A epidemia de microcefalia e a eugenia branda

repelente

Ainda que no fim de 2015 não houvesse ocorrido a proliferação de casos de microcefalia decorrentes, ao que tudo indica, da infecção pelo Zika vírus, dificilmente alguém lembraria de ano mais distópico do que o que logo deve encerrar-se. Bastaria lembrar da desolação hospedada ao longo do Rio Doce, em Minas Gerais, causada pelo mais grave e inaceitável crime ambiental da história brasileira, isso de acordo com manifestação oficial da ONU. Ainda assim, poderia invocar-se a desolação civil causada pela instabilidade política aliada a uma crise econômica complexa. Poderia-se lembrar dos protagonistas políticos da crise governamental e da sucessão de episódios que em nada devem à ficção. Porém um micro-organismo hospedado e transmitido por um inseto, um mosquito que o país já não tem meios de debelar, seguindo pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, um mero mosquito, um ser quase invisível, acabou por deflagrar no sistema de saúde brasileiro, entre autoridades sanitárias, entidades de pesquisa e círculos médicos um clima de perplexidade sem precedentes.

A microcefalia, condição clínica responsável por problemas neurológicos difusos e causadores de deficiências de diversas ordens, desde físicas a sensoriais e intelectuais, constitui-se num desafio à saúde e também pode ser considerada um desafio político, porque decorre de condições sanitárias e urbanas geridas, do ponto de vista histórico, inadequadamente. Presente já em praticamente todos os estados da federação através da presença maciça do Aedes Aegypti, vetor transmissor de outras duas doenças, a dengue e febre chikungunya, é muito possível que o número de casos cresça exponencialmente, dado que as medidas de combate anunciadas no último dia 05/12 pelo governo federal, através do Plano de Enfrentamento à Microcefalia, são pouco animadoras. Elas incluem, entre outras coisas, distribuição de repelentes às gestantes, recomendações do uso de calças compridas e medidas envolvendo as Forças Armadas, como se tratasse de uma operação de guerra e não de uma questão de saúde pública. Isso deixando de mencionar sugestões no mínimo questionáveis do próprio ministro, Marcelo Castro, que recomendou que apenas engravidassem, neste momento, pessoas aptas, sem revelar, contudo, o que deveriam fazer as demais mulheres já grávidas e as não aptas, segundo o seu critério. “Sexo é para amadores, gravidez é para profissionais”, recomendou o titular da pasta logo a seguir do lançamento do Plano.

A frase é em tudo reveladora do pasmo que acomete o Brasil há algumas décadas a respeito das políticas públicas em torno aos direitos reprodutivos. O problema mais grave entre todos os que cerca a questão talvez seja o de que a frase revela apenas a ponta de um iceberg de ocultamento histórico, pacto mais ou menos velado entre os serviços de saúde, governo, sociedade e demais interessados nos assuntos sobre saúde da mulher, direitos reprodutivos, aborto legal, deficiência e eugenia, termo não muito corrente nas discussões políticas ou sociológicas no Brasil.

Porque remete diretamente às questões de controle do corpo e das possibilidades de predeterminação e escolha de quem deve ou não viver ou vir a nascer, obviamente o tema é espinhoso. Exceto quando eivado de moralismo, trata-se de assunto proibido e custoso para encontrar-se debatido nos meios de comunicação e, até mesmo na literatura acadêmica, estudos contemporâneos sobre a vertente liberal e branda do espírito eugênico, mais de acordo com estes tempos, são bastante raros.

Normalmente lembrada como efeito secundário das políticas nazistas, a eugenia nasceu como ciência adaptada do naturalismo do séc. XIX vindo a aperfeiçoar-se como método de controle “sanitário” durante todo o período entre guerras, inclusive no Brasil, como forma de melhorar as condições de saúde do povo em geral, pela seleção dos mais aptos, na sua versão positiva, e pelo descarte ou eliminação dos portadores de características indesejadas, na negativa. Como ideologia, a eugenia prestou-se a muitos objetivos políticos, afetando nichos étnicos da população e, principalmente, condições de deficiência. É possível conhecer mais sobre o assunto, lendo-se o trabalho de Maria Eunice de Souza Maciel, A Eugenia no Brasil, neste link. Na sociedade contemporânea, entretanto, o desejo de aprimoramento e melhoramento é uma das tantas nuances comportamentais presentes, cujo acesso é facilitado pelo desenvolvimento de diversas tecnologias, como rastreamento genético e outras medidas adotadas inclusive na forma de políticas públicas institucionais.

O tabu em torno da seleção eugênica ocorre no Brasil tanto por questões religiosas quanto legais, mas sobretudo por envolver a temática do aborto. Tema que costuma servir até mesmo de moeda política em períodos eleitorais, o aborto costuma receber uma carga moralizadora impressionante no Brasil, enquanto em muitos países do mundo trata-se apenas de uma opção reprodutiva garantida no escopo dos direitos civis.

Quando as questões de deficiência e prevenção de deficiência, entretanto, afloram no debate público, por não haver abertura alguma para o debate franco sobre as questões, surgem recomendações esdrúxulas como a do Ministro da Saúde. Ora, imaginar que seja possível tornar exclusivo o direito à gestação de pessoas aptas (ou seja, ricas o suficiente para viverem longe e a salvo das condições sanitárias que favorecem a presença do Aedes Aegypti) e vedar, por outro lado, às demais o mesmo direito é um argumento que beira à insanidade, e isso duplamente; em primeiro lugar, considerando que a realidade do aborto clandestino deve agravar-se; em segundo, porque explicitamente as autoridades estão sugerindo que a condição de deficiência seja evitada, ainda que não previsto na forma da lei, como uma sugestão sub-reptícia.

Tal sugestão, se compreensível na esfera privada, é ofensiva em todos os aspectos possíveis na vida pública, a começar por dirigir-se à dignidade das pessoas com deficiência, tratada abertamente como se um óbice a uma vida plena de direitos, um discurso em tudo eugenista, assim como em perpetuar a afronta aos direitos reprodutivos das mulheres, no momento em que deposita no autocuidado a responsabilidade total pelas decorrências da gestação, encontradas pela fatalidade de situações externas e ambientais.

Sem o correspondente investimento em educação integral em sexualidade, acesso a métodos contraceptivos e o debate não penalizante sobre a interrupção, o que é feito da política de controle do vetor e da pesquisa sobre o vírus é a propagação do terror, cuja fonte seria a gestante e, o resultado, a pessoa com deficiência. Não se trata do mesmo que investir em prevenção. A prevenção foi negligenciada do ponto de vista das políticas públicas de saúde e urbanas, perdendo a eficácia no controle do Aedes Aegypti, vetor da doença. Trata-se, por outro lado, de uma solução paliativa e é evidente que as gestantes devem procurar resguardar-se do contágio, mas não em assumir a culpabilização oferecida pelas autoridades que, ao mesmo tempo, denegam debater a interrupção, por exemplo. Um aconselhamento ambivalente denota despraparo ao mesmo tempo em que desampara às gestantes à própria sorte. Mais confortante e produtivo do ponto de vista público seriam o esclarecimento quanto ao aconselhamento pré-natal e garantias de atendimento no sistema público, tanto para os bebês quanto para suas famílias, sem demérito do combate ao vetor e incentivo à pesquisa. Do contrário, há a disseminação do pânico, principalmente pela veiculação de informações incompletas e mensagens ambíguas.

Evidentemente, caso se prefira considerar a situação da proliferação do vírus Zika e dos casos de microcefalia em mais uma cena do espetáculo distópico de 2015, as autoridades governamentais e médicas estão indo muito bem. Em toda a imprensa, pululam declarações a respeito da gravidade da situação e recomendações médicas expressas de evitar-se gestações durante um período de tempo impreciso, pois o controle do vetor demanda um investimento do qual não sabe-se se o país é capaz de suportar. Para a bióloga Denise Valle, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), é tarefa impossível.

Na ficção, como é sabido, as distopias são a antítese da utopia. São representações ou projeções de um tempo em que as esperanças positivas estão solapadas por maus indicadores e por uma realidade adversa. À guisa de retrospectiva, 2015 parece dos anos mais distópicos dos últimos tempos, mas, ao contrário dos filmes de ficção científica nos quais se pode depositar as causas ao roteirista, no caso do vírus Zika o único e exclusivo culpado de sua propagação é a imprevidência histórica dos sucessivos governos sobre a saúde pública e as mínimas condições de saneamento e higiene urbanas. Ao que tudo indica, a imprevidência deve persistir enquanto criarem-se miragens milagrosas inacessíveis à população. Nesse caso especificamente, seria preciso algo como fé, de tanta expectativa frustrada de evolução sociocultural, mas quando o assunto é saúde e condições reais de acesso à vida digna, nem mesmo a fé é suficiente. E exigir fé e atitudes impossíveis a essa altura dos acontecimentos é um disparate que beira o desrespeito às pessoas, assim como debitar o problema a quem sofre suas consequências. Eugenia é um termo severo, mas é a mensagem que está sendo transmitida. Não admitir isso ou deixar de oferecer soluções civilizadas para garantir a dignidade de gestantes e pessoas com deficiência é que o fim da picada. E repelente é este discurso sanitário do séc XIX.

Pasolini e o nonsense da poesia

poemas

Em tempos de livrarias virtuais que oferecem ininterruptamente o paraíso e o inferno ao mero alcance do dedo, contar com uma livraria real a poucos quarteirões de casa deveria ser um descanso para os olhos, não fosse “o lugar” um primor na escolha dos títulos à venda. Eu diria que é uma perfeita otimização do espaço, contrastando a relação qualitativa normalmente ocupada pelas grandes empresas do ramo.

Pois foi ali mesmo que, numa dessas visitas ocasionais, vi pela primeira vez a edição bilíngue dos poemas de Pier Paolo Pasolini, em italiano e português, organizada por Alfonso Bernardinelli e Maurício Santana Dias em 2015 para a Cosac Naify. O livro, ali entremeado a outras excelentes escolhas em uma das poucas prateleiras de poesia que dão gosto em vasculhar (normalmente são seções maltratadas nas hiperlivrarias), aqui em Porto Alegre, ganhou-me ao primeiro olhar. É que justamente abri as páginas em um trecho do poema “Gerarchia”/”Hierarquia”, em que Pasolini escreve sobre o Brasil e, como o próprio título diz, suas costumeiras hierarquias. O poema não está datado, mas tudo indica que tenha sido escrito no começo dos anos 70. Diz o seguinte:

(…) È cosi per puro caso che un brasiliano è fascista e un alto sovversivo,
colui che cava gli occhi
può essere scambiato con colui a cui gli occhi sono cavati. (…)

***

(…) É assim por pur puro acaso que um brasileiro é fascista e outro subversivo;
aquele que arranca os olhos
pode ser confundido com aquele cujos olhos são arrancados. (…)

Obra do olhar estrangeiro ou da sensibilidade do poeta, é uma sensação incomodamente familiar, isso quase quarenta anos depois do seu falecimento. Folheando um pouco mais, é rápida a percepção de que as similaridades não param por aí. Isso porque a poética de Pasolini está permeada do seu olhar (talvez no caso dele fosse melhor dizer do seu “ser/estar”) para a sociedade e para a política, sobretudo a italiana, obviamente, e suas relações explosivas. Nos anos 70, Pasolini já não escandalizava a opinião pública do seu país pela sua crueza cinematográfica, mas por tornar-se um pensador visceral, capaz de sobressair-se da mera denúncia política, isso porque sua própria vida estava empenhada na subversão. E isto lhe aconteceu até mesmo para com a esquerda italiana e o PCI (Partido Comunista Italiano), do qual aproximou-se em torno de 1950.

A um tempo em que o engajamento político dava lugar a uma poesia de outra tonalidade, mais amena e transcendente, como em Eugenio Montale e Salvatore Quasimodo, seu trabalho poético mantinha-se à luz do espírito crítico e, talvez tendo paralelo adequado apenas entre alguns poetas norte-americanos do período, como os da geração beat, recusava-se a dobrar a espinha inclusive aos ditames ideológicos e aos próprios comunistas, principalmente entre os movimentos de juventude, questionando-lhes o caráter permanentemente.

Não foi por isso, entretanto, que em 1970 Pasolini foi expulso do PCI, mas sob a acusação de supostamente “seduzir” menores. Para ele, homossexual que não ocultava-se e que já tinha a inimizade dos religiosos, manter-se em pé já não era mais uma opção e até a data de seu obscuro assassinato, em 1975, Pasolini continuou publicando critica, prosa, politica e também poesia. “La nuova gioventu”, com versos como “Bisogna condannare/severamente chi/creda nei buona sentimenti/e nell’innocensa – É preciso condenar/severamente quem/crê nos bons sentimentos/e na inocência”, é do ano de sua morte. O poema é um dos que constam na coletânea editada agora pela Cosac Naify.

O livro, além de reunir poemas escritos durante toda a vida de Pasolini, traz a introdução do crítico e também ensaísta Alfonso Berardinelli, traduzido por Maria Betânia Amoroso, que também escreve o epílogo. Ela, estudiosa de sua poesia e uma das principais difusoras do seu trabalho, desde a época em que seus filmes eram proibidos no Brasil e seus poemas conhecidos apenas parcialmente, distende uma linha temporal sobre o reconhecimento do trabalho dele  no Brasil. O livro ainda inclui um apanhado da bibliografia das traduções brasileiras, da crítica sobre sua obra literária e cinematográfica, bem como de suas próprias publicações como ficcionista, dramaturgo, roteirista, ensaísta, tradutor, critico e poeta. E também, claro, sua filmografia.

Se a poesia de Pasolini é muitas vezes contestada sobre sua qualidade, pelo seu caráter nitidamente mais político do que lírico, este não é um problema exclusivo dele e também não é um problema do que ele escreveu em versos, mas apenas do que conseguiu ler-se e depreender-se do seu trabalho literário, inclusive o poético. Pasolini, talvez um intelectual de um tipo incomum no Brasil, que não impôs limites em seu trabalho intelectual e sua vida privada, viveu seu tempo transfigurando também em poética a crítica política do fascismo, do provincianismo, da moralidade católica e de sua particular visão de mundo claramente marxista e impregnada do contato com a pobreza do pós guerra. Para ele próprio, a escolha de seus motivos poéticos dava-se como se por uma coação do real, da qual ele não podia nem queria livrar-se.

Por muito tempo taxado de panfletário, depois de quarenta anos de sua morte, finalmente o Brasil ganha uma coletânea capaz de propiciar uma leitura abrangente de sua obra poética, justo no mesmo ano em que chega aos cinemas brasileiros o filme biográfico que o também italiano Abel Ferrara lhe dedicou, Pasolini, em que o ator Willem Dafoe o interpretou magnificamente, para quem desejar conhecer mais de sua biografia.

Goste-se mais ou menos, encontrar edições bilingues de poesia, e apresentadas com zelo apurado é uma boa experiênica ao estar de visita em uma livraria de verdade. Se alguém, depois de ler os seus versos e reconhecer muitas semelhanças com o Brasil contemporâneo em sua poética, ainda assim desejar defenestrá-lo ao estigma da poesia panfletária poderia muito bem em contrapartida indicar onde, na poesia brasileira, encontra-se um poeta que não defina-se senão como alguém nos píncaros da inspiração, mas no nonsense de escrever, como ele mesmo diz em entrevista celebrizada no YouTube. Nonsense para mim, portanto, continua sendo ter de esfregar e esfregar os olhos nessa busca ou, ainda pior, precisar encontrar quem nos interpretou, brasileiros de hoje, tão bem assim quanto Pier Paolo há décadas atrás.

Papai Noel do mal

lobomaunoel

Você ainda é daqueles/las que quer perpetuar a fé infantil na magia do bom velhinho? Quer perpetuar a inocência da infância temoroso da antecipação da canalhice adulta? Tsc, tsc. É compreensível, mas é bom contar desde já com alguma oposição. E o seu esforço, lamento informar, pode ter pouquíssima efetividade. O mudo está virado, amigo/a. E, se você tirar a cabeça da tela um pouquinho para o mundo real, irá concordar comigo.

Deixe eu lhe contar o que me aconteceu.

É que peguei meu guri, fomos no super e lá presenciamos umas barbaridades. Vertendo do gauchês para o português: convidei meu menino para acompanhar-me nas compras, no supermercado, e ele aceitou, como costuma aceitar qualquer convite para ir porta afora. Lá aprendemos democracia de verdade, exercitando-a na prática, coisa que na escola se tem uma pálida noção, além dos valores do mercado in loco. Quem não frequenta o supermercado tem uma visão distorcida da realidade, chapada e idealizada. Não é o nosso caso, o meu e o do meu guri. Lá negociamos o que comprar e o que deixar, na maior civilidade. Isso é ruim. Aquilo é caro. Isso vai. Aquilo fica. E assim vamos pelas prateleiras, no mais alto espírito civil e dialógico. Em resumo, aprendemos valores (e que valores!).

Com a proximidade do Natal, é uma temeridade levar uma criança que efetivamente crê no Papai Noel ao supermercado, mas enfim… Tudo deve ser aprendizado na vida, salvo a ignorância, é uma convicção que tenho. Se bem que tem gente se esforçando bastante em aprender a ignorância, produto infelizmente sem obsolescência programada.

A minha sorte, no caso, é que o supermercado é de bairro e, portanto, não tem Papai Noel a caráter, mas apenas as respectivas referências iconográficas. Bolas vermelho-douradas em profusão. Fitas caudalosas. Neve artificial feita de isopor picotado. E, óbvio, a trilha sonora de fundo, que não pode faltar.

Pois então, estávamos nesse dia atravessando o corredor de enlatados, rumo ao dos produtos de limpeza, quando escuto um diálogo improvável, digno de um filme de terror. Meu filho estava, por seu lado, envolvido com o desequilíbrio de umas compotas de pêssego… O diálogo era mais ou menos assim:

– Deixa isso aí senão o Papai Noel ta hoahsaksj hjah.

Ta hoahsaksj hjah significa que não ouvi o restante da conversa, mas vi que era uma jovem mãe que se dirigia a uma menina nos seus prováveis 4 anos de idade. Ela com seus cabelos encaracoladinhos e de vestidinho. Uma bonequinha.

Passado o susto pelo tom ameaçador, seguimos o nosso caminho. Uma curva lá e outra cá e de novo as duas, mais ou menos à distância:

– Te comporta senão o Papai Noel trnen cnjkcdcin hjk.

Trnen cnjkcdcin hjk é algo de uma vilania tão horrível que nem vale a pena reproduzir o que seja.

Não pude evitar o que me aconteceu. Tive pena. E eu detesto penalizar-me, mas tive. Da menina chorosa, da mãe obviamente incapaz de atender a série de desejos irrefreáveis da filha e, principalmente, do Papai Noel, convertido em um personagem maléfico e assustador, cheio de condicionantes e portador por excelência das mensagens mais chantagistas do perímetro.

Passada a compaixão generalizada, veio a tentativa de compreensão. Eu me espanto é que, ao descobrir-se que Papai Noel é uma fábula, as crianças não passem a odiá-lo, pelo menos numa projeção da raiva que poderiam ter daqueles que manipularam como bem entenderam a figura fanfarrona do bom e simpático velhinho gorducho.

Essa mãe, talvez na melhor das intenções educacionais, uniu o Papai Noel ao Lobo Mau, ao Velho do Saco, ao Bicho Papão e a todas as abominações que os adultos vêm representando na mente infantil ao longo dos tempos, despersonalizando-se, quando talvez eles próprios estejam dando a entender que eles não são assim, como dizer? Um exemplo de beatitude…

Quando contamos aos projetos de adultos que há monstros no mundo, eu penso que às vezes estamos antecipando um tipo de autojustificação, porque a face humana comporta naturalmente a ambivalência do bem ou do mal, salvo entre os santos, embora haja quem queira convencer os demais que assim o seja também entre os seres humanos comuns. É um direito inalienável do indivíduo o de fazer crer aos demais a própria perfeição. Porém também pode ser que seja apenas uma perda de tempo de livre escolha. Bom, mesmo que haja alguns que se esforcem bastante, e estou longe de queixar-me disso, cada vez mais contamos apenas com uma pálida noção da intimidade alheia, porque progressivamente ela é mediada por filtros de toda a espécie. E pela arbitrariedade de uma humanidade virtualizada que pode, inclusive, tentar manipular a própria identidade, temperamento, características, etc. Tempos hipermodernos.

Nessa intermediação, todos os ícones do passado já foram para o beleléu. A ambivalência e a falta de credo na ponderação de verdade é uma tendência inexorável, ao que tudo indica. Prova disso são os negacionismos escancarados que se sustentam por aí. Gente flagrada no ato insistindo em inocência. Outros defendo o indefensável e cometendo o impensável ostentando sua dignidade de araque mundo afora. E vamos bem nessa marcha, ensinando às crianças que, na falta de argumentação, a chantagem e a mentira podem ser um bom negócio.

E depois querem que a educação formal dê conta de formar bons cidadãos e a panaceia de um novo mundo, mas sem jamais admitir que estamos entranhados da mediocridade que falseamos talvez essa seja uma exigência exagerada. Ou absurda. Eu mesmo vi essa mãe liquidando com o coitado do Papai Noel abertamente e nem consigo condená-la pela precariedade do artifício. Minha empatia é sem limites, coloco-me até no lugar dos criminosos, os reais e os morais. Quem garante que, num desespero, também não tenha de usar dessa barganha infantil? Mas, por um exercício de crítica, prefiro ceder às pressões por um chocolate ou por uma eventual bugiganga do que em vilipendiar a imagem alheia. E depois não querem que as crianças tenham medo da criatura. Vá entender esse pessoal.

Pesadelo geracional

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Há dias que eu tinha em mente um spot que o Greenpeace produziu há alguns anos, sobre as mudanças climáticas e que, ao som de Frank Sinatra cantando My Way, mostrava cenas de inundações, derretimento das calotas polares e outros efeitos visíveis do aquecimento global. Ao fim do spot uma pergunta sobrepunha-se às imagens: “Lembra como sua geração sonhava em mudar o mundo?” e, pouco antes do fim, a resposta: “Parabéns, vocês conseguiram.”

O clipe, no YouTube, pode ser visto aqui:

Hoje, percebi que a lembrança me vinha em mente, entre outras razões, em função do começo da COP 21. E também porque, a despeito do tamanho exíguo, a mensagem do spot é mesmo impactante. Mas, antes de lembrar, estive como imerso numa espécie de pesadelo. Um pesadelo geracional.

O filme, mais claro impossível, depõe contra um sonho geracional deposto, talvez extinto já, de uma fatia da população que, chegando hoje aos 60 ou 70 anos, embalou-se no sonho hippie e contracultural de mudar o mundo e, passado esse tempo todo, eis que nada de se perceber as mudanças decorrentes de um novo modo de vida. Este projeto utópico dos anos 60, se um dia pensou-se revolucionário, acabou por revelar-se mera continuidade do modo de vida precedente de um modo geral no ocidente, nada além disso.

E então, pensando não nos termos de uma análise histórica, mas do mundo ao meu redor, é fácil perceber que o movimento geracional é contínuo e se a geração que viveu a Segunda Guerra Mundial e seus desdobramentos terríveis começa a deixar de existir e dar lugar às pessoas influenciadas pelo sonho de mudança dos anos 60, o legado destes sequer pode ser considerado melhor que o daqueles. Para comprovar isto, basta ver onde estão hoje, no Brasil mesmo, lideranças políticas que viveram no bojo daquele movimento, porque pensar em seu projeto de renovação social seria o mesmo que buscar uma agulha num palheiro, ou pior que isso, nos lamaçais da realidade, sem falar nos simbólicos.

E o pesadelo se torna mais assustador ao concluir-se que mesmo essas pessoas já começam a deixar o poder para outra geração e esta é composta por pessoas que nunca experimentaram os rigores de graves crises econômicas ou o pesadelo político de um regime opressivo, ou ainda a tarefa de reconstruir um mundo minado pela guerra. Seria possível imaginar que essa geração poderá efetivamente resgatar o saldo das anteriores? Mas, pensando-se em perspectiva, será que foram preparadas para isso? É muito difícil saber. O indubitável é que talvez não lhes reste alternativa e, caso tenham habilidade para engendrar relações mais harmônicas com o ambiente e com a sociedade, poderão realizar o que os que apenas estiveram sonhando deixaram de fazer ou postergaram. Talvez o façam justamente por ter de fazer, e não por sonhar. Seria uma solução pragmática, embora não se possa garantir que venha a funcionar. Talvez, mais que uma solução, seja uma esperança.

De outra sorte, ao pensar nisso fica claro que convivemos concomitantemente, de certo modo, com todas estas gerações. Confesso que tenho receio de que uma geração que usa mais tempo no Instagram que em bibliotecas e que encontra num clique qualquer informação mas sem ninguém saber ao certo se em condições de interpretá-la, dará conta da tarefa hercúlea ou até mesmo se é justo concentrar em seus ombros tal responsabilidade. Talvez, fazê-lo seria apenas adiar as soluções urgentes que o planeta demanda. Todavia, culpá-los por antecedência, porque o poder político ainda não encontra-se em suas mãos, é de uma vileza sem tamanho. A mim parece que, por depormos a falência de uma geração que se mostrou incapaz de engendrar um mundo melhor, não podemos por isso mesmo negligenciar de nossas responsabilidades. Este seria um comportamento a Pôncio Pilatos. E, convenhamos, é o que de menos precisamos.

Usar da consciência e partir racionalmente para soluções que envolvem o meio ambiente é fundamental, mas isso não deve partir de todos? Em caso contrário, como partiria justamente de quem ainda não tem meios de fazer as coisas e teve seu direito a sonhar um mundo diferente e que foi interditado precocemente pelo fracasso dos outros? Essa por óbvio que não é uma questão a ser debatida na COP 21 que começa agora, mas é a questão das questões para o nosso dia a dia e para o futuro dos que virão, do qual todos bem que poderíamos estar mais ocupados em colaborar ao invés de meramente despejar o fracasso anterior. Ou iremos, ao invés de dar continuidade ao sonho, propiciar condições para dar continuidade ao próprio fracasso?

Então, estou esperando pela continuidade do spot do Greenpeace, um que talvez fale sobre pessoas inocentes que podem tomar outros caminhos, mas desde que ninguém os vete antecipadamente.

Música hidrográfica brasileira

baciasbrasil

“…e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”
João Guimarães Rosa – A Terceira Margem do Rio

O que significam os rios para o interior do Brasil e para a cultura popular é algo do indizível. Isso é assim porque os rios são como a seiva dos lugares, dos territórios. São como membros de uma grande família e, se um deles morre, toda a família padece junto. São como limites de uma casa, nossa casa, e não é à toa que estamos delimitados de norte a sul pelo Oiapoque e pelo Chuí: dois rios.

Na semana passada, o Rio Doce, em Minas Gerais, foi sepultado de uma só vez, numa tragédia histórica e aparentemente irreversível. Não foi como acontece com muitos outros rios, arroios, riachos, que gemem diariamente da agonia dos despejos e das drenagens e dragagens incessantes. O Rio Doce foi sepultado vivo, sem direito nem a gritar, numa violência que só uma criatura das bem ruins pode fazer. Infelizmente, é justo a criatura humana, supostamente a mais sábia entre todas, quem vem se especializando nessas ruindades, batizando-as disfarçadamente de “acidentes”, “desastres” e outros eufemismos, conforme intenções mais ou menos veladas.

Não é somente pela pesca que os rios se fazem fundamentais, também é pela presença e pela sua capacidade de favorecer a multiplicação dos recursos naturais. Pelo frescor da vegetação de seus arredores e a rarefação dos ares. Pelas piracemas milagrosas. Pelas nascentes, brotadouros e pelos olhos d’água. Pelas Iaras fantásticas, aparições e pelos animais de verdade que, agora, perdem sua casa, sua imagem, sua sombra no chão da existência.

E também pela inspiração de quem os cantava e agora terá em seu lugar estradas de asfalto, concreto, sujeira ou, ainda pior, coisa nenhuma. Alguém me diga quem escreveria uma história sobre um ex-rio? Quem comporia uma canção assim, com essa finalidade? Seja como for, os rios são como nossas artérias e veias. Somente uma criatura que não se importa consigo mesma os trataria tão mal como os tratamos. Será que deixamos de perceber de que somos na verdade, como o “nosso pai” de Guimarães Rosa, um só, o eu-rio?

Nos links abaixo, tentei reunir alguns momentos da música brasileira onde os rios estão homenageados. Para ver como rios e artistas estão mal considerados no mundo contemporâneo, que já não se os homenageiam tanto, hoje em dia. Mas, de outra sorte, imundície e destruição não tem faltado.

“Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei”
(Força estranha – Caetano Veloso)
https://www.youtube.com/watch?v=LX_hSIGxu4U

“Dentro da terra o rio quer nascer
O rio chora água ao parir”
(Dois rios – Tavinho Moura e Fernando Brant)
https://www.youtube.com/watch?v=e4zYf8gPcJA

“A correnteza do rio
Vai levando aquela flor
O meu bem já está dormindo
Zombando do meu amor”
(Correnteza – Tom Jobim)
https://www.youtube.com/watch?v=6oWlY4l2dy0

“Canoa, canoa desce
No meio do rio Araguaia desce”
(Canoa, canoa – Nelson Angelo e Fernando Brant)
https://www.youtube.com/watch?v=rKrTEQiK8_w

“Vivi na beira de rio, não conheço outro lugar.
Eu e ele é um desafio, pra ver quem mai vai durar.
Rola espuma, rio grande, rola o rio Paraná”
(Rio Paraná – Tonico e Tinoco)
https://www.youtube.com/watch?v=-WTTZXPiyU8

“Nas águas do Rio Amazonas
o meu coração se banhou”
(Rio Amazonas – Dori Caymmi)
https://www.youtube.com/watch?v=goE1fxNGV_g

“O rio de Piracicaba vai jorrar água pra fora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora
Lá no bairro onde eu moro só existe uma nascente.”
(Rio de Lágrimas – Tião Carreiro e Pardinho)
https://www.youtube.com/watch?v=Rzrm6dLP4zE

“Cumprindo sua sina, distraindo as mágoas
Parece que o rio inveja o mar
Nas ondas que os peixe branqueia”
(A Vida do Rio – Simone Guimarães, José Pacífico e J. Márcio Castro Alves)
https://www.youtube.com/watch?v=OaE8uiQh8YU

“Óia o dourado que bateu no espinhel
Traz a canoa que rio fundo não dá pé”
(Cantiga de Rio e de Remo – Os Angueras)
https://www.youtube.com/watch?v=STAoRcco29o

“Riacho do Navio corre pro Pajeú
O Rio Pajeú vai despejar no São Francisco
O Rio São Francisco vai bater no mei do mar”
(Riacho do Navio – Luiz Gonzaga)
https://youtu.be/2B2D4Sym5tE

“Vai a me levar como se fosse
Indo pro mar num riacho doce
Onde ser é ternamente passar”
(Rio Doce – Beto Guedes)
https://www.youtube.com/watch?v=xtrGSowtzjY

O insepulto gaúcho

gaucho

Por mais de um século, uma das grandes filigranas culturais destas paragens sulinas tem sido a origem do nosso gentílico. Sobre a etiologia e o significado do termo “gaúcho” debruçaram-se muitos dos mais respeitados historiadores, literatos, intelectuais, folcloristas, pensadores e opiniáticos do estado. Augusto Meyer, Moyses Vellinho, Manoelito de Ornellas, Guilhermino César, Carlos Reverbel, Barbosa Lessa e mais uma dúzia ou mais de uma dúzia de nomes ataram e desataram braçadas e nós da questão, como se sabe; isso sem contar com a vizinhança do Rio da Prata, que eventualmente alpercou-se na questão, como Ricardo Molas, Madaline Nichols e outros estudiosos.

Porém talvez tenha chegado o momento de trocar-se de preocupações, afinal a estas alturas parece de pouca serventia delimitar o valor de uma palavra quando até se duvida da existência do objeto correspondente. É um problema que, se consegue afligir a alguém ainda, o faz mais por afastar tudo o que envolve a vida real e presente das pessoas que vivem por aqui e por afetar, talvez, algum aspecto da estima socioafetiva da população do Rio Grande do Sul do que por nos provocar a pensar em quem somos, o que fazemos dessa identidade e porque nos enredamos tanto nisso, ainda hoje.

É como se, a este passo da história, fosse preciso ter de decidir entre chamar os romanos de romanos ou italianos. É como querer batizar alguém tomando-o por defunto sem sequer procurar saber se a criatura ainda respira ou não.

À parte os muitos interesses linguísticos, históricos e ideológicos, há um consenso mais ou menos patente de que se trata de um vulto emblemático e histórico, o tal “gaúcho”. Mas quanto tempo dura a história? E mais, há quem possa, de fato, decretá-la em marcos ou períodos sem que esteja igualmente submetido aos seus processos ou influenciado por tendências nem sempre claramente distinguíveis? Pelo sim, pelo não, a relevância da questiúncula etiológica é quase insignificante diante da que a ela vem se sucedendo e diz respeito, a saber, da existência real e observável do “gaúcho” e do que é feito de seus descendentes.

Ainda que constatar tal existência exigisse não mais do que um mero deslocamento geográfico, às vezes a impressão que tenho é de que se espera encontrar, numa incursão dessas, figuras mitológicas e personagens literários ou históricos. De fato, ambas as possibilidades são reais, mas a persistência da descrição mitológica empalidece a coloração real das pessoas e seu habitat. Sobrescreve-lhe o relevo, planifica suas ranhuras. Isso acontece, todavia, mais por um desejo externo e por uma falta de contato com a vida presente, com a vida do interior como ela é, do que por um desejo espontâneo de quem por lá está. Afinal, é sempre mais confortável pensar-se nos termos de uma teoria ou de um preconceito qualquer do que ter-se de lidar com a realidade. No mundo real, as pessoas sentem, vivem e dialogam com o tempo presente a despeito de qualquer idealização histórica e, em grande parte das vezes, sem interlocução alguma.

“Muchos no habrán oído jamás la palabra gaucho/Muitos não terão ouvido jamais a palavra gaúcho”, escreveu o argentino Jorge Luis Borges em seu poema “Los gauchos” (Elogio da Sombra, 1969). Talvez com mais precisão do que muitos estudiosos acadêmicos lograram obter, Borges passa uma ideia peremptória sobre como as pessoas costumam ter ideias a respeito de si mesmas, ou seja, é muito provável que a uma pessoa que sobreviva ainda hoje da atividade pastoril viva sem saber-se ser ou chamar-se isso ou aquilo. Sem ter um nome para si mesmo. Em caso contrário, é bastante provável que, caso ostente o gentílico como definição identitária, esteja fazendo-o por ter incorporado uma noção alheia, provavelmente deslocada por elementos culturais transportados pelos meios de comunicação e bens culturais, tais como a música e literatura, por exemplo. Bem mais a música popular que a literatura, diga-se de passagem, levando-se em conta a profusão de intérpretes da música regional, em suas diversas vertentes.

De qualquer forma, é cada vez mais precária a compreensão da transposição para o presente dessa identidade que, originária dos acertos e conflitos de fronteira, vulgarizada e até certo ponto tomada como impropério, perdeu a maior parte de seus atributos originais, sujeitando-se de forma inevitável aos processos históricos. No imaginário popular, entretanto, acabou por empedrar-se numa espécie de criogenia perpétua. Ou então tornar-se uma espécie de auto-caricatura, num reconhecimento de deslocamento, como evidenciando um mal-estar na contemporaneidade de sujeitos tipificados como há duzentos anos atrás. É uma dúvida comum a todo gaúcho (aqui no sentido de gentílico) que se preze pensar-se representado ou por um resquício solerte de um Capitão Rodrigo Cambará ou pelo carisma do Guri de Uruguaiana, passando-se por uma galeria de muitos outros tipos curiosos. A hipercaracterização cultural do tipo humano associada à hiperinterpretação acadêmica, que o condena a sobreviver como uma espécie de fantasma de si mesmo, amargando o peso de uma história violenta onde se aglutinam degoladores, caudilhos, estancieiros, contrabandistas, escravos, peões, nos faz remeter à barbárie, enquanto somos apenas humanos. Esse direito elementar, entretanto, nos foi interditado. É preciso reconhecer isso. E sobreviver a isso.

Mesmo que ainda se esteja longe de um consenso qualquer sobre a etiologia da palavra “gaúcho”, se o tipo ainda existe subliminarmente ou foi extinto da mesma forma com que seria uma espécie animal qualquer, é preciso avisar àquelas pessoas que, desde os extremos ao sul de Jaguarão até os altos de cima da serra, devem virar-se com o seu modo de vida. Se não evidentemente glorioso, mas notadamente complexo, principalmente por ser necessário lidar com os fantasmas que se lhes impõem e dos quais eles sabiamente não costumam importar-se à onipresença. No tempo histórico dilatado das mentalidades, no entrevero entre o centauro do pampa, o monarca das coxilhas e o gaúcho a pé, vamos gastando a faca. E, de vez em quando, o verbo.

Esse meu guri

futezinho

Já contei, para o espanto e terror de muitas pessoas, que por um tempo tive um artefato auxiliar para aferição do espírito inclusivo escolar do colégio onde estudam meu filho que tem síndrome de Down e sua irmã, que não tem. É o Hulk (e a escola é a mesma para ambos). Esta história do Hulk já foi contada aqui, portanto não irei repeti-la. Não é o caso.

Pois é chegada a hora de informar que o “Hulk” vem sendo felizmente superado. Nem sei como se poderia superar o Hulk, mas a questão é que o “dispositivo” me serviu bastante enquanto a comunicação com meu filho era bastante precária. E a verdade é que o Hulk foi sendo substituído pela sua expressividade e por outros comportamentos sociais capazes de me informar sobre seu desejo autônomo por incluir-se.

Pessoas que esperam pureza infinita e afligem-se com o que possam interpretar como manifestação de um “politicamente incorreto” haverão de tremer daqui em diante, mas não me importo. A questão é que, de forma tácita, meu filho estabeleceu uma série de direitos, para ele inclusivos e inalienáveis, a saber:

1) o direito a participar do fogueirão do fim de tarde custe o que custar (sim, ele tem que jogar bola, garrafinha, tampinha, folhinha ou o quer quer seja chutável com o pé com seus colegas, num evento esportivo improvisado e sem muitas regras onde todos podem participar e o gol fica para qualquer lado);

2) o direito de pagar e escolher o próprio lanche na cantina da escola;

3) o direito de não beijar e abraçar os professores e adultos e colegas sempre que instado;

4) o direito de escolher a quem beijar e abraçar (bem como o dever de eventualmente frustrar-se);

5) o direito de ser s-e-m-p-r-e o último a sair da escola e, ainda assim, lutar por lá permanecer “só mais um pouquinho”;

6) o direito de preferir brincar a fazer seus deveres e o dever de eventualmente frustrar-se, a não ser quando o espírito coletivo exigir o contrário e a bagunça for deliciosamente irresistível;

7) o direito de valer-se de soluções mágicas para a resolução de problemas complexos, desde que acompanhados do infalível sorriso sedutor;

8) o direito de distrair-se e perder-se eventualmente da fila por uma eventual aparição do homem-aranha no pátio escolar ou uma formiga estranha qualquer ou uma bola extraviada (problema seríssimo);

9) o direito de disputar a mão e a companhia da professora, mas o dever de abrir mão da precedência;

10) e, principalmente, por fim, o direito fundamental de não ser exemplo de coisa nenhuma e de na maioria das vezes não ser notado, de estar meramente no anonimato e na gritaria comum do alunado, sem por isso ser julgado ou avaliado, mas compreendido na sua condição de criancice.

Devo admitir que não houve muita negociação e todos estes “direitos” supra foram conquistados sub-repticiamente, com boas doses de malandragem e cavalheirismo mútuo, já que o Hulk (o artefato, não o personagem) e sua brutalidade parece aposentado, dando lugar a um ser bem mais tranquilo e afável, mais parecido com quem realmente é, esse meu guri..

A fronteira desfeita por Sergio Faraco

Publicado na edição 1.361 (jul./ago 2015) do Suplemento Literário MG, este artigo aborda o trabalho de Sergio Faraco como tradutor dos principais ficcionistas uruguaios do séc. XX. Para quem queira conhecer um pouco mais sobre o que o Faraco fez ao trazer do lado de lá da fronteira com los orientales ficcionistas como Mario Arregui, Juan José Morosoli, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano e tantos outros. E o que possivelmente esse contato fez com ele próprio.

A aposta

Lançado na 61ª (2015) Feira do Livro de Porto Alegre (RS), A aposta é meu primeiro livro de ficção.

A aposta - 2 setembro

Conheça um pouco sobre A aposta através do vídeo a seguir.

O livro pode ser adquirido através da Estante Virtual, no link abaixo:

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E em formato exclusivamente digital, na livraria Amazon.com. Lembrando que os livros adquiridos no Kindle podem ser lidos através dos plugins e apps para iOS, Android e Windows.

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