Desbaratando Fernando Pessoa

De todos os poetas do século XX, a poucos – talvez a nenhum outro – se tenha incorporado tão bem a pecha de incompreendido quanto a Fernando Pessoa. Nele, tudo é ao mesmo tempo corriqueiro e misterioso. É corriqueiro como quem esteve agora mesmo a beber em algum café da baixa, como um transeunte a mais; é misterioso como quem perscrutou o mais difícil dos temas, o conhecimento de si mesmo, aventurando-se por ele em inúmeras tradições culturais e até mesmo no ocultismo. E ainda assim, e a despeito de tudo isso, de alguém que, ao morrer, era um desconhecido “das gentes” e poucos notaram-lhe, em vida, a dimensão do gênio. No ano de sua morte, em 1935, Miguel Torga anotava em seus diários:

Vila Nova, 3 de dezembro de 1935.

Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia, fechei a porta do consultório e meti-me por montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.

(Miguel Torga, Diário I, página 19)

Toda essa incompreensão e desinformação que, muito por causa de sua heteronímia e também por suas investidas nos domínios do ocultismo parece às vezes até fruto de mais uma de suas maquinações, durante todo o século passado parece ter paulatinamente consolidado uma espécie de aura (e também um estereótipo) do que seria o poeta atormentado por excelência. Some-se isso tudo às escassas fotografias do poeta míope e a uma produção prolífica e complexa e têm-se então, como resultado, texto e imagem de um personagem misterioso, ainda que reconhecidamente ícone inseparável do modernismo de todo o mundo e da proximidade de seus maiores nomes.

É bem por isso também, por esse mistério todo, que um ponto a que fatalmente chega (ou emperra) todo leitor de Pessoa é o de tentar entender quem ele mesmo fora, o ser humano Pessoa; e o de entender qual a voz que ele realmente tinha, se é que tinha apenas uma ou se não era mesmo todas.

Dentre os seus mais de 130 autores fictícios e dos heterônimos mais conhecidos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares – para quem traçara mapas astrais, assinaturas individuais, biografias e a partir de quem inclusive chegava a expedir correspondências – como seria possível saber de quem realmente se trata alguém que diz a respeito de si mesmo: “Eu vejo-me e estou sem mim,/Conheço-me e não sou eu”? E mais, como saber o que é invenção do poeta e onde ele se esconde nos demais, porque afinal é do seu ortônimo “Fernando Pessoa” a célebre Autopsicografia que sugere que aquém e além de tudo, que todo esse universo possa ser mera invenção e “fingimento”?

Seja como for, se já é complicado dar a ver a “alma” de um poeta, mesmo daquele que possivelmente mais tenha mostrado de si mesmo entre todos, o certo é que Pessoa tem dificultado bastante a vida de seus críticos e biógrafos. Mesmo contemporâneos seus, como João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro, ambos fundadores da prestigiosa revista Presença, com a qual por volta de 1927 passou a colaborar regularmente, divergem em especulações sobre a poesia de Pessoa e sua despersonalização em muitos. Em carta remetida a Casais Monteiro no ano de sua morte, ele revela concordar com a interpretação que este havia feito de sua heteronímia:

O fenômeno da minha despersonalização instintiva (…) conduz necessariamente a essa definição. Sendo assim, não evoluo: VIAJO. (…) Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo.

(Carta a Casais Monteiro datada de 20-1-1935)

Já a Gaspar Simões ele diz taxativamente, em dezembro de 1931, entre uma longa explicação sobre a natureza da mesma heteronímia: “Voo outro – eis tudo. (Carta a João Gaspar Simões, datada de 11-12-1931)”. Simões, que havia escrito sobre e poesia de Pessoa durante a vida daquele, continuou mesmo depois da sua morte a preconizar o que Casais Monteiro chegou a chamar de psicologização da obra de Pessoa, ou seja, a interpretar a obra através de elementos da sua vida. Isto era, porém, justamente o que nesta mesma carta Pessoa o advertira a não fazer:

Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão.

Isto posto, parece simples concluir que então talvez seja impossível ser fiel a uma interpretação biográfica ou abordar-se a vida do poeta de uma maneira absolutamente crível. Entretanto, não é exatamente nisto que creem o colombiano Jerónimo Pizarro e o carioca Carlos Pittella-Leite. Com o sugestivo título Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida – primeiras lições (Tinta da China, 2016), os pesquisadores foram buscar na aventura documental o esclarecimento de pequenas “humanidades” do poeta, como se demonstrações cabais e objetivas de que mesmo por detrás de um gênio multifacetado como Pessoa existe obviamente um ser humano tão envolvido em mazelas mundanas quanto todas as demais pessoas.

O livro é o primeiro a trazer para o Brasil novidades do universo pessoano que Pizarro tem investigado anos a fio, sendo o responsável direito ou indireto pelas mais recentes publicações dos inéditos de Pessoa. Para ele, que trabalhou diretamente no espólio do poeta, trata-se de um trabalho para várias gerações, ainda mais que há um percentual do espólio, com anotações e outros originais, que se mantêm em posse dos herdeiros. Ainda assim, Pizarro e Pittella conseguiram reunir e contextualizar muitos documentos inéditos (e inesperados) do grande poeta português e através do livro pode-se saber, por exemplo, que o mesmo autor de Mensagem e de Tabacaria foi o responsável pela criação publicitária de anúncios, entre os quais um da multinacional de refrigerantes Coca-Cola (com a frase “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”…) e fez com que o heterônimo futurista Álvaro de Campos dirigisse um Chevrolet, no que seria, de acordo com eles, o primeiro “product placement da poesia portuguesa”.

Se coisas assim fazem diferença ou não no aspecto qualitativo da poesia de Pessoa, definitivamente não é essa ideia principal de ambos os autores com a publicação, mas a de colaborar na desmistificação e também na popularização da sua obra e biografia. O livro, em tudo semelhante a um curioso almanaque, é bem mais do que isso, na verdade, porque localiza os fatos tanto na biografia quanto na repercussão literária de sua obra.

Nos outros exemplos inusitados da produção de Pessoa, convertidos no livro em aparentes lições de “como fazer”, encontram-se coisas como condutas e “regras” para reinventar o jogo de futebol, sugestões de xingamentos (com um soneto inédito exemplificativo), instruções para interpretar narizes, diversificar bibliotecas, ganhar um concurso em segundo lugar, instruções de como “mentir sinceramente” e outras tantas relativas utilidades às quais o maior gênio literário da língua portuguesa do séc. XX esmerou-se em registrar e que os autores do livro catalogaram e ilustraram na forma de uma espécie de pseudomanual.

Mas nem todas as notícias são boas para os amantes do poeta, pois através do livro pode-se saber que poemas aparentemente em tudo líricos, como o poema Liberdade, não seria senão uma mensagem cifrada dirigida ao presidente Antonio Salazar, a quem ele considerava um financista inculto e a quem dirigira uma série de poemas, como Coitadinho e outros.

Liberdade

(…)

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Sem dificuldades maiores pode-se concluir, ao final do livro, de que é correta a constatação de que mesmo alguém tão inesperadamente multifacetado acaba por deixar muitos vestígios concretos ao longo da vida e que estes registros podem explicar em muito vários aspectos de sua criação e personalidade. No caso de Pessoa, muitos destes vestígios encontravam-se desconhecidos até 2006, ano em que sua obra caiu pela segunda vez em domínio público e veio a conhecimento geral a existência de mais de uma arca de inéditos em posse de herdeiros e, nela, muitos projetos inacabados, rascunhos, livros, revistas, correspondências, fotografias, versões de poemas, etc.

Assim como o de muitos outros escritores, o espólio de Pessoa esteve no centro de disputas entre herdeiros e instituições portuguesas, como a Casa Fernando Pessoa e a Biblioteca Nacional. Em 1986, por força da legislação vigente ao seu nascimento, sua obra passou ao domínio público até que, em 1993, por iniciativa de sobrinhos herdeiros (que neste meio tempo leiloaram partes importantes do espólio), uma diretiva ampliou o prazo até 2006, depois do que finalmente decaiu a proteção legal e se multiplicaram no mundo inteiro edições dispersas e incompletas de sua obra.

Se confere com a realidade (e isso pode ser comparado pela leitura de sua correspondência) que o próprio Pessoa procurou algumas vezes esclarecer a natureza da heteronímia e de seus inúmeros personagens, por outro lado a extensão de sua criatividade competiu no que poderia dizer-se como uma espécie de desentendimento entre vida e obra. Isso a ponto de suscitar diversas interpretações, algumas inclusive com inspiração na psicanálise, como as realizadas pela professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés. Dado, porém, que ele mesmo refletiu sobre essa dicotomia entre “ser” e “sentir”, essa compulsão gnóstica e existencial aparece ao longo de toda a sua obra, desde as mais singelas quadras populares até às extensas odes de Álvaro de Campos ou nos seus mais herméticos poemas dramáticos. Como se trata do “proprietário” de um dom rítmico incomum e vocabulário inesgotável, é mesmo uma revelação (no sentido investigativo do termo) o aparecimento do indivíduo entre os seus vários “eus”. É certo que isto não poderia ser feito, sem dúvida, a não ser através da imersão na sua pessoalidade, mesmo que isto possa parecer mero trocadilho.

Talvez Pessoa seja mesmo um poeta incontável, incontabilizável, nem mais nem menos do que isso. Mas o livro de Pizarro e Pittella, mesmo que parecendo um álbum de recortes (e, pelo título, em suas “primeiras lições”), acaba por colaborar e muito em tornar o Pessoa real em alguém finalmente menos misterioso e mais cognoscível. Certamente isso não o diminui em nada em relação a outras abordagens biográficas, pelo contrário. Através dos seus achados cada vez mais fica notável que seu gênio era tamanho a ponto de “sentir” e “fazer” com a mesma intensidade e profundidade, ainda que travestido em distintas formas de dizer.

Inclusão em pauta

Inclusão em pauta: debates sobre mídia, bioética, educação, políticas públicas e comportamento é uma coleção de artigos, ensaios curtos e crônicas sobre a temática da inclusão social, seus protagonistas e muitas interfaces.

Publicado na forma de e-book em 2015, o livro foi agora revisado e ampliado com artigos mais recentes e novas crônicas e poderá desde agora ser adquirido também na forma impressa.

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A urna – 2

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem raiva altiva.

Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
no arco da ira.

Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:

um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre imensas montanhas. O inverno…

2016 e a tangente à curva

2016

Ninguém sabe exatamente quando o tempo passou a ser circular nem quando um artigo que se pretende sério passou a ter de ser iniciado da mesma forma de um conto de ficção científica, mas qualquer um que deseje contar o ano de 2016 sentirá necessidade de primeiramente derribar-se das medidas convencionais do tempo e aceitar apenas embarcar num dado momento da jornada. Casualmente, neste 2016.

Em janeiro, ainda dentro da paisagem distópica e aterradora da tragédia do rompimento da barragem de Mariana, o ano começava (ou o tempo continuava) não muito diferente do que terminaria para aquelas pessoas atingidas: sem sinal de quaisquer providências nem de punição dos responsáveis. A despeito das muitas manifestações populares e de promessas governamentais nunca cumpridas, o cenário de “lama, luto e impunidade permaneceu intacto, como se precisasse ser assim para que se atestasse a ineficiência institucional quando o que está envolvido é a vida das pessoas e a sobrevivência do meio ambiente. A tragédia de Mariana é para o Brasil uma das suas incógnitas temporais: ninguém sabe precisar em que momento da história recente ela foi gestada pela negligência na construção e em sua fiscalização nem muito menos se há um prazo para que os danos causados às pessoas e ao ambiente sejam finalmente reparados.

Também no verão passado, o até hoje mal compreendido vírus Zika iniciava seu trânsito (ainda não encerrado, diga-se de passagem) pelo Brasil. Porém, também é provável que ele viesse circulando no Brasil desde a Copa do Mundo de 2014 tendo chegado por aqui através de visitantes das ilhas do Pacífico, onde se havia manifestado anteriormente. Partindo do sertão nordestino, sua rápida propagação fez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretasse no começo do ano estado de emergência global em função dos crescentes casos de microcefalia, logo a seguir denominada “síndrome congênita do Zika”. Mais recentemente, embora a OMS recentemente tenha retirado o alerta global, pesquisadores declararam esperar que os casos de microcefalia e da síndrome de Guillain Barré, outra intercorrência do vírus, aumentem em outras regiões do Brasil, principalmente na região sudeste. Também a epidemia do Zika parece ter uma origem imprecisa e, dado o mínimo esforço em debelar o vetor da doença, previsão nenhuma de acabar. Os dados sobre a população desassistida  no sertão paraibano igualmente colaboram para um cenário muito distante de ser solucionado.

A batalha do impeachment

Como uma ilha encravada no meio da circularidade de 2016, realizaram-se no Rio de Janeiro, entre agosto e setembro, a Olimpíada e a Paraolimpíada. Apesar de algum pessimismo da opinião pública e do terrível desabamento da recém-inaugurada ciclovia Tim Maia, os eventos transcorreram sem maiores contratempos. A Paraolimpíada, provavelmente por uma baixa expectativa de retorno publicitário, sequer teve sua abertura televisionada pelos canais abertos, o que motivou intensos protestos na comunidade de pessoas com deficiência no Brasil . Mas ainda que ambos os eventos tenham sido bem-sucedidos, logo ao seu final o estado do Rio de Janeiro já viria a decretar estado de calamidade financeira. Com os megaeventos encerrados, era a hora de conferir o saldo final e o prejuízo recaiu amargamente nos serviços públicos e salários do funcionalismo. A crise econômica, como uma caixa de Pandora retida a muito custo, podia já ser aberta e espalhar seus horrores.

Desde o ano anterior, que terminara com os movimentos em torno da Agenda Brasil capitaneada pelo senador Renan Calheiros e com o movimento “Fora Levy”, anunciavam-se já problemas mais sérios na área econômica que logo iriam repercutir nas finanças dos estados e também dos municípios. Além do Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul também decretou estado de calamidade financeira e outros 15 estados estudam fazer o mesmo. Contas no vermelho, parcelamento nos salários e projetos de ajuste fiscal no âmbito estadual fazem do cenário uma paisagem desoladora que o governo federal repete no seu âmbito e vem buscar deter através da PEC 55, projeto de ajuste em tudo semelhante ao PLP 257/2016, originado em 2014, mas que passou a contar com a oposição de sindicalistas, movimentos sociais e dos partidos que deixaram o governo logo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a posse de seu antigo vice, o presidente Michel Temer, ao final de agosto.

Toda essa impressão de circularidade, todavia, poderia ser quebrada através da observação do movimento político na esfera federal, tendo em vista que o ano foi iniciado com uma composição de governo e terminou com outra. Ainda que por um determinado tempo tivessem sido o mesmo, numa composição de forças organizada anteriormente, precisamente no ano de 2011, quando se formou a chapa encabeçada por Dilma Rousseff, do PT, e tendo como vice o atual presidente, Michel Temer, do PMDB, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff pode ser apontado sem dificuldades como o grande divisor de águas do ano na política nacional, assim como as eleições municipais de outubro a confirmação da tendência de rejeição ao governo anterior e aos partidos de esquerda.

Com a opinião pública aparentemente dividida apenas entre apoiadores e detratores do impeachment, com a polarização política levada ao extremo e contando com uma intensa batalha jurídica e grandes manifestações populares como background, o processo realizou todo o percurso previsto na Constituição Federal, desde a aprovação do pedido numa Câmara dos Deputados ainda presidida pelo ex-deputado Eduardo Cunha, até a aprovação final no Senado, com 61 votos favoráveis e 20 contrários.

Um governo sem um projeto claro

O pedido de impeachment protocolado pela advogada Janaina Paschoal e pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior tramitou por longos meses e, ao lado do avanço da Operação Lava-Jato, dinamitou as relações políticas no país inteiro, cuja estagnação econômica iria despencar logo em seguida para números negativos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projetou uma queda de 3,3% no PIB brasileiro para 2016 e um cenário de estagnação para 2017. Para o Fundo Monetário Internacional, o ano deve fechar com uma taxa desemprego em torno dos 11,2%. O mesmo movimento parece ter dinamitado também as relações pessoais de um modo geral. Nas redes sociais, os efeitos da saturação informativa  evoluiram, às vezes, para um acirramento sem precedentes que aqui mesmo no Observatório da Imprensa foi equiparado a uma “briga de foice.

Ao final de novembro, o mesmo Hélio Bicudo autor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff declarou em entrevista à revista Época que “o impeachment de Temer já deveria ter ocorrido” . A Lava-Jato, operação iniciada em 2009, depois de investigar nomes do antigo governo do PT, em operações de caixa 2 e outros crimes administrativos, passou a investigar também doações feitas a políticos do PSDB, figurando inclusive na capa da revista Veja . No âmbito da investigação, políticos como o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e os ex-governadores do estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho e Eduardo Paes, foram presos em operações levadas a efeito pela Polícia Federal. De acordo com o MPF, outras operações devem ocorrer ainda em 2016 e prolongar-se em 2017, envolvendo centenas de políticos e empresários, tendo-se em vista o desvio de bilhões de reais das contas da Petrobras , além da celebração do maior acordo de leniência com a Odebrecht, que resultará no pagamento da multa nem um pouco irrisória de sete bilhões de reais.

Um ponto completamente fora da circularidade foi sem dúvida o trágico acidente envolvendo o time de futebol catarinense da Chapecoense, que vitimou setenta pessoas na Colômbia, onde seria disputada a final da Copa Sul-Americana. A comoção popular chegou ao mundo inteiro, dentro e fora do esporte e uma homenagem  protagonizada espontaneamente pelos colombianos na data em que se disputaria a final simbolizou a perplexidade que atravessou o país inteiro, rendendo imagens tocantes da população que se reuniu no estádio Atanasio Girardot. Uma vez que o soterramento do Rio Doce Mariana aconteceu em 2015, apesar de haver se prolongado durante todo o ano, o desastre da Chapecoense provavelmente terá sido mesmo o grande evento trágico do ano, a despeito de outras tragédias duradouras e já velhas conhecidas, como a da população indígena e a da discriminação racial, mas principalmente pelo imponderável que há em tragédias assim.

Se em algum momento houve realmente alguma linearidade na história recente, 2016 pode talvez ser encarado como o ano em que simplesmente se deu continuidade a um ou vários processos já em curso. Seja no afunilamento institucional no campo político, no crescente embate entres os poderes de Estado ou no hiato administrativo caracterizado em um governo sem um projeto claro, é como se o tempo simplesmente pudesse desaguar no próximo janeiro e seguir seu curso ininterrupto. Dessa forma, é bem possível que tanto a tragédia humanitária em torno do Xingu e da usina de Belo Monte, a epidemia de Zika e de outras doenças virais transmitidas pelo aedes aegypti em decorrência de más condições sanitárias tenham vindo mesmo para ficar, assim como a Lava Jato e a conflagração política e o amplo dissenso político, notado principalmente no acirramento de opiniões nas redes sociais.

Tangenciar os problemas

O mais curioso, ou não tão curioso assim, é que justamente a operação Lava-Jato tenha recebido os maiores “investimentos” para sua eliminação. Trata-se do esforço empreendido pelo poder legislativo em derrubar o pacote anticorrupção , conjunto de medidas de ampliação da capacidade de investigação e o endurecimento de penalidades para com políticos envolvidos em crimes de corrupção. Tendo reunido interesses e partidos tão diversos quanto o espectro de investigados pela própria Lava-Jato, ainda assim não foi um movimento suficiente para evitar que o STF aceitasse denúncia de 2006 e transformasse o presidente do Senado Renan Calheiros em réu nem tampouco em ter reunido no início de dezembro dezenas de manifestações em todo o Brasil, tendo o combate à corrupção e a imagem de Renan como focos principais . Mais uma prova de que mesmo um fato de tal ineditismo nem sempre obedece a uma lógica cronológica coerente.

Com a credibilidade dos partidos políticos parecendo cada vez mais residual e apesar de ser perceptível um maior prejuízo para os partidos de esquerda, ainda assim a população parece ainda não conseguir distinguir a emergência de nem um novo projeto político, mas apenas o reavivamento mortiço de antigas figuras que, curiosamente, parece mesmo que serão as que levarão o Brasil ao futuro. Mesmo que políticos pareçam no mais das vezes apenas pessoas que dão voltas em torno de si mesmas numa composição formada por nomes e imagens desgastadas (diga-se de passagem em todos os poderes e esferas), é justamente com a desconfiança popular em alta e as contas e serviços públicos em baixa que o país caminhará para 2017 para dirigir-se muito em breve a um novo processo eleitoral.

Ponto a ponto e caso a caso, como em sucessivas marcações da circularidade histórica, ao fim de mais um ano o que parece escassear não é propriamente o tempo, mas as possibilidades de pontos de corte radicais na circularidade das vicissitudes históricas e políticas nacionais. Tangenciar os problemas às vezes parece indispensável e o mais sábio a fazer, mas também pode acabar por competir num afastamento de toda e qualquer centralidade. Acontece na astronomia com os satélites desgovernados. Sobre qualquer outra analogia o autor exime-se da responsabilidade.

Homo Deus

homo-deus

Não é à toa que Homo Deus, o novo livro de Yuval Noah Harari começa com uma imagem, ao invés de por uma palavra. Tomando conta de toda a página inicial do livro e lembrando uma gravura em preto e branco, a imagem reproduz a tomada ampliada de uma microinjecção intracitoplasmática em um óvulo humano e de imediato situa o leitor onde Harari quer colocá-lo: do ponto em que o ser humano passa a dominar a biotecnologia e adquire um controle sem precedentes sobre a natureza em sua travessia no espaço-tempo.

Em seu livro anterior, o sucesso de vendas Sapiens: uma breve história da humanidade, a biotecnologia também aparecera, mas apenas no terço final de um livro que tinha o ambicioso projeto de narrar a história da civilização e da inteligência humana até o tempo presente. Em Homo Deus, Harari parte para um ponto de inflexão temporal que se ocupa mais do futuro e de especulações sobre o que pode estar por vir, reportando-se apenas eventualmente ao passado histórico da humanidade. Se em Sapiens a biotecnologia e sua expansão eram apresentadas como a forma encontrada pelo mundo globalizado em sustentar a escalada frenética da civilização em torno do consumo, do esgotamento dos recursos naturais e da expansão do crédito comercial em todo o mundo, em Homo Deus ela surge como uma situação já dada para a contemporaneidade, como se uma nova etapa da ciência talhada especialmente para a sobrevivência e a adaptação da espécie humana daqui em diante.

Homo Deus, portanto, não é um prolongamento de Sapiens e nem uma crítica epistemológica do contemporâneo ou um livro de filosofia da ciência. Mesmo assim, não deve ser tomado como um livro inteiramente fácil, de variedades cientificas. Apesar de manter a característica da leitura agradável e contínua que fizeram o sucesso de Sapiens, Harari investe pesado em uma contraposição ao senso comum e ao humanismo como ideologia e aponta muitas vezes para a composição de um cenário distópico para o futuro, no qual a novíssima face do humano seria engendrada pela composição de uma nova técnica e consciência, dado que sua dissociação da racionalidade começa a ocorrer por meio da mediação tecnológica e proliferação de sistemas artificiais de inteligência, como as que já existem hoje principalmente na internet.

Igualmente seria exagero ou equívoco afirmar que Homo Deus pudesse ser considerado uma extensão da ficção distópica do seriado inglês Black Mirror por tratar de um futuro que já dá seus sinais evidentes e altera inclusive a percepção que se pode obter do tempo. Mesmo que tanto o livro quanto o seriado realizem especulações sobre o futuro breve e muitas vezes se valham de exemplos semelhantes, isso apenas acontece porque ambos tratam da mesma matéria: a ascensão tecnológica e suas implicações. Mas as coincidências param por aí, uma vez que as projeções de Harari referem-se a um futuro mais distendido do que o cultuado seriado exibido pelo de streaming Netflix.

Para além de suas questões centrais, a biotecnologia e a inteligência artificial, Homo Deus é permeado por muitas referências históricas, literárias e culturais. É de onde emergem muitas de suas mais indagações, porque dialogam com o mundo real e o mundo de ontem ao invés de especular tão livremente, a ponto de parecer um mero devaneio. Harari parece estar bem mais preocupado em procurar entender as condições históricas do desenvolvimento humano futuro do que em propor um modelo de substituição do homem pela tecnologia.

De modo diferente de outros pensadores e idealizadores do futuro, como o japonês Michio Kaku ou mesmo o crítico da religiosidade Richard Dawkins, Harari devolve ao campo filosófico a precedência na crítica da racionalidade científica. Aos 40 anos, o autor israelense não apenas entrou de vez na lista de best-sellers do mundo inteiro, mas de forma ainda mais competente na lista de livros interessantes e populares sobre divulgação científica. Sem o astrônomo Carl Sagan no “páreo” e situando o pensamento humano no horizonte da ciência e da tecnologia, Harari propõe que a autonomia do pensamento e a liberdade, para ele os maiores desafios futuros, colocam-se desde já como desafios evolucionários para dar fisionomia a própria natureza humana. Embora por vezes possa soar superficial ou realize especulações um tanto temerárias, seu livro é uma aventura do pensamento. Não é pouco e, pela riqueza de detalhes e qualidade de informação, não é também um livro comum.

Era só o que faltava

poetas

Durante todo o ano de 2016 tive uma companhia que há anos eu vigiava a uma distância respeitosa, mas ainda não tinha para mim: a poesia completa do Mario Quintana. Ele, um gaúcho sem o menor gauchismo, pessoa com um senso de observação do humano atiladíssimo, foi dos primeiros poetas cosmopolitas e verdadeiramente universais destes pagos sulinos, senão o primeiro (ou o único).

Tinha ele uma simplicidade que chegava a ser hermética. E um anti hermetismo total capaz de extrair poesia (para muitos rasa e superficial) do seu contato com a própria superfície das coisas, das pessoas, do tempo, dos lugares e às vezes parece que de quase tudo sobre o que pensava ou colocava os olhos. A poesia nele não era fácil, difícil nele era o que não convertesse em poesia.

Poeta da ironia e da sutileza, Quintana não precisava adentrar na mente alheia para entendê-la. Por outro lado, parecia ter um sentido de revelação que dispensava qualquer caráter invasivo ou colonizador. Não a revelação mágica ou divina, que muitas vezes impõe ritos e hiper interpretação onde muitas vezes nem os há, mas aquela de desvendar os pequenos mistérios da vida e estes para ele eram justamente os maiores: o de notar o traço humano que se oculta na trivialidade cotidiana e a irreverência em apontar que há poesia nisso, e muita.

Hoje, por tudo que leio dos contemporâneos, penso que o Quintana seria um transgressor incompreendido. Mas talvez outros poetas e escritores geniais do passado também o fossem (ou continuassem a ser).

Junto a ele, bem ao lado da sua poesia completa, coloquei a nova edição completa de Adélia Prado e também a poesia de Wislawa Szymborska traduzida e publicada neste ano pela Companhia das Letras, num lindo trabalho de tradução. Os três ali, um pouco mais afastados de outros até mais festejados, mas que me importa? Foram estes os que me acompanharam durante o ano, como se os tivesse colocado a conversar entre si. Até procurei me intrometer na conversa deles, às vezes, em objeções idiotas, só para criar caso. Mas eles insistiram em permanecer naquela perenidade dos já eternizados e, por isso mesmo, não precisaram se ocupar das minhas tolices e advertências, Quintana principalmente. Era só mesmo o que faltava.

O ódio

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Brilhando por inteiro ao sinuoso
passo vai o tigre, suave como um verso,
e a ferocidade lustra qual terso
topázio o olho seco e vigoroso.

Estirando o músculo em desuso
dos flancos, lânguido e perverso,
encosta-se lentamente no disperso
outono das folhagens. O repouso…

O repouso na selva silenciosa.
A fronte plana dorme entre as finas garras
e o olhar fixo, sem gáudio,

espia, enquanto abafa com a nervosa
cauda todas as outras feras,
como em esgueira… Este é o meu ódio.