Contra o ódio

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/12/2020.

A editora veneziana Âyiné desembarcou no Brasil há não muito tempo. São cerca de três anos incompletos. Desde Belo Horizonte, ela vem distribuindo no Brasil um invejável catálogo de pequenas e cuidadosas brochuras que portam trabalhos de intelectuais estrangeiros que as demais editoras brasileiras costumam publicar apenas eventualmente e em tiragens restritas. Entre os autores já publicados, pode-se encontrar desde intelectuais conservadores, como Isiah Berlin e Roger Scruton, até pensadores de esquerda, como Giorgio Agamben e o melhor livro do coreano Byung-Chul Han publicado por aqui, Psicopolítica, além de outros autores e autoras menos difundidos. Em 2020, entre os muitos títulos editados, a Âyiné trouxe para o Brasil o livro Contra o ódio, da filósofa e escritora alemã Carolin Emcke. Um livro que dialoga com o sentimento que fervilha no mundo presente e é capaz de, de acordo com autora, mover o mundo em muitas direções.

Publicado na Alemanha em 2016 e em 2019 na Inglaterra, no exterior o livro foi recebido como um libelo em prol da tolerância e da democracia pluralista ao tempo da emergência do radicalismo populista. É um livro que no Brasil vai encontrar uma concorrência fraca, dado que os títulos políticos locais se mostram muito mais embaraçados com a crise do modelo econômico, a ontologia da crise político-institucional e a diagnose de seus efeitos, isto é, os libelos aqui continuam tão indefinidos quanto as previsões eleitorais para 2022. De outra sorte, os valores embutidos na moeda do ódio aqui ainda parecem não ter se definido completamente; infelizmente, não a ponto de que o jogo político pareça poder dar-se sem a sua onipresença. Apesar de que o desgaste psíquico da nação tenha sido tremendo desde antes da última eleição presidencial, a impressão mais corriqueira dentre a opinião pública é que ainda temos muito dissenso por gastar até chegar a um novo degrau de convivência e acordo, se é que não é possível mesmo descer ainda mais um pouco na incivilidade. Trata-se de um risco que se tornou permanente.

É bem nesse sentido que o livro de Carolin pode colaborar em arrefecer um estado de espírito que favoreceu todo um vernáculo odioso que se passou a experimentar na mesma medida em que os meios de comunicação foram se tornando mais permeáveis, quando não abolidos por segmentos importantes da população desde aí informados por fluxos não claramente canalizados nas redes. No entanto, o mais relevante de imediato talvez fosse não apenas erguer do chão um animal político em condições de pacificar o caos, mas um que inspirasse a sociedade a refazer-se nos seus tecidos mais sutis e esgarçados e recuperasse a relevância de temas caros a um projeto de interesse público e comum, como melhor educação, acesso à renda, segurança, direitos e proteção social. Trata-se de um vocabulário também deixado de lado pela versão nacional do neoliberalismo que resultou numa crise que vem arrastando o país por longos anos já.

O livro de Carolin não traz, todavia, pacotes ou soluções econométricas para o reestabelecimento da convivência social. Tal espécie de ajustes, aliás, parece mesmo integrar cada vez mais claramente o problema do que a solução para tanto. De outro modo, Contra o ódio vai explorar mais as mazelas e manifestações políticas decorrentes da crise moral do modelo social global do que problemáticas abrangentes como as da macroenomia ou do método político. Desde que se assuma que as pessoas não experimentem ou percebam vivenciar efeitos diretos de assuntos globais como esses, é muito possível identificar que ela está mais interessada em acertar o ponto da vacina do que em eliminar radicalmente a moléstia da crise.

Não se pense, entretanto, que, dada a complexidade do tema e por notá-lo em suas manifestações mais efervescentes, trate-se de tarefa banal que a autora discorre desinteressadamente. Não é. Antes de dedicar-se a escrever ensaios filosóficos, Carolin atuou como jornalista em regiões de conflito por um bom tempo. Para a Der Spiegel, ela cobriu o árduo tema da imigração na Alemanha e as manifestações de xenofobia em solo europeu. Além disso, formou-se em Frankfurt sob a orientação do filósofo Axel Honneth, aluno dileto de Jurgen Habermas e principal desenvolvedor da Teoria do Reconhecimento. A influência desse pensamento se faz notar no livro de Carolin muito rapidamente, uma vez que seu propósito centra-se claramente em defender a noção de que a democracia contemporânea passa necessariamente pelo enfrentamento à intolerância e seus desdobramentos micropolíticos. É desde essa experiência e formação que ela toma a decisão de esmiuçar o sentimento de ódio e a violência procurando demonstrar como enfraquecê-los politicamente – este que é o objetivo central do seu ensaio.

Deste modo, o jornalismo e o relato vívido de situações contemporâneas contrapostos tanto à filosofia quanto à literatura a respeito da invisibilidade social, como o clássico O homem invisível de Ralph Ellison, fazem do livro de Carolin um ensaio truncado em temáticas, mas não em linguagem. É compreensível, pois abordar realidades violentas como as experimentadas pelo racismo, xenofobia, transfobia e outras manifestações discriminatórias radicais requer sobretudo um olhar direto e franco. Nessa perspectiva, Carolin em nem um momento permite-se teorizar a respeito dos fatos a que se refere. Pelo menos, em bem poucos momentos chega a converter a situação existencial das pessoas em especulação teórica, de gabinete. Por certo o jornalismo deu-lhe a mobilidade tão necessária a quem pretende encontrar-se com a dinâmica da exclusão, e não meramente observá-la entre os livros, à distância.

É justamente daí que a oportunidade de sua leitura compreende em facilitar a aproximação de pessoas que não experimentam ou praticam o discurso de ódio, mas tomam parte dele ao engajarem-se em outras formas não tão graves de violência, mas não livres de efeitos, como o silenciamento e a cumplicidade com gestos odiosos e suas expressões de violência. Nunca é demais lembrar que o Brasil, bem como outros lugares do mundo, vive muito a expectativa da doutrinação política, ou seja, recomendações do que se pode ou deve expressar principalmente no ambiente aberto das redes é policiado ou estimulado mais ou menos abertamente.

Quem nunca viu ou teve o azar de experimentar contra si a expressão em massa de agressões excludentes e recriminações costuma, inclusive, reportar essa espécie de abordagem como cerceamento à liberdade de expressão e outras justificativas antecedentes, como se houvesse uma razão histórica ou política solicitando essa espécie de confirmação. Contra o ódio, o livro de Carolin Emcke, não tem a pretensão de frear por completo a escalada de animosidade política e antipolitica presente. Seu livro está longe de ser, por exemplo, um manual de aplicação da lei de incitação aos crimes de preconceito ou uma defesa ideológica da criminalização da homofobia ou psicofobia. No Brasil, seria um livro quase sem efeito, pois o estatuto legal de proteção às discriminações é pouco organizado, difundido e aplicado. Seu mérito maior não está em, portanto, permitir essa aproximação ou equiparação, mas, por outro lado, em procurar inibir a exposição de pessoas vulneráveis tanto à violência interpessoal quanto institucional. Como se sabe, muitas vezes ambas as violências fartam-se na mesma mesa e com o mesmo alimento. Que o sentimento de ódio não constitua o prato principal é o que parece clamar o livro de Carolin porque, como tempero, por outro lado, parece ser infelizmente inerente à condição humana. Sua proposta não é sequer saber dosá-lo, mas nos permitir perceber quando está comprometendo a refeição e entender como evitá-lo.

A crise da representação rural na literatura rio-grandense

Depois de uns meses nas mãos do pessoal da editora Fi, ficou pronta a edição do livreto que deverá muito provavelmente constituir o máximo da minha vida acadêmica. O trabalho é resultado do curso de especialização em Literatura Brasileira que cursei na UFRGS no ano passado e, como nasceu bem robusto para o que se propunha, acabou propiciando-se a edição em livro (acesse por aqui).

Com as doses de generosidade dos professores que o orientaram e examinaram, ele cresceu ainda um pouco mais após a conclusão do curso a ponto de parar em pé como um livreto, opúsculo, seja lá como se chame uma publicação assim, de mais ou menos 80 páginas. Eu digo que será o máximo porque não me passa me dedicar novamente ao estudo sistemático, mas ficar com o diletantismo mesmo, que é mais do meu feitio e proporção.

Em linhas muito gerais, o trabalho pretendia verificar a forma pela qual os romancistas gaúchos do séc. XX lidaram com as condições materiais da vida rural na região da Campanha gaúcha. Se contribuíram para a formação de um imaginário mais realista (ou ufanista) e o que entregaram ao campo literário recente.

O ensaio recupera um pouco a história literária do séc. XIX para logo encontrar os marcos representados no trabalho de Simões Lopes Neto, Alcides Maya, a geração de 30 (Ivan Pedro de Martins, Cyro Martins, Pedro Wayne) e os posteriores Aureliano de Figueiredo Pinto, Érico Veríssimo e Barbosa Lessa.

É uma mirada meio ocêanica, panorâmica, mas cujo objetivo é também procurar problematizar a forma pela qual o meio literário deu prosseguimento a essa tradição e o impasse que quanto a ela recaiu após o fenômeno tradicionalista, a expansão modernizadora via meios de comunicação e o recalque temático ao conteúdo histórico. O livro não é lá tão grande, mas rendeu bastante trabalho.

Para quem se interessa pela temática ou tem curiosidade em saber mais, a editora Fi realiza um trabalho de acesso aberto de edição de trabalhos acadêmicos, ou seja, a versão digital do livro não tem custo e pode ser obtida livremente por download. Quem desejar, também pode encomendar no próprio site da editora exemplares impressos. Eu vou fazer alguns poucos para mim e para alguns amigos, mas não terei para venda. Quem considerar necessário, pode valer-se dos serviços on-demand da editora.

Querência

Aquelas botas velhas no fundo do galpão, tu trazes dali pra mim?, indago ao gurizinho ao meu lado. Irrequieto como todos da sua idade, ele me olha como se indagasse: mas pra que serve isso, tão velho e furado e rasgado e estropiado?

Pega dali, por favor, que não posso mais me agachar a tanto.

E revirou as tralhas do galpão até alcançar aonde eu apontava. Tinha muita coisa sobre a caixa de madeira esbodegada da qual podíamos adivinhar pedaços e tentos de couro torcidos do uso, encardidos de barro, do esterco das vacas, do tempo, de tudo… Ele não descansou até consegui-lo e me alcançou, de dentro de um saco plástico de sal, o par de botas que havia sido do pai e que ele, um dia, consentiu em que as calçasse nos pés.

* * *

Guri da cidade, eu ia para a campanha com a mesma roupa com que vivia. Usava tênis, jeans, camisetas e quando um muito um boné, no verão, pra proteger a cabeça do solaço e, sem o qual, a mãe não permitia que eu saísse porta afora. No entanto, ao chegar lá, não mudava de traje como o meu pai. Eu simplesmente não tinha um traje “típico” com que montar a cavalo e camperear. Os filhos dos peões andavam muito melhor trajados que eu, pelo menos eu assim pensava pelas bombachas que usavam, ainda que usassem nos pés chinelos de borracha ou alpargatas gastas e furadas até quase a miséria. Na cabeça, ao invés dos bonés trazidos da cidade, tinham chapéus de feltro e barbicacho. E nas costas, mal atravessada, a faca.

Por sua vez, os adultos trajavam sempre a indumentária completa. Desde o chapéu na cabeça até a roseta da espora, pareciam pessoas de outro tempo transplantadas num transe imediato. Como se, de repente, estivessem prontos para um serviço de dias, de tropa. Ou de guerra. Mas, é claro, não era como filmado no estúdio e transmitido pela televisão. As bombachas eram sempre machucadas por remendos, mas o cinturão ou guaiaca impunham um respeito que me amedrontava um pouco, sim, quando guri.

Quando já encilhados partiam, os mangos pendiam dos pulsos e os laços, como conchas, se esparramavam no lombo dos matungos. No verão, uma camisa folgada para passar a brisa; no frio do inverno, uma japona ou um poncho tramado em lã colorida, um bichará.

* * *

Já eu, fosse inverno, verão, outono ou primavera, o traje era o mesmo que trazia de casa, da cidade. E embora provasse as botas abandonadas por velhas no galpão, nenhuma me servia adequadamente. Não por isso, fazia o que precisava do modo que estava e nem imaginava sugerir ao pai que “ganhasse” uma bombacha de serviço. Antes disso, de acordo com ele, mesmo eu, seu filho, precisava ter querência.

Pois essa complicação de nome eu mal entendia o que podia ser, mas era certo que todos tinham ali exceto eu. Porque uma coisa é estar num lugar e outra, bem diferente, é ser dali.

Não bastava eu querer, mas precisava viver aqueles morros, elevadas, sangas brabas, lodaçais, entender caminhos, conhecer de olho, à distância, o nome de cada um daqueles animais. E ser imperceptível aos demais, por seu igual.

Nessas condições, muitos anos depois da minha infância, as botas serviram e eu, então, pude usá-las. Já não sentia que isso fizesse diferença – e não fazia. Quando olhava para trás, na hora de voltar ao povo, sentia que tinha um lugar ali por mais duras que fossem as camas de crina, os mochinhos do galpão e principalmente o lombo do tostado.

E é desde esse dia, amigo e amiga, que a gente entende que nunca mais sai de lá por completo.

* * *

De acordo com o Oxford Dictionary, “querência” é termo usado nas zonas rurais de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, além do Rio Grande do Sul. Significa o “lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado.”

No Burrinho Pedrês, Guimarães Rosa cita o termo conforme segue:

“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão …”

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.

[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]

Malgrado a lua cheia

Chegamos ontem de fora. Nunca mais voltaremos lá, eles disseram. O pai já tem a saudade dentro dos olhos que eu vejo, qualquer um vê. A mãe tem esperança e vive a clamar por ela. E nós, crianças, viemos porque nos ordenaram. Mas parece que tudo isso há de ser bom. Uma nova vida. Vamos finalmente ao colégio e aprenderemos a fazer contas direito, sem precisarmos mais das contas de osso dos arreios. E ler e escrever, porque as lições da tia Anastácia mal dão para ler gibi, apesar de que, pelo menos no julgar da mãe, foram um bom começo.

A casa é boa, novinha. O pai gastou acho que até o casco das vaquinhas para construí-la. E eu e o mano ajudamos em tudo o que pudemos. Carregar tijolo, fazer a massa de cimento e todo o trabalho de pá fomos nós que fizemos. Pedreiros mesmo foram o pai e o tio Antônio, que veio antes e foi quem os convenceu a segui-lo, para trabalhar com ele na construção; ele e a tia Janjona, com certeza. Todo esse lado da cidade, se entendi bem, antes fora um banhado e, com cargas de pedra e terra e socador, aplainaram tudo. Veio o conjunto de casas; dentre as quais, a nossa.

Como o tio Antônio sempre tem razão em tudo o que diz, bastou o aceite da mãe para ele se convencer ainda mais rápido e logo ela começou a desfazer-se das coisas que não queria mais ver pela frente. Trastes de couro, latas, plásticos, caixinhas e caixotes, tudo foi queimado numa fogueira imensa; salvaram-se as roupas apresentáveis, segundo o seu juízo, para nós e os filhos das comadres incrédulas, mais as panelas, louça, talheres e os quadros da família do pai que decoravam nosso rancho, além da imagem do Sagrado Coração de Jesus, benzida sei lá por quem, mas a quem ela destinava rezas e promessas quando as coisas não iam bem e isso era, nos últimos tempos, mais do que frequente. Por isso viemos. Chegamos ontem de fora e, por enquanto, só o pai mostra um pouco de desassossego e abandono, mas sem dar um pio. Mostra só pelo modo de olhar e no silêncio de quem toma o mate ainda do mesmo jeito, repassando mentalmente a lida, sabe-se lá de que jeito ou por quê.

Eu não penso que seria melhor ter ficado e nem aposto todas as minhas fichas que vai ser um folguedo, mas vou procurar viver cada dia como se fosse único e tratar de buscar com o que me entreter quando largarem um pouco de mim. Que mais poderia me ocorrer?

Nos fundos da casa há um arrabalde, um pátio abandonado de uma casa do bairro antigo virada em tapera, onde já vi que tem jogo de bola, mas só vou lá com permissão, que não se pense coisas a meu respeito. Respeito, aliás, é o que a mãe disse para eu nunca esquecer, mesmo quando eu mal entendia o que isso poderia ser, mas pressentia que tudo se resumia em ficar quieto e obedecer, que o resto nunca era coisa de criança. E responsabilidade também era outra palavra de que ela gostava muito e eu entendia como podia sobre o que é certo e o que não é, apesar de que, de acordo com ela, isso deveria depender apenas de mim mesmo.

Acho que a nossa casa nova é pequena, mas que é melhor do que a que tínhamos antes não resta dúvida. Nosso rancho na campanha era mais espaçoso, mas cheio de frinchas. Ali os chupões gostavam de dormir e o medo de pegar doença sempre estava no rol de rezas da mãe, que contaminou dos próprios medos as gurias, se bem que guria é sempre meio fiasquenta mesmo. Instalar a cozinha nos fundos da casa não agradou a mãe, que gosta de bombear o movimento, mas ela vai se acostumar, é o que diz o tio Antônio. A mana diz que ele fala isso para tudo e chora escondida sem razão aparente. Anda assim desde que chegamos, a pobrezinha. Acontece que decisão é decisão e não há mais o que se possa fazer. O tio não sabe consolá-la e diz coisas horríveis sobre viver na miséria e outras barbaridades. Quando exagera, o pai intervém: “Mas já não estamos aqui? Pra que tudo isso, che?”

Quem é que quer viver na miséria? Que eu saiba, ninguém. Por isso viemos. Chegamos ontem. E agora, como é quase noite, no arrabalde a gurizada já está jogando bola. Sem jeito, peço ao pai para ir até lá. Ele parece ficar pensando, mas não tanto e deixa que eu me vá, desde que volte antes de cair a noite cerrada e que leve o Miguel comigo e tome conta dele.

São quatro guris jogando uma bola meio murcha, feita de um couro grosseiro, mas melhor que todas as bolas de meia ou esterco de vaca com que nos virávamos lá fora, em partidas que sempre se esfarelavam em guerras campais. Encostei-me no muro e, longe, para dentro do pátio, vejo que no fundo do arrabalde há árvores crescidas, pereiras e não sei que outras. E um casarão em ruínas, com as paredes pela metade. É bem lá no meio dele que, depois de um chutão de alguém, a bola vai cair. Os outros guris se exclamam puta merda e puta aquilo, mas ninguém se apresenta para ir até lá; eu e o Miguel nos aproximamos e eu me ofereço para ir lá buscar a bola. “Deixa que eu busco!”, falei. Os outros ficaram quietos, mas o maior deles, ainda assim menor um pouco do que eu, foi quem me alertou: “Dizem que lá tem fantasma, uma mulher velha que, Deus o livre, é horrorosa e prende quem vai até lá.” Eu me ri da conversa do outro. “Que nada. Vou lá e já volto”, anunciei e disse ao Miguel para que ficasse com eles. Em coisa de um instante eu estaria de volta com a bola perdida.

Claro que lá não tinha nada mesmo, só uma casa velha com umas madeiras destruídas no chão, resto de piso e vidros quebrados, mas a bola mesmo eu não consegui encontrar. E procurei tanto quanto pude. De longe, de repente notei que o Miguel não estava mais com eles e então fiquei pensando no que deveria fazer: se continuava procurando a bola entre os escombros da casa para exibi-la como um troféu ou se corria para ver onde se enfiara o maldito guri. Antes de me decidir, resolvi procurar mais um pouco. E um pouco mais. E o tempo foi passando e a noite foi caindo. De repente, já não havia mais luz o suficiente para procurar o que quer que fosse e decidi voltar. “Onde está o maninho?”, perguntei a eles, embolados perto da cerca que divisava o campinho improvisado junto ao arrabalde da tapera. O maior deles, de novo, foi quem veio falar: “Ele se foi. Saiu correndo e eu é que não ia sair atrás dele. Nem sei onde vocês moram…”. Sem apresentar-me nem jogar um instantezinho que fosse, saí correndo atrás do Miguel. Deus me livre se algo lhe acontece, a tunda que eu vou tomar…

A noite já caíra e a hora de estar em casa já estava quase passando. Talvez o Miguel estivesse já com eles ou brincando com as gurias na frente de casa, mas ele nunca fez isso comigo, sempre me esperou para tudo. Desgraça de guri! Onde se enfiou essa merda de guri?

Estivesse onde estivesse, eu não voltaria para casa sem ele. Pensei em fazer a volta pelos fundos das outras casas, atravessar o cercado dos pátios e ir conferir se ele estava lá dentro ou não, mas a cachorrada não deixaria que eu me aproximasse em silêncio. E pensei também no pior, como não pensaria? E se um carro ou caminhão tivesse pegado ele de frente? Mas aqui mal passa carroça, ainda mais a essa hora da noite, isso não pode ser… Vou chegando pela rua de terra, pulo a valeta dos esgotos e, ao longe, vejo na porta da casa o pai sozinho, tomando o mate no seu mochinho enquanto a mãe, decerto, apronta a janta com as gurias; nada do Miguel por lá, pelo jeito. Como fui deixar uma criança pequena como ele sozinha, com estranhos? Agora está perdido sei lá onde; agora estou perdido também… Melhor que eu me suma no mundo… Que sei eu do que vai ser de mim se volto para casa sem ele e se ele nunca mais aparece… O pai não vai me matar, mas nunca mais fala comigo. A mãe me perdoa porque seu coração é grande e medroso demais para me esconjurar da própria vida. As manas eu nem sei, aquelas choronas. Por que não trouxe uma delas para botar o Miguel a cabresto, como fazíamos aos cavalos quando brincávamos lá fora, todos juntos, na taipa do açude, de açular tachãs e maçanicos?

Sem ideia mais nenhuma do que seria a minha vida nesse lugar de desgraça, pensei em fugir ao tio Antônio, mas também me faltava coragem. Acho que nunca mais ergueria os olhos para ninguém, envergonhado até o fundo dos ossos. Orgulho da minha coragem também não me serviria mais para nada. No fundo, eu era só mais um covarde. O covarde que perdeu o irmão para se aparecer em um jogo de bola de estranhos de quem nem o nome sabia direito. Um merda legítimo. Por que vou viver com isso na minha vida? E que fedor é esse que sobe da água que vai por essa sanga? Podridão? Esgoto? Quem sabe me atiro aqui dentro e causo uma tragédia na vida da família inteira, que chegou ontem de fora, cheia de esperança para uma vida nova na cidade?

De repente, entendo que não posso fazer nada e devo ir para casa e mostrar minha cara estúpida para a mãe e para o pai e receber deles o que eles julgarem certo, nada mais que isso, mesmo que seja uma sova com o rabo-de-tatu que, com certeza, o pai não jogou fora. E lembro-me do Miguelito aprendendo a cavalgar ao meu lado, no petiço gateado e de como gostava de galopear nas minhas costas, brincando e rolando no pasto, fosse de dia ou de noite. Sento-me numa pedra ao lado do sangão, apesar do fedor tremendo, e minhas lágrimas caem misturando-se em sabe-se lá o que corre ali dentro, embora o aspecto não deixe muitas dúvidas, malgrado a lua cheia. Mas então sinto aquelas mesmas cócegas de sempre por baixo dos braços e penso que não pode ser quem parece ser, mas felizmente é justamente quem é. É o Miguelito. E eu nem preciso virar a cabeça para conferir que é ele mesmo.

Chorando quase a soluçar, abraço-me nele, gordinho como sempre. “Que foi? Pra que tudo isso?”, ele pergunta. Vejo que tem nas mãos dois caniços finos e compridos de taquara. “Nada, desgraçado… Onde te enfiaste? Fugiu de mim por quê? Por que não esperou, filho de uma égua?”, emendei perguntas no coitadinho. “Eu fui buscar os caniços, não vê? Olha essa lua cheia lá em cima… A gente nunca perdeu uma assim…”, disse daquele jeito ainda meio desengonçado de criança pequena. Enxuguei o rosto para que ele não percebesse que eu chorava e peguei o meu caniço das suas mãos, pouco maior que o dele. Ele trazia moscas e pedaços de minhoca para isca de lambari e jogamos juntos as linhas naquela água duvidosa. De onde estávamos, via-se a luz apagadiça da porta da nossa casa nova e o vulto do pai ainda sentado ali na frente, tomando um mate a essa altura já bem lavado, não duvido. As manas estavam para dentro, provavelmente ajudando em alguma coisa ou tentando ajustar a TV nova, presente do tio Antônio e da tia Janjona, ai que ela me escute dizer seu nome assim. É Maria das Graças, por gentileza… O Miguel me cutucou de lado, sem dizer uma palavra e perguntei: “O que foi?”

“Não vamos voltar mais lá mesmo?…”, perguntou. Quando eu ia responder qualquer coisa, nem imagino o que seja, ouvimos o grito da mãe, em pé na soleira da porta, “José! Miguel! Olha a janta!” e corremos para junto do pai sem um lambari sequer nas mãos. Ele colocou o Miguel no seu colo e, olhando de frente para mim, com aqueles olhos que ainda não aprenderam a esconder a melancolia, ofereceu pela primeira vez um mate, que não é brinquedo de criança, segundo o seu costume. Parei quieto ao seu lado, acocorado. Ele perguntou: “Jogou, entonces?”.

“Capaz… Fomos pescar nesse arroio daqui, mas não tinha peixe, só bosta”, e rimos juntos até que a mãe veio quase nos puxar pela orelha para ir para dentro e apreciar, pelo menos ali no interior da casinha apertada, o perfume que ela haveria de produzir pelo resto do nosso tempo em São Gonçalo, que só poderia ser muito e bom, afinal chegamos ontem de fora e fez bem rir um pouco depois de tudo o que passei porque não sabemos, ninguém sabe, o que será a partir de amanhã.

Há cinco anos publiquei meu primeiro livro. Um livro de contos que a Ed. Movimento do Prof. Carlos Appel me ajudou a publicar. Vencidos os cinco anos contratuais, assumo de volta os direitos de publicação e reprodução. Há um tempo resolvi que vou reescrever todos os contos e republicar o livro logo mais, com o nome que tinha pensado por primeiro para ele. De “A aposta” voltará a “Interiores”. A reescrita se deve a problemas de revisão e ao meu açodamento habitual, que acabou empobrecendo muitos trechos e contos inteiros, cujas ideias não eram de todo más e que penso em salvar da minha própria negação. São contos em sua maioria rurais, eu prefiro chamá-los assim do que “regionalistas”. De gente pouco opulenta e pouco identificável com esse “gaúcho” histórico que hoje se quer descontruir e até mesmo combater. Enfim, este é o primeiro conto reescrito, chamado “Malgrado a lua cheia”.

O anu-branco

Em madrugadas de primavera chega a parecer que acordo dentro de um conto de João Guimarães. Antes da primeira sirene de ambulância berrar no ar de Porto Alegre, uma sinfonia de aves cantarola, trina, arrulha, assobia, apita, gorgeia e cacareja numa liberdade até desrespeitosa. No breu ainda confiro: são quatro da manhã. Quase sonho que posso ouvir uma queixa de bezerro, ou uma vaca comunicando. Não tem vaca nenhuma, eu sei, mas, se tivesse, não pareceria tão estranho. As aves metropolitanas são músicos desajustados. Integram mesmo a secreta orquestra que executa a mesma sinfonia indiscreta há centenas de anos, indiferente ao que fizemos da natureza, mas com o juízo das horas atordoado, as coitadas. A pandemia aumentou o número de músicos da orquestra e, apesar de me acordarem cedo até para o campo, eu gosto de apontar os cantos que posso distinguir (andavam todos minguando em anos passados). São muitos e sei porque tenho bom ouvido. Na mesma medida sou ruim de nomes, de associar nome e figura. Então não sei quem são direito. Quase sempre me atrapalho, reconheço poucos de nome. Mas mais alto que o melodioso sabiá, num grito selvagem mesmo, o gavionídeo e predador anu branco parece sempre avisar de alguma coisa, na sua trilha de suspense que irrompe como um alarme de dentro do mato. Mas não tem mato (mato queimou). Mas tem, numa agonia de resistir.. Nem que seja dentro de pedaços do seu grito/canto afogueado.

Sci-fi in vivo

Não faz muito acessei minha estação de trabalho remoto aqui de casa. Domingo, isso mesmo. A operação é banal. Basta que eu forneça um endereço de rede, login e senha e está pronto: é como se estivesse em dois lugares, operando simultaneamente dois computadores. Para quem trabalha com recursos de informática, é uma operação trivial, possível há vários anos já. Até a pandemia e a implantação do homework, eu nunca usara o recurso. Nos últimos meses, tem sido a rotina e com muita facilidade acesso atividades e tarefas remotas e as executo como se estivesse in loco.

Entrei para encontrar um texto que estive olhando por alto esses dias. Até onde vi, é dos primeiros artigos que discutem a juridicidade dos algoritmos de navegação para carros autônomos e a questão da responsabilidade penal em danos e acidentes.

O assunto por si só parece estranhamente remoto, como se viesse diretamente de um filme de ficção científica, mas a verdade é que o mundo das normas legais já começa a se preparar para o desembarque desses veículos no Brasil e é necessário que sua tecnicidade seja compreendida e limitada pelo ordenamento jurídico nacional. Será a primeira vez que os automóveis se portarão como robots ou autômatos e o desafio dessa interação é ainda incompreensível em sua extensão. Logo, será mais uma banalidade tecnológica com a qual estaremos lidando como se o mundo sempre tivesse sido assim.

A ideia de que para se ter um robot é necessário um boneco mecânico com cabeça, tronco e membros (ou rodinhas) tem a infantilidade necessária para que não se perceba a dimensão que a tecnologia tomou em nossas vidas. Às vezes eu fico pensando que a robótica sempre foi apenas um jogo de cena, uma cortina de fumaça para a verdadeira revolução tecnológica em curso: a microinformática. Idealizados quase sempre como escravos mecânicos, os robots definitivamente não tem muito a ver com essa imagem, esse clichê.

De um modo ou de outro, o certo é que todos temos vários robots que automatizam tarefas e rotinas para nós, mas de forma que nem percebemos. Um cartão de crédito é um robot, por exemplo, quando ele nos libera da tarefa de ir ao banco, sacar dinheiro, pagar por algum produto ou serviços, receber o troco, conferir e guardar de volta na carteira. Dentro do cartão, um chip coordena todas essas transações e nós já nos acostumamos tanto a isso que banalizamos a complexidade de tarefas executadas por aquele pedaço de plástico.

Tudo o que executa uma tarefa autônoma a nossa vontade, mas seguindo determinadas instruções, pode muito bem ser chamado de robot também. Um elevador. Uma geladeira. Uma televisão. Um computador então nem se fale. Um computador é uma grande comunidade de robots. Ou mais que isso: uma sociedade de comunidades. Acontece que num computador (ou em qualquer meio digital nativo ou de transmissão digital), os robots são muito menos evidentes que os seus ancestrais – o elevador, a geladeira, etc. Ali, tanto há dispositivos para executar uma operação bancária desejada quanto dispositivos infiltrados para roubar dados e outros que estão ali para montar barreiras, caçar e eliminar os códigos intrusos. Há linhas de código minúsculas que são robots. Mas todas essas transações corriqueiras são automatizadas de modo a que a gente possa usar o tempo com outras ocupações e/ou diversões e não essas “banalidades”.

Se você é uma pessoa que, por acaso, costuma jogar xadrez contra sistemas autônomos, já percebeu que sua capacidade é cada vez mais ridícula diante a deles. A não ser que você seja um Kasparov da vida (mas mesmo ele tomou um mate inesquecível do Deep Blue da IBM em 1997). Mais recentemente, o Deep Mind (outro deep) venceu o garoto Lee Se-Dol em 2016 jogando Go, um jogo ainda mais complexo do que o Xadrez. Desde essa época, tornou-se uma “banalidade” ser vencido por sistemas autônomos nutridos por inteligência artificial. Mas a questão certamente é mais “deep” do que parece.

Há outras datas de corte dessa evolução que ocorreram imperceptivelmente no ambiente doméstico. Uma delas foi o lançamento do Windows 10, pela Microsoft. Desde então o sistema operacional se estabilizou de modo impressionante à medida que a maior parte das transações informacionais deixou de ocorrer nos mainframes pessoais, passando ao território das nuvens (que de nuvens não tem nada, são supercomputadores regiamente pagos pelas empresas de tecnologia). O iPhone 4, da Apple, surge no mesmo contexto, amparando-se no mesmo conceito de intensificação da virtualidade.

É bem nesse momento que os robots e microbots da informática migraram massivamente para as nuvens, deixando ao encargo dos apetrechos apenas operações triviais, de processamento rápido. Hoje, praticamente não há mais computadores no mercado, apenas uma caixinha com a mesma tecnologia nano dos telefones. Também nenhuma mídia nova surgiu desde então, apenas novos formatos de encapsulamento e encriptação de dados. O que aconteceu foi que as empresas de storage então passaram a abrigar centenas de zilhares de bits, o famoso big data. Dentro dele, transações oficiais, extra-oficiais e um cadinho invisível que é retrabalhado permanentemente pela inteligência artificial a fim de extrair dados, apontar tendências e, por fim, vender mais tecnologia.

A questão é que, de fato, a revolução tecnológica não está nessa mudança de localização dos dados. Ela está no fato de que os dados passaram a nos comandar e nós é que nos tornamos seus escravos, alimentando sistemas que se aperfeiçoam apenas em nos comandar melhor. E, como nos melhores sistemas totalitários, com a nossa anuência e colaboração. O próprio vício em tecnologia é um hack implantado em nosso sistema biológico, eletro-biológico, enfim, o cérebro.

Não interessa se gostemos mais ou menos disso, mas tudo os sistemas sabem antes a nosso respeito. Basta que acionemos um login, e eles imediatamente recompõem nossas tarefas de trabalho, nossas relações humanas, nossa situação financeira e até mesmo emocional – ou para o que você acha que servem essas carinhas, coraçõezinhos, joinhas e etc a não ser medir a sua (a minha, a nossa) temperatura emocional?

Não faz muito tempo, o Facebook lançou vários alertas falsos de tentativas de suicídio, em erros forçados de interpretação instruídos pelos seus programadores, mas salvou algumas vidas também. Não foi bola de cristal que eles usaram.

Há poucos dias, no Google Translator, coloquei para traduzir um texto em alemão de um livro traduzido que fiquei com preguiça de buscar na estante. A tradução era a mesma do livro, em cada vírgula. O tradutor recebeu royalties por isso?

Não importa o que você faça, qual seja o seu trabalho, se isso já não aconteceu, não demora vai acontecer com você também. Não serão mais os robots que trabalharão para você, mas justamente o contrário.

Às vezes até uma ideia nova, aquela sensação de um insight poderoso, será mera indução tecnológica em seus diálogos algorítmicos. Se foram experimentadas a partir de 2010, eu não duvidaria. Até o voto e outras decisões da esfera aparente da liberdade. A liberdade não é aquela sensação de segurança de uma decisão tranquila, ideológica, mas exatamente o oposto movediço dessa sensação. E se há uma técnica de poder associada a essa revolução, a minha impressão é que ela é a mais bem sucedida desde o fim da escravidão. Muito mais efetiva e controladora que o consumismo de massas.

Agora pode parecer delirante ou exagero, mas em breve isso ficará cada vez mais evidente. E você ainda estará pensando que o Felipe Neto é que um digital influencer perigoso. Esse é o problema de gastar palavras à toa, porque de tão ignorantes e embevecidos não sabemos nem nomear nem qualificar esse poder, quando conseguimos notar sua presença.

Leitura e bibliofilia

Como os aborígenes que temem que a sua alma fique presa numa fotografia, os bibliófilos brasileiros pretendem evitar a pirataria tornando o preço do livro nacional um dos mais altos do mundo. Não faz muito sentido, mas, tomando-se consequência como causa, o argumento ganha ares de razoabilidade. Parece ciência, mas trata-se de apenas mais um disparate.

O preço do livro nacional é alto por uma série de razões, a menos importante delas é a pirataria. Em recente entrevista concedida ao jornal O Globo, o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Marcos da Veiga Pereira, confirmou que, para dar conta do setor livreiro, os valores saem das editoras por x (R$10,00) para a venda final por 6x (R$66,00). A variação, portanto, em regra ultrapassa os 600% e, de acordo com os cálculos da reportagem, com uma margem de 50% mantendo o mínimo de lucratividade.

O que o Lucio conclui, examinando esses números? Que os livros poderiam ser mais acessíveis e em muitos casos até mesmo ter preços populares. Que os programas governamentais poderiam muito bem obter contrapartidas públicas reais, não sacolinhas de brindes ou a vala banal das propinas.

O que os bibliófilos concluem? Para evitar a pirataria e a diminuição da procura, vamos aumentar os preços.

No mercado, é difícil encontrar um produto que passe por esse percurso de preços sem que o PROCON precise intervir. Ou o CADE. Mas, por alguma razão, no caso do setor livreiro uma política de preços fundamentada em percepções subjetivas não representa problema nem esses percentuais motivam a atuação dos órgãos de proteção do consumidor. Afinal “livro” e “povo” não têm muito a ver, é o que devem pensar os interessados. Talvez se trate de uma tradição ou da propagação de diagnósticos e compreensões parciais. Ou de um combinado de ambas.

Logo quando publiquem os resultados das pesquisas dos hábitos de leitura nacionais, como os realizados quadrianualmente pelo Instituto Pró-Livro (da CBL e SNEL), também se saberá que culpados são os iletrados e analfabetos funcionais brasileiros, pois deixam de participar desse mercado. Da publicação desses resultados, a mídia se fartará a diagnosticar a situação lamentável da leitura no Brasil. Em letras garrafais, os principais jornais estamparão que em média o brasileiro lê 2 livros ao ano contra 15 da Finlândia. Com os livros custando em média R$ 60,00/unidade, não é difícil de entender porque isso acontece.

E a pirataria, o que faz? A pirataria faz o que o Estado não faz ao providenciar bibliotecas acessíveis a população, que é seu dever. Em países com sistemas de bibliotecas públicas equipados, a pirataria quase em nada participa do “mercado”. Até mesmo porque os serviços de bibliotecas são formas de “pirataria legal” sistematicamente desencorajadas pelo sistema editorial. Daí, portanto, que defender o espaço de bibliotecas numa manutenção desses argumentos é imoral. Editoras não se dignam a doar sobras para bibliotecas. Ao invés disso, preferem inutilizar seus passivos em reciclagem. Duvidam? Eu que duvido. E mudo com prazer minha convicção se puder ver ao menos um convênio ativo entre editoras e qualquer biblioteca brasileira sem que isso passe por uma grande aquisição governamental, uma licitação, um programa, etc.

Nada disso faz mesmo muito sentido, mas é ilustrativo da história cultural brasileira o uso extorsivo do valor simbólico do livro para justificar práticas comerciais abusivas nas quais pirataria e direitos autorais são imbricados no mesmo problema.

Só que este modelo de negócios é tão ruim para as pequenas editoras que é desanimador constatar que mais de 50% do mercado hoje é dominado por uma transnacional, a Penguin Books, e seus selos nacionais, entre os quais a prestigiosa Companhia das Letras e seus subselos. Junte-se 3 ou 4 majors, e então sabemos como a cadeia se comporta e porque se comporta como se comporta: punindo o consumidor com preços elevados e livrando-se de qualquer compromisso educacional duradouro. Business, é disso que se trata e nada além disso.

Outro argumento reincidente na crítica ao hábito de leitura do brasileiro é a comparação aos vizinhos argentinos. Mas além de uma rixa pátria ancestral, essa é uma comparação totalmente improcedente. Tanto a história política quanto educacional argentinas são muito diferentes da brasileira. Há duzentos anos pelo menos os índices de alfabetização interiorizada da Argentina são superiores ao Brasil e o investimento em escolas e bibliotecas comunitárias data da Guerra do Paraguai, basta ver o exemplo de Sarmiento, visionário presidente argentino que fundou mais escolas e bibliotecas no séc XIX lá do que nós em todo o séc. XX cá.

O nosso chegou no boom da II Guerra Mundial, quando experimentamos o milagre brasileiro, mas durou pouco. Antes disso, são notáveis os empreendimentos literários que arruinaram pessoas físicas, tais como Moteiro Lobato e outros. O livro popular não tem uma boa história no Brasil e isso acompanha justamente os índices educacionais de um modo geral. Enquanto os argentinos tem uma relação com o livro de “leitores”, nós temos de “bibliófilos”. É uma questão cultural mesmo, da nossa verve cortesã, de luxo e pompa e breguice. Pois então. É como bibliófilos somos tratados, com preços fora da realidade. Com os bodes expiatórios certos, para que vamos nos preocupar com isso?

É uma pena, mas é como eu vejo as coisas. E estou muito longe de ser/estar feliz por causa disso, ainda mais com o entendimento brucutu do governo atual, de dificultar tudo ainda mais. Às vezes eu penso que viemos no preparando para esse apogeu de realismo que estamos vivendo, só pode ser, ou então não soubemos evitar por arrogância mesmo. Nisso somos tão bons de acusar os argentinos também que é uma forma de não assumir a imensa fraqueza da infantilidade civil que permite roubarmos uns aos outros e tudo o mais, e toda essa tradição de vilanias e brutalidades.

Irrecuperáveis, 2

Não é lá muito comum que alguém acuse um insight, uma epifania, em razão de uma coisa banal como uma escova de dentes, mas pode acontecer. Não convém duvidar. A maioria das pessoas é pouco modesta com seus lampejos. Normalmente eles ocorrem em datas especiais, viagens, leituras, filmes, equinócios, etc. Comigo aconteceu numa escovação de dentes. E nem foi comigo, mas com o meu filho que, num belo dia, decidiu aposentar a sua escova de dentes modelo mirim.

(Quem não tem filhos não sabe como o mercado volta-se ao público infantil com uma gana impressionante e de forma cada vez mais precoce. Não é questão de mera oferta, é assédio mesmo. Tudo tem bichinho e personagem. É um universo de simbolização feito na marra, muitas vezes sem qualquer alternativa.

Não fossem inúmeros os casos de crianças que confundem o mundo real com a programação do Discovery Kids, tudo bem. Tratando-se do ser humano, nada muito estranho. Há adultos que acham que a vida é o programa do Datena ou reality shows sem fim. Acontece que, no caso dos infantes, o assédio ocorre cada vez mais precocemente e não adianta que se poste aqui e ali que não se deve, por exemplo, permitir o acesso das crianças ao conteúdo dos apetrechos midiáticos se está todo mundo o tempo inteiro grudado neles. Estamos todos envolvidos pela mão e abraço invisível do mercado de uma forma ou de outra, não adianta.

Além disso, é um tipo peculiar de injustiça a privação das crianças a esse mundo, pois, afinal, o que mais elas querem é compartilhar do modo de vida dos que a cercam e não há nesse desejo crime algum, afinal nós mesmos damos prova o tempo inteiro de que ele é irresistível. As crianças costumam ser as primeiras a notar e observar essa injustiça. Os efeitos disso fazem parte doutra discussão, doutro capítulo da história toda.)

Quem não tem filhos com alguma deficiência intelectual, como o meu, que nasceu com a síndrome de Down, dificilmente valorizaria um acontecimento banal como esse. É que isso é uma coisa um pouco mais complicada quando você ouviu por anos a fio que ele seria uma eterna criança, e leu livros que confirmavam isso e ouviu isso de médicos e chegou a pensar que, afinal, nada mais haveria a ser feito quanto a isso, quanto a qualquer coisa. Isso é bastante terrível do ponto de vista comportamental e emocional, mas principalmente enganoso, pois a infância não é um intervalo mental, mas temporal. Não dá para ser criança a vida inteira sob nenhum aspecto. A adolescência é disruptiva. Basta que se deixe a pessoa expressar sua potência hormonal, seu desejo social, sua curiosidade natural.

Mas acontece que, num extremo, alguém inventou (provavelmente um vendedor) que a adolescência é um fenômeno cultural. Que um dia se é criança e, no outro, adulto. No outro, que é meramente biológico. Antes a pessoa não reproduzia, agora reproduz. Numa zona cinza e imprecisa entre estes dois pólos talvez haja alguma verdade. Só que, quando se trata de alguém que tem uma deficiência intelectual, opera-se a magia do congelamento e da negação do desenvolvimento. Na verdade não é magia nenhuma, mas apenas violência e coerção.

Quando eu falo em livros, não estou pensando aqui na literatura ficcional porque acho que sua nuance é outra, mas na literatura científica mesmo. Na literatura que achou de dar ao nome de “idade mental” a um determinado apanhado das capacidades cognitivas das pessoas. A um tracejado numa escala.

Sem dúvida o psicólogo francês Alfred Binet nunca imaginou que sua terminologia fosse resumida cerca de um século depois de sua criação num amontoado de xingamentos. Binet foi o cientista que cunhou os termos “idiota”, “imbecil” e “débil mental” para designar scores de um teste que, noves fora, não é muito melhor que um nametest desses que todos os dias circulam nas redes sociais. É científico na mesma medida em que toda a ciência depende de um comportamento autônomo e imprevisível. Tornar a inteligência previsível e presumível em seu potencial era o seu objetivo, além de determinar o quociente de “educabilidade” de cada pessoa. Seu estudo foi bem mais elaborado que o de Francis Galton, o “pai” da eugenia, mas sem dúvida alicerçou-se nele e nas crenças comuns à época. Em outros lugares do mundo, estes estudos tiveram como objetivo a elaboração e execução de políticas de saúde com base em seleção negativa. Binet não tem culpa nisso, mas lançou bases conceituais e terminológicas que ainda hoje perduram. E isso sim é demonstrativo de certa estagnação.

Muita água rolou desde Binet, mas o legado ficou. E seus termos também, com exceção do “débil” que em meados dos anos 60 os psicólogos e estudiosos da mente conseguiram evoluir para “retardo”. Hoje, usam-se ambos na mesma acepção: como xingamento. Para efeito prático, quase nada mudou e mesmo autores difundidos na atualidade fundamentam-se em modelagem, reprogramação e condicionamento, travestindo de novos conceitos práticas bem conhecidas há décadas, tudo por conquistar uma “mente suficientemente boa” e diminuir o estranhamento social de terceiros, nem que para isso se lance mão de correção plástica.

No meu modo de entender, a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria fizeram muito pouco pela deficiência intelectual, quase nada, a não ser a recriação de testes e espaços de clausura e estranhamento, presumivelmente “científicos”. Muito mais fizeram os próprios pais e mães com a ajuda principalmente de uma gama de profissionais e terapeutas via de regra menosprezados. Na minha opinião, trata-se de pessoas que merecem muito mais do que costumam receber de reconhecimento. Mas não são “doutores”, então costumam estar numa escala de importância diminuída. Bem, não no meu conceito. Para mim, são os verdadeiros experts e eu os respeito imensamente.
Toda essa explicação certamente não explica o porquê da epifania da escova de dentes, mas eu fico muito feliz em ter na minha casa a comprovação de que o conceito de “idade mental” é mais uma convenção infeliz da ciência. E isso porque foi banalizado ao extremo e deturpado quando empregado para denominar o comportamento humano.

Eu realmente não entendo qual a dificuldade em assumir que trazemos em nós mesmos todas as idades e que precisamos brincar na mesma medida em que precisamos comer, dormir e tudo o mais. E que estamos sempre sendo seduzidos por imagens e simbolizações com forte apelo infantil. Essa nova interface do Facebook, por exemplo, é autoilustrativa. De mais a mais, não conheço muitos voluntários ao trabalho maçante, muito mais ao ócio recreativo. Exceções há, de quem faça exclusivamente o trabalho que preferiria, mas é uma proporção ridícula.

É muito difícil para qualquer adulto não ter de lidar com a própria criança, suas expectativas, frustrações, birras, traumas, etc. A maior parte do comportamento adulto, aliás, é embrionária da primeira infância – e é provavelmente daí que algumas pessoas se preocupem mais que outras a respeito da importância dos efeitos da virtualidade na infância. E outros se preocupem mais até com a virtualidade do que com o real.. Ao custo de transformar o mundo virtual numa versão digital do pátio do colégio onde estão todos a puxar os cabelos uns dos outros, maldizer, formar guetos, paparicar e maltratar, o que eu vejo são crianças grandes por tudo, e nada disso tem a ver com “idade mental”, mas por escolhas em tese refletidas. Em tese.

Há exatos quatro anos eu escrevi um texto que eu lembro que na época impressionou muita gente. Nele eu comentava, entre outras coisas, que meu filho não tinha noção de que tinha nascido com a síndrome de Down. Isso porque, em primeiro lugar, eu não tinha segurança de “como” e “se” devia explicar isso a ele. Segundo, porque achava que ele não entenderia e nem precisava entender esse conceito clínico. A questão da trissomia do gen 21 e também os efeitos disso na sua vida mental, comportamental, etc. Continuamos na mesma aqui e, por mim, assim permanecerá.

Amigos e pessoas próximas chegaram a tentar me dizer que eu “tinha de”, que era meu dever explicar a ele no que consistiam seus limites e dificuldades cognitivas. E que isso seria benéfico para ele. Eu fico pensando em porquê teria de explicar a ele somente os “dele” mesmo. É um tipo de reforço positivo que me escapa? E os meus limites? E os de todo o mundo? Não é preciso? Não. Não vou mesmo!

Assim como a adolescência que aposenta escovas de dentes de bonequinhos, os próprios bonequinhos e outras infantilidades, o que mesmo vou dizer a ele a esse respeito? De que desista de crescer? Mas o que ele fará então com seu corpo, com sua mente, com a sua imensa energia vital? Querem que, terapeuticamente, eu o detenha no chiqueirinho dos bebês? Isso parece mesmo possível? E outra, quem é que vai combinar com os russos, isto é, com ele mesmo? Negativo. Eu fora.

Convivam os outros com suas dificuldades de assimilação. Eu sempre tive certeza de que minha única função em sua vida não seria melhor do que a de um frentista, e serviria apenas para lhe injetar combustível e dissolver o quanto possível, do para-brisa, a fuligem do mundo, que é imensa e definitivamente não lhe pertence.

Primeiro foram os super heróis guardados numa caixa, e esquecidos. Mais tarde, as músicas de criança, os brinquedos, as roupas, tudo.. Eu já nem me apego mais nisso. Não tenho mais saudade do molequinho.

Como aquele antropoide de Oliver Stone que, em “2001” joga para o alto o fêmur de uma fera, libertando-se da condição animalesca e adentrando no território do homo sapiens, o meu guri tascou longe a escova de dentes do Mickey Mouse e junto dela foi-se o teste de QI. Agora só quer ouvir rock and roll (ele acha que Ed Sheeran e Justin Bieber são roqueiros, mas tudo bem), que não lhe mandem tomar banho e que não encham o saco desnecessariamente com coisas menos importantes. Ele não quer mais saber. E nem eu.