E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Sem categoria A crise da representação rural na literatura rio-grandense

A crise da representação rural na literatura rio-grandense

Deixe uma resposta

Related Post

WildcatWildcat

Ontem assisti a Wildcat, o documentário que eu havia comentado no outro dia, a respeito da sua trilha sonora. Assisti com um nó na garganta porque filmes, livros ou músicas sobre adolescentes “problemáticos” não me causam outra reação.

Mas eu esperava que no filme o “problemático” fosse apenas Harry, o ex soldado britânico que retorna do Afeganistão com sequelas mentais graves, entre as quais a síndrome de stress pós-traumático e uma depressão profunda, com tentativas de suicídio. Porém a pesquisadora que ele encontra na profunda Amazônia peruana, Samantha, não é menos traumatizada. Ela, no caso, pelo convívio com um pai alcoolista e violento que a fez desde criança preferir o convívio com os animais aos adultos humanoides.

Pode parecer uma estranheza – ou não – encontrar dois adolescentes abdicando da vida social no que é o momento de seu apogeu para viver em um território inóspito e com vida selvagem real, cercados de feras e criaturas humanas mais ameaçadoras que as próprias feras, e que partilham do mesmo território apenas para conquistá-lo e depredá-lo.

Na prática, o filme aborda um processo de reabilitação dos mais complicados. Ao mesmo tempo, Harry trabalha na readaptação à vida selvagem de uma jaguatirica e na sua própria reabilitação emocional. Como num documentário não cabem escapismos à fantasia, o que se pode ver é que o processo está longe de ser uma jornada de superação. Muito mais se vê da tensão absurda que a depressão deita às costas e reserva à mente de um jovem com vinte anos de idade.

Depois de assisti-lo, não me espanta saber a reação emocional que sua exibição tem causado mundo afora. Ao unir dois universos sensíveis, adolescência e relação homem x natureza, sabe-se como a jaguatirica se reintegra ao mundo da floresta, mas permanece a dúvida quanto a adaptação do ser humano. Àqueles que pensam que viver entre feras é experiência terrível, o filme é instrutivo do quão desestruturante pode ser a vida entre os homens.

MorphopolisMorphopolis

Já se passou uma década desde que comecei a escrever essa história e até hoje não consigo dizer ao certo do que se trata. Às vezes, me parece claramente uma história infanto-juvenil. Noutras, parece um pouco além do que hoje se propõe como literatura infanto-juvenil e que está mais para uma novela que flerta com o sci-fi. Mas um sci-fi com os pés no chão, sem fantasia, realista mesmo. Desde o começo eu desejava que fosse uma aventura hacker e também a primeira parte de uma história de amor.

Se tudo der certo, é por aí que vai continuar e futuramente vai unir ainda mais o destino desses dois adolescentes que se encontraram no mundo dos games e decidiram lutar contra o status quo disfuncional familiar (e político) de um maneira nada convencional.

Morphopolis é o mais antigo “work in progress” que eu mantinha nas minhas gavetas. Nasceu como um blogue de experimentação em 2009, virou por um tempo um projeto de um livro e agora voltou a ser um site. Um livro num site ou um site num formato de livro. Algo assim.

Por muito tempo, era uma história de experimentos mesmo. Há uma década, pouco se imaginava do que aconteceria com as novas redes sociais e o fenômeno dos massive online games. Na minha história, tudo é uma coisa só e sem muitas explicações se transita do real ao virtual, alterando um e outro de onde quer que se esteja. De alguma maneira, Morphopolis é hoje mais atual do que quando foi escrito.

Nesse ano de 2021 eu tinha me prometido que o tiraria das “gavetas” e o revisaria pela última vez. Depois disso, conheci os desenhos do Vinicius Silva e achei que tinham muito a ver com o astral da história. O Vinicius fez algumas ilustrações baseado no que leu e depois foi decidir como publicar, se num livro e suas burocracias ou de volta à internet, origem da história toda. Bem, a história na íntegra (sua Parte 1) está publicada no site abaixo, no qual também se pode adquirir por e-book. Na verdade, o e-book eu fiz apenas para ter um registro de autoria, porque a diagramação e leitura no site são muito superiores ao que é possível no Kindle.

Também estou querendo incluir algumas coisas mais multimídia no site, mas ainda por ver de que formas. Apesar do realismo, Morphopolis é uma novela bem truncada e com muitos personagens. Não é lá muito uma leitura linear, ainda mais que eu decidi me valer de vários pontos de vista. Bom, eu escrevi sem me preocupar com o leitor, que é como se recomenda. Se ficou fácil ou agradável (ou o contrário disso) já não me cabe fazer mais nada. Em breve (daqui há dez anos mais), a segunda parte das aventuras de nossa heroína cadeirante.

Conheça em: https://morphopolis.media/

Charruas e minuanos em BagéCharruas e minuanos em Bagé

Lá em Bagé, minha cidade natal, todos aprendem cedo que o lugar onde o Minuano sopra mais forte é na frente do Charrua.

O Charrua em questão é o hotel que por duas décadas foi o mais sofisticado da cidade, empreendimento do grupo Ypiranga que foi vendido em meados da década de 80 para um empresário local que grafou o seu próprio nome no hotel e retirou da fachada o cavaleiro indígena que o simbolizava e se podia ver à distância.

Já Minuano é o nome do vento que sopra de sudoeste, normalmente acompanhando as massas polares e é o vento mais frio que sopra em território brasileiro. Logo após a entrada de uma frente fria, o Minuano enregelante sopra forte sob as colunas do hotel, vindo de Aceguá, e há que ter força nas pernas para manter-se em pé ao cruzar por ali.

Fora essas duas menções, que eu me lembre, Bagé não guarda nenhuma referência histórica pública dos povos originários, nem um topônimo e nem nome de rua. Sequer o nome da cidade foi perdoado, assim como a memória de um certo curandeiro que teria por lá vivido à época dos primeiros acampamentos, e que até motivo de chacota se tornou na intelectualidade rio-grandense dos anos 50.

Ibajé teria sido o seu nome e, por essa razão, o nome da cidade guardava a grafia dos vocábulos indígenas, com a letra “J”. Ao longo do tempo, instituiu-se o Bagé com “G”, desfigurou-se a lenda e se chegou ao ponto de derivar o nome a um remoto vilarejo português, desvinculando-se de suas possíveis conotações indígenas.

Dos povos originários, a cidade vizinha do forte de Santa Tecla e da redução de Santo André dos Guenoas hoje não conta mais nem com a estampa na fachada do hotel. No município, vive hoje um assentamento kaingang que passa por muitas dificuldades, necessitando nesse inverno de alimentos, agasalhos e cobertores.