Ninguém nos diz

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

Ninguém nos diz como fazer
para virar a cara contra a parede
e
morrer silenciosamente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que andou rumo a sua agonia
como quem vai
a uma cerimônia inadiável
batendo as orelhas
ao compasso
e à cadência do fôlego
de sua tromba
só mesmo no reino animal
há quem se comporte assim
mudar o passo
aproximar-se
farejar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas

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Ibajé e SepéIbajé e Sepé

Existe uma estrofe no “Lunar de Sepé”, poema recompilado por João Simões de Lopes Neto presente desde a primeira edição de “Lendas do Sul”, que eu acho muito curiosa. A passagem envolve uma referência ao momento em que Sepé vai ao extremo sul da estância de São Miguel, imediações da controversa redução de San Andres de los Guenoas, onde teria vivido (ou ainda viveria) um certo cacique Ibajé.

Os versos dizem o seguinte:

“Era a lomba da defesa,
Nas coxilhas de Ibagé,
Cacique muito matreiro
Que nunca mudou de fé;
Cavalo deu a ninguém…
E a ninguém deixou de a pé…”

A essa altura dos acontecimentos de sua breve vida, na posição de alferes, Sepé já tinha conhecimento das mobilizações militares que culminariam primeiro em sua morte e a seguir no massacre de Caiboaté. Lusos e hispânicos dividiam palmo a palmo a nova demarcação que desejavam para a “terra de ninguém” e Sepé foi até lá para ter uma conversa com os ditos demarcadores, da qual teria derivado a famosa declaração que a ele se atribui: esta terra tem dono.

Os relatos desta conversa existem mesmo, apesar de controversos e nebulosos. Estão nos diários da expedição de Gomes Freire, numa anotação de um capitão luso. Também existe a lomba a que se refere Simões. É uma longa região da planura que se escora no escudo rio-grandense, formação geológica que modifica o aspecto geográfico da região pampeana, dobrando seus campos desde Aceguá até além da região de Caçapava do Sul, quase no centro do estado.

Os indígenas valiam-se dessas dobras geológicas (canhadas) para surpreender seus inimigos, pelo menos aqueles incautos que desconheciam sua perícia guerrilheira. Não me parece ser o caso do cacique Ibagé, nativo e conhecedor desses lugares. Sepé era perito nessas táticas de emboscada e, não tivesse o seu cavalo posto a mão numa cova de tatu, não teria sido lanceado da forma que foi. Nicolau Nenguiru, que assumiu a liderança e revanche dos tapes não tinha esse cuidado tático e acabou levando o exército guarani ao doloroso massacre dos indígenas missioneiros, numa batalha em campo aberto.

Mas o meu caso aqui não é o bem conhecido destino de Sepé e das missões jesuíticas. Eu fico curioso é com o “matreiro cacique” que teria dado nome à minha cidade natal.

Simões nos diz que o cacique era um infiel (um charrua ou minuano que “nunca mudou de fé”), que provavelmente vivia nos matos em torno do arroio que também leva seu nome (matreiro tem esse significado na região, de quem se esconde nos matos) e que, todavia, não se pode entender qual a atitude teve para com estes ou aqueles.

Cavalo deu a ninguém… / E a ninguém deixou de a pé…

Mas o que significa isso? Primeiro, é claro, que o dito cacique não ajudou a ninguém, não tendo emprestado um cavalo sequer. Segundo, sugere que o chefe indígena teria mesmo é ceifado a vida de muita gente. Mas de quem?

As opções são poucas.

1) teria colaborado com os tapes e matado adversários ibéricos

2) seria aliado dos portugueses e teria matado os guaranis (segundo uma lenda, tendo inclusive participado da morte de Sepé)

3) o indivíduo nunca existiu além da lenda (é o que dizem os historiadores lusitanistas, baseados nas anotações do topógrafo José Saldanha, reiteradas por investigadores de gabinete, como o bajeense Félix Contreira Rodrigues, Aurélio Porto, Mansueto Bernardi e tantos outros. Mansueto (o todo-poderoso da Revista do Globo), num artigo jocoso publicado no Correio do Povo nos anos finais da década de 50, sugere que, “enquanto não se apresente certidão, fé de ofício e atestado de residência, o cacique não passará de um vago e desengonçado lobisomem”.

Um aspecto que prejudica até mesmo a pesquisa historiográfica recente é que ela se vê muitas vezes na situação de valer-se de um conhecimento fixado no começo do séc. XX, tempo no qual foram forjadas interpretações no mínimo complicadas a respeito dos povos indígenas e permedas também por uma espécie de ficção historicista, em páginas muitas vezes abertamente racistas e desumanizantes. Seja como for, foram os primeiros sistematizadores do conhecimento de que hoje dispomos – e que continua sendo escasso, mas felizmete agora atravessado por outras epistemologias.

Sem dúvida, Simões Lopes Neto viveu mais próximo do tempo da tradição oral do que nós vivemos do folclore inventado por ele e a partir dele. O nosso distanciamento é total, apenas quase podemos lidar com o que os outros disseram e escreveram. Isso é bom, por um lado, porque nos obriga a rever os fios desse tramado histórico e examinar a qualidade desses alinhavos. Mas é ruim, porque quebra a nossa imanência com a raiz indígena.

Na literatura, os vestígios desse contato surgem de forma tão extemporânea que se inscrevem sempre numa posição marginal. O indígena não ocupa o centro nem é reconhecido como origem. Seja Sepé ou Ibajé, sua existência aparece invariavelmente em relação ao outro: numa eliminação e no registro de uma negação. Trata-se de uma expropriação de sua memória, de sua evocação e também de seu espírito. Sua identidade, assim, não é afirmada por si mesma, mas constituída por atribuição externa e por uma espécie de descriação simultânea.

A negação de Ibajé é a mesma que se cria quanto a Sepé e se reproduz na mesma querela historiográfica. Inclusive geograficamente, no nome duas cidades. A cidade de Bagé se descaracteriza dos povos que a habitavam originalmente, os guenoa-minuanos. E o município de São Sepé, fundado em 1876 já com esse nome, tem sua designação desvinculada de José Tiaraju, colocando-se uma interposição com uma suposta localidade chamada “San Sepe”.

Este é o mundo político, no qual a literatura pouco intervém. No literário, pelas mãos de Simões Lopes Neto, que diz ter recebido a lenda de uma mestiça (artifício ancestral) felizmente Sepé volta a ser um santo popular do povo missioneiro e de todo o povo gaúcho. E Ibajé, sim, é mais um índio matreiro e minuano cuja história real se perdeu ao mesmo tempo que se fundiu ao vento que leva o seu nome.

Entrevista para a revista Marcela (2023)Entrevista para a revista Marcela (2023)

Ézio: Essa primeira edição da Revista Marcela propõe como tema novas visões sobre o território da pampa. Buscar essas novas visões passa por fugir de estereótipos como do gaúcho, do interiorano desinformado, da história do RS sempre vista a partir da perspectiva bélica e da relação de antagonismo entre urbano e rural. Como você lidou com esses pontos na hora de criar o seu texto e não cair no lugar comum?

Lucio: Vocês partirem da premissa de que eu não caí no lugar comum muito me alivia. Eu mesmo não tenho isso tão certo comigo… E acho que não tenho porque guardo muitas dúvidas se é mesmo possível a quem escreve sobre uma paisagem específica (poderia ser o cerrado, o sertão, a floresta amazônica) fugir ao caldo cultural que a forma e, goste-se ou não, todos são permeados efetivamente por estereótipos e preconceitos endógenos e exógenos. É complicado, penso, estabelecer uma formulação literária que dê conta de um ambiente sócio cultural tão, digamos, sobrecaracterizado. Penso que, no meu caso, me sinto mais feliz quando não descarto a dimensão afetiva e não procuro eu mesmo resolver situações culturais complexas, pois seria fantasioso. Ao longo do tempo que venho escrevendo com o pano de fundo da região pampiana, tenho procurado abordar com respeito situações que conheci, mas que sempre estão se transformando, às vezes sem que possamos percebê-las. De certa maneira, tenho buscado conscientemente desvincular a imagem de violência e brutalidade que se colou à população rural de um modo geral. Não é tão difícil assim, basta desviar o olhar para outros focos poéticos, que há muitos.

Ézio: O que um escritor da sua região pode dizer diferente dos demais do estado do RS?

Lucio: Bom, desde que ele trate de sua localidade e procure representá-la de alguma forma, penso que qualquer autor deva ser fiel a si mesmo, ou seja, procurar ser sincero com a sua compreensão e defender sua liberdade a despeito das muitas coerções culturais existentes. Pensando especificamente na região da qual provenho, a fronteira sudoeste e a região da Campanha, penso que há certo acúmulo de ideias quanto a essa população, mas uma escassa reflexão escrita que parta desse exame mais autônomo. De certo modo, a iniciativa da Revista Marcela é excepcional por permitir que todo esse complexo relacional seja exposto com a atenção e o afeto merecido. Penso que os escritores de um modo geral costumam fazer isso em relação ao lugar de onde provêm ou onde vivem. A questão de isso vir a público, ser lido e debatido é muito benéfica socialmente, ainda que não seja necessária a formação de um consenso homogêneo valorativo. O convívio democrático é sempre de alta exigência.

Ézio:. De que forma você pensa na literatura hoje? Como espera que seu texto atinja os leitores?

Lucio: Penso muitas coisas desconexas, eu acho. Talvez até que aprecie mais a literatura de outros tempos que a “de hoje”. Mas eu realmente não me preocupo muito com os leitores. Acho que cada texto tem seu leitor e, às vezes, a boa sorte acontece deles se encontrarem. Mas realmente não aprecio a escrita que visa agradar aos leitores e, bem, me parece que atualmente é muito praticada, daí minha predileção para quando o leitor não comandava tanto assim a mente dos autores e nem os autores eram tão facilmente comandados pela audiência e etc.

Ézio: Quais são os autores que formaram seu imaginário de leitor e escritor?

Lucio: Na minha idade (rsrs), muita gente. Acho que o mais certo a dizer quanto a isso é que sempre fui um leitor sem preconceitos e que procurou aproveitar o máximo o que me havia de disponível. Tive a boa sorte de ter o hábito de leitura disseminado na família e entre meus amigos desde a adolescência, então meu “método” sempre foi esse: ler de tudo e o máximo possível. Evidentemente tenho preferências, mas mesmo estas não são pela autoria, e sim pelo conteúdo. Então tenho nessa coleção muitos poetas, contistas, romancista e ensaístas. Talvez ficasse enfadonho listá-los, mas, sem dúvida, a leitura da poesia de Fernando Pessoa, dos contos de Kafka, do épico de Érico e as narrativas de Garcia Márquez estão entre as leituras que mais me impactaram quando comecei a ler literatura na adolescência. Antes disso, gostava muito de histórias folclóricas e mitológicas. Bem, continuo gostando muito de tudo isso, fora o que foi sendo agregado nesse meio tempo.

Ézio: O que motiva você a escrever com uma multiplicidade de narrativas visuais na atualidade?

Lucio: Competir com o audiovisual vem se mostrando uma tarefa inglória, como se sabe. Por outro lado, mesmo as narrativas visuais tem um texto de fundo e as escritas também podem conformar um estado perceptivo “como se” de um filme. O que talvez ainda seja um campo exclusivo do escrito é capacidade polissêmica, de gerar sentidos múltiplos no lugar dos seriais, ampliando a capacidade subjetiva de interpretação de cada pessoa.

Ézio: Qual tipo de gênero literário você prefere na hora de escrever (Poesia, conto, narrativas longas, dramaturgia)?

Lucio: Bem, me parece que cada ideia pede uma espécie de texto especifico. Uma ideia com um arco mais longo precisa de mais espaço, um conto não costuma ser tão aberto, um poema é uma forma ainda mais sintética. No entanto, a depender de quem escreve e de como escreva, qual seja o gênero o efeito obtido é sempre inesperado. Essa é mesmo a riqueza da literatura, extrapolar de suas recomendações e surpreender o leitor.

Ézio: Na hora de conceber o texto você possui um padrão? Primeiro pensa nos personagens, no cenário, no tema, no final do texto?

Lucio: Penso que “padrão”, não… Nem etapas, nem roteiros… De alguma maneira que não sei explicar, tudo vem um pouco junto e o texto é quem vai organizando os elementos. Sei que existem pessoas que usam técnicas aprendidas em oficinas e guias, mas eu penso que a leitura em si mesma, a leitura mais atenta e analítica, é quem melhor ensina a escrever. Uma boa dica também é conhecer o método de trabalho de grandes escritores, mas, mesmo assim, penso que é mais proveitoso que cada qual descubra como funciona melhor a sua própria concepção e execução.

Ézio: Que sentimentos o aproximam mais da escrita? Você escreve quando está triste, feliz ou isso é indiferente?

Lucio: Acho que seria estranho pensar que é indiferente ou, talvez ainda mais, que buscasse a escrita por um ou em busca de um estado emocional específico. O que me parece é que a escrita traz consigo um sentido de realização que se auto justifica, quer dizer, ele mesmo não resolve um estado emocional, sua capacidade maior é de induzir estados de pensamento capazes de emocionar as pessoas em suas particularidades. O contrário disso é uma escrita com viés sentimentalista e esta, embora funcione em muitos casos, bem, não é exatamente a espécie de escrita que procuro pessoalmente fazer.

Coisas outrasCoisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.