer se desfazer dos elementos poéticos decorativos e de todos os que não sejam decorrentes do próprio curso de pensamento. Ocorre que o apagamento total da memória não é possível, pois ela revive sempre como meio de avaliação e recurso comparativo do ser no presente, ou então é possível apenas pela morte, daí a intensidade reflexiva dos mais recentes poemas de Britto parecer decorrente de um processo mental muito severo e distante do que mesmo a poesia contemporânea mais hermética tem obtido3.

A aparência fria e a mensagem severa dos poemas de Britto não são idênticas ou equiparáveis em motivos a de Dante Milano (se é que alguma poesia é equiparável sob algum aspecto), mas é atenta a si como a daquele. Nem a memória nem o poema como “emoção-do-ser”, como definiu o primeiro José Guilherme Merquior, podem dar conta perfeitamente de todas as indagações e aproximações que os poetas fazem em relação a si mesmos e ao mundo e não há precedência em quem poderá tomá-las. Às vezes serão os poetas que motivarão os filósofos; às vezes se dará o contrário. Poesia e pensamento são ponderações distintas sujeitas às interferências tanto do mundo externo quanto das condições inerentes ao psiquismo individual de seus postulantes naquele momento. Pelo menos até que outro poeta siga o rastro daqueles mais auto exigentes em todos os sentidos, por enquanto Paulo Henriques Britto parece ser o poeta brasileiro mais afinado com certa tendência especulativa da própria subjetividade. E, despido de qualquer traço confessional, parece ser ainda assim o poeta que aparece mais nu e desembaraçado entre todos.

Conclusões

Não é que a poesia possa ou pretenda em sua volição alcançar ou substituir a reflexão filosófica, mas, talvez, muitas vezes tenha ocupado um espaço em branco o qual os movimentos estrangeiros não puderam dar conta completamente ao integrar-se à complexidade histórica inerente à sociedade brasileira. Considerando-se que a filosofia no Brasil “nasceu” quase toda nos anos 1940, na Universidade de São Paulo, e os primeiros estudos consistentes realizados por brasileiros, como os de Gerd Borhein a respeito de Martin Heidegger, Sérgio Paulo Rouanet e seu trabalho com o iluminismo e a obra kantiana, José Arthur Giannotti e seus estudos marxistas e Benedito Nunes e a literatura vieram a público em torno já da década de 1960, é de perguntar se não teriam partido, antes deles, dos poetas boa parte das mais elaboradas formulações de natureza filosófica realizadas no Brasil do séc. XX. Esta, porém, é uma questão a que não me proponho responder, apenas sugerir aos estudiosos para que a cogitem.

Em vista disso, não me espantaria que, ao menos na poesia realizada desde o aporte simbolista no Brasil, ou seja, por quase um século, as inquietações filosóficas e analíticas mais prementes se mostrassem por meio de seus poetas, que inseparáveis do ser humano. Não é que todos os poetas comuniquem ou desejem comunicar à história das ideias, mas por certo alguns entre eles acabariam por se revelar mais intimamente relacionados às questões filosóficas, e não seriam um ou dois mais destacados, mas uma tendência consolidada na poesia brasileira e com exemplos poderosos como os mencionados. Para sabê-lo, no entanto, é necessário que se examine a poesia de forma mais filosófica que contemplativa e uma leitura cuidadosa que notasse que não se propõe a confusão de suas imagens como a um espelho, mas também não apostasse num desenlace definitivo e um mútuo abandono no labirinto da compreensão e expressão.

Notas

1 Os poetas metafísicos a que Ivan Junqueira se refere são os ingleses John Donne, George Herbert, Richard Crashaw, e Andrew Marvell, assim referidos por Samuel Johnson, em Vidas dos mais eminentes poetas ingleses, a respeito de poetas que viveram no séc. XVII.

2 Ver MEIRELES, Maurício. Paulo Henriques Britto volta à poesia com versos sobre a perda e a ausência de sentido. São Paulo, Folha de São Paulo, 8 set. 2018

3 Em abril de 2019, a professora Mariella Augusta Masagão publicou artigo na Folha de São Paulo discutindo as tendências poética contemporâneas brasileiras, enfatizando uma crítica a uma poesia, segundo ela, notadamente “sisuda e hermética”. Ver MASAGÃO, Mariella Augusta. Poesia brasileira ficou sisuda e hermética, diz pesquisadora. São Paulo, Folha de São Paulo, 14 abr. 2019

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