E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos A gamificação e o futuro da leitura

A gamificação e o futuro da leitura

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Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

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Nenhum mistérioNenhum mistério

Amálgama

Enganam muito as resumitivas setenta páginas de Nenhum mistério, o mais recente volume de poemas de Paulo Henriques Britto. Folheando-o, mas sem demorar-se, chega a parecer que é um livro possível de ser lido num instante. Trata-se de impressão ilusória, pois, à medida que se o avança, o livro vai como retardando o folhear para adiante. Essa desproporção é ainda mais sensível quanto mais se pode perceber a intensidade do despojamento obtido por Britto e, de outro lado, mais o leitor vai se deixando preencher pela leitura.

Essa alquimia por certo não é por ninguém garantida e depende de um acerto entre leitor e poeta. Deste último, não se pede mais que apenas atue diretamente em prol da compreensão alheia e, através de um código humano e comum, universalize seu discurso a ponto de causar empatia, ainda mais quando sua matéria preferencial é a subjetividade. Do primeiro, exige-se o esvaziamento de atribuições e que seja permeável à negociação proposta, sem o que a leitura de poesia torna-se um exame ao invés de um contato. O que acontece em Nenhum mistério é que o resultado dessa combinação proporciona uma identificação de outra espécie, na qual o vazio de um se combina ao vazio de outro. Ao final, resta um ser humano olhando para o outro, mutuamente desarmados.

Para além da extradição de qualquer traço hermético desde o título, os poemas de Nenhum mistério desde o seu princípio devolvem à experiência do eu o fardo incompreensível de viver. É daí que o leitor travará sua primeira identificação com a falta de sentido e a necessidade de aceitar as determinações fatais do inapreensível: o futuro, o não acontecido e o desbastamento da experiência. Logo no primeiro poema do livro, quando diz que ‘rememorar o não acontecido não dá em nada’, Britto sepulta a esperança lírica e apresenta o drama da (não ‘de’) consciência que virá ao longo das páginas a seguir.

Por vezes monástico e onipotente em relação ao seu próprio universo, do qual tudo sabe e tudo vê, o poeta vai ao extremo da anulação das expectativas. Sem, contudo, imergir no contemplativo ou na catalogação objetiva do mundo, é flagrante a tentativa de recolhimento por meio de um auto consolo, mas sem punição, o despojamento da culpa libertando o ser para o que ele é essencialmente, no confronto com o presente e a aceitação. Em Nenhum mistério, se há vestígios da impassividade racional com que Britto sempre parece ter tratado seus temas e motivos, aqui ele não hesita em esvaziar-se dessa potência. Afinal, vai se vendo mais do humano do que do poeta e essa simbiose composta por música, palavras e sentido realiza o trabalho do poeta-escultor que ele sempre tem sido: o artífice de uma poesia não residual e nem um pouco evasiva que mostra, mesmo com a dificuldade inerente ao foco poético, o alvo do que quer atingir. E atinge.

O rigor imperturbável de Britto, demonstrado aqui quando se debruça sobre si mesmo numa poesia extremamente mental e reflexiva, tem uma história que provém de um poeta e tradutor que emerge da própria maturidade e de um longo trabalho com a poesia. Tradutor de Elizabeth Bishop, Wallace Stevens, V. S. Naipul, Thomas Pynchon e de mais de uma centena de livros, em território nacional Britto não tem muitos companheiros na tradição de poesia mental (se fosse da cerebral seria mais fácil apontar a miríade de poetas cabralinos e pós-cabralinos). De fato, se fazer do pensamento objeto pode ser compreendida como uma exteriorização de motivos, a consciência, por outro lado, é um flerte interminável para com o despojamento do eu. Talvez na poesia de Dante Milano, formalista como a dele, ou mesmo nas experimentações zen de Orides Fontela, se possa ver algo da desértica jornada da poesia através da verdadeira solidão do pensamento, onde o poeta se depara com a eterna dificuldade expressiva em torno do eu e suas projeções no mundo objetivo em sua impermanência e constante desfazimento.

O desencanto mais notável em Nenhum mistério reside em que nenhum momento ele apela à memória e, no andaime de decomposições que a ordenação do tempo impõe a todos, os poemas são testemunhos nos quais qualquer um se percebe, porque esta é uma condição humana fundamental: a de que as perdas sempre se sobrepõem ao acúmulo. Nesse desbastamento e ao mesmo tempo no cumulativo de sua carreira, Paulo Henriques Britto esvazia a si mesmo e aos seus leitores e isso é um tanto quanto incomum na poesia contemporânea. E mesmo ao lermos um livro denso como o dele, ao final resultamos mais leves.

O paradoxo da incomunicabilidade em redeO paradoxo da incomunicabilidade em rede

“Como podemos nos entender (…), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?”

Luigi Pirandello – Seis Personagens À Procura de Um Autor (1921)

Talvez por um distanciamento ainda muito tênue, tudo o que tem se dito (e se diz muito, o tempo inteiro) a respeito da comunicação após o advento das redes sociais é bem menos relevante do que as ciências sociais e a filosofia disseram sobre comunicação de um modo geral antes desse grande divisor de águas que fundou como se uma nova internet dentro da internet. Aqui estou dizendo das modernas redes sociais, das redes comerciais como Twitter, Facebook, Instagram e não as redes de conhecimento e inteligência social tal como começaram a pipocar no mundo inteiro em torno da década de 80, apogeu do Telnet, do Alternex e quando os primeiros navegadores da incipiente world wide web penavam para carregar as primeiras imagens e fotografias de um meio até então restrito exclusivamente aos textos e aos infindáveis comandos exigidos pela sintaxe pré-Macintosh.

Então, embora presentemente diga-se muito a respeito de coisas como identidade, sociedade de massas e conectividade, uma visita rápida aos trabalhos de Jean Baudrillard, de Pierre Lévy e até mesmo dos seminais Erving Goffman e Marshal McLuhan pode ser muito reveladora sobre fenômenos que na aparência são recentes, mas que, na verdade, podem apenas estar representando a continuidade dos sistemas de comunicação que vêm se estruturando ao longo de todo o séc. XX, desembocando na profusão da concomitância de tudo, na massificação digital de um modo geral, como esta com a qual lidamos agora.

Desde a popularização dos computadores pessoais ou, desde mais cedo, da proliferação desembestada de dispositivos portáteis, soube-se que o mundo como era conhecido antes nunca mais seria o mesmo. O mesmo já havia acontecido com outros marcos comunicativos anteriores, como o advento da televisão, do rádio, dos jornais, da imprensa de Gutenberg e assim por diante. E embora esse pareça ser apenas mais um lugar-comum, o pingo de verdade que há em dizer que o mundo nunca é o mesmo é sempre ao mesmo tempo alentador e assustador. Alentador porque a mudança e a novidade sempre podem se encontrar na perspectiva positiva da esperança. Mas assustador porque temos nos acostumado a pensar o futuro como se condenados a distopias nas quais o humano costuma estar fora de controle do próprio humano e a tecnologia, divinizada, determinando ao seu bel prazer a nossa sorte enquanto espécie. A literatura de ficção, o cinema e mais recentemente os seriados veiculados em streaming media aí estão para não me deixar mentir.

Ocorre que, sem o surgimento das redes sociais, a internet não seria muito mais do que um citoplasma impreciso cujos elementos internos mal se comunicariam ou então o fariam de forma bastante precária e ocasional. Faltava injetar-se no interior dessa célula algum elemento de aderência, pois a instantaneidade por si só não caracteriza um potencial comunicativo, mas apenas um estado de pré-disposição. Pois a escalada das redes sociais no ambiente internet ocorreu, como se sabe, de forma galopante e incorporou com a mesma velocidade com que se expandiu essa função aderente, passando-se rapidamente dos obscuros fóruns e listas de e-mail até o escancaramento total do Facebook, incluindo aí outras plataformas de maior ou menor durabilidade, muitas hoje extintas ou decrépitas, como o Orkut, por exemplo.

E o mundo realmente parece ter mudado bastante a partir do apogeu do Facebook entre as redes, embora seu fundador, Mark Zuckerberg, costume exagerar bastante nos poderes que sua trademark tem per se. Recentemente, num manifesto (ou textão de Facebook), ele chegou a cogitar que sua iniciativa comercial poderia incidir decisivamente para resolverem-se problemas com que historicamente a humanidade tem se debatido, tais como a paz global, a fome, a pobreza, o progresso científico, ou seja, praticamente tudo o que importa, revigorando a já um tanto combalida ideia mcluhaniana de aldeia global.  Para ele, o valor da rede de sua propriedade já teria alterado inclusive seu próprio status inicial: não se trataria mais de uma mera rede sustentada por anúncios, mas de uma comunidade global, supranacional, colaborativa, solidária e altruísta. Bem como uma imagem distorcida, mas autobenevolente, o mundo como o conhecemos estaria, segundo Zuckerberg, rumando para uma nova etapa na qual o trivial “like” (ou melhor: 4,5 bilhões like/dia) propulsionaria o que há de melhor na natureza humana em prol das melhores intenções e realizações. Isso sem falar na ajudinha providenciada pelos robots e algoritmos a serviço da inteligência artificial e, por que não dizer? Até mesmo do seu conteúdo patrocinado e colaboradores…

A questão de embutir no futuro do seu empreendimento o caráter de uma utopia solidária, além de um marketing poderoso, é provável que cumpra também a função de dar a entender que os males do mundo tal como ele é poderão mesmo resolver-se assim: de forma remota e impessoal. É uma ideia que vem muito a calhar com pessoas cada vez mais apartadas dos espaços públicos e confinadas em espaços privados. Mas é a respeito desse caráter impessoal que o Facebook se mostra extrememente eficiente em aparentemente contorná-lo e colaborar em “humanizar” seus usuários, pois através das suas específicas subredes (para não usar o surrado termo “bolhas”) de confirmação, estimula-se pelo menos de forma verbal a convergência de ideias, de intenções e até de ideologias, mesmo que elas venham a converter-se rapidamente em objetos de consumo nas suas diversas formas e fenômenos “compartilháveis”: sejam simples memes, longos textos de fontes influenciadoras ou outros subprodutos.

De um modo um pouco diferente da distopia de Aldous Huxley, o admirável mundo novo da informação das redes sociais é uma ficção que não nos aperta muito os calos, muito pelo contrário, chega a ser prazeroso, pelo menos para aqueles que conseguem manter-se a salvo da crescente onda de dependência tecnológica, fenômeno que fez proliferar mundo afora as até há pouco inimagináveis rehabs digitais. Ocorre que, após as redes sociais, o virtual tornou-se por excelência o mundo da representação, como se um pano de fundo no qual cada um é livre para montá-lo com as peças e links que lhe estão disponíveis e de acordo com a sua preferência.

É de ficção ou de uma série embaralhada de muitas ficções que, portanto, é feito o mundo virtual. Ao contrário de engajamentos reais onde bens ou moedas são trocados, a dinâmica preponderante no ramo das redes comerciais é essencialmente declarativa (e será para sempre gratuita). E é até irônico que, no jargão do Facebook, “engajamento” signifique tão somente o produto de likes, shares e visualizações de determinado conteúdo. Por outro lado, não existe qualquer meio de certificação sobre a qualidade do empenho de um pensamento ou de um gesto de seus usuários, quaisquer que sejam eles. Assim como a intenção de confirmação, o livre falsear está franqueado e, para ampará-lo, uma poderosa indústria noticiosa (onde se incluem fake news e agentes comunicativos de segunda e terceira ordens) fornece o combustível permanente de hiperinformação, sem falar nos grandes vórtices de formulação: formadores de opinião e fontes assentadas na credibilidade, como a mídia tradicional, indústria de entretenimento e agentes institucionais.

Trata-se de um embaralhamento difícil de mensurar e do qual emergem narrativas tão múltiplas e assimétricas como inequiparáveis, realizadas ao bel prazer de qualquer pessoa. E assim, galgando-se o meio virtual através da sucessiva e infinita proliferação de informações, percebe-se às vezes muito claramente o ruído imenso que é gerado através da reverberação continuada do entrechoque das ideias e também do prolongamento da propagação de ideias idênticas, mesmo se formuladas de diferentes maneiras, reformuladas ou remixadas.

Da confluência do ruído proveniente deste intenso êxtase comunicativo (bem como Jean Baudrillard previu em meados dos anos 80, em As Estratégias Fatais) é um tanto quanto inevitável que se evidenciem sinais de exaustão do próprio modelo, porque nele não é registrado o tempo da escuta e o da leitura (que não são percebidos na interlocução), mas apenas o da expressão deliberada e, em sua ausência, um grande vazio de percepção e de sentido. É que aí está o ônus da comunicação escrita: uma precariedade de formato, de ilocução e de formas de avaliação e comparação, travadas pelas formas comunicativas do meio. Formas nas quais nunca é dado aos interlocutores avaliar a integralidade do efeito das trocas intersubjetivas. Isso porque, em última análise, é de subjetividades que se está a falar, pelo menos enquanto não se considerar o aporte e intervenções diretas de mecanismos de inteligência artificial.

Dado que qualquer convencimento extremado pode muito rapidamente transformar-se em aborrecimento continuado e as estratégias de persuasão, principalmente aquelas dirigidas aos conteúdos comportamentais e políticos, converterem-se em policiamento do outro embutido de propósitos colonizadores, a intenção comunicativa apenas cumpre seu objetivo na medida em que os interlocutores compartilhem, além do mesmo repertório, a mesma perspectiva, compreensão e significantes. Em caso contrário, o que prospera é o efeito adverso do conflito e o consequente dissenso. Além disso, é preciso considerar que os indivíduos conformam seus repertórios a partir de necessidades e interesses muito particulares, evitando-se quaisquer outras perspectivas e proposições que possam contradizer a identidade ideológica do indivíduo e dos acertos coletivos que ele tem para com sua rede de contatos. Nesse ponto é interessante notar o quanto as redes sociais comercias são pouco transparentes, pois se não se pode saber nada a respeito do que um indivíduo “não curte” ou “discorda”, pode-se conhecer, por outro lado, todo o seu histórico assertivo. Há, portanto, um sem número de informações negativas não computadas nem registradas, mas evidentemente percebidas na “comunidade”.

Tomando-se, por exemplo, o mais fragoroso dos debates do mundo virtual, o debate político, é notável a pouca permeabilidade de opiniões e a intensa evasão de informações que se pratica e exprime, principalmente ao deliberar-se por enunciar um ponto de vista sempre empedernido, pétreo mesmo, o qual pouco se dá a dialogar, embora sempre muito a confirmar. Segundo o professor George Loewenstein, especialista em consumo e comportamento da Universidade Carnegie Mellon (EUA), a opção “seletiva” não significaria outra coisa que um processo de garantia do bem estar, pois seria bem mais natural e seguro manter-se a salvo dentro de uma zona de conforto do que arriscar-se aos debates. Daí a deliberadamente evitar-se informações contraditórias é um passo dos menores e que requer pouco ou nenhum esforço; basta, como ele diz, “evadir-se”. O que interessa observar em seu estudo é que, nessa dinâmica de comportamento, o encapsulamento das redes acaba por competir no esvaziamento do potencial comunicativo e numa dinâmica comunicativa viciada que pode inclusive tornar as pessoas menos capazes de conviver com ideias e opiniões diferentes.

Bem, apenas por isso, todo o arrazoado de Zuckerberg, bem como as ideias de muitos teóricos que desejariam ver nas redes o substrato e a trama de uma nova política, mais transparente e acessível, fica bastante comprometido. Manuel Castells, sociólogo espanhol que esteve muitas vezes no Brasil divulgando suas ideias a respeito da sociedade em rede e autor de uma dezena de livros sobre o assunto, já disse algumas vezes acreditar que a sociabilidade humana se encontra a salvo por causa da internet. Segundo ele, a dinâmica comunicativa da internet contribuiria inclusive para diminuir efeitos nocivos da vida contemporânea, como o stress e a depressão.

Por outro lado (aqui no afã de preservar-se a opinião discordante), o historiador israelense Yuval Nohal Harari, autor dos sucessos de vendas Sapiens – Uma História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã , traz um opinião bastante diferente. Entre as muitas especulações que Harari faz em seu mais recente livro, ele que não possui sequer uma conta no Facebook, considera que a idolatria da informação pode vir a ser a dinamite fatal do humanismo, principalmente na substituição do humano pelas tecnologias de inteligência artificial e por uma nova reconfiguração da natureza humana, do saber e das relações. Para ele, a internet ser inteiramente benéfica não é outra coisa que a ficção preferencial do tempo atual, assim como outras ficções já serviram a propósitos específicos na história da humanidade. O que mais chama a atenção nas suas ponderações é, de outro modo, o esfarelamento da noção de livre arbítrio e o quanto a tecnologia poderia cumprir o papel de arregimentar as pessoas através de seus inúmeros dispositivos, ludibriando os sentidos e alterando e modificando inclusive as consciências.

O mais interessante de todo o debate em torno dos potenciais da tecnologia e da comunicação tem residido, talvez, é mesmo na disposição mais subjetiva e intrínseca do ser humano. Estejam certas ou equivocadas as suposições de todos os interessados no assunto (é bem possível que não estejam inteiramente certas nem inteiramente equivocadas), o fundamento essencial é o indivíduo e a sua capacidade de interagir e incidir em relação à informação e a outros seres humanos, para além do mundo material ou do virtual. Se as redes comerciais serão mesmo utilizadas para um ainda maior confinamento de ideias e pessoas, além da elaboração de um arsenal infinito de big data com finalidade imprecisa ou, por outro lado, poderá ser o substrato ideal para que se propiciem soluções para os males que a humanidade enfrenta e ainda enfrentará, cria-se um paradoxo dos mais cruciais: o de que as pessoas acabem tornando-se apenas umas o espetáculo das outras e não mais o seu objeto de interesse efetivo e de ação, interditados pelo distanciamento intersubjetivo.

Por outro lado, de posse da certeza de que a efetividade da comunicação se dá bem mais pela vontade das pessoas, pela prontidão de seu aparato perceptivo e por suas capacidades emissivas e interpretativas do que exatamente por uma disponibilidade dos meios, é bastante possível que os problemas comunicativos de hoje sejam muito semelhantes aos de nossos antepassados. E se é possível que se possa mesmo, como alguns temem, virmos a rumar a qualquer momento a uma espécie de colapso comunicativo, isso deverá ocorrer bem menos em função do choque de opiniões do que por uma tendência natural do ser humano em simplesmente não dar o braço a torcer, principalmente em face de prejuízos morais ou ideológicos.

Caso um meio, seja ele analógico ou digital, tenha sido tramado para favorecer valores individuais e aspectos, digamos, mais egotistas do ser (o que seria uma timeline se não esse repositório de autorreferências?), da união de vários indivíduos em torno dessa forma comunicativa inadvertidamente pode advir justamente uma comunidade de seres autocentrados e, paradoxalmente, pouco comunicativos. Como em uma rede ou em qualquer contexto coletivo não está em ninguém individualmente dosar a oferta de informações, o único que resta possível é admitir-se que o ato de comunicar pode ter sido e ainda vir a ser muito facilitado pela tecnologia e seus recursos, mas a comunicação em si mesma ainda depende de mútuo entendimento e o mínimo de consideração pelas diferenças culturais dos envolvidos.

Prova um pouco que essa tendência é muito anterior às redes sociais o registro dessa dificuldade comunicativa ao longo da história. Se filósofos e cientistas sociais eventualmente debruçaram-se direta ou indiretamente sobre estas questões, escritores também o fizeram, mesmo que sob formas literárias. Entre tantos na história da literatura, o próprio autor da epígrafe desse texto, o italiano Luigi Pirandello, já notara no começo do séc. XX que, bem como a comunicação e a incomunicabilidade, o individualismo e a bisbilhotice também são essencialmente humanos.

As redes sociais comerciais, enfim, também estão aí para que cada um possa confirmar isso (ou não) e evitar que especulações como essas pareçam mentira deslavada ou franco delírio. Isso pelo menos até que outro modelo de rede tome o lugar das atuais (e isso fatalmente deverá acontecer uma hora dessas). Um requisito interessante, neste caso, talvez fosse o de qualificar o próprio engajamento comunicativo e afetivo, pois da aprendizagem das redes o que mais se tem podido depreender são informações deturpadas, engajamento precário, um certo culto à indiferença e um pendor mal disfarçado à evasão de informações. De qualquer forma, é bem interessante pensar que, sendo isso tudo apenas uma radiografia do comportamento humano contemporâneo, talvez ainda haja muito a ser feito em prol da comunicabilidade e das próprias pessoas que não apenas mais e mais mediação tecnológica.

A mulher submersaA mulher submersa

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 05/09/2020.

Os livros costumam ter itinerários fora e dentro da casa de gente. Fabricam-se, viajam e um dia chegam aonde deveriam chegar. Depois, diligentes, ocupam o seu lugar nas mesas, cabeceiras e depois ainda vão dormir, às vezes mal acomodados, nas prateleiras, como um volume a mais entre volumes. No entanto há livros que nunca couberam nem em si e logo vão encontrando, em sua vocação líquida, uma forma de se esparramar tão logo desembarcam. Como um parente antigo que, de repente, decide-se por cumprir uma promessa antiga e em definitivo regressa. Há pouco veio “morar” na minha em casa um livro assim, de pessoa que nunca vi, mas vi desde o primeiro instante de “quem” se tratava.

A mulher submersa, primeiro livro de Marceli Becker (ou Mar Becker, como é mais conhecida) e publicado em São Paulo pela editora Urutau, vê-se logo que é livro de gente viva e que se reconhece tão instantaneamente como a alguém que estivesse fadado mesmo ao destino de se deixar compartilhar sem receios, numa poesia impraticada, singular, e ao mesmo tempo comum, tal fosse parte da nossa própria voz a dizer aquelas coisas, em nós mesmos já incorporadas. Pois esse livro antes de chegar para ocupar um espaço entre as coisas da casa, veio não para ser guardado em fileiras de outros livros dorminhocos, mas para dizer por tantos que já andaram e disseram nos dias e noites da nossa vida.

É mesmo um livro um tanto fantasmagórico esse. E, por isso, mágico. Dentro dele, uma poesia discreta e vigorosa deixa falar mais que uma pessoa, mais que um tempo, mais que um motivo só. E antevejo nele minha bisavó, também poeta, e seus poemas riscados com pedaços de hulha no imenso tempo que há numa vida. Numa daquelas fotografias dentro do livro, sei que ela está lá também, carcomida do tempo, como eu a conheci.

Boa parte das pessoas, gaúchos inclusive, pensa na cultura do Rio Grande do Sul como uma cultura formatada em temas perenes e paisagens iridescentes e aconchegantes. O horizonte púrpura, crepuscular, a madrugada fria. Pouco se vê dos pátios, dos lugarzinhos, das gavetas dos móveis, das peças de roupa, das asperezas e dos gestos de pessoas que, muito ao contrário da imagem falastrona, dizem pouco, às vezes até desistem de dizer e deixam-se viver como se numa ciência tácita do próprio destino – e suas coisas.

Marceli é uma poeta que faz disso tudo matéria poética e está além das fronteiras porque sua poesia alcança a intimidade essencial das pessoas seja quando evoca o erotismo de Safo e os temas ancestrais da humanidade e das referências clássicas, da paixão bíblica e o estranhamento do ser e do sentir, como se trouxesse consigo um tanto de paraíso e apocalipse em sua poesia definitiva, como bem definiu certa vez o também poeta e amigo comum José Francisco Botelho, por intermédio de quem a conheci e pelo que sou grato. O fato dele ser poeta também é algo que a seu tempo será revelado, pois consagrou-se como excelente contista, mas há rumores de que logo um livro de versos seus vem por aí também.

Elogiada no Brasil inteiro por estudiosos, diletantes e leitores, desde antes do lançamento de A mulher submersa Marceli é de uma transparência que a faz ainda mais autêntica e se pode enxergar instantaneamente uma poeta devotada à sua arte e a quem ela é, em sua identidade. É algo muito estranho acompanhar o seu perfil nas redes sociais e ver que um dia bem ela está mencionando Herberto Helder como cantores populares do sul. Gildo de Freitas, Jayme Caetano Braun, Pedro Ortaça e os músicos do Folklore 4, de Bagé, estão tão presentes na sua timeline como Antonio Gamoneda, Alejandra Pizarnik, Bashô e Jacques Roubaud. Com uma tranquilidade temperada e um humor semelhante, Marceli é uma excelente companhia (mesmo virtual) e eu recomendo muito segui-la tanto quanto lê-la. É impressionante mesmo que se trate da mesma pessoa na sua composição mais íntegra de simplicidade e complexidade. Talvez daí venha justamente o apodo “Mar”.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker revive uma sentimentalidade do sul, nada óbvia, e faz caber num detalhe doméstico qualquer a imensidão de seu olhar e seu afeto cultural.  Quase nunca se vê o tanto de desterro, de solidão e de reflexão que acompanha a poesia de quem se afasta do seu lugar de constituição e afeto original. Numa gaveta de sua casa, em São Paulo, Marceli encontra um conjunto de atavismos e memórias e imagens a quem ela dá vida como quem é capaz de encantar e transmitir esse encantamento em versos fluídos dos quais ela mesma se faz.

No Quebec ou nas estepes do Azerbaijão, os temas da poesia são os mesmos porque as pessoas são as mesmas em sua aventura. De um olhar atemporal, de quem se observa e reconhece suas faltas, amores, saudades, tristezas, alegrias, de tudo isso se preencheu a minha casa, casa da minha família, em razão deste A mulher submersa. Engraçado é que parece possível encontrá-la numa janela de Porto Alegre, das muitas que vejo desde a reclusão da pandemia. Prova de que a sua poesia viaja apesar de tudo e está também onde estamos e mal notamos. A poesia de Mar Becker tem também a poesia que nós somos e pouco lembramos. Agora, com o livro, tudo finalmente ficou mais fácil e simples, como é de seu modo de ser. O Rio Grande do Sul pode congratular-se sem medo do surgimento em livro de Mar Becker e dizer que ela é sua. Quem a leu, afinal, já notou que a verdade é que nós é que somos dela.