5 canções de Nick Drake

Nicholas Rodney Drake (19 de junho de 1948 – 25 de novembro de 1974) foi um cantor e compositor inglês conhecido por suas canções baseadas em violão . Ele não encontrou um grande público durante sua vida, mas seu trabalho gradualmente alcançou maior notoriedade e reconhecimento. Drake estudou na Universidade de Cambridge e lançou seu primeiro álbum, Five Leaves Left , em 1969. Depois, gravou mais dois álbuns – Bryter Layter (1971) e Pink Moon (1972). Nenhum dos dois vendeu mais de 5.000 cópias no lançamento inicial. Não há imagens de vídeo conhecidas do Drake adulto; ele só foi capturado em fotos estáticas e em filmagens caseiras de sua infância. Drake tratava-se de deprssão, o que é refletido em suas letras. Após a conclusão de seu terceiro álbum, Pink Moon de 1972 , ele se retirou das apresentações ao vivo e das gravações, retirando-se para a casa de seus pais na zona rural de Warwickshire . Em 25 de novembro de 1974, Drake morreu de overdose de um antidepressivo prescrito, aos 26 anos. Se sua morte foi um acidente ou suicídio não foi resolvido (com informações da Wikipedia).

Um lugar para ficar

Quando eu era jovem, ainda mais do que agora
Nunca vi a verdade pendurada na porta
E agora estou mais velho, vejo isso em meu rosto
E agora preciso levantar, limpar este lugar

Eu era fresco, mais que os montes
Onde as flores crescem e o sol ainda brilha
Agora estou mais escuro que o mar mais profundo
Então apenas me aceite, me dê um lugar para ficar

E eu era forte, forte como o sol
E pensei que o veria quando o dia acabasse
Agora estou mais fraco que o azul mais pálido
Oh, tão fraco nessa espera por você

A place to be

When I was young, younger than before
I never saw the truth hanging from the door
And now I’m older, see it face to face
And now I’m older, gotta get up, clean the place

And I was green, greener than the hill
Where flowers grow and the sun shone still
Now I’m darker than the deepest sea
Just hand me down, give me a place to be

And I was strong, strong in the sun
I thought I’d see when day was done
Now I’m weaker than the palest blue
Oh, so weak in this need for you


Roupas de areia

Quem te vestiu com estas roupas de areia?
Quem te levou para tão longe da minha terra?
Quem disse que minhas palavras estavam erradas?
E quem dirá que fiquei muito tempo?

Roupas de areia cobriram seu rosto
Mudaram você, tomando o meu lugar
Então vá em frente, siga até o mar
Algo levou você tão longe de mim.

Voltaram a valer a pena as cores do céu?
Para ver a terra, usa os olhos pintados?
Para olhar através das vidraças sombreadas?
Ver as manchas da grama no inverno?

Agora você pode voltar para o lugar que partiu?
Tente queimar o seu novo nome
Ou com colheres de prata e luz colorida
Você cultuará as luas, nas noites de inverno?

Roupas de areia cobriram seu rosto
Mudaram você, tomando o meu lugar
Então vá em frente, siga até o mar
Algo levou você tão longe de mim.

Clothes of sand

Who has dressed you in strange clothes of sand?
Who has taken you far from my land?
Who has said that my sayings were wrong?
And who will say that I stayed much too long?

Clothes of sand have covered your face
Given you meaning, taken my place
Some make your way on down to sea
Something has taken you so far from me

Does it now seem worth all the color of skies?
To see the earth through painted eyes
To look through panes of shaded glass
See the stains of winter’s grass

Can you now return to from where you came?
Try to burn your changing name
Or with silver spoons and colored light
Will you worship moons in winter’s night?

Clothes of sand have covered your face
Given you meaning taken my place
So make your way on down to the sea
Something has taken you so far from me


O cão de olhos negros

Um cão de olhos negros, ele chamou na minha porta
O cão de olhos negros, ele pediu por mais
Um cão de olhos negros, ele sabia meu nome
Um cão de olhos negros, ele sabia meu nome

Um cão de olhos negros

Eu estou ficando velho e quero ir pra casa
Eu estou ficando velho e não quero saber
Eu estou ficando velho e quero ir pra casa

Um cão de olhos negros chamou na minha porta
Um cão de olhos negros me pediu por mais

Black eyed dog

Black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog
A black eyed dog
I’m growing old and I wanna go home, I’m growing old and I dont wanna know
I’m growing old and I wanna go home
Black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more


Sábado de sol

O sol de sábado veio cedo nessa manhã
Num céu tão claro e azul
O sol de sábado veio sem avisar
Então ninguém sabia o que fazer
O sol de sábado trouxe pessoas e rostos
Que não pareciam em seus melhores dias
Mas quando me lembro daquelas pessoas e lugares
Eles eram realmente muito bons no que faziam
Do jeito deles
Hoje o sol de sábado não veio me ver

Pense em histórias com razão de ser
E rimas circulando em sua mente
E pense nas pessoas em seu próprio tempo
Voltando de novo e de novo
E de novo
E de novo
Mas o sol de sábado virou a chuva do domingo

Saturday Sun

Saturday sun came early one morning
In a sky so clear and blue
Saturday sun came without warning
So no-one knew what to do
Saturday sun brought people and faces
That didn’t seem much in their day
But when I remembered those people and places
They were really too good in their way
In their way
In their way
Saturday sun won’t come and see me today

Think about stories with reason and rhyme
Circling through your brain
And think about people in their season and time
Returning again and again
And again
And again
but Saturday sun has turned to Sunday’s rain


O homem do rio

Betty veio por sua conta
Disse que tinha algo para dizer
Sobre as coisas hoje
E as folhas no chão.

Disse que não soube das novidades,
Não teve tempo para escolher
Uma maneira de perder,
Mas ela acredita.

Eu vou ver o homem do rio
E lhe direi tudo o que posso
Sobre os planos
Para a primavera.

Se ele me disser tudo o que sabe
Sobre como o seu rio flui
E como toda a noite ele se mostra
Quando é verão.

Ela disse que hoje rezou
Para o céu soprar para longe
Ou talvez deixar –
Ela não tinha certeza.

E quando pensou na chuva de verão
Chamando por ela mais uma vez
A dor passou
E ficou um pouco mais.

Eu vou até o homem do rio
E contar a ele tudo o que posso
Sobre a proibição
De me sentir livre.

Se ele contar tudo o que sabe
Sobre o modo como o rio flui
Eu não irei supor
Ser para mim.

Oh, como eles vêm e vão.

Riverman

Betty came by on her way
Said she had a word to say
About things today
And fallen leaves.

Said she hadn’t heard the news
Hadn’t had the time to choose
A way to lose
But she believes.

Going to see the river man
Going to tell him all I can
About the plan
For lilac time.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
And all night shows
In summertime.

Betty said she prayed today
For the sky to blow away
Or maybe stay
She wasn’t sure.

For when she thought of summer rain
Calling for her mind again
She lost the pain
And stayed for more.

Going to see the river man
Going to tell him all I can
About the ban
On feeling free.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don’t suppose
It’s meant for me.

Oh, how they come and go
Oh, how they come and go.

The trapeze swinger (Sam Bean)

Sam Bean (1974), que também usa o nome artístico Iron & Wine, é cantor e compositor estadunidense de folk rock. Beam lançou seu primeiro álbum como Iron & Wine em 2002, intitulado “The Creek Drank the Cradle”, pela gravadora Sub Pop. “The trapeze swinger” está no álbum “Around the weel”, de 2009.

O trapezista

Por favor, lembre-se de mim
com alegria,
ainda próximo à roseira, rindo
e cheio de machucados no queixo.

Na época em que
contávamos, ainda acordados,
cada carro preto que passava
por sua casa, abaixo da colina,
até que alguém nos pegou na cozinha
com mapas, sob uma cadeia montanhosa,
um cofrinho de porco
e uma remota visão do futuro.

Mas, por favor, lembre-se de mim
carinhosamente…

Ouvi dizer que você continua linda
e que eles ficaram dizendo
que os portões perolados
tinham graffitis eloquentes
tipo “nós nos encontraremos de novo”
e “foda-se o homem”
e “diga para minha mãe não se preocupar”
e anjos com seus cumprimentos
cinzentos
feitos sempre com tanta pressa.

E, por favor, lembre-se de mim
no Halloween
fazendo todos os vizinhos de idiotas
com nossos rostos pintados de branco.

Pela meia-noite
nós esquecemos um ao outro
e quando a manhã chegou
eu estava morto de vergonha.

Somente agora parece tão bobo:
aquela época deixou este mundo
e depois retornou
e agora você está iluminada pela cidade.

Então, por favor, lembre-se de mim
mesmo que da forma errada..

Na janela da mais alta torre
eles passam por nós,
mas alto demais
para ver a estrada vazia no fim da tarde.

Partem e ressoam
iguais aos portões
em torno do reino sagrado
com palavras como
“achados e perdidos”
e “não olhe para baixo”
e “alguém me salve da tentação”.

Por favor, lembre-se de mim
como no sonho,
éramos como bebês esfolados
entre as árvores caídas
e dormindo rápido
à parte os leões e as damas
que lhe chamaram como você prefere
e podem até mesmo
presenteá-la pelo seu comportamento
e uma chance efêmera de ver
um trapézio
balançar tão alto quanto
quem a socorreria.

Mas, por favor, lembre-se de mim
em minha tristeza
e como eu perdi tudo o que queria..

Aqueles cachorros que amam a chuva
perseguindo os trens.

Os pássaros coloridos lá em cima correndo
em círculos em volta do poço
e onde ele descansa
na parede atrás do São Pedro
tão brilhante no cinza
com tinta spray
“quem diabos pode sempre entender?”

E, por favor, lembre-se,
quando puder..

No carro atrás do carnaval,
com minha mão entre seus joelhos
e você virou para mim dizendo
“o espetáculo do trapezista foi maravilhoso”

O trapezista

Please, remember me happily
By the rosebush laughing
With bruises on my chin
The time when we counted every black car passing

Your house beneath the hill and up until
Someone caught us in the kitchen
With maps, a mountain range, a piggy bank
A vision too removed to mention

But please, remember me fondly
I heard from someone you’re still pretty
And then they went on to say that the pearly gates
Had some eloquent graffiti

Like “We’ll meet again” and “Fuck the man”
And “Tell my mother not to worry”
And angels with their gray handshakes
Were always done in such a hurry

And please, remember me at Halloween
Making fools of all the neighbors
Our faces painted white by midnight
We’d forgotten one another

And when the morning came, I was ashamed
Only now it seems so silly
That season left the world and then returned
But now you’re lit up by the city

So please, remember me mistakenly
In the window of the tallest tower call
Then pass us by but much too high
To see the empty road at happy hour

Gleam and resonate just like the gates
Around the holy kingdom
With words like “Lost and found” and “Don’t look down”
And “Someone save temptation”

And please, remember me as in the dream
We had as rug-burned babies
Among the fallen trees and fast asleep
Beside the lions and the ladies

That called you what you like and even might
Give a gift for your behavior
A fleeting chance to see a trapeze
Swinger high as any savior

But please, remember me, my misery
And how it lost me all I wanted
Those dogs that love the rain and chasing trains
The colored birds above their running

In circles ‘round the well and where it spells
On the wall behind St. Peter’s
So bright on cinder gray and spray paint
“Who the hell can see forever?”

And please, remember me seldomly
In the car behind the carnival
My hand between your knees, you turn from me
And said the trapeze act was wonderful

But never meant to last, the clowns that passed
Saw me just come up with anger
When it filled with circus dogs, the parking lot
Had an element of danger

So please, remember me, finally
And all my uphill clawing, my dear
But if I make the pearly gates
Do my best to make a drawing

Of God and Lucifer, a boy and girl
An angel kissing on a sinner
A monkey and a man, a marching band
All around the frightened trapeze swingers

Who knows where the time goes (Sandy Denny)

Alexandra Elene MacLean Denny (Sandy Denny, 1947 – 1978) foi uma cantora inglesa que foi vocalista da banda britânica de folk rock Fairport Convention. Gravou apenas quatro discos em nome próprio mas ainda é a rainha da folk-rock britânica.

Quem sabe aonde o tempo vai?

No céu noturno, todos os pássaros vão embora
Mas como eles sabem que é hora de partir?
Antes do fogo do inverno, ainda estarei sonhando
Mas eu nunca penso no tempo

E, afinal, quem sabe para onde vai o tempo?
Quem sabe onde o tempo vai?

A praia está triste e deserta, seus amigos incertos partiram
Ah, mas então você sabia que era hora de eles irem
Mas eu ainda estarei aqui, não penso em sair
Eu nunca nem conto o tempo

Pois quem sabe para onde vai o tempo?
Quem sabe onde o tempo vai?

Eu não estou sozinha enquanto o meu amor está próximo
Eu sei que vai ser assim até a hora de partir
Então vêm as tempestades de inverno
E depois os pássaros na primavera outra vez
Mas eu não tenho medo do tempo

Pois quem sabe como o meu amor cresce?
E quem sabe para onde vai o tempo?

Who Knows Where The Time Goes

Across the evening sky, all the birds are leaving
But how can they know it’s time for them to go?
Before the winter fire, I will still be dreaming
I have no thought of time

For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?

Sad, deserted shore, your fickle friends are leaving
Ah, but then you know it’s time for them to go
But I will still be here, I have no thought of leaving
I do not count the time

For who knows where the time goes?
Who knows where the time goes?

And I am not alone while my love is near me
I know it will be so until it’s time to go
So come the storms of winter and then the birds in spring again
I have no fear of time

For who knows how my love grows?
And who knows where the time goes?

In tall buildings (John Hartford)

John Cowan Hartford (1937–2001) foi um bandolinista, guitarrista acústico, violinista, banjoísta, dançarino, piloto de rebocador e barco fluvial a vapor, compositor e cantor folk e country americano conhecido por suas letras espirituosas, estilo vocal único e extenso conhecimento da tradição do rio Mississippi.

Num arranha-céu

Um dia desses, quando eu for um homem
E outros me ensinarem
Tudo o que eles puderem
Me venderão um terno
E cortarão meu cabelo
E me enviarão a trabalhar num arranha-céu

Isto significa dar adeus ao sol
E adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você –
Eu estou indo para o metrô
Não devo me atrasar
E ir ao trabalho num destes arranha-céus

Mas quando eu me aposentar
E minha vida voltar a ser minha
E eu não dever mais nada a ninguém
Será hora de ir para casa
Eu me pergunto o que houve
Nem uma coisa e nem outra
Quando fui trabalhar nos arranha-céus

E é adeus ao sol
Adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Eu não devo me atrasar
Para estar no arranha-céu

In tall buildings

Someday, my baby, when I am a man
And others have taught me the best that they can
They’ll sell me a suit then cut off my hair
And send me to work in tall buildings

So it’s goodbye to the sunshine
Goodbye to the dew
Goodbye to the flowers
And goodbye to you
I’m off to the subway
I must not be late
I’m going to work in tall buildings

Oh when I retire
My life is my own
I made all the payments
It’s time to go home
And wonder what happened
Betwixt and between
When I went to work in tall buildings

So it’s goodbye to the sunshine
Goodbye to the dew
Goodbye to the flowers
And goodbye to you
I’m off to the subway
I must not be late
Going to work in tall buildings

So it’s goodbye to the sunshine
Goodbye to the dew
Goodbye to the flowers
And goodbye to you
I’m off to the subway
I must not be late
I’m going to work in tall buildings

O destino de Sepé Tiarajú

Neste dia (ou amanhã), há 267 anos, caía morto Sepé Tiarajú. Ao que parece, no que hoje é o município de São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul.

Gravura de Edgar Koetz (1914-1969) para o livro “Tiaraju”, de Manoelito de Ornellas. Editora Globo, 1945.

Sepé é uma figura sem figura, ou seja, não temos ideia de como seria a sua fisionomia nem quais seriam suas características físicas. A iconografia que se dedica a ele, todavia, é sempre muito generosa. Há representações bastante heroicas e sua imagem foi produzida em esculturas, pinturas, desenhos, HQs, etc. O fenótipo quase nunca remete propriamente ao dos guaranis.

Sepé é um dos poucos santos populares do Rio Grande do Sul e desde 2018 se discute no Vaticano a sua canonização. Apesar disso, (pelo menos eu) não tenho conhecimento de ao menos uma oração ou prece consagrada nessa idolatria. Há os versos que João Simões Lopes Neto recompilou da voz popular, mas também é dito que os versos teriam sido criação sua. Não se pode saber. O passado de Sepé é feito em muita névoa e polêmica, como a que mobilizou e dividiu a intelectualidade rio-grandense, nos anos 50, em torno de homenagem proposta por um militar ao então governador Ildo Meneghetti.

De fonte apócrifa, certa vez ouvi que Sepé não seria exatamente um guarani, mas uma criança filha de mãe guarani e pai ocidental. O insólito da informação é que este pai teria nome e sobrenome muito conhecidos: Jerônimo de Ornellas. De acordo com a fonte, o fundador de Porto Alegre manteria relações comerciais com os povos missioneiros e, dessas idas e vindas, teria nascido a criança que ficou ao encargo da criação dos jesuítas.

Eu tenho desconfiança disso e não me custa muito deduzir que possa ser, também, uma busca por apropriação de um dos poucos heróis indígenas registrados na Guerra Guaranítica. Mas também, como não se pode exumar o corpo e examinar o dna de Sepé, não estou em condições de dizer que seja uma história impossível. Na minha opinião, é duvidosa, dado que os relatos militares dos encontros com Sepé não parecem indicar um fenótipo branco. Os relatos indicam, por outro lado, um indivíduo enérgico e orgulhoso de pertencer à sua nação guarani.

Mas de Sepé tudo parece ser mesmo assim. Até mesmo a data de sua morte e sua circunstância são problemáticas. Teria morrido por lanças ou por balaços, em São Gabriel ou teria sido transladado a Montevideo para mais torturas. De qualquer modo, a morte de Sepé tem o estatuto do épico e poetas e escritores (e também historiadores) a tem pintado com mais ou menos dramaticidade e verossimilhança.

Seja como for, dali a três dias de sua morte, aconteceria uma chacina de proporções absurdas, na qual milhares de guaranis foram massacrados pela conjugação dos exércitos espanhóis e portugueses, decididos a implementar a qualquer custo o Tratado de Madri, de 1750.

A repercussão do tratado haveria de levar ao morticínio de praticamente todas as etnias originárias presentes na região do pampa. E, quanto mais “infiéis”, mais barbaramente foram massacradas. Isso implica que não havia mais espaço para um modo de vida intermediário para os indígenas: ou agauchavam-se ou eram mortos para dar lugar à ocupação de seus territórios e colonização do sul.

Em 100 anos, ou seja, até 1850, no Rio Grande do Sul é muito incerto dizer se havia ou não ainda a presença dos “infiéis”: charruas, guenoas, minuanes, yaros, etc. Mais certo dizer que havia seus descendentes, mas já num novo modo de vida e organização política.

Antes da Guerra Guaranítica, parece certo dizer que muitas dessas etnias miscigenaram-se. Uniões entre fieis reduzidos e infiéis nômades parecem ter acontecido e muito tanto no Uruguai quanto no que hoje é território brasileiro.

Já o vizinho Uruguai, desde a matança de Salsipuedes, diz-se um país “sem índios” e até hoje é um dos raros países que se recusa a assinar a Convenção 169 da OIT sobre o direito dos povos indígenas, o outro é a Guiana Francesa.

Em que pese a reinvindicação de 5% da população em reconhecer antepassados indígenas, trava-se no país uma disputa política bastante dramática entre descendentes e governos. Inclusive o ex-presidente Pepe Mujica parece ter confrontado uma importante liderança indígena, a antrópologa Mónica Michelena Díaz, para que desistissem de insistir no “mito charrua”. Estranhamente, a posição é a mesma do ex-presidente Julio Maria Sanguinetti que, além de negar o massacre de Salsipuedes, prefere classificar o movimento reivindicatório por “charruísmo “.

Assim como Sanguinetti e Mujica, muitos intelectuais e políticos mostram-se reticentes em relação às reivindicações presentes. Não houvesse comprovações documentadas de próprio punho de Rivera, até seria possível tomar em consideração tais alegações, mas o que isso mostra, afinal, é que a insistência no país sem índios permanece e se encontra muito viva entre os vizinhos uruguaios. Por outro lado, a busca por outras narrativas vem acontecendo no sentido de repolitizar o assunto dado por ali como encerrado desde 1831.

Na minha opinião, é absurdo negar a quem quer que seja a reivindicação de suas origens e, se na cultura ameríndia a intersubjetividade costuma alcançar inclusive outras espécies da natureza, que se dirá de um interdito historicista como este? Violência simbólica livremente transposta para o campo político.

Quanto à memória e imagem de Sepé eu temo que nunca saberemos ao certo quem foi, mas me parece um caso de santo muito atípico, com uma iconografia tardia e imprecisa. A mim, por exemplo, não consta que Sepé seja invocado como credo por fiéis. Sem oração nem figura certa, resta um nome que, no contraste pela simplicidade, significa tanto ainda para a população do RS. Significa sobretudo um signo vivo para as populações guaranis que precisam daquela mesma coragem para enfrentar as dificuldades de estar aqui (e com todo o direito a estar), entre nós, quando ainda custamos a aceitar e respeitar sua presença.

A máquina de desaparecer

Foi na casa de uma tia onde me hospedava, criança ainda, que encontrei o primeiro espelho de desaparecer.

A máquina era estática e dependia de que eu a movesse com as mãos: funcionava caso eu acionasse as portinholas laterais. A maior serventia do espelho era fatiar o rosto em reflexos e desvios infinitos, de modo que não fosse possível encontrar o foco a não ser se ele estivesse planificado como uma lagoa, mas aí perdia sua magia e razão de ser.

Era um espelho que permitia o fitar, e cujo maior atrativo mesmo era o de fazer desaparecer. Pelo menos essa parecia ser a sua vontade, embora, por necessidade, servisse também ao propósito do reflexo perfeito.

Foi ali que pela primeira vez levei uma lâmina de barbear à face de menino. A lâmina descartável de um primo quase desconhecido que o instrumento guardava numa das portinholas. Por um momento rápido, a lâmina aproximou vertiginosamente nosso parentesco e o sangue de um e de outro, mesmo que em tempos distintos.

O primo era alguns mais velho do que eu, mas o suficiente para que me tratasse como criança. E quando nos encontrávamos no longo corredor da casa, sempre parecia que era a primeira vez que me via na vida, tornando minha presença estranha ao lugar, a sua família e suas coisas.

Naqueles dias frios de julho, a mãe faria em Porto Alegre uma cirurgia de vida ou morte e eu me enfiava sob as cobertas sem saber se acordaria órfão ou não. Com as mãos tremendo entre os joelhos e olhos esbugalhados no nada, sentia a presença de uma pequena luz amarela que se movia no escuro do quarto de dormir e só aquilo me acalmava e induzia ao sono. Nada mais me concentrava a atenção.

Todas as manhãs daquela hospedagem involuntária, eu encontrava o espelho já em funcionamento. As portinholas abertas me desviariam para sempre se não as endireitasse.

Eu gostaria de que não me enxergassem nem ali e nem no colégio notassem muito a minha presença e os fiapos de barba que cresciam em meia lua sob os maxilares. Para isso, agora eu tinha de ferir minha própria face, a pele quase imberbe e ainda delicada como a de um anjo tornando-se áspera e os olhos da adultez fulminando a criança que ainda teimava em usar um mero espelho como uma máquina de desaparecimento.

A vida mesmo é outra coisa

Há um tempo já recebi um convite inusitado. Para mim pelo menos, completamente inusitado. Tratava-se de escrever uma biografia de uma pessoa viva. Instantaneamente eu o recusei.

Não que eu considere que os vivos não possam ser biografados, afinal não há nada que impeça isso e biografias de pessoas vivas, especialmente celebridades, são abundantes. Não que eu tivesse pudor de qualquer espécie em saber detalhes íntimos de alguém para realizar uma encomenda assim. Não é nisso que estamos sempre interessados ao querer entender uma pessoa? Entender o que move suas decisões? Seus sentimentos e motivações mais entranhados? Estou querendo dizer que somos todos um pouco fuxiqueiros? Claro que somos!…

Porém não é disso que se trata e a pessoa em questão tem uma história de vida, que conheço en passant, duríssima. Dificílima mesmo. E o primeiro que me veio em mente foi que seria duríssimo para mim também contá-la de qualquer maneira, porque não saberia me desvincular da pessoa biografada. Não tenho essa capacidade de distanciamento de ouvir um relato e não me envolver emocionalmente com ele.

Por isso que prefiro escrever ficção a tratar rigorosamente da realidade. Na ficção, por pior que seja uma situação humana, há uma projeção e uma certeza antecipada de que, terminada a narrativa, nada terá acontecido de real a ninguém. Mesmo na pior tragédia, não restarão mortos e feridos e isso representa um alívio considerável a quem escreve, embora sua intenção possa ser muitas vezes erigir uma vida como se real ela fosse. Felizmente, pelo menos no meu caso, não é. A realidade é intocada pela ficção e a maneira mais efetiva que um escritor pode contatá-la eu acredito que seja, por contraditório que pareça, por meio da poesia. Isso porque a poesia fala diretamente com o real, ainda que de modo simbólico e metafórico, mas num real sentido mais do que aquele vivenciado e partilhado nas narrativas.

Outra coisa a considerar é que um relato é sempre ficcional. Qualquer um que relate um fato ou tente apreender e representar a realidade de outra pessoa irá fatalmente depositar suas impressões ou pelo menos estabelecer um ângulo específico de apreciação. Nem sobre a própria vida é dado ao ser humano, afinal, ser rigorosamente imparcial e sincero. Muito pelo contrário! Quantos, ao falarem de si mesmos, não acabam aplicando-se um lustro exagerado ou sonegando sombras comprometedoras? Talvez, num inquérito policial, ou em juízo, alguém poderia ser totalmente imparcial consigo mesmo e relatar os fatos com concretude total. Ainda assim, ao tratar da motivação humana, toda essa arquitetura realista simplesmente evapora. Sobram impressões, antevisões, tentativas, aproximações, receios, pudores – coisas assim.

Por isso, pelo menos no que diz respeito a mim, a subjetividade dificilmente comporta uma narrativa e fazê-la com competência requer um tipo de empreendimento literário altamente complexo que nem se produz muito hoje, como no Brasil Clarice Lispector ou Lucio Cardoso fizeram tão bem nos anos 50 do séc. XX.

Porque variável por natureza, a subjetividade é o reino da poesia. E, por mais apreço que eu possa ter ou vir a ter para com alguém, jamais me sentiria capaz de subjugar à linearidade narrativa que uma biografia exige a subjetividade de quem quer que seja. Daí a necessidade de expurgar de mim a psicologia dos outros na ficção, porque simplesmente chega um momento em que um personagem não cabe mais dentro da gente (o tal “outro” também não cabe inteiramente a não ser num delírio benevolente ou na santidade), precisa ganhar vida própria, mesmo que uma vida imaginária, e encerrar sua trajetória e calar sua voz dissonante para sempre.

Porque a vida real é muitas vezes insuportável de ser conhecida em detalhe, criou-se talvez a ficção. Para que pudéssemos tomar conhecimento das piores tragédias, mas com a possibilidade de fechar o livro e nunca mais se incomodar com isso. Porque a vida mesma, bem, ela é inteiramente outra coisa.

Novos mares para Mar Becker

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/12/2022.

Pode parecer galhofa, como dizem os portugueses, mas, na falta de uma estimativa (e de qualquer rigor matemático), palpiteiros desocupados arriscam dizer que existem em atividade no Brasil contemporâneo algo em torno na casa dos milhares de poetas. Milhares ou milhões, afirmam os mais entusiasmados.

Considerando-se o Estado do Rio Grande do Sul e sua população estimada em 11 milhões de pessoas, pode-se presumir, portanto, a existência contemporânea de um número não pouco considerável, mantidas as proporções geográficas. Dentre estes, certo é que quase nem um conta ainda com o reconhecimento do nosso maior poeta, Mario Quintana. Lembre-se, por exemplo, da intensa repercussão da descoberta de um inédito seu no início de 2022, quando no Brasil inteirou se discutiu a autenticidade dos versos escritos em 1942, de acordo com a data grafada ao final dos versos de Canção do Primeiro do Ano. Setenta anos mais tarde, a descoberta suscitou o interesse de intelectuais como Antonio Hohlfeldt e Gilberto Schwartsmann, que se dedicaram a autenticar a autoria do poema escrito em papel amarelecido e conservá-lo junto ao acervo mantido pela Casa de Cultura Mario Quintana.

Coisas assim, que acontecem com a obra de Mario Quintana, é muito possível que não se repitam tão facilmente com poetas que lhe são posteriores. Não será por falta de qualidade ou de nomes, mas por uma escassez de reconhecimento diretamente proporcional à profusão de autores e autoras. Isso tanto é real e factível quanto o constrangimento regional do alcance de uma literatura que, todavia, extrapola em muito – e há muito – quaisquer limites, especialmente após a expansão digital das redes sociais, espaço privilegiado de divulgação literária na contemporaneidade. Não seja por isso. Por seus meios e trabalho intenso, poetas contemporâneos têm ampliado sua repercussão e chegado às bordas da publicação intercontinental quase sem que se note. É o que acontece agora com a poeta Mar Becker, que, após vencer o Prêmio Minuano na categoria poesia em 2021 e tornar-se finalista do Jabuti no mesmo ano, prepara-se para lançar em Portugal, pela Assírio & Alvim, um volume que reúne os poemas de Sal, livro lançado por aqui pela mesma editora em 2022, e variações de A Mulher Submersa (2020). Publicado pela Urutau, de São Paulo, foi com A Mulher Submersa que a poeta logrou sua ampla divulgação e os prêmios conquistados em 2021.

Pertencente a um ínfimo percentual de poetas brasileiros que obtiveram a publicação ultramarina, Mar Becker deve lançar âncora em mares portugueses logo no princípio de 2023. Pelo que se sabe por meio de dois dos apresentadores de Sal, os tradutores e também poetas Lawrence Flores Pereira e José Francisco Botelho, sua poesia distingue-se por uma vibração que classificam nada menos que como sublime e inusitada. Por certo o reconhecimento de dois tradutores de Shakespeare não é de menor importância, no entanto o grande reconhecimento de Mar Becker se notabiliza muito mais pela intensidade com que a poeta se apresenta e discute com os seus leitores e leitoras a natureza da sua escrita, seu processo criativo e fontes das quais extrai sua matéria poética ao mesmo tempo tão larga, vasta a ponto de comunicar mundos distantes, quanto aproximar os leitores ao seu universo mais íntimo.

Gaúcha de Passo Fundo, Mar Becker adotou o seu nome de autora a partir da corruptela pela qual é mais conhecida. Se o nome “mar” remete imediatamente à vastidão oceânica, a poeta não se restringe a explorar efeitos secundários de uma auto poetização. Muito pelo contrário. Em Sal e na Canção Derruída, ela empreende uma busca de confirmação de sua origens ao mesmo tempo em que permite ainda mais que se veja da poeta a pessoa. Há quem ache isso impossível ou reprovável, tendo em vista que a persona poética acaba sempre prevalecendo, mas estamos lidando aqui com uma poeta que fala sobretudo com honestidade e que lida com as memórias familiares com o mesmo zelo que se dedica à poesia mais lírica e amorosa. Não é tarefa fácil delimitar a poesia de Mar Becker, mais simples e proveitoso deixar-se levar pelo canto translúcido de ondina que ela entoa com uma naturalidade que espanta a quem quer que lhe dedique a atenção.

Pois em breve serão os portugueses que terão a oportunidade de conhecê-la. Além da publicação em Lisboa, seus poemas vêm sendo vertidos para outros idiomas por poetas e tradutores que não apenas se deixam levar pelo entusiasmo, mas demonstram com seu labor a intensidade dos seus versos e prosa poética. Nada mais justo poderia acontecer, pois Mar Becker é uma poeta em tempo integral, isto quer dizer que é dedicada ao feito poético com tal entrega que, esta sim, se distingue e reconhece de imediato, bem como a sua voz lírica tramada em guinadas potentes e condução impecável.

No futuro, quando for necessário reconhecer uma postagem de Mar Becker no Instagram e creditar-lhe a autoria de um poema, talvez falte o instrumento paleográfico de que se valem os averiguadores de hoje, mas sua poesia saltará aos olhos pelo que tem de mais inconfundível e legítima. Ainda que seja possível falseá-la numa forma semelhante, é bastante improvável que se obtenha o seu efeito, qual o seja de inevitavelmente naufragar, como se numa busca pelo incontornável, como os mares que os navegadores portugueses enfrentaram no passado. A saber, será passível de erro aquele que jogar-se à poesia de Mar Becker. Logo se saberá de quem se trata, pois o reconhecimento é instantâneo e, imaginam assim tantos quanto eu, dos mais duradouros que já partiram daqui.

Wildcat

Ontem assisti a Wildcat, o documentário que eu havia comentado no outro dia, a respeito da sua trilha sonora. Assisti com um nó na garganta porque filmes, livros ou músicas sobre adolescentes “problemáticos” não me causam outra reação.

Mas eu esperava que no filme o “problemático” fosse apenas Harry, o ex soldado britânico que retorna do Afeganistão com sequelas mentais graves, entre as quais a síndrome de stress pós-traumático e uma depressão profunda, com tentativas de suicídio. Porém a pesquisadora que ele encontra na profunda Amazônia peruana, Samantha, não é menos traumatizada. Ela, no caso, pelo convívio com um pai alcoolista e violento que a fez desde criança preferir o convívio com os animais aos adultos humanoides.

Pode parecer uma estranheza – ou não – encontrar dois adolescentes abdicando da vida social no que é o momento de seu apogeu para viver em um território inóspito e com vida selvagem real, cercados de feras e criaturas humanas mais ameaçadoras que as próprias feras, e que partilham do mesmo território apenas para conquistá-lo e depredá-lo.

Na prática, o filme aborda um processo de reabilitação dos mais complicados. Ao mesmo tempo, Harry trabalha na readaptação à vida selvagem de uma jaguatirica e na sua própria reabilitação emocional. Como num documentário não cabem escapismos à fantasia, o que se pode ver é que o processo está longe de ser uma jornada de superação. Muito mais se vê da tensão absurda que a depressão deita às costas e reserva à mente de um jovem com vinte anos de idade.

Depois de assisti-lo, não me espanta saber a reação emocional que sua exibição tem causado mundo afora. Ao unir dois universos sensíveis, adolescência e relação homem x natureza, sabe-se como a jaguatirica se reintegra ao mundo da floresta, mas permanece a dúvida quanto a adaptação do ser humano. Àqueles que pensam que viver entre feras é experiência terrível, o filme é instrutivo do quão desestruturante pode ser a vida entre os homens.

Poesia de María Zambrano

María Zambrano Alarcón (1904 – 1991 ) foi uma intelectual, filósofa e ensaísta espanhola. Foi aluna de Ortega y Gasset e também de Xavier Zubiri e de Manuel García Morente. Sua María Zambrano Alarcón (1904 – 1991) foi uma intelectual, filósofa e ensaísta espanhola. Foi aluna de Ortega y Gasset e também de Xavier Zubiri e de Manuel García Morente. Sua extensa obra apenas foi reconhecida na Espanha no último período do século XX, após um longo exílio. Já idosa, recebeu os dois maiores prêmios literários concedidos na Espanha: o Prêmio Príncipe das Astúrias, em1981, e o Prêmio Cervantes, em 1988. No Brasil, tem uma única obra publicada, o livro Filosofia e Poesia, pela editora  Moinhos, em 2021. As traduções a seguir basearam-se na edição preparada por Javier Sánchez Menéndez para a Ediciones de la Isla de Siltolá, de Sevilha, em 2018.

QUE TUDO se pacifique como uma lamparina.
Como quando o mar sorri,
como o teu rosto, se de repente esqueces…
Esqueces porque também já esqueci tudo. Não sei de nada.
Nada a teu respeito.
Nada sob tua sombra, semente amarela da árvore do esquecimento.
E tudo será como antes.
Quando nem tu e nem eu havíamos nascido.
Mas… Nascemos?… Talvez não, no entanto não.
Nada, ainda nada. Nunca nada.
Somos o agora sem pensamentos.
Lábios sem suspiros, mar sem horizonte,
como uma lamparina que sobrevive ao oblívio.

§

QUE TODO se apacigüe como una luz de aceite.
Como la mar si sonríe,
como tu rostro si de pronto olvidas.
Olvida porque yo he olvidado ya todo. Nada sé.
Cerca de ti nada sé.
Nada sé bajo tu sombra, amarilla simiente del árbol del olvido.
Y todo volverá a ser como antes.
Antes, cuando ni tú ni yo habíamos nacido.
Pero, ¿nacimos acaso?… O tal vez, no, todavía no.
Nada, todavía nada. Nunca nada.
Somos presente sin pensamientos.
Labios sin suspiros, mar sin horizontes, como una luz de aceite se ha extendido el olvido.

§

NEM BRISA nem sombra.
Por que, morte, te escondes assim?
Sai, salta, solta-te desse abismo!
Foge! Quem te segura?
Por que não apagas o universo com o teu olhar?
Por que não desfazes as pedras
com a tua sombra, com a tua morte, só com tua sombra,
com a mão vazia,
com teu rosto de estátua,
presença nua a quem nada resiste?
Ensina, mostra teu rosto aos mundos,
e que já não há mais espaço sem céu,
sem vento, sem palavras.
Eu só quero afundar no silêncio.

§

NI BRISA ni sombra.
¿Por qué, muerte, así te escondes?
Sal, salte, sácate de tu abismo, escápate tú, ¿quién te retiene?
¿Por qué no borras con tu mirada el universo?
¿Por qué no deshaces las piedras con tu sombra, muerte, sólo con tu sombra, con tu mano desnuda,
con tu rostro de estatua, desnuda presencia a quien nada resiste?
Enseña, muestra tu cara a los mundos, que ya no haya espacio,
ni cielos, ni viento, ni palabras.
Quiero hundirme en el silencio.

§

AO MEU ANJO

… Não há mistério,
apenas trabalho, tristeza,
e essa erva amarga.
Mas me conduzes
sem que eu te peça nada.
Sim, eu quero ser as tuas asas
despencadas, derramando
chuva de lágrimas por mim.
Porque tu me lamentas,
lamentas pelo meu ser,
porque sentes o meu amor contigo.
Sou tua feiura, a estranha
impotência a ti confiada.
Como eu te peso,
eu, a invisível,
sou tua pedra,
o óleo que unge tuas asas,
sou teu arrasto
e, nos instantes infinitos,
teu desespero.

Ó Anjo!
Serei eu teu inferno?
Eterno retorno
da tua leveza que aprisionei.
De uma forma obscura,
eu me ponho a teus pés
para ser queimada, esfumada,
vítima necessária da tua liberdade.
Não me deixes existir,
é o que te peço.
Avalia bem,
sou tu, mas irredutível.
Até quando vai
a tua condenação?

§

A MI ÁNGEL

… Y no hay misterio
sólo trabajos, pesadumbre,
y esa amarga yerba.
Pero tú me conduces
y nada te pido.
Sí, quiero ser tus alas
caídas, ahora, llanto,
lluvia de lágrimas por mí.
Porque tú me lloras,
lloras mi no ser
porque me sientes amantísima a tu lado.
Soy tu fealdad, tu impotencia
extranjera a ti confiada.
Cómo te peso,
yo, la invisible,
soy tu piedra,
el aceite que unta tus alas,
tu rémora
y, en instantes infinitos,
tu desesperación.

¡Oh, Ángel!
¿Seré tu infierno?
Eterno retorno
de tu ligereza por mí aprisionada.
Como una oscura cosa
me ofrezco a tus pies
para ser quemada, ahumada,
víctima necesaria de tu libertad.
No me dejes existir, pues que te
peso.
Tú me mides,
soy tu irreductible,
¿hasta cuándo?,
tu condena.

§

FALA UMA PEDRA

Porque me olharam, porque fui levada, possuída, deixei de viver.
Enfeitiçada, sou apenas um apoio, mas nada me sustenta.
Sempre aqui,
súdita do espaço.
Onde está agora o olhar que me fascinara?
Precisavas de mim para ser tua sombra?
Possuidora, és tão frágil que só com mágica te estabeleces.
Tu, aquela que nasceu assustada, a inválida,
tu me amaste para então cair sobre mim.
O amor que indicas, me diz, é isso?
Eu era luz, reflexo, mas e tu? Diz,
não podias
revelar-te a mim?
Mas não; eu sou o teu ser, eu, teu suporte.
Eu, enterro do meu ânimo e prova do teu não-ser.
Agora, estás longe.
E andas, mendiga, em busca de comida.
Feitiços de alma, gestos do Senhor.
Novos amigos, ainda invisíveis, virão me procurar.
Não, eles cairão, cairão para que tu te ergas, levantes.
Tu virás me procurar, já sem me conhecer, sem saber.
Mas eu sei. Eu não sei de nada.
Eu sou a memória
acusadora, que nada trai, resistente, adversária.
Eu, o peso da tua história.
Eu, também a tua calma.
O lugar maleável
e hostil que não se opõe a ti.
Tu poderás?
E também sou tua calúnia, a mentira já lançada, e não me temas.
Tu me nomeias: matéria.
Nada mais.
Mas tu voltas, alienada, cúmplice, derrotada.
Como és ignorante… a sábia.

§

HABLA UNA PIEDRA

Porque he sido mirada, porque fui tomada, poseída, cesé de vivir.
Hechizada, sólo soy un soporte, mas nada me sostiene.
Aquí, siempre
súbdita del espacio.
¿Adonde estás, ¡ah!, mirada que me fascinaste?
¿Me necesitabas para ser tu sombra?
Poseedora, tan frágil que necesitas hechizar para erigirte.
Tú, la que naciste asustada, la inválida,
me amaste para caerte en mí.
El amor que nombras, dime, ¿es eso?
Era yo luz, reflejo, ¿y tú? Di,
¿no podías
revelarme tu ser?
Pero no; yo soy tu ser, Yo, tu soporte.
Yo, sepultura de mi aliento y prueba de tu no-ser.
Estás ahora lejos.
Andas, pordiosera, en busca de alimentos.
Hechizas alma, gestos del Señor.
Nuevos compañeros, ya invisibles, vendrán a buscarme.
No, caerán, solamente esos caerán para que tú te erijas, te levantes.
Tú vendrás a buscarme, tú, ya sin conocerme, sin saber.
Pero yo sé. Yo sé nada.
Yo soy memoria
acusadora, delatora nada, resistente memoria, adversaria.
Yo, peso de tu historia.
Yo, también tu calma.
Yo, el lugar manejable
y el hostil no que se te opone.
¿Podrás?
Soy también tu calumnia, tu mentira ya arrojada, y no me temas.
Me nombras: materia.
Nada más.
Pero vuelves, enajenada, cómplice, vencida.
Ignorante tú, la sabia.

§

ESTOU MUITO exausta para escrever, muito ocupada. Só podia mesmo fazer poesia, porque poesia é tudo e nela não é preciso que me desmembre. Pensar divide a pessoa; de outro modo, o poeta é sempre uno. Daí a angústia indescritível, e daí a força e a legitimidade da poesia.

ESTOY DEMASIADO rendida para escribir, demasiado poseída. Sólo podría hacer poesía, pues la poesía es todo y en ella uno no tiene que escindirse. El pensar escinde a la persona; mientras el poeta es siempre uno. De ahí la angustia indecible, y de ahí la fuerza y la legitimidad de la poesía.