Eu não sou muito religioso (também não já sou mais tão ateísta), pelo menos no sentido estrito do termo, mas me comove muito a ideia cristã de igualdade e proximidade. No Natal eu não me sinto muito cristão, mas a Semana Santa sempre mexe comigo, isso que nem nunca comunguei na vida. Nem a ideia da ressurreição ou de vida eterna, muito mais a da paixão.
Como quem se apega às palavras, eu acho mesmo muito bonita a ideia de amar ao próximo. E acho nem tanto pelo “amor”, muito mais pelo “próximo”. É uma maneira delicada e especial de tratar as pessoas, como os que estão e são próximos. Uma ideia sequencial, em certo sentido. Sermos “o próximo” e não “o outro”.
Se há uma coisa que eu implico na psicanálise lacaniana é certo jargão que foi se sofisticando ao ponto do total hermetismo. E o hermetismo é uma reserva discursiva, não se pode esquecer. Eu não curto o tal “outro”. Na minha opinião, é de um distanciamento egocentricamente gélido chamar todos os demais seres humanos de “outro”. Por milhares de anos, a ideia cristã foi chamá-lo de “próximo”, mas tal ideia de proximidade foi varrida pela modernidade. Em seu lugar, ficamos com a diferenciação, a hipertrofia da alteridade e uma série de conceitos em sua maior parte abstratos cuja significação depende de um intérprete, ou seja, não é um código comunicativo comum, partilhável.
Eu, que sempre achei incompreensível a santíssima trindade, acho igualmente inexpugnável a teoria do grande outro. Olho aquela fórmula gráfica, semiótica, e não me parece se relacionar aos seres humanos, mas ao contexto de sua própria formulação, uma espécie de auto-referência. Porém, quando os religiosos falam no “próximo”, trata-se sobretudo de reconhecer um destino comum, idêntico e geral.
“O outro desempenha sempre na vida de um indivíduo o papel de um modelo, de um objeto, de um associado ou de um adversário”, disse Freud. Acho isso uma ideação do humano muito estranha. Para o cristianismo, basta amar ao próximo como a si mesmo. É uma ideia moral ao mesmo tempo rudimentar e muito complexa. Uma exigência que o próprio Jesus encarnou como exemplo ao morrer pelo injusto.
Eu comparo as duas proposições e concluo que a mensagem freudiana cai muito bem no sentimento moderno, mas que também traz em si mesma o sentido de desagregação comunitária que leva à fragmentação e ao estupor emocional. “Amar ao próximo”, todavia, apesar da aparente banalidade, consiste num desafio de auto-proposição. Não é com “o outro” que deve ocorrer, mas consigo mesmo. Pode que seja falacioso em muitos casos, um discurso enganoso, mas é uma questão da subjetividade e, principalmente, de largo alcance e simples compreensão.
Jesus não deixou uma teoria, apenas algumas poucas palavras ocasionais e muito silêncio. Não é sua imagem positiva que nos ficou, mas esse vazio que nos pergunta há dois mil anos, o que fazemos silenciosamente e a sós do amor pelos demais?
Desculpem-me os amigos psicanalistas, mas o indivíduo lá, seja filho de Deus ou não, ele tocou a eternidade. Enquanto a ciência decai, as teorias fracassam e os homens matam-se uns aos outros real e simbolicamente, a sua escassa palavra e exemplo não cessam nunca. Mesmo sendo um ateu ou uma rocha granítica de racionalidade, não tem como não se comover com o pobre do nazareno..
A cada vez que eu vejo escritores reclamando a falência e o esgotamento da crítica literária, fico pensando no que então poderiam dizer os músicos a respeito da crítica musical. Este é um abismo do qual e para o qual ninguém olha muito porque, de um modo geral, a música vive uma sucessão de impasses desde a instauração da crise do disco e do fim do CD. É crise sem fim à vista. Crise em curso ainda.
Se é relativamente simples encontrar-se resenhas de lançamentos de autores nacionais e estrangeiros, no tocante à música o cenário é desastroso. Além de que são raros os jornais e revistas (que revistas?) que contam com críticos musicais, a prática vai por sua vez resumindo-se a uma crítica de eventos. Até pouco tempo, os blogues musicais ainda supriam um tanto a busca por informações, mas, com as redes sociais, foram soterrados pelo big data e sua orquestra de algoritmos.
A reboque da crise de formato, pode-se ver então um pouco mais a extensão da crise de mercado que afeta o métier, uma vez que a remuneração do produto gravado danou-se e a crise de crítica e de consumo vai se apagando à medida que a própria mídia cultural vai se desfazendo. É o laissez-faire da contemporaneidade, a verdadeira balbúrdia para a qual ninguém estava preparado. Mas aqui chegamos.
Perto desse cenário, mesmo a miséria editorial literária parece um banquete perto do que se dispõe de espaços de divulgação e debate musical.
Os efeitos são terríveis para músicos e compositores brasileiros e/ou estrangeiros. Lançamentos relevantes, novos nomes de uma cena musical distante dos hits estratosféricos das redes e plataformas continuam acontecendo, assim como novos trabalhos de artistas vão ficando cada vez mais circunscritos aos próprios seguidores. E como essa contabilidade digital passou em algum momento a ser qualificada como relevância, a situação é de um impasse muito complexo para a qual as fórmulas de debate musical habituais não conseguem mais abordar, pois o campo foi extrapolado (ou entregue) para a tecnologia da informação.
Um exemplo. Dois dos meus compositores e cantores preferidos da última década, o casal Benjamin Clementine e a cantora Flo Morrissey. Dele, com um alcance maior e presença em palcos europeus, ainda se consegue alguma referência em português. Mesmo assim, demorou bastante e por muito tempo o único texto disponível era um que eu mesmo havia escrito. Isso para um artista literalmente gigante.
E ela? Nada ainda. É certo que com seus dois discos a repercussão não seria imediata, porém a invisibilidade é sobretudo de crítica. Seus views nas plataformas são modestíssimos. Há apresentações de estúdio, com alta qualidade de gravação, que não chegam aos 3.000 views no YouTube. Como o de Benjamin, seu disco é dos mais estupefacientes (e duradouro, a gravação é de 2015). Um lirismo rico, arranjos etéreos e sublimes e uma voz que fica entre Billie Holliday e Karen Dalton. Alguma referência a sua existência no Brasil? Nenhuma.
Talvez estejamos bem sem nada disso, afinal, parece que nos bastamos com outra qualidade de coisas. Mas vamos sem crítica. Daqui a um pouco, porque também ninguém é de ferro, vamos sem música mesmo, porque os ouvidos também não são de ferro.
A rigor, é desde a publicação de Nêmesis (Companhia das Letras, 2011) que os leitores brasileiros deixaram de contar com textos inéditos de Philip Roth por aqui. E como parece mesmo que o escritor falecido em 2018 foi definitivo em sua aposentadoria anunciada em 2012 e não deixou nenhuma novela ou romance para publicação póstuma, nos últimos tempos restou apenas aos seus leitores e devotos matar amargamente as saudades do autor por meio das notícias envolvendo o polêmico cancelamento da biografia de Blake Bailey, Philip Roth: The Biography (Skyhorse, 2021), a única entre as disponíveis que efetivamente contou com sua colaboração direta. Na prática, restaram efetivamente apenas as notícias: a tradução do livro em si continua suspensa pela Companhia das Letras, editora brasileira interessada na sua publicação antes da polêmica exposição envolvendo Bailey, acusado no começo de 2021 por diversos crimes sexuais.
Agora, a mesma Companhia das Letras oferece ao público brasileiro uma edição retrospectiva compilando dezenas de ensaios e entrevistas de Roth a respeito de literatura e de seu ofício de escritor. Trata-se de um volumoso livro (568 páginas) intitulado Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013). Talvez antecipando a retomada da aguardada tradução, garante-se dessa forma que a editora ao menos ocupará os interessados em Roth com uma boa dose de textos de sua autoria até então inéditos em português. Isso não terá ocorrido sem críticas duras ao gesto de suspensão anterior, pois, afinal, as questões apresentadas referiam-se ao biógrafo de Roth e não a ele mesmo. Enquanto prossegue o embaraço, não custa lembrar que Bailey acabou encontrando nova casa para publicar seu livro nos Estados Unidos e a Dom Quixote, de Portugal, promete lançar sua tradução ainda no primeiro semestre deste ano.
No que importa, o livro que agora chega às livrarias é oportunidade para aqueles mais interessados na literatura de Roth do que nos bastidores da sua intimidade completarem finalmente a sua coleção em língua portuguesa. Com a edição, obtém-se o bônus de enfim desviar a atenção de situações alheias ao escritor que, incompreensivelmente, no último ano tornaram-se mais importantes que a repercussão do seu trabalho autoral. Nesse aspecto, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura não poderia ser mais lapidar.
Desde o ensaio de abertura em que Roth contempla o retrato de Kafka para daí imaginar um destino mais longevo para o escritor tcheco, passando por comentários a respeito de escritores seus contemporâneos, como Philp Guston e Saul Bellow e transcrições de suas conversas com Primo Levi, Isaac Bashevis Singer e Milan Kundera, entre outros, até o capítulo final de “explicações” no qual responde sobre o próprio trabalho, vê-se um Roth que se propunha a oferecer um legado crítico tão relevante quanto sua obra ficcional. E o melhor de tudo: numa ensaística na qual se reconhece imediatamente os traços de sua inteligência e humor. Veja-se, por exemplo, o ensaio como no qual ele enfrenta a Wikipedia a fim de corrigir uma entrada a respeito de A marca humana (Companhia das Letras, 2002) e a enciclopédia não assimila imediatamente a sua observação, exigindo-lhe uma “fonte confiável”. Roth não se dá por vencido e publica a devolutiva na The New Yorker. No livro, o ensaio aparece completo, sem as supressões da revista.
Parte considerável do livro compõe-se também por discursos em premiações recebidas, entrevistas e ensaios que já haviam sido publicados anteriormente em Shop Talk (Mariner Books, 2001), mas a compilação apresenta ainda textos inéditos em relação à edição norte-americana, de 2017. As entrevistas são na realidade homenagens que ele faz a escritores com quem travou relação e enfrentavam dificuldades em seus países de origem, principalmente aqueles provenientes do leste europeu, como Milan Kundera e Ivan Klíma. Os ensaios a respeito de sua própria obra, todavia, tornam o livro mais apetecível para seus leitores habituais. Para estes, servem como um anexo indispensável o seu ensaio de aniversário de 45 anos de O complexo de Portnoy (Companhia das Letras, 2004) e o discurso sugestivamente intitulado A impiedosa intimidade da ficção, pronunciado nas comemorações dos seus oitenta anos, em 2013, no Museu de Newark. Em síntese, é praticamente um livro de referência que fixa o legado a seu respeito com seus próprios textos.
Por falar em “legado”, inobstante as “ameaças” literárias que sua obra vem sofrendo recentemente em razão de alegada misoginia e sexismo, mais ou menos no mesmo revés de Bailey, críticos, estudiosos e até amigos de Roth passaram a considerar que seu espólio deveria manter-se disponível para que outros biógrafos nele se debruçassem e dessa forma pudessem até mesmo oferecer novas versões de sua biografia. Ao que parece, junto às caixas de correspondência e demais notas, Roth teria entregado a Bailey pelo menos dois manuscritos inéditos justamente contestando o livro de memórias de Claire Bloom, Leaving a Doll’s House: A Memoir (Little Brown and Co, 1998), atriz com quem viveu por cerca de 14 anos. O temor é que esses manuscritos e os documentos que pudessem consistir em novo apanhado ou publicação recebam a destinação que em vida Roth solicitou aos encarregados do seu espólio: a completa destruição. Por ora, trata-se de um drama sem desfecho.
Quando ainda vivia, Roth havia destinado à biblioteca pública de Newark uma coleção de 7.000 livros anotados, fotografias e documentos pessoais organizados por ele mesmo e algo em torno de 1/5 do seu patrimônio financeiro (cerca de 2 milhões de dólares) para que a biblioteca se reequipasse. Parece que ao aposentar-se com a publicação de Nêmesis, Roth dedicou-se a organizar a eternização de sua memória e seu legado, o que inclui o seu acerto com Bailey. Por meio de sua biblioteca pessoal é possível conhecer suas anotações em Dostoievsky, Colette e Machado de Assis, entre outros. Provavelmente é desse espólio que resultam os ensaios, discursos e apresentação da presente edição de Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013).
Daí pode-se presumir, portanto, que a curiosidade literária acerca de Roth será plenamente aplacada com a edição. É claro que isso se confirmaria apenas caso o interesse vulgar na pessoa, fofocas e informações desencontradas preenchessem menos o interesse das pessoas que propriamente sua obra e vida literária. Quanto a isso, é bem provável que Roth soubesse bem que seria algo impossível de deter, narrar ou conduzir com exclusividade. Certamente não a ponto de prever que sua memória fosse embargada por razões esdrúxulas, mas porque seus confrontos com o moralismo fatalmente se chocariam com a contemporânea tara social do cancelamento. Para estes leitores, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) é excelente oportunidade de conhecer de Roth mais no que ele é interessante, um autor fundamental de sua época histórica e com um talento incomum para narrar. Para os que não morrerão de um pasmo ao saber dos incidentes pessoais da vida do autor, espera-se que a biografia saia de uma vez por todas e suspenda-se a onda de exorcismos pelo menos no que se trata de um monstro literário como ele. Não é algo certo de se esperar, mas nunca custa muito o apelo ao bom senso e à razão.
Até o carro enguiçar ou o pneu furar, nenhuma viagem ainda começou. Antes, é preciso olhar para os lados e encontrar o horizonte interminável dando para o nada absoluto. Também ter esquecido de calibrar o estepe a ponto de que nem para sentar um pouco, como um banco improvisado, ele ainda sirva. A viagem começa mesmo é no instante em que a ameaça da chuva se concretiza e o mundo parece que vai ser virado do avesso com a ventania e tudo o que ela revolve consigo: telhas de casas distantes, pequenos pássaros órfãos, plumas, cascas e galhos e folhas de árvore e tanta poeira que não é possível imaginar o que está a um passo daquele atracadouro, aquele lugar nenhum, onde se foi parar.
Mas é depois disso que é possível começar a ir algum lugar.
O caminho é curvo e nunca se sabe o que há logo a seguir. Pode haver uma oficina escondida entre os matos, como se interposta por Deus, um restolho improvável de civilização. Ou uma casa com as janelas abertas e luzes convidativas. Uma criança caminhando por aquela direção: em suas mãos uma jarra de água fresca. A fresta por onde um talho entre as nuvens, pleno azul, indicará finalmente o estio.
As roupas trazem o ruído da água e de repente é possível sentir-se como um anfíbio, um sapo ou salamandra e o destino dela, mutuamente submerso e terrestre (aéreo?) parece, mesmo, muito promissor. Há o que de perigo em andar na chuva, molhado da cabeça aos pés? É a mesma substância. E a estrada vaza água ainda, o que, de todo o modo, facilita percorrer o caminho.
De repente, num soslaio, até ela (a estrada) parecerá uma pintura falsa, como uma reprodução pendurada à parede de casa (a casa antiga, casa da infância) para a qual, nos dias infinitos de inverno do passado, era o que havia para olhar quando a luz faltava em decorrência dos temporais semanais que, com o tempo, também inundaram tudo – mas a estrada não.
O bom de viajar é encontrar os pés no chão e o desconforto da incerteza se passará alguém do lado inverso, sentido contrário, para algum socorro. É uma solidão sem sinal de telefonia e o interesse desdenhoso da natureza olhando em sua direção um momento só, por dentro dos olhos dos bovinos que estão por ali tão à deriva no mundo quanto você.
Só mesmo quem viu com os próprios olhos sabe o quão pouco imaginativa foi a geografia ao desenhar a costa gaúcha. É como se um imenso talho feito no sentido longitudinal tenha desenhado uma costa perfeitamente lisa, sem uma enseadinha, uma bacia sequer, assim, um mínimo desnível ondulatório. Mas também é por isso que seus usuários costumam ser muito imaginativos e inventam histórias que de tão mentirosas chegam a parecer verdade. A gente nunca sabe.
A mais recente dessas quase lendas eu ouvi da boca de um vizinho de guarda-sol. Sujeito simpático, natural de Quaraí e bom de prosa que só vendo. Eu, que aprendo mais escutando que dizendo, fiquei procurando minha maxila na areia após escutar o que ele me contou, de certos argentinos que viram baleia e somem do mapa.
Estranho lhe parece? Mas é verdade, segundo ele diz. E essa é a sua explicação para tantos argentinos esquecidos por aqui no verão. Na verdade não são esquecidos, mas buscam reaver sua terra original (isso mesmo) e retornar ao oriente ancestral. Como pareceria loucura uma explicação assim, seus parentes dizem que sumiram ou foram esquecidos em postos de gasolina. Tem bastado para mentes pouco curiosas.
Bem, de acordo com o meu interlocutor é tudo mentira que os primeiros habitantes do continente atravessaram o estreito de Bering e foram se espalhando América adentro. Diz ele que os primeiros humanos a habitar a América vieram é pelo sul, nas correntes gélidas do Pacífico, lá da costa japonesa, em embarcações ainu (umas jangadas) ou, o que segundo ele seria a mais pura verdade, na forma de baleias franca que ao chegarem ao Atlântico teriam retomado a forma humana.
A conversa já ía para muito além do inimaginável quando ele me apontou um sujeito que perto de nós observava um jogo semelhante a um boliche jogado por outros sujeitos hispanohablantes.
“Aquele ali! Olha só…”, e apontou com um movimento de olhos para um homem alto, dos seus trinta e poucos anos, esguio, moreno e com olhos amendoados como um fueguino. “Olha aquela tatuagem..”, sugeriu. Eu olhei na direção que apontava e vi uma tatuagem estranha mesmo, em baixo relevo branco. “Aquele está aqui para voltar…”, disse-me enigmático e eu até pensei em lhe perguntar “Como assim? Voltar pra onde?”, mas não tive chance. O homem de testa abaulada e cabelos lisos pelo ombro pareceu ter ouvido que confabulávamos a seu respeito e abandonou o que fazia aproximando-se lentamente de onde estávamos.
Ao invés de dirigir-se ao meu novo amigo, que inclusive parecia saber tudo a seu respeito, ele preferiu dirigir-se a mim, uma pessoa não apenas ignorante nos assuntos dos homens-baleia, mas alguém à beira de uma justificada crise de pânico.
“Usted, amigo.. ¿Podrías salvar mi ropa?”, e deixou uma mochila preta bem ao lado de onde meu filho abandonara um castelo de areia para banhar-se um pouco. Além da tatuagem estranha, o homem tinha uma boca estranha como uma moldura viva. Sem que eu dissesse sim ou não, ele deixou a mochila quase aos meus pés e virou-se em direção à praia, seguindo por ali lentamente.
Enquanto eu o vi andando, ele sempre foi em frente, até que de repente não pude mais vê-lo. Além do quebra-mar, até notei certo movimento e julguei que fosse ele dando braçadas de volta ao litoral sem graça dos gaúchos, mas um esguicho em forma de “v” prenunciou a imagem que nunca vira por ali no verão. A baleia-franca deu uma rabanada sob a película do mar e apontou apenas a cauda também em forma de “v”, sumindo dessa vez para sempre.
Bem que eu tentei comentar o que havia visto com aquele quaraiense que hoje se aproximou para contar essa história sem pé nem cabeça, mas ele também sumira entre os guarda-sóis que aos poucos deixavam a praia sem ao menos despedir-se ou explicar o que mais eu não tivesse entendido, porque ele e não eu é quem era sabido dessas histórias. Onde ele estava, havia agora apenas um cachorro. Agora os gaúchos estão levando cachorros à praia, além dos celulares. Assim, é certo que qualquer um pode virar baleia e ninguém vai perceber.
Nem sempre se pode enxergá-la direito, ou compreendê-la, mas há uma espécie de criatura que vem detrás dos nossos passos, quase nos mesmos rastros do tempo, roendo o nosso passado.
Ela pega do que pensamos guardar e aos poucos vai ocultando tudo em sua barriga enorme, que o seu apetite é infinito.
Ela chama o nosso nome e espera pela voz antiga, doce ainda, talvez, mas ouve ao invés disso um murmúrio insolente. Ouve-o como uma ameaça que ela não consegue decifrar, e, por essa razão, ela não para, não se detém. Mais se embrutece e avança.
A criatura também não enxerga direito, também não entende muito bem, mas continua sempre na sua sina incontrolável. Se pudesse, subiria os nossos calcanhares e, por debaixo das roupas, transfiguraria o nosso corpo, tal tatuagem, a fim de apaziguar-se de uma vez por todas. Mas como nós temos medo demais, e ela, parece, fome demais, nos afastamos sem, no entanto, olharmo-nos por muito um nos olhos do outro.
Por simpatia mútua, por um mesmo temor, por um pasmo sublime, por respeito que seja, talvez ambos desejássemos parar com aquilo. Encerrar essa aproximação indefinida. No entanto, não conseguimos.
A criatura vai tomando o nosso lugar no mundo, desocupando-o de nós, sublinhando no vento as memórias mais duras e as mais preciosas, as alegrias, as surpresas, para que, tomados de amor e horror, notemos que nós também cabemos em seu ventre. Nosso espaço já é previsto e, além do mais, às vezes ali há mais de familiar que ao redor. Há as músicas que ouvíamos aos catorze ou quinze anos; há o retrato da primeira namorada no meio de um livro igualmente perdido; há os livros que nos levaram aonde não parecia possível chegar, em frestas do absurdo, e, sobretudo, há provas concretas, cabais, de que se trata de nós mesmos. Aceite que a vida é igual a fugir, ela parece querer dizer. E continua.
Por um instante só fica claro que na realidade o seu olhar é inapetente, e de repente fica claro também que ela é velha como o tempo, mais velha até que o próprio tempo, e que não é matéria e nem é energia, e que não se pode apontá-la precisamente, e que ela não faz nada. A sensação é inteiramente nossa. O mais é um delírio persecutório que imaginamos de alguma forma deter (não podemos, esse é outro delírio). E enquanto devoramos o futuro cuidando do que inevitavelmente logo perderemos, continuamos adiante, a partir de agora por nós mesmos devorados.
O texto podia parar aí mesmo porque inclusive entre pessoas que não frequentam o espaço de bibliotecas (ou por isso mesmo) sabe-se que esta é uma realidade que vem sendo decantada ao longo da história cultural brasileira, especialmente a partir da explosão digital dos anos dois mil. No entanto, a afirmação é insuficiente para compreenderem-se as dimensões do problema. É preciso servir-se de esclarecimentos e maior precisão.
Como primas-pobres, cabe-lhes a atenção ocasional, as roupas usadas que não servem mais e uma promessa de crédito que raramente se cumpre, imaginada desde projetos legislativos que, afinal, parece que tudo bem se nunca forem cumpridos. Não há quem os fiscalize ou tenha em alta consideração. É por isso mesmo que, do Oiapoque ao Chuí, seguidamente vê-se o estado falimentar e número insuficiente de prédios deteriorados da administração municipal e estadual que apontam para a obsolescência do interesse genuíno da sociedade brasileira em cumprir a utopia constitucional de igualdade.
É a internet, diagnostica o senso comum. Bem poderia ser, mas a internet não foi o suficiente para que outros países do mundo deixassem de investir em novos espaços e ampliações. É preciso, pois, explicar a natureza da discrepância. Em vésperas do ano 2000, por exemplo, a Dinamarca reabriu o seu “diamante negro”, a impressionante Biblioteca Real Dinamarquesa. Em 2006, em Taiwan, inaugurou-se a sustentável sede da Biblioteca Pública de Taipéi. No México, fundou-se a Biblioteca Vasconcelos em 2006.
Em contrapartida, de acordo com a FEBAB e o IBGE, o número de instituições públicas vem caindo (de 97,7%, em 2014, a 87,7%, em 2018). No âmbito educacional, o cenário não é melhor. Informa o Censo Escolar de 2018 que metade das escolas brasileiras ainda não contam com bibliotecas. O “atenuante” é que há projetos de lei jogando para um buraco negro temporal a obrigação de cumprir a Política Nacional do Livro, como o Projeto de Lei 4003/20. Menos mal que o projeto continua emperrado na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.
As comparações são reiterativas, dolorosas e detratam não apenas o descaso político, mas a distância que se amplia em relação ao restante do mundo no único desenvolvimento sustentável efetivo: aquele que é mediado pela educação. Os indicadores são ásperos e os resultados socializados na materialização da precariedade que atravessa o país sob qualquer angulação.
No entanto as bibliotecas padecem por outras razões também. Há a autosuficiência de um mercado que se organiza pela relação paradoxal entre um tempo de leitura cada vez mais escasso e ofertas cada vez mais torrenciais e inacessíveis. Há ainda o fantasma da hipertributação proposta pelo governo federal assombrando o mercado e consumidores. Não bastasse isso, o vaticínio permanente do anacronismo a encantar gestores ávidos por economia sem notarem que o que fazem é investir no empobrecimento.
Certamente não foi em razão do investido nas bibliotecas (cuja maioria vive sem orçamento próprio), mas paulatinamente o ciclo do livro nacional foi se transformando numa cadeia de exorbitâncias. Apesar disso, pesquisas regulares como as realizadas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pelo Instituto Pró-Livro demonstram que a projeção de quebra no começo da pandemia foi em parte detida pelo incremento do comércio digital num patamar de crescimento em torno de 41% em 2021.
Apesar da recuperação, a tendência de queda histórica se consolida em quase 40% desde 2005, pelos números da Câmara Brasileira do Livro. Exorbitância negativa, a caixa-preta dos direitos autorais continua indevassável e objeto de dúvidas permanente, dada a subjetividade da composição de preços e dificuldade em aquilatar-se a expressão real das vendas. Na pandemia, com a ausência de eventos, a crise foi ainda mais nitidamente exposta no que toca ao ciclo.
Embora as bibliotecas públicas participem cada vez mais marginalmente do setor, a situação de subdesenvolvimento exaspera uma população que, por conta da dinâmica de leitura imposta pelos canais digitais, cada vez mais se afasta do mundo da leitura. Seja pela política de preços das editoras que compensam os baixos números com altos valores ou pela substituição de fontes de informação, o setor se especializa cada vez mais em torno de consumidores de alto poder aquisitivo. Os valores praticados para o mercado de tiragens cada vez menores exorbitam, por sua vez, na composição e consolidação do livro como artigo de luxo. Como exemplo disso, basta ver a que títulos e edições se referem os valores mais altos praticados na Estante Virtual, marketplace mais utilizada pelos sebos no Brasil.
Se dirigir o olhar para exemplos de países que investiram massivamente na educação e amparo à leitura no mundo contemporâneo, como Índia e China, é insuficiente e arrebatador, então o que se pode pedir é que o setor se comporte com menos voracidade. O custo da voracidade é diretamente proporcional à dissolução do mercado consumidor, como já atestou a crise das duas grandes redes brasileiras, Cultura e Saraiva. Aplacaria os efeitos colaterais danosos, talvez, um esforço em garantir o livro após o esgotamento do seu ciclo comercial, justificando o investimento na acessibilidade digital e universal. Ao invés de simplesmente tributar, reinvestir o valor nos elos fracos da cadeia. Por complexa, a problemática não será resolvida por uma sublimação do valor simbólico do livro, quem sabe mais pelo empenho em recuperar a cadeia e evitar ao máximo o desperdício do bem cultural.
Na minha rua nunca se vê ninguém à janela. Só às vezes uma furtiva cabeça chega rápido e atravessa o limiar dos prédios para ver o que foi o barulho, a que se deve a grita. Se o caminhão do gás (gás raro e nobre, pelo valor absurdo), furto de qualquer coisa, colisão ou conflito de espécies. Mais raro ainda o corpo atravessa a porta e posta-se à calçada por estar ali: a vida é cada vez mais ir e vir e menos estar. A rua desempenha a função de trafegar os entes, só nunca se percebe que é um tanto viva também.
Da minha janela, entretanto, nesses dias vi deslocarem sonoramente a sua pele. Ruazinha estreita da Azenha que mal comporta uma mão única, mas se fez mão dupla certamente num decreto da prefeitura, não efeito da observação de criatura viva que se convencesse opticamente da impossibilidade. Mas, à distância, tudo é possível e simples. E assim decidiram atrolhar de carros e movimento a ruazinha que, num passado não muito distante, talvez não comportasse sequer duas carroças em sentido contrário. Agora tem suvs e caminhões espremendo com seu rugido as margens das calçadas e espantando o povo pra dentro de casa.
Sob a pele, o esqueleto de uma cidade empedrada ainda, mas asfaltada à força. “É pra andar mais rápido”, eu lembro-me do pai me explicando, criança, numa vinda à capital, muito tempo atrás e eu ficava fascinado que a gente andava no carro sem tremer inteiro por dentro graças ao deslize fácil da cobertura preta. Alguém me disse até que agora em novembro próximo se podia fritar um ovo ao meio-dia só quebrando a casca e depositando clara e gema sobre o asfalto. Nunca fiz nem vi a experiência, mas deve ser possível. O solado emborrachado dos tênis e sapatos gruda mesmo, parece um molho derretido entre o corpo do indivíduo e o chão da cidade, num prato sui generis mesmo: o homem urbano.
Retirada a pele, o esqueleto de que falava Quintana aparece como fratura exposta de um lugar que já não sossega muito, nunca está muito a passeio, que é devedor dos próprios deveres, e de um povo que às vezes parece nunca dever nada à cidade. Quase nunca. Só por cobrá-la do que muitas vezes também se prefere não lhe oferecer. De bom grado, Porto Alegre se entristece às vezes, e mais do que merecia. Mas não dói, quase não se nota sua dor, não grita ao descarnamento, à exposição. Sequer geme.
Será essa a “dor infinita” de que falava o poeta? Tem quem hoje recuse Quintana como o grande poeta da cidade também. O “velho bobo”. Mas que desaforo! Tem que ser muito poeta pra ouvir um lamento desses. Vista do alto, do meu terceiro andar, Porto Alegre faz bem em não doer mesmo. Finge bem a cidade como uma velha mãe desiste de queixar-se pra não fustigar os filhos..
Há um encontro subterrâneo entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Existe há muito, eu desconfiava. Tive provas disso há pouco. Ontem mesmo.
Ouvi ontem seus rumores eclodindo em ondas sonoras (como se água extravasada do solo) nos “Olhos D’água” do disco surpreendente que uniu de um lado Calos Di Jaguarão e, de outro, o belo-horizontino Nelson Angelo.
Muitas coisas estranhas no disco, a começar por encontrar-se na fronteira ao extremo-sul do Brasil/Uruguai um compositor totalmente deslocado da musicalidade mais característica do Rio Grande do Sul e suas platinidades. Lá nas bordas do rio Jaguarão, é como se um autêntico “clubeiro” tivesse se extraviado dos destinos da constelação de músicos que “brotaram” na famosa esquina mineira, confluência da Divinópolis com Paraisópolis.
Conheço as composições dele, Carlos, desde o disco “Clarice”, de Simone Guimarães e da sua estonteante “Trilogia da Sereia”. Depois eles fizeram juntos um disco (Sinhá-vida) que tem, entre outras, a hipnótica “Ingazeiro“. A Simone eu conhecia de antes. Falei do seu radinho e discos seus que me tocaram muito e toquei muito também, que a sua voz tem algo que solicita ouvir mais, e mais. E mais um pouco só… E nunca para mais.
Mas ele eu não conhecia. Talvez intuísse, mas isso só conta pra gente biruta mesmo. Mas já percebi o que têm de encontro dele com o Nelson Angelo. O Nelson conheço desde que nem tinha tamanho de gente, do disco “Geraes”, do Milton Nascimento. O Nelson é compositor de “Fazenda”, a música que é um lugar só no Brasil e ao mesmo tempo todas as suas fazendas. Isso quem disse foi Caetano Veloso, não eu. O que eu percebi é que são duas pessoas aquáticas e que, por essa essa estranha razão, uniram-se numa celebração do sagrado da água e de outros “Cantos Espirituais”. É o nome do disco deles, aliás.
Disco cheio de chuva, canções molhadas, barrentas até, água de rios. Bonito de ouvir e molhar também. De perder a hora. Parece feito em tempos outros, com poesia meio como a de Cacaso e outros que cantavam só – o visto e o vivido. Quer dizer, só cantavam mesmo. Isso que é bom no disco. Isso que é bom, afinal.
Nada mais absurda que a difundida ideia de que um romance excelente inspira a procurarem-se outros ainda melhores. É uma falácia de salão. O mais habitual de acontecer às pessoas, de fato, é uma excomunhão do tempo perdido e a indagação mental de como aquele autor ou autora passou tanto tempo imperceptível, ainda mais quando se descobre tratar-se de um romance publicado no longínquo 1987. Apenas que ninguém consegue suportar a ideia de que a literatura às vezes é intragável desde a primeira página e, por razões estranhas à arte, como o apreço ao bom nome do autor ou de uma casa editorial, insiste-se em perseguir recompensas que de imediato mostram-se improváveis. Também o tabu de não maldizer o consagrado impede que prospere a crítica honesta e, em seu lugar, quando muito, o silêncio constrangido, substrato ideal dos pactos de mediocridade.
Como A Porta (Intrínseca, 2021) é inexplicavelmente o primeiro livro traduzido e publicado no Brasil da escritora húngara Magda Szabó, infelizmente é um pouco mais difícil obter traduções em português de seus outros livros. A menos que se recorra às livrarias e editoras estrangeiras, nada feito. Se valeria à pena? Não só valeria, no meu juízo, mas seria igualmente fator de economia financeira e temporal, tendo-se em vista que as ofertas editoriais por abundantes não redundam necessariamente em significantes. Talvez em húngaro, o tal idioma do diabo*, fosse complexa demais a leitura, mas nos mais familiares é certamente uma boa viagem.
Especular a razão do seu obscurecimento é bastante simples. Apesar de que, no leste europeu, nos anos 50 e 60 rasgou-se o véu férreo da cortina, seus escritores, principalmente aqueles que afrontaram os regimes comunistas, foram por aqui solenemente ignorados, essa que é a forma primeva do que hoje se denomina “cancelamento”. Ora, um autor que não se dobrasse às exigências históricas e revolucionárias a inteligência tropical e caribenha consagrava um grande vazio, um deserto de referências. Nesse sentido, poucos escritores que viveram o desterro das invasões múltiplas em países como Polônia, Checoeslováquia e Hungria atravessaram a cortina de fumaça que se estabeleceu acima de seus nomes e obras. Era como se não fosse preciso saber a dificuldade que era viver e sobreviver sob o tacão comunista, afinal, como então se manteria a aura utópica?
Mas Magda Szabó, assim como o bem mais difundido por aqui Sándor Márai, faz um uso soberbo da característica mefistofélica do seu idioma. É por melíflua, acessível e clara que ela torna ainda mais estranha a tomada de consciência interpessoal marcante entre a narradora e a fabulosa personagem Emerenc, síntese dos traumas humanos comuns a quem tem de viver apesar da irracionalidade histórica a que a política e o poder sempre conduzem.
Para além de tudo, é um salto para fora da obviedade e previsibilidade das listas de favoritos que logo estarão por aí. A porta, de Magda Szabó, é um livro que é mesmo uma porta a outro universo de violências e silêncios que uma pessoa e uma cultura sonegam à outra em prol da sobrevivência. É um “atravessar” conduzido por uma narradora magistral. Quando me perguntarem, se perguntarem, qual o meu “livro do ano” eu já posso dizê-lo: é “A porta”. Do ano de 1987, mas que isso importa?
* No prefácio que Guimarães Rosa escreveu para a antologia de contos húngaros que o amigo Paulo Rónai verteu diretamente ao português, em 1957 (Antologia do conto húngaro), ele fez a definição do que lhe parecia o idioma magiar, um entre os que ele estudava. A palavra escolhida foi “diabólico”. De acordo com ele, a língua ideal com que se falar ao próprio capiroto.