Charruas e minuanos em Bagé

Lá em Bagé, minha cidade natal, todos aprendem cedo que o lugar onde o Minuano sopra mais forte é na frente do Charrua.

O Charrua em questão é o hotel que por duas décadas foi o mais sofisticado da cidade, empreendimento do grupo Ypiranga que foi vendido em meados da década de 80 para um empresário local que grafou o seu próprio nome no hotel e retirou da fachada o cavaleiro indígena que o simbolizava e se podia ver à distância.

Já Minuano é o nome do vento que sopra de sudoeste, normalmente acompanhando as massas polares e é o vento mais frio que sopra em território brasileiro. Logo após a entrada de uma frente fria, o Minuano enregelante sopra forte sob as colunas do hotel, vindo de Aceguá, e há que ter força nas pernas para manter-se em pé ao cruzar por ali.

Fora essas duas menções, que eu me lembre, Bagé não guarda nenhuma referência histórica pública dos povos originários, nem um topônimo e nem nome de rua. Sequer o nome da cidade foi perdoado, assim como a memória de um certo curandeiro que teria por lá vivido à época dos primeiros acampamentos, e que até motivo de chacota se tornou na intelectualidade rio-grandense dos anos 50.

Ibajé teria sido o seu nome e, por essa razão, o nome da cidade guardava a grafia dos vocábulos indígenas, com a letra “J”. Ao longo do tempo, instituiu-se o Bagé com “G”, desfigurou-se a lenda e se chegou ao ponto de derivar o nome a um remoto vilarejo português, desvinculando-se de suas possíveis conotações indígenas.

Dos povos originários, a cidade vizinha do forte de Santa Tecla e da redução de Santo André dos Guenoas hoje não conta mais nem com a estampa na fachada do hotel. No município, vive hoje um assentamento kaingang que passa por muitas dificuldades, necessitando nesse inverno de alimentos, agasalhos e cobertores.

La Minuana

Não fazem três semanas ainda, mas logo depois que concluímos a última revisão do texto de “La Minuana”, o Thomaz (meu editor e amigo pessoal) me pediu para que eu escrevesse uma sinopse da novela. Ele precisava para montar um informativo da editora e pensou que ninguém melhor que o autor saberia dizer do se tratava, afinal, o livro que partia para a gráfica.

Não consegui. Precisei de uns dias para conseguir redigir um mero parágrafo.

Olhava o texto, o prólogo, as referências, notas e a pesquisa iconográfica que havia feito e me parecia bastante coisa, mas, ao mesmo tempo, ainda insuficiente…

Parecia que eu recém havia tocado a borda de um universo e me apressava a participar de um mundo do qual já não havia testemunhos, apenas resíduos e fragmentos mal historiografados e se eu não fosse cuidadoso o suficiente sentia que veria espatifar-se tudo aquilo nas minhas mãos. E assim evaporaria do nada, como fumaça, essa lenda, conto, novela que ganhou vida em mim para que a contasse. Para que tentasse contar com o máximo respeito possível essa história trágica e delicada que é a dos povos originários do sul, do qual, a despeito de tudo, se conhece ainda tão pouco.

Do que trata, afinal, “La Minuana”? Há uma personagem, uma feiticeira minuana, e há um personagem, um desertor das inumeráveis guerras que assolaram o sul do continente nos sécs. XVIII e XIX. Mas isso apenas não diz do que trata o livro. É preciso tomar dessa linguagem dúbia e partir em marcha, mesmo que a viagem seja apenas fuga e evasão.. Acompanhar-se do destino violento de um povo que, a despeito disso, é nosso, nos constitui de muitas maneiras e influencia, penso eu que sim..

Os últimos exemplares de “La Minuana” podem ser encontrados na em algumas livrarias de Porto Alegre ou via Estante Virtual.

A laranja mágica, 2

Com o tempo, parece que as papilas gustativas vão se tornando mais insensíveis. Insensíveis e esquecidas. Não faz muito, no verão, tomei dos caroços de uns butiás que me presentearam e os parti ao meio em busca de suas amêndoas. Nunca encontrei noz como a dos butiás, mas também não encontrei vestígio do sabor que passeava na boca quando criança e quebrávamos entre pedras as pequenas esferas até recolher de lá de dentro as quatro sementes, cada qual acomodada numa câmara interna da noz, como uma espécie de leito germinativo. Aquilo me causou como uma desolação sensorial. A memória da infância, esse patrimônio que cada um traz consigo, sentia-se ludibriada, desenganada.

Outros frutos me causam a mesma sensação de reencontro frustrado. Os caquis melosos que escorrem pelos dedos. As maçãs nas quais uma acidez confidencial deveria despertar memórias inesquecíveis, mas que pelo jeito foram esquecidas pelos próprios frutos. As laranjas e sua doçura inconfundível. Dentre as laranjas, especialmente as mágicas, de umbigo. Aquelas que dão apenas nas árvores mais frágeis e anciãs, perdidas no fundo dos pátios de casas humildes e antigas que ninguém se lembra de tombar, nas quais não há placas indicativas e às vezes nem numeração.

Se há o que eu lamento é que muitas pessoas jamais encontrarão uma dessas laranjas mágicas na vida. Ao passarem por um casinha como essas a que me refiro, não imaginarão ser possível que lá dentro daquela pobreza possa se encontrar o mais doce dentre os frutos.

Ontem, com o frio finalmente instalando o inverno, saí um pouco de casa para caminhar sem muito destino. Não ventava, o Minuano não acompanhou a frente fria dessa vez e pude caminhar passando as ruas da Cidade Baixa até a Azenha, onde casas como essa há muitas nas transversais à avenida tão vilipendiada de Porto Alegre. Casas de muro baixo, grades devassáveis e portinholas protegidas por cães mansos, incapazes de fazer mal a quem quer que seja.

Uma delas, especialmente, me lembrou da casa de um amigo antigo. Se vivo, que estará fazendo da vida? Viverá em Bagé ainda, onde nos conhecemos e me ofereceu a única laranja mágica que um velha laranjeira do pátio da sua casa tinha a oferecer? Ainda existirá a casa ou foi derrubada para um novo prédio, um novo bairro, outro lugar completamente diferente? Um edifício?

Não tenho ideia… Eu não sei. E, por não saber, deliro que naquele pátio sem muros, contra o céu, talvez a laranja esteja lá mais uma vez, em mais um inverno. Um manjar oferecido como um presente, por natureza tão miserável quanto aquela árvore. E que ele a esteja degustando num banquete único e sazonal, e por causa do sabor doce e incomum do fruto, lembrará de quando eu a devorei como um eclipse engole de uma vez só a lua inteira.

Hannah Arendt, poeta

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 27/05/2023.

Foi na entrevista concedida ao diplomata e jornalista Günter Gaus para o canal ZDF, em 1964, que Hannah Arendt fez a mais conhecida revelação a respeito da sua íntima relação com a poesia. Sem referir a sua própria criação em versos, ela declara que a poesia teve importante papel em sua vida. Comenta acerca da poesia grega e dos românticos alemães em sua formação. Já aos seis anos de vida, apreciava declamar em voz alta para o aplauso da família poemas de Heinrich Heine e, pelo que os brasileiros poderão conhecer melhor agora, a arte poética parece ter acompanhado sua vida não apenas como preferência de leitura, mas também numa muito esparsa coleção de poemas de sua autoria que a editora mineira Relicário traz a público numa edição bilíngue com a tradução do professor e também poeta Daniel Arelli.

O anúncio do trabalho de tradução da obra poética de Hannah não é recente, mas não deixa de ser curioso que a coleção completa dos seus poemas tenha chegado ao Brasil antes do que aos EUA, onde viveu seus últimos anos desde que refugiou-se em 1941. Por lá, ainda está em pré-venda o livro organizado por Samantha Rose Hill para a WW Norton & Co, cujo lançamento estava previsto para este mês. Já a publicação brasileira baseia-se na edição alemã e guarda seu título original: Também Eu Danço/Ich Selbst, Such ich Tanze. O volume traz ainda o posfácio da professora Irmela vin der Lühe e um caprichoso índice preparado por Anne Bertheau da aparição dos poemas que ela escreveu de modo disperso, detalhando onde apareceram, manuscritos originais e informações que atestam que, embora não os tenha publicado em vida, trabalhou nos poemas e os considerava parte de sua obra escrita.

Alameda Editorial / Reprodução

Embora seu tradutor brasileiro advirta na apresentação do livro que ainda não se tenha assumido uma apreciação de sua poesia por si mesma, mas sempre se busque relacioná-la a seu trabalho teórico e filosófico, basta alertar que a sua obra é de uma vida. Com poemas escritos entre 1923 e 1961, a coleção se inicia com um poema que ela escreveu aos 16 anos, logo que começou os estudos em Marburgo. Em seus últimos 10 anos de vida, parece que não teria mais voltado aos versos, mas deixou a coleção de poemas revisada e datilografada como se pretendesse publicá-la.

Estranharão os leitores, talvez, o encontro com uma poesia muito amorosa e com muitas referências aos amigos, como os poemas que dedicou a Walter Benjamin, Herman Broch, Kurt Blumenfeld e os muitos não nominados, mas claramente inspirados em sua relação amorosa com Martin Heidegger. Para a pensadora que declarou em A Permanência do Mundo e a Obra de Arte que a poesia seria a menos mundana e a mais humana das artes, a vontade de historicizar a própria vida atesta que no seu caso a autoexpressão nem sempre está em choque com o pensamento analítico, mas o anima ao ponto de que, em suas últimas lições filosóficas reunidas em A Vida do Espírito, Hannah Arendt tenha se preocupado em definir as formas pelas quais a imaginação poética e a metáfora fundamentam o desenvolvimento da linguagem e o pensamento filosófico.

No que seria uma distância em aparência intransponível entre o campo filosófico e a escrita poética, os poemas da autora permitem que se reconheça a síntese de muitos pensamentos desenvolvidos teoricamente e também o sentimento de uma época denominada por ela mesma de “obscura”. Não por acaso, o tom de seus poemas é predominantemente elegíaco. E, ainda que seus esquemas rítmicos sejam bastante convencionais, é justamente quando em direção ao pensamento filosófico que a sua poesia mais ousa, ao refletir a respeito da condição humana, da presença e a ausência do amor, da amizade, a morte e a história, fugindo sempre ao apelo do sentimentalismo.

A sua é uma poesia que não reserva muito espaço ao ego ou à confissão e se alicerça menos numa poética do que na própria filosofia com que ela travou uma relação precoce e ininterrupta, como leitora de Kant aos 17 e ainda aos 60. Com a edição brasileira de Também Eu Danço, será possível saber que Arendt ocupou-se tanto do horror totalitário e da filosofia política quanto da beleza e da liberdade mais superlativa do pensamento, além de completar a integridade de sua obra com um livro tão ou mais humanizante quanto a sua própria filosofia.

Just another life to live

Delicado é por agora um dos adjetivos preferidos pelas pessoas para descrever algo que as agrada. Normalmente se dedica o termo àquilo que nos parece brando, singelo, sutil.. O que é especial e notável pela beleza. Por outro lado, o termo também se aplica quando se quer dizer que o referente é difícil, frágil, requer cuidado. Quando a situação está delicada o que se quer dizer é que a situação é problemática. Um termo com muitos sentidos e que depende do que vem dele associado para se entender do que se trata.

Tenho lido por aqui a autobiografia de Vashti Bunyan e vou ficando cada vez mais impressionado pelo que leio e encantado com a simplicidade da pessoa e também da sua clareza de espírito.. Como pode o seu talento incrível ter sido tão menosprezado em sua época? Como pôde a crítica musical dos anos 60/70 ter sido tão implacável com uma menina de vinte e poucos anos a ponto de levá-la a concluir que a música não era para ela e que, portanto, o melhor seria desistir da carreira?

Foi o que aconteceu com Vashti. Lá pelas tantas, ela entendeu que seus sonhos e ambições eram despropósitos e exagerados e não iriam acontecer. E apesar da amargura terrível da desistência, foi o que ela fez e no inicio da década de 70 foi viver sua vida. Just another life to live, como diz o título da sua biografia.

Por diletantismo, tenho lido ao longo dos anos a respeito da vida de muitos cantores folk e roqueiros. Alguns têm livros em português, outros pego no Kindle. Comecei há tempos com a biografia de Bob Dylan, Johny Cash, Neil Young, Johni Mitchell, um livro da irmã de Janis em que ela destila um veneno impressionante. Os de Dylan e Neil Young me soaram tão artificiais que me desfiz deles. O de Johny Cash, por outro lado, guardo fora dos livros de música. Nunca curti muito o estilo vocal dele, mas o livro é realmente especial. Agora recomecei com Karen Dalton (outra vida duríssima), Nick Drake e Vashti. Nada disso tem em português.

A verdade é que o mundo artístico sempre teve esses fenômenos: artistas mirins que surgem como cometas e se desviam completamente, muitas desistências não reportadas ou feitas em silêncio e alguns poucos que têm esses resgates como teve a obra de Vashti graças a redescoberta por artistas muito mais jovens e ouvidos apurados, como o do pianista e compositor Max Richter, produtor de seus discos após o intervalo de 35 anos.

Essa redescoberta aconteceu com ela e também com outro fenômeno semelhante, Linda Perhacs, que, diante ao menosprezo geral, botou a viola no saco e foi viver sua vida de cirurgiã-dentista, voltando a gravar e a fazer shows quase septuagenária. Hoje é um clássico cultuado.

Se existe uma música que pode realmente ser chamada delicada por aí é a dela e se o seu nome não estiver na lista, desconfie. Se existem mesmo pessoas que nasceram fora de sua época, ela também é uma dessas pessoas. Nesse tempo em que a urgência de reconhecimento comanda a vida dos pretendentes ao estrelato, histórias como a de sua vida são interessantíssimas para redimensionar um pouco a gana, a pressa e o chamado à exposição da era das redes.

Onde vivem os livros?

“Onde vivem os livros?” seria um bom título hipotético para um livro que tratasse do que é feita a vida dos livros no Brasil. Do que é feita e também do que não é feita.

Que eu saiba, esse livro ainda não foi escrito e nem o tema dele muito explorado. Com exceção dos textos bipolares que aparecem na imprensa ora apontando mais uma crise insolúvel do setor, ora comemorando resultados inesperados, o mundo editorial é feito muitas vezes de números discordantes e inexplicáveis imprecisões.

Eu tenho por aí uma pequena coleção de textos que publiquei a respeito do assunto, mas a minha sensação é de que quanto mais eu leio e penso nisso, menos entendo. A culpa pode ser minha, eu sei, de uma fraqueza do meu raciocínio, mas cada vez mais eu me certifico de que essa é uma equação que não fecha, não adianta. As variáveis extrapolam do argumento e os valores então nem se fale, são quase números aleatórios dos quais o jornalismo sensacionalista se lambuza.

O que eu verifico com muita parcialidade é justamente que muitas vezes se criam situações estatísticas para provocar reações mercadológicas. Nas regras do jogo competitivo, isso está longe de ser uma prática criminosa, pois sempre se pode alegar um recorte determinado em detrimento de outros. Na prática, todo mundo faz isso, inclusive as instâncias do governo quando divulgam relatórios soberbos, inclusive as pessoas na economia familiar e pessoal, quando precisam ou desejam se justificar por qualquer razão, um gasto impensado, uma compulsão.

Mas a tentativa de responder a essa pergunta exige que se reporte aos dados disponíveis e eles são tão incongruentes que simplesmente dissolvem os raciocínios antes de que se possa pensar em conclusões.

Ou como se poderia harmonizar, por exemplo, os dados de uma pesquisa que informa que perdemos quase 5 milhões de leitores a cada quatro anos com outra que comemora o crescimento de 30% de vendas no mesmo período?

Como concatenar a informação acima com a notícia de que nos últimos 5 anos o país perdeu pelo menos 800 bibliotecas públicas e segue perdendo, em detrimento de negócios e pacotes fechados de “soluções” educacionais, institucionais, etc.

Como entender o país que tem o oitavo número de ISBNs registrado no mundo inteiro, mas não tem um depósito legal eficiente e notícias de livrarias fechadas tornaram-se habituais? De onde não se consegue um exemplar publicado há mais de vinte ou trinta anos sem que se tenha de vender um rim para conseguir comprá-lo? De um setor que, mesmo com a tecnologia estrepitosa, se comporta ainda como se na época da tipografia?

Como harmonizar a ideia de que 60% das escolas do país não contam com bibliotecas e mesmo assim o MEC descarta milhões de livros didáticos ano a ano?

E, principalmente, como aceitar que todas são informações válidas, se quando tomadas em consideração globalmente não pareçam fazer qualquer sentido?

Pois essa é apenas a pontinha do fio de Ariadne que amedronta qualquer pessoa sensata a enfrentar o labirinto de informações e ajuda muito mais a concluir que o melhor talvez seja viver sem entender. Mas viver sem entender é justamente ser um refém voluntário da ignorância, sem dúvida uma das mais inaceitáveis formas de mediocridade que existem.

Como conhecimento sem dor não existe, é preciso se colocar à disposição da realidade para enfrentá-la. E a realidade é que há o mundo real e o mundo da fantasia das estatísticas e das manchetes. Em primeiro lugar, seria preciso discernir quais livros estão sendo vendidos para qual destino e com que finalidade. Não é tão difícil. As próprias estatísticas das pesquisas encomendadas pelo setor livreiro e seus sindicatos informam isso, embora poucos se atentem ao que isso significa. A proficiência da leitura (e consequentemente, da escrita), por complexa, é outro assunto, mas não menos aterrador.

Nessa explosão editorial, 75% são reimpressões e não títulos novos. De todo o volume de vendas, mais de um terço do volume total da indústria livreira é destinado ao setor público, num faturamento que chega a dois bilhões/ano. Livros digitais (e-books) respondem por 4% dos títulos e vendas em números estagnados (o e-book é um péssimo negócio editorial). 53% de todos os títulos são obras didáticas e quase 20% são de conteúdo religioso. 10% são apostilas e a literatura adulta responde por imensos 6% do volume editado.

Por que esses números não são problematizados nos artigos estrepitosos que chegam à mídia via de regra culpando o leitor ou o combalido sistema educacional? Isso eu também gostaria de saber, mas continua integrando o combo da minha ignorância.

Enfrentar o senso comum e a sensação de que cada vez se lê menos sem entender esse descaminho imenso, leva a pensar que viveríamos uma apoteose livresca, com quase 400 milhões novos livros circulando anualmente. Mas onde estão esses livros todos? É isso precisamente que eu gostaria de entender, mas acho que vou morrer sem conseguir. Só o efeito disso eu vejo a cada vez que saio às ruas e a nossa pobreza social imensa me entristece profundamente. Mas se nem ela, que é evidente, consegue ser objetivamente combatida, imagine-se coisas e problemas que nem se consegue formular direito? No Brasil, pessoas se aborrecem com políticos e autoridades, eu me desanimo é com isso, com a ignorância generalizada que nos acomete sobre quase tudo.

* Onde vivem os livros é uma adaptação do título do filme “Onde vivem os monstros?”, baseado no clássico infantil de Maurice Sendak.

* Os dados estatísticos que citei são das pesquisas da Câmara Brasileira do Livro e Instituto Pró-Livro.

A revolução de 1923 no olhar de Cyro Martins

Artigo publicado na 9ª ed. da Revista Sepé.

Imagine-se um mundo sem redes sociais, sem internet, sem televisão, sem rádio ou jornais. Este é o mundo de Sombras na Correnteza, romance histórico que Cyro Martins publicou aos 71 anos de idade, em 1979, e que tem como pano de fundo a centenária Revolução de 1923.

Talvez o mais certo fosse dizer que se trata do olhar de Bilo Martins, o pai do próprio Cyro que é homenageado no romance e é também o personagem que testemunha o desenrolar daqueles dias remotos detrás do balcão de um comércio rural (um bolicho, na linguagem campeira). Mas o mais certo mesmo parece ser que o escritor tenha recombinado no livro memórias antigas com o olhar distanciado e a experiência acumulada em setenta anos de vida e muitas publicações nesse percurso. É o que ele próprio adverte no texto de orelha do livro, publicação da Movimento.

Na vida do campo, o bolicho não é apenas um local de comércio, é onde as pessoas se informam e propagam as novidades de boca em boca, de chasque em chasque. Na pasmaceira dos dias idênticos, o bolicho é o centro de comunicação que coloca em contato campo e cidade, o interior e o mundo.

Neste mundo quase um desvão do Brasil sem ainda uma imagem clara da modernização porvir e dominado pela figura autocrática do presidente Borges de Medeiros e a máquina político-militar do Partido Republicano Riograndense, uma eleição marcada pela suspeita (ou certeza) de fraude é o estopim para que o campo ainda muito militarizado em função da Revolução Federalista de 1893 volte a armar-se revivendo os momentos de violência que banharam de sangue o Rio Grande do Sul.

Em trinta anos, porém, o mundo havia mudado e muito. A marca maior da mudança tecnológica proveniente da I Guerra Mundial é o uso das metralhadoras em campo de batalha e agora, sob as ordens de Borges de Medeiros, a Brigada Militar as têm prontas para enfrentar as colunas enfileiradas nas coxilhas pelos apoiadores da candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil, do Partidor Libertador. Sob o comando do Gen. Flores da Cunha, as forças governistas vão bater-se contra a organização caudilhesca de figuras quase mitológicas, como o Gen. Zeca Netto e o Cel. Honório Lemes. Mais tarde, a revolta ainda será conhecida como a em que o facão enfrentou a matraca, numa alusão à disparidade das forças em combate.

Além de flagrar as escaramuças do conflito e retratar as longas viagens empreendidas pelas colunas militares, o olhar de Cyro é sensível também às pequenas mudanças. O próprio comércio do seu Bilo é afetado pela intensa evasão populacional da região da Campanha em direção às cidades. Embora até a década de 50 a população rural quase equivalesse à urbana, esse movimento revolucionário de 1923 foi definitivo na configuração geográfica e política do estado do Rio Grande do Sul. A partir da chegada de Getúlio Vargas ao poder, o foco da economia passa à industrialização incipiente e o campo a gerar e exportar a pobreza rural para a cidade. Em 1923, o gaúcho a pé que Cyro caracterizara em seus romances anteriores mais conhecidos (Sem rumoPorteira fechada e Estrada Nova) estava em vias de migrar para a cidade.

Sombras na correnteza é um romance político de um autor já maduro e mesmo sua linguagem é mais direta e clara aos olhos urbanos que seus livros anteriores. Cyro, que havia denominado sua literatura por “localista” no lugar do regionalismo mais otimista, não hesita em mostrar as feridas sociais e psíquicas que tanto afetam as pessoas do campo quanto as da cidade. Ao lidar com um exército precário contra o Estado organizado e militarizado, se ele coloca em pé de igualdade militares de campo e de gabinete, é porque foi dos últimos escritores a viver aqueles tempos tais como eles aconteceram. Não é livre de um tom melancólico que ele narra a guerra frátria do épico de 1923. A sensibilidade do autor para com o povo do Rio Grande do Sul e sua história nunca abandonou o homem cosmopolita que ele foi.

Yael Naim ao vivo em Paris

Yael Naim não é o que se poderia chamar de uma artista popularíssima. Nos países europeus, no entanto, tem sempre grande público e repercussão o seu trabalho autoral. No ano passado, ela realizou o seu primeiro trabalho ao vivo. Gravado em Paris, no interior da Eglise Saint-Eustache, o disco de 16 faixas registra boa parte do trabalho de seus quatro registros anteriores e conclui-se com New Soul, a canção pop-folk que encantou Steve Jobs e que ele escolheu para apresentar, em 2008, a versão slim do MacBook Air. Até hoje, é sua canção mais executada em todas as plataformas. A distância desta para as outras faixas está na casa das milhões de execuções. Na gravação ao vivo, ela desacelerou completamente o andamento da letra luminosa e positiva, transformando a canção em uma balada mais antenada ao seus novos e menos difundidos trabalhos.

Até onde sei, Yael andou pelo Brasil pela última vez em 2012, e minha intuição me diz que tão cedo não andará novamente. É uma pena. Eu facilmente venderia um dos meus dentes de ouro para assisti-la.

Yael é um cantora e compositora nada menos que magistral e que não tem receio de explorar seus sentimentos mais densos para criar e interpretar. Ela também tem muitas interpretações gravadas de “terceiros”. Lembro dela cantando James Blake, Radiohead, Mooses Summey e, talvez, a sua segunda gravação mais executada até agora: Toxic, de Britney Spears.

Seu terceiro disco solo, Older, tem duas versões. A original, de 2015, e uma versão revisitada com muitos remixes e participações especiais como as da cantora inglesa Flo Morrissey (na faixa título Older) e na operística Coward que aparece em duas versões, uma acompanhada pelo pianista Brad Mehldau e outra pela Metropole Orkest, um híbrido de orquestra sinfônica, big band e jazz contemporâneo.

O seu segundo disco, She was a boy, não lhe trouxe muitos sucessos, mas é um trabalho de muita unidade em que ela mescla as influências da música israelense e um pop folk delicado, no qual às vezes aparece tocando violão e noutras piano. “Proficiente” nos dois instrumentos, Yael costuma aliar simplicidade instrumental e harmônica a um largo alcance vocal. Em seu primeiro disco, ela está ainda mais “enraizada”, quer dizer, compõe e canta muitas canções em hebraico e em francês. É dele a gravação original de New Soul.

Em 2019, gravou a trilha sonora de Mon Bebé, filme francês que, ao que me consta, nunca chegou ao Brasil nem nos cinemas nem via streaming.

Seu mais recente disco, Nightsongs, é bastante sombrio se comparado aos primeiros. Há um flerte com o gótico em muitas faixas e nos clipes que foram produzidos para o disco. Na internet francesa, vi quem dissesse que era um disco de “cortar os pulsos”. Exagero provável de um público cuja fidelidade às vezes se torna obsessiva e que parece não ter recebido bem a variação de humor nas composições.

Obviamente, Yael amadureceu muito desde o sucesso de New Soul e sua lírica tornou-se mais complexa e, neste disco especialmente, mais triste. Algum problema nisso? Só se isso competisse num disco de má qualidade e, bem, basta que se o ponha para tocar para ver que o seu poder vocal está mantido, sua poética alargada até mesmo idiomaticamente e sua lírica ainda mais emocionada. Nigthsongs é um disco imenso e que não se pode ouvir aleatoriamente, daí que isso possa suscitar reações de fãs acostumados a singles de 3 minutos.

Apesar de uma carreira de 20 anos, Yael Naim conta ainda hoje com uma única resenha no Brasil, de 2009. Acho que com essa recepção não dá mesmo para contar com que um dia ela volte a aparecer por aqui.

Coisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.

Mariana Machado diante do mundo

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/03/2023.

Junto aos demais nas prateleiras de uma livraria, numa tela da internet ou na coleção particular de alguém, um livro é sempre muito semelhante aos outros livros. Como se pode distinguir um de outro? Não é pela gramatura ou qualidade da celulose, certamente não, mas logo se intui que o peso de um livro reside mais na obra e no que dela é inerente do que no objeto e sua exterioridade. É por isso que todos conseguem atestar uma descompensação tanto no valor de venda quanto no valor intrínseco de objetos de aspecto tão semelhante. Semelhança apenas aparente, diga-se de passagem. Nem todo o livro é obra e quem o disse não fui eu, mas Jacques Derrida na sua Gramatologia. De fato, a diferença se dá à leitura e logo que se a inicie desencadeia-se um complexo processo analítico-comparativo.

É essa a balança que cada qual regula com sua experiência, preferências e disposição para a surpresa. Quando acontece, é como o tilintar das moedas de uma slot machine: já não se pode mais largar aquele livro único e inimitável.

Não foi por sorte que caiu em minhas mãos o novo livro da poeta gaúcha Mariana Machado. Eu a leio desde as suas primeiras publicações e sei que, portanto, este é um livro de uma carreira que em 2022 obteve com Cães e Astromélias (Mondrongo, 2021) o terceiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Agora, Mariana traz pela mesma editora um volume generoso de 250 páginas de sua poesia, com a publicação de Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol. Com o livro, o universo poético de Mariana ao mesmo tempo se arroja e densifica. Certamente, não pesaria mal em nenhuma boa livraria ou na prateleira de boa poesia de uma biblioteca.

Abertas as portas do universo expandindo do livro de Mariana, logo se parte ao encontro de uma recriação em versos do épico Sidarta, de Herman Hesse. Os 47 cantos do poema dão conta da busca por esclarecimento que o buda empreendeu a sós em sua bem conhecida jornada. Aqui, logo se pode ver que também Mariana empreende uma jornada em que se confronta consigo mesma e com o mundo numa tensão poética rara de se ver. E o esclarecimento de Sidarta, o que “quisera dar-se apaixonadamente a tudo”, e que cumpriu o destino por ele mesmo forjado e “deixou tudo para trás e foi-se embora”, não é senão a aprendizagem dos que se desapegam, nesse processo de decantação pelo qual também se transformam os poetas em poetas.

Ao recuperar os ecos antepassados das mulheres do Rio Grande do Sul ou ao combater e desvendar a densidade do mundo presente, Mariana combina sua voz mais coloquial com os recursos de uma excelente leitora de poesia. Isso se confirma ao conhecerem-se as traduções que ela também registra no livro e vão de Goethe a Jacques Prévert, alargando as margens do seu próprio universo ao universo de outros tantos poetas.

No poema A Lavadeira, a poeta rende a sua escuta poética às mulheres:

Quebrando a geada, pé por pé, no mato,
alta a trouxa de roupas – feito Atlas –,
pulando arames, chega à beira d’água
pra mergulhar os dedos, vê-los mortos
e desfazer na fibra seus caroços.

Sim, há mais escuta e um olhar acurado para a vida que um discurso em seus poemas. É uma escuta de memória e da trama dos motivos sutis da vida feminina, suas restrições históricas, desejos e ambições. Mas a poesia se dá apesar disso e quando se encontra com o que há de sublime no mínimo, vê-se também que a poeta nunca prescinde de sua integridade e dedica aos versos, além de técnica vigorosa e têmpera mental, a amorosidade áspera e táctil como é própria da dicção do sul. Livre do embaraço dialetal, a poesia de Mariana rebrilha de sua própria luz.

Mas é poesia que também se deixa notar no mais íntimo processo de maternidade e no encontro de uma plenitude inesperada entre o trivial e o religioso. Com um senso crítico por vezes cáustico, encara a própria rotina e a literatura desse tempo com o mesmo desembaraço com que se depara com as questões metafísicas da fé e de Deus. Seja com a leveza sintética do hai kai ou valendo-se da tradição das formas fixas, ela expande seu domínio do ofício sem que se encontre sequer uma repetição de motivos. Além de uma raridade, uma amostra de que este é um universo irrefreável. Vivendo em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, para nossa sorte o seu universo agora se torna acessível na forma de um livro que também é obra. Talvez por essa combinação pese bastante também na sua estante de livros.