E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Sem categoria A crise da representação rural na literatura rio-grandense

A crise da representação rural na literatura rio-grandense

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Não se aconselha a compaixãoNão se aconselha a compaixão

Para a Isabel

For every little lie you tell so you can hide
Will grow inside your chest
Your heart will need to rest
So come into my arms

November Ultra

Não se aconselha a compaixão. Isto é o que se deveria dizer em muitos lugares onde ela havia trabalhado. É que as pessoas primeiro olhavam seus braços e pensavam que ela seria um bom guindaste para os velhos que já não levantam mais pelas próprias pernas. Um guindaste humano e de bom coração que, ao tempo em que erguesse pelas axilas alguém sem esperança em sobreviver, sussurraria em seus ouvidos palavras cândidas, inocentes, como se extraídas de uma canção de ninar. Por isso eu digo sem piscar: compaixão ela não tinha. Na verdade, era outra coisa; algo que não entendi por completo, pois também não houve tempo o bastante.

Para quantos não tenham força para viver, deve haver tantos que os ajudem a suportar, a mãe lhe disse ainda uma criança, a única menina entre sete irmãos nascidos em escadinha, ela a mais velha, e que se tornaria responsável pelos demais se a mãe morresse (e ela morreu de droga e bebida, quer dizer, de uma morte quase planejada). Alguém precisa ser o guindaste, a mãe avisou e antes que entendesse outras coisas elementares de uma vida serviu-lhe a lição.

O que a distraiu nestes anos foram os gatos que a mãe havia deixado que se acomodassem em seu pátio. Ela gostava de ficar olhando os animais como se aquilo fosse uma selva particular, um mundo de natureza, ordenado pela natureza e onde, por consequência, apenas aconteciam as coisas que desejava a natureza. Mas um a um os gatos partiram ou morreram e coube a ela enterrá-los junto aos arbustos que foram tomando conta do lugar. Isso tudo uma ordem da natureza, exceto ela, que desde então adquiriu aos olhos dos outros o hábito dos anjos.

“Eu vou comprar comida, algo que você nos prepare para enfrentar o frio. Não demoro…”, o pai disse na última vez em que o viu. Mais tarde, atrás dele foram os três filhos mais velhos, numa tentativa de reencontro que ela nunca soube se malfadada ou bem sucedida. Às vezes, ela estava encostada na porta da enfermaria, fumando, e me parecia que imaginava ainda que os quatros se encontraram, é claro, e agora vivem da pesca numa cidade portuária e nem é preciso que retornem, mas, se um dia retornarem, ela terá arranjado algo do que comeriam todos, como deve ser numa família.

Nos olhos dos seus irmãos nunca houve gratidão e nem ela esperou por isso. “Vive-se”, é o que ela dizia quando os vizinhos indagavam se precisava de algo e ela recusava, dizendo que com o seu trabalho eles tinham o suficiente.

Eu sinto tristeza que nas cidades, todas elas, nunca tenha um monumento a criaturas assim. Imagino que ela recusaria como recusou um pedido de noivado de um sujeito que disse por ela estar apaixonado, mas ela não o entendeu, não entendeu do que se tratava. Menos mal que uma prima entendeu as tentativas dele, subsequentes as que lhe dedicara. E ela entendeu ainda mais porque, de fato, não havia nada disso de paixão. Sabe-se lá o que havia..

Hoje desde cedo me pareceu que seria um dia estranho. Avisaram que ela não viria almoçar conosco, no refeitório. Foi deslocada para outro andar, outro setor, eu imagino. Não quero saber. Para onde ela tiver ido estará um lugar melhor, isso é que é. Haverá risos de histórias angelicais, sem qualquer maldade ou frivolidade, canções cantadas sem pronúncia, em boca chiusa, e seus músculos trabalhando como a mãe ensinou-a a fazer. Haverá alguém sendo ajudado ou então não haverá realmente mais nada. Em dezembro costumam dar folga aos funcionários, é isso que deve ser. A maldita está de folga e eu aqui, sem quem me conte o desfecho de uma história qualquer, dessas que rolam pelos telefones e eu tenho preguiça de ler até ao final. Irá comer os caramelos todos sozinha, não guardará ao menos um para mim. E é assim mesmo que deve ser. Não se aconselha a compaixão.

Desentendimentos porto-alegrensesDesentendimentos porto-alegrenses

Não sei se com todo o mundo é assim, mas eu vivo com a cidade onde vivo uma espécie de relação parental. Não é como habitasse um logradouro, mas um cômodo da sua casa. Ou como se ela fosse um corpo gigante e eu vivesse em um de seus órgãos, porque, afinal, respiro dentro dela, as suas umidades, e quando abro as portas e janelas da minha casa dou de cara invariavelmente com as sujidades que a noite deposita no que seriam, talvez alucinadamente, as suas veias e artérias.

Como relação parental, temos bons e maus momentos, eu e a cidade. Nunca compusemos a imagem idealizada da família margarina e, felizmente, tampouco chegamos à disfuncionalidade tolstoiana. Tentamos manter um respeito insubmisso, talvez herança que eu traga da minha educação fronteiriça.

Se me revolto, a ela eu reservo o mesmíssimo direito. E ela me fustiga, me fustigou duramente nesse maio último, e a todos que estamos aqui. Sim, porque não foi a natureza mortífera em revolta que nos sacrificou, eu acho, mas a própria cidade que imaginamos algo maior do que ela efetivamente era, como a imagem distorcida que um filho tem de um pai ou de uma mãe.

Essa desproporção, essa distorção que em mim cria o mesmo sentimento de um adolescente que não se conforma em “parecer”, em “fingir” para o que “os outros poderão pensar”, mas que, sem saber ou poder dar um desfecho para a revolta que se estabelece, acaba incorrendo num sofrimento administrado a duras penas. Não sempre amargo, isso não, mas com muitos silenciamentos, para que não se rompam as suturas de soluções tão precárias como as que lhe sabemos ter provido. Com alguma desatenção também..

Como um corpo humano, a cidade também sangra. E, nesse transbordo violento, desconhece qualquer limite. Avança com a mesma força contra os museus, shoppings centers, livrarias, edifícios e os mais humildes endereços. É a sua inclemência cega que nos apavora, como se ela acordasse numa manhã como uma espécie de touro louco solto na praça.

Mesmo nesses dias, vejo com os olhos marejados o esforço daqueles que independentemente de qualquer coisa, digo, qualquer coisa mesmo, prestam socorro a quem quer que seja, digo a quem quer que seja mesmo. São pessoas agregadoras, cujo esforço é digno reconhecer e agradecer, sem olhar a nada além do que apenas isso. Talvez sejam os braços mais fortes da cidade, ou talvez nem tenham esse poder se comparados a outros, mas nessa calamidade revelaram-se assim. Ou se forem os filhos melhor nutridos da cidade, pode ser que sim (não tenho nem farei esse levantamento), nesse caso é justo que sejam os primeiros a arregaçar as mangas, não haveria de ser os combalidos, os alagados. Seja como for, é bom para a cidade que possam fazer e façam.

No ano passado, não, não foi no ano passado, foi neste ano, ali em vésperas da entrega do Prêmio Açorianos (parece que já fazem milênios), e estive ao ponto de ter de pensar em um fala de agradecimento caso ganhasse aquele prêmio tão porto-alegrense, me ocorreu uma imagem ao mesmo tempo familiar (e complicada), de que a premiação me servisse de uma certidão de nascimento tardia. Uma adoção, nesse caso. Não foi o caso, não aconteceu e então não precisei declarar em público o meu estado de filiação para com a cidade. Mas nem por isso vivo a sensação do “enjeitado”, não mesmo. Estou aqui por opção e gosto de manter comigo os ditados interioranos, no seu pragmatismo, com os quais eu fui criado. Nada disso de “virar o cocho” ou “cuspir no prato” me agrada. Todavia a falta do documento comprobatório me devolve, às vezes, em secreto, a ambição juvenil de abandoná-la para sempre. E eis que de um momento de caos completo, a velha cidade, não exatamente a que eu conheci na adolescência real ou a de agora, parece que ouço-a suplicar silenciosamente, como costumam fazer os velhos e orgulhosos gaúchos…

Quem não está aqui, por certo não pode ouvi-la bem nem imagino que poderiam entendê-la, mas eu, não sei por que razão, julgo que posso. E que preciso prestar-lhe pelo menos atenção. O seu canto ainda é fraco, morrente, está já nos que não estão mais aqui (não estão?), nos lugares que sobrevivem às construções que a tentam falsificar, como as de um antigo calçamento ou nas vielas do Centro abandonado por áreas mais nobres.

Quando ando ali, ela me esclarece (não eu) que é inacreditável que sobreviva mais do que foi feito em 1935 do que o realizado ontem. Ou ainda antes. Essa memória que nos sonambuliza, como se apenas em sonhos nos fosse permitido transitá-la na forma que merecia, sem penduricalhos horríveis que foram pendurando em sua face, “rótula das cuias”, um shopping ao lado do outro, uma estatuária medonhenta, nem falo dos ex-cinemas.. Uma desfiguração que a cidade aceita porque incapaz de reagir, nos seus 252 anos. Uma idosa com mais parentesco em Montevideo ou Buenos Aires do que em Abu Dhabi, embora os arquitetos que agora se dão ao trabalho de imaginá-la não percebam a sua incompleição com o faraônico. Ela, uma senhora modesta por necessidade, nem sempre se dá muito bem com as novas gerações de gente que nasce ou vem dar aqui.

Se às vezes me revolto contra a cidade, eu espero que ela entenda como uma prova de um amor, mesmo que um amor às avessas. É um desgaste de 30 anos de relação. Acho que até um pouco mais que isso dura já essa “união”. Às vezes, sinto vontade de sumir desse mapa que a água tomou sem mais cerimônias. E sinto também a culpa por esse desejo. Brigamos sem nos ferir demasiadamente. Não suportaríamos. E nesses bancos geminados, jogados ao esquecimento, (por que o que parece esquecido e jogado por aí sempre nos comunica mais que o anunciado com pompa, alguém pode me explicar?), sei que voltarei a me entender com a cidade, ainda que os termos com que faremos não estejam plenamente claros.

Em breve, a inundação se tornará lenda. E o inverno, espero, não há de ser tão rigoroso. Saio com um casaco que agora me estorva as mãos, afinal, é outono.. As meias dos pés estão suadas de caminhar. Convém que eu não demore muito mais e volte para casa antes que anoiteça.


𝗜𝗺𝗮𝗴𝗲𝗺: bancos originais do Auditório Araújo Vianna (1927), atualmente no Parque da Redenção. A foto é minha, de 2024 ou 2023..

Um inédito Aureliano de Figueiredo PintoUm inédito Aureliano de Figueiredo Pinto

Artigo publicado na 10ª ed. da Revista Sepé

Possivelmente não exista na poesia rio-grandense livro tão inédito quanto foi Itinerário – poemas de cada instante (1998), de Aureliano de Figueiredo Pinto.

Aureliano não apenas não o publicou em vida como tratou de garantir que o caderno de manuscritos não fosse conhecido até que ele mesmo e sua esposa não vivessem mais. Mesmo assim, ainda levou cerca de 40 anos mais (Aureliano morreu em 1959) para que o filho entregasse os originais para publicação, aos cuidados do Prof. Carlos Jorge Appel, da editora Movimento.

Na página frontal do manuscrito, uma misteriosa dedicatória rasurada indicando a quem o livro seria dedicado, mas cujo conhecimento parece ter ficado mesmo restrito à família. 

Se a informação perdeu-se ou se desvaneceu no tempo, o mesmo não se pode dizer dos poemas do livro. Ainda assim, ao contrário dos outros livros de Aureliano, até hoje Itinerários não teve público para uma segunda edição. Isso talvez se explique um pouco pela temática rural dos outros livros que, no Rio Grande do Sul, até há bem pouco significava a garantia de um bom público leitor. Os versos de Romances de Estância e Querência (1959) e do póstumo Armorial de Estância (1963) foram popularizados por diversos cantores e folcloristas, especialmente nas gravações de Noel Guarany, em 1978, no bojo do movimento nativista, fortemente inspirado, aliás, em sua poética.

Romances de Estância e Querência foi o único dos livros que Aureliano chegou a ver editado; saiu pela Globo e o filho levou até São Paulo, onde ele buscava recursos e tratamento, os primeiros exemplares para que o pai conhecesse. Memórias do Coronel Falcão é póstumo (teria sido escrito no final da década de 30) e foi publicado em 1973. Acabou sendo reunido aos demais romances realistas de 30 publicados à época em que foram escritos, como Sem Rumo de Cyro Martins, Xarqueada de Pedro Wayne e Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

Quando publicado na década de 90, não se imaginava que o médico e intelectual discreto que Aureliano foi tivesse produzido versos daquele qualidade lírica e intensidade erótica. Primeiro, seria de pensar que, caso houvesse material inédito, seriam poemas que continuassem a temática dos seus dois outros livros anteriores, com motivos rurais. Segundo, a guinada lírica um tanto quebra em pedaços o estereótipo de que um poeta que tenha se celebrizado pela “cor local” não possa alcançar os temais universais, como o amor, o erotismo, reflexões existenciais quanto à vida e finitude humanas.

Como em vida Aureliano não esteve em busca de publicação ou reconhecimento e sua obra seja praticamente toda póstuma, a crítica literária o alcançou tardia e parcamente. Basta dizer que as duas mais extensas apreciações publicadas ainda são as mesmas dos anos 80, quando o falecido escritor Luiz Sérgio Metz realizou e publicou para a coleção Esses Gaúchos, da editora Tchê um livreto dedicado a ele, em 1986, e a professora Helena Tornquist produziu para a coleção Letras Rio-Grandenses, do Instituto Estadual do Livro, um caderno especial, em 1989. Ambos os trabalhos têm o mesmo titulo: Aureliano de Figueiredo Pinto.

Apesar disso, nos também já anosos volumes da história literária do Rio Grande do Sul seu nome comparece muito mais associado à poesia regionalista. A despeito de ter uma “realização grande”, conforme o assinalado por Luís Augusto Fischer, os poemas líricos de Itinerário não contam nos mais difundidos livros de história literária com uma apreciação correspondente, bastando que se o situe entre o simbolismo ainda muito praticado no Rio Grande do Sul dos anos 30 e as inovações formais modernistas que ele aproveitou mais, curiosamente, na poesia de inspiração rural.

Como Itinerário vem a público no final da década de 90 e tais trabalhos são praticamente da mesma época, essa parte de sua obra permanece mal reportada. No tocante à sua lírica, Aureliano se arroja em conteúdo ao mesmo tempo que se contém nas formas mais tradicionais da poesia simbolista e neo-parnasiana. Um dos mais extensos artigos produzidos a respeito da literatura de Aureliano, publicado em 1974 pelo Prof. Guilhermino Cesar, por exemplo, ignora a existência dos poemas de Itinerário. No artigo, Guilhermino reconhece o caráter reservado do poeta e lamenta que não tivesse até então se registrado em sua obra “uma descida mais vertical à paixão do homem”.

Os versos a seguir demonstram bem que o poeta, afinal, cumpriu o desejo de Guilhermino, porém de forma inédita, sem que o mesmo pudesse sabê-lo:

XI

A água que eu bebo tem o gosto do teu beijo;
a manhã lembra a luz pagã do teu sorriso.
Sugere a névoa o vago olhar, longe, impreciso,
de quando aplacas, fina e langue, o teu desejo.

A asa que passa, no céu alto, em vôo andejo,
lembra o teu gesto arisco em sutil sobreaviso.
E, na árvore alta e fina, e na flor do paraíso, :
tendo-te toda em mim, sempre em tudo te vejo.

Bruna e pálida, alta e trêmula, os cabelos
cheios da escuridão das noites em que amamos!
— Sinto-te no meu sangue em tumultos e apelos.

Em tua leve silhueta o mundo se resume.
E quando, sem encontrar-nos, nos buscamos,
ruge em minha alma em sombra a alma do teu perfume.

Em que pese sua aparição apagadiça, a obra de Aureliano vem sendo estudada mais ou menos diretamente. Em sua maior parte, seu nome é citado co-lateralmente em trabalhos que problematizam o romance de 30. Por ele referir-se mesmo em sua lírica a elementos de sua vivência em remissivas geográficas (como ao “vento pampeiro”) parte dos poucos trabalhos dedicados a ele notam em sua lírica póstuma a marca indelével do regionalismo, como uma chaga fosse, como se isso anulasse o alcance universal de sua visada lírica, a meu ver uma apreciação contaminada de preconceitos.

Embora nos anos em que estudou Medicina em Porto Alegre tenha tido um convívio próximo aos escritores que viveram o fervor modernista rio-grandense, nos cafés do centro e em torno da Livraria do Globo, Aureliano logo que pode retornou à Tupanciretã e lá estabeleceu-se como clínico-geral, interrompendo as publicações que fez por meio de periódicos como a Revista Kodak, que circulou entre os anos de 1912-1920.

Paradigma de um autor verdadeiramente reservado, Aureliano de Figueiredo Pinto por muito pouco não passou completamente despercebido pelas gerações suas posteriores. No caso, ele teve um dos filhos que se preocupou em não deixá-lo cair no oblívio completo e a sorte de um editor preocupado em recuperar e conservar a memória literária do Rio Grande do Sul sem qualquer preconceito temático, linguístico ou de procedência.