A gamificação e o futuro da leitura

Banco de livros

Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

Irrecuperáveis

Não são muitas as vezes em que sinto necessidade de falar ou escrever sobre meu filho. É sério isso. Nestes quase dez anos, posso contar nos dedos de uma mão apenas as situações em que isso me ocorreu. Isso de não resistir ao ímpeto de lançar-me ao recurso caudaloso da escrita. Isso é estranho para mim mesmo porque, desde o seu nascimento, boa parte (ou pelo menos a melhor parte) de tudo o que tenho feito ou pensado tem a ver direta ou indiretamente com ele, embora isso não signifique que me coloque antes dele em nada nem situe ele no centro absoluto e copernicano da minha vida. Até porque ele tem a sua própria vida e a sua particular maneira de interagir com o mundo e de ser quem e o que ele é. Porém, porque sou seu pai, é obvio que, assim como eu o tenho, ele também tem a mim, daí ser isso tudo um sistema, vamos chamar assim, dinâmico.

Mas hoje, desde muito cedo, diferente da maioria dos outros dias, quando a rotina ordena idas e vindas, enumera atividades, lista deveres e faz agenda até mesmo dos nossos minutos, hoje acordei pensando muito em que, talvez de um modo um pouco diferente do que sinta a maioria dos pais e mães de crianças com deficiência intelectual que tenho conhecido, eu sinto necessidade de falar menos dos meus “sucessos” que dos meus “fracassos”. E por pensar num fracasso em especial entre os muitos que devo estar acumulando nesse meio tempo, esse sentimento me invadiu de uma maneira irrefreável.

E logo cedo uma certeza se tornou inegável para mim mesmo: a de que fracassei em ensinar ao meu filho ou em fazê-lo perceber que, praticamente desde a sua concepção intrauterina, quando era um mero amontoado de células multiplicando-se alucinadamente, e que isso está escrito no seu genoma como uma espécie assustadora de sistema operacional inextirpável, que ele nasceu com e tem e terá pela vida inteira a síndrome de Down.

Pois é isso: eu fracassei. E percebi claramente a dimensão do meu fracasso ao perceber que o trouxe comigo nesta enrascada: nem eu e nem ele sabemos o que é a síndrome de Down. Nem ele para notá-la em si mesmo; nem eu para ensiná-lo do que não sei ao certo o que seja.

Pelo menos quanto a mim, sei muito bem de onde vem essa falha. Vem de eu não saber nem como definir a mim mesmo. O que sou, afinal, além de um genérico ser humano, como os outros 8 bilhões de genéricos seres humanos praticamente todos essencialmente iguais a mim mesmo? Salvo algumas particularidades visíveis e outras nem tão visíveis, ser “humano” é o que de melhor posso dizer a meu próprio respeito, mas posso e desejo dizer isso a respeito de todos os outros 8 bilhões também. Então isso embora pareça relativamente pouco, é o máximo para exatamente todos.

Posso dizer também minha profissão, minha  identidade de gênero e orientação sexual, minha idade, minha condição econômica e, talvez, a cultural. Posso dizer também, se isso me definir para alguém, o salário que declaro à receita federal, minhas últimas opções eleitorais e outros pormenores do mesmo gênero. Além disso ou, ainda com tudo isso, que diferença isso tudo faz à minha condição de humanidade? Pois é. Isso mesmo. Nenhuma. Mas, por um convenção social a meu ver completamente equivocada, para ele, meu filho, isso deveria fazer toda a diferença.

Quanto a ele, talvez eu devesse ajudá-lo a ter maior autoconsciência, maior metacognição. Mas a verdade é que ninguém pode, a rigor, ensinar a quem quer que seja uma consciência arbitrada sobre si mesmo. A verdade é que somos como podemos ser e como podemos nos imaginar. Meu filho com certeza não imagina que tenha a síndrome de Down. E nem eu imagino que ele devesse imaginar uma coisa dessas.

Eis a complexidade da situação.

Se para qualquer pessoa definir a si mesmo é uma tarefa complicada, seja porque muitas vezes não sabemos como abordar a nós mesmos, ou porque nos falte consciência ou até mesmo coragem de assumir a integralidade da própria condição, como então esperar que uma criança, justamente uma criança, possa compreender e assumir irrevogavelmente essa condição pétrea, essa identidade fixa, isso que os adultos todos, pais, professores, médicos, comunidade e etc. dizem sempre que não faz a menor diferença, ou seja, a sua própria diferença?

É complexa e mais difícil do que parece a situação, na verdade.

Fosse tudo diferente, se soubéssemos o que estamos fazendo nesse intervalo particular a que chamamos “nossa vida”, certamente videntes, astrólogos e psicólogos estariam falidos, bem como possivelmente os poetas estariam em silêncio e viveríamos sem maiores inquietações criativas e nem haveria necessidade da arte, matriz e expressão final das mais estranhas inquietações humanas. Não é o que afirmamos implicitamente ao dizer que arte é vida e precisamos dela assim como de oxigênio: às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos?

Acho que sim. E que, ao contrário dos demais seres vivos, nós – os seres humanos – sentimos uma imensa necessidade de atribuir e conferir significado à vida, seus intervalos, etapas e, se possível, até aos mais triviais minutos e segundos. Então dizemos por aí ou assumimos como verdadeiras algumas sentenças e verdades acerca de nós mesmos porque o tempo de autorreflexão é cada vez mais exíguo diante das urgências da vida, as reais e as “virtuais”. Daí a pressa toda.

Pensamos que somos belos ou feios, estúpidos ou inteligentes, egoístas ou altruístas, legais ou chatos, ricos ou pobres e assim por diante. E muitas vezes, isso também eu suspeito que seja verdade, nos enganamos a fartar a respeito de nós mesmos. Algumas vezes até deliberadamente. Por que então não nos enganaríamos a respeito dos outros? Por que tentaríamos não deliberar sobre os outros se dispomos até mesmo da nossa própria identidade e condição humana, como kits avulsos, como rótulos de produtos e embalagens? Como nomes cujo sentido muitas vezes sequer entendemos por completo?

Por outro lado, duvido que nunca nenhum de nós tenha pensado que a vida do “deficiente”, do “doente mental” ou de um “desviante” qualquer que se possa escolher como objeto de racionalização não contenha mais verdade, ou pelo menos felicidade, do que qualquer outra vida corriqueira e cheia de rotinas e tudo isso que “faz uma vida”… E duvido por uma única e exclusiva razão: a chance desse pensamento estar correto é tão plausível quanto o seu oposto e pensar-se em uma única forma de vida válida é apenas a expressão da mais subjetiva arrogância, isso que exacerbamos como conquista e mérito na nossa cada vez mais egocêntrica e tendenciosa compreensão do mundo, dos outros e de nós mesmos.

Então, vamos ver. Pelo menos a complexidade da situação parece simplificar-se um pouco. Mas tem mais.

Lembro que logo que meu filho nasceu, ou nos seus primeiros anos de vida, acompanhei mais ou menos à distância um diálogo, num grupo de pais e mães reunidos via internet, de que determinada criança, não sei filho de quem, também nascida com a síndrome de Down, de que essa criança de não mais de quatro ou cinco anos de idade “sabia” que tinha nascido com a síndrome de Down.

Lembro de que imediatamente essa informação me pareceu chocante e estarrecedora e não somente por conhecer desde aquele momento um pouco a respeito das dificuldades cognitivas inerentes à síndrome, mas porque, na ponta do lápis, ainda hoje o que se sabe melhor a respeito da síndrome de Down é a sua etiologia, sua causa, mas não no que ela implica biológica e psiquicamente. Pelo menos não na sua totalidade. Pelo menos não com a mesma clareza que se entendem outras condições, porque o genoma humano é um complexo relacional dinâmico e não um mapa astral, de onde não se tem muita saída e ao qual se estaria fatalmente atrelado. Para completar, a síndrome também falha em ser abordada como patologia justamente porque esse é um limite impreciso que, como se vê, provém do interior da vida intracelular e chega até a vida social e em suas tentativas de explicá-la, bem mais tarde, na vida adulta propriamente dita.

Naquele momento, entretanto, a questão para mim era outra. O que me importava era entender o que essa criança efetivamente sabia sobre a síndrome e saber o que os seus tutores no assunto sabiam também a respeito dela e teriam conseguido transmitir-lhe assim tão precocemente. Ou se ela apenas dizia que “era Down” como dissesse “sou menino” ou “sou menina”.

Provavelmente era isso mesmo, mas a conversa na época não prosperou a ponto de que eu pudesse entender melhor isso porque pelo menos eu não lembro mais nada significativo que tenha se dito, a não ser o anúncio estarrecedor de que uma criança com deficiência intelectual teria hipoteticamente consciência de uma condição que, na verdade, nem hoje ainda a ciência sabe dizer o que poderia defini-la, para além da trissomia do cromossomo 21 e sua atabalhoada expressão.

Quando me lembro dessa situação, fico pensando ainda hoje em que tipo de lições ou instruções eu deveria ter fornecido e estar fornecendo ao meu filho para que ele entendesse o que é “ser Down”. E, sinceramente, duvido que ele fosse conseguir entender! E afirmo isso nem tanto pelas suas dificuldades cognitivas, mas por culpa das minhas dificuldades explicativas. Não existe a possibilidade que meu filho, mesmo quase aos dez anos de idade, possa entender as implicações genéticas e bioquímicas da síndrome de Down, das quais sou assumidamente um quase total ignorante.

Esta possibilidade, portanto, está completamente descartada.

A possibilidade seguinte me parece pior ainda. Parece hedionda do ponto de vista ético e humano. Se eu procurar explicar-lhe, por exemplo, que as suas dificuldades em tudo humanas são elas mesmas a síndrome, será antes de qualquer coisa cientificamente errado, além de ser uma violência de minha parte, ou uma espécie de fuga, como é sempre o gesto de atribuir ao desconhecido a razão de ser de qualquer comportamento ou característica. Seria como admitir que a fase lunar ou a estação do ano estariam agindo nesse sentido. Seria uma fraude de minha parte. E uma violência para ele, porque eu estaria condicionando a minha visão a seu respeito com base numa fantasia pela qual optei unilateralmente, uma crença qualquer ou até mesmo uma ideologia que eu determinaria e que poderia falsear ao meu bel prazer entre o que é deficiência e o que ela não é, conforme os pressupostos e interesses ideológicos em questão, sejam meus ou tomados de empréstimo.

A verdade, ou pelo menos a única verdade que me interessa, é que eu não sei e espero nunca saber lhe explicar o que é a síndrome de Down. E isso não é uma opção simplista por viver na ignorância, mas talvez seja a opção mais difícil entre todas: a de assumir para mim mesmo que a diferença não existe. Que ela é um atributo linguístico. Uma imposição clínica determinada por uma convenção cientificamente provisória, como são todos os diagnósticos clínicos, como é todo o conhecimento científico.

A verdade é que eu penso que meu filho não precisa saber de nada disso, porque acredito que nem isso vai lhe parecer compreensível, dada a sua condição intelectual, e nem vai lhe fazer falta nenhuma saber. É o que eu penso e como tenho agido desde que ele nasceu.

Ele é assim e, a despeito de procurarmos melhorar suas condições de vida, o respeitamos. Jamais irei lhe dizer, mesmo nas previsíveis situações de discriminação, que ele não recebeu um convite de aniversário de um colega, por hipótese, porque “é Down”, e sim porque os outros são estúpidos, porque a estupidez é muito mais difícil de ser autoidentificada e assumida que uma alteração cromossômica, por mais incrível que pareça.

Também as suas dificuldades cognitivas e/ou comportamentais eu jamais pensei ou pensarei em atribuí-las a um erro de expressão de um gen qualquer, mas simplesmente vou tentar convencê-lo que dificuldades dessa ordem eu e todos os 8 bilhões de outros seres humanos temos também em relação a muitas, inumeráveis e incomparáveis situações e que, bem, temos sobrevivido com isso…

Por que haverei eu de complicar as coisas para ele? Não sou seu pai? Tudo bem que é função dos pais fornecer limites comportamentais aos filhos e não penso em fugir a essa incumbência social (está bem, às vezes penso em dar umas escapadelas, sim, a este dever…) nem em criar por minha própria vontade um selvagem, mas inculcar preconceitos precoces, além de liquidar com a autoestima de qualquer pessoa e ainda por cima dar um nome a isso, me parece de uma perfídia incomum, mas a sorte é de que ela seria pelo menos de um tipo a qual se poderia compreender e, mesmo que a duras penas, sendo o caso e caso a caso, lógico, corrigir.

Não vou lhe dar esses limites conceituais, sobretudo porque gosto de vê-lo assim, sem pensar neles nem confirmar nessa idade da vida uma identidade pétrea, um rótulo, uma caricatura humana qualquer… Suas opções, escolhas, seu desejo cheio de vontades (que coisa mais estranha isso!) às vezes até o fazem um tipo difícil, mas se eu quisesse formar uma criatura totalmente dócil e passiva eu não teria filhos, teria ficado nos animais de estimação.

Talvez seja esse sentimento, seja tudo isso, uma espécie de negacionismo tardio de minha parte. Não sei. Pode ser. Apenas sei que meu filho nasceu com a síndrome de Down e de que ele não tem a menor noção disso. Eu espero que, por respeito ao ser humano que ele é, no seu futuro pessoal não fiquem lembrando a ele disso desnecessariamente, de um nome que não faz nenhuma diferença nem muda nada na sua vida. Se alguém espera de mim, como pai, que lhe ensine isso e “seu lugar no mundo”, eu sinto muito, mas pode contar desde já com a sua própria decepção. A dar-lhe essa lição, se é a mim que caberia ensiná-la, já falhei “de nascença”. Ele com a síndrome de Down e eu como sou, nós somos mesmo irrecuperáveis.

Muito em breve em Porto Alegre

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Porto Alegre é uma linda cidade que encanta visitantes de todas as partes do mundo, mas que cada vez menos consegue encantar aos próprios habitantes. Suas mazelas machucam-nos, esta que é a verdade, e não há declaração oficial que nos possa trazer conforto, até mesmo porque declarações oficiais costumam ser não mais que pedidos de desculpas tardios e apenas supostamente preocupados. Dependendo de vindos de quem, bota supostamente nisso.

Esses machucados se fazem notar seja quando as enchentes desabrigam centenas ou milhares de pessoas e sabe-se que se cometem furtos nas doações espontâneas que são feitas, seja quando tornados (agora temos disso também!) evidenciam o destrato histórico que uma das capitais mais arborizadas do país (e que se jacta por disso) tem para com o seu patrimônio natural.

Isso sem falar das obras viárias intermináveis nas avenidas longitudinais, surreais, que duram desde os preparativos da Copa do Mundo de 2014 e até hoje são refeitas e refeitas, numa demonstração impressionante de complete com o que quiser aqui. E sem falar, também, do lixo urbano e seu sistema de coleta sugismundo, terceirizado e precarizado, para o qual muitas vezes a higiene acaba incidindo no trabalho “voluntário” dos próprios moradores.

Seja como for, em torno daqui a cem dias os cidadãos porto-alegrenses estarão indo às urnas para decidir os próximos quatro anos da sua administração, assim como a futura composição da sua Câmara de Vereadores. Muitos sem saber direito quem são os possíveis candidatos, isso mesmo considerando o tempo exíguo para o pleito. Culpa, talvez, da complicada situação política nacional ou estadual. Ou, como quero dizer, de uma identificação precária dos quadros políticos com as questões da cidade.

Excluindo-se alguns nomes já certos e algumas pesquisas de opinião pouco divulgadas, o que não se pode perder de vista é a possibilidade de um revival de uma disputa insossa, capaz de mencionar mais maquetes computadorizadas que a realidade das ruas e promessas que muito logo acabam por revelar-se desvios de finalidade. Também é certo que não faltarão promessas por mais segurança pública utilizando-se a guarda municipal e outras inconstitucionalidades do gênero, bem como o anúncio de novas fontes de captação de água sem que haja indício de como isso poderia ser feito e com quais recursos. Fiscalização e auditoria nas contas das concessões de transporte público então nem se fale!

A tudo isso temos sobrevivido, portoalegrenses naturais e chegados. Ônibus lotados e frota maquiada é nossa praia! Até água com gosto de lodo e efeito parquet no trânsito toleramos. Só o que não se suporta mais são debates sem graça nem sentido e promessas que não encham nem balão de ar. Isso nós todos não fizemos nem pagamos por merecer.

Inenarrável e indescritível

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Um amigo bem íntimo ontem perguntava se eu deixaria passar em branco o dia do escritor (25/07), se não diria nada sobre o assunto, se não me uniria aos tantos que se rejubilavam pelo título e comemoravam a data. Disse-lhe exatamente o que penso e pensei: que não é o meu caso. E que sempre tive claro, pelo menos para mim mesmo, que escrever é mais importante do que ser escritor e, portanto, todos os dias são de escrever, mesmo que isso por si só não me faça um escritor, mas apenas alguém que escreve…

O português Herberto Helder, que agora, postumamente, começa a ser mais publicado e conhecido no Brasil, disse numa de suas raras entrevistas que, para ele, o prestígio é uma poltrona, uma armadilha, e que o artista consciente saberá que êxito é prejuízo e que os autores que temem por desagradar a seus leitores embarcam antecipadamente no fracasso, ainda que tomados de louros e prêmios e de que a única confiança que um autor deve ter é com a possibilidade de frustrar a si mesmo e às expectativas de salão (como essas reentrâncias que há nas redes sociais também), ainda que delas viva o mundo editorial.

O custo de escrever e não viver numa dessas poltronas é o de contar com pouca divulgação. Mas sobre a vantagem de estar em pé, e em movimento, essa sim é que me importa. E essa, meus amigos, é inenarrável e indescritível.

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Se até poucos anos atrás as pessoas dependiam quase exclusivamente da seleção e escolha prévias de DJs de estações de rádio FM e do jornalismo cultural praticado por canais especializados em música para descobrir novidades, a expansão do universo da internet e serviços online vem proporcionado que cada vez mais as pessoas passem a criar e a gerenciar seus itinerários sonoros e também a surpreender-se por conta própria. Da mesma forma, é notório para as pessoas habituadas a ouvir música em meio digital que o incremento e a profusão de aplicativos online causaram uma espécie de ruptura no modo de consumir e ouvir música, perdendo-se nesse universo em contínua expansão qualquer senso de orientação a não ser o providenciado por algoritmos de programação, alguma inteligência artificial, meta-tags e, claro, anúncios pagos e patrocinados por selos e gravadoras. Além dos recursos obtidos por meio de módicas assinaturas individuais, é desses anúncios que sobrevivem boa parte dos aplicativos musicais atualmente mais utilizados, como o Spotify, Deezer, AppleMusic, YouTube e Google Play.

Fosse de outra maneira, em muito se dependeria ainda de que alguém apresentasse ou chancelasse o trabalho musical de um intérprete ou músico estreante para que ele se tornasse conhecido. Não mais. Agora, a torrente digital atropela em larga escala qualquer anteparo possível da crítica musical, até mesmo porque a profusão de novos nomes e estilos é igualmente incessante e também porque o ambiente virtual desconhece ou pelo menos não é limitado por qualquer espécie de fronteira. Se isso por um lado dificulta qualquer tentativa de filtragem abrangente, por outro proporciona uma liberdade incomum de transitar-se entre estilos e nomes singulares de qualquer ponto do planeta e vir a conhecer-se, por exemplo, artistas realmente impressionantes como, por exemplo, o cantor inglês Benjamin Clementine.

Não são muitas as pessoas que provavelmente já ouviram com atenção, na infinidade de novidades musicais diárias que publicam-se na internet, a voz de Benjamin Clementine, mas é pouco provável que, após escutá-lo, pudessem tê-lo esquecido. No caso dele, isso seria causado por muitas razões. Em primeiro lugar, pelo timbre e gravidade (tonal e interpretativa) incomuns de sua voz de tenor. Em segundo lugar, pela intensa carga poética e dramática de suas letras, o que também é incomum em se tratando de estreantes na música e, last but not least, porque também na infinidade de estilos e subgêneros musicais seria um tanto complicado decidir onde situar seu álbum de estreia, At Least for Now, registro sequer reportado ou notado no Brasil, lugar do planeta onde Benjamin ainda não colocou os pés, mas para onde felizmente a internet tratou de propagá-lo também.

Apesar de ter uma carreira bastante recente e de ter popularizado-se por cantar nas ruas e metrôs parisienses, quem escuta Benjamin logo pode perceber que ele restabelece o contato com estilos musicais e uma forma interpretativa nem um pouco contemporânea, se é que o tempo contemporâneo conte efetivamente com um estilo específico e não é marcado justamente pela multiplicidade e infinidade de estilos e tendências. Ainda que ele mesmo recuse a influência direta de Nina Simone e refira-se mais a influências do cancioneiro francês, como Jacques Brel, Charles Aznavour e Edith Piaf, por exemplo, é notável a forma com que ele explora a carga e poder da música negra, até mesmo porque é igualmente notável a semelhança do seu timbre vocal com o de Jimi Hendrix. Assistir sua interpretação de “Voodoo Child“, acompanhado somente ao piano, é uma forma simples e rápida de certificar-se disso.

Para além de qualquer necessidade de classificação, interessa mais saber de Benjamin sua intensidade interpretativa e seu estilo “expressionista” de cantar, como ele mesmo já o definiu. De um cantor que se fez literalmente nas ruas (inclusive como um legítimo homeless), como ele demonstra em “Cornerstone”, impressiona sua busca pessoal e sua sonoridade diferenciada, como se um tipo de cantor fora de seu tempo, uma vez que o predomínio repetitivo do pop e do rap parece quase obrigatoriamente limitar a capacidade criativa de novos músicos, pelo menos daqueles que ganham maior notoriedade e as maiores fatias do mercado musical. No caso dele, essa obrigatoriedade não se aplica. Pelo contrário, o que há nele é uma amplificação de estilos num repertório que vai do blues ao gospel, do folk ao erudito, flertando com o jazz e o rock, mas com uma sonoridade atemporal e uma carga poética inaudita, de um compositor que inclusive publicou um livro de poemas e tem para a consistência de suas letras o respaldo de uma vida nem um pouco fácil, passada em internatos e marcada precocemente pelo afastamento da família.

Não lembro exatamente como conheci as composições e interpretações de Benjamin. Creio que por um link ou uma sugestão algorítmica da internet, dessas que costumam dizer “Você também poderia gostar de…”, mas preciso reconhecer que tenho gratidão por quem o colocou no meu percurso de escuta virtual ao invés de outras soluções ou achados às vezes completamente infelizes. Também o ex-beatle Paul McCartney impressionou-se com sua capacidade vocal e interpretativa em uma de suas primeiras aparições ao vivo, em Londres, no ano de 2013, em um programa da BBC. O encontro rendeu, além do registro fotográfico, um estímulo ímpar para que ele insistisse na carreira e viesse em breve a gravar pela primeira vez em grandes estúdios, primeiro os singles de Cornerstone (2013) e Condolence (2014) e, logo a seguir, o álbum At Least for Now (2015).

Benjamin Clementine é inaudito e inesperado como uma de suas principais influências declaradas, a cantora transgênero Anohni, ex-Antony Hegarti, vocalista da banda Anthony and The Johnsons. Sua voz imponente é do tipo que não requer silêncio externo para fazer-se notar, mas que tem o poder de desligar os pensamentos de quem o está ouvindo. É como se ele não precisasse propagar versos irresistíveis ou embarcar em nenhuma espécie de calamidade sonora, mas lograsse suspender o discurso mental do ouvinte, sobrepondo-o com camadas de melodia e poesia a ponto de fazer fluir seu pensamento para os outros, materializando sua expressividade e rompendo a distância regulamentar da apreciação musical sem para isso abusar de recursos extraordinários, mas contando, pelo contrário, apenas com o estabelecimento da cumplicidade de quem conta uma experiência para quem possa estar interessado em entendê-la. Não se trata de ondas sonoras ou de uma produção perfeita, mas do talento comunicando-se de um modo que é praticamente impossível assistir-se ou escutar-se indiferentemente. Isto não costuma acontecer em qualquer sugestão musical da internet, mas é o que acontece quando se é apresentado repentinamente a um verdadeiro criador e cantor excepcional.

Ouça mais de Benjamin Clementine no YouTube, no Spotify, no Deezer e no iTunes.

O mundo é um moinho mesmo

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Mais que em qualquer outra cultura popular de que eu tenha conhecimento, a música popular brasileira é especialmente pérfida, sádica, terrível e completamente inadequada para os pais e mães de crianças quase adolescentes. Da Menininha de Toquinho e Vinicius, passando pelo O Caderno de Chico Buarque, Antigamente de Paulo Tatit e até mesmo O Mundo é Um Moinho, de Cartola, a coleção de serestas melancólicas e avisos prévios de um mundo terrível no porvir é impressionante. O melhor que todas dizem é: não cresça se possível. Como se fosse possível….

É uma tristeza, ainda mais se pensarmos que o recado passado é de que é melhor ficar para sempre na infância, não crescer jamais. Como os personagens de Peter Pan, por exemplo.

Está muito certo que o país e o mundo não andam lá essas coisas e é sempre bom quebrar desde cedo altas expectativas e evitar decepções talvez inevitáveis, mas há um gosto amargo que permanece na boca de qualquer pai/mãe que se vê obrigado a dizer sobre o mundo externo, por primeiro, um alerta de cuidado. Além de ficar implícita uma espécie inegável de atestado de incompetência.

Daí a versos como “o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos” e “fique assim, meu amor /sem crescer/porque o mundo é ruim, é ruim e você/vai sofrer de repente/uma desilusão” serem tidos como amorosos é de uma violência absurda. Para mim, são dignos de um Edgar Allan Poe de ressaca. E, bem.. A verdade é que, em se tratando dos citados compositores, talvez pelo menos a ressaca seja verdadeira…

No mundo da música pop estrangeira, por outro lado, a adolescência é exaltada e seu comportamento já nem tão infantil, nem ainda adulto, completamente idealizado. Por diversos artifícios da cultura, é feito um mundo de demandas insaciáveis de consumo cuja forma de satisfazer vai criar, mais tarde, insatisfações severas e inevitáveis violências paralelas ou perpendiculares. Talvez por isso haja mesmo uma necessidade em avisar previamente aqueles que abandonam as brincadeiras e bonecas de que, afinal de contas, o mundo é um moinho mesmo..

Longe de mim querer tolher dos meus filhos o seu crescimento inevitável. Como qualquer pai, é lógico que preferiria que ficassem brincando aos meus pés por longos e inumeráveis anos, pra que mentir? Porém, como não é possível e é necessário seguir o exemplo dos que vieram antes de mim, o mais prudente é deixar a roda continuar a girar, porque sabidamente o efeito de mantê-la em inércia costuma ser pior que a encomenda. Ainda assim, por uma intuição paterna diversa daquela dos grandes compositores da MPB, vou tentar evitar assustá-los demais do que eu mesmo colaborei em fazer.

O tempo é só perda de tempo

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Uma vez, não sei que vez, não sei há quanto tempo, li um crítico literário comentando, a respeito de determinado poeta, que ele seria alguém que tinha obsessão por escrever sobre o tempo. Sobre a passagem do tempo e o que o tempo faz ou deixa de fazer sobre as coisas e sobre as pessoas.

Para este crítico, o tempo seria apenas uma entidade dimensional, como uma categoria física, nada além disso. Para ele, o tempo e sua passagem eram um motivo poético frágil e superficial, mostra de pouco conteúdo dada a sua repetição episódica na produção escrita do outro.

Para aquele poeta, de outra forma, o tempo era a própria vida acontecendo, depositando-se na realidade, materializando-se nas coisas todas, em todas as paisagens, nas impressões sensíveis do ser humano sobre tudo, inclusive sobre si mesmo e na sua capacidade de perceber ao mundo inteiro.

Para o crítico, o tempo era apenas um intervalo cronológico sobre o qual ele analisava fenômenos literários como se fossem quantidades e não qualidades. Aqui tantas rimas, ali aquele outro tanto de metáforas e assim por diante.

Ambos sobreviveram nos livros. Um a notar que o tempo é determinante da vida, senão sua própria razão de ser. E o outro a dizer que aquilo nenhuma diferença fazia. Pura perda de tempo.

Para o poeta, sem o tempo não seria possível escrever poesia.

Para o crítico, não se tratava exatamente de poesia.

Para o poeta, não se tratava do que o critico acreditava ou não, mas do que ele sentia e tinha vontade de dizer/escrever.

Para o crítico, não interessava à poesia nem tempo nem sentimento, mas unicamente a eficácia da palavra.

Para o poeta, o tempo era mais eficaz que a palavra e se ele não o exibisse em contraste à vida, era o mesmo que não viver ou não existir vida.

Para o crítico, o tempo era apenas uma evidência entre tantas e como tal deveria ser tratada.

Cada um a seu modo, ambos viveram da mesma matéria, mas um vivia de comprová-la ou refutá-la enquanto o outro não procurava convencer de coisa nenhuma a ninguém.

Ambos estiveram sempre certos no que diziam e pensavam, pelo menos para si mesmos. Ambos tinham de certo modo razão no que pensavam, mesmo que fossem razões eternamente inconciliáveis.

Para a felicidade de ambos (e também de seus leitores), ao que se sabe nunca que eles debateram isso abertamente.

O tempo passou e os argumentos do critico enrijeceram-se, porque essa é sua natureza, como monumentos implacáveis. Os poemas do poeta entraram em ciclo, bem como as estações do ano ou as fases da lua. Eventualmente, um ou outro e de seus versos ainda prega um sorriso, ou causa espanto, ou flagra uma lágrima fortuita de um novo ou velho leitor. Tanto faz se novo ou antigo. Lá dentro dos seus parágrafos rigorosos, por mais sóbrios e acertados que fossem, os argumentos continuam sempre os mesmos, sisudos e compenetrados em terem razão e em parecerem razoáveis.

O tempo, seja ele o que for, tem efeito diverso, como se vê, até mesmo na palavra escrita, mas isso nunca é dado a ninguém prever como irá ou não acontecer. Para o crítico, trata-se sempre de conferir validade. Para o poeta, de mera transitoriedade.

Essa é mais uma das óbvias razões pelas quais um poeta também nunca deve perder tempo com um crítico, porque aquele normalmente já o está fazendo pelos dois. O benefício daquele poeta parece ter sempre sabido disso de antemão. E o malefício que o outro quis lhe atribuir na verdade estava atingindo era a si mesmo, porque parecia desconhecer que, tanto para a vida quanto para a critica e para a poesia, tempo é tempo e é matéria e é vida (que se substitui *) também.

* “Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.” A Passagem das Horas, Álvaro de Campos/Fernando Pessoa.

Esquisito como um adolescente

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Acostumado a assistir ótimos trailers e filmes correspondentes não tão bons assim, foi uma música que me motivou a assistir Ponto Zero (2015), do diretor gaúcho José Pedro Goulart, o mesmo do antológico e premiado curta O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda (1986) e que foi adaptado de um episódio do livro O Amor de Pedro por João, do também gaúcho Tabajara Ruas. A frase, aparentemente sem sentido, não tem mesmo muito sentido, principalmente porque essa má correspondência, no caso de Ponto Zero, não procede e porque a trilha do filme, assinada por Leo Henkin, é boa a ponto de prescindir de qualquer remissiva, como por exemplo a que fiz entre a notícia do filme e a de que, em sua nova turné, iniciada em Paris em meados de maio, o Radiohead de Thom Yorke e Jonny Greenwood voltou a executar ao vivo Creep, após longos sete anos de ausência nos setlists da banda.

Assim como na Creep do Radiohead, Ponto Zero faz como um desvio narrativo em direção à adolescência, esse momento incômodo do desenvolvimento humano em que as coisas desejadas da vida adulta não começaram ainda a acontecer e tudo o que é indesejado do fim da infância passa a ocupar o universo afetivo e psicológico, mas com uma espécie de vazio inesperado, num hiato que às vezes parece ser infinito e insolúvel. Se percebido através dos olhos de um personagem como Ênio, vivido pelo excepcional ator estreante Sandro Aliprandini, o mundo é tão ou mais nonsense que uma frase desconexa. E é disso, desse lugar de solidão absoluta, que seu personagem deverá emergir, não que isso irá acontecer como em uma fábula, porque para adolescentes como Ênio fábulas também já não fazem mais nenhum sentido.

Quase sempre silenciosamente, Ênio encara uma vida que em muito se parece a um pesadelo desde a primeira cena. Bulimizado e agredido em frente à escola, ele sequer parece estranhar a humilhação, como quem decidisse de antemão que qualquer reação é impossível ou inútil. À noite, a vida familiar é uma sucessão de homilias infindáveis que a mãe, vivida pela atriz Patricia Selonk, de forma desesperada tenta repecutir em vão. Interpretado por Eucir de Souza, o pai é um radialista que trabalha pela noite, mas que nem sempre volta para casa e com quem tem uma relação fria e superficial. A família é completada pela irmã que, na sua ótica, é quase alheia e vive sua rotina de estudante. Para Ênio, é como se ela tivesse apenas a função de trazer para dentro de casa suas colegas também adolescentes, objetos do seu solitário e fantástico interesse sexual.

O aprisionamento daquele modo de vida, entretanto, aos poucos vai se tornando cada vez mais insuportável. Como forma de escapar daquela repetição perpétua, ele vai buscar, um pouco na realidade e um pouco no sonho, um modo de desencapsular-se da vida em que se matinha. E então, em uma noite de chuva torrencial, ele sai de casa sem que ninguém perceba no carro do pai para cumprir sua jornada em direção ao fim definitivo da infância. O mundo precariamente mantido pela insistência de uma mãe obcecada em manter o casamento com um marido ausente dá lugar a uma cidade desvanecida na qual ele se choca com pessoas e situações que o forçam definitivamente contra um limite já insustentável.

É sem dúvida na atuação de Sandro Aliprandini o maior trunfo com que o diretor José Pedro Goulart conta para narrar uma história de poucos diálogos, quase onírica, da qual sobressai-se, mais que o desenlace de um enredo imbricado, a construção de um personagem e seu vertiginoso processo de amadurecimento. Com o cabelo crescido e sem corte, com as roupas sem qualquer estilo, Ênio é um adolescente espinhento e comum quanto qualquer outro tentando safar-se dos destinos que os outros querem lhe imputar e viver por sua própria conta. É um esquisito, como diz a letra de Thom Yorke, bem como os adolescentes costumam ser quando já não lhes servem mais nem a face, nem a mente e nem o corpo infantis e debatem-se sem muita ideia do que desejam e do que estão prestes a se tornar.

Estranho também é que o filme tenha justamente entrado em cartaz quase ao mesmo tempo dessa reaparição de Creep nos palcos do Radiohead. Ao mesmo tempo em que a banda está lançando seu mais novo disco A Moon Shaped Pool (2016), Creep pertence mais àquela sonoridade de Pablo Honey (1993) e The Bends (1995), com guitarras mais evidentes que os sintetizadores e cujas letras remetem bem mais aos adolescentes dos anos 90 e da virada do milênio do que as letras atuais da banda. É claro que a presença de True Love Waits no disco desmente tudo isso, porque também é uma letra de 1995 que se refere ao universo teen e está ali, deslocada como um adolescente entre as músicas do novo disco, que bem poderia ser chamado de a “maturidade” da banda. Não faz muito sentido, mas talvez faça, afinal parece que muita gente faz questão ou tente estar na maturidade preservando pelo menos algo com a autenticidade da adolescência, nem que o pasmo ou o desejo de aventurar-se no novo, nem que seja como no caso do Ênio de Ponto Zero, no novo de si mesmo.

Tudo pode inclinar-me

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Tudo pode inclinar-me
W. B. Yeats
(13/06/1865 – 28/01/1939)

Tudo pode inclinar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Antes já havia sido o rosto de uma mulher, ou pior —
As fúteis exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada de melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando eu era mais jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de modo
Que parecesse ter uma espada a postos nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido o que desejo,
Algo mais gelado e incomunicável que um peixe.