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El ultimo malón

As pessoas nessas fotos são indígenas da etnia kolla que, em 3 de agosto de 1946, ou seja, há quase 76 anos, foram recebidos por Juan Domingo Perón, após uma peregrinação de quase 2.000 Km durante 60 dias para levar ao governo argentino uma queixa formal a respeito das condições de vida miserável, da usurpação de seus territórios, trabalho escravo nos algodoais do Chaco, Salta e Jujuy, violências físicas e abusos sexuais.

Naquele momento, o recém empossado Perón promove uma recepção apoteótica. Leva-os consigo e deixa-se fotografar abraçado aos indígenas no balcão da Casa Rosada como se o gesto fosse, de fato, uma acolhida os protestos do “Malón de la Paz”, o último dos malones reportados na história argentina.

Malones eram saques organizados pelo indígenas dos desertos contra as populações de colonos nos quais os aborígenes recolhiam o que podiam: gado, cavalos, mantimentos e até mesmo pessoas que raptavam da “civilização”. Na história argentina, são computados às dezenas, de tão frequentes.

A recepção durou pouco e as promessas de reintegração de posse do governo nunca se concretizaram. Nos primeiros dias, os indígenas ganharam chapéus e trajes “urbanos” para melhor trafegarem na capital e inclusive presenciaram ao vivo uma partida de futebol.

Foram alojados num hotel que era destinado aos imigrantes estrangeiros que chegavam a Buenos Aires, mas dali logo expulsos pelas forças militares, menos de um mês após todo aquele calor humano peronista. As mulheres foram arrastadas pelas ruas e as famílias, sob gás lacrimogêneo, espremidas nos trens para retornar às suas terras de origem, que reclamavam.

Os indígenas voltavam, dessa vez sem pompa nem circunstância, a receber o tratamento de selvagens que, desde Facundo, selou a distinção fatal entre nativos e colonos e custodiados sumiram na poeira do último malón, o Malón de la Paz. De celebridades acolhidas por Perón em pessoa estampando as primeiras páginas dos jornais bonaerenses, passaram a figurar nas colunas policiais, como vândalos depredadores. Disseram-nos estrangeiros infiltrados, bolivianos, e o racismo do rio da Prata encontrou na pele de bronze o verniz perfeito a quem perseguir e difamar.

E o que era mito virou lenda e o que era lenda virou rumor. O malón foi esquecido dos jornalistas e apagado da história oficial por pelo menos 60 anos, quando em 2006 uma nova marcha de indígenas se organizou nas províncias. As queixas? As mesmas, como havia advertido aos primeiros em 1948 o cantor e compositor Atahualpa Yupanqui: “Dentro de poco serás el tema pálido de algo de lo mucho que ocurre en el tiempo.”

Caminhos do livro no Rio Grande do Sul

Revista Parêntese, ed. 133

Há pelo menos vinte anos, o governo do Estado do Rio Grande do Sul declarava em forma de lei, entre outras coisas, o desejo de converter-se em centro editorial capaz de competir no mercado. Expressa desde a promulgação da Lei do Livro (Lei nº 11.670 de 19/09/2001), a ambição foi resultante da ação e empenho de muitos vetores: do próprio Poder Executivo, dos editores representados pelo Clube dos Editores e pela Câmara Riograndense do Livro e, pela parte das bibliotecas públicas, do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e do Centro do Livro e Bibliotecas Escolares, também organizadas no âmbito do executivo por meio da Secretaria de Educação.

A publicação ocorreu ainda no governo de Olívio Dutra, com um texto que mais buscava planejar o setor do que discipliná-lo. Denominava-se como Política Estadual do Livro, mas apenas dois anos após sua publicação é que começou a ser regulamentada. A forma escolhida pelo governo estadual já sob o comando de Germano Rigotto foi a edição de um decreto (DEC 43.036 de 20/04/2004) que, por sua vez, estipulou que a política fosse organizada em planos anuais. 

Um rápido corte de cena e quase uma década mais tarde vai encontrar-se, no ano de 2013, a informação de que, no âmbito do Poder Executivo, já no governo Tarso Genro, iniciou-se um novo plano estadual. Debatido e organizado desde 2012, agora em consonância com o Plano Nacional do Livro, o PELLL (Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura) contou com a participação dos mesmos setores que haviam se organizado pela política de 2001, pela Lei do Livro, ao menos em tese ainda vigente. Nesse movimento, os planos anuais foram substituídos pelos planos setoriais da cultura instituídos pela lei do Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 14.310 de 30/09/2013).

Entre idas e vindas legislativas e tempo despendido no qual muitas vezes os objetivos abstratos dos planejamentos setoriais são levados a efeito por iniciativas pessoais, quem efetivamente tem colocado o livro no mercado e nas mãos dos leitores vêm sendo mesmo as bibliotecas e os editores de livros, dado que cerca de dois terços dos municípios do interior não contam com livrarias. Dentre estas, um número significativo não conta com dotação orçamentária e é dependente de doações diretas dos autores ou de livros obtidos por meio do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas ou do Instituto Estadual do Livro (IEL).

As dificuldades orçamentárias são imensas. E o governo busca suprir também o mercado editorial de forma indireta, aplicando um tanto do previsto de fomento na política de 2001 por meio de linhas de crédito especiais, de longo prazo, por intermédio de seus bancos de fomento: Banrisul, Badesul e BRDE. A busca por tais recursos, no entanto, é pouco expressiva, e atualmente apenas a editora L&PM beneficia-se por meio do projeto Pró-Biblioteca

Para os editores, todavia, as dificuldades são ainda maiores. Quase permanentes se lembrarmos, por exemplo, do que na década de 30 do séc. XX José Bertaso já advertia ao filho Henrique, conforme narra Érico Veríssimo em Um certo Henrique Bertaso (1973), de que era preciso considerar “o problema de distribuição, da prestação de contas de remotas livrarias, a fatal devolução de livros consignados, quase sempre em mal estado de conservação”. Quando se percebe que a crise da indústria papeleira ainda afeta o ramo como antes da Segunda Guerra Mundial, quando Monteiro Lobato fazia um lobby quase solitário ao governo de Getúlio Vargas, é de espantar o ânimo de quem ainda se atreve no setor.

Pese-se mais ou menos positivamente o valor dos incentivos estatais, o negócio editorial tem uma gestão e sobrevivência extremamente exigentes, e atender aos requisitos e formalidades exigidas pelo sistema financeiro, ao mesmo tempo conservando-se as contas saudáveis, implica muitas vezes em manter-se o mais possível longe dele. É uma aposta pela autonomia que, se não seduz aos investidores por uma promessa de lucros, garante-se um tanto mais pela estabilidade. E caso se pense que são iniciativas concentradas na capital, onde a circulação dos bens culturais é maior, incorre-se em erro. No interior do Rio Grande do Sul o setor não apenas sobrevive como se reorganiza em face do novo momento cultural e tecnológico.

Editando desde o interior

Trabalhar sem um grande fluxo de caixa, mas de forma sustentável, é o desafio da maioria dos recentes negócios editoriais. Para Mônica Canto, da Ballejo Cultura & Comunicação, as políticas públicas para a leitura são deficitárias e as edições dependem de parcerias com os autores até o processo final de divulgação. Com a boa receptividade do lançamento recente de “Escaler: quando o Bom Fim era nosso, Senhor”, apenas agora a editora começa a buscar incentivos públicos para ampliar o catálogo de livros infanto-juvenis.

Para estar efetivamente no mercado, o negócio editorial exige ao menos a constituição de pequenas empresas ou empreendimentos individuais. Ao passo que a constituição de personalidade jurídica é cada vez mais facilitada, essa presença envolve mais do que colocar livros à venda. Implica também em ter onde colocá-los e encontrar um nicho de leitores dispostos a adquiri-los – isso contando-se de antemão com a concorrência inclemente das mídias digitais, como se pode verificar nas pesquisas do Instituto Pró-Livro que apontam o incremento de acesso às mídias digitais em detrimento da leitura de livros físicos. Mesmo assim, novas iniciativas editoriais não deixam de aparecer, mesmo no interior do estado, especialmente pelo espaço de comunicação aberta da internet.

Criada há cinco anos pelo escritor Daniel Gruber, a editora O Grifo é um exemplo de uso da convergência digital e independência. Apesar de já contar com livros expostos em livrarias de São Paulo, Porto Alegre e Novo Hamburgo, onde é sediada, a editora faz um uso intenso das mídias digitais e financia-se inteiramente com o envolvimento direto dos leitores em campanhas de financiamento. Daniel a caracteriza como uma editora independente e aponta a dificuldade da ausência de uma mídia literária que valorizasse os empreendimentos locais. Quanto ao governo e suas políticas, não demonstra maior interesse, apenas que “valorize o livro ao invés de persegui-lo”.

Sediada em Passo Fundo, região do planalto, a Physalis editora, por outro lado, diz ter boa relação com a imprensa local e, em função de um catálogo predominantemente infanto-juvenil, vale-se de iniciativas municipais voltadas à educação. De acordo com seu proprietário, o escritor Pablo Morenno, vem mantendo-se com recursos próprios obtidos pelas vendas de edições anteriores. A concorrência de grandes editoras e facilidade que podem oferecer na divulgação é o que, de acordo com Pablo, dificulta uma maior visibilidade da editora que, inclusive, vem recebendo prêmios importantes no município e no estado. Ele também aponta que uma política governamental de compras voltada às bibliotecas ajudaria muito a sua e outras editoras do estado.

Em Santa Maria, no centro do estado, a Rio das Letras é uma editora com pouco mais de uma década e um catálogo composto quase inteiramente por autores locais. Jorge Ubiratã da Silva Lopes, ou Byrata, como é mais bem conhecido na cidade, aponta que também nunca sua editora contou com recursos públicos e que deseja sobretudo ampliar sua presença no mundo digital para tornar-se mais atrativa para autores e leitores.

Não muito distante, em Santana do Livramento, na fronteira sudoeste, Thomaz Albornoz Neves há dois anos passou a editar o que chama de projeto conceitual, uma coleção com livros que partilham o mesmo desenho gráfico e que têm em comum pertencerem a autores do interior do Rio grande do Sul e do Uruguai. Presentes nas livrarias locais, os livros da TAN editorial são tiragens limitadas e produzidas numa iniciativa não lucrativa e aposta inteiramente na internet para vendas e divulgação. Thomaz considera a distribuição e as margens de consignação impostas pelas livrarias impraticáveis para pequenos negócios como o seu.

Re-re-planejando 

Em levantamento realizado em 2006 pelo Clube dos Editores, no Rio Grande do Sul existiriam em atividade 453 livrarias. Presentes em 118 dos 497 municípios do estado, a aritmética simples indica que 380 municípios gaúchos não contam com livrarias. Já as editoras no estado não passam de uma centena. O único número efetivamente de encher os olhos é o de bibliotecas públicas. De acordo com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, apenas um município do estado não contaria com uma biblioteca pública municipal, num total de 535 instituições.

Mais recentemente, em 2020, em nota técnica realizada pelo Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo estadual, a cadeia produtiva do livro foi novamente reexaminada. No escopo da nota, entende-se por “cadeia editorial”, o longo processo de realização industrial do livro desde o autor até o leitor final ou, para os efeitos da nota, o consumidor. Entre um polo e outro, o conjunto de pessoas e ramos de atividade envolvidos desde a composição até a venda final dos livros. O documento propõe-se a diagnosticar o impacto tecnológico no setor, evolução, dificuldades e identificar tendências futuras.

Comparar-se a nota à legislação e planos já desenvolvidos para o setor é no mínimo embaraçoso. Não há qualquer referência aos impactos nem da Lei do Livro nem do decreto de sua regulamentação e tampouco do Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura, de 2013. Para os efeitos de análise de impacto, resta a conclusão de que o setor faz-se por conta própria. Para toda a problemática levantada pela nota, resta sempre a necessidade de um novo planejamento, novas necessidades e muitos verbos no infinitivo, tais como naqueles outros documentos: identificar, fortalecer, trabalhar, construir, etc.

O resultado exasperante da preocupação política com o setor editorial talvez peque justamente por um sentido de permanente desconexão com a situação presente. A ideia da nota para a sobrevivência das livrarias, por exemplo, é de que elas se convertam ou assumam funções quase idênticas as de bibliotecas, isto é, cumpram a função de aglutinação e espaço cultural. É uma ideia de certo modo eficiente, até porque desloca da própria biblioteca pública essa missão e, assim, justifica-se para estas um estoque permanente de baixo investimento.

Embora pareça preparar-se logo para uma nova rodada de planejamentos promovida pelos sucessivos governos, o setor subsiste mesmo é pelas estratégias editoriais que enfrentam tanto um cenário de burocratização tremenda como o avanço de uma logística superior, como a proposta e executada, por exemplo, pela multinacional Amazon, mas também por livrarias do centro do país, como a Martins Fontes, que vêm explorando o mercado com valores cada vez mais competitivos e logística de alta eficiência.

Converter o Estado do Rio Grande do Sul em centro editorial, com condições de competir no mercado, era o desejo da Lei de Livro, em 2001. Além disso, outras missões tão nobres quanto: criar novas bibliotecas, preservar o patrimônio cultural, promover o hábito da leitura e assim por diante. A dificuldade de materialização das leis e planos, no entanto, parece repetir a baixa adesão ao Art. 13 da lei, que prevê o depósito legal e do qual ainda se tem infelizmente pouca notícia. Do mesmo modo, é de se lamentar que a utopia da preservação da memória venha sendo adiada, assim como outras ambições do setor livreiro e da sociedade. Não será por falta de planos, leis e boas intenções. Disso, como se vê, o estado vai muito bem. Vinte anos depois, somam-se às dificuldades do setor os desafios da tecnologia que batem a porta. Talvez, para atingir-se outro patamar, seja necessário parar de repetir-se e dar mais chance ao novo do que ao mesmo.

Cancelando Darwin

Revista Parêntese, ed. 128

No mundo das ideias publicadas, não há o que não seja questionado. É sair da gráfica e mesmo os autores mais geniais já estão recebendo contestações. Certo que recebem loas, mas o seu oposto também: não tardam a fúria depreciativa e até mesmo ridicularizações. À medida que o tempo passa, no entanto, poucos continuam no alvo das especulações, e isso costuma acontecer tanto maior o impacto das ideias expostas. É como um atestado de vitalidade, e nem poderia ser diferente no caso de ideias que, conforme a conhecida menção de Sigmund Freud nas suas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, “feriram” o ego narcísico da humanidade. Além de si próprio, catalogado imodestamente como um dos autores destes ferimentos, Freud incluiu também Nicolau Copérnico e o naturalista inglês Charles Darwin. O primeiro, por remapear o lugar do planeta no universo; o segundo, por dessacralizar a origem da espécie humana e propor uma revolução antropológica sem precedentes que continua sendo debatida e influenciando o mundo.

Passados 150 anos da publicação de A descendência do homem, obra de Darwin menos difundida e discutida em vista do estrondo de A origem das espécies, a Princeton University Press publicou no último ano um conjunto de ensaios acerca das ideias antropológicas que Darwin desenvolveu após o entusiasmo gerado pela divulgação de A origem e observações controversas que ele reuniu nos dois tomos de A descendência, obra publicada em 1871.

Contando com a participação da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, o livro desacomoda muito a imagem de Darwin de um lugar aparentemente inamovível. Pelas mãos da historiadora da ciência e professora em Harvard Janet Browne e do antropólogo da Dartmouth College Jeremy DeSilva, Darwin é questionado com severidade no que diz respeito a ideias controversas quanto às diferenças de gênero, as suas ideias de “raça”, aptidões, inteligência e progresso cultural que ele publicou nesta sua obra menos conhecida.

É certo que os doze cientistas envolvidos em A most interesting problem não procuraram invalidar ou suspender as contribuições de Darwin a respeito da evolução humana com a publicação, tampouco do seu trabalho com a seleção natural. Para eles, os problemas encontrados em A descendência quase sempre aconteceram devido a crenças e equívocos vigentes no próprio estado de arte científico da época na qual ele viveu e o livro foi redigido. Questionar, todavia, não é o mesmo que cancelar, e seria ao menos complicada a ideia de repetir com alguém do contributo de Darwin o comportamento cultural que hoje governa o trânsito de ideias no mundo. Nesse aspecto, o livro de Browne e Jeremy é exemplar da forma como é possível criticar as ideias de alguém sem que se incorra num respectivo linchamento público. Ainda inédito no Brasil, a abordagem serena e nada truculenta apresentada no livro poderia parecer aqui um espécime exótico de crítica cultural e científica, mas também por isso seria bem vindo. Além disso, o livro traz questionamentos inusuais em linguagem acessível e esclarece diversas dúvidas a respeito de parte importante e pouco discutida do legado de Darwin.

Outros livros

Em torno do bicentenário de nascimento de Darwin, em 2009, diversos trabalhos biográficos foram traduzidos e publicados no Brasil. A mesma Janet Browne foi publicada pela UNESP com a biografia científica Charles Darwin: o poder do lugar, e a dupla Adrian Desmond e James Moore apareceu duas vezes, a primeira com Darwin: a vida de um evolucionista atormentado (Geração Editorial) e a outra com A causa sagrada de Darwin: raça, escravidão e a busca pelas origens da humanidade (Record). Este último, especialmente, tem quase o caráter de um panegírico ao naturalista, enfatizando o seu caráter humanista e inclinações abolicionistas. Embasado na mesma pesquisa que resultou no seu trabalho biográfico anterior, o livro também pode ser lido como um empreendimento de restauração de A descendência como um inverificável libelo antiescravagista.

De acordo com Janet Browne, por outro lado, esta é uma possibilidade interpretativa um tanto forçada. Para ela, Darwin traz todas as contradições de uma época de transição paradigmática que, se consolidou com sua obra o conhecimento da natureza e da biologia, ofereceu uma margem para que sua teoria fosse replicada no campo social e psicológico. O organizador do livro, o antropólogo Jeremy DeSilva, lamenta que o seu trabalho inestimável também tenha derivado mais tarde para uma ciência duvidosa, representada principalmente nas técnicas eugenistas e, tardiamente, nas ideologias supremacistas que inspiraram práticas perversas do nazismo. 

Mesmo assim, em nenhum momento eles caracterizam o pensamento de Darwin como inspirador direto dessas ideias ou da deturpação do darwinismo social. Muito mais ela aponta para Darwin como um cientista premido pela comunidade científica da época a responder o que ele mesmo não havia desenvolvido a pleno.

Para os pesquisadores, é muito compreensível que o mesmo Darwin, que disse ao sair do Brasil esperar “nunca mais visitar um país de escravos”, propusesse uma escala evolutiva entre a selvageria e a genialidade considerando atributos meramente biológicos, chegando inclusive a conclusões difíceis, como a reversão evolutiva entre os seres humanos.

Darwin e o darwinismo

Observador sagaz e conhecedor tanto das características da vida minúscula quanto dos processos que levaram grandes mamíferos à extinção, é praxe pensar-se que, por mal conhecida, sua teoria da seleção natural resultou involuntariamente ao longo do tempo em enormes simplificações e deturpações. Deste modo, que se atribua a ele o desenvolvimento de ideias como “a sobrevivência do mais forte” é confusão comum, pois se trata, na verdade, de uma proposição de autoria de Herbert Spencer. Embora houvesse uma influência mútua entre ambos e outros integrantes da comunidade científica inglesa, Darwin costumava ser muito cauteloso ao reproduzir no mudo humano suas impressões a respeito da reprodução das cracas e dos pombos. 

Em A descendência, contudo, ele efetivamente ultrapassou um tanto a linha divisória da prudência ao expor mais abertamente sua compreensão das questões de gênero, raça e sociedade, evidenciando que o seu viés cultural não era algo revolucionário, mas muito atinente ao mundo contido da Inglaterra vitoriana, que na mesma época se expandia colonialmente mundo afora. Certo que ele não pensava, no entanto, em colocar suas ideias a serviço de um propósito que não fosse edificante. Veja-se a seguir, por exemplo, um trecho de suas opiniões em relação ao aspecto moral do convívio social:

“A ajuda que somos impelidos a dar aos necessitados é principalmente um resultado incidental dos instintos de simpatia, que foi originado como parte dos instintos sociais, mas que foi subsequentemente aprimorado, como visto antes, a ser mais amigável e mais amplo. Jamais poderíamos abandonar a simpatia, mesmo aos maiores apelos da razão, sem deteriorar a parte mais nobre da nossa natureza. Um cirurgião pode hesitar enquanto perfaz uma operação, porque ele sabe que está agindo para o bem do seu paciente; mas se intencionalmente negligenciamos os fracos e necessitados, seria apenas por um beneficio contingente, junto com um enorme mal em troca.” (Darwin, Charles. The descent of man, and selection in relation to sex. Londres, 1871.)

Por não ter se ocupado incialmente das mazelas humanas com o mesmo “método” com que investigava o mundo natural, replicando para estes sua mecânica sutil, parecia-lhe muito claro que, sob o primado da razão, seria tolice esperar que seres humanos obedecessem a tendências inevitáveis como ocorre na maioria das leis biológicas. Isso feriria a noção de livre-arbítrio que lhe era muito cara. Cerca de uma década após a divulgação de A Origem, movido por essa tentativa, quando buscou enquadrar os seres humanos e sua complexa evolução em seus parâmetros evolutivos, acabou ele mesmo incorrendo neste erro e resultando num livro quase lhe custou a credibilidade anteriormente conquistada. 

Embora A descendência tenha especulações pertinentes, revisto o seu resultado final, hoje não parece melhor que uma protoantropologia. Atenua que o livro possa ter resultado de uma pressão social e cultural que havia se criado em torno do naturalista a respeito de suas opiniões acerca do homem moral de então e de como se chegara até ele. Já o mesmo não se pode dizer de A expressão das emoções no homem e nos animais, de 1872, fruto mais de seu incansável trabalho de observador do que de especulações sociais e psicológicas. 

É dessa época e em razão do expresso em A descendência e suas observações a respeito do homem e dos antropoides que começaram a aparecer nos jornais da época charges que procuravam ridicularizá-lo, como a exibida aqui, publicada na revista Hornet, em 1871. Verdade que a ridicularização devia-se mais às retaliações promovidas pelos criacionistas de então à popularização de sua obra do que a uma antipatia específica a ele mesmo, que vivia por essa época afastado da vida urbana de Londres.

Ocorre que Darwin favoreceu imensamente a que surgisse e prosperasse em todo o mundo uma série de ideias que contrastavam as ideias religiosas predominantes, por um lado, e uma pressa em forjar-se uma nova teoria social, por outro.

Darwin, um vitoriano

Logo após a divulgação estrondosa de A origem, muitos cientistas e pensadores passaram a procurar Darwin para cotejar suas ideias, inclusive Karl Marx, que viveu em Londres naqueles dias e teria lhe enviado exemplares de seus livros e quase o teria visitado. Darwin, porém, parece não ter lhe dado muita atenção, pois o trabalho com os espécimes e preocupações com a sua saúde e a dos filhos o absorvia quase completamente. Com dezenas de outros cientistas relacionava-se num fervor missivista impressionante, inclusive com seu primo irmão Francis Galton, o “pai” da eugenia (técnica muitas vezes também erroneamente atribuída a ele). Quando foi editada pela Cambridge University Press, sua correspondência foi reunida em nada menos que 30 volumes.

Só bem mais tarde é que acabou popularizando-se o caráter menos científico e mais ideológico de sua obra, especialmente após a sua morte. Foi quando o darwinismo, isto é, a adaptação de suas ideias para explicar quaisquer fenômenos sociais, tornou-se uma febre no mundo inteiro, chegando com força até meados do séc. XX. Esta era bem uma tendência de uma ciência que se fundamentava em poderosos pilares, e o conhecimento registrado por ele, dada sua amplitude, serviu perfeitamente a este objetivo.

Em sua teoria evolutiva, Darwin se dedica muito mais a investigar as vantagens adaptativas do que a afirmar a prevalência do mais apto, sendo que a ideia de preponderância do “mais forte” é uma reformulação spenceriana de 1864, no livro Principles of Biology. Grosso modo, significa mais ou menos dizer que as espécies, no caminho evolutivo, perdem ou descartam características que as impedem de prosperar e sobreviver na natureza adversa em prol de outras que a capacitam melhor para tal “luta”. As vantagens adaptativas significariam aqueles potenciais biológicos que capacitam as espécies para a sobrevivência. No caso dos seres humanos, por certo a consciência e a razão dela decorrente são suas maiores vantagens adaptativas, embora seja preciso sempre considerar um mau uso eventual de tais capacidades.

Na disputa estabelecida entre cientistas e biógrafos do mundo inteiro, como se pode ver, a imagem de Darwin às vezes também pode ser encontrada em movimento. Através das janelas do seu estúdio em Down House, no condado de Kent, subúrbio de Londres, um hipocondríaco Darwin atormentado pela influência da consanguinidade na saúde da prole e que pouco era visto nas ruas de Londres chegou ao extremo de divulgar a sua principal obra por terceiros, no mesmo dia que enterrava o último de seus dez filhos, que pode ter nascido com o que hoje se conhece como a síndrome de Down.

Se vivesse hoje, seria Darwin um arrojado cientista entusiasta das modernas técnicas de rastreamento e edição genética? Ou ainda seria o mesmo homem aristocrático e antiquado que, em sua viagem ao Brasil, horrorizou-se com o tratamento dispensado aos escravos no Brasil Império? Ou o gênio científico que, naquele livro cheio de especulações arriscadas, A Descendência do homem e a seleção sexual, chegou a pensar que a grande vantagem adaptativa do homem pudesse ser, afinal, a nobreza da razão e a aplicação imediata do instinto de simpatia? 

Embora nunca as pessoas pareçam ter sido tão pragmáticas e intolerantes como atualmente, é sempre possível encontrar em suas ideias a faceta mais nitidamente humanista. Com um pouco de boa vontade (e boa bibliografia), é possível ver que mesmo Darwin pode ser questionado sem que a sua biografia precise ser maculada por transformações culturais que não dirigiu e parecia abominar. Ao ser lançado aqui, o livro de Janet Browne e Jeremy DeSilva merecerá ser lido como fonte de esclarecimento ao invés de um manual de cancelamento embora, a esse momento da história, garantir algo assim seja completamente imprevisível. Coisas da evolução. 

O contemporaneismo

Tive de um determinado professor a pior leitura possível da famosa aula de Agamben sobre o “contemporâneo”. No dia da exposição, foi quase intolerável. Minha vontade era de sair porta afora, fugir mesmo, mas, usando de muita meditação, consegui aquietar o espírito e tratei de me ocupar mentalmente com outras coisas. Só por isso mesmo consegui. Não é sempre que consigo, mas, em vista da necessidade, foi preciso tentar. Naquele momento, tentar desesperadamente.

Hoje, porém, creio que entendo a razão de todo aquele embananamento expositivo: o “contemporâneo” parece mesmo ser marco mais da temporalidade objetiva que subjetiva, ainda que subjetivamente ninguém esteja condenado a pensar e a viver de um modo regular, basta que assim o deseje. Subjetivamente, como queria o italiano, cada um submerge no tempo que melhor entender.

Talvez para adictos ontem aos jornais e, hoje, às redes sociais, o tempo tenha o mesmo efeito de uma algema, de uma bola de ferro, mas, justamente, a literatura pode mesmo ser o passaporte ideal para escapar a esse aprisionamento. Para os reacionários e retrotopistas, sempre há uma fuga/abrigo no passado idealizado. Para os visionários e utopistas, uma margem ainda. E para os céticos, como eu, uma busca inextinguível, um labirinto no qual é possível mover-se com liberdade, mas na condição (ou ônus) de desconhecer a possibilidade de uma saída.

No célebre ensaio Dentro da baleia, George Orwell diz que um escritor está na moda quando é muito lido por quem tem menos de trinta anos de idade. Escrito em 1940, acredito que seja tranquilo dar atualmente pelo menos uns dez anos a mais nessa conta. Quarenta anos atualmente significam os trinta de dez atrás (ou vinte), considerando especialmente a expansão da adolescência e seu voraz abocanhamento em direção à adultez. Orwell ainda assevera que, invariavelmente, essa é uma espécie de sucesso que data a si mesma e sua contraparte seria uma pequena chance de sobrevivência estética. Mesmo assim, de acordo com ele, tais obras costumam ser o testemunho mais fiel de uma época, pelo menos do estado de espírito “juvenil” da época.

Do ponto de vista comparativo, pelo menos na minha opinião, a estética contemporânea tem por principal predicado ser isso mesmo: contemporânea. E seu atrativo é mais por inerência à aparência de novidade e dicção do que propriamente uma questão de qualidade descritível. Valham-me os gregos que ainda hoje despertam a atenção e seus padrões que ninguém ousa taxar de “antiquados”. E tudo nesse intervalo até aqui, que, de tanto, nem vale elencar tanto. Nem vale e nem caberia.

Quanto ao conteúdo “intempestivo”, também é preciso dizer que isso já foi tentado e realizado à exaustão. Tanto que, talvez por contraste, uma simplicidade de motivos ainda às vezes me parece mais assombroso. Simplicidade que não é o mesmo que simplismo, não custa dizer, mas um senso de propriedade menos atento à aparência dos objetos do que a sua essência, independente do caráter mais ou menos volitivo da proposta autoral. O que também não quer dizer o mesmo que o saudosismo, mas uma entrega da atenção a exigências outras que o imediato. O imediato é o sangue do contemporâneo e nós muitas vezes agimos como espécies peculiares de vampiros, como numa debandada pela sobrevivência por meio de um presumível (mas nem sempre verificável) rejuvenescimento.

Qualquer escritor que tenha já desejado ou escrito a respeito de uma época fora da sua deve ter notado a necessidade de anular as referências contemporâneas e situar-se no máximo a uma meia distância do tempo presente, no qual se vive, e a meia distância do qual se está procurando submergir. Todavia é impraticável, mesmo considerando as melhores capacidades mediúnicas de um autor, que ele consiga imitar ou emular o espírito de uma época que já passou, especialmente se ele não a viveu, mas conheceu apenas literariamente ou por testemunhos.

De outra parte, a literatura tem limites expressivos e o mundo da leitura, no que toca ao leitor, outros limites introspectivos. No séc. XX, por exemplo, foi possível contar-se com o cinema que, em inúmeros casos, consegue ser muito fiel e feliz em sua representação. Mesmo o cinema, entretanto, tem limitações porque ocorre a posteriori e mesmo documentários participativos têm a condução autoral que atende especialmente às intenções do autor. Assista-se a um documentário a respeito da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, e mesmo assim não se conseguirá assimilar toda a tensão psíquica do momento pela observação cinematográfica, mesmo quando recolorido.

Um pouco mais atrás, encontramos a Virginia Woolf de Três Guinéus pedindo atenção à fotografia de guerra, na Primeira Guerra Mundial, estampada nos jornais do mundo inteiro, ainda que com um delay de dias, semanas ou meses, dado que a transmissão fotográfica ainda era, em meados dos anos 20 do século 20, realizada exclusivamente por meio postal. “Nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas”, ela apela e ainda assim o seu clamor à obviedade do horror limita-se em garantir a veracidade de um testemunho, pois, a não ser objetivamente, nenhuma paisagem se repete para dentro da retina do ser humano, onde ele sopesa experiência e sentimentos essencialmente desiguais de forma necessariamente particular e irrepetível.

Daí para trás, apenas a arte e, entre todas, a poesia, talvez por seu caráter mais intimista parece que mais tem servido para dar conta da apreensão do espírito predominante nas diferentes épocas. E isso vale para o séc. XIX, quando o romance de costumes passa a competir e ganhar atenção popular, e o tempo em direção ao imemorial, chegando-se sem muita dificuldade em Homero e na poesia grega ou nos demais vestígios da antiguidade.

No entanto, no contemporâneo, a poesia é o reduto preferencial do anacronismo se comparada, por exemplo, ao romance estrutural. Nela, coexistem formalmente sonetos alexandrinos, o verso moderno e livre e os experimentalismos grafo-visuais. No que diz respeito ao debate público, todavia, trata-se de uma presença auto limitada. Salvo se o poeta escreve regularmente uma coluna de crônica ou crítica, a sua existência não é computada no meio intelectual como seria, por exemplo, até os anos 50 do séc. XX, quando a poesia contava com um espaço de publicação popular na maioria dos jornais importantes e os grande nomes modernistas gozavam de certa popularidade.

No multiverso do séc XXI, o espaço literário é esquálido e cada vez mais absorvido pelo sumidouro das mídias digitais. O contemporâneo é cada vez menos duradouro e notável e reside mais numa expectativa do que numa consolidação. É uma paisagem que não flui e nem se toca, mas espelha-se por força da reação direta dos demais, para daí se dissolver. Como afirma o professor e crítico Alfonso Beradinelli, em seu Direita e esquerda na literatura (Âyiné, 2016), o presente, se contraposto apenas a si mesmo, sem perspectiva histórica, torna-se auto-referencial.

Em tempos que o moderno é disputado a unha por críticos e escritores que a cena literária distingue cada vez menos, a sorte às vezes é como a solução de uma roleta. O melancólico dos sistemas competitivos (como o literário) é que a exclusão cria uma espécie de vácuo de distinção dos mais aptos a encarar as exigências estéticas e morais da contemporaneidade (ultraneoliberal, conforme aprecia repetir o filósofo cult destes tempos, o germano-coreano Byung Chul-Han). Nesse aspecto, conceitos como bibliodiversidade e universalismo literário perdem-se no vazio gerado pelos sistemas de legitimação e no espólio verificável dos mais vendidos. Tornam-se palavras ocas, pois o contemporâneo encara desinteressadamente, como o angelus novus do “conceito de história” benjaminiano, para o que ele mesmo simultaneamente produz e espedaça.

Paul Klee – Angelus Novus

Los cuervos estuvieron una semana sin volar

Revista Parêntese, ed. 130

Desde o último 19 de abril, quando remarcam o Día del Aborigen Americano, os argentinos têm estado a ver-se com um capítulo terrível de sua história: o massacre de Napalpí. 

Promovido pela Unidade de Direitos Humanos da Promotoria Pública Federal da cidade de Resistencia e conduzido pela juíza federal Zunilda Niremperger, o caso é caracterizado como crime contra a humanidade e, por sua imprescritibilidade, consiste mais numa busca pela restituição da verdade do que pela condenação dos envolvidos. Explica-se: o massacre dos indígenas Qom, Tobas e Mocovis reduzidos na província do Chaco ocorreu há quase um século, em 1924; portanto, quase a totalidade dos diretamente envolvidos já não vive mais. Mesmo com tanto tempo passado, o processo tomará em conta relatos de dois sobreviventes centenários do massacre e de diversos descendentes dos indígenas vitimados.

Pela crueldade, massacres não constituem sequer etapa do processo de colonização, mas uma abominação das relações humanas e políticas. No entanto não há outra forma de denominar as condições das mortes dos indígenas argentinos e da produção do “conflito”. 

Desenraizados por completo das condições de vida habituais, as cerca de 400 pessoas assassinadas viviam em reduções, isto é, em aldeamentos organizados pelo governo da província do Chaco para o trabalho nas cosechas (plantações de algodão comuns na região). O “conflito” teria se iniciado a partir de um protesto dos indígenas a respeito da maneira com que se lhes remunerava o trabalho executado. A resposta governamental veio na forma do metralhamento indistinto da população, causando inclusive a morte de velhos e crianças.

Desde então e até há pouco, quando descendentes passaram a recuperar a história, o crime tornou-se um tabu nacional. Debitado a uma suposta violência reativa dos indígenas que resistiam a trabalhar de forma quase escrava (em troca de vales alimentares) no território em que seus antepassados viveram livremente, até mesmo a invocação dos temíveis malones na imprensa local e buenairense motivou a criação de uma força-tarefa comum entre agentes públicos e voluntários. O objetivo era um só: a eliminação total dos reduzidos.

Em 2008, quando o governo provincial do Chaco formalizou um pedido de desculpas públicas pelo massacre, entidades como a EAAF (Equipo Argentino de Antropologia Forense), a Fundación Napalpi e o Ministério Público Federal argentino iniciaram os trabalhos de reconhecimento das vítimas depositadas em valas comuns e organização documental. A publicação de La Voz de La Sangre, livro de um dos fundadores da Fundación Napalpí, motivou a retomada das investigações históricas adormecidas por quase um século. Agora, com o início do processo, serão ouvidas dezenas de descendentes diretos dos poucos sobreviventes que se refugiaram nas florestas nativas. Do massacre executado com requintes de crueldade e no qual até mesmo um avião foi utilizado, a anciã Melitona Enrique, com 107 anos em 2008, dizia preferir esquecer a semana em que “los cuervos estuvieron una semana sin volar“.

Mesmo incapaz de recuperar a vida dos massacrados, o ato e a busca pela reparação empreendida pela justiça argentina são demonstrações públicas do desejo de rever uma relação colonial marcada por séculos de violência simbólica e real. Se, na época do massacre, a tríade de violência, ódio e animosidade bastava para alijar a população indígena dos mais elementares direitos humanos, o inexplicável ambiente de guerra total finalmente parece dar vez à racionalidade histórica.

Com sua tradição oral tomada em conta em juízo, indígenas e seus descendentes terão a oportunidade de colaborar ativamente na recuperação da verdade acerca do rompimento de sua própria continuidade histórica. A vulnerabilidade das vítimas confrontadas ao esforço oficial por apagamento e negação. Bem como na condenação dos “voos da morte” e crimes da ditadura recente, em 2017, é justo reconhecer o esforço argentino em encarar seus fantasmas de frente. No esforço decolonizante, também estão passos à frente dos brasileiros. Crimes da mesma espécie provavelmente não nos faltariam para comparar e enfrentar, mas é pena que não parecemos preocupados em rivalizar com os hermanos nesse aspecto.

Os cativos

Revista Parêntese, ed. 123

Na Argentina e no Chile, principalmente, o tema da “cativa” é recorrente desde o romantismo de Echeverria e parece ter chegado com força ao séc. XXI. É uma figura histórica que, ao que eu saiba, nunca figurou na literatura rio-grandense, mas, nos países hispânicos, é tema regular desde o romantismo a imagem da cautiva capturada pelos malones dos índígenas pampeanos.

Começa em Echevarria, passa por Juan de San Martin, entra nas canções de Ariel Ramirez e Félix Luna e, recentemente, figurou num romance que chegou ao Man Booker Prize em 2020, “As aventuras da China Iron”, que narra nada menos que a fuga para os territórios indígenas da esposa infeliz de Martin Fierro. No antimodelo feminista neo-romântico desse último, nada daquilo de louvar as mujeres robadas. Há, por outro lado, uma busca idealizada por uma vida de liberdade entre indígenas libertários.

Por aqui, na literatura do Rio Grande, os indígenas comparecem muito menos e isso competiu por séculos numa dúvida histórico-antropológica: ou eles foram dizimados na colonização paulista ou foram reciclados na genética mestiça do gaúcho, um dos únicos matizes da miscigenação com uma caracterização vencedora na história cultural brasileira.

É bem verdade que os escritores gaúchos do séc. XX, a começar por Simões Lopes Neto, que foi recuperar a lenda de Sepé da tradição popular, buscaram recompor um lapso considerável que se explica em muito pela “idade” do Rio Grande comparado, por exemplo, a Buenos Aires, fundada em 1580. Politicamente, o Rio Grande do Sul nasceu apenas poucas décadas antes da Revolução Farroupilha, então parece inevitável que o gaúcho brasileiro aconteça histórica e literariamente quase ao mesmo tempo do indígena, quando um deveria preceder o outro. Na Argentina, a situação é outra. Lá, o antecedente seminal é o próprio indígena. Ele que é o elemento anterior (tanto que o folclorista e cantor Atahualpa Yupanqui diz em uma de suas composições: “detrás, hay un indio“).

Por aqui, a própria disputa em torno a Sepé querelada na década de 50 pelos integrantes do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul reforça a frouxidão deste nó histórico. Nossas referências habituais, apesar disso, são as missioneiras e não as dos indígenas “selvagens”. Malones e cautivos não aparecem na literatura rio-grandense porque os registros históricos encontraram o Rio Grande do Sul já no desenlace das etnias originárias e os nossos indígenas pampeanos não registraram sua passagem no mundo, eles que foram registrados. Todo o legado vem indireto, como quase inteiramente precisamos importar do Prata um folclore e motivos. No Guia do Folclore Gaúcho (1951), de Augusto Meyer, ele já alertava quanto à “pobreza do acervo indígena incorporado ao folclore gaúcho”.

Por essa razão, parece meio postiço e ilusório falar em “herança” charrua. Se os brasileiros tiveram algum interesse nos charruas que não fossem os mesmos dos espanhóis (colocá-los em guerra a serviço dos colonos), teríamos uma postura mais decente com o uso do nome da etnia. Os uruguaios pelo menos vêm tentando fazê-lo com literatura de muito boa qualidade, como o Bernabé, Bernabé (1988) de Tomás de Mattos que Sergio Faraco traduziu para a Mercado Aberto e é pouquíssimo debatido aqui, como se a história dos charruas não nos pertencesse, apenas o seu nome. Por outro lado, os rio-grandenses ainda parecem estar buscando representar legado mais significativos dos povos originários, num afã de recomposição cultural. Na literatura, no entanto, ainda não arredamos muito o pé do pobre Sepé, morto e bem morto. E justamente por quem…

Eu não sei bem o que houve aqui, creio que ninguém se arrisca peremptoriamente, mas acredito que de tudo um pouco. Em relação aos indígenas, mantemos uma relação extremamente dúbia. Ora recusamos sua contribuição ao legado cultural e reivindicamos o europeísmo colonial ora homenageamos etnias que, junto aos hermanos uruguaios, contribuímos em extinguir da face da Terra: principalmente as tribos charruas, minuanas e etc. É o que dizem as evidências históricas.

A nossa tendência contemporânea de ideologizar a vida das minorias massacradas por vezes parece ter os mesmos compromissos com a factividade dos românticos do séc. XIX. O indígena gaúcho parece mesmo ter sido sempre um ser evasivo, duro e indócil, como muitas tribos das Américas que renunciaram à paz submissa com os colonizadores. E é bem provável mesmo que tenha se extinto detrás do clamor das guerras e malones. Mas nem por isso eram anjos. A idealização dos brancos, todavia, é tinta que não lhes sai fácil do rosto. Passa o tempo, e o máximo que acontece é uma dar lugar a outra.

Tomorrow will be beautiful

A cada vez que eu vejo escritores reclamando a falência e o esgotamento da crítica literária, fico pensando no que então poderiam dizer os músicos a respeito da crítica musical. Este é um abismo do qual e para o qual ninguém olha muito porque, de um modo geral, a música vive uma sucessão de impasses desde a instauração da crise do disco e do fim do CD. É crise sem fim à vista. Crise em curso ainda.

Se é relativamente simples encontrar-se resenhas de lançamentos de autores nacionais e estrangeiros, no tocante à música o cenário é desastroso. Além de que são raros os jornais e revistas (que revistas?) que contam com críticos musicais, a prática vai por sua vez resumindo-se a uma crítica de eventos. Até pouco tempo, os blogues musicais ainda supriam um tanto a busca por informações, mas, com as redes sociais, foram soterrados pelo big data e sua orquestra de algoritmos.

A reboque da crise de formato, pode-se ver então um pouco mais a extensão da crise de mercado que afeta o métier, uma vez que a remuneração do produto gravado danou-se e a crise de crítica e de consumo vai se apagando à medida que a própria mídia cultural vai se desfazendo. É o laissez-faire da contemporaneidade, a verdadeira balbúrdia para a qual ninguém estava preparado. Mas aqui chegamos.

Perto desse cenário, mesmo a miséria editorial literária parece um banquete perto do que se dispõe de espaços de divulgação e debate musical.

Os efeitos são terríveis para músicos e compositores brasileiros e/ou estrangeiros. Lançamentos relevantes, novos nomes de uma cena musical distante dos hits estratosféricos das redes e plataformas continuam acontecendo, assim como novos trabalhos de artistas vão ficando cada vez mais circunscritos aos próprios seguidores. E como essa contabilidade digital passou em algum momento a ser qualificada como relevância, a situação é de um impasse muito complexo para a qual as fórmulas de debate musical habituais não conseguem mais abordar, pois o campo foi extrapolado (ou entregue) para a tecnologia da informação.

Um exemplo. Dois dos meus compositores e cantores preferidos da última década, o casal Benjamin Clementine e a cantora Flo Morrissey. Dele, com um alcance maior e presença em palcos europeus, ainda se consegue alguma referência em português. Mesmo assim, demorou bastante e por muito tempo o único texto disponível era um que eu mesmo havia escrito. Isso para um artista literalmente gigante.

E ela? Nada ainda. É certo que com seus dois discos a repercussão não seria imediata, porém a invisibilidade é sobretudo de crítica. Seus views nas plataformas são modestíssimos. Há apresentações de estúdio, com alta qualidade de gravação, que não chegam aos 3.000 views no YouTube. Como o de Benjamin, seu disco é dos mais estupefacientes (e duradouro, a gravação é de 2015). Um lirismo rico, arranjos etéreos e sublimes e uma voz que fica entre Billie Holliday e Karen Dalton. Alguma referência a sua existência no Brasil? Nenhuma.

Talvez estejamos bem sem nada disso, afinal, parece que nos bastamos com outra qualidade de coisas. Mas vamos sem crítica. Daqui a um pouco, porque também ninguém é de ferro, vamos sem música mesmo, porque os ouvidos também não são de ferro.

A prima-pobre do setor livreiro

IHU on-line

Primas-pobres na grande família do sistema literário brasileiro, as bibliotecas públicas agonizam num mercado que se volta cada vez mais à bibliofilia.

O texto podia parar aí mesmo porque inclusive entre pessoas que não frequentam o espaço de bibliotecas (ou por isso mesmo) sabe-se que esta é uma realidade que vem sendo decantada ao longo da história cultural brasileira, especialmente a partir da explosão digital dos anos dois mil. No entanto, a afirmação é insuficiente para compreenderem-se as dimensões do problema. É preciso servir-se de esclarecimentos e maior precisão.

Como primas-pobres, cabe-lhes a atenção ocasional, as roupas usadas que não servem mais e uma promessa de crédito que raramente se cumpre, imaginada desde projetos legislativos que, afinal, parece que tudo bem se nunca forem cumpridos. Não há quem os fiscalize ou tenha em alta consideração. É por isso mesmo que, do Oiapoque ao Chuí, seguidamente vê-se o estado falimentar e número insuficiente de prédios deteriorados da administração municipal e estadual que apontam para a obsolescência do interesse genuíno da sociedade brasileira em cumprir a utopia constitucional de igualdade.

É a internet, diagnostica o senso comum. Bem poderia ser, mas a internet não foi o suficiente para que outros países do mundo deixassem de investir em novos espaços e ampliações. É preciso, pois, explicar a natureza da discrepância. Em vésperas do ano 2000, por exemplo, a Dinamarca reabriu o seu “diamante negro”, a impressionante Biblioteca Real Dinamarquesa. Em 2006, em Taiwan, inaugurou-se a sustentável sede da Biblioteca Pública de Taipéi. No México, fundou-se a Biblioteca Vasconcelos em 2006.

Em contrapartida, de acordo com a FEBAB e o IBGE, o número de instituições públicas vem caindo (de 97,7%, em 2014, a 87,7%, em 2018). No âmbito educacional, o cenário não é melhor. Informa o Censo Escolar de 2018 que metade das escolas brasileiras ainda não contam com bibliotecas. O “atenuante” é que há projetos de lei jogando para um buraco negro temporal a obrigação de cumprir a Política Nacional do Livro, como o Projeto de Lei 4003/20. Menos mal que o projeto continua emperrado na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

As comparações são reiterativas, dolorosas e detratam não apenas o descaso político, mas a distância que se amplia em relação ao restante do mundo no único desenvolvimento sustentável efetivo: aquele que é mediado pela educação. Os indicadores são ásperos e os resultados socializados na materialização da precariedade que atravessa o país sob qualquer angulação.

No entanto as bibliotecas padecem por outras razões também. Há a autosuficiência de um mercado que se organiza pela relação paradoxal entre um tempo de leitura cada vez mais escasso e ofertas cada vez mais torrenciais e inacessíveis. Há ainda o fantasma da hipertributação proposta pelo governo federal assombrando o mercado e consumidores. Não bastasse isso, o vaticínio permanente do anacronismo a encantar gestores ávidos por economia sem notarem que o que fazem é investir no empobrecimento.

Certamente não foi em razão do investido nas bibliotecas (cuja maioria vive sem orçamento próprio), mas paulatinamente o ciclo do livro nacional foi se transformando numa cadeia de exorbitâncias. Apesar disso, pesquisas regulares como as realizadas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pelo Instituto Pró-Livro demonstram que a projeção de quebra no começo da pandemia foi em parte detida pelo incremento do comércio digital num patamar de crescimento em torno de 41% em 2021.

Apesar da recuperação, a tendência de queda histórica se consolida em quase 40% desde 2005, pelos números da Câmara Brasileira do Livro. Exorbitância negativa, a caixa-preta dos direitos autorais continua indevassável e objeto de dúvidas permanente, dada a subjetividade da composição de preços e dificuldade em aquilatar-se a expressão real das vendas. Na pandemia, com a ausência de eventos, a crise foi ainda mais nitidamente exposta no que toca ao ciclo.

Embora as bibliotecas públicas participem cada vez mais marginalmente do setor, a situação de subdesenvolvimento exaspera uma população que, por conta da dinâmica de leitura imposta pelos canais digitais, cada vez mais se afasta do mundo da leitura. Seja pela política de preços das editoras que compensam os baixos números com altos valores ou pela substituição de fontes de informação, o setor se especializa cada vez mais em torno de consumidores de alto poder aquisitivo. Os valores praticados para o mercado de tiragens cada vez menores exorbitam, por sua vez, na composição e consolidação do livro como artigo de luxo. Como exemplo disso, basta ver a que títulos e edições se referem os valores mais altos praticados na Estante Virtualmarketplace mais utilizada pelos sebos no Brasil.

Se dirigir o olhar para exemplos de países que investiram massivamente na educação e amparo à leitura no mundo contemporâneo, como Índia e China, é insuficiente e arrebatador, então o que se pode pedir é que o setor se comporte com menos voracidade. O custo da voracidade é diretamente proporcional à dissolução do mercado consumidor, como já atestou a crise das duas grandes redes brasileiras, Cultura e Saraiva. Aplacaria os efeitos colaterais danosos, talvez, um esforço em garantir o livro após o esgotamento do seu ciclo comercial, justificando o investimento na acessibilidade digital e universal. Ao invés de simplesmente tributar, reinvestir o valor nos elos fracos da cadeia. Por complexa, a problemática não será resolvida por uma sublimação do valor simbólico do livro, quem sabe mais pelo empenho em recuperar a cadeia e evitar ao máximo o desperdício do bem cultural.

Lugar da poesia no pensamento brasileiro

O ensaio foi também publicado na revista Sísifo (13), jan./jun. 2021

Mesmo que soe sempre como um “a quem interessar possa” ou uma encoberta inclinação filosófica, é constante a presença mais ou menos declarada do que se definiu chamar metapoesia em boa parte da obra publicada pelos poetas brasileiros do séc. XX. Considerando que é uma expressão que se volta para si mesma, é de pensar que o interesse do público quanto aos processos intelectuais e estéticos dos poetas fosse bem menor que os motivos líricos mais corriqueiros e de interesse universal. Ainda assim, continuando uma tradição auto especulativa que rendeu poemas até hoje lembrados e interrompendo um tanto a fluência e dicção de extração mais coloquial, o espaço da poesia de caráter mais reflexivo – embora limitado – está garantido na história literária nacional por meio de seus maiores expoentes, tais como o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e os fluminenses Dante Milano (1899-1991) e o contemporâneo Paulo Henriques Britto.

Ao menos na poesia em língua portuguesa – em especial a realizada no Brasil – os exemplos não se encerram nestes nomes e abordam desde poemas tomados isoladamente como livros inteiros dedicados a pensar a metalinguagem empregada na poesia. São cada vez mais presentes, aliás, estudos que examinam as obras dos poetas em particular sob esse aspecto, como em Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, entre muitos outros nomes. Fora isso, o interesse de muitos poetas brasileiros recentes (no limite, estou pensando do fim da Primeira Guerra Mundial em diante) voltou-se frequentemente a questões menos atinentes à metapoesia e ao ordinário cotidiano, dirigindo-se a outros aspectos de interesse da filosofia, tais como as relações do indivíduo com o mundo social em suas diferentes perspectivas, impactando diversamente a vida intelectual do país.

Para além de deslocar-se do etapismo por meio do qual muitas vezes se aborda a história literária, pode consistir num campo de estudos interessante a análise da contribuição da poesia na história do pensamento brasileiro e a verificação da inclinação dos poetas a refletirem tanto quanto a si mesmos como suas escolhas e intenções temáticas. Dado que o contato dos poetas com as ideias filosóficas do seu próprio tempo costuma ser muito presente, é possível que naquela poesia mais reflexiva tais ideias compareçam de uma forma mais explícita, contaminando sua produção de acordo com o seu contato com essas ideias e a sua permeabilidade subjetiva.

Desde que se esclareça que essa interferência ocorra de modo multilateral, ou seja, sem uma ordem de precedência ou influência, poderemos ver também que, a seu tempo, muitos poetas brasileiros introduziram questões filosóficas entre o público leitor brasileiro (e mesmo entre outros poetas e intelectuais). Isso pode ter ocorrido sobretudo em momentos nos quais pouco havia de realização e publicação nacional original em filosofia. Trata-se, portanto, de garantir que cada qual seja percebido conforme a sua perspectiva particular, numa amostra da elasticidade intencional nas relações possíveis entre poesia e filosofia realizada pelos diferentes poetas.

No decurso histórico, a necessidade de uma expressão poética mais reflexiva não parece ser distribuída igualmente, então sua visibilidade é proporcional tanto aos movimentos culturais globais quanto às problemáticas com as quais a sociedade precisa lidar e, principalmente, quanto à medida a qual poetas sentem-se tocados por essas questões. Tanto a distinção histórica quanto a diversidade cultural impactam as motivações criativas de modo muito particular. Enquanto para João Cabral de Melo Neto, por exemplo, a extrusão de uma poética intelectualmente rigorosa decorre de uma percepção mais preocupada com a expressividade do que com a subjetividade, a poesia de Dante Milano, por seu turno, é mais atenta aos processos mentais e metafísicos. Já Paulo Henriques Britto, poeta contemporâneo que traz em sua produção um forte componente autorreflexivo, debate-se com o esgotamento da lírica em substituição a outras formas, como a canção, e investe mais na investigação dos impactos da representação e dos limites da autoexpressão. Dessa forma, Britto retorna com mais vigor ao debate a respeito da criação poética do que parece importar aos seus contemporâneos, isso pelo menos quanto é possível verificar na produção contemporânea publicada em livros, em periódicos especializados e antologias, de acordo com debates realizados por estudiosos e interessados na mídia cultural. Todavia seria uma limitação sem sentido atribuir a ele esse interesse exclusivo, pois a sua poesia, principalmente a registrada em seu mais recente livro, Nenhum mistério, avança muito mais em direção ao que pode a poesia em relação ao pensamento subjetivo do que aos seus aspectos formais.

É importante que se diga que o interesse aqui não é proporcionar uma leitura comparada dos poetas, mas a verificação da autopercepção e seus impactos na subjetividade expressa na poesia brasileira recente, examinando a disposição de alguns poetas em investir mais na poesia de cunho reflexivo e seu impacto na história cultural e do pensamento. Tomando-se em conta as implicações históricas particulares que afetaram diversamente aos poetas ao longo de quase um século, é preciso não ser restritivo quanto ao distinto aporte cultural de cada um nem as suas preferências e influências filosóficas. De outro modo, considerar estas questões como naturais apenas pode garantir que não se esteja procurando qualquer espécie de nivelamento prévio.

Por tratar-se essencialmente de uma metalinguagem voltada ao próprio psiquismo, a metapoesia tem uma expressão diversa e dispersa em muitos poetas. Alguns terão escrito um verso dentre muitos manifestando o contexto do qual emerge sua expressão; outros registrarão poemas dedicados a discutir a sua criação quanto às questões históricas e estéticas; alguns ainda tratarão do tema em livros inteiros ou em comentários redigidos na forma de artigos e ensaios. Talvez fosse inocente demais considerar que os poetas não elaboram uma avaliação do que criam, mas o séc. XX e a emergência modernista no Brasil tornou muito evidente este debate entre poetas no que diz respeito a sua criação, também comparativamente. É possível imaginar que, muitas vezes, não se trata apenas da defesa de uma concepção estética individual, mas de um debate mais complexo no qual se podem antever as influências filosóficas que mais os atingem e a maneira como eles resolvem a intrincada relação que se estabelece na apreensão do mundo, das ideias que nele circulam e a forma final que tudo isso impacta a criação e os interesses subjetivos.

Encontrar-se evidências ou vestígios de metapoesia, portanto, às vezes significa a expressão de uma preocupação menos aleatória do que parece à primeira vista, pois constituinte do psiquismo e do processo criativo criação de cada poeta. Além disso, como os poetas costumam conhecer-se mutuamente e trocar impressões, muitas vezes acontece desse debate evidenciar-se entre contemporâneos ou em análises históricas, de poetas do passado. Quando um poeta como Manuel Bandeira escreve a sua “Poética” e afirma do que lhe interessa, está manifestando a sua impressão a respeito do que vinha sendo feito e suas preferências. “Estou farto do lirismo comedido”, disse ele para anos mais tarde rever a si próprio e “lançar a teoria do poeta sórdido”. E quando João Cabral de Melo Neto diz a Carlos Drummond de Andrade que “não há guarda-chuva/contra o poema” e este declara a Manuel Bandeira que “(…) a minha / musa de pescoço fraco / a ver-te, mete a violinha / no saco” e Bandeira, por sua vez, escreve um livro inteiro de Louvações a outros poetas, vê-se nitidamente que os poetas dialogavam por meio da poesia para além da eventual ou corriqueira correspondência, a depender da intensidade do laço de amizade. O hábito de Drummond em dedicar versos inclusive foi reunido pelo também poeta Eucanaã Ferraz no volume intitulado Versos de circunstância, publicado em 2011 pelo Instituto Moreira Salles. Quanto à obra de João Cabral Melo Neto, Antônio Secchin registrou nela a ocorrência de dedicatórias e menções em 13 dos seus 20 livros.

Também os seguintes versos são muito demonstrativos de que os grandes poetas brasileiros modernistas e os subsequentes ocuparam-se da autorreflexão e da metapoesia muitas vezes: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã.” – Carlos Drummond de Andrade; “O poema final ninguém escreverá.” – João Cabral de Melo Neto; “O poema deve ser como a nódoa no brim” – Manuel Bandeira; “Fere de leve a frase… E esquece…” – Mario Quintana; “Entendi que as palavras / daquele modo agrupadas / dispensavam as coisas sobre as quais versavam / meu próprio pai voltava indestrutível.” – Adélia Prado; “Densa / a palavra fere / o branco / expulsa a presença e – humana – é esplendor memória / e sangue.” – Orides Fontela.

Assim como seria inocente cogitar-se a ausência de reflexão dos poetas quanto a sua poesia, seria igualmente ingênua a suposição de que tenham se restringido a pensar apenas em si próprios. Caso fosse assim, aliás, como angariariam a simpatia dos leitores? Aí estão as coletâneas póstumas, de correspondência, artigos para a imprensa e ensaios que podem demonstrá-lo. Em relação à filosofia da composição, o desenvolvimento dos estudos acadêmicos propiciou inclusive que muitos poetas com formação em filosofia elaborassem ao mesmo tempo obra crítica e poética. No presente, os mais conhecidos no Brasil parecem ser Antonio Cícero, que tem dois livros abordando a intersecção/afastamento entre os campos filosófico e literário, e Alberto Pucheu, que, por sua vez, organizou um dos poucos livros recentes que abordam a congruência dos temas. Adélia Prado, embora tenha formação pela Faculdade de Filosofia de Divinópolis, ao que me consta não tem publicação teórica a respeito da poesia, a despeito de ser uma poeta que reivindica muito em seus poemas o lugar da reflexão metafísica e tenha algumas poucas vezes concedido entrevistas e realizado conferências a respeito de sua obra. Adélia é muito mais conhecida por poeta, no entanto, que por filósofa. Orides Fontela, que em 1983 foi premiada com o Jabuti de poesia por Alba, formou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo e registrou num único ensaio a sua percepção quanto aos dois temas, afirmando que, em seu ideal, “poesia não é loucura nem ficção, mas um instrumento altamente válido para apreender o real” (FONTELA, 2018, p. 11). E provavelmente haja outros nomes não tão conhecidos ou menos evidentes que presentemente estudam filosofia e escrevem poesia de forma concomitante, uma vez que nem toda a poesia escrita é bem divulgada e difundida.

No exterior, são bastante conhecidos muitos filósofos que também foram aos versos para expressarem-se; ocorre-me rapidamente a alemã Hannah Arendt (cuja obra poética traduzida para o português parece estar finalmente avançando) e, um pouco mais remotamente, Miguel de Unamuno. Também seria possível buscar aqueles poetas cujas obras foram tomadas em algum momento como ponto de partida de estudos teórico-filosóficos, tais como Wallace Stevens, T. S. Eliot, Paul Celan, Robert Frost e outros – são os assim chamados philosophical poets. Especificamente Hannah Arendt interessa a esta argumentação porque, mais adiante, será possível verificar que ela discute em seu livro final, A vida do espírito, não apenas a origem e relevância da metáfora na constituição e organização do pensamento, mas também o tempo, elemento constantemente evocado na poesia de muitos poetas do modernismo brasileiro, como Cecília Meireles, Jorge de Lima e Mário Quintana.

Para além das preocupações autoexpressivas e metalinguísticas observáveis na poesia, as ideias filosóficas, por outro lado, muitas vezes nela diluem-se em temáticas e abordagens tão diferenciadas quanto são as vozes poéticas. As inflexões filosóficas e reflexivas ocorrem, por essa razão, de forma assistemática e essencialmente desigual, com algumas poéticas mais atentas ao mundo externo e outras ao mundo interno, mas num movimento desuniforme. Além da reflexão sobre a poesia e o ato de escrevê-la, poetas de todas as épocas têm induzido por meio de suas obras as pessoas à reflexão. De uma forma religiosa ou profana, sob o rigor formal ou por meio do verso livre, não importa, o poema “altera” o mundo sem alterá-lo efetivamente. Faz simbolicamente e é por meio de suas atribuições figurativas e argumentativas que no leitor cresce ou decresce sua empatia para com ele, numa negociação de linguagens, crenças e expectativas. O poeta, por meio de seus recursos e artifícios, causa sem causar no mundo físico, mas atinge o psiquismo das pessoas na sua emoção, sentimentos e capacidade reflexiva.

Se é mesmo vedado ao poeta descrever ou narrar completa e efetivamente seus sentimentos (para o filósofo coreano Byung-Chul Han “nem o afeto nem a emoção são narráveis”) (HAN, 2018, p. 60), seu elo comunicativo com o leitor então é sempre limitado e incompleto, pois duas pessoas nunca são plenamente equiparáveis em personalidade, experiência e compreensão. Contudo, mesmo considerando países com letramento precário como o Brasil, é na poesia que as pessoas muitas vezes primeiro tomam contato com ideias intelectuais mais elaboradas ou filosóficas e criam laços importantes de identificação com poetas e suas ideias e metáforas. Se a incomunicabilidade entre as pessoas é por vezes facilmente identificável e constatada, também é notável a capacidade que muitos poetas têm de induzir as pessoas às emoções e pensamentos menos usuais na vida cotidiana, gerando empatia e identificação. Por muito tempo, os jornais brasileiros contaram com poetas que contribuíram regularmente e que, desse modo, fizeram-se conhecidos e deram a conhecer sua visão de mundo e de humanidade.

Evidentemente que, ao longo de um século (e ainda por cima um século como o vigésimo), os padrões comunicativos e estéticos se alteraram muitas vezes; e radicalmente em muitas delas. A poesia, que se desenvolveu e transformou a reboque de movimentos históricos, políticos e culturais marcantes, foi inevitavelmente impactada por todos esses elementos sociais e históricos, além dos provocados por movimentos de reivindicação estética ou ideológica. Foi durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial que um poeta com uma dicção um tanto incomum se fez notar entre os leitores e autores modernistas, diferenciando-se ao mesmo tempo do modernismo brasileirista, do grupo espiritualista reunido em torno da revista Festa e também dos elegíacos Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes: em 1948, contra a sua vontade, pois preferia a posteridade à publicação, Dante Milano impactaria leitores e crítica com sua lírica cerebral, por meio do livro Poesias, publicado pela José Olympio no Rio de Janeiro.

Dante Milano

No período anterior à publicação de Poesias, livro que reúne os poemas que foram praticamente todos os que ele escreveu (ou pelo menos manteve) em vida, Dante Milano publicou esparsamente em jornais, principalmente no suplemento Autores e Livros, do jornal A Manhã, poemas, traduções e artigos a respeito de literatura e outros assuntos. Ainda assim, para a crítica da época, composta por alguns estudiosos e muitos escritores, o seu lançamento em livro foi determinante para balançar ainda mais a torre modernista, pois a sua poesia intelectualizada exigia uma percepção mais acurada que, pelas mãos de amigos e admiradores de anos anteriores, não tardou a chegar. Dante Milano guardou o quanto pode seus poemas e sua publicação tardia, por esforço de amigos, em 1948, constituiu, de acordo com Sérgio Buarque de Holanda, no evento literário mais importante da vida literária daquele momento. Além dele, Franklin de Oliveira, Paulo Mendes Campos e Manuel Bandeira também, no calor do momento, saudaram a chegada de seu livro e dedicaram-lhe críticas muito positivas.

Essa poética intelectualizada, em grande medida filosófica, nascia para o Brasil como outros poetas haviam aparecido no mundo, tais como Fernando Pessoa em Portugal, Eugenio Montale na Itália e T. S. Eliot e W. H. Auden no mundo anglófono. De acordo com Ivan Junqueira, Dante Milano esfriava um pouco o ânimo naturalmente exaltado do brasileiro e de forma inaudita:

É que, contrariando as tendências efusivas e algo emocionais da poesia brasileira – mas não, necessariamente, as da poesia de língua portuguesa -, Dante Milano cultiva uma poética do pensamento emocionado, como o fizeram os chamados “poetas metafísicos1” ingleses do séc. XVII, o que não significa que sua expressão haja renunciado à emoção. Quem nele sente, porém, é o pensamento (JUNQUEIRA, 2005, P. 300).

Embora não fosse filósofo e nem comungasse das propostas estéticas das vanguardas do entre guerras e preferisse a austeridade das formas fixas às experimentações em verso livre, a sua publicação viria a influenciar mesmo poetas que surgiram e foram publicados antes dele, como Murilo Mendes. Murilo, mais espiritualizado do que ele, também escrevia uma poesia bastante diferenciada em relação aos seus contemporâneos, mais por conta de uma autoimersão na proposta surrealista, tendo uma visão muito particular a respeito do que a poesia deveria realizar: “a poesia deve propor não só um conhecimento, mas ainda uma transfiguração da condição humana, elevando-nos a um plano espiritual mais alto.” Dante Milano, por outro lado, não se devotava de todo às ideias metafísicas e, mesmo identificado por seus críticos como o poeta do “pensamento emocionado”, costumava conservar uma lucidez constante quanto às possibilidades poéticas e as suas como indivíduo. Essa atitude filosófica que transborda para a sua poesia de certo modo compeliu muitos leitores sensíveis e outros poetas também na realização, a seguir, de uma poesia mais introspectiva.

Além dele, outros poetas, modernistas e posteriores, cada qual com sua peculiaridade, aproximaram-se dos temas mais reflexivos por desejo autônomo. Embora Vinicius de Moraes abandonasse o misticismo religioso com Forma e exegese e passasse a tematizar preocupações mais mundanas, com o lançamento de Mar absoluto, de Cecília Meireles e O aprendiz de feiticeiro, de Mario Quintana, a poesia mais introspectiva aprofundou suas raízes e expandiu sua presença na literatura brasileira na década seguinte, quando Carlos Drummond de Andrade publica os seus dois livros mais intelectualizados (ou filosóficos): Claro enigma e Fazendeiro do ar e João Cabral de Melo Neto, com o Cão sem plumas e Psicologia da composição, aprofunda sua reviravolta formal e consolida sua poesia lúcida e visual de forma ímpar na poesia brasileira.

Porque recluso da vida social literária – embora guardasse amizades duradouras com os principais artistas e intelectuais da sua época – Dante Milano descolou-se muito das influências predominantes no período, em sua maioria provenientes do exterior, e recuperou da leitura dos clássicos e da filosofia muito de sua perspectiva peculiar. Mal situado no modernismo e na poesia de vanguarda que logo apareceria com mais força no Brasil, na década de 50, mesmo um crítico estudado como José Guilherme Merquior preferiu colocá-lo como um dos poetas “avulsos” em meio às principais tendências poéticas do modernismo brasileiro, sem deixar de registrar a particularidade de sua “marca de permanência” dada pelo rigor que aplicava na expressão de sua poesia intimista.

Voltando sua atenção a temas filosóficos universais e ao drama humano marcado sobretudo pela consciência do desamparo da finitude, Dante Milano desembaraçou-se de debater em sua poesia muitas questões candentes de seu tempo, o tempo da Segunda Grande Guerra. Todavia, em seus artigos e pequenos ensaios, ele também se dedicou a assuntos de interesse político e voltou-se algumas vezes à poesia contemporânea, mas ainda mais a do passado, com a de Dante e de Baudelaire, que traduziu. É o suficiente para desmentir a hipótese de poeta isolado do mundo e afastado dos problemas de seu tempo, ainda que o “tempo” considerado filosoficamente parece ter-lhe ocupado mais e rendido um dos estudos mais conhecidos, publicado em 1942 no suplemento Autores e Livros. Em Na biblioteca do tempo, Dante Milano demonstra sua preocupação acerca da transitoriedade de tudo, inclusive da modernidade e confirma assim a sua preocupação em manter a sua própria percepção do mundo por meio da escrita: “O Tempo é um velho leitor, atento e incansável. Nem um instante larga o livro. Parece que da vida só existe para ele aquilo que ficou escrito. O resto desaparece, o Tempo não o lê.”

Na poesia de Dante Milano, o desencanto com a própria condição humana o conduz a uma espécie de rendição à aniquilação inevitável da existência. De um tempo fugaz, preenchido pelo cotidiano e pela materialidade das coisas, Dante Milano se desprende em direção ao pensamento em sua forma mais pura, decisiva para ele mesmo e menos intencional que poderia ser uma poesia mais cerebral. Que ele tenha tratado isso de forma encantadora e poética se deve, talvez, ao seu intenso amor pela arte poética e pelo que ela consegue devolver ao poeta do que o tempo e a condição humana, débil e finita, a própria vida paulatinamente foi quitando. Sem nunca perder essa autoconsciência, talvez como a obra de Fernando Pessoa se concentra sobremaneira na dualidade do ser e do pensar o ser, Dante Milano conseguiu consagrar na poesia brasileira uma mentalidade mais autocrítica do que crítica do mundo e diferenciou-se dos demais poetas brasileiros de sua época pelo que Paulo Mendes Campos denominou de “antilirismo lúcido”, confluindo o pensamento simbólico da poesia em direção a uma subjetividade esvaziada pela ruína moral experimentada pela humanidade no período em torno ao horror da Segunda Guerra Mundial. Possivelmente pelo arruinamento do mundo, Dante Milano tenha se voltado à introspecção. Dessa sua tendência ou determinação, não importa, conseguiu criar sonetos, cantigas e poemas em verso livre sobre a própria condição da existência, como nos versos a seguir:

Cantiga

A vida é tempo perdido.
O que se ganha é bem pouco.
Que vale ao morto o vivido?
Que vale ao vivo, tampouco?

E nunca me sai do ouvido
Esse rumor incessante:
“A vida é tempo perdido”…
Oh, que marulho distante,

Voz de sepultos oceanos
Num caracol aturdido.
Longos dias, breves anos.
A vida é tempo perdido.
(MILANO, 1979, p. 49)


Lugar da poesia no pensamento brasileiro

Não há dúvida que Dante Milano não foi o único poeta brasileiro que se voltou a uma tendência intimista no decurso do séc. XX. Muitos outros poetas já mencionados o fizeram e precederam, porém, a radicalização empreendida por ele até a sua aparição era inaudita. Talvez por conta de seu afastamento dos círculos literários ou por suas predileções temáticas particulares, nunca se poderá saber ao certo, sua dicção se diferenciou bastante dos seus contemporâneos, apesar de muitos compartilharem mais ou menos de preocupações subjetivas e desenvolvessem também uma poesia de caráter mais especulativo, aproximando-se do pensamento mais filosófico ou, como às vezes suponho, tenha especulado filosoficamente por meio da poesia, embora não seja por isso, entretanto, que um poeta possa ser mais ou menos notável em razão de sua poesia. Como adverte o poeta e filósofo Antonio Cicero: “o que torna um poema admirável enquanto poesia não é o que torna um texto filosófico admirável enquanto filosofia” (CICERO, 2012, p. 30).

De todo modo, o trato com categorias simbólicas e a expressão do sentimento pessoal e interpessoal é motivo constante na poesia brasileira do séc. XX, e a própria conformação de um público leitor de poesia decorre de sua identificação para com poetas próximos e daqueles que se fizeram conhecer popularmente sobretudo por meio da publicação na mídia impressa. De acordo com Carlos Felipe Moisés:

“A valorização da intimidade, na lírica moderna, de certo modo define o caminho a ser inevitavelmente explorado tanto pelo leitor quanto pelo poeta, qual seja o do convívio mais estreito com a vida interior. Para o poeta não há alternativa. Dispensado das atividades diárias da Urbe utilitarista e inóspita, este se recolhe na subjetividade, de onde espera extrair a matéria de sonho e realidade a ser carreada para seus poemas. Já o leitor será convidado a reproduzir a experiência do recolhimento, primeiro na condição de confidente privilegiado, diante de quem (ou diretamente a quem) o poeta expõe suas inquietações profundas, seus receios e anelos, sua mais secreta intimidade, na expectativa de encontrar algum acolhimento, recepção afetiva e compreensão. O convívio com a interioridade alheia conduzirá o leitor, num segundo momento, a desenvolver a experiência paralela do convívio com sua própria vida interior, seja sob o signo do contraste e da repulsa provocada pelas “estranhas inquietações do poeta, seja sob o signo da empatia e da identificação eventualmente experimentadas diante dessas mesmas inquietações.” (MOISÉS, 2007, p.92).

Considerando um período histórico no qual os estudos filosóficos acadêmicos recém começavam a ser publicado na forma de livro e o mundo das ideias era tratado por pessoas de formação diversa, como juristas, escritores e jornalistas, muitas reflexões de natureza existencial chegaram ao público leitor pela forma poética. Dado que o mundo da canção popular se ocupava cada vez mais dos motivos líricos, o campo filosófico abriu-se também aos poetas. Em que medida cada poeta apropriou-se desta ou daquela ideia seria uma tarefa imensa por descortinar, porém certa tendência intelectualizada se confirmou na poesia brasileira a partir dos poetas que abertamente abordaram os grandes temas filosóficos, Dante Milano entre eles.

Os precedentes dessa tendência estão no mundo por toda a parte e evidentemente os poetas e estudiosos brasileiros vinham travando, como desde o séc. XIX, contato com a poesia e a crítica realizada no estrangeiro. Paul Valéry, T. S. Eliot, André Breton, Francis Ponge e críticos como Edmund Wilson eram bem conhecidos entre os modernistas, assim como os poetas portugueses reunidos em torno da revista Orfeu e Presença.

Fernando Pessoa, o autor de Autopsicografia, o poema metapoético por excelência, influenciou os poetas brasileiros e inclusive Cecília Meireles teria procurado encontrá-lo pessoalmente, em Lisboa, alguns anos antes de sua morte, em 1935. Ele, que pensava em si mesmo tanto na forma de poesia como analítica, tinha uma autocrítica incomparável tanto em relação às possibilidades da poesia como a cotejava permanentemente com a filosofia, ocultismo e tantas outras coisas que estudou. Numa das autodefinições encontradas em suas anotações filosóficas, ele se diz como “um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas (PESSOA, 1966, p. 14)”, mas, logo a seguir, diz por meio de seu heterônimo mais antifilosófico, Alberto Caeiro, que “Os poetas místicos são filósofos doentes, / E os filósofos são poetas doidos.” (PESSOA, 1946, p. 53). Conforme comenta Leyla Perrone-Moisés, quanto a ele “os citadores contumazes parecem não se perturbar com o fato de, para cada citação de Pessoa, haver outra que diz exatamente o contrário” e mais, que “cada vez que Pessoa é citado, é em nome de uma verdade; ora suas verdades são tantas e tão contraditórias que, no conjunto, negam a existência de qualquer verdade.” (PERRONE-MOISÉS, 2000, p. 146).

Como Heidegger ao procurar na poesia de Holderlin a expressão mais autêntica do sentimento moderno, filósofos muitas vezes se valeram do trabalho de poetas para situar e analisar a história das ideias. No Brasil, o estudo da poesia com base em sua apreciação filosófica tem menos um marco acadêmico que autocrítico, sendo normalmente realizada tanto por outros poetas e escritores quanto pelos próprios. A Segunda Guerra Mundial, se trouxe para cá o desencanto de um projeto de modernidade arruinado, trouxe também muitos estudiosos que rapidamente se integraram à vida intelectual brasileira, como Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai e outros. Apesar da tradição nacional de estudos literários do séc. XIX, esses críticos tinham mais facilidade com idiomas e tradições literárias pouco difundidas até mesmo no Brasil dos modernistas. Já na década de 1950, a compreensão da poesia brasileira e seus movimentos externos se encontrava bem mais consolidada, mas, até então, poetas escreviam muito a respeito de si próprios e a metapoesia serviu bem a esse propósito reflexivo ainda carente de uma abordagem essencialmente crítica, como a inaugurada nos trabalhos de Aurélio Buarque de Holanda, Antonio Candido e seus tantos discípulos.

À parte essa aproximação, é interessante notar que quando o mundo letrado parecia ser mais permeável ao cidadão comum e não tanto território de especialistas e teóricos, menos se distinguia essa irmandade entre poesia e filosofia e, contraditoriamente, mais elas se mesclavam. Qualquer pessoa que trave contato com os grandes poetas em língua portuguesa do séc. XX encontrará pessoas que se preocuparam e exprimiram, por meio da literatura, inquietações filosóficas, religiosas, políticas, mas, sobretudo, subjetivas. A especialização dos estudos literários, por um lado, permitiu uma compreensão mais detalhada e esmiuçada do fenômeno poético, por outro, tornou menos terrenas as inquietações poéticas que, para alcançar esse status, precisaram cada vez mais nutrir-se de elementos estéticos de diferenciação à teorização crescente. Embora aqui não se deseje avaliar a qualidade disso ou daquilo, este impasse acabou se tornando central na consolidação de um repertório literário. Este é um problema, portanto, da alçada da contemporaneidade. A questão de examinar a metapoética e a aproximação da poesia contemporânea com outros campos de saber, tais como a filosofia ou a história, por exemplo, parece ser um larguíssimo território por explorar.

Ao longo da segunda metade do séc. XX, o Brasil protagonizou, assistiu e absorveu muitas outras influências. Desde o cinema norte-americano até a literatura do pós-guerra e, de forma atrasada, autores centrais anteriores à guerra, como Kafka, que teve em Carpeaux um dos seus primeiros difusores no Brasil. A questão interessante de pensar o séc. XX é que seus principais autores e poetas produziram ao longo de todo esse tempo, transformando uns aos outros. Nessa segunda parcela do século, encontram-se ativos e produtivos boa parte dos poetas modernistas, como Drummond e Bandeira, além de testemunharem a chegada de outros e o nascimento de vertentes muito características do período como, por exemplo, o movimento concretista. Talvez porque seja da natureza da poesia justificar-se ou explicar a si mesma e aos demais, também aí se observa uma considerável produção de metapoesia e crítica elaborada pelos próprios poetas, avançando-se até o final do século com diversos percalços de ordem política nesse intervalo.

Ferreira Gullar, poeta que surge em 1955 com A luta corporal, além de romper com a discursividade lírica do modernismo, pensa a respeito de sua poesia e apaga nela um tanto da expressividade de tom confessional predominante na geração de 1945. Para Gullar, “o poeta, portanto, não cria, não inventa, mas apenas diz, mostra o existente existindo” (GULLAR, 1978, p. 47). Sua poesia, para Ivan Junqueira “descarnada” e “seca”, simboliza a partir do real e é reflexiva também quanto ao próprio estar no mundo do poeta e sua passagem pela vida:

Lição de um gato siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
           finita
           da minha precariedade.

O tempo fora
de mim
            é relativo
mas não o tempo vivo
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo.

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo).
(GULLAR, 2015, p. 496)

Cada qual a seu modo e sob influências as mais diversas, poetas buscam sempre formas de fixar as inquietações subjetivas e mundanas conforme alcançam a percepção do mundo e de si próprios. Algumas vezes, de acordo com a compreensão de Susan Sontag a respeito da arte moderna e do “hábito crônico” em desagradar, essa comunicação foi inteiramente negativa, ou mesmo “inaceitável”; isso pode tanto significar a intenção de silenciar a repercussão pública ou impactá-la. Pelo menos nos momentos políticos mais opressivos também ocorreu um chamado à poesia engajada. Nos anos 80, Paulo Leminski, poeta modelar da geração pós-marginal, tentou definir dessa maneira o que seria a função do poeta, ao mesmo tempo sujeito existencial e social: “Os poetas dizem uma coisa que as pessoas precisam que seja dita. O poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental, ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade.” (LEMINSKI, 1985). Isso sem falar que um poeta canônico como Drummond reiterou até o último momento (como em entrevista de 1987, pouco antes de sua morte) ser “inteiramente partidário da ideia de inspiração” (EMEDIATO, 1987), demonstrando a concomitância de vozes e perspectivas poéticas.

No que interessa mais ao estudo do pensamento e às relações com a poesia, e desbastando os abundantes estudos sobre os aspectos filosóficos na poesia de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e qualquer um dos grandes nomes da poesia do séc. XX, surgem nomes recentes e contemporâneos que poderiam ser bem observados nessa relação. Além de Orides Fontela, que foi uma poeta que também teve formação acadêmica em filosofia, penso que a poesia de Leonardo Fróes, a do próprio Antonio Cícero e, mais ainda, de Paulo Henriques Britto, poderiam ser apreendidas no viés de uma poesia que pensa a respeito de si mesmo e do mundo de forma mais especulativa e menos lírica. Esta suposição decorre da leitura dos mais recentes livros de Britto, Formas do nada e Nenhum mistério. Nos dois livros, além da metapoesia formal, vê-se também, e muito, a presença da metapoesia subjetiva, que investiga a motivação do pensamento em contraposição ao efeito criativo de consolidá-lo.

Paulo Henriques Britto

No intervalo geracional que vai desde o momento posterior ao fim do período militar até o presente, parece precipitado e injusto apontar uma dicção homogênea na poesia brasileira. Seria muito possível apontar nomes de outras tendências e estilos, mas interessa notar que, por também ser um teórico da literatura, Paulo Henriques Britto é bastante exemplar de uma trajetória poética que reflete muito a respeito de si mesma, como é bastante verificável em outros poetas que também se dedicam aos estudos acadêmicos. Britto pertence a uma geração que apareceu publicada em torno aos anos 1980 e 1990. De uma tendência formalista e afeita às formas fixas, apenas recentemente Britto tem permitido um maior acento emocional em sua poesia sempre contida e cerebral, aliás, como toda uma geração que foi bastante influenciada pelo anti-lirismo, principalmente o difundido por meio da poesia de João Cabral de Melo Neto.

Seu primeiro livro de poemas remonta a 1982, com Liturgia da Matéria, e chega a 2018, com Nenhum Mistério. Nesse meio tempo, recebeu prêmios importantes como o Alphonsus de Guimaraens, por seu Trovar Claro, de 1997, e o Portugal Telecom (atual Oceanos) por Macau, de 2004. Além disso, Britto vem traduzindo para o português inúmeros autores, dentre os quais a poeta Elizabeth Bishop, o poeta Wallace Stevens e outras várias dezenas de poetas e romancistas.

Em seus livros mais recentes, nota-se uma exacerbação de certo caráter filosófico que, se também encontrado em poetas da mesma geração, como Antonio Cícero, Claudia Roquete-Pinto, Leonardo Fróes ou Alberto Pucheu, extrapolou certo limite e contenção a que ele vinha submetendo a própria poesia, ancorada na metalinguagem e em reflexões estético-filosóficas. Embora a temática da busca de sentido e um ceticismo de pensamento estivessem presentes desde os seus primeiros livros, é notável o quanto, em seu mais recente livro, os temas da perda e da negatividade sobrepujaram os questionamentos formalistas iniciados anteriormente. Onde um poeta que antes indagava os significados objetivos da realidade, sobreveio outro que responde desde a constatação acentuada da perda, traço para ele comum a toda experiência humana e ponto de contato com a obra de Elizabeth Bishop, principalmente no poema A Arte de Perder, do qual provém o título de Nenhum Mistério, que também serve de negativa à metafísica e sujeição à casualidade de viver, temática também presente no poema transcrito a seguir.

Da metafísica


Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda –
o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.
(BRITTO, 2018, p. 65)

Seja porque Britto continua sem abrir mão do tratamento rigoroso do verso e, ainda que tenha permeabilizado a sua poesia à linguagem coloquial, popular, pela primeira vez em sua carreira ele parece ter se permitido uma maior abertura emocional. Em entrevista para a Folha de São Paulo, em setembro de 20182, Britto chegou a afirmar que “as maiores realizações artísticas são aquelas que veiculam uma carga emocional forte através da forma” (BRITTO, 2018). Trata-se do mesmo poeta que, alguns anos antes, afirmara que o lirismo já não cabia mais na poesia e que “muito do que geraria poesia hoje resulta numa canção popular. Então o território que sobrou para a poesia foi o da reflexão sobre a linguagem” (BRITTO, 2018). No que diz respeito a sua trajetória, vê-se bem que sua poesia ganhou muito com as perdas naturais da vida, o que se parece contraditório e terrível à primeira vista, revela agora uma poesia amadurecida pela forte autoconsciência que sempre o distinguiu dos demais poetas contemporâneos e mais atenta ao drama humano e suas nuances psíquicas.


Nenhuma arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)
(BRITTO, 2018, p. 9)

Como o Drummond que procura o consolo na praia, Britto radicaliza a busca despersonalizada e do esvaziamento subjetivo, um tanto mais semelhante ao cenário “desértico” (de acordo com Manuel Bandeira) da poesia de Dante Milano. Além de recusar o conforto metafísico, Britto está empenhado em combater a memória, como se procurasse desembaraçar-se do passado para enfrentar a vida presente. Quando o poeta assevera logo no começo de Nenhum mistério que “Rememorar o que não foi não dá em nada”, Britto elimina até mesmo a ausência de sua atenção mental. Essa é uma ideia que de certo modo colide com uma das ideias mais impactantes defendidas por Hannah Arendt em sua palestra O pensar, presente em A vida do espírito. Para ela, “o pensamento sempre lida com ausências e abandona o que está presente e ao alcance da mão” (ARENDT, 2016, p. 221). No entanto, Britto agora desafia a lógica filosófica em prol da sustentabilidade da própria existência. A memória evocativa e episódica é objetificada no discurso poético para uma memória semântica na qual paisagens e sentimentos são examinados com o rigor de um poeta observando a própria materialidade do poema. Outro poeta brasileiro que lida muito com metáforas contrastantes à ausência é Manoel de Barros, que muitas vezes molda sua poesia no descarte de sua aparência, como no poema a seguir:

Os deslimites da palavra

2.5
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
(BARROS, 2010, p. 310)

Mesmo que para Hannah Arendt a poesia pareça dependente da memória, pois até para saber-se que “rememorar o que não foi não dá em nada” é necessária uma avaliação prévia do que “foi”, a poética de Paulo Henriques Britto quer se desfazer dos elementos poéticos decorativos e de todos os que não sejam decorrentes do próprio curso de pensamento. Ocorre que o apagamento total da memória não é possível, pois ela revive sempre como meio de avaliação e recurso comparativo do ser no presente, ou então é possível apenas pela morte, daí a intensidade reflexiva dos mais recentes poemas de Britto parecer decorrente de um processo mental muito severo e distante do que mesmo a poesia contemporânea mais hermética tem obtido3.

A aparência fria e a mensagem severa dos poemas de Britto não são idênticas ou equiparáveis em motivos a de Dante Milano (se é que alguma poesia é equiparável sob algum aspecto), mas é atenta a si como a daquele. Nem a memória nem o poema como “emoção-do-ser”, como definiu o primeiro José Guilherme Merquior, podem dar conta perfeitamente de todas as indagações e aproximações que os poetas fazem em relação a si mesmos e ao mundo e não há precedência em quem poderá tomá-las. Às vezes serão os poetas que motivarão os filósofos; às vezes se dará o contrário. Poesia e pensamento são ponderações distintas sujeitas às interferências tanto do mundo externo quanto das condições inerentes ao psiquismo individual de seus postulantes naquele momento. Pelo menos até que outro poeta siga o rastro daqueles mais auto exigentes em todos os sentidos, por enquanto Paulo Henriques Britto parece ser o poeta brasileiro mais afinado com certa tendência especulativa da própria subjetividade. E, despido de qualquer traço confessional, parece ser ainda assim o poeta que aparece mais nu e desembaraçado entre todos.

Conclusões

Não é que a poesia possa ou pretenda em sua volição alcançar ou substituir a reflexão filosófica, mas, talvez, muitas vezes tenha ocupado um espaço em branco o qual os movimentos estrangeiros não puderam dar conta completamente ao integrar-se à complexidade histórica inerente à sociedade brasileira. Considerando-se que a filosofia no Brasil “nasceu” quase toda nos anos 1940, na Universidade de São Paulo, e os primeiros estudos consistentes realizados por brasileiros, como os de Gerd Borhein a respeito de Martin Heidegger, Sérgio Paulo Rouanet e seu trabalho com o iluminismo e a obra kantiana, José Arthur Giannotti e seus estudos marxistas e Benedito Nunes e a literatura vieram a público em torno já da década de 1960, é de perguntar se não teriam partido, antes deles, dos poetas boa parte das mais elaboradas formulações de natureza filosófica realizadas no Brasil do séc. XX. Esta, porém, é uma questão a que não me proponho responder, apenas sugerir aos estudiosos para que a cogitem.

Em vista disso, não me espantaria que, ao menos na poesia realizada desde o aporte simbolista no Brasil, ou seja, por quase um século, as inquietações filosóficas e analíticas mais prementes se mostrassem por meio de seus poetas, que inseparáveis do ser humano. Não é que todos os poetas comuniquem ou desejem comunicar à história das ideias, mas por certo alguns entre eles acabariam por se revelar mais intimamente relacionados às questões filosóficas, e não seriam um ou dois mais destacados, mas uma tendência consolidada na poesia brasileira e com exemplos poderosos como os mencionados. Para sabê-lo, no entanto, é necessário que se examine a poesia de forma mais filosófica que contemplativa e uma leitura cuidadosa que notasse que não se propõe a confusão de suas imagens como a um espelho, mas também não apostasse num desenlace definitivo e um mútuo abandono no labirinto da compreensão e expressão.

Notas

1 Os poetas metafísicos a que Ivan Junqueira se refere são os ingleses John Donne, George Herbert, Richard Crashaw, e Andrew Marvell, assim referidos por Samuel Johnson, em Vidas dos mais eminentes poetas ingleses, a respeito de poetas que viveram no séc. XVII.

2 Ver MEIRELES, Maurício. Paulo Henriques Britto volta à poesia com versos sobre a perda e a ausência de sentido. São Paulo, Folha de São Paulo, 8 set. 2018

3 Em abril de 2019, a professora Mariella Augusta Masagão publicou artigo na Folha de São Paulo discutindo as tendências poética contemporâneas brasileiras, enfatizando uma crítica a uma poesia, segundo ela, notadamente “sisuda e hermética”. Ver MASAGÃO, Mariella Augusta. Poesia brasileira ficou sisuda e hermética, diz pesquisadora. São Paulo, Folha de São Paulo, 14 abr. 2019

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De Moraes

Revista Sepé

Muitas vezes me parece que o Mauro Moras é um poeta e cantor que se pode encontrar mais facilmente entre um mate e outro, num galpão silencioso, do que sobre um palco, sob refletores ou numa avenida qualquer, embora isso não seja impossível. Ou então desencilhando o pingo, já meio estropiado da lida, arrumando a boina sobre a cabeça. Campeirismo, caiporismo, caipirismo ou o que seja, o Mauro tem a poesia popular reverberando dentro de si no que de mais afetivo o ser humano pode ter. Ouvi-lo é sempre como ouvir a um tio antigo, paciencioso e sereno. É a impressão que confirmo ao terminar de ouvir as 12 faixas de De Moraes, disco que lançou pela Minuano Discos, agora em 2020, logo do início da pandemia do coronavírus.

Pelo menos, até onde procurei, não estão no Spotify ou no Deezer nem uma das 12 faixas do disco. Talvez seja mais fácil encontrá-las na sintonia de um radinho de pilhas do que “catando milho” nos botõezinhos dos aplicativos de telefone. Mas creio eu que isso tenha uma razão de ser. Essa transição pela qual a produção musical vem passando talvez seja apressada demais para um sujeito tão sem pressa quanto ele parece ser.

Para quem não conhece o trabalho do Mauro Moraes de outros tempos ou dos registros históricos que fez com José Claudio Machado e Bebeto Alves, cabe ainda uma apresentação: trata-se de um canto nativista do começo ao fim. Nativismo é o nome de um movimento cultural do Rio Grande do Sul que busca revivificar, não retificar, o hábito popular e cultural da população do meio rural e seus elementos mais naturais, não pitorescos. Foi por onde Mauro encontrou as formas de expressar uma poesia ao mesmo tempo emocionada e reflexiva.

Não é à toa, afinal, que Mauro se ampara quase sempre no ritmo lento e na harmonia em tom menor da milonga para desfiar sua conversa de campo e que muitas vezes extrapola o campo. Há nas suas letras uma conversa séria de preocupações universais que filosoficamente provocam e levam o poeta à composição. É um pouco estranho encontrar metáforas absolutamente campeiras, dotadas do vocabulário coloquial do dia a dia da campanha, junto a reflexões políticas e metafísicas complexas que chegam, sim, ao universo do campo, porque são do universo de todos. A questão mais intrigante por entender é a forma pela qual suas letras se harmonizam com tanta justeza aos ritmos e tons que os longos dedilhados dos violões das gravações propõem nas doze faixas do disco.

E o que dizer quando ele empresta sua arte à interpretação do amigo e parceiro de longos anos, Bebeto Alves? O que acontece quando Bebeto canta as letras de Mauro é mais ou menos um encontro de arroio com o rio, de águas que não se pecham e nem competem, mas fluem. É um encontro de vertentes profundas e o Bebeto, como ele mesmo já afirmou, é um poeta e cantor com quase nenhuma vivência campeira. Como então interpreta com tanta naturalidade uma poesia rural que não se escamoteia e chega a ser bruta nessa qualidade? Tenho uma suspeita e vou lançar aqui. Um dia vou saber por eles se confere ou não.

O Bebeto tem uma entonação que não é de quem canta, em primeiro lugar, mas de quem fala. E parece alguém que o faz do modo mais campeiro possível. Como se à sombra de uma arvoredo, antes mesmo de apear e, numa viagem no tempo e no espaço, trocasse palavras com aquela poesia, e as incorporasse. Desse modo, permitindo esse encontro em si mesmo, ele então deixa falar o tanto que há dentro dele mesmo daquela poética que finalmente se canaliza. Quando um poeta ou intérprete da poesia alheia deixa ver o universo afetivo que tem dentro de si é que essa espécie de milagre pode acontecer. Por isso, esse encontro dos dois amigos, mesmo que numa faixa apenas, é o ponto alto do disco de Mauro e também mais uma amostra do encontro feliz que já rendeu, entre outros sucessos de crítica e público, os discos Milonga abaixo de mau tempoMandado lenha e Milongamento.

Por tudo isso, a música de Mauro é em muitos momentos uma celebração da amizade, da simplicidade e de um modo de estar no mundo que é poético por não se saber poético. Desses lampejos, Mauro faz discos que são pinturas de melodia, afeto e delicadeza. Dizem que a música dos gaúchos é uma música dura, “abagualada”. Mas, no caso dele, é de uma mansidão amadurecida que dá gosto de escutar e entender. De escutar e entender para os que irão lhe escutar pela primeira vez. De entender ao escutar para outros mais treinados nas coisas que ele diz como ninguém.