La pesada

Há uns anos eu tinha um certa implicância com Yamandu. Eu achava que o menino virtuose estava além de uma economia no toque e ficava sempre comparando-o (injustamente) a outros violonistas, como, por exemplo, Raphael Rabello e Baden. E, nessa comparação, notava, ou melhor, não notava um elemento nele, de brilho, pelo qual me parecia que às vezes passava batido, o Yamandu.

Lembro que na última vez que Paco de Lucia andou em Porto Alegre coincidiu com uma apresentação de Yamandu e deram um jeito de que o andaluz fosse observar o prodigioso guri de Passo Fundo. Isso foi em 2013, um ano antes de sua morte e Paco foi pessoalmente aos camarins para cumprimentar Yamandu. Teria dito lá, de acordo com registros, que estava diante de “algo completamente diferente, original”.

Era Paco de Lucia elogiando e eu, Lucio Carvalho, com as minhas ressalvas sem pé nem cabimento. Pois é. De vez em quando, não adianta que mesmo uma autoridade incontestável edite uma lei, se a lei não cala.. Ora, Paco de Lucia..

Mas uma coisa que eu nunca tive dificuldade é de dar o braço a torcer. Ao invés de me aferrar na pretensão da certeza, eu cedo basta que seja convencido pelos outros ou, ainda mais usual, convença a mim mesmo de que não estava certo ou de que decaíram as minhas ressalvas. É das poucas coisas que me orgulho em mim mesmo, aliás, essa capacidade, mesmo que as outros pareça “incoerência” ou “capitulação”.

Nesse vídeo abaixo eu acho que entendi o que impressionou Paco ao conhecer Yamandu. Não é pelo que eu achava que ele deveria ter, mas pelo que ele tinha de melhor. No caso de Yamandu, o vigor do ataque da mão direita treinado na música do sul, menos doce e delicada que a do norte, sem dúvida, mas que responde por certo sotaque aos dedos, se é que isso existe. Acho que existe..

Logo no começo do vídeo, se pode ver que Yamandu não apenas aprendeu a silenciar e cadenciar sua potência pelo choro, por incorporar traços da tradição do violão brasileiro ao seu ritmo desembestado, mas ali por volta dos 43 minutos do vídeo é possível ver Yamandu executando uma chacarera, ritmo do norte argentino, e deixando ver que às vezes a delicadeza pode muito bem ser expressa de muitas formas, e que sua platinidade, por outro lado, é o que lhe diferencia em essência e característica.

Ao brilho que no meu juízo faltava a Yamandu, realmente eu não só o encontro hoje com mais naturalidade como vejo muito mais em sua técnica. Vejo que no fundo ele não abriu mão da sua essência, mas ampliou seu universo sem abandonar o seu mundo de dentro. É lá onde está a dinamite intacta da sua potência e certamente foi o que Paco percebeu nele antes de mim. Questão de ouvido. Deve ser..

Canto fúnebre sem música

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
trad. do inglês

Não aceito que vão abaixo, à terra dura, os corações afáveis.
Eu sei que é assim, tem sido assim, desde sempre:
Vão-se de uma vez só sábios e amáveis. Coroados
Com louros e lírios, partem; mas não me peçam que aceite.

Amantes e pensadores, todos ao fundo da terra!
Unam-se ao indistinto, à poeira, ao pó.
Um trecho ou dois é o que resta
Do que sentiam, mas está perdido o melhor.

Os chistes, o olhar honesto, o riso, o amor,
Eles se foram. Para o alimento das rosas curvilíneas. Elegantes
São as flores. E perfumadas, eu sei. Mas não aprovo.
Mais preciosa era a luz em seus olhos do que todas as rosas do mundo.

E descem, descem, descem à escuridão da campa
E delicadamente vão. O belo, o bravo, os bons quase perfeitos.
Tranquilamente os engraçados e valorosos a morte encampa.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Eu não aceito.

O boom orwelliano

Revista Amálgama

Caso desejasse, alguém poderia atravessar o ano de 2021 comparando as novíssimas traduções para um dos principais “lançamentos” editoriais do ano: George Orwell. Não é mau. Trata-se, afinal, de uma obra prolífica que, neste repentino boom comercial, todavia parece concentrar-se em apenas dois de seus títulos, Animal Farm e Nineteen Eighty-Four. É bem natural que seja assim. Ambos são romances que atravessam o tempo pela alegoria que fazem em relação ao temor totalitário de todos os tempos e foram escritos e publicados logo do apogeu da era mais sombria do séc. XX, quando os titãs autocratas de então se batiam, por meio dos seus soldados e maquinário, na ânsia de colonizar o mundo e garantir nele a preservação dessa espécie de governo.

Comparando-se aos títulos que costumam frequentar as listas de mais vendidos, realmente não é mau que Orwell (pseudônimo de Arthur Eric Blair) venha a confirmar-se como um habitué do rol de títulos mais cobiçado do sistema literário. Normalmente, há pouca literatura (ainda mais de boa qualidade) em evidência nessas apurações e o mero interesse num autor fundamental para a compreensão histórica da crise mundial dos anos mil e novecentos deveria representar um alento a todos aqueles devotos à leitura enquanto hábito positivo.

Longe de ser uma casualidade, o fenômeno editorial orwelliano se dá por uma dupla detratação. Por um lado, sua obra teria muito em comum com o gênero distópico tão em evidência nos meios audiovisuais e, por outro, a liberação dos direitos de autoria (vencido o prazo de setenta anos de morte do autor) minoraria os custos editoriais. Pode ser. Isso explicaria a blitzkrieg comercial dos múltiplos “lançamentos” das mais recentes traduções de seus dois principais romances.

Essencialmente, não há nada de errado e nem de mau nisso. Sempre que decaem os direitos de um autor cujo interesse popular é grande, isso costuma acontecer. Recentemente, o poeta português Fernando Pessoa passou por um boom semelhante, com muitas edições paralelas de suas obras sendo publicadas e comercializadas, desde o paperback mais acessível até edições acartonadas em boxes com um trabalho mais meticuloso. Em sã consciência, num país que amarga índices de leitura literária muito fracos, alguém poderia dizer que há algum problema nisso? Bem, pode e não é um problema sem sentido, dado que um dos sintomas mais visíveis desse súbito fenômeno poderia indicar que, por evidente, seriam os direitos autorais os responsáveis pelo encarecimento do livro nacional. Isso é o mesmo que afirmar que bastaria, portanto, suprimir tais direitos para que se tivessem finalmente livros mais acessíveis? Evidentemente, não.

Em primeiro lugar, há pouquíssima notícia de que autores (célebres ou desconhecidos) recebam valores significativos de direitos de venda e que tais dividendos sejam contabilizados com alguma transparência; em segundo, apenas idealmente o custo final com direitos representaria em torno de 10% da arrecadação; na prática, os últimos autores nacionais a sobreviverem com essa espécie de renda ainda remontam aos anos 60 e 70 do séc. XX. Como é sabido, escritores costumam exercer outras atividades comerciais a fim de perceberem ganhos monetários, tais como palestras, cursos, oficinas, etc. E também não é desconhecido que o metiér literário é também exercido por pessoas com outras fontes de renda mais seguras e que, inclusive, o mercado de livros pré-pagos (pelos autores) é bastante expressivo.

Esse cenário supracitado ao mesmo tempo evidencia a fragilidade do ramo e do sistema que o sustém. Isso, todavia, não explica a forma pela qual se desperta o mercado e o interesse aquisitivo das pessoas em condições de investir no objeto livro. Por meio da quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, por exemplo, pode-se saber muito acerca das motivações predominantes no acesso ao livro e, pasme-se ou não, critérios religiosos preponderam em relação aos do gosto literário. Dessa forma, ainda que se subtraiam os improváveis custos com direitos de autor (e seus respectivos espólios e gestores), trata-se invariavelmente de um boom com hora de acabar. Isto é, na dinâmica comercial, conta-se inclusive com o encalhe de títulos e o respectivo destino final das obras: a conversão em aparas que tanto chocou o mundo letrado há alguns anos no caso Cosac Naify.

Ao fim e ao cabo do fenômeno Orwell, restará que apenas seus títulos “bons de venda” receberão a momentânea benção multiplicadora dos livros. É de duvidar que títulos menos glamorosos do autor, como Na pior em Paris e Londres, recebam ao menos novas reimpressões. De resto, o ramo permanecerá dependente do seu setor menos célebre e do gosto predominante, livros religiosos e psicografados além da infalível autoajuda. É daí que não há milagres operando no caso Orwell, apenas que se pode ver que, dos míseros percentuais que se destinariam aos autores, ainda se consegue fazer uma indústria.

Instinto e estigma no regionalismo

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 20/03/2021.

Um risco que os escritores nascidos nos vizinhos Uruguai e Argentina nunca correrão é o de abordarem a sua população do interior e verem suas obras guardadas na gaveta taxonômica do “regionalismo”. Para os escritores do Rio Grande do Sul, isso poderia até suscitar inveja se o contraste não constituísse um espelho privilegiado pelo qual se pode notar o distanciamento cada vez mais radical que é travado no campo literário quanto ao impasse da representação rural na literatura rio-grandense, seus temas e dilemas.

Para o Rio Grande do Sul, trata-se de uma caracterização inescapável cujos personagens vão sendo obliterados na literatura aqui produzida. O fenômeno não é recente, vem de algumas décadas, e o desaparecimento paulatino de enredos interioranos ou rurais na ficção rio-grandense se acompanha por outros fenômenos, como a preponderância do meio audiovisual no lazer urbano desde os anos 60, a hegemonia tradicionalista da representação popular e o crescente deslocamento para temáticas cosmopolitas, com o recalque da representação rural aos conteúdos históricos.

Esse desvio vem acontecendo numa perspectiva conflitiva na qual a literatura local ora se debate entre o acesso ao “instinto de nacionalidade”, conforme proposto por Machado de Assis em 1873, ora em sua refutação pela identificação com a literatura do Prata. Considere-se ainda que as relações políticas entre província e metrópole desde 1835 nunca foram das melhores. Tudo isso nunca competiu, todavia, em que os autores rio-grandenses procurassem alijar-se do sentimento nacional, apenas que desejavam manter seus traços culturais e históricos a salvo de uma alienação que, ao fim e ao cabo, foi confirmar-se um século mais tarde, no desenlace contemporâneo desse processo.

Presente desde quando Alcides Maya defendeu na Academia Brasileira de Letras a tese do “federalismo literário”, tal ruptura nunca se confirmou e, no decurso do séc. XX, produziu-se aqui uma literatura motivada na vida rural, do interior, e outra cosmopolita, sediada nos bairros de Porto Alegre, conformada por interioranos emigrados. Apesar de que se consolidasse uma crônica de costumes de tom saudosista, no plano editorial a convivência era pacífica e a redescoberta da obra de Simões Lopes Neto elevou a um patamar superior a dicção rio-grandense, descolando-se a partir daí do criollismo platino.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra, ao passo em que se confirmava um campo literário pelo empenho da Editora Globo e seus articuladores, o eco modernista se fez presente numa geração (a de 30) que apenas mais tarde seria revista. No longo período entre as décadas de 20 e de 60, o apogeu e o ocaso da Globo confundiu-se com o próprio destino da literatura rio-grandense e a fixação do seu “regionalismo” se deu com edições de luxo e populares de autores que inventariavam o seu “instinto regional”. A Coleção Província, sucesso comercial sem precedentes, foi o casamento perfeito de uma necessidade de afirmação identitária, autores produtivos e sistema azeitado.

No entanto, logo a confluência da expansão da televisão, a crise da guerra fria e o interesse crescente da crítica e dos estudiosos em desconstruir o discurso nacionalista vitorioso encontrou no ethos da geração de 60 o ambiente perfeito para frutificar em crise. De posse do instrumental estruturalista e materialista, conforme relembra Alfredo Bosi em Entre a literatura e a história, intelectuais empreenderam a recuperação da crítica presente na geração de 30: Cyro Martins, Pedro Wayne, Ivan Pedro de Martins e Aureliano de Figueiredo Pinto. Suas obras, tributárias da geração de Maya e Simões, revelaram o modernismo rio-grandense com uma forte tintura realista e denúncia social, bem ao gosto dos anos 60.

Nesse momento parecia claro que os autores locais haviam criticado a sociedade de uma forma muito menos idealizada e ufanista como hoje costumam se interpretar o seu trabalho. E mais: mesmo Maya e Simões, os dois principais sustentáculos da estética sulista, haviam mantido o olhar crítico para as condições sociais e políticas pelas quais o poder se organizava no Rio Grande do Sul, numa literatura que o professor Antonio Hohlfeldt veio identificar como mais centrada na figura do peão que na do estancieiro.

Ainda assim, por uma pecha inarredável, os escritores rio-grandenses muitas vezes são localizados no que seria um regionalismo agônico. Porque duvidou-se do afastamento total da literatura rio-grandense em relação ao enfoque proposto no regionalismo romântico, a própria designação adquiriu, pelo menos no caso gaúcho, certa conotação pejorativa. E seus autores também. É algo complexo, pois, se analisada na materialidade, nem Érico nem seus antecedentes colaboraram no recalque ou sublimação dos traços sociais da população. Pelo contrário, basta que se os releia para verificar o quanto trataram seu tempo de forma crítica e realista.

Um pouco por animosidade externa ou pelo crescente desejo por um “instinto de globalização”, aos poucos o que era particularidade, um “regionalismo” inocente, foi se transformando em estigma e o tipo humano da região perdendo a aura heroica para dar vez a uma série de tipos cômicos que a popularização de certa vertente tradicionalista contribuiu muito em consagrar, contagiando o métier literário.

Com a crise cultural fixada na universidade, a presença de um movimento cultural hegemônico e uma caracterização desfigurada, transformada em estereótipo, o pior do homem do campo passou a ser dinamizado como essência representativa e todos os preconceitos afiliados, como o machismo, sexismo, misoginia, etc., elevados à condição de um “novo” pitoresco. Já num cenário de intensa exploração midiática, como um produto cultural exótico sobretudo ao Brasil, a literatura rio-grandense viu-se na situação de obliterar a imagem às vezes reduzida ao grotesco do gaúcho rural. Exemplo dessa caracterização se pode ver no Analista de Bagé, personagem de Luís Fernando Veríssimo e sucesso comercial dos anos 80.

Da década de 60 em diante, em que pese o esforço de casas como a Movimento, a Mercado Aberto, a Tchê e a L&PM, os motivos rurais ou decaíram para o segundo plano ou foram preteridos por enredos desenraizados. Alie-se isso à perda sistemática de relevância da região fronteiriça na economia local e a migração simbólica para a zona industrial e serrana, o panorama literário local fez apenas seguir as inclinações de mercado, excetuando-se os momentos que representam inflexões históricas.

Contraposta à historiografia, a literatura confere com a visada de um momento histórico e realidade, mas sempre sujeita a releituras. Teóricos importantes como Erich Auerbach, Roger Chartier e Paul Ricouer atestam que o valor literário é mais simbólico que factual, um bem cultural que preenche lacunas compreensivas. De período à escola, de estética a projeto, de projeto à pecha, muito se tem confundido entre o que seja um viés regionalista político, como o reiterativo separatismo e, outro, cultural, dado pelas realizações artísticas. Talvez porque os autores rio-grandenses tenham inserido as questões políticas em seus enredos, as duas pareçam situações inextrincáveis. É uma confusão recorrente e que mereceria atenção redobrada dos estudiosos e leitores.

De uma forma natural, pois literatura e história inquirem-se o tempo todo, o “regionalismo” rio-grandense tornou-se cada vez mais um fantasma, como aponta a professora Regina Zilberman, e emblemático de uma crise complexa. Se abandonar a memória e as pessoas que continuam no interior é de uma violência atroz, não é menos violento caracterizá-las pela lente exclusiva da decadência: é evidente que são pessoas que vivem experiências comuns a todas as demais. Se o “regionalismo” pode ser considerado a tábua de salvação dos maus escritores, também costuma ser muito mais exigido no que se refere à originalidade. Autores contemporâneos deveriam pensar muito nisso ou, ainda melhor, não levar os preconceitos assim tão a sério.

Da mesma forma que na vida prática, na leitura faz-se necessário superar a intuição do já visto, do conhecido, para só então obter-se simpatia pelas coisas e por sua narração. Superada a negação inicial, a recompensa reside não na confirmação do esperado, mas no flagrante do próprio espanto. Certo que isso exige o trabalho da atenção, mas o atordoamento que se segue ao descortinar um mundo desconhecido é o trunfo principal da boa literatura. A dificuldade maior reside em que as mediações já consolidadas impõem uma série de preconceitos que encobrem o humano e o reconhecimento que a literatura pode propiciar. Ocorre que os estereótipos competem num estreitamento mental e superá-los requer uma leitura desimpedida ou ao menos esclarecida quanto a essa realidade. Enquanto o caminho orientado ideologicamente conduz à recompensa da confirmação, a boa arte costuma ser a que desorienta o previsível e propicia tanto a reorganização da memória social quanto do auto conhecimento.

A alma perdida

Acho que somente a um prêmio Nobel o negócio literário permite a luxúria de um livro como “A alma perdida”. Olga Tökarczuk é uma dessas pessoas. Ganhou o Nobel em 2018 e, como tem acontecido no Brasil recente, permanece ainda pouco conhecida do grande público. Talvez porque o Nobel tenha perdido sua relevância e aura, eu não sei, mas também a poeta Louise Gluck, galardoada no ano passado, padece do mesmo sintoma – ser imediatamente alvo de curiosidade geral para, a seguir, voltar a um certo anonimato. Talvez seja uma tendência do mercado editorial essa volatilidade maior de nomes. Há um tempo nem tão distante, uma casa editorial que publicasse um Nobel tinha garantida expressão de vendas por eras a fio. Mas o mundo mudou, os tempos vem mudando, como também disse outro Nobel, Bob Dylan, que sequer o mercado livreiro abastece.

Eu havia lido e assistido a adaptação para o cinema do livro mais conhecido de Olga, “Sobre os ossos dos mortos” e fiquei mesmo muito impressionado. Uma história envolvente e fluida como as dos bons contadores de histórias.

Agora, com “A alma perdida” em mãos, eu entendo a razão: Olga é uma fabulista e aparentemente gosta de nutrir os leitores dessa carência atávica de receber uma mensagem e de deixar-se envoler pela atenção. Fábula para adultos, “A alma perdida” é um produto da luxúria editorial na qual a autora divide as páginas do livreto em igualdade com a ilustradora Joanna Concejo. É até um pouco estranha a experiência de folhear várias páginas sem texto algum, só as ilustrações, e perceber que a história é contada também a partir do trabalho visual, que ele não apenas ilustra o texto, mas substitui o que não é dito por ele – e o completa.

A fábula em si não repete a fórmula moralista que consagrou o estilo através dos tempos, desde Esopo, a quem se atribui a autoria de muitas fábulas que ainda hoje repercutem por si só e em outras narrativas. A fábula contada por Olga não conta uma busca, mas uma rendição do homem ao seu próprio tempo e da recuperação do contato dele com a sua própria alma, como o título diz. De uma vida corriqueira e com um contato cada vez mais precário com a própria intimidade até ao final no qual João, seu personagem, finalmente entende que não precisa empenhar-se numa corrida contra o tempo para evitar sentir o paradoxo do tempo esvaindo-se. Pelo contrário, ele não quer mais sair em viagem o tempo inteiro e buscar-se no mundo.

“E das malas de viagem brotaram grandes abóboras com as quais João se alimentou durante todos os invernos tranquilos que se seguiram.

A alma perdida
de Olga Tökarczuk, (Todavia, 2020).

Nem mais e nem menos

O risco de passar rapidamente os olhos num livro como SUMI-Ê, da Nydia Bonetti, é o de perder a atenção fugaz necessária a sua leitura. É o de querer se concentrar demais e não conseguir fixar a coleção de pedras, troncos, flores, luzes e sombras desse pequeno jardim em formato de livro.

Eu digo um “jardim” não porque se materialize jardim, mas porque é clara a noção de que se está passando por ele, atravessando-o como se num desvão de uma avenida houvesse uma secreta passagem até outra dimensão mais lenta do tempo. É o efeito opiáceo que o livro me oferece: ser ele mesmo estranho a mim e, por isso mesmo, meu também.

É de entender melhor: sei que parece estranha a sensação porque normalmente se acredita aproveitar uma leitura quando se a retém e supostamente aprende ou guarda alguma coisa, acrescenta. É um hábito cumulativo que afeta a maioria de nós, pelo menos os mais embebidos na tradição cultural ocidental. Atenção fugaz parece algo paradoxal, mas é do que se trata mesmo.

Sei que por aí algumas pessoas definem a poesia japonesa ou de inspiração oriental como “minimal”, principalmente os tankas e haikus. “Minimal” também seria a tradição ocidental dos epigramas, embora menos líricos que os parentes orientais. Apesar de conhecer pouco, acho muito bonito.

Ontem finalmente recebi dos correios um livro que comprei no começo de fevereiro, dessa poeta que sigo nas redes sociais desde que a conheci acho que no último ano, ou o mesmo ano continuado agora: 2020. Apesar de não ser uma poeta que eu leia sistematicamente, queria ter pelo menos um de seus livros. Procurei o mais recente, De barro e de pedra (Urutau, 2017) e estava esgotado na editora, não consegui. Fui mais atrás e encontrei para mim um exemplar deste SUMI-Ê (Patuá, 2013).

Pelo livro, fiquei sabendo que o título vem das artes caligráficas japonesas, numa arte instantânea que não admite retoques. Nenhuma explicação seria mais aplicável: não há mesmo o que retocar nesse simpósio de naturezas que ela pincela como se fossem imediatamente desmanchar, mas que, por isso mesmo, fica justamente o tempo que deve ficar – nem mais e nem menos.

“há um lugar onde não estive
e uma canção que não cantei

alguém fez isso por mim”

“o meu colar de conchas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei”

SUMI-Ê
de Nydia Bonetti, (Patuá, 2013).

Brasil, construtor de ruínas

Foi numa entrevista para a Parêntese, concedida ao professor Luís Augusto Fischer, que fiquei sabendo que o mais recente livro da Eliane Brum, Brasil Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago, 2019), não havia recebido sequer uma crítica dos grandes jornais brasileiros, apesar de ter sido resenhado pela New Yorker, pelo New York Times e estar sendo traduzido para diversos idiomas, entre os quais o polonês e o italiano.

A informação em nada me espanta. Apesar dos vários títulos que vêm sendo publicados na intenção de dissecar a história política recente, em sua maioria os livros teóricos têm compromissos nítidos com a sua própria performance investigativa e estão disputando, para além da narrativa, o cenário e destino eleitorais. O livro da Eliane também tem seus compromissos, mas não é por isso que eu acredito nessa refração que o público brasileiro vem tendo em relação à publicação da Arquipélago, editora de Porto Alegre que é a sua “casa”, conforme ela diz.

Eu temo, aliás, que qualquer iniciativa intelectual que vise colocar ao espelho a história recente brasileira venha a passar pelo mesmo. Não é que não estejamos preparados ainda para enfrentar a dissolução da Nova República no bolsonarismo: é que nunca estaremos. É muito terrível ser obrigado a olhar a ruína logo atrás e ainda por cima precisar entender que o futuro breve continua sendo determinado por escolhas comprometidas e/ou já fracassadas.

Como a bíblica família de Lot, pesa-nos a advertência de que, para seguir sobrevivendo em paz relativa, é necessário não olhar para trás, nem examinar os meandros do que competiu a maldição da história toda. Há o risco de congelamento em sal numa recaída simples. E ninguém em sã consciência do seu instinto de sobrevivência gostaria de terminar assim. Ou seja, fugindo ao viés de confirmação de uns ou de outros, qualquer literatura será mal vinda. Bem vinda aquela que permite continuar, ainda que ao custo da denegação da realidade objetiva.

É por afrontar o legado petista e lulista, por enfrentar a sanha justiceira lavajatista e por confrontar a expressão da malignidade bolsonarista que o livro de Eliane vai se convertendo num clássico pouco lido. A sua diferença maior em relação aos livros de ciência política não é dada pela linguagem ou pelo método jornalístico de imersão total pelo qual ela opta, mas pelo distanciamento que lhe confere a isenção ideológica e o exame vis-à-vis dos acontecimentos.

Se é possível que ela incorra em equívocos de interpretação, isso é o que há de menos grave. A história do Brasil recente está mesmo sendo forjada a quente e, no tocante às decisões políticas, vem competindo em desastres humanitários, ambientais e econômicos sem precedentes. Além disso, os cronistas dos jornais e das redes sociais estão também implicados muitas vezes numa rede de enganos e auto enganos que mantêm suas bolhas agregadas e sua narrativa montada, em pé.

Desse consensos não coincidentes não resulta uma ciência política taxativa nem diagnósticos claros do que ainda pode vir a acontecer, mas o ponto de vista de Eliane Brum, como residente no mesmo alto Xingu no qual se estabeleceu o gigantismo destruidor da usina de Belo Monte e como pensadora autônoma, não está colocado como a chave interpretativa por excelência adotada nem por direita e nem por esquerda. É de um lugar oblíquo, do qual permite ver os estilhaços da imagem de uma nação esfacelada em muitos cacos, que o espelho do seu livro alcança ao público. De primeira, não será uma imagem muito clara ou precisa, mas, ao fim, vai se ver que a imagem resulta de uma semelhança incômoda com o Brasil real e isso, afinal, talvez seja o que mais nos aterrorize.

Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro
de Eliane Brum, (Arquipélago, 2019).

Contos do sul

Acho que foi em 2020 que o prêmio Jabuti instituiu como categoria especial o romance de entretenimento. Eu achei a medida estranha e ainda não me convenci da sua necessidade, afinal, não me parece que existam romances que não sejam entretenimento. Ou melhor dizendo, se existem, é porque, por tabela, existem os que não são.

“Do” que seriam esses outros romances? Instrução? Esclarecimento? Ciência? Eu não sei, realmente não entendo e, como não tenho grande interesse nos regulamentos do concurso, também não me demorei procurando entender. Nem vou.

Todavia, com a transparência obtida pelas redes sociais, não demora muito para que qualquer pessoa interessada descubra perfis dos seus escritores diletos ou não tão diletos. Por ali, se pode saber das muitas motivações dos escritores em relação às suas obras. Incrivelmente, são muito mais amplas do que propiciar “entretenimento” – ainda que no nascimento do romance em geral essa tenha sido a ideia central e prática familiar das mais comuns, antes que houvesse mesmo energia elétrica nas residências, que dirá internet e redes sociais.

Há poucos dias revivi uma experiência que há muito não tinha, a de realizar a leitura como se na ausência absoluta dessa parafernália toda. Digo “como se” porque se trata de uma sensação. Na verdade, li o livro na forma e-book, via Kindle, que comprei de uma auto publicação da própria autora na livraria Amazon. A autora é a Simone Saueressig, escritora com vasta bibliografia, ainda que, ao que me parece, muito pouco difundida na proporção que sua criação mereceria. Este, aliás, parece ser um drama comum a todos os escritores que no tempo contemporâneo não se comportam como sociólogos ou cientistas políticos e têm seu trabalho reduzido pelo sistema literário a mero “entretenimento”. É uma situação ridícula mesmo, mas não é de rir.

Eu não posso falar de todos os livros de Simone porque li poucos ainda, contos dispersos como o que ela enviou no passado à Sepé e gostei muitíssimo. Minha experiência enquanto leitor de literatura “fantástica” é bem precária. Li esparsamente e nem sei se consigo delimitar direito o que há entre “fantástico” e o “realismo mágico”. No Brasil, como em toda a América Latina, o “realismo mágico” se fez muito visível pelo menos até a década de 70, limiar de 80, do séc. XX. A literatura fantástica muito menos, mas teve um incremento significativo a partir da década de 90, embora autores canônicos a tenham praticado esparsamente desde o séc. XIX. No entanto, como movimento, os anos 90 liberaram das correntes o estilo, mesmo que para voltar a aprisioná-lo logo a seguir numa subclassificação no meu ponto de vista absolutamente preconceituosa. O tal “entretenimento”.

Chame-se do que for, o livro de contos da Simone que acabei de ler – a coletânea “Contos do Sul” – é, como disse, um livro de transporte mental, como são os bons livros de fantasia. Os contos do livro são de uma ambientação precisamente imaginada e isso favorece muito a projeção das histórias assombrosas que ela conta de um “sul” rugoso, com elementos folclóricos e imaginativos interagindo na esfera de uma narrativa linear e realista. Talvez por também não valer-se de experimentações linguísticas ou uma concepção arrojada esteticamente, seus contos induzam a que se pense estar em contato com uma literatura antiga – o que não significa “velha”, mas atemporal e anacrônica no bom sentido -, de quem não se prende a articulações temporais e suas (in)determinações históricas.

Essa a minha impressão externa.

A interna, como disse, foi a de reviver a experiência da leitura da infância, surpreendente, a luz de velas ou lampião, quando personagens não tinham mais a ganhar no mundo do que a aventura de estar vivo. Eu, que vinha do enfaro de certa leitura, deliciei-me e devorei o livro como se fosse eu mesmo o monstro sedutor da “cisterna” ou, de outra forma, eu que fui devorado e não percebi ainda.

Contos do Sul
de Simone Sauaressig, (Ed. do autor, 2020).

Carnaval canibal

A grande covardia destes tempos bem aventurados, a mais intolerável delas, na minha opinião, é a psicofobia. O mundo está mindfulness demais para a minha cabeça. E os próprios estados mentais são muito mais evitados do que qualquer outro preconceito exterior.

É tal a obsessão pela produtividade que o ócio banal foi abolido e o próprio lazer agora é computado em perdas e ganhos. Fulano viu quantas séries, Sicrano leu quantos livros, Beltrano ouviu quantas músicas, foi a quantos shows, foi a quantos carnavais na Bahia, testemunhou quantos defuntos célebres. É um modo de vida computacional no qual não se pode perder tempo com o que não seja coincidente a um estado mental onipresente, na realidade impossível. Mas não importa. Importa mesmo é viver com uma margem de lucro emocional diante ao tempo, aos demais e à própria vida.

É tamanha a psicofobia que sentimentos normais do ser humano de repente foram debulhados em características “tóxicas” ou “desejáveis”. Desejável é a euforia. Tóxica a depressão. Mas é delirante a possibilidade de surfar impunemente nos estados emocionais. Drogue-se disso, medite-se aquilo, beba-se, compre-se, viaje-se, alivie-se num sistema infindável de compensações e sublimações.

Não sou psicanalista, mas é evidente que as pessoas precisam e têm direito a ter momentos de melancolia. Mas justamente porque a tristeza e a melancolia são estados aparentemente não compartilháveis da existência, solitários, debita-se a elas a noção de negatividade. E no mundo virtual isso fica ainda mais agravado, pois aqui o que se evidencia é o triunfo e, como se uma superfície lisa livre de rugosidades e asperezas, a alienação de um para o seu semelhante.

A positividade é tanta que o luto foi abolido, inclusive o luto social. Não há perdas. Não há frustrações. Não há nem deficiências. A diversidade mesma, que deveria ser um valor da diferença, acaba forjada como um lustro de despersonalização. De equalização bionormativa. E esse vocabulário todo cada vez mais faz parte de um idioma indesejável do qual o saudável é manter distância regular com o salutar e carnavalesco hábito da euforia. O que poderia ser mais melancólico?

Nem a pandemia e a notícia de tantas mortes é capaz de levar a pensar que essa película de resistência é muito mais porosa e permeável. E de que somos humanos e devemos responder ao mundo do lugar da humanidade já é coisa do passado. Mesmo a dor é rentável como simulacro e a positividade – apesar de que ninguém vá admitir isso jamais – sim é que se transformou numa doença cuja solução passa, infeliz e fatalmente, pela melancolia.

Às vezes o que me parece é que vivemos (brasileiros) já em cuidados paliativos há muito tempo. E há mais tempo ainda os brasileiros inspiram cuidados. Mas quem se importa? Nem nós mesmos…

Ou já estamos na etapa da negação do sofrimento, levando os demais por diante com o nosso próprio “e daí?”, numa espiral de violência e agressividade gratuita. Inspiramos cuidados, sem dúvida. E um pouco de piedade também. No carnaval, ficamos mais nus, mais loucos ainda porque afetados pelo sol abrasador e pelos delírios daí decorrentes.

Anotação

Porque escrevo a respeito dos outros, parece que posso entendê-los. Não é verdade isso. Tudo é apenas uma tentativa e tenho certeza que errei em interpretação muitas vezes. Escrever a respeito da poesia de alguém é altamente arriscado porque é um encontro entre duas vontades: o desejo expressivo e o receptivo.

Não é diferente de quando alguém liga o rádio para escutar uma música ou seleciona uma faixa de um músico que nunca escutou antes. A não ser entre os mais previsíveis, a poesia é como uma composição que não se tem ideia de como vai se desenvolver ou concluir. Talvez as formas fixas permitam que o leitor anteveja o impacto sensível de um soneto ou a cadência de um ritmo exato, mas a poesia que usa de versos livres é mais ou menos como o jazz – exige uma atenção ainda maior para que se a compreenda em sua harmonia e centralidade.

Eu sei muito bem que não são pareáveis, música e poesia, mas, em muitos aspectos, são sim. Qualquer pessoa que tente tocar um instrumento sabe o quão podem ser complicadas as soluções de uma harmonia, o quão pode ser estranho um motivo, o quão incompleta e parcial a expressão de uma ideia. Já na literatura, esta simultaneidade está definitivamente impedida.

Como acontece ao poeta de não saber o que fazer das palavras, ao saxofonista acontece algo parecido. Ele atravessa a harmonia, assopra sem tocar, a nota sai pela metade e completa a melodia inaudita, que só alguns podem escutar. Com a poesia dá-se mais ou menos o mesmo. É uma revelação feita pelo leitor. Melhor se completada por ele.

Por mais que um poeta diga, pincele, esculpa, burile, se ele diz tudo, o leitor se enfara, sente-se inútil, resta-lhe apenas a admiração sem êxtase. O êxtase é compartilhar dos silêncios, do entrevisto, do sugerido. É o arrebatamento que se compartilha instantaneamente. Nesse aspecto, o músico é muito mais feliz que o poeta, pois ele pode experimentar isso ao vivo. O poeta, não. É de um efeito retardado, a posteriori, que ele obtém o efeito estético. Daí que provavelmente a poesia sempre traga consigo uma melancolia (mesmo a mais feliz e coloquial), que é do poeta estar sozinho naquele instante, consigo mesmo e numa distância total para com quem quer que seja.

Por isso, o que se pede muitas vezes aos poetas é que deixem um mísero espaço ao leitor, para que este possa imaginar-se, consolar-se naquele mesmo desconsolo, esquecer-se nos vazios subitamente interrompidos.

É claro que há também poetas romancistas, prosaicos, como um Duke Ellington, Cole Porter, Beethoven, Mozart, Brahms.. Sinfônicos, grandiosos e épicos, claro que há, mas não são de deixar resíduos, compartilham pouco, temem mostrar um pouco da carne e, por essa razão, parecem madeira, gesso, ou etéreos demais.

Sua obra não é de silêncios e nem os comporta, mas do vazio estrondoso que deixam em seu lugar. O vazio do assombro e também da estupefação.

E há ainda os poetas palestrantes que pensam na sua metapoesia como essência de linguagem, num delírio narcisista. Na música, seriam como aqueles músicos a quem a banda dá uma palhinha e o sujeito nunca mais para de solar, convicto de que chegará aos céus sozinho. Não raro, por mais talentosos que sejam, acabam tragicamente chegando mesmo.. Exemplos formidáveis não faltam.

Sinto muita compaixão pelos poetas. Parecem(os) criaturas um pouco desesperadas, às vezes, mas é uma projeção indevida. No mais das vezes, bem como os saxofonistas, fazem um voo solo sem nem saber quando ou onde aterrissar. Pois é esse momento do voo, que ninguém vê e não é espetacular, que os poetas desejariam (em vão) compartilhar.