Sardônico Bierce
Custou pouco mais de um século para que o Dicionário do Diabo, vocabulário redigido por um dos mais ferinos autores da virada do séc. XIX para o XX, chegasse finalmente ao Brasil, agora em edição inteiramente nacional. A editora responsável pela brochura em capa dura trazendo 304 páginas de verbetes, poemas e citações da edição original norte-americana é a Carambaia, em tradução assinada por Rogério Galindo. Utilizando o formato de um dicionário diagramado em duas colunas por página, a coleção de verbetes flerta com a “escuridão” além do título diabólico. Ao usar papel preto e contra-impressão em branco, o resultado obtido na publicação não é outro que um artigo para colecionadores.
Inicialmente veiculado de forma esparsa em periódicos californianos com os quais ele colaborava, o compêndio de definições sardônicas de Bierce está para as obras de referência como uma espécie de contraveneno. É um livro que, se encarado de cabo a rabo, certamente resultará maçante, pois a ironia presta-se bem mais a estocadas sutis do que ao massacre discursivo. Por outro lado, como um bom dicionário deve ser, o de Bierce é capaz de esclarecer ao leitor do que pode lhe parecer eventualmente nebuloso; no caso específico, mais ou menos algo como a dimensão da natureza humana e mundana revelados, ou melhor explicados, em seus aspectos mais inesperados e sombrios. Tal é a especialidade do léxico ambroseano.
São de prestar atenção em seu dicionário as definições empregadas para definir termos usualmente inofensivos nos dicionários comuns. “Patriota”, por exemplo, um termo em tudo elogioso, na boca de Bierce deve ser lido como “Alguém para quem os interesses de uma parte parecem ser superiores aos interesses do todo. Joguete dos estadistas e ferramenta de conquistas.” Para Bierce, entende-se por nação a “Entidade administrativa operada por uma incalculável multidão de parasitas políticos, logicamente ativos, mas apenas fortuitamente eficientes.” E sua definição de “deputado” é outra ainda hoje muito difícil de contestar: “Na política nacional, um membro da Câmara Baixa neste mundo, sem esperança visível de promoção no outro.”
Embora o dicionário de “Bitter” Bierce, o amargo, não tivesse sido ainda publicado na íntegra no Brasil, suas definições são bem conhecidas por aqui há muito tempo, assim como sua produção literária, principalmente seus contos de terror, como O Mestre de Moxon e outros. Trechos do Dicionário foram antologizados recentemente na Antologia da Maldade (Zahar, 2015), no livro Mau Humor, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 2002), e em algumas outras coletâneas de citações.
A bem da verdade, o humor de Bierce teria hoje escasso parentesco no Brasil, quando o escracho, o grosseiro e a cada vez mais necessária explicação da piada são de fazer usar a porta dos fundos dos mais bem frequentados ambientes. Talvez nem o último grande utilizador brasileiro da ironia como recurso literário, Millôr Fernandes, suportasse a excessiva luminosidade dos aspirantes ao humor atual. Faz todo o sentido: a verdadeira ironia flerta com o anárquico, não com o poder. Seu terreno é por excelência a penumbra do subentendido, não platitudes e obviedades. E se deixa de apontar a degeneração política e civilizacional faz pouco mais do que servir de sonífero, placebo inútil ou remédio a sanar justamente a quem lhes dá causa, ao invés de aplacar a agonia de quem sofre suas consequências.
Apesar de essencialmente explicativas e bem menos literárias do que as máximas da Bíblia do Caos, de Millôr Fernandes ou das “mínimas” de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, Bierce é de certo modo precursor destes e de tantos outros pensadores de “tiro curto”. Um precursor do estilo irônico e descrente talhado no jornalismo e na literatura subsequentes à violência resultante da Guerra de Secessão, da qual ele também participou como militar.
Dado pelos contemporâneos como figura ególatra e arrogante, Bierce envolveu-se em polêmicas religiosas, políticas e ideológicas. Dominado por uma visão cética do mundo e do tempo que testemunhava, tornou-se um crítico selvagem do comportamento da época e do senso comum, o que em muito contribuiu para que alternasse fases de isolamento e de intensa produção. Seu destino incerto (os restos mortais de Bierce nunca teriam sido encontrados após sua morte), de quem poderia ter se suicidado ou fuzilado após um breve envolvimento com o exército de Pancho Villa no México, aliado a imagem de indomável, coloca a figura e a obra de Bierce num lugar de difícil de compreensão. O Dicionário do Diabo, neste caso, é uma excepcional ajuda para compreender-se melhor tanto o autor quanto a sua mordaz e peculiar visão de mundo.
A dor comum
Miguel de Unamuno (1864 – 1936)
trad. do espanhol
Cala-te meu coração, os teus pesares
são dos que não se devem dizer, deixa
que se acabem num sonho; tua queixa
é só tua, e quando a proclamares
cuida de aos demais não importunares
com demasiado grito. O teu lamento,
sendo só teu, é um sentimento
de tua mera vaidade. Nunca separes
a tua dor da dor comum e humana,
e busca o íntimo em que habita
a humanidade que aos demais te irmana,
é o que engrandece a mente e não
a estreita; somente o que pode amar
nos comunica, o resto é a solidão.
Fechando a conta
Um livro que aceita adjetivos
O mais recente livro de Luiz Fernando Vianna é uma autobiografia feita de páginas e cascas. As páginas conferem com o relato do jornalista e da vida com o seu filho autista. As cascas dizem respeito às muitas molduras que o autor, o pai, este homem, vai perpassando e retirando de si mesmo até mostrar-se com a crueza necessária para poder levar o relato adiante e desfazê-lo de qualquer ilusionismo. O espantoso é que isso acontece mais ou menos antes da página 20 do livro.
Dizer que um livro autobiográfico é corajoso, valente ou despido de pudores pressupõe que se conheça a intimidade dos biografados. No mais das vezes, por isso mesmo, é bastante inadequado dedicar-lhes qualificativos porque, admitindo-se que seja impossível adentrar-se na subjetividade de quem quer que seja, são atributos inverificáveis. De certa maneira, toda a autobiografia é também autoficção, e em ambos os estilos parece que a opção por um tom mais realista ou fantasioso é o que vai determinar o impacto da narrativa e seu potencial de emoção, a despeito de suas reservas retóricas e estéticas.
Além de ser um biógrafo experiente que já trabalhou nas histórias de gigantes da música brasileira como João Nogueira e Aldir Blanc, Luiz Fernando tem recursos de sobra para contar uma história difícil como é a sua e de seu filho. Entretanto, é livre de artifícios, com a facilidade de uma letra de música (a observação serve também para informar que os capítulos receberam títulos extraídos da música brasileira), direto e sem firulas, que ele trata do tema da filiação, da aceitação e da vida com o autismo de uma forma desencantadora, mas é justamente aí que está o seu lance de mestre.
Ainda que fosse bastante razoável e compreensível que um autor adotasse o caminho mais fácil (ou menos pedregoso) para abordar seus sentimentos em relação a uma situação tão problemática, é notável a recusa que ele faz de qualquer artifício de sublimação ou compensação. Por certo não há quem imagine que criar e educar um filho diagnosticado aos quatro anos de idade como autista venha a ser um idílio. No entanto, se outra espécie de mensagem é emitida ao mundo social, a interpretação mais corriqueira é a do luto perpétuo e da rejeição, como se fosse possível atravessar a jornada mítica até a aceitação sem sequer mencioná-la, sem encará-la de frente, sem nomeá-la ou entendê-la.
Não é por outra razão que há em muita literatura (mesmo a biográfica) a respeito do tema um esforço quase hiperficcional. Ou seja, talvez por uma questão moral, ou uma necessidade biopolítica ou ideológica (o que vulgarmente vem se conhecendo cada vez mais por “capacitismo”), parece ilícito admitir-se fraquezas. Lidar mal com elas então é, dos crimes, o mais imperdoável.
Na literatura, pelo menos, o imperativo da superação traveste-se e alimenta-se de casos bem resolvidos, normalmente conquistados numa gana divina contra tudo e todos – e entenda-se esse tudo e todos justamente como o mundo social excludente e arraigado na sua normose produtiva e em seus valores, via de regra incompreensíveis e incontornáveis. Trata-se de um paradoxo e, por essas mágicas da vida, há sempre quem tenha a solução comportamental na ponta da língua, muitas vezes mera defecação de normas e exemplos de vida. Autocomplacência, autoindulgência, autoelogio e autoengano são cascas nas quais muitas personagens e pessoas sentem-se melhor para encarar o mundo da exclusão e este é por óbvio um direito que lhes assiste. Porém, tais são as cascas (duras, não?) das quais Luiz Fernando sabiamente despiu-se para escrever um livro em tudo humano e tocante, muitas vezes hilariante e também emocionante. Principalmente emocionante.
Esta, como já é visível, é uma crítica que usa adjetivos. Porém, como se trata de seres humanos e seres humanos não dispensam adjetivos ao pensar e falar, não deve haver nada de mais em qualificar-se um livro assim, com estes recursos. Sem dúvida, todos que o forem ler também o praticarão (mesmo que veladamente) e, certamente, sem coincidência alguma. Aqui então pode ser o momento adequado para voltar-se a um adjetivo já mencionado. Sim, o livro é também corajoso, porque se submete com a mesma retórica à reprovação e à desaprovação. Diante de um relato de vida, ninguém por certo está obrigado a concordar ou admirar, e é por isso que este é mais um acerto na opção do autor em não escamotear nenhum tipo de sentimento. Afinal, o livro não é uma prestação de contas, é uma autobiografia com tudo o que uma vida pode ter de erro e de acerto e para a qual nem um juiz é competente o bastante para avaliar, embora juízes da vida alheia não faltem (e não costumem falhar).
Outro adjetivo que poderia ser empregado ao livro é de que se trata de uma narrativa em muitos aspectos chocante. Não há razão para espanto: a vida humana, quanto mais alguém se aproxima dela, mais chocante parece ser. Requer-se, portanto, uma dose de descompostura para um autor assumir tão rapidamente sua nudez moral, e isto por si só é um gesto de coragem, já que não se pede a contrapartida do leitor. Se isso é ruim ou bom, é um juízo que cada leitor fará de acordo com seu repertório.
Para além de uma crônica de compreensão e superação, tão comuns nos relatos sobre pessoas com deficiência, Meu menino vadio é surpreendente como sempre é surpreendente para um pai ou mãe ter de enfrentar o que até mesmo para a ciência mais avançada é impreciso e desconhecido, como é o autismo, termo que às vezes também é usado como adjetivo – injusta e invariavelmente, em sentido depreciativo. De tudo, certo é que Luiz Fernando tem como fio condutor não uma bela história de superação, de fazer chorar, mas a capacidade de fazer isso ao abusar da franqueza, o que por sorte ainda é permitido aos bons livros. Além disso, o livro presta o serviço de ajudar a romper o distanciamento e o estranhamento que comumente há entre os autistas e as demais pessoas. É duro mesmo, mas por que outra razão alguém escreveria um livro assim?
Desbaratando Fernando Pessoa
De todos os poetas do século XX, a poucos – talvez a nenhum outro – se tenha incorporado tão bem a pecha de incompreendido quanto a Fernando Pessoa. Nele, tudo é ao mesmo tempo corriqueiro e misterioso. É corriqueiro como quem esteve agora mesmo a beber em algum café da baixa, como um transeunte a mais; é misterioso como quem perscrutou o mais difícil dos temas, o conhecimento de si mesmo, aventurando-se por ele em inúmeras tradições culturais e até mesmo no ocultismo. E ainda assim, e a despeito de tudo isso, de alguém que, ao morrer, era um desconhecido “das gentes” e poucos notaram-lhe, em vida, a dimensão do gênio. No ano de sua morte, em 1935, Miguel Torga anotava em seus diários:
Vila Nova, 3 de dezembro de 1935.
Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia, fechei a porta do consultório e meti-me por montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.
(Miguel Torga, Diário I, página 19)
Toda essa incompreensão e desinformação que, muito por causa de sua heteronímia e também por suas investidas nos domínios do ocultismo parece às vezes até fruto de mais uma de suas maquinações, durante todo o século passado parece ter paulatinamente consolidado uma espécie de aura (e também um estereótipo) do que seria o poeta atormentado por excelência. Some-se isso tudo às escassas fotografias do poeta míope e a uma produção prolífica e complexa e têm-se então, como resultado, texto e imagem de um personagem misterioso, ainda que reconhecidamente ícone inseparável do modernismo de todo o mundo e da proximidade de seus maiores nomes.
É bem por isso também, por esse mistério todo, que um ponto a que fatalmente chega (ou emperra) todo leitor de Pessoa é o de tentar entender quem ele mesmo fora, o ser humano Pessoa; e o de entender qual a voz que ele realmente tinha, se é que tinha apenas uma ou se não era mesmo todas.
Dentre os seus mais de 130 autores fictícios e dos heterônimos mais conhecidos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares – para quem traçara mapas astrais, assinaturas individuais, biografias e a partir de quem inclusive chegava a expedir correspondências – como seria possível saber de quem realmente se trata alguém que diz a respeito de si mesmo: “Eu vejo-me e estou sem mim,/Conheço-me e não sou eu”? E mais, como saber o que é invenção do poeta e onde ele se esconde nos demais, porque afinal é do seu ortônimo “Fernando Pessoa” a célebre Autopsicografia que sugere que aquém e além de tudo, que todo esse universo possa ser mera invenção e “fingimento”?
Seja como for, se já é complicado dar a ver a “alma” de um poeta, mesmo daquele que possivelmente mais tenha mostrado de si mesmo entre todos, o certo é que Pessoa tem dificultado bastante a vida de seus críticos e biógrafos. Mesmo contemporâneos seus, como João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro, ambos fundadores da prestigiosa revista Presença, com a qual por volta de 1927 passou a colaborar regularmente, divergem em especulações sobre a poesia de Pessoa e sua despersonalização em muitos. Em carta remetida a Casais Monteiro no ano de sua morte, ele revela concordar com a interpretação que este havia feito de sua heteronímia:
O fenômeno da minha despersonalização instintiva (…) conduz necessariamente a essa definição. Sendo assim, não evoluo: VIAJO. (…) Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo.
(Carta a Casais Monteiro datada de 20-1-1935)
Já a Gaspar Simões ele diz taxativamente, em dezembro de 1931, entre uma longa explicação sobre a natureza da mesma heteronímia: “Voo outro – eis tudo. (Carta a João Gaspar Simões, datada de 11-12-1931)”. Simões, que havia escrito sobre e poesia de Pessoa durante a vida daquele, continuou mesmo depois da sua morte a preconizar o que Casais Monteiro chegou a chamar de psicologização da obra de Pessoa, ou seja, a interpretar a obra através de elementos da sua vida. Isto era, porém, justamente o que nesta mesma carta Pessoa o advertira a não fazer:
Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão.
Isto posto, parece simples concluir que então talvez seja impossível ser fiel a uma interpretação biográfica ou abordar-se a vida do poeta de uma maneira absolutamente crível. Entretanto, não é exatamente nisto que creem o colombiano Jerónimo Pizarro e o carioca Carlos Pittella-Leite. Com o sugestivo título Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida – primeiras lições (Tinta da China, 2016), os pesquisadores foram buscar na aventura documental o esclarecimento de pequenas “humanidades” do poeta, como se demonstrações cabais e objetivas de que mesmo por detrás de um gênio multifacetado como Pessoa existe obviamente um ser humano tão envolvido em mazelas mundanas quanto todas as demais pessoas.
O livro é o primeiro a trazer para o Brasil novidades do universo pessoano que Pizarro tem investigado anos a fio, sendo o responsável direito ou indireto pelas mais recentes publicações dos inéditos de Pessoa. Para ele, que trabalhou diretamente no espólio do poeta, trata-se de um trabalho para várias gerações, ainda mais que há um percentual do espólio, com anotações e outros originais, que se mantêm em posse dos herdeiros. Ainda assim, Pizarro e Pittella conseguiram reunir e contextualizar muitos documentos inéditos (e inesperados) do grande poeta português e através do livro pode-se saber, por exemplo, que o mesmo autor de Mensagem e de Tabacaria foi o responsável pela criação publicitária de anúncios, entre os quais um da multinacional de refrigerantes Coca-Cola (com a frase “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”…) e fez com que o heterônimo futurista Álvaro de Campos dirigisse um Chevrolet, no que seria, de acordo com eles, o primeiro “product placement da poesia portuguesa”.
Se coisas assim fazem diferença ou não no aspecto qualitativo da poesia de Pessoa, definitivamente não é essa ideia principal de ambos os autores com a publicação, mas a de colaborar na desmistificação e também na popularização da sua obra e biografia. O livro, em tudo semelhante a um curioso almanaque, é bem mais do que isso, na verdade, porque localiza os fatos tanto na biografia quanto na repercussão literária de sua obra.
Nos outros exemplos inusitados da produção de Pessoa, convertidos no livro em aparentes lições de “como fazer”, encontram-se coisas como condutas e “regras” para reinventar o jogo de futebol, sugestões de xingamentos (com um soneto inédito exemplificativo), instruções para interpretar narizes, diversificar bibliotecas, ganhar um concurso em segundo lugar, instruções de como “mentir sinceramente” e outras tantas relativas utilidades às quais o maior gênio literário da língua portuguesa do séc. XX esmerou-se em registrar e que os autores do livro catalogaram e ilustraram na forma de uma espécie de pseudomanual.
Mas nem todas as notícias são boas para os amantes do poeta, pois através do livro pode-se saber que poemas aparentemente em tudo líricos, como o poema Liberdade, não seria senão uma mensagem cifrada dirigida ao presidente Antonio Salazar, a quem ele considerava um financista inculto e a quem dirigira uma série de poemas, como Coitadinho e outros.
Liberdade
(…)
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…
Sem dificuldades maiores pode-se concluir, ao final do livro, de que é correta a constatação de que mesmo alguém tão inesperadamente multifacetado acaba por deixar muitos vestígios concretos ao longo da vida e que estes registros podem explicar em muito vários aspectos de sua criação e personalidade. No caso de Pessoa, muitos destes vestígios encontravam-se desconhecidos até 2006, ano em que sua obra caiu pela segunda vez em domínio público e veio a conhecimento geral a existência de mais de uma arca de inéditos em posse de herdeiros e, nela, muitos projetos inacabados, rascunhos, livros, revistas, correspondências, fotografias, versões de poemas, etc.
Assim como o de muitos outros escritores, o espólio de Pessoa esteve no centro de disputas entre herdeiros e instituições portuguesas, como a Casa Fernando Pessoa e a Biblioteca Nacional. Em 1986, por força da legislação vigente ao seu nascimento, sua obra passou ao domínio público até que, em 1993, por iniciativa de sobrinhos herdeiros (que neste meio tempo leiloaram partes importantes do espólio), uma diretiva ampliou o prazo até 2006, depois do que finalmente decaiu a proteção legal e se multiplicaram no mundo inteiro edições dispersas e incompletas de sua obra.
Se confere com a realidade (e isso pode ser comparado pela leitura de sua correspondência) que o próprio Pessoa procurou algumas vezes esclarecer a natureza da heteronímia e de seus inúmeros personagens, por outro lado a extensão de sua criatividade competiu no que poderia dizer-se como uma espécie de desentendimento entre vida e obra. Isso a ponto de suscitar diversas interpretações, algumas inclusive com inspiração na psicanálise, como as realizadas pela professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés. Dado, porém, que ele mesmo refletiu sobre essa dicotomia entre “ser” e “sentir”, essa compulsão gnóstica e existencial aparece ao longo de toda a sua obra, desde as mais singelas quadras populares até às extensas odes de Álvaro de Campos ou nos seus mais herméticos poemas dramáticos. Como se trata do “proprietário” de um dom rítmico incomum e vocabulário inesgotável, é mesmo uma revelação (no sentido investigativo do termo) o aparecimento do indivíduo entre os seus vários “eus”. É certo que isto não poderia ser feito, sem dúvida, a não ser através da imersão na sua pessoalidade, mesmo que isto possa parecer mero trocadilho.
Talvez Pessoa seja mesmo um poeta incontável, incontabilizável, nem mais nem menos do que isso. Mas o livro de Pizarro e Pittella, mesmo que parecendo um álbum de recortes (e, pelo título, em suas “primeiras lições”), acaba por colaborar e muito em tornar o Pessoa real em alguém finalmente menos misterioso e mais cognoscível. Certamente isso não o diminui em nada em relação a outras abordagens biográficas, pelo contrário. Através dos seus achados cada vez mais fica notável que seu gênio era tamanho a ponto de “sentir” e “fazer” com a mesma intensidade e profundidade, ainda que travestido em distintas formas de dizer.
Pragmatismo poético #9
#9
A poesia é uma das formas mais efetivas de aprender tudo o que não pode ser ensinado.
Na Revista 7Faces
Na edição 13 da Revista 7Faces, quatro poemas que escrevi, em edição que homenageia Ana Cristina César.
Inclusão em pauta
Inclusão em pauta: debates sobre mídia, bioética, educação, políticas públicas e comportamento é uma coleção de artigos, ensaios curtos e crônicas sobre a temática da inclusão social, seus protagonistas e muitas interfaces.
Publicado na forma de e-book em 2015, o livro foi agora revisado e ampliado com artigos mais recentes e novas crônicas e poderá desde agora ser adquirido também na forma impressa.
Para adquiri-lo, visite minha página de autor na Amazon.com ou na página promocional do livro no Facebook, neste link.
A urna – 2
Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol
Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem raiva altiva.
Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
no arco da ira.
Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:
um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre imensas montanhas. O inverno…







