Mês: setembro 2022

Os velhinhos do Centro de Porto AlegreOs velhinhos do Centro de Porto Alegre

Entre a José Montaury e a Rua da Praia, num remoto ponto quase ao centro da Galeria Chaves, há um café no qual uma eterna reunião dos velhinhos do centro está sempre acontecendo.

Ninguém sabe quando o primeiro chegou até ali, mas fato é que o centro de Porto Alegre é gris como a cabeleira dos velhinhos que ainda não a perderam. Às vezes, de passar sem pressa naquele túnel, sento-me perto deles para ouvir-lhes algo. Algo de que os roube para uma crônica e não lhes falte, que não se rouba nada aos velhos. Isso não se faz.

O interessante deles, em sua conversa, é que os fatos políticos fazem confusões como a escalação dos clubes. E ninguém liga. Parece muito natural. Num alvoroço comedido, eles dizem que o Manga não podia ter tomado aquele gol tão fácil assim. Que o Brizola está na Austrália sem o que fazer, podia voltar e agitar a cabeça de quem às vezes nem parece tê-la. E outras sandices que parecem começar numa década, passar por outra e acabar em nenhuma, com seus olhos meio parados lamentando o futuro que não conhecerão.

Hoje cedo passava ali e notei um livro numa livraria nova e parei para olhar melhor. Nas mesas do café, um velhinho só, como um farol à espera de uma fisionomia conhecida. Sempre resta um, eu já disse. Menos quando as portas fecham no fim da tarde e eles somem como uma espécie de fantasmas vivos. Na calada da fatalidade da noite.

É o último dia da livraria, ela diz. Amanhã não estará mais ali. O ponto, diz a vendedora, se tornou caro demais para tão poucos leitores. O lugar é estranho e a vendedora diz que é a última livraria do centro. É a última que tenta vender ainda livros novos, de acordo com ela. Mas me parece que há outras, digo-lhe. Ela não sabe. As outras são sebos nas quais os velhinhos vivem a resvalar os olhos desinteressados em livros que não lerão mais do que o nome na capa e o título, pois eles já leram demais.

Apesar dos passos lentos, os velhinhos do centro desenham itinerários precisos nas ruelas. Mal um foi visto entrando ou saindo da Martins ou da Aurora, outro está atravessando a Praça da Alfândega. Sem sentarem-se, lógico, pois há os assaltos previsíveis e os achaques infalíveis.

Os passos lentos procuram caminhos mais curtos e às vezes somem nos táxis sem mais explicações. Para voltar amanhã, se o futuro assim permitir.

Ainda estrangeiro aqui, depois de tanto tempo, o único destino que me permito sonhar em Porto Alegre é me tornar um velhinho destes. Se é que já não me tornei..

Sim, se discute (3ª ed. revista e atualizada)Sim, se discute (3ª ed. revista e atualizada)

Das coisas mais infames que existem na vida de uma pessoa é você fazer propaganda do que você mesmo não faz. Deus me livre uma coisa dessas! Não é por isso, mas eu tenho dito (ou tentado dizer) aos meus amigos/as escritore/as que publicar apenas não é suficiente para que um livro permaneça. Eu não estou falando em permanecer na história, que é algo para poucos e dependente de um sistema complexo, mas permanecer acessível, encontrável e legível. Quem nunca pagou o olho da cara num livro da Estante Virtual que atire a primeira pedra.

Uma das maneiras de garantir isso seria levar os livros às bibliotecas e torcer para que algum passante lembrasse do seu nome ou a biblioteca contasse com um sistema de divulgação eficiente a ponto de chegar às pessoas. Poucas têm, infelizmente. Talvez em outros lugares do mundo, mais bem equipados. Aqui, vivemos a dura realidade de 800 bibliotecas fechadas nos últimos 5 anos. Nas livrarias, só lançamentos..

Outra maneira de conservação seria colocar o livro à venda numa livraria digital e contar com algum sistema de divulgação, principalmente se você espera que o volume seja adquirido com a finalidade da leitura. Há que considerar uma curva natural no interesse por qualquer publicação e, sendo realista, poucas são ascendentes.

Como quem já fez de tudo isso um pouco, a maneira que eu decidi para este volume específico foi usar o Google Livros. Nele hospedei uma versão livre do livro, uma na qual se pode ler o texto na íntegra e ainda contar com a randomização na busca geral. Dá um trabalho fazer tudo isso, mas, para quem não está buscando lucro financeiro, fica à disposição na search engine. Para quem lançou seus livros há tempos e não pretende republicá-los, eu acho que há poucas providências melhores.

Muitas editoras usam o sistema do Google para publicar amostras dos livros e vendê-los. Instituições públicas para distribuir conteúdo livre também (uma minoria). Eu decidi usar para que o conteúdo não se evapore quando os sites saírem do ar, os jornais nem sei onde forem parar e assim por diante.

Já quanto a antecipar “a que interesses serve” um livro como o meu, acho que não sou a pessoa mais apta a dizer. Desconfio que sirva aos meus interesses mesmo, embora se trate de um livro de 400 páginas em que não falo um momento sequer em mim mesmo, mas em dezenas ou centenas de outras pessoas. Escritores, poetas, músicos, artistas em geral e até políticos (incidentalmente). Pessoas muitas que estão vivas e produtivas, outras que já partiram.

Essa é a terceira edição que faço desse livro, tudo por minha conta mesmo, e reúno artigos, ensaios e resenhas que fui publicando ao longo dos anos na mídia impressa e digital por aí afora. Não tenho planos de voltar a imprimir cópias dele, mas não é impossível. De qualquer modo, isso teria um custo que agora não pretendo investir.. Não sei mesmo é se haveria necessidade. Teria de imprimir e vender em torno de 50 exemplares de um livro de crítica já publicadas para fechar a conta. Acho muito porque o interesse das pessoas nesse tipo de conteúdo é bem do momento.. E o momento é algo breve mesmo. Porém, para referência, é outra história e nessa perspectiva o Google serve bem, na falta de um depósito legal digital eficiente que pudesse ter a mesma eficácia.

Pelo sim, pelo não, o livro existe e pode ser lido a um toque apenas.

Para acessá-lo, siga o link https://bit.ly/3UpUkji

A estética da recepção na era da economia da atençãoA estética da recepção na era da economia da atenção

Eu nem sei como começar a escrever/dizer isso, mas esse livro da capa abaixo, publicação da Arquipélago, editora aqui de Porto Alegre, é raso, superficial, simples, direto e objetivo demais para o seu objetivo. Ele é perfeito mesmo.

Não vai se encontrar nele nem um vestígio de profundidade ética, filosófica ou mesmo um detalhamento tecnológico, todavia seu autor é um sujeito que não está vendendo clichês, como pode parecer numa leitura expressa, ele está realmente escrevendo expressamente a respeito da forma como administramos nossa atenção e somos administrados a ponto de nos confundirmos completamente com o verdadeiro propósito da tecnologia comercial, nos tornarmos randômicos e nossas coisas pessoais transformadas em anúncios, em comércio emocional.

À primeira vista, parece um livro oportunista que deseja despejar platitudes a respeito da “vida” digital. Desconfiamos, aliás, de tudo o que nos desafie a essa forma de vida que, se traz vantagens, traz também adoecimentos, depressão, ansiedade, etc, etc, etc.

No livro, importa menos o que ele tem a dizer sobre algoritmos, vigilância e liberdade do que a transformação voluntária de nós mesmos em recurso, num processo de despersonalização às avessas, no qual o eu é inflado e o social cada vez mais encapsulado. É um assunto que, a bem da verdade, todo mudo conhece. Está aqui, ali, por toda a parte. Dormimos e acordamos nele, às veze no meio da noite se a compulsão assim determinar a nossa gestualidade, afinal, são dois cliques e o mundo parece abrir-se onde quer que estejamos. Ainda mais quando a realidade imediata é opressiva, entediante, como no trabalho, na burocracia e assim em tudo.

A meu ver, ele gasta muito falando da economia afetiva das redes. Trolls, haters, etc. Quando esmiuça algumas características do seu ex-empregador, o Google, é mais interessante. Seu autor não é um doutrinador e tem a escrita leve de um técnico, de um engenheiro, não um pensador ou literato.

Do ponto de vista que me interessa mais, o literário e seus meandros, todavia ele passa longe. Em algum momento, apesar de que numa busca encontrei muito pouco, estudos sobre a estética da recepção na era da economia da atenção serão indispensáveis para se entender as coisas. Talvez isso até já esteja elaborado e escrito num tweet ou num meme – certamente está – e por isso mesmo a aparência de superficialidade nos incomode sobremaneira, na nossa pretensão ao complexo. É incrível que essa simplicidade nos faz ver como o óbvio é perfeito para a tarefa de ocultação das coisas. Tudo é tão simples que não pode ser tão simples, mas, de fato, é. Prova é que aqui estamos falando exatamente nisso.

Os ‘Contos da SEPÉ’Os ‘Contos da SEPÉ’

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