Escrevo para não enlouquecer. Com essa frase, Nydia Bonetti se apresenta em muitos sites e revistas onde tem poemas publicados. Não é uma frase à toa, pelo contrário. Além de qualquer coisa, mostra que a poeta crê, de fato, na possibilidade de ser remediada por intermédio do ato criativo poético. Fica mais fácil entender que é alguém que leva a sério a sua criação e isso não quer dizer que se autovaloriza por isso, mas que empenha a sua saúde emocional nos versos que cria. Realmente, se nota a emoção rapidamente na sua poesia, ainda mais com um livro autobiográfico como 𝗖𝗮𝘀𝗮 𝟭𝟭, 𝘁𝗲𝗹𝗲𝗳𝗼𝗻𝗲 𝟬𝟵 (Urutau, 2021).
Eu sempre tive um pouco de dificuldade com poesia mais biográfica, que conta a vida. Acho que menos pela poesia do que pela vida. Tenho um tanto de receio do que a poesia pode realizar existencialmente. Mais receio pelo traço biográfico e do indevassável da experiência de cada um. Por outro lado, adoro livros de memórias e romances de formação, especialmente se tratam da infância, esse momento tão deslocado da vida adulta e também tão breve. Receio de conhecer demais da pessoa pela sua poesia e de me sentir por isso mesmo algo invasivo.
Com o livro de Nydia, no entanto, eu passei longe dessa dificuldade. Mesmo quando seus poemas breves funcionam como pinturas ou retratos, esse é um passeio conduzido pela sua mão. Sente-se a poeta contando o que é paisagem trivial, o que são personagens e o que são memórias. A poeta no caso não intercede no seu passado, mas flagra-o em seu potencial de efemeridade. E vê além de si, vê dos outros, da casa de infância e dos lugares sensitivos que ela vai colocando como se em haleto de prata para então comunicar uma nova realidade só agora revelada, pela combinação da ação do tempo e da palavra.
Quem escreve a casa da infância e a infância corre o risco de pensar num interlocutor que também a conheça. Mas a casa não fica como um ente, ela é absorvida pelos seus residentes, ela é “a casa onde moro”, lacrada pelo afeto e destelhada pelo “vendaval do tempo”. Quem escreve a casa da infância aceita desabrigar-se do lado de fora, do inevitável distanciamento. Ali, as árvores estão ou não estão por artes do esquecimento. Os objetos estão descorporificados, já não têm substância, só essência.
É um livro para o qual bastaria determinar um elogio para ser descrito, o de Nydia. Os pequenos poemas todos são uma história só. História da sua vida que ela tinha mesmo de escrever, porque para quem cuida da memória afetiva (sua e a dos outros), um livro é um espaço de dignidade, de auto respeito.
Olho para o meu aqui, com o seu autógrafo, e vejo que é um livro que me fez mudar até minha forma de ler; ou que me permitiu ler sem grandes artifícios, pela sua simplicidade encantadora. Um pouco eu sabia que ele seria assim porque já o havia divulgado na Sepé, por gentileza da Nydia, e também porque já gostava muito da sua poesia. Mas não sabia a magnitude desse presente que me dei ao comprá-lo. Agora eu sei.
Não escolhi ainda qual a capa prefiro para este livro do poeta polonês e prêmio Nobel de Literatura em 1980, Czesław Miłosz. Gosto dessa atual, que a Aiyne usou na edição recém lançada, traduzida diretamente do polonês. Gosto também da edição de 2010 da Novo Século. Também a da edição portuguesa da Cavalo de Ferro. E também da edição norte-americana. Da inglesa e até a do audiolivro. Não importa qual seja, todas têm alto poder sugestivo. São cabeças prensadas a força contra livros, outras torcidas por uma força invisível ou a mais sinistra delas, a da primeira edição: uma figura mascarada apenas sugerindo uns olhos borrados.
Não sendo um livro surrealista, mas um ensaio político, são imagens até certo ponto violentas. São mesmo, mas nem perto da violência psíquica narrada por Miłosz, um poeta metafísico, um filósofo em versos, um poeta da condição humana.
O texto é um ensaio político que vai narrando o que vê acontecer com amigos e intelectuais dissidentes de países como Polônia, Hungria, Checoeslováquia e da Romênia de Ceaușescu sem se importar do que pensarão a seu respeito. Contra ele levantaram-se intelectuais de esquerda como Jean Paul Sartre e outros para quem se tratava apenas de um traidor, já que servira ao comunismo polonês antes. A seu favor, Karl Jaspers e a amiga Wislawa Szymborska.
Embora ele denuncie os campos de Stalin e a violência física e impositiva do regime nos anos 50 e antes, Miłosz está ainda mais interessado em entender a força de atração psíquica dos regimes totalitários. A predisposição em aceitar o horror de Estado como um regime possível. De certo modo, seu ensaio de 1953 cai como uma luva para aqueles que, com boa dose de má-fé, recentemente passaram a desacreditar no aparato totalitário stalinista. Um “delírio” ou, mais simploriamente, ideia encomendada detrás dos balcões da CIA.
Aqui eu tinha uma pequena edição produzida pela UNB dos poemas dele, de uns anos já. Miłosz é daqueles casos estranhos de Nobel quase inédito no Brasil e de nobelizados taxados por anticomunistas, quando a toda hora se diz por aí que a láurea nunca vai para pessoas assim. Seja como for, pelo que eu li é um imenso poeta e não faz nenhum sentido isso. Ou até faça, mas noutra perspectiva. Essas coisas. Vá saber.
No mundo das ideias publicadas, não há o que não seja questionado. É sair da gráfica e mesmo os autores mais geniais já estão recebendo contestações. Certo que recebem loas, mas o seu oposto também: não tardam a fúria depreciativa e até mesmo ridicularizações. À medida que o tempo passa, no entanto, poucos continuam no alvo das especulações, e isso costuma acontecer tanto maior o impacto das ideias expostas. É como um atestado de vitalidade, e nem poderia ser diferente no caso de ideias que, conforme a conhecida menção de Sigmund Freud nas suas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, “feriram” o ego narcísico da humanidade. Além de si próprio, catalogado imodestamente como um dos autores destes ferimentos, Freud incluiu também Nicolau Copérnico e o naturalista inglês Charles Darwin. O primeiro, por remapear o lugar do planeta no universo; o segundo, por dessacralizar a origem da espécie humana e propor uma revolução antropológica sem precedentes que continua sendo debatida e influenciando o mundo.
Passados 150 anos da publicação de A descendência do homem, obra de Darwin menos difundida e discutida em vista do estrondo de A origem das espécies, a Princeton University Press publicou no último ano um conjunto de ensaios acerca das ideias antropológicas que Darwin desenvolveu após o entusiasmo gerado pela divulgação de A origem e observações controversas que ele reuniu nos dois tomos de A descendência, obra publicada em 1871.
Contando com a participação da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, o livro desacomoda muito a imagem de Darwin de um lugar aparentemente inamovível. Pelas mãos da historiadora da ciência e professora em Harvard Janet Browne e do antropólogo da Dartmouth College Jeremy DeSilva, Darwin é questionado com severidade no que diz respeito a ideias controversas quanto às diferenças de gênero, as suas ideias de “raça”, aptidões, inteligência e progresso cultural que ele publicou nesta sua obra menos conhecida.
É certo que os doze cientistas envolvidos em A most interesting problem não procuraram invalidar ou suspender as contribuições de Darwin a respeito da evolução humana com a publicação, tampouco do seu trabalho com a seleção natural. Para eles, os problemas encontrados em A descendência quase sempre aconteceram devido a crenças e equívocos vigentes no próprio estado de arte científico da época na qual ele viveu e o livro foi redigido. Questionar, todavia, não é o mesmo que cancelar, e seria ao menos complicada a ideia de repetir com alguém do contributo de Darwin o comportamento cultural que hoje governa o trânsito de ideias no mundo. Nesse aspecto, o livro de Browne e Jeremy é exemplar da forma como é possível criticar as ideias de alguém sem que se incorra num respectivo linchamento público. Ainda inédito no Brasil, a abordagem serena e nada truculenta apresentada no livro poderia parecer aqui um espécime exótico de crítica cultural e científica, mas também por isso seria bem vindo. Além disso, o livro traz questionamentos inusuais em linguagem acessível e esclarece diversas dúvidas a respeito de parte importante e pouco discutida do legado de Darwin.
Outros livros
Em torno do bicentenário de nascimento de Darwin, em 2009, diversos trabalhos biográficos foram traduzidos e publicados no Brasil. A mesma Janet Browne foi publicada pela UNESP com a biografia científica Charles Darwin: o poder do lugar, e a dupla Adrian Desmond e James Moore apareceu duas vezes, a primeira com Darwin: a vida de um evolucionista atormentado (Geração Editorial) e a outra com A causa sagrada de Darwin: raça, escravidão e a busca pelas origens da humanidade (Record). Este último, especialmente, tem quase o caráter de um panegírico ao naturalista, enfatizando o seu caráter humanista e inclinações abolicionistas. Embasado na mesma pesquisa que resultou no seu trabalho biográfico anterior, o livro também pode ser lido como um empreendimento de restauração de A descendência como um inverificável libelo antiescravagista.
De acordo com Janet Browne, por outro lado, esta é uma possibilidade interpretativa um tanto forçada. Para ela, Darwin traz todas as contradições de uma época de transição paradigmática que, se consolidou com sua obra o conhecimento da natureza e da biologia, ofereceu uma margem para que sua teoria fosse replicada no campo social e psicológico. O organizador do livro, o antropólogo Jeremy DeSilva, lamenta que o seu trabalho inestimável também tenha derivado mais tarde para uma ciência duvidosa, representada principalmente nas técnicas eugenistas e, tardiamente, nas ideologias supremacistas que inspiraram práticas perversas do nazismo.
Mesmo assim, em nenhum momento eles caracterizam o pensamento de Darwin como inspirador direto dessas ideias ou da deturpação do darwinismo social. Muito mais ela aponta para Darwin como um cientista premido pela comunidade científica da época a responder o que ele mesmo não havia desenvolvido a pleno.
Para os pesquisadores, é muito compreensível que o mesmo Darwin, que disse ao sair do Brasil esperar “nunca mais visitar um país de escravos”, propusesse uma escala evolutiva entre a selvageria e a genialidade considerando atributos meramente biológicos, chegando inclusive a conclusões difíceis, como a reversão evolutiva entre os seres humanos.
Darwin e o darwinismo
Observador sagaz e conhecedor tanto das características da vida minúscula quanto dos processos que levaram grandes mamíferos à extinção, é praxe pensar-se que, por mal conhecida, sua teoria da seleção natural resultou involuntariamente ao longo do tempo em enormes simplificações e deturpações. Deste modo, que se atribua a ele o desenvolvimento de ideias como “a sobrevivência do mais forte” é confusão comum, pois se trata, na verdade, de uma proposição de autoria de Herbert Spencer. Embora houvesse uma influência mútua entre ambos e outros integrantes da comunidade científica inglesa, Darwin costumava ser muito cauteloso ao reproduzir no mudo humano suas impressões a respeito da reprodução das cracas e dos pombos.
Em A descendência, contudo, ele efetivamente ultrapassou um tanto a linha divisória da prudência ao expor mais abertamente sua compreensão das questões de gênero, raça e sociedade, evidenciando que o seu viés cultural não era algo revolucionário, mas muito atinente ao mundo contido da Inglaterra vitoriana, que na mesma época se expandia colonialmente mundo afora. Certo que ele não pensava, no entanto, em colocar suas ideias a serviço de um propósito que não fosse edificante. Veja-se a seguir, por exemplo, um trecho de suas opiniões em relação ao aspecto moral do convívio social:
“A ajuda que somos impelidos a dar aos necessitados é principalmente um resultado incidental dos instintos de simpatia, que foi originado como parte dos instintos sociais, mas que foi subsequentemente aprimorado, como visto antes, a ser mais amigável e mais amplo. Jamais poderíamos abandonar a simpatia, mesmo aos maiores apelos da razão, sem deteriorar a parte mais nobre da nossa natureza. Um cirurgião pode hesitar enquanto perfaz uma operação, porque ele sabe que está agindo para o bem do seu paciente; mas se intencionalmente negligenciamos os fracos e necessitados, seria apenas por um beneficio contingente, junto com um enorme mal em troca.” (Darwin, Charles. The descent of man, and selection in relation to sex. Londres, 1871.)
Por não ter se ocupado incialmente das mazelas humanas com o mesmo “método” com que investigava o mundo natural, replicando para estes sua mecânica sutil, parecia-lhe muito claro que, sob o primado da razão, seria tolice esperar que seres humanos obedecessem a tendências inevitáveis como ocorre na maioria das leis biológicas. Isso feriria a noção de livre-arbítrio que lhe era muito cara. Cerca de uma década após a divulgação de A Origem, movido por essa tentativa, quando buscou enquadrar os seres humanos e sua complexa evolução em seus parâmetros evolutivos, acabou ele mesmo incorrendo neste erro e resultando num livro quase lhe custou a credibilidade anteriormente conquistada.
Embora A descendência tenha especulações pertinentes, revisto o seu resultado final, hoje não parece melhor que uma protoantropologia. Atenua que o livro possa ter resultado de uma pressão social e cultural que havia se criado em torno do naturalista a respeito de suas opiniões acerca do homem moral de então e de como se chegara até ele. Já o mesmo não se pode dizer de A expressão das emoções no homem e nos animais, de 1872, fruto mais de seu incansável trabalho de observador do que de especulações sociais e psicológicas.
É dessa época e em razão do expresso em A descendência e suas observações a respeito do homem e dos antropoides que começaram a aparecer nos jornais da época charges que procuravam ridicularizá-lo, como a exibida aqui, publicada na revista Hornet, em 1871. Verdade que a ridicularização devia-se mais às retaliações promovidas pelos criacionistas de então à popularização de sua obra do que a uma antipatia específica a ele mesmo, que vivia por essa época afastado da vida urbana de Londres.
Ocorre que Darwin favoreceu imensamente a que surgisse e prosperasse em todo o mundo uma série de ideias que contrastavam as ideias religiosas predominantes, por um lado, e uma pressa em forjar-se uma nova teoria social, por outro.
Darwin, um vitoriano
Logo após a divulgação estrondosa de A origem, muitos cientistas e pensadores passaram a procurar Darwin para cotejar suas ideias, inclusive Karl Marx, que viveu em Londres naqueles dias e teria lhe enviado exemplares de seus livros e quase o teria visitado. Darwin, porém, parece não ter lhe dado muita atenção, pois o trabalho com os espécimes e preocupações com a sua saúde e a dos filhos o absorvia quase completamente. Com dezenas de outros cientistas relacionava-se num fervor missivista impressionante, inclusive com seu primo irmão Francis Galton, o “pai” da eugenia (técnica muitas vezes também erroneamente atribuída a ele). Quando foi editada pela Cambridge University Press, sua correspondência foi reunida em nada menos que 30 volumes.
Só bem mais tarde é que acabou popularizando-se o caráter menos científico e mais ideológico de sua obra, especialmente após a sua morte. Foi quando o darwinismo, isto é, a adaptação de suas ideias para explicar quaisquer fenômenos sociais, tornou-se uma febre no mundo inteiro, chegando com força até meados do séc. XX. Esta era bem uma tendência de uma ciência que se fundamentava em poderosos pilares, e o conhecimento registrado por ele, dada sua amplitude, serviu perfeitamente a este objetivo.
Em sua teoria evolutiva, Darwin se dedica muito mais a investigar as vantagens adaptativas do que a afirmar a prevalência do mais apto, sendo que a ideia de preponderância do “mais forte” é uma reformulação spenceriana de 1864, no livro Principles of Biology. Grosso modo, significa mais ou menos dizer que as espécies, no caminho evolutivo, perdem ou descartam características que as impedem de prosperar e sobreviver na natureza adversa em prol de outras que a capacitam melhor para tal “luta”. As vantagens adaptativas significariam aqueles potenciais biológicos que capacitam as espécies para a sobrevivência. No caso dos seres humanos, por certo a consciência e a razão dela decorrente são suas maiores vantagens adaptativas, embora seja preciso sempre considerar um mau uso eventual de tais capacidades.
Na disputa estabelecida entre cientistas e biógrafos do mundo inteiro, como se pode ver, a imagem de Darwin às vezes também pode ser encontrada em movimento. Através das janelas do seu estúdio em Down House, no condado de Kent, subúrbio de Londres, um hipocondríaco Darwin atormentado pela influência da consanguinidade na saúde da prole e que pouco era visto nas ruas de Londres chegou ao extremo de divulgar a sua principal obra por terceiros, no mesmo dia que enterrava o último de seus dez filhos, que pode ter nascido com o que hoje se conhece como a síndrome de Down.
Se vivesse hoje, seria Darwin um arrojado cientista entusiasta das modernas técnicas de rastreamento e edição genética? Ou ainda seria o mesmo homem aristocrático e antiquado que, em sua viagem ao Brasil, horrorizou-se com o tratamento dispensado aos escravos no Brasil Império? Ou o gênio científico que, naquele livro cheio de especulações arriscadas, A Descendência do homem e a seleção sexual, chegou a pensar que a grande vantagem adaptativa do homem pudesse ser, afinal, a nobreza da razão e a aplicação imediata do instinto de simpatia?
Embora nunca as pessoas pareçam ter sido tão pragmáticas e intolerantes como atualmente, é sempre possível encontrar em suas ideias a faceta mais nitidamente humanista. Com um pouco de boa vontade (e boa bibliografia), é possível ver que mesmo Darwin pode ser questionado sem que a sua biografia precise ser maculada por transformações culturais que não dirigiu e parecia abominar. Ao ser lançado aqui, o livro de Janet Browne e Jeremy DeSilva merecerá ser lido como fonte de esclarecimento ao invés de um manual de cancelamento embora, a esse momento da história, garantir algo assim seja completamente imprevisível. Coisas da evolução.
Quando eu tinha acho que uns oito ou nove anos, mais provável que nove, fiz amizade com um menino muito pobre, de uma família que consistia nele apenas e sua mãe.
Moravam os dois numa casinha porta e janela de uma transversal da nossa rua, num prolongamento de chão batido que margeava o arroio morto e alagadiço do Povo Novo, em Bagé. Um lugar sempre úmido e que, nos meses de inverno, parecia de um frio ártico, mas, na realidade, era ainda um pouco mais frio que isso, porque lá a geada chegava antes.
Lá eu estive pela primeira vez a seu convite porque seria o “dia da laranja mágica” e como eu havia lhe emprestado a minha bicicleta para ele dar duas voltas no quarteirão sem pedir de volta, ele disse que seria sempre meu amigo e que, pela minha amizade, dividiria a única laranja mágica daquele ano comigo.
Era um anúncio estranho porque, afinal, para mim, laranja era tudo igual. Não entendia como poderia haver uma que fosse mágica do modo que eu entendia as coisas mágicas, isto é, soltando raios e etc.
Na sua casa, atravessamos um corredorzinho tão estreito que quase precisamos passar caminhando de lado e chegamos a um portão que parecia dar para um pátio, mas um pátio sem fim, sem muros, sem margens, como fosse a campanha. A menos de dois passos, uma laranjeira quase nua, com os galhos tomados de parasitas, limo e líquen e uma barba de ancião. Árvore anã que alcançaríamos mal estendendo o braço e na qual uma laranja só, uma única laranja de tamanho normal, aparência levemente ruim, cascarrenta mesmo, parecia dormir na árvore miserável. Eu entendi que era ela a laranja mágica, mas respeitosamente silenciei quando ele ergueu o braço, arrancou o fruto e o depositou em minhas mãos.
Eu estava tocando o seu umbigo quando ele me chamou com um “Vem!” para dentro de casa. Disse mais com o gesto de cabeça do que com o convite e fui seguindo seus passos até dar numa pequena cozinha na qual cabia apenas uma mesa de fórmica e duas cadeiras, um armário de chão, o fogão a lenha e uma geladeira que devia regular de idade com a árvore.
“Onde tá tua mãe?”, perguntei-lhe intrigado com a casa totalmente aberta, sem chaves, com apenas a porta encostada. “Limpando”, explicou e entendi que estava fazendo isso a trabalho, mas não perguntei mais nada. Sentados um de frente para o outro, com a laranja posando como um troféu dentro de um prato Duralex, ele disse para que eu me preparasse e, mais rápido que eu entendesse, ele como que enrolou e desenrolou a laranja das mãos voltando completamente descascada, branca como uma lua nova, sem uma rugosidade, sem um naquinho de casca.
“Prova!”, ordenou, e colocou-a de volta no prato.
“Anda, come toda!”, impacientou-se. “Come duma vez!”, repetiu como se estivesse bravo e eu obedeci. Como um favo de mel, o fruto drenou para dentro da minha boca e eu percebi que tinha uma sede imensa, ancestral, que a laranja me saciava e era como eu sentisse a sede morrendo e o bem estar da fruta me inundava e, então, engoli toda aquela laranja enquanto ele ria, ria a não poder mais, como se eu lhe providenciasse um espetáculo insólito, uma bestificação.
De volta ao pátio, a noite fria de inverno, escura, anunciava-se tenebrosa ali, pois a rua não tinha iluminação pública. Pela vidraça, notamos que sua mãe regressara e já acendera a luz da cozinha. Sem mais frutos, a laranjeira parecia estéril e nua como o contorno da lua nova no céu marinho.
Minha hora de voltar estava chegando e eu não sabia o que dizer ao meu novo amigo, mas precisava voltar para casa. Olhei a bicicleta encostada junto à porta e passei por ela sem remorso, não a levei comigo. Minha casa não era tão longe que eu não chegasse a pé e logo haveria um Natal que o pai me desse outra, se tudo andasse bem no colégio. Que me custava andar? Diria ao pai que a perdera numa aposta, uma questão de honra incontornável. Eu já ia pra dez anos dali a um pouco, uma boa idade pra sentar o juízo.