Mês: junho 2017

Bauman póstumoBauman póstumo

Pode-se dizer que Retrotopia é o epílogo da bibliografia de Zygmunt Bauman. Ao que tudo indica, o último livro do sociólogo falecido em janeiro último será publicado no Brasil até o final deste ano. Segundo a Zahar, detentora dos direitos de publicação de Bauman no Brasil, há outros livros ainda anteriores na lista, como O retorno do pêndulo, que está saindo agora e reúne quatro ensaios derivados de sua correspondência com o psicanalista argentino Gustavo Dessal e que confluem para uma aproximação do seu conceito de modernidade líquida com as teorias psicanalíticas, especialmente a de matriz freudiana.

O encontro do leitor brasileiro com Retrotopia, portanto, fica brevemente adiado, a não ser que ele corra para as edições e livrarias estrangeiras. Mas por que ele faria isso se, ao menos aparentemente, os livros de Bauman parecem reaplicar suas teses sobre “a liquidez” indefinidamente? É simples. Retrotopia não é um livro que repete a ideia de modernidade líquida, tema que popularizou definitivamente Bauman por aqui, mas que aborda desta vez os impasses do futuro, mas um futuro que, nas suas palavras, foi “quitado pela História” e que sucumbiu ao imediato do tempo contínuo, isso a despeito das tentativas desastrosas de recuperar ou malversar o passado e suas condições já extintas.

Mais ou menos ao mesmo tempo da publicação de Retrotopia, Bauman integrou ainda o livro O grande retrocesso: um debate internacional sobre as grandes questões do nosso tempo, também ainda inédito no Brasil. Não se trata de um livro inteiramente seu, mas um conjunto de ensaios em que diversos autores, entre os quais Nancy Fraser, Arjun Appadurai, Donatella della Porta, Bruno Latour e Slavoj Zizek propõem-se a debater questões candentes da contemporaneidade, tais como os descaminhos das democracias liberais e a crescente onda de populismo, xenofobia e autoritarismo. Em seu ensaio, Bauman preconiza cautela para com possíveis tempos árduos para a democracia e repletos de incerteza, já que situados no interregno entre dois tempos: o de concretização da crise econômica global e o de um estado de ignorância generalizada acerca das condições de sua manutenção ou resolução, ainda por vir. Não são inquietações de todo distintas das que se poderão conhecer melhor em Retrotopia.

Lançado simultaneamente em diversos países e escrito no pré-Brexit e no pré-Trump, Retrotopia foi publicado exatos 500 anos após a primeira aparição de Utopia, de Thomas More. É de certo modo emblemático que a publicação registre um lapso tão grande de tempo e no qual as impressões daquele Hitlodeu, ao que parece, jamais se realizaram objetivamente no mundo ou em qualquer parte dele; a saber, um tempo pacífico, solidário e ecumênico.

Apesar do título, em Retrotopia não é promovido nenhum tipo de celebração do pessimismo ou de melancolia e tampouco Bauman pretende com ele reafirmar ou fazer o lançamento de uma nova utopia, assim como cogitar uma tentativa desesperada de retorno ao passado. Efetivamente, não. Para Bauman, é preciso aceitar que vivemos à deriva da História e, por isso mesmo, seria preciso ajustar noções rígidas a respeito do progresso, dos limites políticos entre os povos e, também, das esperanças para com o futuro.

Por isso, e provavelmente por ter sido escrito nos seus noventa anos de vida, é um livro preocupado com um futuro e, evidentemente, de um futuro o qual ele sabia de antemão que não testemunharia. Pois é bem este o tipo de pensamento e de preocupação que fez com que o sociólogo tenha se tornado dos pensadores mais acessíveis e comunicativos em tempos recentes, goste-se mais ou menos de suas ideias. Ou seja, suas preocupações encontram-se sem muita dificuldade com as preocupações do homem comum e daí é muito natural que se realize uma inevitável aproximação entre ele e o leitor comum, não necessariamente aquele acadêmico.

Retrotopia é também, definitivamente, um livro sobre a utopia e a história das ideias utópicas, apenas que projetado às avessas; quer dizer, é um livro que foi pensado após a relativa falência e extinção de alguns dos projetos utópicos que nortearam o mundo no transcorrer do século XX, como o socialismo e o liberalismo igualitário. Para chegar a tanto, Bauman está aqui bem mais ousado do que é comumente encontrado em seus trabalhos mais populares, aqueles em torno da ideia de “liquidez”, e percorre os séculos, desde Hobbes e More, sem nunca empregar um objetivo formal ou finalidade cabal à ideia de utopia.

Comparando-se à noção rawlsiana de utopia realista ou enfrentando-a desde a desconstrução de sua potência como em Derrida, o projeto de Bauman é, em teoria, bem mais simples e consiste em superar o bloqueio ao futuro e desmantelar a perspectiva de uma utopia perfeita, passando-se a uma dinâmica política de ajustes dentro do real e dentro do possível. Na prática, não é algo tão simples assim e, por isso mesmo, mantém-se ainda assim como utopia. Porém este não é um desejo que ele tem para consigo mesmo ou por alguma espécie de nostalgia, mas totalmente inclinado para o porvir.

Bauman, que viveu desde o período posterior à Segunda Guerra Mundial e sobreviveu à devastação que o nazismo realizou na Polônia, é dos raros cientistas sociais que conseguiram notabilizar-se para além do meio acadêmico. No Brasil, por exemplo, esteve muitas vezes e é muito fácil dele obter entrevistas nas quais se manifesta a respeito de temas contemporâneos, como a nova onda de migrações na Europa ou o impacto da hiperconectividade via redes sociais, entre outros. Isto tudo aliado aos seus muitos lançamentos bibliográficos por aqui, contribuiu para torná-lo bastante conhecido e popular.

Embora seu trabalho não possa ser considerado exatamente inovador em virtude de que dá prosseguimento a muitas análises marxistas clássicas, a questão de Bauman talvez seja mais seu foco e uma facilidade comunicativa e clareza argumentativa que, de outra sorte, costumam faltar a autores em tese mais complexos (às vezes a autores mais simples também). Este, porém, seja talvez seu maior mérito, pois conseguiu explorar esta sua capacidade em prol da discussão de ideias emergentes e de torná-las acessíveis às pessoas de um modo geral, não se restringindo ao público especializado. Para o bem ou para o mal, se não há grande ou inovadora contribuição sua ao pensamento ocidental, é certo que popularizar e atualizar preocupações como as que propôs ao longo dos últimos anos de sua vida é algo que está muito longe de causar danos ou enfaro, dada a sorte das preocupações e a disponibilidade dos pensadores pop de que dispomos no Brasil contemporâneo.

Na revista GerminaNa revista Germina

Muito feliz por aparecer triplamente no v .13, n. 1, maio/2017, da Germina – Revista de Literatura & Arte:

Na fila com Roberto DaMattaNa fila com Roberto DaMatta

Para o antropólogo Roberto DaMatta, o brasileiro é um povo avesso à igualdade e a qualquer vestígio de horizontalidade social. Segundo ele, estas seriam noções e práticas sociais por aqui fadadas à burla, à negligência e a serem ignoradas. Ideias como estas, na verdade, ele vem desenvolvendo desde o célebre ensaio “Sabe com quem está falando? – Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil”, presente no livro Carnaval, malandros e heróis, de 1978. Agora, em Fila e democracia, seu mais recente livro publicado pela Rocco, ele de certo modo reposiciona estas ideias e procura confirmar seu vigor quarenta anos após a primeira exposição, examinando o lugar da fila (isso mesmo, a fila) enquanto prática coercitiva e instrumento de ocupação igualitária do espaço público.

Escrito a quatro mãos e tendo como substrato uma pesquisa de campo desenvolvida para a pós-graduação de Alberto Junqueira, o livro retoma a investigação do individualismo e da igualdade como valor no Brasil contemporâneo, temas já explorados por ele em sua bibliografia. O livro, entretanto, não fica apenas nisso e indiretamente aborda também os contornos culturais da democracia brasileira, sempre tão permeável aos fenômenos de distinção social, e também as características da cultura política nacional. Entre as hipóteses dos autores, a aversão à alternância no poder e a formação de reservas de atuação e de mercado seriam alguns exemplos de como a mentalidade do “preferencial” se reproduz e ganha escala nas estruturas sociais e do Estado, encontrando nos partidos políticos os instrumentos ideais de ocupação do poder, tal como um coronelismo redivivo.

DaMatta, já apontado como o continuador do legado de Gilberto Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda, sendo o mais citado escritor brasileiro na produção acadêmica de ciências humanas e já laureado dezenas de vezes pelo alcance e profundidade de seus trabalhos, é alguém que está sempre pensando o Brasil desde as suas exterioridades mais explícitas, tanto as comuns e corriqueiras quanto as mais entranhadas em tabus e no nosso modo de ser. Não é por outra razão, inclusive, que ele não deixa de examinar as mazelas políticas brasileiras, ainda que por isso muitas vezes desagrade aos setores e intelectuais que estiveram nos últimos anos, por exemplo, ao lado dos governos do PT, os quais ele não tem poupado em suas críticas.

Crítico desde a primeira hora das formas de congraçamento dos partidos brasileiros e do nominalismo político, ele chegou a considerar em entrevista concedida ao jornal Panorama Mercantil que a experiência do PT no poder comprovaria a tese de que as utopias podem ser enganativas e de que muito acaba ficando pelo caminho na promoção e venda de esperanças. Mais tarde, ao vislumbrar na ida do candidato do PSDB, Aécio Neves, ao segundo turno na eleição de 2014 a possibilidade de, conforme disse, “defenestrar o PT do poder, mas não da política”, foi alçado a posição de inimigo político do partido.

Em que pese julgar-se a correção ou incorreção de suas avaliações e a considerar a posição que ocupa nas ciências sociais, suas opiniões costumam causar tumulto. Porém, é muito relevante para a saúde de qualquer democracia que seus intelectuais sujeitem-se efetivamente ao debate público, mesmo que no calor eleitoral. Em se tratando de DaMatta, desqualificá-lo não é tarefa das mais simples, embora não falte quem queira refutar suas colocações e encontre alguma reverberação – dado que o debate político é aberto, nunca esteve tão aberto, chegando a ser obsceno muitas vezes. Talvez por possuir uma visão abrangente e histórica dos problemas brasileiros, crítica tanto do comportamento social quanto do institucional, suas opiniões contundentes, bem como seus livros, costumam repercutir bastante. Além disso, o fato de ser um partidário de políticas inclusivas e de ações afirmativas o descola da identificação de uma critica à direita ou conservadora, dificultando sobremaneira qualquer apressado enquadramento ideológico.

Como não há tantos cientistas sociais no Brasil com o seu histórico, ou empenhados em investigar a forma como noções de seletividade e distinção social permeiam as relações humanas e políticas, quase sempre é preciso referir-se ao trabalho de DaMatta para se falar apropriadamente do Brasil. A verdade é que poucos pensadores vêm registrando, como ele, o trânsito dos valores da casa para a rua e da rua para as instâncias políticas. Neste trabalho, ao observar a relutância do indivíduo a sujeitar-se à norma social – e isso configurando uma espécie de nota distintiva do modo de ser brasileiro –, é difícil não associar o comportamento civil às razões pelas quais têm prosperado por aqui sentimentos avessos ao menor republicanismo, como a impunidade e outras violações normativas, e manifestações derivadas do seminal “jeitinho”. Se uma mera fila de pessoas é capaz de ensejar o desejo de excepcionalizar a regra, é bem compreensível que o comportamento venha a se estender, diante de uma cultura que o valida e autoriza, a outras searas, inclusive a política.

Seja de esquerda ou direita, terminará frustrado o leitor de Fila e democracia que procurar encontrar nele a sedimentação de um estereótipo comportamental ou a definição taxativa do caráter do brasileiro. Pelo contrário, DaMatta e Junqueira atravessam muitos olhares, à luz de leituras clássicas e contemporâneas nas ciências sociais, sobre o estado de coisas que resultam no indivíduo e seus valores compartilhados. Abordando temas candentes como a oposição entre identidade x diferença, igualdade x desigualdade, e sem deixar de olhar para os significantes da antropologia cultural, este seu novo trabalho permite que se entreveja um pouco mais do estado de espírito da cultura brasileira em sua complexidade, mesmo ao abordar comportamentos aparentemente banais, como deveria ser um simples “aguardar a vez”. De fato, para o olhar antropológico nada deve ser inteiramente banal, se pensado com cuidado e visto mais de perto, e o Brasil, como é sabido, ainda está longe de ser um lugar dos mais simples no mundo.